ie
ev
Pr w
O CASTELO DO LOUCO
ev
ie
w
Tiago Videira
Pr
Ilustrações de Ana Margarida Godinho
FICHA TÉCNICA
w
Edição: Vírgula (Chancela do Sítio do Livro) Título: O Castelo do Louco Autor: Tiago Videira
ie
Capa: Sítio do Livro
Imagem da Capa: Tiago Videira
Ilustrações: Ana Margarida Godinho 1.ª Edição
ev
Lisboa, 2010
Impressão e acabamentos: Agapex
Depósito legal: 304029/09 ISBN: 978-989-20-1854-6
Pr
© Tiago Videira
Publicação e Comercialização Sítio do Livro, Lda. Lg. Machado de Assis, lote 2 — C 1700-116 Lisboa www.sitiodolivro.pt
w
Pr
ev
ie
De Sรกbio e de Louco, Todos temos um pouco...
ie
ev
Pr w
— O Castelo do Louco —
I
w
O Castelo do Louco
ev
ie
O Louco era um daqueles rapazes solitários, que se auto proclamava de génio, e procurava sobressair em tudo aquilo que fazia, mesmo que o que fzesse fosse algo próximo do limite de uma função quando tende para zero. Refugiava-se noites a fo no seu quarto, para fugir do sol, e sentava-se ao computador a escrever linhas desenfreadas de prosa sem sentido, ou então, com um sentido que só ele conseguia entender. Dizem que fazia isso para espantar a solidão de um coração desesperado que não conseguia comunicar nem ligar-se a alguém e, assim, os parágrafos, que depois escorriam por tudo quanto era sítio, eram a sua forma de se perpetuar no mundo.
Pr
O Louco tinha também alguns fetiches existenciais quando o sol desaparecia durante o dia. Nos dias de bátegas violentas gostava de fugir por Lisboa fora, atravessar o barco até Cacilhas, e rumar pelo ginjal. Ali, nos barracões abandonados, montava o seu castelo num cenário aparentemente aterrador: a massa negra das águas do Tejo, pútrida e odorante, atirava-se contra o esguio cais e as lâminas de chuva fustigavam os decrépitos tijolos que ainda ali resistiam e ele encafuava-se nos armazéns e mirava a silhueta de Lisboa por entre as grades. Por vezes não resistia a tirar fotografas degradadas, em posições duvidosas, ou então simplesmente fcar a meditar sobre traças calcinadas pela manhã. Raramente lhe dava a fome mas quando
— 5 —
— Tiago Videira —
ie
w
apertava havia ali um restaurante brasileiro, perdido a dois passos, que lhe servia de guarida e por uns bons trocados deliciava-se a degustar cogumelos salteados com alho e um manjar branco a relembrar os peitos de uma qualquer Vénus. O Louco, nessa altura, fcava sempre saudoso por não ter amor. O seu coração, dizem, fcara gelado desde que sofrera uma traição imperdoável, num Verão distante, e desde então nunca mais fora o mesmo. Há quem saiba que foi mesmo aí que tudo começou, a loucura, o porquê dessa existência nefasta, dessa diarreia verbal, de todo um desconstruir de ideias à velocidade da luz qual Pessoa na noite em que escrevera mais de trinta poemas.
ev
Quando o sol brilha de novo o Louco contorce-se, no seu castelo em ruínas, e é salvo pelo beijo terno de uma apaixonada antiga, mas de terno só mesmo ela porque o Louco, esse, já nada sente e simplesmente se deixa levar. Há quem diga que o Louco não vive, apenas existe, seja lá o que isso for. Depois correm os dois pelo cais fora até ela se atirar ao Tejo e ele ser esmagado por uma nuvem passageira.
Pr
Outros dias há em que o Louco gosta de se rebolar pela ponte fora assustando os carros, e os passageiros, provocando tragédias. Depois, enquanto um ou outro anónimo vocifera impropérios, ele simplesmente ri-se sarcasticamente e abandona o local, dali para fora, para se entregar a endireitar a relva pisada dos jardins. No fnal de tão meticuloso trabalho acorda exausto, na sua cama, e repara que o dia já quase passou e está na hora de mais um serão vampírico. Dedica-se a ir comer qualquer coisa à cozinha e volta para o computador para gastar mais neurónios, luz e linhas, muitas linhas, até nada mais fazer
— 6 —
— O Castelo do Louco —
sentido e então tudo fazer sentido pelo pouco sentido que tudo faz.
w
É então que se apercebe que está preso a uma noite, a uma rotina sem saída, e chora baixinho com medo que alguém o ouça. Pede ajuda a quem não existe e suspira pela piedade dos anjos. Depois, reconhece a sua fraqueza e arma em forte para não deixar que ninguém o conheça.
Pr
ev
ie
Naquela manhã, especial, saiu sem dormir, de cabeça levantada e peito erguido, e enfrentou o sol. Enfrentou o mundo. Passava na rua pelas pessoas com um sorriso e quase não se reconhecia. Entrou num autocarro e viu as caras macambúzias de quem se levanta de madrugada para ir trabalhar e não tem razão de viver. Esses, ao verem-no tão altivo e feliz, fcaram admirados e então chamaram-lhe louco. E é por isso que o Louco ainda hoje é louco. Porque anda a contra ciclo, porque se deprime quando todos riem e aplaudem, porque é o rei do mundo quando todos querem o sonho. Mas o Louco não se importa ou fnge não se importar. Já está habitado a isso: o vício ganha-se com o vício, com a razão da rotina criada e enraizada na estrutura mental obtida. Assim ele forja o mundo a cada dia que passa e anseia sempre pelo dia em que bátegas violentas esfaqueiem os tijolos do ginjal e ele possa correr para o seu castelo, esperando a sua apaixonada que ressuscita das águas do Tejo, para onde corre sempre após o beijo dado atrás das grades, com as traças calcinadas como testemunhas.
