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Descrição e Debuxo do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra

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D. FRANCISCO DE MENDANHA

DESCRIÇÃO E DEBUXO DO

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MOSTEIRO DE SANTA CRUZ DE

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título: Descrição

e Debuxo do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra de Mendanha (c. 1500 - 1561) edição: Edições Ex-Libris® (Chancela Sítio do Livro) recolha dos textos e notas: Mário Araújo Torres autor: D. Francisco

” Mapa Topográfico da Praça de Sansão”, executado por José Carlos Magne em 1796 capa: Ângela Espinha paginação: Paulo Resende

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imagem de capa:

1.ª edição Lisboa, setembro 2021 isbn:

978­‑989-9028-31-9 487351/21

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depósito legal:

© Mário Araújo Torres

Todos os direitos de propriedade reservados, em conformidade com a legislação vigente. A reprodução, a digitalização ou a divulgação, por qualquer meio, não autorizadas, de partes do conteúdo desta obra ou do seu todo constituem delito penal e estão sujeitas às sanções previstas na Lei. Declinação de Responsabilidade: a titularidade plena dos Direitos Autorais desta obra pertence apenas ao seu autor, a quem incumbe exclusivamente toda a responsabilidade pelo seu conteúdo substantivo, textual ou gráfico, não podendo ser imputada, a qualquer título, ao Sítio do Livro, a sua autoria parcial ou total. publicação e comercialização:

www.sitiodolivro.pt publicar@sitiodolivro.pt (+351) 211 932 500 NOTA: Este livro foi escrito em desacordo com a ortografia aprovada em 1990 e ratificada em 2008.


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D. FRANCISCO DE MENDANHA

DESCRIÇÃO E DEBUXO DO

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MOSTEIRO DE SANTA CRUZ DE

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Recolha de textos e notas por Mário Araújo Torres


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NOTA PRÉVIA 1. UMA RARIDADE BIBLIOGRÁFICA.

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Na presente edição reproduz-se o único exemplar conhecido da Descripcam e debvxo do moesteyro de sancta Cruz de Coimbra [doravante designada por Descrição], impressa em 1541 nas oficinas tipográficas do próprio Mosteiro 1, exemplar atualmente conservado na Greenlee Collection 2 da Newberry Library de Chicago. Trata-se da primeira descrição, historicamente conhecida, do mosteiro crúzio conimbricense, reconstruído a partir de 1507 por ordem de D. Manuel I e reformado no seu funcionamento e disciplina por Frei Brás de Braga, para o efeito nomeado por D. João III em 1527. A Descrição consta de uma carta dirigida ao Cardeal António Pucci, originariamente escrita em latim por D. Francisco de Mendanha e vertida para português por D. Verísssimo, um e outro cónegos de Santa Cruz de Coimbra, destacados em 1538, por Frei Brás de Braga, a pedido de D. João III, para procederem à reformação do Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, donde datam os seus escritos. A Descrição cedo se tornou obra de grande raridade, não sendo mencionada nos catálogos das edições saídas dos prelos do Mosteiro de Santa Cruz elaborados por António Ribeiro dos Santos (Memória para a história da tipografia portuguesa do século XVI, Lisboa, Academia Real das Ciências, 1812, págs. 86-92), por Joaquim Martins de Carvalho (Apontamentos para a História Contemporânea, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1868, págs. 277-281) e por António Gomes da Rocha Madail (Primícias da arte tipográfica em Coimbra, Coimbra, Coimbra Editora, 1942), tendo, durante largos períodos de tempo, sido dada por completamente desaparecida. O conhecimento do seu teor passou, ao longo dos séculos, a ser feito indiretamente, através da sua transcrição (infidelíssima, como se verá) por D. Nicolau de Santa Maria, nos capítulos XXII e XXIII do Livro VII da Segunda Parte da Crónica da Ordem dos Cónegos


