Berger, John. Modo di vedere. Torino, ed Bolati
Bolinghieri, 2015
Goethe, Johann Wolfgang. O jogo das nuvens
seleção.Tradução, prefácio e notas João Barrento.
Porto, Assírio & Alvim | Porto Editora, 2012.
Ribeiro, Sidarta. O oráculo da noite: A história
e a ciência do sonho. São Paulo, Companhia das Letras, 2019.
Desenho/capa Pedro Ferlauto Sabatino
Fotos dos autores


Cumulus, acúlumulos e precipitações




Cumulus, acúlumulos e precipitações

Cara Suiá
Escrever algumas poucas linhas todos os dias foi o que nos propusemos três semanas atrás. Ontem constatei que escrevinhei apenas em cinco dias, então tive uma inspiração, caída do nada, quando tive que dar uma parada para ir ao banheiro. Foi essa frase, meio desconfortável na narrativa do autor: — Lindas e formosas nuvens pairavam acima de nós. Nuvens do vale que nos permitiam compreender toda a vastidão da velha paisagem*. Eis o assunto: nuvens. Um tema banal que todos usam quando, sem inspiração, falam do bom e do mau tempo e engatam um diálogo sem graça, formal, burocrático e às vezes também nebuloso.
Por aqui passaram-se dias de fantásticos espetáculos nebulosos da natureza. Shows contínuos, enquanto havia um pouco de luz no horizonte. Também nos encantam as nuvens na pintura pré e renascentista, de falsos céus no fundo de figuras religiosas — inclusive com anjinhos gorduchos — e de céus realistas em paisagens de retratos de poderosos como em Piero della Francesca, Artemisia Gentileschi, Rafel Sanzio e, em outras épocas, ah!, as nuvensinhas de David Hokney.
O outro assunto pode ser os sonhos, que como nuvens se dissipam no espaço e na memória pouco depois de despertarmos e ao entramos no metrô, já não temos a mais vaga lembrança do que foi sonhado. Pois, não é que cai da rede de nossos olhos uma matéria que informa que o Museu de Londres está recolhendo sonhos sonhados durante a pandemia: — «Estamos entusiasmados de tomar parte desse projeto», diz o curador digital da instituição. «Recolher os sonhos dos londrinos não só documenta uma experiência compartilhada coletivamente, mas ajuda a estender a definição de ‘objeto de museu’ incluindo pela primeira vez sonhos em nossa coleção permanente». Abre-se dessa forma uma possibilidade para essa escrevinhança. GAMBOA, SC, 23 DEZEMBRO 2020
* https://super. abril.com.br/ mundo-estranho/ por-que-as-nuvens-tem-formatos-diferentes/
Querido Claudio
Ontem o dia em Lisboa esteve predominantemente nublado, com uma espécie de garoa, uma chuva muito fina e fria, a cair ao longo do período. Acho graça em pensar que a chuva é uma forma de precipitação.
Há dias não praticava escrita alguma, que não a de redigir projetos. Mas anotei as lembranças de um sonho, em que um burro deitava sobre o sofá da sala, como um grande cão. Ocorreu-me se não seria por conta das lembranças recentes das noites de Natal em Porto Alegre, especialmente da cena do presépio.
Quando se trata de nuvens, talvez meu artista favorito seja John Constable, cujas pinturas tive a oportunidade de ver em Londres. Seus estudos eram ainda mais suculentos. Alias poderia dizer o mesmo sobre os cadernos de William Turner, a meu ver bem mais interessantes que suas grandiosas e dramáticas telas – bem não me ouçam meus amigos pintores.
Minhas memórias de infância, e uma certa urgência feminista, trazem ainda a referencia das nuvens de Carmela Gross na coleção no MASP e sua série de desenhos intitulada Projeto para a construção de um céu.
Penso que, como fenômeno atmosférico, as nuvens tem o poder de exercer grande encantamento e assombro. São comumente associadas a processos de projeção e fabulação, também presentes nos sonhos. Já como matéria têm essa qualidade transitória e impalpável do vapor, mais leve que o ar, manifestação de um estado. Aaah para mim são também especies de naves, ou meios de transporte planetários que atravessam continentes e oceanos a carregar partículas daqui e dali.
Pesquisei sobre as diferentes classificações de nuvens*, dependendo da altitude e do formato:





