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Recordando - As diferentes vidas de um médico

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Pedro Abecasis Recordando

As diferentes vidas de um médico

Pedro Abecasis

Recordando

As diferentes vidas de um médico

FICHA TÉCNICA

título: Recordando – As diferentes vidas de um médico

autor: Pedro Abecasis

edição: edições ex-Libris ® (Chancela do Sítio do Livro)

grafismo de capa: Ângela Espinha

paginação: Alda Teixeira

1.ª Edição

Lisboa, maio, 2026

isbn: 978-989-9198-48-7

depósito legal: 561752/26

© Pedro Abecasis

Todos os direitos de propriedade reservados, em conformidade com a legislação vigente. A reprodução, a digitalização ou a divulgação, por qualquer meio, não autorizadas, de partes do conteúdo desta obra ou do seu todo constituem delito penal e estão sujeitas às sanções previstas na Lei.

Declinação de Responsabilidade: a titularidade plena dos Direitos Autorais desta obra pertence apenas ao(s) seu(s) autor(es), a quem incumbe exclusivamente toda a responsabilidade pelo seu conteúdo substantivo, textual ou gráfico, não podendo ser imputada, a qualquer título, ao Sítio do Livro, a sua autoria parcial ou total. Assim mesmo, quaisquer afirmações, declarações, conjeturas, relatos, eventuais inexatidões, conotações, interpretações, associações ou implicações constantes ou inerentes àquele conteúdo ou dele decorrentes são da exclusiva responsabilidade do(s) seu(s) autor(es).

publicação e comercialização: www.sitiodolivro.pt publicar@sitiodolivro.pt (+351) 211 932 500

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Este livro é dedicado a todos aqueles com quem trabalhei no Hospital Público

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ÍNDICE

1. Razão de ser

2. Um médico na guerra .

2 .1 . A mobilização

2 .2 . Luanda, qual guerra

2 .3 . 30 horas alucinantes

2 .4 . Rotina em tempo de guerra

2 .5 . A chegada da família

2 .6 . Salvo(s) por um livro

2 .7 . O feiticeiro Kimbanda e a Rainha Ginga

2 .8 . Um passeio de Zebro que acabou em tragédia

2 .9 . O 25 de Abril e o que se lhe seguiu

2 .10 . Na cidade do Luso e o descambar da situação

.3 . Os enfermeiros

.4 . Não correu bem

Hospital de Santa Maria início dos anos

4 .5 . “Inside connection” O Hospital visto de dentro

descanso no Banco

5. Diretor Clínico. A pior “profissão” do mundo (ou a melhor…)

.1 . Como tudo começou e como foi o primeiro dia

5 .2 . No olho do furacão . A Comissão de Farmácia e Terapêutica

5 .3 . A greve “Self Service”

5 .4 . Alguns desafios

Uma guerra nunca ganha . A cirurgia das fraturas do colo do fémur

Consultas e os seus horários

O Hospital Público e o respeito pela pessoa Um Hospital de face humana

6. Um médico Gestor

.3 . As guerras com a Comunicação Social (CS)

6 .4 . A entrada no novo milénio . O “Plano de Contingência”

6 .5 . O Hospital — para além do trabalho

7. E o ensino

7 .1 . Aprender e ensinar uma constante na vida hospitalar

7 .2 . Os meus mestres

7 .3 . A primeira aula

7 .4 . O eu pessoal e o eu profissional

8. A Investigação médica, suas aventuras e desventuras

8 .1 . O vírus da Investigação

8 .2 . Ratos e Homens

8 .3 . Dos ratos aos cães: uma tentativa de uma outra etapa

8 .4 . À procura de uma fórmula que quantifique a alteração do “meio interior” no doente crítico: o meu doutoramento

9. Para memória futura

9 .1 . A história da Clínica Universitária do Hospital Egas Moniz (o “Casarão”)

9 .2 . Antecipando o INEM . Uma ideia pioneira, a Prontocor

9 .3 . “O meu tipo inesquecível”

10. Histórias insólitas

10 .1 . Na noite em que a PIDE matou Ribeiro Santos

10 .2 . Uma história de ciganos

10 .3 . Uma História no PREC . Um Hospital inteiro a funcionar apenas para um improvisado “Serviço de Urgência”

.4 . Jornada Contínua . Uma história portuguesa exemplar

11. E finalmente a Reforma e a Medicina Privada

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1. Razão de ser

“As coincidências são o modo que Deus utiliza para se manter anónimo .”

