DELÍRIOS DE UM HOMEM FANTASMA
Em O Luthier dos 432 Hertz, o autor insiste na tríade energia-frequência-vibração. Mas é na frequência que este se demora: em como a sincronia ou a falta desta provoca equilíbrios ou desequilíbrios. No som, como na vida, é fundamental escolher uma frequência. E ter fé: até ao fim dos dias, é a frequência, bem como a sua fé, que liga a vida à harmonia. Só se muda realmente quando a dor presente na vida de todos os dias for superior ao medo de se mudar. Caso contrário, é porque a dor não aflige. Em Viagem entre Pella e Estagira, o autor discorre sobre a importância da viagem. Viagem exterior, viagem interior, encontros casuais, colisões. São estas que originam o novo. Só que o viajante é um velho ilustre. E esta viagem aconteceu mesmo. Ficção? Só mesmo as colisões. É que a viagem, sobretudo a interior, aconteceu de modo a concretizar uma humanidade que nunca mais foi a mesma.
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Sobre o autor: Esta é a sua primeira aventura pelo universo dos contos. Ao deixar aqui de lado os seus estudos sociológicos, de mercado e de comunicação, e cruzando o ensaio com a ficção, Pedro Rodrigues Costa deambula pela mente de três enormes vultos da História humana – Tesla, Aristóteles e Ibn Sina. O autor, de Fidelidade e Pós-Modernidade, de Refletir a Barca – Do Imaginário Social e da tese Entre o Ver e o Olhar: Ecos e Ressonâncias Ecrãnicas, despe-se das vestes do discurso académico e experimenta um estilo dostoievskiano.
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Delírios de um Homem Fantasma
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Pedro Rodrigues Costa
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Em Delírios de Um Homem Fantasma é feito um trajeto pelo labirinto de uma mente perturbada pelas vicissitudes da vida atual. Stress pós-traumático, ausência de vida social, propensão para o isolamento, entre outras anomias sociais, são temas que atravessam este conto. Mas é quando uma sensação de insignificância e de descontentamento máximo toma a dianteira que a coragem para arriscar uma saída se eleva, produzindo ações, reações e respostas em várias direções. Em que realidade vivemos, afinal? Eis a questão fundamental deste labirinto mental e a dúvida maior que crescerá no leitor mais atento.
E OUTROS CONTOS DELIRANTES
Pedro Rodrigues Costa
pedro rodrigues costa
DelĂrios de um homem fantasma E outros contos delirantes
FICHA TÉCNICA EDIÇÃO:
Edições Vírgula® (chancela Sítio do Livro) Delírios de um Homem Fantasma e Outros Contos Delirantes AUTOR: Pedro Rodrigues Costa TÍTULO:
CAPA:
Ângela Espinha Paulo R. Sousa
PAGINAÇÃO:
1.ª Edição Lisboa, Outubro 2018 ISBN:
978-989-8821-76-8 443836/18
DEPÓSITO LEGAL:
PUBLICAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO:
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delírios de um homem fantasma
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LUTHIER DOS 432 HERTZ Conto 1 Depois de uma pausa para ganhar fôlego, e no intervalo de um pedaço de madeira que artesoava em direção a um cavaquinho, o velho luthier respondeu à jovem impertinência do petiz: – Entre todas as coisas verdadeiramente bem construídas a que eu pude assistir durante toda a minha vida, havia uma constante: estavam todas formadas tendo por base o número três. O um era uma componente, o dois era outra componente e o três formava a síntese final. Mas não necessariamente com a mesma sequência. Nem se tratava de uma questão meramente quantitativa. Reparei apenas que o um e o dois tinham que estar, mais ou menos amadurecidos, ligeiramente afastados no espaço e no tempo. E a harmonia, essa deusa, ocorria somente nesse intervalo: exatamente, no extremo justo meio em que o terceiro elemento aparecia. O menino, mesmo sem perceber muito bem a mensagem a que se referia o ancião, olhava entusiasmado. Seria o movimento das plainas, ou o do martelo agastado, ou até o carinho com que o velho deslizava pela arte da luteria. Porque ali, nada era feito ao acaso. Todos os instrumentos musicais consertados, ou perfeitamente construídos, todas as ferramentas prontas a utilizar, todos os líquidos usados para proteger as madeiras, tudo estava ordenado por uma lógica, disposto por uma sequência,