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Regrantes do Patriarca Santo Agostinho (Lisboa, Oficina de João da Costa, 1668), que erradamente indica ter sido a carta originalmente escrita em italiano, ter sido D. João III o promotor da tradução e da impressão e datar esta de 1540. Estes erros foram reproduzidos por Diogo Barbosa Machado, no artigo dedicado a D. Francisco de Mendanha (Biblioteca Lusitana, tomo II, Oficina de Inácio Rodrigues, Lisboa, 1747, pág. 203), embora na nótula sobre D. Veríssimo (tomo III, 1752, pág. 779), tenha corrigido a data da impressão para 1541. Inocêncio Francisco da Silva (Dicionário Bibliográfico Português, tomo VII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1862, págs. 416-417) confessa nunca ter visto este “raríssimo opúsculo, de que não aparece exemplar algum, nem memória de que o houvesse em local conhecido”, e duvida que Diogo Barbosa Machado tivesse tido modo de o consultar. Também Jorge Carlos de Figanière (Bibliografia histórica portuguesa, Lisboa, Francisco Jorge Ferreira de Matos, 1851, pág. 140) reconhece não ter descoberto nenhum exemplar desse raríssimo opúsculo, a cujo conteúdo acedeu através da sua reprodução na Crónica da Ordem dos Cónegos Regrantes. Finalmente, em 1890, com a publicação do artigo de Sousa Viterbo, “O Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (Anotações e Documentos)”, na revista O Instituto (Coimbra, ano 37.º, n.º 9, março de 1890), foi dado conhecimento do aparecimento de um exemplar do opúsculo, caracterizado pela falta da primeira folha (frontispício), pertencente ao bibliófilo e colecionador Jerónimo Ferreira das Neves (Sobrinho) 3, que lhe facultou a sua consulta e possibilitou, pelo confronto com a pretensa “transcrição” feita por D. Nicolau de Santa Maria, a demonstração de que este havia gravemente adulterado o original, amputando-lhe partes importantes e acrescentando outras de sua lavra. No citado estudo, Sousa Viterbo assinala as principais adulterações perpetradas pelo inescrupuloso cronista crúzio 4, tendo-se então coibido de publicar integralmente o original porque Venâncio Augusto Deslandes 5, a quem Ferreira das Neves também facultara a extração de uma cópia, se propusera editá-la na Imprensa Nacional, de que era administrador-geral, o que não chegou a concretizar. De novo se perdeu o rasto da raríssima edição da Descrição.


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Foi Israël Salvator Révah 6 quem, em estudo publicado no volume XXIII do Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra (de que se extraiu separata, Coimbra, 1957), deu a conhecer a existência e reproduziu fotograficamente esse exemplar único. o mesmo que pertencera a Ferreira das Neves e que fora comprado pelo livreiro Charles Chadenat (1859-1938), de Paris, onde, na primavera de 1954, foi adquirido, inserido num conjunto de opúsculos portugueses, para enriquecer a Greenlee Collection 7. É esse exemplar, caracterizado pela falta do frontispício, único cuja existência se conhece, que se reproduz nesta edição.

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2. O MOSTEIRO DE SANTA CRUZ NOS REINADOS DE D. MANUEL I E DE D. JOÃO III: REEDIFICAÇÃO DA IGREJA E CONVENTO E REFORMAÇÃO DA CONGREGAÇÃO.

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Duas visitas régias a Coimbra, espaçadas de 25 anos, viriam a revelar-se decisivas para históricas alterações da cidade e, em especial, do Mosteiro de Santa Cruz: a primeira, em novembro de 1502, de D. Manuel I, a caminho de Santiago de Compostela, acompanhado pelo seu capelão-mor, D. Pedro Vaz Gavião, bispo da Guarda; a segunda, em junho de 1527, de D. João III, fugido da peste que grassava em Lisboa. Chocado com a degradação da antiga capital do Reino 8, com a velha ponte afonsina em grande parte arruinada e quase engolida pelas aluviões do Mondego, os Paços Reais abandonados, a modéstia das sepulturas dos primeiros Reis, em contraste com o brilho do panteão da dinastia de Avis, na Batalha, D. Manuel I decide, entre outras beneficiações, reparar e reconstruir a ponte, dilatar o terreiro da Portagem, criar o Hospital Real, na Praça de S. Bartolomeu, e ampliar o antigo Hospital dos Lázaros, fora de portas, à saída norte da cidade. Particularmente importante foi a intervenção no Mosteiro de Santa Cruz, para cuja radicalidade contribuiu um conflito com a Santa Sé, onde se revelou todo o génio político do Rei Venturoso.


