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PÓRTICO Graças à gentileza de Francelina Drummond e da editora Liberdade, de Ouro Preto, recebi a edição brasileira desta obra. Ao lê-la logo me assaltou a curiosidade em descobrir os atuais familiares de António Francisco dos Reis, pelo que se impunha ir ao cemitério de Bustos em busca do jazigo que este mandou construir em memória dos pais. Não o encontrei na primeira passagem e quando já temia pelo desaire, numa última tentativa, deparei com a inscrição que procurava: Aqui jaz Manoel Francisco Rei e sua esposa Josepha de Oliveira. Vendo-me especado a olhar a pedra tumular uma mulher, aninhada entre duas campas, deixou os trabalhos de limpeza para me informar: – Foi um senhor que foi para o Brasil que o mandou fazer. – Pois foi, confirmei. E para lhe provocar maior espanto fui adiantando, deve estar escrito algures que o senhor era negociante no Brasil. Isso sabia ela porque, com a flor que tinha na mão, logo me apontou o seu lugar. Clélia de Oliveira Loureiro, assim se chamava a mulher de boné, vestida de preto. Explicou-me ser o mausoléu pertença da família. E retomou a tarefa de limpar e renovar os arranjos florais. Sobre as pedras tumulares, entre flores e lamparinas de óleo, viam-se placas com os nomes dos ancestrais que ali repousam. No passar das gerações vão-se renovando os ossos Sucedem-se em camadas, ajudando a perceber o sentido do tempo e a importância da família. Era sábado, pouco passava das três da tarde, e apesar do sol abrasador eram muitas as mulheres aninhadas cuidando das sepulturas. Faziam-no com a urgência de quem, com arranjos florais, materializa o amor e o respeito pelos mortos. É um culto, escrevo na breve missiva que envio a Marcelina Drummond dando-lhe conta do sucedido. Do Brasil veio a resposta que confirma a partilha de uma identidade que nem a distância ou o passar dos séculos consegue desfazer: As mulheres que arranjam o cemitério e enfeitam túmulos, o fazem como tarefa sentimental, espontânea, cotidiana. Disse nosso antropólogo Roberto Da Mata que, no Brasil, nossos mortos são vivos, tal é a convivência que com eles mantemos na lembrança, na memória. Um traço cultural, sem dúvida, herdado de vocês. Afinal, atrevo-me a concluir, quando por necessidade ou espírito de aventura abandonamos a terra onde crescemos, levamos sempre esse lugar connosco. Partimos, mas há uma pele que nunca mais nos larga. Belino Costa
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Ant么nio Francisco dos Reis
Terra adotada: relato de um emigrante
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Sumário
Narrar para lembrar
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A lida do trabalho
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A.F.R. (o manuscrito)
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Iconografia
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Narrar para lembrar Maria Francelina Ibrahim Drummond
Aos amigos e professores portugueses Maria Micaela Ramon Moreira e Francisco Topa.
Este livro reproduz o diário do imigrante português Antônio Francisco dos Reis, que viveu em Ouro Preto de 1887 a 1939. Em caderno manuscrito, ele registrou sua chegada ao Brasil e os acontecimentos do cotidiano que lhe pareceram importantes, em uma espécie de autobiografia, fato pouco comum aos imigrantes, especialmente os que tiveram pouca formação intelectual e se lançaram à vida do trabalho duro, sem trégua. Antônio Francisco mostra a condição instável, comum ao imigrante. Ele procura a identidade na terra adotada, mas mantém com a terra de origem o tênue fio que nunca se rompe. Então, encontra na escrita uma estratégia singular de adaptação à nova terra, como a dizer: sou brasileiro, igual a todos. Entretanto, a narrativa registra, simultaneamente aos acontecimentos no Brasil, fatos históricos e pessoais da vida em Portugal. É alguém dividido entre dois lugares, duas terras. Não é um sem-lugar, mas vive no entre-lugar.1 Uso o termo na acepção de desconfiança sobre a completa integração do imigrante à terra adotada.