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alinhado por uma afinidade. Tudo estava concentrado para permitir atingir a perfeição máxima da sua arte. Contudo, não obstante toda a simetria existente no processo, o menino demonstrava-se, ainda assim, um pouco inquieto. Preocupava-o uma coisa: o facto de aquele ancião estar ali, numa pequena aldeia, longe dos grandes centros e numa casa muito velha e quase em ruínas. Isso levara-o a questionar: – Porque não é rico, senhor? Sendo o seu trabalho tão perfeito, a sua dedicação tão imensa e o seu produto de enorme qualidade, porque vive aqui, nestas condições precárias? O velho fez uma pausa no que estava a fazer, dirigiu-se à prateleira onde estavam inúmeras guitarras, pegou em uma coberta de pó, limpou-a, afinou-a calmamente e emprestou-a ao menino, perguntando-lhe: – Sabes tocar? À resposta afirmativa do jovem, o velho artesão pediu-lhe: – Então, toca a música que mais gostas, com a maior vontade e carinho do mundo. O menino, entusiasmado, pegou na guitarra e começou a tocar a melodia que mais gostava e que mais havia ensaiado. ********** Quando acabara de o fazer, após concluir a última nota musical, era o próprio petiz que estava boquiaberto. Nunca antes tinha sentido, com aquela mesma música, um sentimento tão forte, uma emoção tão gigantesca, um som tão calmo e harmónico. Estava, ele mesmo, quase hipnotizado pela sua própria arte. Admirado, perguntou ao ancião:
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– Senhor, por que é tão perfeito o som das suas guitarras? Tão harmónico? Tão integrado? Parece magia! Por que não vende todos os seus instrumentos? O velho, enternecido pela preocupação, e respeitando aquele pequeno cliente que ainda há poucos dias lhe havia feito uma encomenda de uma pequena guitarra acústica, decide contarlhe uma pequena história: – Em 1943, aos doze anos de idade, mais ou menos com a tua idade, conheci um senhor sérvio. Estava ele a sair de uma conferência, no centro de Nova Iorque. Os meus pais diziam que ele era um grande mágico, mundialmente famoso. E inventor também. Tinha, nesse dia, alguns jornalistas a tentar entrevistá-lo, à saída do teatro onde foi dada essa conferência. Sem querer, naquela azáfama de jornalistas, cruzei-me de frente com ele. Estava já muito velho e parecia doente. Mas olhou para mim, sorriu-me honestamente e disse-me, de um modo ainda vivo e bastante teatral: «Se quiseres encontrar os segredos do Universo, pensa em termos de energia, frequência e vibração. Tudo o resto é acessório». Soube, alguns meses depois, que o senhor havia morrido. Mas como não me saía da cabeça aquela enigmática frase, procurei conhecer aquele homem, o que fizera da vida, que magia tão admirável fazia para o mundo. Vim a descobrir, tempos mais tarde, que a sua magia era a de cobrir o mundo com luz e de fazê-la passar por todas as casas do planeta. E que o seu nome era Nikola Tesla. Foi, no entanto, na música que a sua energia me entrou. Porque aquela frase arrastava em mim um enorme poder. Não é que a questão da energia fosse para mim coisa estrangeira. Mas já a insistência na frequência e na
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vibração fizeram-me pensar. Sobretudo porque, quando andava a aprender música, também o meu professor passava a vida a falar da frequência: «A frequência, a frequência! É necessário colocar essa frequência nos 432 Hertz.» – dizia insistentemente. Fui crescendo e aprendendo cada vez mais música. Gostava tanto de tocar guitarra, banjo e ukelele que decidi começar a fazer os meus próprios instrumentos. Fazia guitarras espanholas, portuguesas clássicas, braguesas e cavaquinhos. Tudo instrumentos de corda. Andava sempre atrás da afinação certa. O meu ouro eram os 432 hertz. Certo dia, com cerca de vinte anos, algures em 1950, abri uma loja de produção de instrumentos. Foi, inicialmente, um sucesso. Tinha inúmeros clientes, inúmeras reparações para fazer, inúmeras encomendas. De tal maneira que, a certa altura, a minha especialidade era quase só a de encontrar a frequência e a vibração certas. E a verdade é que aquela frase do mágico Tesla não me saía da cabeça. Lá está, era uma frase que tinha por base o tal número três, e no seu justo meio o segredo do Universo – energia, frequência e vibração. Sabes rapaz: tinha clientes de toda a parte do mundo! Recordo-me até de, certo dia, chegar uma encomenda de três grandes orquestras. Famosas mundialmente. Queriam mais de duzentos instrumentos de uma só vez. Estava a ficar conhecido por todo o mundo como «o misterioso artesão dos 432 hertz». A certa altura, os meus clientes até ganharam o hábito de me dizerem algo que eu achava hipnótico e mágico: que desde que me tinham comprado um instrumento cordofone, as suas vidas estavam mais alegres, mais harmónicas, mais simétricas e mais naturais. E a verdade é que na cidade onde vivia, sentia-se realmente mais harmonia depois de iniciar o