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Fundado em 1131 por D. Telo e mais onze companheiros, a congregação de Santa Cruz adotou no ano imediato a Regra de Santo Agostinho e obteve, em 1135, do Papa Inocêncio II, dependência direta da Santa Sé, com isenção de intervenção do bispo de Coimbra. O seu governo, durante séculos, coube a priores-mores perpétuos (o primeiro dos quais foi D. Teotónio), eleitos vitaliciamente pelos restantes cónegos, sendo coadjuvados, na administração corrente da casa, por cónegos eleitos trienalmente: os priores castreiros. As avultadas rendas usufruídas pelo Mosteiro de Santa Cruz tornavam particularmente apetecível o lugar de Prior-mor, o que levou o Papa Júlio II a determinar que, quando cessasse funções D. João de Noronha, último prior-mor perpétuo eleito pelos seus pares, os cónegos crúzios elegessem, sob pena de graves sanções, como Prior-mor ao seu sobrinho D. Galiotto Franciotto de La Rovere, Presbítero Cardeal do título de S. Pedro ad vincula. Falecido D. João de Noronha em 1505, os cónegos acataram a imposição pontifícia, dando posse do priorado ao sobrinho do Papa, representado pelo Núncio Apostólico em Lisboa, e elegeram prior castreiro a D. Brás Lopes. “Sentiu muito o Rei D. Manuel que o Papa nomeasse e desse o Priorado-mor desse seu Real Mosteiro sem seu beneplácito, e assim mandou o Prior castreiro D. Brás Lopes derrubasse e pusesse por terra a Igreja, Capítulo e Claustra, e com as rendas do Priorado-mor se fizesse de novo restaurar em melhor forma, e disso desse conta a Sua Santidade, que não esperassem lá por dinheiro algum, e ele também escreveu a Roma ao seu embaixador sobre o mesmo negócio. O Sumo Pontífice, pela carta que teve do Prior castreiro entendeu o lanço e ânimo do Rei; mandou logo ao Cardeal seu sobrinho desistisse e largasse o Priorado, o que ele logo fez, depois de o possuir estando em Roma por pouco mais de um ano, sem dele receber lucro algum. O mesmo Papa Júlio II, em satisfação de ter bulido no Priorado, passou um Breve de motu proprio, no ano de 1507, ao Rei D. Manuel, no qual lhe concedeu a ele, e aos Reis de Portugal seus sucessores in perpetuum, possam apresentar e dar da sua mão Prior-mor a este Real Mosteiro e aos demais da Ordem, como Padroeiros que dele são” 9.


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Nomeou D. Manuel I como Prior-mor a D. Pedro Gavião, bispo da Guarda, seu capelão-mor, e no seu priorado, de 1507 até 1516, decorreu a primeira fase das obras de reconstrução do Mosteiro de Santa Cruz, sob a direção do arquiteto Diogo de Boitaca, com demolição da Igreja românica, e construção da atual, concluindo a fachada e a capela-mor, com os arcos laterais para albergar os túmulos dos Reis. Os trabalhos foram retomados em 1517, sob a direção de Marcos Pires, mestre das obras dos Paços Reais, com a reconstrução completa do Claustro do Silêncio. Em junho de 1520, D. Manuel I, acompanhado do seu herdeiro D. João, volta a Coimbra para presidir à tresladação dos Reis para as novas sepulturas, falecendo no ano seguinte. A segunda visita de D. João a Coimbra ocorre em junho de 1527, já rei, com 25 anos de idade, e será decisiva para o futuro da cidade e do Mosteiro de Santa Cruz. Às melhorias no património edificado infelizmente não correspondia aperfeiçoamento moral dos monges crúzios. O não cumprimento das regras agostinianas, designadamente a clausura, o silêncio e a castidade 10, chocaram o Rei, que, para corrigir a situação, nomeou como Reformador da Congregação a Frei Brás de Braga, monge da Ordem de S. Jerónimo. Esta escolha de um membro de ordem estranha desagradou profundamente aos crúzios, tendo muitos deles, dos mais graves e autorizados (entre eles o antigo prior castreiro, D. Bento Lopes), optado por abandonar o Convento. A aversão dos agostinianos para com Frei Brás de Braga persistiu ao longo do tempo: o cronista D. Nicolau de Santa Maria, ao transcrever cartas de D. João III pessoalmente dirigidas a Frei Brás de Braga, não hesita em rasurar o nome deste, substituindo-o por “Prior-Geral” 11 e D. Timóteo dos Mártires comete a proeza de, nas centenas de páginas da sua Crónica, nem uma única vez citar o seu nome, tratando-o sempre por “Reformador Apostólico”. A Reformação da Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra foi iniciada por Frei Brás de Braga em 13 de outubro de 1527 e durou até 1545, ano em que foi nomeado bispo de Leiria. Ainda em 1527, D. João III, a sua solicitação, mandou vir da Universidade de Paris mestres de Gramática, Grego e outras Artes e Ciências, para nele ensinarem, tendo o êxito desta experiência sido determinante para a


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escolha, dez anos mais tarde, de Coimbra como o melhor local para onde transferir a Universidade portuguesa.