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Português, natural de Bustos, freguesia de Oliveira do Bairro, distrito de Aveiro, chegou ao Brasil em 1874, aos 16 anos, sem saber ler nem escrever. Viveu 12 anos no Rio de Janeiro (cidade e interior), mudando-se, em 1887, para a capital da Província de Minas, onde já morava o irmão João. Viveu 52 anos em Ouro Preto, falecendo em 1939. Nesta cidade, tornou-se comerciante de secos e molhados, inicialmente associado ao irmão, casou-se com uma brasileira e teve 8 filhos. Estabeleceu-se com firma comercial própria na rua da Barra, junto à ponte, ao lado da residência. Adaptou-se aos costumes do Brasil e não foi um torna-viagem.2 Sua narrativa é tópica, seletiva e se interrompe em 1909. Dá conta de alguns rasgos de tempo, e, embora tenha uma sequência, não segue cronologia rígida. Ela tem ares de ficção. As pessoas destacadas, os personagens, são a família brasileira de Antônio Francisco, parentes em Portugal, compadres e amigos em Ouro Preto. O espaço predominante é esta cidade, algumas viagens, uma ao Rio de Janeiro com o filho; duas idas a Portugal – uma, rapidamente e a outra, demorada, com mulher e filhos. A trama é o cotidiano da família e do trabalho: nascimentos e mortes, batizados e festividades, movimentação no comércio, compras e vendas, lucros e prejuízos, notas sobre as viagens à Europa. Designação dada dos portugueses que, emigrados para o Brasil, se enriqueceram e, então, voltaram, em definitivo, para Portugal. Na história de Ouro Preto do século XIX, há o exemplo do torna-viagem Antônio Ribeiro Forbes (1791-1862), natural de Fafe. Emigrado jovem para Minas, voltou para o Porto, rico de comércio e mineração. Esteve ligado à política (vereador), educação e negócios em Ouro Preto. Começou a construir um luxuoso palacete, concluído pela sua viúva. O imóvel foi vendido mais tarde a outro torna-viagem José Teixeira da Silva Braga, ficou conhecido como Palacete Braguinha, que pertence hoje à Universidade do Porto. 2
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De 1907 a 1909, a família reside em Portugal e, de regresso, vem aumentada com a filha de naturalidade portuguesa. Tudo indica, segundo informações da neta, que Antônio Francisco retomou a vida normalmente em Ouro Preto, tocando sua casa comercial e continuando a importar vinho e azeite da terra. A família cresceu, chegaram os netos. Ambrosina, a mulher, morreu em 1934, e Antônio também se foi cinco anos depois. O manuscrito se encerra em 1909, sem fecho, na última página do caderno. O última registro é a pequena anotação: Maria de Jesus. Freguesia de Moitas, lugar de Junqueira – Portugal. Procurador: Patrício Martins. Suponho que Antônio tenha continuado a escrever, todavia não foi possível encontrar outros cadernos. Todas as coisas relatadas transformam-se em coisas notáveis, segundo seu ponto de vista e sua sensibilidade. Ele, a seu jeito, narrava suas memórias. Fazia anotações precisas e ordenadas. Espécie de seu curriculum vitae e também do círculo mais próximo de sua vivência, a mulher, filhos e parentes. Até seus credores aparecem, compondo um quadro que ultrapassa a família. Tudo indica ter sido escrito aos poucos, sobretudo porque Antônio se declarou analfabeto quando chegou ao Brasil. Não informou se frequentou escola ou como aprendeu a ler e escrever. A inteligência brilhante e a sensibilidade pouco comum se evidenciam em cada página escrita. Provavelmente tenha passado a limpo os escritos esparsos. Anotava lembranças, como ele mesmo intitulou uma das secções do caderno, agrupando-as por assunto, ano e circunstâncias variadas. Pretendia deixar o manus-
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crito aos seus descendentes como memória de sua vida. Quando, em 16 de junho de 1907 arremata seus negócios, registra: Para recordações minhas e de meus filhos aqui fica declarado. Deve-se a guarda do manuscrito ao filho mais velho, Benedito, poeta e músico que certamente se viu devedor das lembranças do pai. Muitos detalhes foram evocados, o que revela a intenção de quem relata história de vida, e há registros espontâneos como uma risada. A 6 de maio de 1880, a pequena frase no pé da página, sem destaque algum, mostra a impetuosidade jovem que, aliás, parece ter sido característica de Antônio. Ele finaliza o relato da batalha da vida ainda no Rio de Janeiro com um ditado português: era tudo que Marta fiou. Ou seja, era o resultado das perdas, e a vida não parava ali. Mais tarde, já em Ouro Preto, escreveu, em um canto da página, uma pequena, mas significativa nota: Zina, digo, Ambrosina Fiúsa dos Reis fez 30 anos no dia 22 de agosto de 1901. Para que fique em lembrança aqui o escrevi. Reis. Outras vezes, lê-se o registro de pagamento de anuais de irmandades, esmolas dadas à Igreja e festas religiosas, como a de Lavras Novas, Morro São Sebastião, e também o dinheiro gasto como despesa de um baile e carnaval. Há o registro singelo do pagamento de promessa ao santo de devoção, feita pelo pai em intenção do filho: Se Benedito F. dos Reis ficar bom da febre que hoje tem, irá no Morro de S. Sebastião em 1902, dia 20 de janeiro, levar uma vela de meia libra ao mesmo S. Sebastião. Será posta no altar pelo mesmo Benedito. Prometimento de seu pai. Cumprido.
