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Testemunhas Silenciosas

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Carmo Baião

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O livro desvenda os abismos silenciosos da depressão, “só escutados pelas paredes da casa” e do isolamento a que as suas personagens foram condenadas. Cúmplices inertes, as paredes absorvem o choro e a depressão dos dias. Elas assistem à ruína dos que nelas habitam, oferecendo a sua mudez irrevogável como resposta ao sofrimento.

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Testemunhas Silenciosas

Mais do que um simples relato, “Testemunhas Silenciosas” é um espelho impiedoso da sociedade actual, onde a dependência tecnológica ofusca a humanidade.

Carmo Baião

Testemunhas Silenciosas Carmo Baião nasceu a 3 de Janeiro de 1960, é natural de Baleizão, Beja. Estudou jornalismo no CenJor Porto, exercendo actividade durante alguns anos. Mais tarde concluiu o Curso de Hotelaria e Turismo em Viana do Castelo. Durante vinte anos trabalhou no Hospital Professor Doutor Frenando Fonseca/Amadora-Sintra. Ao trabalhar nesta unidade hospitalar, com pessoas das mais variadas faixas etárias, fragilizadas física e psicologicamente, despertou nela o verdadeiro significado da condição humana. A autora é também uma acérrima defensoras da causa animal. Editou o seu primeiro livro de prosa poética em 2019.


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FICHA TÉCNICA título: Testemunhas Silenciosas autora: Carmo Baião edição: edições Vírgula ® (Chancela Sítio do Livro)

1.ª Edição Lisboa, julho, 2026

© Carmo Baião

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isbn: 978-989-9284-20-3 depósito legal: 567283/26

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grafismo de capa: Ângela Espinha paginação: Alda Teixeira

Todos os direitos de propriedade reservados, em conformidade com a legislação vigente. A reprodução, a digitalização ou a divulgação, por qualquer meio, não autorizadas, de partes do conteúdo desta obra ou do seu todo constituem delito penal e estão sujeitas às sanções previstas na Lei.

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Declinação de Responsabilidade: a titularidade plena dos Direitos Autorais desta obra pertence apenas ao(s) seu(s) autor(es), a quem incumbe exclusivamente toda a responsabilidade pelo seu conteúdo substantivo, textual ou gráfico, não podendo ser imputada, a qualquer título, ao Sítio do Livro, a sua autoria parcial ou total. Assim mesmo, quaisquer afirmações, declarações, conjeturas, relatos, eventuais inexatidões, conotações, interpretações, associações ou implicações constantes ou inerentes àquele conteúdo ou dele decorrentes são da exclusiva responsabilidade do(s) seu(s) autor(es).

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Esta é uma obra de ficção, pelo que, nomes, personagens, lugares ou situações constantes no seu conteúdo são ficcionados pelo seu/sua autor/a e qualquer eventual semelhança com, ou alusão a pessoas reais, vivas ou mortas, designações comerciais ou outras, bem como acontecimentos ou situações reais serão mera coincidência.

publicação e comercialização:

www.sitiodolivro.pt publicar@sitiodolivro.pt (+351) 211 932 500

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Introdução

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Desde os primórdios que o homem admira a perfeição de Deus, contudo sentindo-se incapaz de atingi-la, ele transforma essa admiração em cobiça, numa procura desmedida pela saúde, juventude e imortalidade, referidas nas lendas arturianas do século treze que popularizaram a saga dos cavaleiros da idade Média em busca do Santo Graal, um cálice usado por Jesus Cristo na Última Ceia para partilhar o vinho com os apóstolos, mas até aos dias de hoje não foi encontrado.

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Para a cultura ocidental, este cálice simboliza a busca pela perfeição espiritual e eternidade, refletindo o desejo de superar a condição humana mortal. Se por um lado o homem nutre uma cega admiração por Deus, por outro tem inveja dos seus poderes divinos. E ao mesmo tempo que vai desbravando caminhos na ciência e tecnologia, procura encontrar a sua espiritualidade.