— 7 —
Pr
ev
ie
w
— Tiago Videira —
— 8 —
— O Castelo do Louco —
do Ing. bar, balcão
w
Bar
ie
s. m., estabelecimento particular ou dependência de hotel ou restaurante onde se servem bebidas alcoólicas;
Pr
ev
O Louco era um afccionado da noite, dos bares. Sempre que podia pensava em companhia adequada e gostava de conviver em espaços particulares e diferentes. Depois o conceito era extrapolado. O bar era afnal o seu escape para o convívio. Até para o dia, que fosse. Era apenas o sítio diferente onde podia passar uns bons momentos, ainda que, sem álcool. Por vezes ele próprio gostava de defnir o seu sítio diferente, perfeito.
— 9 —
Pr
ev
ie
w
— Tiago Videira —
— 10 —
— O Castelo do Louco —
II
w
Ideia para um bar
Pr
ev
ie
Provavelmente, neste momento, o melhor será alugar um espaço que fque na zona do Chiado. Assim, garante-se a abrangência de clientela tendo desde os mais selectos artistas, aos pés rapados, aos gays, e aos inúmeros turistas que visitam a região. Ao pé da porta pensei em colocar uma estátua de ferro representando o Mário Soares sentado em cima de uma tartaruga das Seychelles. Uma imagem há muito imortalizada e bem característica do povo português. O interior do bar será certamente com uma decoração bem minimalista até porque, assim, poupamos em material. Pensei que umas palhinhas daquelas gigantes, um ramo delas, colado às paredes seriam uma boa decoração. Só. Mesas e cadeiras não acho que sejam necessárias. O conforto de uma sala de estar informal será o ideal, por isso, apenas uma série de almofadas gigantes espalhadas por um chão cheio de tapetes felpudos. Algures nesses tapetes uns tabuleiros de xadrez em cortiça: servem eles de mesa ou bases. Depois, neste caso, temos de tratar da higiene dos tapetes porque, como calculam, seria demasiado fácil entornar coisas, por isso nada de copos. As bebidas são servidas em recipientes estanques, com palhinhas, e assim minimiza-se a possibilidade de verter líquidos. A comida, essa sim, será também outro problema, por isso estou com dúvidas existenciais que possa servir comida. Provavelmente apenas bolos secos ou
— 11 —
— Tiago Videira —
Pr
ev
ie
w
biscoitos, que mesmo que caiam, não sujem muito, ou só façam algumas miolas fáceis de aspirar. A música. A música será minimalista com certeza. Um Ludovico Einaudi ou Yann Tiersen, em loop, claro. Como a música é sempre encantatória, e igual, ninguém dá por nada e com apenas dois Cds conseguimos banda sonora para uma semana inteira. Janelas, claro. Uma janela, enorme, dará para o exterior, tipo montra, e a principal atracção do bar serão as pessoas a olhar, lá para fora, a ver o movimento de transeuntes. Estão quentinhas, confortáveis, servidas, podem cuscar e não têm de aturar aquela fumadora irritante sempre a impingir a Cais ou o antigo contínuo do liceu de Setúbal, desafnado, a cantar o fado. Além disso sempre se poupa luz. Sim, porque durante o dia não haverá luz, e à noite penso apenas pôr algumas luzinhas, iguais às dos telemóveis, para dar um certo ambiente. Uma penumbra inquietante pósmoderna. Mais uma vez a grande atracção será a luz e o movimento exterior. Será proibido fumar (ainda que isso possa afastar clientes) e as pessoas terão de se descalçar à entrada. Haverá sapatos tipo bowling para distribuir a fm de manter as almofadas e carpetes limpas. Por razões de funcionalidade a entrada terá um porteiro para controlar os sapatos e depois as saídas com as contas pagas. Esta entrada será separada da sala principal onde só estarão clientes. As ementas serão luminosas e digitais e estarão distribuídas em sítios chave pelo que o empregado, quando aparecer, já trará o pedido ao cliente e desaparecerá, para o interior, deixando o pessoal à vontade na sala. Haverá ainda pequenos ventiladores, de odor temático, apontados para a sala podendo o cheiro do bar variar conforme a hora ou o dia. O espaço poderá ser alugado para tertúlias, jogatinas de tabuleiro, cartas ou afns.
— 12 —
Pr
ev
ie
w
— O Castelo do Louco —
— 13 —
Pr
ev
ie
w
— Tiago Videira —
— 14 —
— O Castelo do Louco —
w
Ninfa do Lat. Nympha, Gr. nýmphe, divindade das águas
ie
s. f., divindade mitológica dos rios, dos bosques e dos montes; mulher nova, esbelta e formosa;
Pr
ev
As ninfas eram recorrentes nos pensamentos do Louco. A sua relação com as mulheres sempre fora algo intangível e num plano ortogonal muito pouco estudado. Para ele seriam sempre algo de mágico e fora deste espaço, carregadas de misticismo, de auras que ele jamais conseguiria compreender e alcançar.