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Em outra página, sem data, mas seguidos às anotações da primeira viagem que fez a Portugal, depois que já vivia no Brasil, seis versos traduzem o fado do imigrante:
Já é grande e doloroso, Com muitas penas chorando. Todo cheio de alegria É que me fui consolando. Ó tempos saudosos, Que estão passando. Antônio Francisco narra ao ritmo da lembrança, que ocorre espontaneamente e, assim, os detalhes da vida o motivavam a escrever. Escrever enquanto lembra e escrever para lembrar. Talvez tenha sido essa a motivação que o levou a reunir, em uma mesma página do caderno, registros pessoais e históricos, como os que se referem aos anos de 1888 e 1889:
Em 9 de fevereiro de 1888 desligamos a sociedade que girava sobre a firma de Reis & Irmão e passei a negociar só, indenizando meu irmão do capital que era 500$000, como também de 786$000, que tocou a cada um de lucros, que perfez a quantia de 1.286$000. Em 13 de maio de 1888, acabava com a escravidão no Brasil, por decreto da Imperatriz Regente Dª Isabel.
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É declarada a República no Brasil a 15 de novembro de 1889. Morreu D. Luís I, rei de Portugal, em 18 de outubro de 1889, nascido em 31 de outubro de 1838. Foi o Marechal Deodoro o primeiro Presidente do Governo Provisório dos Estados Unidos do Brasil Morreu meu pai, Manoel Francisco dos Reis. Em 18 de novembro de 1889, com 79 anos, em Portugal, Freguesia de Mamarrosa, Concelho de Oliveira do Bairro.
Além das intenções reveladas, qual terá sido a motivação que o levou a escrever? O imigrante português viveu também uma história de perda e adaptação, mesmo tendo a seu favor identidade linguística e traços culturais em comum. Longe da terra natal e da família, abandonou as expectativas que acaso teve de construir seu sonho entre amigos e conhecidos. Deixou, de hora para outra, as referências mais próximas, o mundo decodificado, para enfrentar a terra estranha, outro costume, outra natureza, outros cheiros e sabores. Dificuldade econômica, aperto de guerra, perseguição religiosa, imperialismo, muitas são as causas das diásporas migrantes, mas em comum é o mesmo sentimento de quem tenta continuamente vencer o estranhamento. Escrever lembranças pode ter sido, portanto, jogo de Antônio Francisco para sentir-se de fato integrado ao Brasil.
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Desde o início da exploração do ouro, Ouro Preto (então Vila Rica) foi destino de imigrantes cuja nacionalidade (portuguesa inicialmente) se diversificou ao tempo em que a cidade era capital de Minas Gerais. No século XIX, a antiga fama – ouro e riquezas minerais – ainda atraía, mas a vinda de estrangeiros para Ouro Preto resultou lateralmente das campanhas oficiais de colonização de outras regiões de Minas Gerais (norte e leste, por exemplo). Como a cidade era centro político e administrativo da Província, era natural que algumas famílias, atraídas pela imigração induzida, tenham se estabelecido em Ouro Preto, como muitos italianos e portugueses. Pessoas de outras nacionalidades, como sírios, espanhóis, portugueses e judeus de várias procedências, não foram objeto da política de imigração oitocentista. Através de um processo mais espontâneo – contato com parentes e amigos já radicados na cidade, notícia vaga sobre a antiga fama do ouro e das riquezas minerais possivelmente, - elas se estabeleceram como imigrantes em Ouro Preto, onde deixaram descendência e marca de seu trabalho. A migração de sírios testemunha o processo espontâneo, que contrasta com o sistema da imigração induzida, como a dos italianos e alemães. A Grande Síria, ao longo do XIX até 1918, viveu sob o imperialismo otomano e a ocupação francesa, donde as privações de ordem econômica e política terem determinado a migração para a América do Sul, especialmente Brasil e Argentina. A imigração portuguesa, no final do século, foi numerosa, chegando a 6% da população. Dos 5 milhões de habitantes, 300 mil emigraram para o Brasil, esse êxodo foi consequência da tran-