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Para Aristóteles, a razão e a linguagem tornam o homem o ser mais belo do planeta, porém o mais complexo. A sua inconstância leva-o a longas caminhadas físicas e espirituais. Vivendo em permanentes contradições.

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É simultaneamente emocional e racional.

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No entender de Edgar Morin, “para compreender o que somos temos de abraçar a complexidade da nossa natureza e aceitar que estamos em constante processo do devir.”

Existe em nós a capacidade de realizar as coisas mais fascinantes, mas também as mais perversas dependendo de como utilizamos a natureza dos nossos pensamentos.

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Recorro a uma antiga parábola dos índios Cherokee. Segundo esta tribo, existem nos humanos dois tipos de lobos; o lobo mau que personifica a inveja, a ganância, o orgulho, o ego e o ressentimento, e o lobo bom; sinónimo de amor, esperança, verdade e compaixão. O homem tem a liberdade de escolher qual o lobo que quer alimentar. Quase sempre alimentamos o lobo bom, no entanto, por vezes deixamos que pensamentos intrusivos invadam a nossa consciência e então alimentamos o lobo mau, o que leva ao despertar da maldade, da inveja e da ganância, do querer mais. Sempre mais. Esta insatisfação, esta vontade nunca saciada de querer mais torna-se perigosa, uma vez que perdemos a noção dos limites e do respeito pela liberdade do próximo.

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O limite é uma linha imaginária, uma fronteira que tem como guardiões o respeito e o amor pelo nosso semelhante. Quando se ultrapassa essa linha surgem os ditadores. Os tiranos.

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Para Augusto Cury, “O homem nasce neutro e é a família, os amigos ou a escola que o educam ou aprisionam a sua mente”

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É um facto que ao nascermos somos seres completamente indefesos e desprovidos de qualquer maldade. Criamos laços afectivos com quem nos alimenta e cuida de nós. Não sabemos o que é o ódio, a vingança, o racismo. À medida que crescemos a sociedade encarrega-se de moldar-nos.

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Como diz Rosseau; “O homem nasce bom e puro a sociedade e a civilização é que o corrompem.”

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Esta nossa fome insaciável de posse, poder ter mais; poder ir mais além do que é permitido conhecer, levam-nos a afastarmo-nos daquele primeiro momento tão belo e genuinamente tão puro, que foi o nosso primeiro choro, e o deslumbramento do primeiro olhar sobre as cores e a luz que nos rodeia. Numa outra passagem Rousseau diz o seguinte: “A natureza fez o homem feliz e bom, mas a sociedade torna-o miserável.” Não deixa de ser irónico que as sociedades desenvolvidas pelo homem acabem por ser nefastas ao próprio homem.

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Cada vez mais sentimos que não somos donos das nossas vidas. Somos máquinas programadas e oleadas para cumprir determinadas tarefas e se não as fizermos somos facilmente substituídos. Estamos no início do século vinte um em que o desenvolvimento da robótica e da genética vai muito além do perceptível para o comum dos mortais. Sabemos que aos poucos somos substituídos por máquinas. Chamam a algumas delas robots humanóides. Fomos nós que concebemos estes substitutos, e ao concebê-los estamos a extinguir postos de trabalho aos humanos.

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Estamos perigosamente a “alimentar” máquinas ao invés de pessoas. Porém a sociedade quer que acreditemos que são os emigrantes que roubam os empregos. As campanhas de desinformação levam a que pessoas menos atentas acreditem que os males da sociedade vêm com os desgraçados que fogem das guerras, e da fome. Lembro que a maior parte de nós em alguma altura da nossa vida também já fomos migrantes.

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Não nascemos racistas nem xenófobos, as sociedades e os políticos criaram esse conceito e meteram-no na nossa cabeça, impossibilitando o uso do nosso livre-arbítrio. Afinal quando é que somos livres de pleno direito? A resposta pode estar no filme “Clube dos poetas mortos” “Só nos seus sonhos o homem é realmente livre.”

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De regresso às contradições do homem, leva-me a pensar que se por um lado é um animal social, por outro não consegue viver numa sociedade que impõe as regras que ele próprio definiu e que lhe limita a sua liberdade. Então ele vinga-se. De que forma? Alimentando o lobo mau.