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meu sucesso de vendas. Porque até lá – recordo-me bem, não é falsa modéstia – raramente se recebia um cumprimento alheio, vivaço e enérgico. Eram raros os sorrisos nas pessoas que passavam; curtas as interações que se estabeleciam. E após as minhas vendas dispararem, na rua a alegria reinava, o sorriso era uma constante, os cumprimentos e as conversas tornaram- ‑se mais vivos. Havia uma espécie de ressonância harmónica entre as pessoas. E a música, essa, gerava felicidade. Os músicos tocavam nas esquinas e as pessoas abrandavam, descontraidamente. O problema é que, em 1953, a International Standards Organization (ISO), nos Estados Unidos da América, aprovou a uniformização mundial do som, estabelecendo o padrão sonoro nos 440 hertz. A partir daí, editoras, músicos, rádios e televisões acabaram por alterar a frequência sonora para esse registo. Inicialmente não se sabia bem o porquê dessa exigência. Só depois de vários artigos de jornal e denúncias é que se chegou à conclusão que tal estratégia servia para monitorizar e controlar os nazis. Havia o rumor de que, desde 1938, com o ministro da propaganda nazi Joseph Goebbels, as comunicações haviam passado para essa frequência precisamente para tornar os cidadãos alemães, e não só, mais agressivos, mais agitados e emocionalmente mais instáveis, justificando facilmente a urgência de uma nova guerra. Desse modo, os indivíduos entravam mais facilmente em ressonância com um sentimento que interessava à estratégia de guerra. O menino, intrigado, interrompe: – Senhor, o que é uma ressonância? – Ah sim! Esqueci-me que ainda és muito jovem. A ressonância é um fenômeno pelo qual um corpo sonoro vibra
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ao ser atingido por vibrações produzidas por outro corpo. Neste caso, a ideia é que o som em 440 hertz iria afetar os corpos humanos com a sua maior estridência e dar-se-ia uma ressonância estridente maior entre esses. Depois, esses mesmos em contacto criariam também entre si uma ressonância de acordo com a ressonância vinda dos 440 hertz. O que era perfeito para a estratégia nazi. Dar-se-ia uma transferência de energia, de um sistema oscilante para outro (da música para o humano) a 440 hertz, após a existência de ressonância e contacto entre indivíduos. Entendes? – E as pessoas estão sujeitas às mesmas leis dos objetos que fazem barulho? – pergunta admirado o menino. – Sim, basicamente sim. Se os objetos produzem determinada frequência e vibração, as pessoas, enquanto seres em permanente adaptação ao meio, tendem a entrar em ressonância com esses mesmos. Essa ressonância não é direta. É psicológica. Mas afeta. Entendes? – Ah! Mais ou menos! Mas o que é que isso tem a ver com a história que me estava a contar? – Pois! Deixa-me então continuar e já percebes: – Após essa alteração de frequência para os tais 440 hertz, aconteceu um revés na minha oficina. É que eu nunca aceitei bem essa mudança. Como disse, eu tocava e era especialista em encontrar a frequência a 432 Hertz. Aliás, ao experimentar pela primeira vez afinar uma guitarra pela frequência de 440 Hertz, achei que estava tudo errado. Tudo desafinado. Não sentia harmonia, sabes? Era como se algo estivesse fora do sítio. Até experimentei ir à beira de um riacho, onde habitualmente testava os meus instrumentos, para criar a tal ressonância e afinação com a água corrente. Mas foi um horror. Sentia tudo
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dessincronizado. Até me enganei a tocar alguns acordes. E pior: sentia-me diferente. Mais pessimista, mais zangado, mais irritado. Aquilo afetava as minhas emoções. Então, decidi que nunca iria afinar os meus instrumentos por aquela diabólica frequência situada nos 440 Hertz. Continuei como até ali, com a frequência que eu achava natural – os 432 hertz. No entanto, dia após dia, perdia mais e mais clientes. As pessoas andavam maldispostas, desconfiadas, irritadas. E desconfiavam de mim por eu não ter mudado a frequência. Creio que começaram a temer o facto de eu querer usar apenas a minha afinação. O pior é que na rua se notava outra vez a má disposição, o semblante triste e carregado, a desconfiança. Mas desta vez com um vigor ainda maior do que anteriormente. Instalou-se a coscuvilhice, a inveja, o maldizer. Até as caminhadas na rua eram mais tortas, menos simétricas, menos harmónicas. As pessoas viviam fechadas entre si, numa oposição constante, sem meio-termo. Ou era tudo ou era nada. Da extrema felicidade passaram para a extrema tristeza. Da extrema concordância passaram para a extrema oposição. A divisão voltou a reinar. Certa ocasião houve até um tumulto tão grande, uma discussão tão feia, que todos os envolvidos, quase que sem mais, começaram à pancada e só pararam na cadeia. Foram dias e dias cinzentos… E eu lá fui ficando sem clientes. Tive que fechar a oficina, um ano depois. Fiquei sem trabalho até que tive de ir trabalhar para a construção de móveis. Tornei-me num carpinteiro. De luthier especializado passei a produtor de móveis. Mas era fraco trabalhador. Sem a minha vida e a minha frequência, sem os meus instrumentos e a minha melodia, era mais um entre a multidão. Banalizei-me.