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sição econômica e política por que (sic) passava Portugal.3 Integraram-se às atividades de comércio e serviço. No Arquivo de Ouro Preto, pode-se lastrear o memória de italianos4, sírios e libaneses5, franceses e espanhóis nos lançamentos de imposto predial, taxas de loja, água, esgoto e outros. Nas décadas de 1860-1870, a cidade recebeu imigrantes dinamarqueses e alemães. É fácil identificá-los no comércio com anúncios especializados das novidades modernas do século, como fotografia e máquinas, conserto de relógios, instrumentos musicais e objetos artísticos. Alguns exemplos, entre centenas e milhares, podem ser colhidos ao longo do século, como o do relojoeiro Saul Spiers. Anunciava em 1867 sua Casa do Relógio, na rua Tiradentes, onde vendia, possivelmente para o entrudo, vestidos de fantasia bordados de ouro e prata, tarlatanas de cores lisas e bordadas, fitas de nobreza, além de flores, enfeites modernos, novo sortimento de fazendas modernas do último gosto.6 Em 1889, chama atenção, pela variedade, o anúncio da Maison Paul de Roquemaure, com magasin à rua do Tiradentes, bureau, caisse et ateliers na rua do Caminho Novo, e tiro ao alvo no Terrasse Belle-Vue. O proprietário vendia artigos de decoração de ambientes festivos e fúnebres, ao estilo parisiense, importava, sob encomenda, armas, gravuras,
Notas sobre os imigrantes portugueses no Brasil (séc. XIX e XX), Maria Luísa N. de Almeida Pasckes, Revista de História, p. 91. 4 Gravigna, Balena, Moratti, Sartori, Caravelli, Catanesi, Ripolli, Mazoni, Paglioto, Tropia, Di Iorio, Trivelli, Marzano, Pignataro, Ricci, Salermo, Pierucci, Martineli, Riberi, Tucci, Falci, Laporte e outros Miguel, Elias, Aramuni, Caram, Calil, Nahim, Nahas, Ibrahim, Rachid, Abdo, Mansur, Nemer, Rhame, Cairo, Felipe e outros.
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Diário de Minas, 27/12/1867.
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etiquetas, cartões de visitas e livros de autores franceses, fazia assinaturas e anúncios em jornais da França. Sua especialidade: modernizar os costumes, antecipando o clima de belle époque. À mesma época, Madame Penélope Ricci, modista e costureira italiana, noticiava sobre sortimento de fazendas finas, enfeites de chapéus femininos e confecções, garantindo perfeição, presteza e modicidade dos preços.7 No ofício de entalhador, a habilidade dos italianos Anastácio Brandi, Domingos Bombagi e Miguel Ângelo, em 1889.8 Em 1892, o italiano Nicolau Laporte também anunciava a sua oficina de funilaria Estrela do Oriente9. Os imigrantes no Ouro Preto ainda capital de Minas integraram-se ao comércio e serviços em geral, atividade fabril incipiente e também agricultura. Comércio de gêneros, bebidas, lojas de armarinhos, calçados, tecidos, fábrica de bebidas, de massas, de sabão. Relojoarias. Hospedarias. Restaurantes. Padarias. Alfaiatarias. O imigrante trouxe o ramo afiliado às artes, a fotografia, a música, o desenho e o cinema. Outros se tornaram agricultores na zona rural dos distritos, pequenos sitiantes e fornecedores de bens à cidade. As colônias maiores, como a de italianos, se organizaram em grêmios e associações, na adaptação à sociedade. Em 1886, fundaram a Sociedade dos Operários Italianos, instituição de ajuda mútua, socorro financeiro e apoio às famílias imigrantes desamparadas. Em 1896, tinham jornal próprio, o Bandiera Italiana, escrito em língua italiana e que sinalizava, por ser órgão de imprensa, a politização e representatividade cultural do grupo 7
Almanack de Ouro Preto, p.232
8
Id., p. 93.
9
O Mineiro, 6/11/1892.