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O homem enquanto ser insatisfeito procura superar as suas limitações e preencher o seu contínuo vazio existencial, esta condição impele o ser humano a ambicionar mais após cada conquista. Relembro o pêndulo de Arthur Schopenheur “O que não se tem causa-nos sofrimento e inquietação, quando o desejo é alcançado a satisfação é efémera.”

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Prosseguindo em permanente conflito com os outros e consigo próprio. “só estou bem, onde não estou, só quero ir aonde não vou, de António Variações”, este não saber aonde se pertence, a que tribo, a que tipo de sociedade, provoca-nos angústia tristeza e pode levar a um isolamento social.

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Numa passagem do filme “Crocodilo Dundee”, Mike Dundee, um australiano pergunta a Sue, sua parceira norte americana, para que serve um psiquiatra. Com um olhar de gozo ela explica-lhe que um psiquiatra é um médico a quem as pessoas recorrem quando têm problemas. Quando estão deprimidas. Mike, riu-se. Respondeu que na terra dele, quando alguém tem um problema conta ao Walter (seu amigo) que se encar9

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rega de espalhar o problema por toda a comunidade acabando de vez com ele. O que Mike quer dizer é que se as preocupações forem partilhadas elas tornam-se mais leves e mais suportáveis.

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Recordo-me que na minha aldeia, nos anos sessenta do século vinte acontecia exactamente o mesmo.

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Quando alguém tinha preocupações graves; falta de emprego, uma doença ou até à morte de um ente querido, as pessoas da aldeia juntavam-se oferecendo o seu calor humano, o seu apoio. E ao dividir a dor por todos, o tormento da pessoa ou da família em sofrimento tornava-se menos pesado.

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Em situação oposta, quando havia um casamento ou nascia uma criança, era um regozijo para toda a população.

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Aos poucos afastamo-nos deste tipo de vida comunitário. Sempre na procura de um melhor emprego, uma melhor situação financeira e de uma melhor educação. Escolhemos viver em grandes cidades sobretudo no litoral, onde quintas e espaços verdes deram lugar a arranha céus. Dormitórios para a sociedade moderna. Cortamos o cordão umbilical com a terra; com a mãe natureza, que nos providencia o nosso sustento. Hoje, nestes prédios de tocar o céu, os condóminos não se conhecem. Ninguém sabe quem é o vizinho do lado.

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Saem cedo para os respectivos empregos, outros, cada vez em maior número, ficam em casa em teletrabalho. Aqueles que saem cedo, regressam a horas tardias, por sua vez os que trabalham a partir de casa, permitem-se ficar em pijama o dia todo, a menos que tenham alguma reunião online.

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Nos dias que correm, as pessoas dão preferência às mensagens escritas e cada vez menos á oralidade. Não me espantaria se daqui a algumas centenas de anos a fala tal como a conhecemos hoje deixasse de existir. Os telemóveis e computadores, e agora também a Inteligência Artificial em muito têm contribuído para afastar o homem dos seus pares. Tornando-o cativo da sua criação.

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Numa citação Rousseau diz o seguinte:” A natureza fez o homem feliz e bom, mas a sociedade torna-o miserável.” Não deixa de ser curioso que as sociedades desenvolvidas pelo homem acabem por servir de prisões para o próprio homem.

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É crucial conhecermo-nos a nós mesmos para evitar a desumanização num mundo cada vez mais tecnológico. As pessoas mais idosas nem sempre conseguem adaptar-se às novas tecnologias. Olham-nas com preocupação pois sentem que são suas inimigas. Pela cabeça dos mais velhos ainda ecoam tempos passados à soleira da porta rodeados de familiares e vizinhos.

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Agora, pouco a pouco os vizinhos vão partindo. Os filhos são sugados pelos empregos, e os netos vivem entre a sala de aulas e o quarto que ocupam em casa, agarrados ao computador, tablet ou telemóvel, cada vez mais solitários, menos sociáveis e mais desconectados com o meio onde vivem.

