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Entre Lispector

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Fundação Casa de Ruy Barbosa

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Entre Lispector Aos 30 anos da morte de Clarice Lispector, ZAZ visita a exposição e revela passagens dos mais recentes livros com obras da autora por Rafaela Tasca

Desde cedo ela desenvolveu o gosto pela leitura. Começou a escrever e fez da escrita sua forma de estar no mundo. Formou-se em Direito, mas nunca exerceu qualquer atividade dessa natureza. Viajou muito. Teve marido diplomata. Filhos. Separou-se. Era reservada. A terceira filha de Pinkouss e Mania Lispector, batizada de Haia Lispector, nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Aos

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Em entrevista, o professor Arnaldo Franco Junior. Autor de tese sobre o kitsch na obra de Clarice Lispector, Arnaldo é mestre e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo. Entre 1987 e 2003 foi professor na Universidade Estadual de Maringá. Atualmente é professor na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP, campus de São José do Rio Preto, e desenvolve pesquisa sobre narrativa brasileira contemporânea.

dois meses de idade chegou com a família emigrante ao Brasil e aqui Haia tornou-se Clarice Lispector, protagonista de uma das mais belas produções de nossa literatura. Com habilidade de seduzir através do intenso

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poder das palavras, Clarice Lispector captou o espírito da língua. Escrevia com o corpo. Fazia malabarismos com os sentidos. Era uma pergunta. Publicou mais de 20 livros, os quais foram traduzidos em diversos idiomas. Passou por diversos gêneros: crônica, conto, romance e infantil. Foi jornalista e assinou colunas em periódicos para aumentar o orçamento familiar. Inventou formas. Embora avessa a isso de se explicitar em entrevistas, Clarice constantemente se revelava através do tom confessional

Sabe-se que Clarice é uma autora que ricamente explora o universo feminino e que foi, e ainda é, muito reverenciada por correntes do movimento feminista. Em sua análise, qual feminino ela expressa? Clarice Lispector foi valorizada pela crítica feminista, que soube ler, no trabalho da escritora, uma preocupação constante e crítica com o lugar e os papéis que a sociedade e a cultura, marcadas pela tradição patriarcal, reservam à mulher. Entretanto, não se pode rotular o trabalho de Lispector de “feminista”. Se há algo que caracteriza a literatura da escritora é uma certa aversão a caber em rótulos de gênero, tema ou ideologia. Creio que, como já disse Nádia Battella Gotlib, Clarice Lispector flagra mulheres em situação de mal-estar, meio integradas e meio desconfortáveis com a integração às estruturas da família, do casamento, dos afetos. Dessa posição, nasce um olhar crítico que questiona os lugares, as funções e as expectativas que sociedade e cultura oferecem para a realização feminina.

Lispector figura como um dos mais estudados academicamente. Em sua opinião, a que se deve esse pulsante interesse da academia pela obra da escritora? O interesse pela obra de Lispector acentuou-se a partir dos anos 80 do séc. XX. O trabalho da escritora se impôs pela sua qualidade e, também, pelo fato de dialogar com diversos aspectos e problemas da cultura e da sociedade contemporâneas. Além da reflexão sobre o lugar e os papéis da mulher, o trabalho de Lispector aborda temas de interesse tais como: as relações entre o Ser e a Linguagem; a representação e o poder; as relações entre sexo e gênero; a distinção homem X animal; as tensões entre livre-arbítrio e felicidade; os conflitos entre o desejo, o amor, o sexo e a morte.

Entre os autores da literatura brasileira, Clarice

Em que Clarice inova com seu processo de criação? Uma das maiores contribuições de Clarice Lispector está no fato de fazer com que o modo como as coisas são ditas seja reconhecido como tão importante como as coisas que são ditas. Um escritor, portanto, não se reduz às suas escolhas temáticas. Não se constrói uma grande narrativa apenas com a história narrada. O modo de narrar, mais do que a história narrada, afeta profundamente o sentido da obra. Quando problematizado, ele se torna objeto de uma reflexão que desestabiliza o leitor acomodado, obrigando-o a se reconhecer como participante de estruturas e de valores passíveis de questionamento e crítica. É assim que o trabalho de Lispector desestabiliza o leitor.

e autobiográfico que colocava em suas obras. Essa maneira de se abrir ao mundo fez com que seus leitores se aproximassem não só dos personagens e histórias de seus livros, mas também do seu próprio modo de viver e pensar.