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********** Após um pequeno silêncio, o menino volta a interromper: – Senhor, deixe-me fazer uma pergunta: qual é a frequência dominante, atualmente? – É a mesma desde então: os 440 Hertz! – E qual é a frequência da guitarra que acabou de me emprestar para tocar? – É a de 432 hertz. – Então por que é que, passado tanto tempo, o senhor ainda não alterou o som para os 440 hertz? – Essa é uma boa pergunta, meu jovem. Mas hoje sei responder-te com maior clareza: a vida é extremamente dura. Sejamos ou não coerentes. No final, só te resta a tua consciência, aquilo em que tu acreditas. Eu, pessoalmente, acredito cada vez mais que iremos todos, mais cedo do que mais tarde, regressar à minha frequência…
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VIAGEM ENTRE PELLA E ESTAGIRA
Ao contrário do que acontece nos dias de hoje, em que de automóvel se faz em cerca de uma hora, no ano 340 a. C. demorava aproximadamente um dia longo de sol a fazer-se uma viagem a pé entre Pella e Estagira. E a passo bastante ligeiro… Depois de três anos a instruir Alexandre, e já com quarenta e quatro anos de idade, o estagirita sentia que era tempo de voltar a casa, enfrentando essa viagem. O objetivo era o de gerir as propriedades que Nicómaco, seu pai, lhe havia deixado. Mas talvez mais do que isso: já numa idade adiantada para a época, talvez fosse tempo de Aristóteles repensar toda a sua vida. ********** Antes de deixar Alexandre, o estagirita respondeu à pergunta que o jovem lhe fizera sobre o porquê da sua viagem de regresso: «Meu jovem amo, todas as coisas têm o seu lugar próprio na disposição da natureza». E, depois de o dizer, sob uma amena brisa matinal anunciando, como de costume, um tórrido dia de julho, Aristóteles partiu. Com um pano grosseiro a fazer de sacola de viagem, vestido com um manto singelo e branco que lhe cobria o corpo atarracado e as suas finas pernas, seguiu em direção à sua terra natal. **********
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Por entre longas planícies, caminhou primeiramente em direção à atual cidade de Chalkidona. Pelo caminho, alguns agricultores acenaram-lhe, reconhecendo-o como sendo o mestre de Alexandre, futuro rei da Macedónia. Ao passar perto de um velho agricultor, ocupado com a sua lavrada, contudo atento ao ilustre caminhante, Aristóteles é instigado por uma pergunta curta, mas extremamente complexa: – Sábio, qual é, para si, a grande qualidade que o jovem Alexandre deverá possuir? Abrandando o passo até parar, Aristóteles respondeu calmamente: – A coragem! É a primeira das qualidades humanas, pois garante a existência de todas as outras. Sem mais dizer, o estagirita retomou a caminhada. Mas ouviu, de passagem, já mais afastado, a mulher daquele que lhe fez essa pergunta, dizer qualquer coisa como: «Oh! Os sábios nunca dizem tudo o que pensam mas no fim pensam sempre em tudo o que dizem…». Após esse comentário, Aristóteles esboçou um pequeno sorriso, ajustando, no entanto, o passo a um ritmo mais acelerado. Chegado a Chalkidona, a meio da manhã, dirigiu-se a uma taberna para molhar a boca. A viagem havia proporcionado sede. Ao fazer o seu pedido, é também reconhecido pelo taberneiro. Este, ao servir-lhe uma caneca de água fresca, perguntou-lhe: – Acha que, tal como a água, o futuro rei Alexandre será perfeito? Depois de beber, de um só trago, a água da caneca, Aristóteles respondeu:
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– A água, segundo o velho Tales, é a origem, é o permanente e é a causa. Em suma, diz o velho sábio de Mileto que ela é a natureza primeira de todas as coisas. O jovem Alexandre nunca poderá ser como essa água de Mileto. Mas será, certamente, comandado por uma finalidade interna maior do que ele mesmo, uma espécie de inteligência ordenadora, impressa no seu corpo. Essa inteligência ordenadora fará com que ele, tal como em todos nós – seres vivos –, alcance a perfeição que lhe é própria. Esperemos é que essa perfeição que lhe é própria seja a perfeição que também todos nós, enquanto coletivo vivo, precisamos doravante. Dito isto, o estagirita fez-se novamente ao caminho. Tinha que chegar a Agios Athanasios por volta da hora da pausa para almoçar, para cumprir metade da viagem no tempo que havia definido. Todavia, pelo caminho, um jovem apressado correu em sua direção. Ofegante, à sua frente, a tentar controlar a respiração, perguntou-lhe: – Mestre! Mestre! Sempre é verdade que as ideias não existem fora dos humanos? Que, ao contrário do que diz o outro mestre (…), não seguem num coche conduzidas por um arquiteto e que não vivem num mundo extra-humano? Ao invés de responder à pergunta, Aristóteles questiona a sua pressa. E o transeunte responde prontamente: – Quero rapidamente a verdade, pois sei que perante essa o menor desvio inicial multiplica-se ao infinito à medida que se vai avançando. Aristóteles, admirado com tão poderosa proposição, responde: – Muito bem, meu jovem! Mas se queres a verdade dita por mim, não estarás já a responder à pergunta que me fizeste? Não estarás já a querer a verdade vinda de fora de ti?