3. D. FRANCISCO DE MENDANHA.

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Um dos principais colaboradores de Frei Brás de Braga, na reformação das congregações crúzias, foi D. Francisco de Mendanha, que ingressou no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra em 18 de janeiro de 1528, e comandou a missão de oito cónegos que, em 4 de abril de 1538, foi destacada para reformar o Mosteiro de São Vicente de Fora, tendo sido eleito seu primeiro Prior castreiro. Segundo Diogo Barbosa Machado (Biblioteca Lusitana, tomo II, citado, pág. 203), D. Francisco de Mendanha “nasceu no lugar de Tavarede, junto da foz do rio Mondego, na província da Beira, sendo filho de João de Mendanha e de Isabel de Azambuja 12, ambos da mais qualificada nobreza de Coimbra, os quais o mandaram educar em casa de seu avô paterno, Francisco de Mendanha, assistente naquela cidade, em cujo obséquio lhe foi imposto o nome de Francisco no batismo, que, conhecendo a boa índole que o neto tinha para as letras, resolveu fosse estudar à Universidade de Paris 13, onde saiu eminente em Filosofia, Teologia e Direito Pontifício, em cuja Faculdade se graduou, além da notícia das línguas francesa e italiana, que falava e escrevia como a materna. Restituído à pátria, como tivesse seu avô passado a melhor vida, desenganado dos aplausos, que lhe podiam adquirir as suas grandes letras, recebeu o canónico hábito de Santo Agostinho no Real Convento de Santa Cruz, a 18 de janeiro de 1528 (...).” Refere Joaquim Martins Teixeira de Carvalho 14, fundado em manuscrito de D. Marcos da Cruz 15, que D. Francisco de Mendanha “era homem culto, muito cioso da glória da sua congregação, de doce e alegre trato e por isso muito do favor de D. João III e da senhora D. Catarina, sua mulher”. De acordo com o cronista D. Timóteo dos Mártires, a missão de oito cónegos de Santa Cruz de Coimbra que Frei Brás de Braga instalou, em 4 de abril de 1538, no Mosteiro de São Vicente de Fora de Lisboa, para proceder à sua reformação, era integrada por D.


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Francisco de Mendanha, D. Manuel de Brito, D. Lourenço Leite, D. Paulo Gavião, D. Gregório Tavares, D. Veríssimo (o tradutor da Descrição), D. Simão e D. Miguel. A reação à chegada dos reformadores ainda foi mais radical que a dos cónegos velhos de Santa Cruz de Coimbra face ao «intruso» jeronomita: «nenhum dos cónegos antigos deste Mosteiro [de São Vicente] quis aceitar a reformação”. Ficaram, assim, os reformadores sem matéria para reformar. Em São Vicente de Lisboa, D. Francisco de Mendanha foi eleito Prior castreiro em 1538 e Prior trienal em 25 de maio de 1540, e reeleito neste cargo em 29 de setembro de 1546, tendo sido no decurso deste seu mandato que “D. João III escolheu doze mancebos nobres, virtuosos, modestos, de letras e industriosos, e os mandou recolher neste Mosteiro de São Vicente à obediência do Padre Prior D. Francisco de Mendanha”. Na qualidade de Prior de São Vicente de Fora, D. Francisco de Mendanha participou, em Coimbra, em 29 e 30 de julho de 1539, no 1.º Capítulo Geral da Congregação, posterior à Reformação, presidido pelo Reformador Apostólico Frei Brás de Braga, em que, pela primeira vez, se elegeu um Prior trienal para o Mosteiro de Santa Cruz, que, por inerência, seria Prior Geral da Congregação dos Mosteiros já reformados e unidos (os de São Vicente de Fora de Lisboa e do Salvador de Eclesiola, depois Grijó), tendo sido eleito D. Bento de Camões, natural de Coimbra, filho de António Vaz de Camões e de D. Guiomar Vaz da Gama. Ainda na qualidade de Prior do Mosteiro de São Vicente, participou D. Francisco de Mendanha no 2.º Capítulo Geral, de 2 e 5 de maio de 1542, que elegeu D. Dionísio de Morais (natural de Coimbra, filho de Simão de Morais e de Violante de Azambuja) novo Prior trienal do Mosteiro de Santa Cruz e Geral para a Congregação. Em abril de 1548, D. Francisco de Mendanha, prior do Mosteiro de São Vicente, presidiu ao 4.º Capítulo Geral, que elegeu para as ditas funções D. Filipe Pegado (em substituição de D. Afonso Pereira, eleito em 1545, no 3.º Capítulo Geral, a que D, Francisco de Mendanha não assistiu). Regressado a Coimbra, foi, no 5.º Capítulo Geral, em abril de 1551, D. Francisco de Mendanha eleito Prior do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e Geral da Congregação, funções que exerceu até