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na sociedade ouro-pretana. Mas não se deve esquecer a não-integração e o deslocamento do imigrante na sociedade ouro-pretana, fato destacado na crônica policial dos jornais, com mais frequência ao final do século. Foram casos de homicídios, suicídios e roubos, praticados por estrangeiros, que assustaram a cidade e mobilizaram negativamente a opinião pública em relação ao imigrante.10 A história de Antônio Francisco, ao contrário, é a do bemsucedido cujos negócios prosperaram e cuja trajetória de vida, de trabalho árduo e dedicado, narrada em seus manuscritos, engrandece o imigrante e reconhece a escolha certa da terra adotada. O leitor dos manuscritos facilmente pode identificar, no narrador das lembranças, um personagem com atributos fortes: corajoso e sensível, religioso e profano (no sentido da atenção às coisas de sua época), amoroso com a família e admirador dos amigos. Escrever foi deixar testemunho.
Até a opinião esclarecida de Bernardo Guimarães se curvou diante dos fatos, manifestando rejeição ao imigrante em Ouro Preto. Em seu folhetim quinzenal no Diário de Minas, em 22/1/1867, ao comentar um crime ocorrido na cidade, afirmou: “Fatos desses são comuns entre mascates italianos, os quais são como as cobras que se devoram umas às outras”. Em outro folhetim (Diário de Minas, 18/6/1867), no entanto, destacou a presença indispensável do estrangeiro útil e laborioso.
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A lida do trabalho O primeiro registro de Antônio foi a missa do galo de 24 de dezembro de 1874 – assisti a primeira missa no Brazil – na Matriz Nossa Senhora da Conceição de Campinho-Cascadura, zona norte do Rio de Janeiro, sua entrada simbólica. Chegara à Corte no dia 11 de dezembro daquele ano e, no dia 13, estava empregado nas Oficinas dos Maias, à rua da Prainha.11 Possivelmente, Antônio tenha encontrado um patrício, que o acolheu no primeiro emprego provisório, pois em janeiro, um mês no Brasil, passou a trabalhar na Estação Ipiranga, distrito de Barra do Piraí, em serviços de conservação da estrada de ferro. A Estação Ipiranga fora inaugurada em 1865 e era importante ramo de transporte. Antônio se manteve na ferrovia até 1879, como operário da construção e, depois, feitor, ou chefe direto de uma turma de trabalhadores. Deixou esse posto de trabalho, mudando-se para Pirapitinga (MG). Empregou-se em outra ferrovia, em construção para ligar Volta Grande a Santana de Pirapitinga (1879-1880), que foi incorporada em 1883 à Estrada de Ferro Leopoldina, em Minas Gerais. Antônio trabalhou pouco tempo, de março a novembro. Adoeceu, inicialmente acometido de resfriado, foi internado em uma casa de saúde no Rio de Janeiro, onde permaneceu três meses (novembro/1879 a janeiro de A rua da Prainha, atualmente rua do Acre, próxima da Praça Mauá, foi demolida em 1903 por Pereira Passos, para urbanização e embelezamento da área. Faz esquina hoje com praça Mauá e avenida Rio Branco. A imprensa carioca de 1904 comentava sobre a demolição da “rua torta, sombria, estreitíssima, com calçamento esburacado, umas casas escuras, do tempo do Brasil colonial...”(O Commentario, 01/1904) In: https:/www.flickr.com/photos/carioca_da_gema/84404016/in/photostream).