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– Como assim, grande sábio? – A verdade do bem não existe por si mesma. Pelo contrário. O bem é antes o cumprimento da tendência que impele todos os seres para a sua própria perfeição. Ou seja, a verdade do bem que eu atinjo é mediante a minha perfeição e não mediante a perfeição de um bem exterior a mim mesmo. Creio que para não te desviares da verdade que procuras, deverás olhar para dentro de ti. Após este pequeno diálogo com o jovem apressado, o estagirita, também ele, apressou-se em fazer-se ao caminho. Tinha ainda uma longa jornada até repousar para comer. Mas aquela poderosa proposição não lhe saía da cabeça: «Perante a verdade, o menor desvio inicial multiplica-se ao infinito à medida que se avança». Pensou, ainda sem saber bem como, que sendo correta a proposição, teria que relacionar-se de algum modo com o movimento. Aquele que nunca poderia ser impossível, ao contrário daquilo que julgava o velho Parménides. Porque sentia já ali que o movimento é a verdade à procura de si mesmo. Se esta não se desviar interiormente, estará no caminho certo. E isso fez lembrar-lhe uma e outra vez esse velho filósofo, da sua ideia de que o movimento seria impossível, caso contrário o não-ser poder-se-ia tornar em ser… No entanto, enquanto aprofundava o pensamento sobre a questão, tropeçou numa pedra. Quase caiu. Olhou para a pedra e pensou: «Se estavas aí é porque estavas no teu lugar. Eu é que me deveria desviar». Mas, fitando-a com mais atenção, alargou essa reflexão: «Tu és uma pedra. Estás no teu lugar no seio da natureza. Não és uma árvore nem um rio. Se fosses árvore poderias ser um banco. Se fosses rio poderias ser mar e chuva. Como não és nenhum
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destes, nada podes ser a não ser pedra. Ou melhor, espera: podes ser trabalhada para seres estátua! Mas não podes ser árvore. Então espera: podes ser estátua, mas nunca uma árvore! E assim sendo não és uma determinada coisa nem podes vir a sê-lo, mas podes ser outra. Se não és árvore, és um não-ser absoluto (não és nem podes ser). Se não és estátua mas podes vir a sê-lo, és um não-ser relativo (não és, mas podes vir a ser esculpida)». E foi assim que, depois de tropeçar na pedra, Aristóteles pensou na ideia de verdade em potência e na ideia de verdade em ato. E que há movimento impossível (uma pedra ser pau), mas também movimento possível (uma pedra ser estátua). O que não é mas pode vir a ser, encontra-se em potência (a semente é árvore em potência). O que atualmente é está em ato (a árvore é árvore em ato). Então, concluiu interiormente: «O movimento é essa passagem da potência ao ato». Alegre pela emoção da reflexão, mas ligeiramente dorido no pé que embatera na pedra, pois que desprotegido por umas simples sandálias rasas, continuou a viagem, chegando sem mais percalços a Agios Athanasios. Tirou da sacola que trazia, dois pães de cevada, alguns figos secos e algumas nozes. Faltava-lhe apenas o vinho. Felizmente, perto de onde se instalara, uma fonte de água brotava alegremente. Começou a comer. E comendo um dos pães, fitou o outro. Pensou na cevada. E, com a mesma ideia que tinha tido quando embatera na pedra, refletiu sobre a sua matéria: «A cevada não é pão. No entanto, torna-se pão com o trabalho humano. Com esse trabalho, dá-se uma mudança acidental. Não se muda a essência da matéria cevada, mas forma-se algo novo. Permanece no pão a matéria cevada. Logo, a matéria cevada é potencialmente pão. Então, a matéria é
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potência. A ideia que algum humano teve, transformando a cevada em massa e a massa em pão, deu esta forma à cevada. A cevada não era pão, mas passou a ser. Passou a ser graças à nova forma que lhe foi dada. Logo, a forma determina as suas atividades. E suas atividades passam a ser a sua essência e a sua natureza: o pão, sendo de cevada, não é mais cevada, mas antes pão. Mesmo que eu olhe para a cevada em seu estado puro e a veja como um pão, ela não é pão. Do mesmo modo que ao olhar o pão, eu já não tenho diante de mim cevada, mas antes pão. Logo, as ideias que eu tenho sobre uma coisa, portanto exteriores a essa coisa, não são a essência dessa coisa. O pão é pão porque a forma de pão, juntamente com a sua passagem ao ato, estava já impressa na cevada (mesmo já não sendo cevada) e não em minha ideia. As formas são a essência que estão já nas coisas. Não em ato, mas antes em potência. Assim, forma e matéria formam a causa intrínseca da cevada, que depois geram pão e outros que tais. O agente produtor de movimento e a causa final encontram-se fora até que possam aparecer e agir. A cevada torna-se pão porque a forma intrínseca se atualiza na matéria por um princípio de imanência, comandado por uma causa eficiente que pretende um fim coincidente com a forma gerada. Resumindo, não foi o homem que criou o pão a partir da cevada, mas antes Deus – seja lá o que isso for.» Depois de refletir e de comer, apressou-se a fazer-se à estrada. Precisava de chegar a Scholari a meio da segunda parte da tarde, por volta da dúzia e meia de horas do dia. Em julho, seria dia até bem depois da hora do jantar, mas a viagem era ainda longa até Estagira. Atraídos pelo cheiro dos restos de comida que sobraram, e que o estagirita trazia consigo no seu pano de alça, dois cães
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se aproximaram. Vindos de frente, pelo caminho, pareciam trazer às costas uma força quase em chama ardente. Mas não, era apenas o calor abrasador do sol, no seu pico, sobre os seus corpos. Esse efeito visual, gerado pelo calor a abrasar nos corpos dos dois cães que se aproximavam, assemelhava- ‑se a uma espécie de aura em torno de cada um daqueles dois viventes. Tal paisagem fê-lo recordar novamente Platão, seu antigo mestre. A aura meio invisível formada pelo efeito do sol sobre os corpos que se moviam, recordou-lhe a alma invisível de que lhe falava o maior aluno de Sócrates. Mas Platão dividia a alma em duas metades – a da vida e a do conhecimento. Aristóteles, ao olhar os cães, imaginara antes essa mesma alma como princípio das suas vidas. Tal como o calor a evaporar dos corpos, vistos num plano raso, parecia formar uma aura que acompanhava os viventes, também se poderia especular sobre uma alma que acompanharia a vida e formaria o seu princípio em cada e qualquer tipo de vivente. Um dos cães, num devir muito dócil, utilizou uma estratégia para seduzir o estagirita a ceder um pouco de seu pão. O outro, mais desinteressado, permaneceu mais afastado. Dava a sensação de que combinaram como fazer: um pedia e o outro sossegava. Aristóteles questionara também isso, interiormente: «Ao contrário do que afirmava o meu mestre, como podem existir dois modos de alma separados nos viventes? O conhecimento intelectual não está separado do princípio vital. É neste que reside o primeiro. Caso contrário, estes cães possuiriam duas almas afastadas. Como é possível isso, se tudo neles se revela perfeitamente harmónico: a sua fome e a sua inteligência para sobreviver? Como é possível que alma e corpo não estejam senão unidos?»