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Os idosos sentem-se cada vez mais velhos e mais sós. Recusam sair de suas casas. Não querem deixar para trás as paredes que tanto sabem sobre si. Alguns acabam por partir sem que alguém tenha dado pela sua falta.

E assim, sem nos darmos conta, velhos e adolescentes caminham para um isolamento social.

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Os pensadores e cientistas são unânimes quanto à solidão. Se para Friedrich Nietzsche e Michel de Montaigne ela é crucial para a criação e profundidade espiritual, para alguns psicólogos ela é uma ameaça à saúde mental.

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Entre o álcool e as chamas

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Após terminar décimo segundo ano, Celeste, inscreveu-se num curso técnico-profissional de secretariado. Com vinte anos já estava a trabalhar na Câmara Municipal do Porto.

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Não era aquela rapariga que fazia os rapazes seguirem-na com o olhar. Havia nela uma certa beleza exótica herdada dos bisavós maternos que eram goeses. Daí os seus cabelos lisos e negros, bem como a cor dos olhos, mas Hélder, um colega da contabilidade apaixonou-se por ela. Tiveram um namoro curto de seis meses e um belo dia casaram-se numa cerimónia simples, sem pompa. Através de um empréstimo bancário, o jovem casal comprou o seu apartamento. Um primeiro andar de um prédio numa ruela transversal à rua de Santa Catarina. Dois anos mais tarde nasceu Paulo, filho único do casal.

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Não fazia parte dos planos de Celeste ser mãe. Trazer ao mundo uma criança sem saber se podia cuidar dela e dar-lhe um bom futuro era uma grande responsabilidade, nos dias que correm. Num mundo onde só se houve falar de guerras e doenças e escassez de emprego. As memórias de uma infância e adolescência pautada por todo o tipo de carências, ainda pairavam na sua cabeça. Eram seis pessoas a viverem num minúsculo apartamento. Os pais saiam cedo de casa

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para os respectivos trabalhos, enquanto ela, a mais velha dos quatro irmãos, preparava-os para a escola. Talvez por ter sido cuidadora dos irmãos, a maternidade não era algo com que se deslumbrasse.

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Hélder, compreendia os seus motivos, mas apercebia-se de outras lacunas maternais existentes na esposa. Faltava-lhe o afecto, o colo, as histórias por contar à cabeceira da cama. Tudo o que Celeste também não tivera em criança. E a sabedoria popular diz que só damos o que nos deram ou que nos ensinaram.

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A maior parte dos condóminos eram casais em início de vida, como eles, com filhos da mesma idade do pequeno Paulo. Nas traseiras do prédio havia um jardim com atividades para as crianças, era aí que aos fins de semana pais e filhos se juntavam.

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Paulo, acompanhado pela mãe, também ia brincar para o jardim, e enquanto os outros meninos chamavam pelos progenitores para verem as suas acrobacias, o pequeno Paulo procurava os olhos da mãe, à espera de uma palavra de incentivo ou de um beijo soprado. Desejos vãos para a criança. Poucos minutos depois vinha o “pronto já chega, vamos para casa. Podes brincar com os teus brinquedos enquanto faço o jantar.” 14

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O miúdo olhava-a com os olhos cobertos de lágrimas. Não percebia porque a sua mãe era diferente das outras mães. Embora Celeste não demonstrasse o amor que sentia pelo filho, amava-o. Não sabia como demonstrá-lo.

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Daí a criança ter sido sempre mais próxima do pai. Era este que o transportava às cavalitas, que alinhava com ele nas brincadeiras com os soldadinhos de chumbo e os legos e quando mais crescido era também com o pai que ia ao estádio do Dragão assistir aos jogos do Futebol Clube do Porto. Quando aos doze anos ouviu os pais dizerem que se iam divorciar, Paulo rompeu num pranto.

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E por mais que os pais lhe dissessem que ia ficar tudo bem, ele ripostava “como é que vai ficar tudo bem se vocês nunca estiveram bem?”