Hoje, mesmo após três décadas de sua morte, sua presença cintila no cenário cultural brasileiro e revela uma magnitude que perpassa gerações e a própria literatura. São duas recentes publicações com sua


Divulgação – Museu da Língua Portuguesa

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produção jornalística, uma exposição, o lançamento de um site oficial e alguns relançamentos. Sem contar os roteiros que vislumbram virar filme, as adaptações para teatro, teses em andamento e outros tantos mais tributos. Assim, o mito vive!

Reprodução do livro Correio Feminino

Exposição na Luz Sábado de manhã. Estação da Luz, São Paulo. Ao entrar no elevador do Museu da Língua Portuguesa, o ascensorista diz que Clarice está no primeiro andar. Na abertura da porta, o clima muda. O ambiente é de penumbra. Ali há introspecção. Há Lispector. No início da instalação, vê-se o rosto da escritora estampado em grandes telas de voil. Alguns trechos de suas obras aparecem sutilmente por trás dos contornos de sua beleza enigmática. A sensação proporcionada pelos tons entre o preto e branco em composição com a luz é a da holografia. O olhar agudo de Lispector revela: “Ver é pura loucura do corpo”. Inaugurada em 23 de

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abril, a exposição Clarice Lispector – A Hora da Estrela marca os 30 anos da morte da escritora e também da publicação do livro A Hora da Estrela, sua última obra revisada e publicada em vida. Com curadoria de Júlia Peregrino e Ferreira Gullar, a exposição é um mergulho na geografia interior da escritora e tem por objetivo oferecer ao espectador uma introdução ao universo de sua vasta obra. “Quem conhece, irá desfrutar; quem não conhece, esperamos, será instigado a conhecer, ser um novo leitor de Clarice”, explica Júlia. A construção da atmosfera envolvente e introspecta da exposição é obra da cenografia primorosa de Daniela Thomas e Felipe Tassara, com ambientes inusitados, inscrições talhadas em paredes brancas, nichos de “achados e perdidos”, um cubo espelhado com a trajetória da escritora, além de 2 mil gavetas (65 acessíveis) com originais, correspondências, documentos pessoais,

primeiras edições e traduções de seus livros. Os recursos audiovisuais aparecem na projeção de um inseto que remete a cenas do livro A Paixão Segundo G.H – considerado pela crítica uma das obras mais enigmáticas de nossa literatura – e na utilização de televisores com um vídeo que apresenta algumas leituras de A Hora da Estrela, realizadas por freqüentadores do Parque da Luz, região situada ao lado do Museu. Leituras que revelam passagens da história de Maca. A Macabéa. A moça. A nordestina. A personagem que “nascera com maus antecedentes” e que “parecia uma filha de um não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço”. Para o superintendenteexecutivo do Museu da Língua Portuguesa, Antônio Carlos Sartini, “o espaço expositivo levará o visitante a uma viagem pela obra de Clarice Lispector, em um ambiente lúdico, que deverá ser explorado e descoberto”. Assim, entre cenários, interatividade e introspecção, toda a exposição se torna uma justa homenagem a uma mulher que fez da escrita uma forma de dizer o indizível, com a maestria de desafiar, inovar e amar a língua portuguesa. Conversa com perguntas Entre maio de 1968 e outubro de 1969, Clarice Lispector realizou diversas entrevistas para as revistas Manchete e Fatos e Fotos. O contexto político mundial era de efervescência: estudantes nas ruas de Paris, a imposição de atos institucionais ao conjunto da população brasileira e a conquista espacial. Muito embora a escritora mostrasse certo receio em transitar pelo jornalismo,