Pensei em boa ou má hora que, para alguém que esteja fora destes meios, estas vivências vistas pelo lado de dentro, pudessem ter algum interesse . Uma espécie de outra face, creio que muitas vezes insuspeitada do “ser médico” e do meio em que a sua atividade se desenvolve . Preview

A Vida de um médico tem várias vidas ao longo da sua

Vida . No meu caso, desde que comecei em 1971 como Interno no Hospital de Santa Maria até, já reformado da função pública, exercendo a profissão numa clínica privada.

Pelo meio ficou um mundo de experiências e vivências das mais diversas . Como médico militar no mato numa Angola em guerra, até a muitas outras “guerras” sempre como clínico, mas por vezes também no ensino médico ou como investigador, e finalmente muitas vezes em cargos de direção e administração a diversos níveis em Hospitais Públicos.

Como muitos da minha geração as memórias da guerra de África ficaram bem marcadas e ao longo dos anos, fui-as contando, primeiramente em publicação familiar . Depois, já acrescentadas, em livro editado pela colega e amiga Isabel Ribeiro1 que recolheu as histórias africanas de um conjunto de médicos que viveram e trabalharam em África, em diversos contextos. Volto a elas, com algumas modificações e acrescentos de episódios, entretanto relembrados .

Apresenta-se aqui a vida hospitalar num Hospital Público de forma mais detalhada, mostrando os seus diversos aspetos . Espero que, ao oferecer um olhar por dentro do que ali acontece, permita a muitos compreendê-la melhor. E, ao conhecer esta outra perspetiva, abrangendo a diversidade e complexidade das suas vivências e das suas problemáticas, olhem para os que ali trabalham com outra atitude de compreensão, quando eventualmente tenham de recorrer aos seus serviços .

Por acaso do destino, ou das oportunidades que surgiram, tive ocasião de trabalhar nos três Centros Hospitalares de Lisboa e também de ensinar nas suas duas Faculdades de Medicina . Este facto deu-me a sorte de conhecer e poder comparar diversas formas de funcionamento dos Hospitais e dos seus Serviços, mas também e tão importante, sentir “in loco” as diversas culturas nestas instituições e perceber a sua importância .

1 “A minha guerra” em “África, Médicos e Memórias” coordenação de Isabel Ribeiro, Editora O Sítio do Livro 2017 Preview

Deixo uma homenagem sentida aos meus mestres com quem tanto aprendi . O seu exemplo, o modo de estar na profissão, começando à cabeceira dos doentes, deixou em mim, como em muitos outros, uma profunda influência. Dentro das minhas limitações, tentei devolver um pouco do que recebi.

Desde muito cedo, também por seu estímulo fui iniciado, para além do ensino nos vários graus da vida académica, em projetos de investigação clínica e experimental ficando o “vírus” da investigação bem entranhado. Quanto mais não seja corresponde a um olhar à volta do que fazemos no dia-a-dia, procurando por este meio refletir e, se possível, alargar as bases do conhecimento científico.

No fundo, são apenas histórias — tantas histórias que, por si só, valeu a pena “viver para contá-las” como disse alguém com outro talento .

Aqui ficam.

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2. Um médico na guerra

“O que mais importa não é a vida que se viveu, mas o que se lembra que viveu e, principalmente, como se conta o que se viveu”

Frase do Gabriel Garcia Marquez que diz mais ou menos assim

2.1. A mobilização

No princípio da década de 70, o Serviço militar era uma certeza que mais tarde ou mais cedo nos ia apanhar a todos . Também uma quase certeza era a correspondente ida para o então designado Ultramar, para a guerra de África . Os sortudos conseguiam ir para uma das colónias onde não havia guerra e isso era sinónimo de dois anos de boa vida num país tropical Cabo Verde, S . Tomé ou Timor . Claro que, como é evidente, não era só uma questão de sorte .

No Hospital de Santa Maria dava-se o encontro dos médicos mais velhos, que já tinham realizado a comissão na guerra e os mais novos que aguardavam serem chamados, no fim dos adiamentos que se iam pedindo para progredir nos internatos . No entanto estes só eram concedidos em certas especiali-

dades com maior interesse em tempo de guerra . As histórias que, nas longas noites de banco, os primeiros contavam eram sempre ouvidas com muita atenção porque sabíamos que inevitavelmente chegaria a nossa vez .