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Apesar da sua tenra idade, o rapaz, ouvia frequentemente as suas discussões. A maior parte delas tinham início por coisas insignificantes. Sabia que muitas noites o pai dormia na sala. Quando á noite acordava a meio da noite e ia á cozinha beber água, via o progenitor deitado no sofá. Portanto era um fim anunciado. Mas mesmo assim o rapaz preferia ter os dois juntos. Celeste e Hélder, acordaram que seria este a sair de casa e que ela ficaria com a guarda do filho. Podendo o pai visitá-lo sempre que desejasse, para além de passar um fim de semana

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de quinze em quinze dias e um mês durante as férias grandes da escola.

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A decisão do divórcio não foi pacífica com Celeste a tentar demover o ex-companheiro. Concordava que não tinha propriamente um feitio fácil de se lidar, nem era uma pessoa sociável, que gostasse de ter amigos. Talvez por se achar desinteressante. Das suas amizades constavam apenas duas vizinhas, mas sem nunca frequentarem as respectivas casas. Conversavam no jardim do prédio enquanto os filhos brincavam ou através de um ou outro telefonema. Celeste jamais as convidaria. A casa era a única que conhecia Celeste e abrir a sua porta a outras pessoas era dar a conhecer a sua intimidade, até a sua alma. A separação deixou feridas inimagináveis não só no coração, mas também na cabeça de Celeste, com as quais, não soube lidar. Se pelo menos tivesse uma amiga, ou alguém próximo.

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Mas a realidade era mais cruel, Celeste, que logo após o casamento afastou-se de toda a sua família, quando soube que dois irmãos tinham sido presos por posse e venda de droga, decidiu que o melhor seria cortar com todos laços familiares e fechar-se na sua concha. Agora, sozinha na casa que a viu crescer junto com o companheiro, sentia-se uma mulher solitária.

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Nunca quis cultivar uma amizade. Achava que se bastava a si própria. E enquanto estes pensamentos pairavam na sua cabeça, as lágrimas bailavam-lhe nos olhos.

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Durante muito tempo fingiu que continuava casada. Os vizinhos só se aperceberam alguns meses depois. Primeiro deixaram de ver Hélder no prédio, depois passaram a vê-lo de quinze em quinze dias dentro do seu automóvel quando ia buscar Paulo para passar o fim-de-semana.

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Só quando o filho ia para casa do pai é que Celeste mostrava toda a sua fragilidade. Mas a quem? Quem poderia passar-lhe a mão pela cabeça, ou dizer-lhe palavras de encorajamento? Não havia ninguém para limpar-lhe o rosto, ou dizer-lhe que não faz mal chorar. Que mostrar as suas fraquezas também é um sinal de força.

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Porém, Celeste estava sozinha. E as paredes podem ouvir, mas não falam. Bem que elas ouviam os seus soluços e gemidos, e olhavam com tristeza e pena para a mulher a quem ninguém ensinou como se semeia o amor. Sem esse ombro amigo, passava os dias a chorar, mal se alimentava e os dias em que não tinha a presença do filho eram passados na cama. Restava-lhe o trabalho. E ela agarrava-se a ele como uma tábua de salvação.

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Os anos foram passando, e um dia, Paulo, com dezasseis anos, decidiu ir viver com o pai. Esta decisão do adolescente foi uma facada no coração de Celeste, que se sentiu abandonada pelos dois homens da sua vida.

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Como sempre escondeu das duas vizinhas de quem era mais próxima, a partida do filho. Trancou-se em casa e chorou copiosamente. Só as paredes assistiram a tão grande agonia

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E embora o estado caótico em que o seu interior vivia, Celeste continuava com bom desempenho profissional. Ninguém sabia das suas lutas, das batalhas que ia perdendo. Ninguém, excepto as paredes de sua casa. Quando fechava a porta

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do seu apartamento depois de um dia de trabalho, Celeste transfigurava-se. Ficava assoberbada com avalanches de maus pensamentos que lhe sugavam a vida. Subterrada na sua dor, ia acumulando feridas que as bebidas alcoólicas se encarregavam de lamber.