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1554, sendo substituído, no 6.º Capítulo Geral, por D. Clemente da Silva, para, no 7.º Capítulo Geral, realizado em 7 de novembro de 1557, voltar a ser eleito para um último mandato. Já não participou no 8.º Capítulo Geral, realizado em 25 de abril de 1558, por se encontrar doente em Lisboa. Faleceu em 17 de novembro de 1561. No mandato como Prior Geral eleito em 1551, presidiu, como Cancelário da Universidade de Coimbra (funções que eram inerentes ao Priorado Geral de Santa Cruz) à colação do grau de Mestre em Artes, que recebeu D. António, filho do Infante D. Luís 16, e teve intervenção no conflito dos Crúzios com os Jesuítas, por estes terem reconstruído uma torre da muralha da cidade (na Couraça chamada dos Apóstolos por ser este o nome por que eram conhecidos os membros da Companhia de Jesus), junto à Porta Nova, aí abrindo janelas que se debruçavam precisamente sobre a claustra do Mosteiro de Santa Cruz 17.

4. D. VERÍSSIMO.

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Para além da integração de D. Veríssimo na missão de oito cónegos de Santa Cruz de Coimbra que Frei Brás de Braga instalou, em 4 de abril de 1538, para procederem à reformação do Mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa, mais nenhuma notícia sobre ele se colhe nas Crónicas de D. Nicolau de Santa Maria e de D. Timóteo dos Mártires. Apenas numa carta, de 25 de novembro de 1541, de Frei Brás de Braga para D. João III, D. Veríssimo é referido como, com a Descrição, teria procurado “tirar (como diz São Jerónimo) naquela coisa pouca a ferrugem para escrever alguma de mais momento, e penso era sua intenção, com o favor divino, escrever depois de mais velho, reformado e posto mais em sossego, algumas lembranças que arremedassem crónica da piedade cristã de seu Rei e Senhor, para que sentia habilidade” 18. Essa possível intenção nunca se concretizou, e deve D. Veríssimo ter recaído na “doença espiritual da ociosidade”, que, em 1540,


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em São Vicente de Fora, o havia posto às portas da morte e de que se livrara, como confessa com tocante candura, ao usar do remédio receitado pelo «médico cristão» (S. Jerónimo) de exercer sempre alguma atividade (no caso, traduzir a Descrição) para que o Diabo nunca o encontrasse desocupado. Deve D. Veríssimo ter passado o resto dos seus dias “inútil como um cónego”, no dito de Garrett, evocado por Sousa Viterbo, não sendo de excluir a hipótese de finalmente o irmos reencontrar, quarenta anos depois, caso seja ele o mesmo D. Veríssimo que, no último texto recolhido nesta edição, foi abandonado, com mais três ou quatro cónegos “velhos e doentes”, “em miserável pranto”, na Enfermaria do Mosteiro, quando ocorreu a debandada dos crúzios com a notícia da chegada a Coimbra, cerca de 8 de outubro de 1580, do exército de Filipe II, comandado por Sancho de Ávila, em perseguição dos apoiantes de D. António, com destaque para os de Santa Cruz.

5. CARDEAL ANTÓNIO PUCCI.

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A Descrição é dedicada a António Pucci (Florença, 1485 - Bagnoreggio, 1544), considerado protetor da Congregação dos Agostinianos. Sobrinho dos Cardeais Lorenzo Pucci (Florença, 1458 - Roma, 1531, Cardeal dos Santos Quatro Coroados de 1513 a 1524) e Roberto Pucci (Florença, 1463 - Roma, 1547, Cardeal dos Santos Quatro Coroados de 1544 a 1547), António Pucci participou no V Concílio de Latrão (1512-1517) e foi nomeado, pelo Papa Leão X, Núncio Apostólico em Portugal (1513-1518) e na Suiça (1517-1521), Bispo de Pistoia (1518) e de Vannes (1529-1541). Em 1531 foi nomeado Cardeal, por Clemente VII, como titular da Igreja dos Santos Quatro [Mártires] Coroados. Participou no Conclave de 1534 que elegeu o Papa Paulo III e foi Bispo das dioceses de Albano (1542/43) e Sabina (1543/44). Na sequência do exercício das suas funções de Núncio em Lisboa, tornou-se grande defensor dos interesses de Portugal junto da Cúria Romana, designadamente na longa batalha diplomática empreendida


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por D. João III para vencer as fortes resistências de Clemente VII e Paulo III ao estabelecimento da Inquisição em Portugal 19.