E chegou Depois de me ter sido recusado um pedido de adiamento para fazer o internato de Medicina Interna (uma tentativa condenada ao fracasso), lá veio a ordem para me apresentar no Hospital Militar da Estrela para o 2.º Ciclo de Oficiais Milicianos, o COM . Tendo completado sete anos no Colégio Militar estava dispensado do 1 .º Ciclo que era feito em Mafra .

Este 2 .º ciclo constava de aulas teóricas dadas por um velho capitão e aulas de preparação física. Como os cadetes médicos já eram mais velhos que os recrutas habituais estas eram levadas sem grande empenho. O problema era que no fim do Ciclo tínhamos as provas de qualificação que eram compostas de um exame escrito e provas físicas: percurso de combate, e realização de exercícios contabilizados — flexões, abdominais, “pinguins”, etc. A classificação era proporcional, por exemplo, ao número de flexões executadas. Em cursos anteriores dependia desta classificação a “Província Ultramarina” para a qual éramos mobilizados . Talvez para estimular os cadetes a empenharem-se nas provas, os primeiros iam para aquelas em que não havia guerra (por exemplo Cabo Verde), seguiam-se as “melhores” guerras (Angola ou Moçambique) e finalmente os últimos iam para Guiné. Por isso, embora em geral a nossa preparação física não fosse brilhante, dávamos o máximo para ficar nos primeiros lugares. No meu caso, tentei fazer tantos “pinguins” quantos podia e passei uma semana Preview

de canadianas porque não me conseguia mexer com as dores nos músculos das pernas .

Nesse ano porém aconteceu um imprevisto: as orientações da hierarquia militar mudaram, com a lógica imbatível de que os melhor preparados deviam ir para os teatros de guerra mais complicados . Assim os sete primeiros foram mobilizados para a Guiné. Os dois seguintes (um dos quais era eu que tinha ficado em 9.º lugar) fomos mobilizados para Angola. Fiquei assim aliviado por não ter sido mobilizado para a Guiné onde a guerra estava mais acesa e muitas companhias mal saíam do arame farpado e a hipótese de levar a família era praticamente inexistente. Já casado e com um filho, o Bernardo recém-nascido, parecia-me um mal bem menor .

2.2. Luanda, qual guerra

Em rendição individual, num dia de Setembro de 1973 apanhei um avião da Força Aérea — um Boeing 727 — com destino a Luanda . A mim, como provavelmente a muitos, ficou marcada a primeira impressão de Angola, quando se abriu a porta do avião e recebi na cara o bafo quente e húmido de Luanda .

Fui passar aqueles dias, enquanto aguardava a colocação e a guia de marcha, em casa dos meus Pais no bairro de Alvalade . A vida de Luanda nessa altura não fazia suspeitar que se tratava da capital de um país que se encontrava em guerra. O ambiente era calmo e pacífico e aparentemente todos convi-

viam sem que se notassem crispações ou mal-estar. Lembro-me que apanhava o autocarro, o machibombo, para o centro e que nele viajavam brancos e negros com a maior normalidade . Um dia numa grande praça vi todos os carros pararem, bem como todos o que iam a pé. Quem ia de carro saiu e pôs-se de pé ao lado do carro . Era o arriar da bandeira nacional, com uma pequena formação de soldados e corneteiro, num quartel que dava para a praça .

Também os restaurantes e cervejarias estavam sempre cheios, bem como os cinemas ao ar livre — um deles o Miramar com uma vista espetacular sobre a Baía de Luanda, onde numa noite vi um inesquecível filme de Charlot. Como iria verificar em breve, nada ali tinha a ver com o ambiente em que iria viver nos 18 meses seguintes .

E assim fui colocado no Leste de Angola, no Lucusse, sede de um Batalhão de Artilharia o BART 6321, que ficava localizado no distrito do Moxico, 150 Km a Sul da capital então denominada cidade do Luso .

Poucos dias depois embarcava num Nord Atlas (por alcunha no meio militar, o “Barriga de ginguba”) com destino à cidade do Luso, a 1800 Km, onde ficaria à espera de transporte em coluna do exército para o Lucusse . 2.3. 30 horas alucinantes

A chegada ao aeroporto do Luso foi inesquecível. O ambiente lembrava o do início do mítico filme “Apocalipse Now”:

muita poeira, calor, muita azáfama e movimento de viaturas militares. Um perfeito aeroporto de um país em guerra, contrastando com a tranquilidade vivida em Luanda .