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1880). “Estive tres dias sem falla”, registrou. Possivelmente houvesse algum intercâmbio entre os ramais de estrada de ferro na contratação de operários, pois Antônio saiu de Pirapitinga e retornou a Ipiranga (Barra do Piraí) em janeiro de 1880, mas continuou o tratamento de saúde até março. Tornou-se, então, feitor de lastro, cargo que exigia perícia e algum conhecimento de construção da via férrea. Manteve-se alguns meses neste emprego, deixando-o por decisão própria. Em abril de 1880, já tendo acumulado algumas economias, Antônio abriu negócio autônomo. Parece que se dedicava tenazmente ao trabalho e preocupava-se com a situação financeira dos pais em Portugal. Já em 1876, dois anos depois de chegar ao Brasil, enviou-lhes 20 libras esterlinas e, no ano seguinte, 250:000 reis fortes. Não nos informa, entretanto, onde e como morava, nem mesmo como se alfabetizou, o que deve ter ocorrido durante esses estágio de vida no interior do Rio de Janeiro. A 6 de maio de 1880, abre uma padaria com o bom capital de 2:200$000 (dois contos e duzentos mil réis). Ironicamente, registra: era tudo que Marta fiou. Isto é: foi o que sobrou. Em outubro de 1881, transfere o negócio para Piedade de Ipiabas, também distrito de Barra do Piraí, com contrato de fornecimento de pão para empreiteiros da Estrada de Ferro Santa Isabel do Rio Preto, com capital aumentado para 3:100$000 (três contos e cem mil réis), mas parece que as coisas não deram muito certo, pois, ao liquidar o negócio em outubro de 1882, tinham-lhe restado 340:000 (trezentos e quarenta mil réis). De maio de 1883 a junho de 1885, emprega-se com o em-
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preiteiro João Gomes Maltês na estrada de ferro, com toda minha fortuna junta [que] era 50:000 (cinquenta mil réis). Teve prejuízos, sem detalhar o que houve, e acrescenta, disposto a continuar: ... com saúde e honra, e coragem. Parece que o ditado era tudo que Marta fiou seria mais adequado nesta secção do manuscrito, porque, de fato, ele perdeu dinheiro. Partiu, então, para trabalhar em outra ferrovia, na região de Petrópolis, a Estrada de Ferro do Príncipe do Grão Pará, fornecendo carroças de aterro para a construção do túnel do Morro dos Velhacos12. Já tinha ajuntado outras economias – 1: 800$000 (um conto e oitocentos mil réis) que, com o trabalho, foi aumentado para 2: 400$000 (dois contos e quatrocentos mil réis). Passa depois a outra estrada de ferro, a Oeste de Minas onde permanece de junho de 1886 a abril de 1887, trabalhando como feitor de pedreira, provavelmente nas imediações de São João del Rei, na expansão da via em direção à cidade de Oliveira, que teve início em 1886. De Oliveira resolve ir a Ouro Preto, onde fica apenas 1 dia, para visitar seu irmão João, com quem não se encontrava havia 12 anos. Antônio tomou a decisão de mudar de novo o curso de sua vida. Voltou a Oliveira, vendeu as carroças e, com o capital de 2:400$000 (dois contos e quatrocentos mil réis), apurados na liquidação de seus bens, chegou a Ouro Preto em 26 de junho de 1887. Tinha então 27 anos de idade. Era a capital de Minas. Tinha comércio forte de lojas, hospedarias, armazéns de secos e 12
Não consegui localizar o Morro dos Velhacos.
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molhados, escolas, tipografias e repartições do governo. Em parceria com seu irmão, Antônio estabeleceu a firma Reis e Irmão, de molhados e gêneros do país, com o capital de 1:000$000 (um conto de réis), sendo 500$000 (quinhentos mil réis) de cada um. Não informa o endereço onde funcionava o ponto comercial, mas os relatos posteriores indicam a região próxima do rio Funil, como o Almanack administrativo, de 1889, que localiza na rua da Barra o armazém de Antônio Reis & Co.13 Essa área de Ouro Preto, no século XIX, era passagem obrigatória de tropas e animais de transporte que chegavam à cidade pela Estrada Real, local de hospedarias com cocheiras maiores e pastos para animais, cercado também de chácaras em toda extensão da rua da Barra (que descia do Arquivo Público Mineiro, hoje rua Xavier da Veiga), Praia do Funil e Casa de Pedra (rua Pandiá Calógeras). A Barra ligava-se à rua das Dores (hoje Coronel Serafim), chegando à atual rua Barão de Rio Branco que dava acesso ao Caminho Novo, Alto da Cruz e saída para Mariana. Em 9 de fevereiro de 1888, a sociedade comercial foi desfeita. Na lista de lançamento de imposto predial, água e esgoto da Câmara Municipal, publicado no jornal A Cidade de 6/2/1902, consta João Francisco dos Reis residindo na Praia do Funil, e Antônio Francisco, na Casa de Pedra. Como se sabe, o endereço comercial confundia-se com o residencial. Os irmãos viviam 13 Almanack administrativo, mercantil, industrial, scientifico e litterario do Municipio de Ouro Preto, 1889-90, p. 91. A neta de Antônio confirmou o endereço onde funciona um sacolão, à praça Amadeu Barbosa.