6. A PRESENTE EDIÇÃO

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Na presente edição reproduz-se o único exemplar conhecido da Descrição. O opúsculo era composto de quatro cadernos de quatro folhas cada, num total de 32 páginas. Como já se referiu, desapareceu a primeira folha (frontispício). Na segunda folha consta, como prólogo, uma carta do tradutor (“Irmão Veríssimo”) “aos Irmãos dos Mosteiros de Santa Cruz [de Coimbra] e do Salvador [de Eclesiola, depois Grijó]”, datada de São Vicente de Lisboa, 21 de dezembro de 1540; o verso dessa folha tem por cabeçalho “EPÍSTOLA DO INTÉRPRETE”. Na terceira folha surge a dedicatória da obra, pelo seu autor, D. Francisco de Mendanha, ao Cardeal António Pucci, datada de São Vicente de Lisboa, a 4 de setembro de 1540; no verso da terceira folha, aparece cortada parte da primeira linha. A partir da quarta folha, inicia-se a Descrição e debuxo do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra; no verso dessa folha, segundo Révah, um “lecteur (...) trés pudique (...), dans la description d’une fontaine [Fonte de Sansão], a jugé bon de rayer des mots que l’on distingue malgré son expurgation et que nous soulignons dans notre transcription: «A segũda he de agoa muy proueytosa aas bestas, e das bestas e enganadas molheres muy cobiçada e frequẽtada»”. No final do verso da última folha surge o cólofon: Conimbrie apud cœnobium diuæ Crucis. Anno domini . M . D. XLI. Seguidamente procede-se à transcrição integral do opúsculo, com atualização de grafia. As epígrafes marginais do original foram transformadas em subtítulos, entre parênteses retos. A Descrição retrata, com apreciável fidelidade 20, apesar de ter sido escrita em Lisboa, com recurso apenas à memória do seu autor, o estado da Igreja e do Convento em 1540, já após ter sido retirado o Convento das Donas, que ocupara o espaço à direita da Igreja, estando esse espaço, bem como o do lado esquerdo, preenchido com


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as salas de aulas (os “gerais”) do Mosteiro e de algumas disciplinas da Universidade (os designados por Colégios de Santo Agostinho e de São João Batista). Em 1544, com a transferência de todas as aulas da Universidade para os Paços Reais, apenas se reservaram nesses dois espaços salas (com destaque para o “geral de Santa Catarina”) para os atos grandes de graduação em Mestre e Doutor (presididos pelo Prior Geral de Santa Cruz, por inerência Cancelário da Universidade), procedendo-se a reorganização dos espaços, passando a Igreja (paroquial) de São João de Santa Cruz para o lado sul (atualmente Café de Santa Cruz), e a entrada principal para o lado norte (com o Claustro da Portaria onde fora o Convento das Donas, atualmente Câmara Municipal) 21. A edição é completada pelos seguintes anexos: No primeiro, reproduzem-se os capítulos XXII e XXIII do Livro VII da Parte II da Crónica da Ordem dos Cónegos Regrantes do Patriarca Santo Agostinho (Lisboa, Oficina de João da Costa, 1668), onde D. Nicolau de Santa Maria alegadamente reproduziu a Descrição de D. Francisco de Mendanha, com pontuais anotações de alterações ocorridas entre 1540 e 1668, e o capítulo XXIV da mesma obra, onde o cronista crúzio descreve a nova Sacristia, feita em 1622-1624. No segundo, insere-se o estudo de Sousa Viterbo, publicado em 1890 na revista O Instituto, comparando a versão adulterada feita na Crónica com a versão original da Descrição, entretanto descoberta. Esse estudo é enriquecido com anexo documental, com três cartas de Gregório Lourenço, vedor das obras do Mosteiro, duas para D. Manuel I (de 1518) e uma para D. João III (de 1522), três documentos deste último relativos a Diogo de Castilho e uma quitação de João de Ruão à Misericórdia de Coimbra. O responsável pela 2.ª edição (Imprensa da Universidade, 1914) do estudo de Sousa Viterbo aditou-lhe novos documentos, que igualmente se reproduzem. O terceiro anexo contém a descrição do Mosteiro de Santa Cruz feita, cerca de 1598, por Frei Jerónimo Roman, transcrita e acompanhada de enquadramento histórico por Vergílio Correia, em 1930, nas páginas de O Instituto.