– ALTOCUMULUS, tufo arredondado com traços suaves e regulares, situado entre 2 mil a 5.500 metros de altitude. Geralmente é uma pequena nuvem que se agrupa sem perder o formato original, graças à estabilidade das correntes de ar;
– CIRROCUMULUS, parecidas com um grão branco, juntam-se a outras formando o “céu de carneirinho”. Situadas entre 5 mil a 12 mil metros de altitude, são espaçadas em intervalos regulares e, às vezes, formam uma textura encrespada;
– LENTICULARIS, um tipo de altocumulus que se forma quando uma massa de ar sobe pela encosta de uma montanha. Chegando ao topo, ela se expande, resfria e fica pairando ao redor do pico;
– NIMBOSTRATUS, nuvem densa e cinzenta, com aspecto uniforme e base dispersa, responsável por carregar – e descarregar – chuva e neve.
A luz do Sol nunca atravessa essa nuvem.
– Há ainda, CUMULUS, STRATOCUMULUS, GLÓRIA DA MANHÃ, CIRRUS, CIRROSTRATUS, ALTOSTRATUS, STRATUS, CUMULONIMBUS…
Então pensei que falar de ‘nuvens’ poderia ser tal qual falar de ‘pessoas’, ‘azul’, ‘cadeiras’… tão genérico ou tão abstrato quanto…
Paulo tinha um pequeno livro sobre nuvens, que no entanto nunca li, mas que agora gostaria de ter em mãos… aliás acabei de compra-lhe um livro do neurocientista Sidarta Ribeiro O oráculo da noite: A história e a ciência do sonho. Gosto muito dessa associação nuvem-sonho.
LISBOA, 24 DEZEMBRO 2020
Projeto para ler nuvens
Rabiscamos na cabeca um projeto para ler nuvens, simples e prático, que não foi adiante. Na beira do mar, olhamos o céu e procuramos figuras nas manchas nebulosas lá no fundo do horizonte, essas cenas são, na mais das vezes, rápidas, mutantes, arbitrárias. Ali a cabeça de um cachorro, lá uma baleia, um rosto, acolá um pequeno mamífero que pode ser um esquilo ou um preá. Essas imagens logo se esvanecem, um jeito metido a besta de desaparecer. As nuvens não nos enxergam embora possam ter imagens com grandes olhos, mas temos a certeza de que quem tem olhos, definitivamente, somos nós. Os olhos procuram agulhas em palheiros celestes, pelos em ovos aéreos, sarna para se coçar em nimbos e cúmulos do céu ao entardecer, como a figura de um bichano preguiçoso, de olhos fechados, sobre um colchão de algodão doce.
Hoje é o sétimo dia que escrevemos – não é muito – e como toda sétima jornada deveria ser hora de descansar da reclusão forçada. Não escrevo, mas ficamos a pensar no que escrever, ou seja, escrevendo mentalmente, arranjando as ideias sem a materialidade sonora da fala e visual da palavra. Pensamos nas nuvens que
formam figuras e entendo que quem as cria é nossa capacidade de imaginar, de criar imagens, que inventamos quando desprestamos atenção ao banal.
Mas mesmo olhando com atenção, salvo talvez em Arcimboldo ou Salvador Dali, não encontramos em muitas obras, figuras escondidas nas nuvens, sugerindo sonhos inseridos subrepticiamente na mente através do olhar.
E para finalizar John Berger nos lembra que o céu está repleto de figuras femininas como Ursa Maior, Três Marias, Estrela Dalva, e de pequenos animais – raposas, cães, baleias, peixes, cobras, ursos, pássaros, cavalos, lagartos, etc.
Uéé, uéé nuvoleta em lágrimas (que também se esvanecem no tempo).
GAMBOA, SC, 26 DEZEMBRO 2020
…tenho os pés muito frios e meto-me
debaixo das cobertas.
Leio novamente sua carta, ou melhor, projeto para ler nuvens, e por alguns segundos me imagino em correspondência, sentada sob a escrivaninha em frente à janela do quarto a observá-las e classificá-las segundo meus próprios critérios e designações. Logo desisto, pois tenho os pés muito frios e meto-me debaixo das cobertas.
Já contei-lhe ao telefone que encontrei o tal livrinho, O jogo das nuvens de J.W. Goethe. Comprei-o antes do ano findar, numa livraria em Lisboa. É uma espécie de diário ilustrado de observação das nuvens, em que o autor se ocupa sobretudo da morfologia, a partir do desejo de, segundo ele, “dar forma ao informe, de encontrar um principio que possa reger a infinita mutação das formas”. Para isso
baseia-se na classificação adotada até os dias atuais, do meteorologista amador inglês, Luke Howard, datada do inicio do século XIX.
Encontro especial interesse nesse livro pelo fato de estar no limiar entre artístico e cientifico. Por ser singelo e despretensioso.
Depois fiquei a pensar sobre o que você disse, que poucos artistas visuais retrataram as nuvens conforme esse outro jogo, o da imaginação. Isso acende minha curiosidade, e penso que só mesmo os surrealistas o fizeram. Também Magritte.
Retorno àquela primeira proposição de que as nuvens são como sonhos, e afinal esses são manifestações do nosso inconsciente, matéria primordial do surrealismo.
Sinto que minha escrita é incapaz de conter tudo o que ansiava dizer ou mesmo compartilhar… Sinto meus pensamentos informes como as nuvens, dividindo-se entre o desejo de serem científicos e artísticos, entre empírico e teórico. Por vezes é minha vida que vejo se dissolver num céu infinito de possibilidades, que repetidamente me lança ao um vazio de propósitos.
Em Carcavelos agora a temperatura é de 8ºC, o céu está limpo, vento norte a 18km/h, pressão 1017hPa.
beijinhos
Suiá
13 janeiro 2021
Bem, teu último texto tem argumentos e imagens comprobatórias que destroem essas afirmativas anteriores – «…salvo talvez em Arcimboldo ou Salvador Dali, não encontramos em muitas obras, figuras escondidas nas nuvens, sugerindo sonhos …», mas vemos agora um trombone e até uma cadeira; se bem que