suas investidas na arte da conversa e do encontro são excepcionais, como demonstra o livro Clarice Lispector – Entrevistas, lançado em maio de 2007. O livro, com 42 entrevistas, entre as quais 19 são inéditas, faz parte de um projeto que visa resgatar a produção jornalística da escritora. Permeado pelas constantes reflexões e inquietudes da própria entrevistadora, a peculiaridade da coletânea é a de ser o diálogo de Clarice com as mais variadas personalidades advindas de áreas como esporte, teatro, literatura, música e artes plásticas. Nessas entrevistas, há a possibilidade de ver a prosa com um Ferreira Gullar recém chegado de seu exílio. Um Chico Buarque a compor versinhos para uma Clarice que sai da sala de entrevistas, mas que fica de rabo de olho antenada na criação do compositor. Um Pablo Neruda de poucas palavras e muita poesia. Ou um Antônio Cândido a dizer que há “outros Antônios pedindo passagem”. Nesse sentido, mais que uma mera compilação jornalística ou histórica, Entrevistas é obra que faz apreciar a prosa gostosa que o inesperado no diálogo pode criar. Além de alimentar aquela sensação de saber mais sobre as opiniões e jeitos de figuras ilustres como Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Paulo Autran, Tônia Carreiro e outros mais. O livro púrpura Com uma capa que já de cara instiga pelo tom de mistério, Correio Feminino (Editora Rocco, 2006) traz imagens, segredos, receitas e temperos literários de Clarice que gracejavam nas colunas femininas de alguns periódicos brasileiros das décadas de 50 e 60.

Divulgação – Museu da Língua Portuguesa

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Esse tipo de colunismo clariciano começou com um convite de Rubem Braga para a elaboração de uma sessão dedicada às mulheres no tablóide Comício. Proteger-se sob o pseudônimo de Tereza Quadros foi a condição imposta por Clarice para aceitar ser a colunista de “Entre Mulheres”. Comício não chegou a seis meses de circulação e a colunista encerrou a carreira, mas a escritora seguiu e, no início dos anos 60, reapareceu nas páginas femininas do jornal Correio da Manhã, sob o pseudônimo de Helen Palmer, com a coluna intitulada Correio feminino - Feira de utilidades. Nesse mesmo período, Alberto Dines – o então articulador do tablóide carioca Diário da Noite – convidou Lispector para ser a ghost writer de Ilka Soares e fazer as vezes de uma conversa diária com as leitoras da vedete através da coluna Só para mulheres. Assim, mesmo com variações no trato com as

palavras, estes assuntos femininos com suas modas e modos de estar no ambiente doméstico, não raro, proseavam filosofias em textos como Chega de Cinto!, com reflexões sobre a finalidade da moda: “Darlhe a possibilidade de ser chic, mesmo quando não é elegante. E de reforçar a elegância, se já nasceu com ela”. Além, é claro, de provocar algumas alfinetadas: “É preciso ter olhos para se vestir com elegância. Olhos intuitivos, de bom senso e não órgãos visuais somente”. Se no colunismo de Ilka Soares, Tereza Quadros e Helen Palmer não existisse Clarice, possivelmente o tempo da memória já teria deteriorado e lançado ao esquecimento aquelas páginas de jornal. Mas era Clarice, a ficcionista, a escritora, a mulher. Era Lispector, a todo o momento com sua prosa intimista, em sintonia com uma proposta de trabalho que buscava construir o perfil de uma interlocutora bem humorada e experiente, com um quê de

Visite Clarice Exposição Clarice Lispector – A Hora da Estrela Museu da Língua Portuguesa 24 de abril a 2 de setembro de 2007 De terça a domingo, das 10h às 17h Ingresso: R$ 4. Gratuito aos sábados Contato: (011) 3326-0775 Livros: Clarice Lispector – Entrevistas Organização: Claire Williams Editora Rocco 2007 Correio Feminino Organização: Aparecida Maria Nunes Editora Rocco 2006 Site oficial: www.claricelispector.com.br

conversa mole informativa. No entanto, muito além de um guia pragmático de beleza e etiqueta, Correio Feminino conduz a uma espécie de poética do feminino, na qual as poções do belo emergem dos acordes nas entrelinhas.

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