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Sem respostas ainda para estas questões, Aristóteles distribuiu um pedaço de pão para cada um dos cães. E continuou a viagem. Mas mais à frente, junto à berma do caminho, um outro cão jazia morto. Tinha vestígios de luta. E o sangue estava ainda fresco. Na zona da barriga, tripas saíam do interior. Perto do focinho, um dos olhos estava saliente. Aristóteles estaca. Começa a falar com o cão como se este estivesse vivo. Pergunta-lhe se a sua alma ainda lá mora. Se ainda está viva. Quer tirar a dúvida: «Será que se o corpo morre, a alma também morre? Se não morreu, se seguiu para o lugar das ideias como diria o mestre Platão, onde estará ela agora? Estará o mundo celeste cheio de almas de ex-viventes?» Subitamente, por detrás de uns arbustos perto dali, apareceu um outro caminhante. Tinha feições egípcias. Tez escura. E ao que parece, ouviu a conversa do estagirita com o cadáver canino. De passagem, fez o seguinte comentário: – Há um hebraico, a quem lhe chamam «o tirado das águas», que diz que há um Deus que leva a alma dos viventes para o seu reino. E de forma imediata, logo que a morte chega. Diz que a alma é eterna, e que fica no reino de Deus para sempre, somente para se aperfeiçoar. Acredite nisso, porque se assim for não valerá ter pena do cãozinho. Aristóteles, surpreso pelo mistério dito por aquele caminhante, pergunta: – E quem é esse «tirado das águas»? – Não sei o nome. Mas sei que se referem a ele como sendo o profeta do demónio Demiurgo – o criador do mundo material. Ele até diz que o entendimento incorruptível e imortal já está na matéria, em todos os viventes, mas que não há forma de lhe aceder sem a morte. A morte é a purificação da alma.
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Aristóteles ficou pensativo: «Demiurgo? O mestre Platão usava esse nome…». Mas ficou ainda mais «parado» mentalmente na parte do entendimento incorruptível e imortal. Parecia atingido por um raio de luz. Só que, quando despertou, já o caminhante havia desaparecido. Embora a vontade fosse a de dissecar já ali aquele cadáver, à procura de respostas por intermédio dos seus típicos estudos biológicos, Aristóteles olhou para o sol e percebeu que deveria continuar sem parar. Caso contrário, chegaria a Nea Apollonia fora de tempo. A meio da segunda metade da tarde, eis que o estagirita chega a essa bela cidade apeadeira. Mais uma vez, para se refrescar do calor abrasador, demora-se junto de uma fonte a beber com a ajuda das mãos. Sentada por perto dessa fonte estava uma menina, ainda longe da puberdade, com um pau a tentar escrever no chão. Aristóteles, curioso, perguntou-lhe: – Estás sozinha? Não tens amigos com quem brincar? – Não. Aqui em Apollonia há poucas crianças. E as que há não querem brincar comigo. Os meus amigos são os paus. Aristóteles ficou entristecido. Tanto como a menina. E sentou-se perto dela, dizendo-lhe: – Não faz mal. Olha, se eu fosse daqui serias a minha melhor amiga. Se quisesses, claro! – Oh, porquê? Eu não tenho nada para te entreter. Não tenho brinquedos. – Não faz mal. Mesmo que não tivesses forma de brincar, se eu vivesse aqui e tu não fosses minha amiga, seria muito triste. Sabes, sem amigos ninguém escolheria viver, mesmo que tivesse todos os outros bens. Tu vales mais do que mil e um brinquedos que os teus amigos têm. Nunca te esqueças disso.