— 15 —
Pr
ev
ie
w
— Tiago Videira —
— 16 —
— O Castelo do Louco —
III
w
A dança de Anita ou estudo para um quadro surrealista
ie
Anita tinha aquele seu geito1 muito próprio de pôr pétalas na boca e rodopiar até o sol se pôr. Depois ia para o terraço e esperava a lua chegar, e ofuscar as estrelas com um marejar de fogo, que cuspia, enquanto queimava folhas velhas, do Outono, colhidas pela madrugada.
ev
Ficava a apanhar orvalho, com o nariz gelado em sonhos, abraçada a gardénias e dálias e deitada na tijoleira etérea. Depois quando despertava, e via o céu matizar-se de rosa, voava cidade fora até às repartições de fnanças. Disparava sorrisos e atirava citações de Galbraith. Tudo para ver as pessoas felizes.
Pr
Entrava num café a seguir, sempre o mesmo, todos os dias, para pedir o seu ovo escalfado e um chá de hortelã e mel. Trajava de preto e cantava o Cara Valente, passeio fora, enquanto mordia a testa aos vendedores de jornais. Não tinha emprego nem achava que tal fosse necessário. A sua rotina resumia-se a existir num plano pandimensional, conjuntamente com as esferas de dimensão vinte e sete e os geradores de movimento perpétuo. E, claro, a ter um geito muito próprio de pôr pétalas na boca e rodopiar até o sol se pôr. 1
Geito, e não jeito, segundo uma edição do Pato Donald de 1950. Apeteceume ser desageitado.
— 17 —
Pr
ev
ie
w
— Tiago Videira —
— 18 —
— O Castelo do Louco —
w
*
Pr
ev
ie
— Então, meu caro, em que pensas? — No longe. O rio está calmo, gosto de o ver assim. — Azul. — Muito. Sem nuvens no céu. — Às vezes irrita-me o tanto azul. Poderia ser um pouco menos. — Uma nuvem basta. — De qualquer maneira é só uma maneira de eu ver o que não está lá. — Como assim? — Aquele azul que eu vejo, de que gosto, e me irrita. Saber que não passa de mera ilusão. — Ah, pois. As qualidades secundárias têm dessas coisas. — Posso dar as minhas piruetas à vontade, estatelo-me contra a parede. Aí sim. A dor é bem real. — As tuas dores também são reais, ninfa? Duvido até que tu sejas real. Se calhar és tão real quanto o azul que desdenhas. — Sou tão real quanto tu quiseres. Falas comigo, obrigas-me a existir. — E quem sou eu que falo contigo e te obrigo a existir? E existes onde? — Tu és tu. És o meu louco preferido. Crias castelos de sonhos, bares de sonho, ninfas de sonho. Eu sou a tua ninfa de sonho presa no teu castelo. — E porque te prendi eu? — Não sei. Mas é fácil prender quem se limita a existir em
— 19 —
— Tiago Videira —
Pr
ev
ie
w
planos pandimensionais. Talvez porque não consigas prender uma rapariga de carne e osso. — Já tentei em tempos. É muito difícil... — Eu sei. Sei tudo o que tu sabes e mais ainda. — Como assim? — Estou dentro de ti. É natural que me passeie pelas tuas memórias e vejas as coisas que lá estão guardadas. — E são bonitas as minhas memórias? — Tem dias. Há coisas guardadas aqui dentro que são verdadeiras preciosidades. Momentos que até eu pasmo de ver sem conta. Mas tens outras que bem podias dispensar. — Ajudas-me a arrumar esse sótão? — Sótão? És engraçado. Santo Agostinho chamava a memória de palácio. Tu trata-la por sótão, é passar de cavalo para burro. — Essa do Santo Agostinho foste-a também lá buscar, não? — Claro. Eu sou burra que nem uma porta. A inteligência que tenho foste tu quem ma deu. — E o que ganho eu em falar contigo? Não é a mesma coisa que falar comigo mesmo? — Não sei. Distanciamento. Se calhar eu tenho coragem de dizer as coisas que tu não te dizes. Pensar no que tu não pensas. Debater-te e recalcitrar-te. Além disso eu sou muito mais bonita e mexo-me melhor. Tomaras tu rodopiar e voar como eu! Hihihi... — Às vezes indago-me o porquê disto tudo. O porquê de todas as noites me virem assombrar. — Assombrações? Não, que disparate. Somos apenas réstias de amizade e amor. As materializações do grande amor que tens por ti próprio. Se não fôssemos nós já terias fenecido de tédio aqui neste castelo tão grande.