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próximos, portanto, mesmo tendo separado os negócios. Em 1890, Antônio volta pela primeira vez a Portugal. No Rio de Janeiro, embarca no vapor Malange14 e, chegando à terra, pousa em casa de mamãe em Bustos, onde fica 5 meses, de agosto de 1890 a abril de 1891. O reencontro com a família, 23 anos depois, não foi o mais feliz, porque faltava o pai, falecido em 18 de novembro de 1889. Antônio fez algumas viagens, ao Porto com a mãe e a irmã Rosa, à cidade de Aveiro, pela feira de março. Morreu-lhe a sobrinha Maria, em 2/11/1890, e nasceu Antônio, do qual foi padrinho, na freguesia de Mamarrosa. Eram ambos filhos de Rosa e Manoel de Oliveira. Antônio reviu a mãe viúva e o resto da família, mas sobretudo prestou homenagem à memória do pai. Registrou nos seus escritos:
Em 18 de novembro de 1890, construí no cemitério de Bustos em cima da sepultura do meu querido Pai uma campa e um cruzeiro de pedra mármore e um gradilho de ferro, com as letras no dito cruzeiro: recordações de sua esposa e filhos. Aqui jazem os restos do finado Manoel Francisco Reis, falecido a 18 de novembro de 1889, com 79 anos de idade. Para memória dos meus aqui escrevi. Antônio Fran.co. dos Reis.
Antônio retorna ao Brasil em 22 de abril de 1891, no vapor Vapor construído na Inglaterra em 1890, pertenceu à Mala Real Portuguesa e à Empresa Nacional de Navegação Portuguesa. Fazia a rota Europa, África e América e trouxe levas de imigrantes portugueses e de diversas outras nacionalidades para o Brasil.
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Documento:LIVRO TERRA ADOTADA RELATO DE UM IMIGRANTE - 14 07 15 - OK.pdf;Página:26;Data:14 de Jul de 2015 07:45:17
Congo,15 chegando a Ouro Preto em 11 de maio. Estava solteirinho, segundo sua anotação. Em 31 de dezembro de 1892, casa-se com Ambrosina Fiúsa, filha Manoel Fiúsa da Rocha, comerciante português radicado à rua Direita. Compra duas casas na rua da Barra, onde provavelmente o casal tenha passado a residir. Em 1897, adquire mais duas casas nessa rua. Nascem os filhos brasileiros: Benedito (1896), Eurico (1898), Antônio (1901), Sílvia (1903) e Marieta (1905), batizados na Matriz de Nª Sª da Conceição, em Antônio Dias. Em 17 de julho de 1906, Antônio sacou da Caixa Econômica, em Belo Horizonte, a alta quantia de 40:000$000 (quarenta contos de reis) e, nessa mesma data, adquiriu, por um conto de reis, todos os bens que meu irmão João tinha em Portugal. Em novembro desse ano, registra saque de 1000 libras esterlinas, correspondentes a 15:421$000 (quinze contos e quatrocentos e vinte e um mil reis). Em 16 de junho de 1907, Antônio vende seus negócios de molhados e gêneros do país, que resultaram na vultuosa quantia de 59:463$566 (cinquenta e nove contos, quatrocentos e sessenta e três mil e quinhentos e sessenta e seis reis), o que ele registra como lembrança para recordações minhas e de meus filhos aqui fica declarado. Em 30 de junho de 1907, Antônio iniciou a 2ª viagem a Portugal, acompanhado da mulher e dos filhos. Saíram de Ouro Preto em direção ao Rio – provavelmente de trem, pois no dia 3 de julho já embarcavam no Vapor Aragon com destino a Lisboa, aonde chegaram dia 17 e, no dia seguinte, a Bustos. Todas as Navio de grandes dimensões, lançado em 1878, para fazer a rota Europa-América do Sul. Trouxe muitos colonos europeus para o Brasil.
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Documento:LIVRO TERRA ADOTADA RELATO DE UM IMIGRANTE - 14 07 15 - OK.pdf;Página:27;Data:14 de Jul de 2015 07:45:17
despesas na viagem estão registradas, com detalhes que apontam gastos com hotel no Rio de Janeiro e em Lisboa, passagens de comboio de Lisboa a Bustos, despesas a bordo do navio, carreto de malas, frutas, cadeira, baú e empregada. Antônio apresenta Portugal à mulher e aos filhos. Viajam a Aveiro, Porto, Viana do Castelo, Ponte de Lima, Braga, com visita ao Santuário de Sameiro. Passam temporada na praia, em Costa Nova do Prado. Em 1908, Antônio vende casas, vinhas, moinhos, pinhais e terras em diversas localidades da freguesia de Mamarrosa (Barroco, Penedos, Laranjeiras, Guina, Bolinho, Vale da Cruz, Cabeço, Bouça, Gandarinha , Fonte do Cão) a Manoel Fabiano, Francisco Nunes Pardal, Manoel Pardal, Daniel Reis, Agostinho da Costa, Manoel Nunes Mota, Francisco da Silva Ferreiro, Duarte Nunes Cipriano, João Martins, Antônio Tarrafo, Pedro Manta, Manoel dos Santos Pernagorda. Ajudou a irmã Rosa na construção de casa, emprestou dinheiro a conhecidos e amigos, como a Manoel Morgado e Maria Pedreiras. Mandou reconstruir o túmulo do pai – então acrescido da mãe, que falecera em 1901, quando Antônio estava no Brasil:
Aqui jaz Manoel Francisco Reis e sua esposa Josefa de Oliveira (...). Mandou construir esta mausoleo seu filho Antonio Francisco dos Reis, negociante no Brazil. Gratidão, memoria, saudade de seu filho Antonio.