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A menina sorriu. Pediu para ele lhe fazer um desenho. Aristóteles desenhou um cão, e à volta deste a sua alma. A menina voltou a sorrir e saiu a correr, dizendo aos pais que havia encontrado um novo amigo… ********** O estagirita voltou ao caminho. Tinha que chegar a Stavros antes do anoitecer. Queria mirar a bela ilha de Samothrace, no mar Egeu. E queria ver também, de um alto perto do caminho, a costa asiática, o continente pelo qual, desde criança, sentia enorme fascínio. Até porque esse miradouro encerrava mais uma magia que ele pretendia alcançar: dizia-se que dali, num belo dia de sol, era possível ver um enorme farol que estava por aquela altura a ser construído… Passados meia dúzia de quilómetros, quase a chegar à cidade de Stavros, encontrou um acampamento de guerreiros persas. Temeu pela vida. Pensou que o iriam reconhecer como o mestre de Alexandre. E assim aconteceu. Lá do acampamento alguém o chama de «Aristóteles», perguntando: – Filósofo, qual foi o maior ensinamento que transmitiste a Alexandre, futuro rei da Macedónia? – Creio que aprendi mais do que aquilo que ensinei. É sempre assim o processo de ensino. Mas recordo-me de lhe ter dito algo que, pela sua insistência sobre o assunto, decerto o marcara: que no fundo de um buraco ou de um poço, acontece descobrir-se as estrelas. Creio ser o lugar para o qual o jovem Alexandre deverá olhar quando estiver no abismo… Nisto, três guerreiros persas aproximaram-se ainda mais. E com um tom bastante ameaçador. De armas em punho. Um desses perguntou:
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– Viajas sozinho, grande sábio? Sabes que é perigoso? – Não. Nunca viajo sozinho. Estou cheio de outros em mim. E já tantos outros tinha que agora, após esta viagem, mais outros entraram. Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é Deus. Como eu não sou nem uma coisa nem outra, procuro sempre a companhia e a sua paz, nunca a solidão. Mesmo que caminhe sozinho. – Zangar-se-ia se um de nós o matasse? Se um de nós o impedisse da sua viagem? – perguntou ironicamente um dos guerreiros. – Creio que qualquer um pode zangar-se. Isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa, não é fácil. Por isso, compreenderei e não me zangarei se não me deixarem passar. Mas creio que devereis pensar o mesmo sobre mim. Porquê me impedir a passagem se eu não sou a pessoa certa, no momento certo e na hora certa para vós vos zangardes? Dito isto, um dos guerreiros acenou a cabeça ao mais ameaçador, como se lhe dissesse para o deixar seguir. E assim o estagirita pôde continuar o caminho. ********** Ao chegar ao miradouro de Stavros, Aristóteles encontra a felicidade. Exclama mesmo em voz alta: «O meu caminho é a minha felicidade!». Olhou para o mar Egeu e chorou de alegria. Lembrava-se de seus pais e de como foi feliz, enquanto petiz, junto ao mar. Sente que doravante é tempo de continuar a sua felicidade. E está cada vez mais desejoso por chegar a Estagira, a qual já se dava a ver por intermédio das suas luzes.
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Ao caminhar junto à costa pensou: «Serei feliz em Estagira a fazer o que gosto: pensando e escrevendo sobre filosofia nos intervalos dos meus afazeres de agricultor. Cada ser humano é feliz, realizando a atividade que lhe é própria e natural. A minha será, em Estagira, a fazer agricultura e filosofia.» Sem parar, acelerando cada vez mais o passo como se fosse uma criança a tentar chegar a um doce, Aristóteles percorreu toda a costa entre Stavros e Estagira. E viu e sentiu a esfericidade do Sol no seu pôr, bem como a magia e a força que esse liberta sobre a nossa querida Terra. Ao contemplar aquele belo e lento pôr do sol, que o acompanhou até Estagira, fica com a certeza de que a felicidade total é esférica, pois exclama: «Tudo o que é perfeito é imensamente esférico! E, tal como o Sol, também a Terra o deverá ser, já que só poderá ser bafejada por esse se a sua posição e a maneira de seu repouso ou movimento forem perfeitos». E foi aí que concluiu que: «A forma do planeta Terra só poderá ser esférica». Já a chegar perto de Estagira sentiu que a sua felicidade estava quase perfeita. Esférica! Mas algo o inquietava ainda. Não sabia bem o quê. A sua esfericidade ainda não era total. Sentia, tal como dizia o velho Heráclito, que o seu devir estava ainda entre o não-ser que era e aquele ser que queria vir a ser. Sentia que esse ser completo que queria vir a ser ainda não se revelara totalmente. Mesmo assim, estava extremamente feliz. Aprendeu que num só dia cabem todas as inteligências do mundo. Cabe aquilo que era, aquilo que é e aquilo que será. A viagem entre Pella e Estagira havia sido muito mais do que uma simples viagem. Constituía aquilo que Aristóteles fora, aquilo que viria a ser e aquilo que ele hoje ainda é: «Como um só dia pode ser
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uma tão poderosa acha de lume na impiedosa fogueira que é a individuação humana» – pensou o estagirita. Ao chegar perto da casa de seus pais, mas ainda a uns bons cem metros do arco da grande porta de entrada, um velho caseiro reconheceu o «menino». Correu até ele. Abraçou-o como se de um filho se tratasse. Como se fosse a última vez. E caminhando a par, abraçados em direção a casa, foi- ‑lhe noticiado com entusiasmo que a bela Pítia, irmã do seu amigo e já falecido Hérmias, estava na cidade a passar uns dias. Aristóteles sorriu, como que preenchendo o pedaço de esfericidade que lhe faltava… ********** Notas do Narrador Viagem. Caminho. Individuação. Ao lado realista desta viagem, que de facto aconteceu algures no tempo de Aristóteles, o narrador acrescentou um lado ficcional que pretendeu somente demonstrar o potencial típico do processo aristotélico: individuação e dobra constante de ideias imanentes – aquilo em que ele sempre acreditou. Qualquer uma das personagens que lhe apareceram no caminho, inclusive a pedra e os cães, poderiam ter acontecido. Em potência. Mas há uma certeza: todas as dobras e individuações temáticas e éticas que aqui foram descritas aconteceram algures nas suas diversas viagens de vida, até que a abertura do seu Liceu em Atenas lhe permitisse, cinco anos após esta viagem, a exteriorização e a clarificação magistral das suas ideias. Como ele mesmo diria, a sua perfeição interna fora alcançada e encontrada ao longo de inúmeras viagens,
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onde alma e corpo se uniram até revelarem o simples, mas sempre necessário e único processo vital de individuação.