— 20 —
— O Castelo do Louco —
Pr
ev
ie
w
— Bem que me podias ajudar a limpar o pó, ao menos. — Que pó? O Pó deste castelo é tão real quanto o azul do Tejo. É um refexo. Uma miragem de algo que não está bem lá. — Este castelo existe mesmo? — Estamos cá os dois, ou não? — Os dois, três, quatro, quantos mais vierem. Até o morcego que se anicha ali ao canto. — Esse, coitado, não chateia ninguém. É um ornamento disparatado que inventaste agora. Porque ainda há segundos atrás ali não estava. — E porque o inventei? — Porque tens preconceitos culturais na tua tola, seu tolo! — Como assim? — Ora, porque em todas as histórias que leste de castelos, ninfas, assombrações, devem haver morcegos. E tu não quiseste ser diferente. — Todos os castelos têm pó e teias de aranha. — E o pó cá o puseste. Acabo de passar a mão pela parede e isto está realmente uma vergonha. As teias de aranha não. Nem uma. — É natural, tenho medo de aranhas. — Sim, e isto é suposto ser um sonho para relaxares. Não vamos meter pesadelos no teu sonho! — Então e de que queres falar hoje afnal? — Não sei. Tu é que me chamaste, tu lá deves saber o que vim aqui fazer. Estava tão bem a ler Galbraith. — Para que raio lês tu Economia afnal? — Para ser mais esperta que tu. Já sei tudo o que tu sabes, só me falta saber o que tu não sabes, logo, só leio coisas que provavelmente tu não vais querer ler. — Realmente não. Economia não é nada o meu género. Se ainda
— 21 —
— Tiago Videira —
ie
w
fosse Matemática. — Matemática é linda. Uma abstracção, todo um mundo. Mas isso já tu estás farto de ler... — Não posso dizer que esteja farto. Até acho que sei muito menos Matemática do que devia, mas não nego que quanto mais me ensinarem melhor. — Deixa lá. Para te recreares, quanto baste, o que já sabes chega. — Ainda hoje andei a matutar no que seria possível inventar para tornar a Matemática mais interessante ainda. — Força!
Pr
ev
*
— 22 —
— O Castelo do Louco —
w
Matemática
do Lat. Mathematica, Gr. mathematiké, ciência das grandezas
ie
s. f., ciência que tem por objecto de estudo as relações entre os números, as formas, as grandezas e as operações;
Pr
ev
O Louco era um afccionado e frustrado da matemática. Afccionado porque os números eram algo que lhe era muito próprio, que rodeavam a sua vida pessoal e a sua cultura pragmática. Lia muitos livros de Martin Gardner, um mentor antigo, e estudava os mistérios do abstracto. Um frustrado porque não os conseguia perceber nem ir mais além: possuía aquela cultura auto didacta um pouco acima do trivial e o desejo secreto de um dia poder tirar um curso superior nessa área que lhe abrisse as portas e as janelas a um mundo novo. Venerava todos aqueles que transcendiam os limites e era um curioso pelos verdadeiros estudiosos desse mundo.
— 23 —
Pr
ev
ie
w
— Tiago Videira —
— 24 —
— O Castelo do Louco —
IV
w
Os cheiros da matemática
ev
ie
Diz-se do Dr. Finnigan Flyn, reputado professor catedrático na National University of Ireland, Galway, no departamento de Matemática, que possuía o incrível dom de julgar e submeter os seus conhecimentos à prova do olfacto. Não por acaso terminou o curso com uma invejável média de 19.7 valores, tendo depois seguido para doutoramento, onde obteve o grau com distinção, com uma tese intitulada "A mistura de aroma de azevinho e omeleta de salsa e cebola nos binómios de Newton", tendo apenas 24 anos.
Pr
Esta estranha e assaz característica espantou os mais prestigiados matemáticos de todo o mundo, que lhe prestaram sempre as devidas homenagens, havendo quem o tivesse considerado o Galois do séc. XX. Na sua mais recente publicação: "Rosas e dálias nos primos de Mersenne" Finnigan reivindicava a sua importância na investigação levada a cabo por David Slowinski e Paul Gage, aquando da descoberta de 2^(858433) — 1 em 1994. Segundo Finningan, tal descoberta só foi possível quando, após um almoço no Bellissimo (um restaurante italiano na Wicklow Street em Dublin), este teria sugerido que o aroma do Fusilli era levemente assemelhado ao de um integral elíptico que ele andava há 2 semanas para
— 25 —
— Tiago Videira —
ev
ie
w
desvendar. Gritando depois um Ceili (palavra gaélica para festa com músicos e muita animação), Finnigan saiu disparado em busca de uma folha e não só trouxe a solução do seu integral elíptico, como depois, estabeleceu uma correlação com um número primo de Mersenne que, infelizmente, era ainda desconhecido. A demonstração muito elegante, e que na altura coube na margem da folha, teria sido utilizada por Slowinski e Gage para descobrirem o dito primo em questão. A folha infelizmente perdeu-se quando Gage, inadvertidamente, acendeu a lareira com ela, pensando tratar-se de um pedaço de lista telefónica, e tiveram os dois matemáticos de, A posteriori, encontrar outra demonstração credível recorrendo ao uso de poderosos computadores. Finnigan nunca fcou com os louros o que, ainda hoje, o revolta bastante.
Pr
Por outro lado, ninguém lhe retira o mérito de ter sido o primeiro no mundo a provar que o cardinal de qualquer conjunto fnito possui pelo menos três aromas discretos. Uma demonstração assaz trabalhosa e fundamentada pode ser encontrada em "A cozinha tradicional transposta para planos parabólicos convexos". A referência a aromas culinários na matemática de Finnigan, como podemos desde cedo perceber, é recorrente e complexa. Tal deve-se fundamentalmente a parte da sua educação ter sido feita enquanto via programas de culinária. Os programas das Two Fat ladies revelaram-se mesmo muito inspiradores já na idade madura. Diz-se mesmo que foi no episódio em que aprendeu a fazer Carne de Porco à Alentejana que, simultaneamente, descobriu um mapa no plano que tinha de ser pintado com, pelo menos, cinco cores. Infelizmente o molho das amêijoas, no fnal da confecção, acidentalmente caiu
— 26 —
— O Castelo do Louco —
sobre o mapa tendo-se perdido para sempre e Finnigan jamais foi capaz de o reproduzir.