Desembarquei juntamente com o Dr . Clode, um radiologista mais velho graduado, se bem me lembro em major, e no trajecto para a gare vejo dirigir-se para mim uma mulher em “estado de choque”, apoiada por outras duas, que ia apanhar o avião em que eu tinha chegado . Perguntámos a alguém o que tinha acontecido e a resposta foi: “é a mulher de um médico que morreu ontem na picada com o rebentamento de uma mina” . Tratava-se de um colega do meu curso, que era também um artista fazendo exposições de pintura na Sala de Alunos . Depois de uma série de peripécias tinha sido obrigado a deslocar-se, para fazer uma autópsia médico legal numa aldeia distante . No regresso a viatura da coluna em que seguia tinha “pisado” uma mina .

Fiquei instalado no Luso-Hotel uma espécie de messe de oficiais onde era previsto ficar alguns dias aguardando a coluna militar que me levasse ao Lucusse . No Luso Hotel estavam hospedados os médicos que tinham sido colocados no Hospital Militar do Luso, cirurgiões, ortopedistas, anestesistas, radiologistas, patologistas clínicos e médicos em trânsito para as companhias que estavam no mato como era o meu caso. Eram cerca de 10 médicos que tomavam as refeições juntos, alguns acompanhados das suas mulheres . Ao jantar desse dia desafiaram-me para assistir na manhã seguinte à autópsia do médico falecido. Queriam provar que ele tinha morrido em anemia aguda por não lhe terem estanPreview

cado a hemorragia da perna direita, com que tinha ficado na sequência da explosão da mina. Tinha estado longas horas durante o transporte a sangrar antes de lhe ser aplicado um garrote . Desculpei-me como pude . Não era necessário mais um médico para testemunhar a autópsia .

Nessa noite com os meus colegas fui ao cinema local no clube Ferroviário, ver um filme de seu título, “O fim de semana alucinante”. Era um autêntico filme de terror que contava a descida de um rio por cinco pacatos cidadãos em que tudo ia acontecendo, num ambiente cada vez mais opressivo . Passava-se numa região de floresta, com inimigos que não apareciam e cuja presença apenas se adivinhava enquanto o grupo se ia reduzindo . O mais adequado para o meu estado de espírito nessa altura

No dia seguinte estando no Hotel descansado, na esperança como era costume de passar alguns dias na cidade antes de ir para a “guerra”, aparece um alferes à minha procura. Vinha do Lucusse à frente de uma coluna militar que tinha a missão específica de me vir buscar. Vinha expressamente enviado para me levar na volta e sem qualquer atraso . Mal tive tempo de arrumar as minhas coisas e lá tive de partir mais cedo . No caminho um soldado do recrutamento local pediu para ir a um quimbo (nome dado às aldeias indígenas) tratar de qualquer assunto . O que é certo é que, no meio da confusão das ruas e ruelas, nos perdemos . Entretanto tinha caído a noite e notava-se bem o nervosismo do alferes que comandava a coluna . Preview

Chegados ao aquartelamento do Lucusse apresentou-se-me um quadro surreal . O médico (um tenente médico mais velho que tinha sido “repescado”) tinha-se recusado a obedecer às ordens do comandante para se deslocar às companhias periféricas, destacadas do batalhão. Na sequência o comandante tinha-lhe dado ordem de prisão . O médico, por sua vez, ao tomar conhecimento da ordem, tinha dado baixa por doença a ele próprio com data anterior à ordem de prisão e não saía do quarto (assim se chamavam umas divisórias separadas por esteiras onde os alferes dormiam) . Estava estabelecido um impasse total que justificava a urgência com que me foram buscar ao Luso e que só a minha chegada, com a substituição do médico insubmisso, iria resolver .

E começou entretanto a minha guerra . De manhã era a consulta da população civil — acumulava as tarefas de médico militar com as funções de Subdelegado de Saúde pelas quais recebia uma avença . Tinha a preciosa ajuda do Sr . Pais, um enfermeiro africano com um grande conhecimento da população, dos seus hábitos e patologias e de uma grande eficiência. Ia traduzindo para português as queixas dos doentes, e para luena, o dialeto local, as minhas perguntas . Procurando uma melhor comunicação aprendi algumas palavras/frases em luena . “Tchichika chica” — febre “Uá putukala cumbilica”? — de que se queixa? Preview

2.4. Rotina em tempo de guerra

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