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Os pedidos de ajuda que vinham das suas entranhas só as paredes, marcadas por objectos que Celeste descontroladamente arremessava contra elas, ouviam. Marcas de gritos pedindo socorro que a garganta sufocava, mas ninguém ouvia. Durante anos, Celeste duplicou-se. Havia a Celeste responsável e trabalhadora, na câmara municipal, e depois havia uma outra, a Celeste solitária, prisioneira no seu apartamento.

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Cada vez mais isolada, mais afastada do mundo real. Sempre que regressava a casa tornava-se num vegetal. Fazia apenas o necessário para sobreviver. A casa onde vivia passou rapidamente de um asseado apartamento para uma lixeira incontrolável. Ter a casa limpa era somenos importante. Nunca tivera visitas, por isso o apartamento estava bem para ela. Pelo menos não dormia debaixo da ponte como o Rogério, seu colega das bebidas com quem se encontrava ao final do dia. Ela dava-lhe algum dinheiro e ele fornecia-a com mais uma garrafa de vinho, quiçá falsificado. Passaram-se vários meses até os vizinhos não aguentarem mais o cheiro nauseabundo que vinha da casa de Celeste.

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Os condóminos reuniram-se, alertaram o presidente da junta de freguesia, que por sua vez falou com uma assistente social. Em conjunto decidiram aparecer de surpresa em casa de Celeste. O que viram deixaram-nos perplexos.

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O lar estava transformado numa lixeira com tudo o que se possa imaginar que uma lixeira contém. Estavam perante uma situação muito delicada. Um caso de saúde pública. Por um lado, Celeste não se importava que lhe limpassem a casa, por outro recusava ajuda psicológica. Alguns dias depois com o auxílio de vários voluntários conseguiram deixar o apartamento limpo e habitável. Enquanto a proprietária prometia às autoridades parar com a acumulação de lixo e mantê-lo sempre asseado. 19

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Promessa que ela sabia não conseguir cumprir, porque as suas dores eram mais profundas do que as raízes da figueira da África do Sul. Tão dolorosas que se emaranhavam nos próprios alicerces da casa.

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O filho, passou a visitá-la menos vezes. Sem sequer entrar no prédio, esperava pela mãe dentro do carro e lá seguiam os dois.

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Ninguém sabia ao certo como é que Celeste se transformou numa indigente.

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Era do conhecimento dos vizinhos que esta mulher precisava de ajuda, mas como tirar alguém do mar se ela continua a afastar-se? Mesmo chamando pelo nome, ela vai em direcção às grandes ondas? Com o tempo, Celeste não cumpriu com a promessa feita à assistente social e a casa retornou à imundice que era anteriormente. Cada vez mais dependente do álcool, mergulhava aos poucos num oceano de águas encrespadas.

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Por várias vezes foi encontrada caída na rua ou a cambalear. Uma vez que profissionalmente a entidade patronal nada tinha a apontar em termos de conduta, e Celeste cumpria com todas as suas obrigações fiscais, não a podiam internar compulsivamente.

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As vizinhas tinham pena desta mulher que conheciam, há mais de vinte anos, e que tudo fizeram para a salvarem do abismo.

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Passaram-se alguns meses e o cheiro nauseante do apartamento de Celeste voltou a instalar-se no prédio.

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Era uma madrugada de julho, quando os vizinhos viram fumo e chamas saírem da casa de Celeste. Alarmados e desorientados fugiram de seus apartamentos e alertaram os bombeiros, a polícia e o INEM.

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Depois de várias tentativas, polícias e bombeiros conseguiram arrombar a porta. No interior o cenário era dantesco. Entre labaredas e fumo a casa era uma perigosa lixeira de garrafas de vinho, latas de cerveja misturadas com fezes humanas, pensos higiénicos e tudo o que consigamos imaginar. Os bombeiros encontraram o corpo de Celeste carbonizado à entrada do quarto.

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Mais tarde e depois de apuradas a causa do incêndio, os condóminos foram informados que tudo começou com um cigarro que caiu para dentro de um saco de roupa, e que levou à sua propagação. Celeste não deve ter sofrido, devido à inalação do fumo. O mais provável era estar inconsciente antes das chamas tomarem o seu corpo.

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