Pr
ev
ie
w
Finnigan é, portanto, uma referência ímpar a nível mundial e a ele devemos muito do que poderemos conhecer do universo numérico até hoje. E jamais esquecerei o brilho nos seus olhos quando, uma vez, pedindo-lhe um autógrafo ele cheirou o meu after shave e exclamou: «Meu caro!! Você é o quaternião mais perfeito que alguma vez tive a honra de conhecer!». Foi realmente comovente.
— 27 —
— Tiago Videira —
*
Pr
ev
ie
w
— Números e fórmulas com cheiros parecem-me bem. E já agora porque não cores e sabores? — É a tal história das qualidades secundárias. Se elas nem bem estão lá, porque não apendiçá-las onde bem me aprouver? — Fazes bem. E essa do “apendiçá-las” melhor ainda. — É de génio não é? “Anexar um apêndice a” – às vezes sinto que temos falta de verbos e adjectivos no nosso vocabulário. Pelo menos sinto que não há as coisas sufcientes para exprimir as ideias com exactidão. — Se não há inventam-se, olha eu ralada. (Dá mais uma pirueta com os cabelos soltos). — Ainda fco tonto só de te ver cabriolar! Mas, como dizia eu, não é bem inventar. É mesmo pegar num sítio e pôr noutro. Transformar substantivos em verbos ou adjectivos, verbos em substantivos, etc... — Mas olha que “apendiçá-las” continua-me a fazer espécie. Até porque já existe “apender” com a mesma origem. E também “apensar”. — Ai, já? Olha que desgosto, e eu a pensar que fazia aqui mais um dos meus malabarismos literários! — É desnecessário. Também não precisamos entrar em tal nível de detalhe. Isso já começa a soar a pedantismo. Mas para que queres tu acrobacias literárias? — Porque fcam bem, ora essa! Qualquer romance que se preze tem de ter umas quantas. — E desde quando estás a escrever um romance? — Desde sempre, ou ainda não te apercebeste que isto é um?
— 28 —
— O Castelo do Louco —
Pr
ev
ie
w
— Ah, isto é um romance? Então ainda por cima é mais uma daquelas histórias auto-referenciais onde os personagens começam a falar deles próprios? Isso não está já um pouco batido? — Talvez. Mas não me apetece muito fazer outra coisa. Eu sou um pouco desconexo de qualquer maneira. — É. É a tal coisa. É louco e a família não sabe. — Já, já sabe. — Coitados. O que devem sofrer contigo. Inventas histórias e descrições bizarras, contas realidades que parecem fcção, vais buscar fcções que se querem reais, enfas diálogos disparatados e pedantes, e ainda por cima auto-referenciais, mas julgas-te algum Joyce ou assim? — Boa, boa! Joyce é bom. Ter referências no meio é sempre positivo. — Como assim? — É como ter Deleuze, ou o Galbraith, que já falámos. Dá um ar importante à coisa. As pessoas sentem-se espicaçadas. É um desafo e uma espécie de masturbação intelectual ler nomes complicados no meio dos romances e depois dizer-se que se percebeu tudo. Dá um certo estatuto. — Deleuze, então, para isso é óptimo. — Sim, porque ninguém lê Deleuze. Eu próprio devo ter lido uma meia dúzia de páginas dele mas fca sempre bem. — E achas que isso interessa às pessoas? — Então não? Sabes que a arte imita a vida. As pessoas gostam muito de se rever nas palavras que lêem, encontrar coisas familiares no meio das fantasias. Coisas assim muito terra-aterra. — É essa a tua desculpa para estes diálogos comigo?