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No último anexo, reproduzem-se extratos de manuscritos de D. José de Cristo (D. José de Britiandos) e do cartorário D. Vicente, existentes na Biblioteca Pública Municipal do Porto, anteriormente divulgados por Joaquim Martins Teixeira de Carvalho e por Vergílio Correia, com dados importantes para o conhecimento da topografia do Mosteiro de Santa Cruz, onde se registam as principais modificações ocorridas relativamente à situação existente à data da escrita e edição da Descrição. Mário Araújo Torres.

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1 As oficinas do Mosteiro de Santa Cruz, onde a Descrição foi impressa, foi a primeira tipografia que funcionou em Coimbra. Para o efeito, coube a D. Dionísio de Morais, eleito prior castreiro em 1530, contratar o impressor francês Germão Galharde, estabelecido em Lisboa desde 1519 (cf. Helga Maria Hüsten, Para a história da tipografia portuguesa: a oficina de Germão Galharde e de sua viúva, 1519 a 1565, Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal / Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2020), para dirigir a instalação da imprensa, industriando os cónegos nas artes gráficas. Entre 1530 e 1532, ano em que regressou a Lisboa, Germão Galharde aí imprimiu cinco obras. A partir de 1532, principiaram os cónegos a imprimir por si mesmos, atividade que se prolongou até 1577, quando D. Sebastião pediu ao Prior-geral que lhe emprestasse a imprensa de Santa Cruz para no Mosteiro de São Vicente de Fora de Lisboa se imprimir a Bula da Santa Cruzada, cujo rendimento seria aplicado às despesas com a guerra em África. A imprensa nunca foi restituída a Santa Cruz de Coimbra. 2 William Brooks Greenlee (Chicago, 1872-1953), nascido no seio de uma abastada família ligada à indústria, ocupou-se até 1926 na direção de várias empresas fundadas pelo seu pai. Licenciado em Ciências, em 1895, pela Universidade Cornell (Ithaca, Nova Iorque), frequentou, como cadeira de opção, as aulas do historiador Henry Morse Stephens (Edimburgo, 1857 ‒ Berkeley, 1919), autor designadamente de uma História de Portugal (Londres, 1891), elogiada por Oliveira Martins, e de uma biografia de Afonso de Albuquerque (Oxford, 1892). Daí nasceu a paixão de Greenlee por Portugal e a sua história, em especial o período da expansão ultramarina, tendo feito longas viagens pelas Américas, África e Ásia, à procura dos rastos que por todo o Mundo deixaram os mercadores, os marinheiros e os aventureiros portugueses. Iniciou então a recolha de valiosa documentação e bibliografia, reunindo, ao longo da vida, cerca de 6000 volumes sobre Portugal, Índia e Brasil, que doou à Newberry Library da sua cidade natal, constituindo a Greenlee Collection.


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Sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa, integrou o National Advisory Commitee para as Comemorações dos Centenários (1940) e a Comissão Organizadora do Colóquio Luso-Brasileiro por ocasião do 150.º aniversário da Biblioteca do Congresso (Washington, 1950). Publicou The voyage of Pedro Álvares Cabral to Brazil and India from contemporary documents and narratives (1938), A Descriptive Bibliography of the History of Portugal (1940) e The captaincy of the second portuguese voyage to Brazil, 1501-1502 (1945). Ver notas biográficas de W. B. Greenlee na introdução de António Álvaro Dória à tradução portuguesa da primeira obra (A viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil e à Índia pelos documentos e relações coevas, Porto, Civilização, 1951); e Francis Millet Rogers, “William Brooks Greenlee, scholar and benefactor of portuguese studies”, The Hispanic American Historical Review, 1954, págs. 587-589. Sobre a Greenlee Collection, ver Doris Varner Welsh, A catalog of the William B. Greenlee Collection of Portuguese history and literature and the Portuguese materials in the Newberry Library, Chicago, Newberry Library, 1953; e Catalogue of the Greenlee Collection, Boston, G. K. Hall, 1970. 3 Jerónimo Ferreira das Neves ou Jerónimo Ferreira das Neves Sobrinho (1854-1918), oficial da Marinha de Guerra Brasileira, sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa (1885), foi um “bibliófilo de primeira água” (Sousa Viterbo), “distinto apreciador de bons livros e dos mais célebres autores” (Brito Aranha), e incansável colecionador de obras de arte. Cf. Sónia Gomes Pereira, “A Coleção Jerónimo Ferreira das Neves no Museu D. João VI do Rio de Janeiro”, em ARTIS ‒ Revista de História da Arte e Ciências do Património, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2.º, 2014, págs. 60-71; e Clara Moura Soares e Maria João Neto, “O gosto pelo colecionismo de vitral antigo em Portugal e no Brasil, no século XIX ‒ A Coleção Ferreira das Neves”, em ARTIS ON, Instituto de História da Arte, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, n.º 5 ‒ Vandalismo e Iconoclastia, 2017, págs. 237-249. 4 Desse confronto resulta que quem possuiu ou consultou a edição princeps da Descrição foi Frei Francisco de S. Luís (Cardeal Saraiva), que, na sua Lista de alguns artistas portugueses (Lisboa, Imprensa Nacional, 1839, pág. 10), na entrada sobre João de Ruão, refere: “Na obra intitulada Descripçam e debuxo do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, escrita em São Vicente de Lisboa pelo Prior D. Francisco em 1540, e impressa em Santa Cruz de Coimbra em 1541 em 4.º, descrevendo-se a fábrica do mosteiro e seus claustros, se faz menção dos retabolos mui delicados de pedra (que ainda hoje ali se veem, posto que danificados pelo tempo) e se dizem feitos por mam de João Ruam, e doutros grandes officiaes”, o que corresponde à versão original, e não à versão adulterada por D. Nicolau de Santa Maria (“Os retábulos destas quatro Capelas são também de pedra, feitos pelo Mestre João de Ruão”). 5 Venâncio Augusto Deslandes (Lisboa, 1829-1909), formado em Medicina pela Universidade de Coimbra, foi nomeado em 1878 administrador-geral da Imprensa Nacional. Descendente do famosa dinastia de impressores franceses