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Conto 3
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DELÍRIOS DE UM HOMEM FANTASMA
I Sou um homem fantasma. Penso como um homem fantasma. Vivo como um homem fantasma. Acho até que nunca fui outra coisa senão um fantasma. Agora, de tão fantasma que sou que já me tomam por indiferente. O que é positivo: se o fantasma assombra, o indiferente passa despercebido. Talvez algures no intermédio esteja eu mesmo: alguém que nunca desejou palco mas que nunca deixou de querer assombrar a vida. A princípio, sofria imenso quando percebia no outro a minha presença fantasmagórica. Ao lado de um amigo, ou de um conhecido encontrado casualmente, pouco mais me sentia do que uma sombra da sua conversa quando um terceiro elemento se juntava. Muito semelhante àquela velha mobília, ignorada por todos durante uma celebração grupal, na esquina de uma sala com novos sofás e elegantes cadeirões e candeeiros; ou então, como um simples candeeiro de beira da estrada, que ilumina os outros mas que só é atentamente observado quando deixa de iluminar os que passam. Lentamente, fui-me então resignando à condição de fantasma. Na rua, desde muito novo, quase sem querer, ou então correspondendo a um psicossomatismo sombrio e pouco esclarecido, comecei a esgueirar-me para as sombras. Ou a fugir da luz do sol, ou à procura do anonimato, ou até a evitar os cumprimentos que já não desejava dar.
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Dei por mim a escolher apenas roupa preta para me embrenhar nas sombras, a pensar em formas de passar na rua sem ser visto, a querer sair de casa à hora que os outros recolhiam. Procurei até o chapéu certo para me ocultar a identidade, a gabardina perfeita para esconder as formas do meu corpo, os óculos perfeitos para esconder as minhas curvas faciais. Quando o olhar de outrem me ignora ao ponto de me fazer fantasma, mais eu fico com a sensação de que tudo em mim é embaraço e que talvez esconder a própria vida seja a melhor das soluções. Mas não era apenas no comportamento para com o social que me adentrava fantasma. Era também nas ideias. Sempre que na escola tinha uma ideia, preferia dá-la a outro, colocar o outro a falar por mim, roubar-lhe a sua boca, as suas palavras, a sua mente a favor do que me interessava. Se calhar, para fazer como todo o mundo me fez a mim quando me educou… Portanto, eu não fazia as coisas. Mandava fazê-las. Com essa estratégia, o centro das minhas ideias havia-se deslocado – de mim para outrem até chegar a mim em coisa. Delegava. Delegava-me. Individualmente, manobrava os poucos amigos que ia tendo e fazia-me longe através deles. Era, e ainda sou, como que uma espécie de sopro no ouvido, de bafo constante, de brisa na mente. Já aí estava, nessa altura como ainda hoje, muito distante da imperiosa mas muito atual lei social: ficava- ‑me pela sabedoria do ser, deixando a sabedoria do parecer para os outros. ********** Recordo-me de certo dia, num final de tarde chuvoso, escuro e de inverno, onde vesti a minha gabardina, pus o meu
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chapéu, coloquei os meus óculos ridículos e segui «feliz» em direção aos cantos mais escuros e sombrios das vielas de Praga, somente para saborear a triste vitória da presença fantasmagórica que se tornou a minha vida. Nesse momento eslavo, dei por mim parado, de guarda-chuva aberto, com o chapéu negro colocado, à espera de um autocarro sem destino, de uma viagem sem regresso, de uma triunfante partida para a terra de nenhures. E pior: sentia-me triunfante. Estranhamente triunfante. Hipnoticamente triunfante. Partir sem destino, a uma hora não programada, suava-me a uma morte sem fim – porventura, a maior das liberdades. Porém, aí, subitamente depois de ser percorrido, corpo adentro, pelo eco de um chamamento desesperado pelo meu nome, ainda que confundido com outra pessoa qualquer que passava e que não eu, despertei desse momento triunfante em que estava prestes a deixar de ser homem para me tornar verdadeiramente num fantasma: porque a pistola, essa, tinha-a no bolso direito; e a vontade, aqueloutra, era a de enfiar uma bala na cabeça. Só que, entretanto, no bolso esquerdo, um estranho Post-it jazia junto à fazenda das calças, fazendo-me lembrar estranhamente de uma mulher, Janet… E assim, mais uma vez, como foi e tem sido habitual, acabei por recolher, desanuviado pelo sobressalto, entristecido, acobardado, para a sombra do quarto alugado e vazio em Praga. ********** Quando penso nesta minha realidade fantasmagórica e sombria, sinto que é facilmente explicável pelo passado. Por alguns acontecimentos da minha infância. Creio que grande parte da personalidade e da maneira de ser e de sentir são
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