— 29 —
— Tiago Videira —
Pr
ev
ie
w
— But of course, darling! Quem não adora ler uma boa revista corde-rosa? As pessoas são sempre imensamente cuscas. Então lerem coisas familiares, conversas de sala é sempre um bom pretexto. Ficam presas, vidradas. Esperam sempre pelas tórridas revelações que hão-de sair dali. — E que tórridas revelações tens tu para lhes dar? — Oh, isso agora não teria piada nenhuma desvendar. Na realidade não sei se tenho. Eu faço isto mais por Beckett, sabes? — Beckett? — Sim, “os Dias felizes”. Sempre fui um eterno fascinado por aquela espécie de monólogo da mulher enterrada na areia a disparatar sobre tudo e mais alguma coisa. Penso que isto pode ter o seu quê de reminiscências com isso. — Só que em vez de disparatares contigo mesmo disparatas com uma ninfa imaginária e contas-lhe histórias, o que no fundo vai tudo dar ao mesmo. — Exacto. Sem esquecer a parte pedante e ensaística da coisa. Um bom romance nunca será romance sem ter uma flosofa escondida. Uma refexão flosófca da vida e da condição humana, talvez. Ou então, pronto, só refexões sobre o que me for passando pela cabeça. — E o que te passa pela cabeça? — De tudo e de nada. Agora passou-me o meu defunto avô, coitado. — Estava bem? — Maravilhoso. O que vale é que na minha cabeça os mortos aparecem sempre fantásticos. Estava limpinho, bem vestido, com um sorriso enorme e levava-me pela mão a passear ao jardim. — Ao jardim? — Quer dizer, não a mim, claro. Mas à minha versão com cinco
— 30 —
— O Castelo do Louco —
Pr
ev
ie
w
anos. — Já faz mais sentido. Não te imagino a saíres do teu castelo para ires para um jardim. — Olha que depende das alturas. Já foi mais inverosímil tal acontecimento na minha cabeça. — E tens muitas saudades do teu avô? — Muitas. Mas mais da minha avó que, curiosamente, ainda está viva. Mas já não anda lá muito bem. Tenho saudades das inúmeras histórias que ela me contava em criança. Ela era uma boa contadora de histórias. — Se for como tu não lhe fcas atrás. — Eu não é bem histórias. Eu é mais parvoíces e fcções. Esta espécie de stream of consciousness, sem sentido, que me assola a memória e se vai desalinhando para o papel. — Não gosto muito de Woolf. — Eu gostei de a ver no cinema. Acho que inventaram um boneco que lhe fcava bem. — Desde quando vais tu ao cinema? — Pronto, gostei de a ver no flme quando este deu na televisão. — Sempre és mais sincero e realista. — Mas voltando à minha avó. Acho que ela era uma excelente contadora de histórias. E eu sempre admirei esse talento. Era capaz de fcar horas a ouvi-la. Ela é uma senhora muito vivida. Tenho realmente pena que agora já não esteja com a mente tão fresca para me entreter como era primeiro. — E tu lembras-te dessas histórias? — São inúmeras. Algumas cá fcaram... *
— 31 —
Pr
ev
ie
w
— Tiago Videira —
— 32 —
w
— O Castelo do Louco —
Pr
ev
ie
O Louco tinha uma avó adoptiva. Uma daquelas senhoras oriundas da província que tinha procurado fazer vida em Lisboa. Senhora modesta, de simples trato, servira muitos anos em diversas casas de requinte senhoras da alta sociedade. Desses tempos guarda incontáveis e preciosas histórias que costuma partilhar com os seus queridos por dá lá aquela palha. O Louco adorava essas histórias, com as quais costumava ser embalado, nas noites frias de Inverno da sua infância...
— 33 —
Pr
ev
ie
w
— Tiago Videira —
— 34 —
— O Castelo do Louco —
V
w
O marido perfeito
Pr
ev
ie
Esta poderia ser mais uma daquelas vulgares histórias de amor, não tivesse sido verídica. Tão verídica o foi, que mo afançou a Dona Rosa, na altura em que eu era criada de quarto dela, quando vim servir para Lisboa. A Dona Rosa era uma senhora da elite, muito viajada e culta. Conseguia tocar piano com a mão esquerda e falava maltês, visto ter vivido quase uma década em La Valleta. Foi justamente lá que conheceu uma senhora, também ela muito culta e fna, que desde logo lhe despertou a atenção e rapidamente se tornaram amigas, para o ritual do chá das 5, ou então para um Cisk no Simon’s Pub em Sliema. As suas conversas a princípio eram banais: ou falavam do tempo ou então da alteridade e do espírito em Hegel. Nada de muito estimulante, no entanto, à medida que o tempo passava e a D. Rosa começava a sentir a solidão que é viver numa ilha, foi-se afeiçoando mais e mais às trivialidades da nova amiga e começou a visitá-la com frequência. Foi nessa altura que se começou a aperceber de coisas não lineares que se passavam. Fotos românticas, arranjos de fores com bilhetinhos, cartas, no entanto Rosa nunca vira uma presença masculina naquela casa. A amiga garantia-lhe que o marido era um homem romântico e dedicado: raramente podia estar presente visto ser desembargador e andar sempre muito atarefado com o intelecto, mas escrevia, comprava presentes, era atencioso e nunca inoportuno. Jamais interrompia uma conversa, jamais chegava
— 35 —
— Tiago Videira —
ie
w
tarde a casa para jantar e, na cama, respeitava sempre o seu ritmo. Em suma, não tinha defeitos. Algo que só aprendeu numa nova fase da sua existência, garantia-lhe, já que ao princípio nada disto era assim: fumava, bebia, eram constantes as visitas a prostitutas baratas e uma vez até chegara a agredi-la com o piaçaba. Justamente esse episódio asinino fez transbordar o copo, e a mulher resolveu o assunto de uma vez por todas da maneira que entendeu melhor. A partir daí tudo mudou para a perfeição de hoje.
Pr
ev
Maravilhada com tal relato D. Rosa fez questão de conhecer tal fgura que se afgurava como o marido dos sonhos de qualquer esposa. A amiga a princípio torceu o nariz dizendo que ele estava a descansar no escritório e que possivelmente não gostaria de ser incomodado, mas após mais de duas horas de «Mas eu insisto!», «É melhor não», «Mas eu insisto!», «É melhor não», no melhor estilo Bart — Homer Simpson, a amiga acabou por ceder e levar D. Rosa ao escritório, onde, numa poltrona, lá estava o senhor recostado em completa paz e sossego. D. Rosa como distinta dama que é aproximou-se e fcou a admirá-lo cuidando que ele estava dormindo. Perante a inércia do cavalheiro pegou-lhe na mão e abanou-o um pouco, tentando acordá-lo, mas qual não é o seu espanto quando, com tal gesto, fca com o braço do indivíduo solto na sua mão! Mas nem uma gota de sangue escorreu, apenas uma massa disforme parecia sair do ombro aberto. A amiga olhava embevecida: «Esqueci-me de lhe dizer que ele é muito frágil, tem de o tratar com cuidado. Mas olhe, faz quatro anos que o embalsamei, e tem-se portado impecavelmente! Só não gosta muito é de Coca-Cola, que lhe provoca gases».