Documento:LIVRO TERRA ADOTADA RELATO DE UM IMIGRANTE - 14 07 15 - OK.pdf;Página:28;Data:14 de Jul de 2015 07:45:17
Nasceu a filha Maria Fiúsa dos Reis em 28 de setembro de 1908, em Bustos, e foi batizada na Matriz de Arcozelo, freguesia de Ponte de Lima. Seus padrinhos foram João Fiúsa da Rocha e sua esposa, Rosa Maria Fiúsa. Em 13 de janeiro de 1909, Antônio muda-se, com a família, de Bustos para Vila de Barreiros, Concelho de Maia, Porto. E, fato curioso, deu notícia de um abalo de terra que tremeu a casa em que eu morava em Barreiros. Tudo indica que Antônio, chegando a Portugal como “brasileiro”, dono de muitos contos de réis, tenha atraído atenções embora não faça menção a contato com pessoas socialmente importantes. É certo que se relacionou com Antônio Duarte Sereno (1859-1944), Visconde de Bustos de quem recebeu, já no Brasil, cartão de boas festas, enviado em 29/12/1909, no qual Antônio Francisco é saudado como meu prezado amigo. Em 7/4/1910, o Visconde lhe mandaria sua fotografia. Essa amizade não foi mencionada no manuscrito. Nada mais se sabe sobre os relacionamentos sociais do negociante no Brasil, como Antônio se definiu. Algumas listas de compras, feitas em Portugal, mostram que Antônio estava em dia com novidades do tempo. E tinha gosto refinado. Adquire um gramofone com 25 discos, álbum para retratos, binóculo, cartões de visita. Objetos de uso pessoal e vestimentas para a mulher e os filhos, toalhas de linho e peças de linho para costura. Enxoval para o batizado da filha, perfume, caixa de sabonetes, tapetes, meias e luvas de seda, brincos para a mulher e mais itens que oferecem uma bela visão da época, das necessidades e das ofertas a uma família com orçamento garantido.
Documento:LIVRO TERRA ADOTADA RELATO DE UM IMIGRANTE - 14 07 15 - OK.pdf;Página:29;Data:14 de Jul de 2015 07:45:17
Parece que Antônio tinha intenção de permanecer com a família em Portugal. Deixou diversos imóveis em Ouro Preto aos cuidados do amigo e procurador Major José Honório Mourão. Renderiam lucros a ser depositados no Brasil ou enviados a Antônio em Portugal. Ele deixava o irmão João e a família da sua mulher em Ouro Preto. Manteria, portanto, vínculos com a cidade, mesmo se decidisse ser um torna-viagem. Mas isso não ocorreu. Por outro lado, o manuscrito não oferece nenhuma pista nem dá informação sobre as intenções da segunda viagem à terra natal. Creio que a situação econômica e política de Portugal, em lutas republicanas, às vésperas da queda da monarquia e implantação do novo regime (1910), deva ter refreado a intenção de Antônio em permanecer em sua terra, com mulher e 6 filhos menores. Terá o Brasil lhe parecido a melhor opção? Por que decidiu voltar? Enfim: por que terão ido? Por que terão voltado? A autobiografia não informa. Ficou inconclusa, ou sua continuidade se perdeu. A escrita desta vida, apesar de fragmentária, contém traços importantes da memória de Ouro Preto. Manifesta, em primeira pessoa, a presença do imigrante de rara sensibilidade e inteligência na lida da cidade, longe de elites políticas e cargos públicos, mas atuando na base do comércio de gêneros e na prestação de serviços. A escrita dessa autobiografia é o testemunho sincero de quem apreciou viver em Ouro Preto, pois teve oportunidades de tomar outros destinos, no entre-lugar da vida migrante que levou.