— 36 —
Pr
ev
ie
w
— O Castelo do Louco —
— 37 —
— Tiago Videira —
*
Pr
ev
ie
w
— A morte inquieta-te? — De certa maneira. É inevitável não pensar nela. Mas eu tento ser um optimista irredutível. — De que maneira? — Digamos que o que mais me afige na morte não é a morte em si, mas a privação da vida. É tudo por contraponto, é um medo do desconhecido. De saber o que estou a perder. — E o que estás a perder? — Não sei bem, mas é algo de muito precioso. Algo precioso demais para ser gasto com minhoquices. Talvez seja por isso que as rotinas sem nexo sempre me fzeram confusão. — Rotinas mais sem nexo que as minhas? — Mais sem nexo, Anita! Porque a tua rotina tem a sua razão de ser lá na tua ervilhinha que mora nessa caixa craniana. — “Ervilhinha?”. Que enfado! — Haha! Não ligues, não estou acostumado a dar muito crédito a ninfas imaginárias. De qualquer maneira eu remetia para os pobres dos comuns mortais que se resignam com a sua lida diária. Aquela coisa do acordar, ir para o trabalho, voltar estafado, comer qualquer coisa e dormir, de novo, para no dia seguinte fazer a mesma coisa... — É o que a maioria faz... — Pois, mas eu em maiorias não voto! — Preferes continuar meramente a existir? — Talvez. Pelo menos até encontrar algo que realmente me realize ou até que se faça luz sobre a minha ervilhinha (se te
— 38 —
— O Castelo do Louco —
Pr
ev
ie
w
satisfaço mais chamá-la assim)... — E o que será isso? — Não sei. Este castelo está pejado de coisas fabulosas. O piano, por exemplo. O romance, claro. A arte. A arte e a criação são coisas fundamentais. Repara que ninguém canta quando está cheio de fome. — Que isso quer dizer? — Que temos de satisfazer as nossas necessidades básicas primeiro. Mas quando estas estão minimamente satisfeitas, talvez haja algo maior a que almejar. Todo o Homem no seu juízo talvez queira a Verdade, o Bem, a Felicidade, a Imortalidade... estes indefníveis flosófcos. — Concordo. E tu que fazes para isso? — Crio. Talvez enquanto medite e crie coisas me aproxime mais de qualquer um desses conceitos. Não me parece que os alcançasse a varrer as ruas, numa secretária de escritório ou a apanhar centeio. — És é um malandro. — Não, não me vejas assim. Eu trabalho tanto! Só que é tudo com a cabeça em lugar do corpo. Se calhar ando mais próximo do Damásio. Acho que nunca me dei bem com o paradigma Cartesiano. — És um ser complexo... — Aplicar a complexidade de Morin à vida! Que tarefa dolorosa! Ou pelo menos ser um idealista das artes. Ou da flosofa. Achar que se “chega lá” de outra maneira. Que há uma maneira! — Cada um com a sua crença. Há quem tenha sido muito feliz debaixo de uma fgueira. — Justamente. Esse, por exemplo, inventou todo um sistema. Uma religião, um modo de vida e pensar. Mas eu acho que a
— 39 —
— Tiago Videira —
Pr
ev
ie
w
meditação não servia para mim. Sou demasiado irrequieto. — Eu então! (Pirueta dupla, Demi-plié, e vénia) — Oh, lá estás tu com os teus disparates. Sempre a sarandear de um lado para o outro, nunca consegues estar queda? — Então não? Eu estou como tu queres que eu esteja! Mas se a tua mente anda sempre a saltitar como é suposto que os produtos que dela emanam não o façam igual? — Às vezes tiras-me do sério de tão lógica que és. Acho que me apetece um chá, tomas qualquer coisa? — Pode ser de hortelã e mel? — Pode, aqui o que vale é que se pode tudo. Até o ovo escalfado. — Como sabias que o queria? — Se fui eu quem inventou os teus peculiares hábitos não vejo porque haveria de ser diferente. Eu fco-me por umas areias. — Da praia? — Não. De farinha e açúcar mesmo. Eu, por enquanto, e até ver, ainda sou o único humano por aqui, tenho de me alimentar decentemente ou, pelo menos, com coisas comestíveis. — Que disco é esse? — Para termos música ambiente. Li numa revista uma crítica e gostei muito. Pareceu-me bastante incomum. Encomendei-o mais o livro das pautas para tocar no piano. — Boa, boa. Vamos ouvir enquanto comemos e depois podemos ir até ao piano um bocadinho. — Sim, desenferrujar estes ouvidos e os dedos!
— 40 —
— O Castelo do Louco —
w
Crítico do Lat. Criticu, Gr. kritikós, capaz de julgar
ie
s. m., aquele que faz crítica;
Pr
ev
O Louco é um apaixonado por música. Um ecletismo desmesurado leva-o a embrenhar-se nos mais melosos sons de um piano de Chopin ou a delirar com a música mais popular do interior da savana Africana. A música não tem fronteiras e o relativismo abunda. Sempre na crista da onda, gosta de seguir as tendências da actualidade e está sempre atento à crítica musical para saber o que de “bom” ou de “mau” se faz e se ouve por aí...
— 41 —
Pr
ev
ie
w
— Tiago Videira —
— 42 —
— O Castelo do Louco —
VI
w
Mathilda Jad — Perfect Pride
Pr
ev
ie
O último trabalho de Mathilda Jad vem de encontro às expectativas mais baixas de sempre do mundo da música contemporânea. O experimentalismo nele revelado desvela o mais puro fracasso de todas as tentativas sonoras e um asinino uso vocal, para não falar do completo desprovimento de técnica. A produção sonora é disso um belo exemplo: alguém com um microfone de euro e meio ligado a um laptop conseguiria obter melhor qualidade sonora que a voz de Mathilda. Já para não falar que a sua afnação é uma raridade: raramente escutamos a nota certa. As suas referências a divas como Natália de Andrade ou Florence Foster Jenkins são notórias, mas estas últimas ainda tinham a dignidade e o talento de nos brindarem com vibratos de quarta sobre humanos. Mathilda até nisso fracassa. O seu vibrato é completamente inexistente e a sua voz some-se pura e simplesmente sem qualquer tipo de nexo. Na faixa A Whale to Paris fcamos cerca de 37 segundos simplesmente a ouvir murmúrios balbuciantes sem conseguir descortinar nada da letra. A qualidade das letras é outra das grandes pechas de Mathilda: o recurso a poetas Albaneses analfabetos foi uma aposta arriscada e especialmente em Threesome Nativity onde a alegoria eclesiástica posta em evidência com a reivindicação de paternidade por parte do Espírito Santo, numa novela de faca e alguidar, é completamente desprovida de gosto e a roçar o rude.
— 43 —
— Tiago Videira —
Pr
ev
ie
w
Musicalmente a fusão de Jazz com sons de nativos da Suazilândia também parece desenquadrada e o golpe acaba por não resultar. O single de lançamento Perfect Pride, que dá nome ao álbum, parecia prometer. A introdução com um piano a fazer uma melodia serial, acompanhada de um violoncelo e um sample de triphop, parecia conduzir-nos a um novo estilo neo-realista, no entanto, e mais uma vez, quando Mathilda entra a cantar em dueto com uma arara tropical se perde completamente o fo à meada. Principalmente quando não conseguimos distinguir quem é quem. Já a esse propósito Lawrence Falkland na Music Rewiew, da passada semana, tinha comentado que «A arara de Mathilda aquando da entrada da tarola a descompasso confunde-nos seriamente os sentidos já que Mathilda, depois, ao fnal do 3º tempo entra num glissando cruzando-se a sua voz com a da ave provocando tal simbiose que quando se separam não conseguimos percepcionar para onde foi cada uma». Esta fusão de pássaro-homem, neste caso pássaro-mulher talvez tenha as suas reminiscências nas fantasias que Mathilda protagonizava sobre voar, um sonho que sempre alimentou desde pequena, como descrito pela própria numa entrevista concedida à Gossip, em Maio do ano passado: «Sinto-me um pássaro errante voando na direcção do pôr-do-sol até as minhas asas derreterem o sol e este cair». Esta confusão também está patente neste álbum, na faixa Requiem for an Icarus, na qual mais uma vez, na letra, Mathilda conta a história de como Ícaro consegue voar fazendo o sol ceder e cair no oceano, apagandose. Aqui, excepcionalmente, Ícaro consegue estar muito bem representado por um baixo sólido em lá menor, apenas sendo pena que todos os outros instrumentos estejam a tocar em Si
— 44 —
— O Castelo do Louco —
Pr
ev
ie
w
bemol menor, causando uma leve estranheza ao ouvido, mas nada de muito grave. Para fnalizar, gostaria apenas de deixar umas notas acerca dos instrumentistas de alta qualidade, recrutados entre as melhores escolas primárias de New Jersey (Jad continua a apostar forte na juventude) e na coragem de ter escolhido, mais uma vez, uma equipa de pessoas com difculdades de integração no mercado de trabalho para produzir o seu disco: realço Tom Ferry, surdo-mudo, na orquestração e pós-produção áudio, bem como, Jane Letterman, cega de nascença, na produção e design da capa do álbum.
— 45 —
— Tiago Videira —
w
*
Pr
ev
ie
— O álbum é no mínimo estranho. — Eu gosto de coisas estranhas. Mas eu acho que ela é verdadeiramente genial. — Eu sinceramente nem acho que cante muito bem. — A voz é um pecado. Mas ela faz tudo o que lá está. Pelo menos na pauta. — A sério? Mas às vezes desafna, ou canta fora de tom. — Nunca ouviste falar de cruzinhas em lugar das bolas? Por vezes a altura não tem de ser propriamente defnida. Se ela compões assim que execute assim. Eu acho sinceramente difícil ter de andar a afnar e a desafnar ao mesmo tempo. Mas deixame cá mostrar-te uma coisa, ora anda aqui ao piano. — Sim, maestro! Diga. — Olha aqui a pauta, da “Whale to Paris”. Repara neste crescendo até ao refrão. Vamos analisá-lo. — Ok. Deixa ver.
— 46 —