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Deslandes, estabelecidos em Lisboa nos séculos XVII e XVIII, publicou, entre outras obras, Documentos para a história da tipografia portuguesa nos séculos XVI e XVII. 6 Israël Salvator Révah (1917-1973), hispanista francês, nascido em Berlim no seio de uma família sefardita originária de Salónica. Em Paris, sob a orientação de Lucien Febvre e Marcel Bataillon, dedicou-se a investigações sobre o século XVI ibérico, que prosseguiu, desde 1946, no Instituto Francês de Lisboa, iniciando a publicação de textos históricos, sobretudo sobre marranos, sefarditas e a Inquisição, e de índole linguística, sobre a língua judeo-espanhola (ladino). Em 1955 regressa a França, ensinando na École des Hautes Études e, a partir de 1966, no Collège de France. É autor de obras sobre a Inquisição, a comunidade judeo-portuguesa em Amesterdão no tempo de Espinosa, marranos portugueses, como Uriel da Costa e António Henriques Gomes, diversos autores como Raymond Sebond, Gil Vicente, Garcia de Orta, João de Barros, António Pereira Marramaque, Jerónimo Cardoso, Duarte Nunes de Leão. Ver: José Vitorino de Pina Martins, Israël Salvator Révah (1917-1973), Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, 1974; e I. S. Révah, Études Portugaises, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, Centro Cultural Português, 1975. 7 A notícia dessa aquisição e da localização do exemplar da Descrição chegou ao conhecimento de I. S. Révah através da leitura, no The Newberry Library Bullletin, vol. III, n.º 7, novembro de 1954, do artigo “Portuguese Pamphlets”, da autoria de Gérald M. Moser (1915-2005), autor de diversas publicações sobre literatura africana de expressão portuguesa. 8 Cf. José Branquinho de Carvalho, Coimbra Quinhentista ‒ Evocação de um século de grandezas e misérias, separata do Arquivo Coimbrão, vol. X, Coimbra, 1948, em especial págs. 7-11. 9 Frei Timóteo dos Mártires, “Crónica do Real Mosteiro de Santa Cruz”, O Instituto, ano 103.º, 1944, pág. 319 (separata com o título Crónica de Santa Cruz, I volume, Coimbra, Biblioteca Municipal, 1955). 10 Gil Vicente, na Comédia da Devisa da Cidade de Coimbra, representada perante a Corte, em Coimbra, em 1527, escreve: “Outrossi as causas por que aqui tem / os clérigos todos mui largas pousadas / e mantém as regras das vidas casadas / desta anteguidade procedem também / sem serem culpados / porque são leis dos antigos fados / cousa na terra já determinada / que os sacerdotes que nam tem ninhada / de clerigozinhos são excomungados.” 11 Cf. vários exemplos dessa prática do cronista crúzio em João Correia Aires de Campos, “Cartas dos Reis e dos Infantes sobre vários assuntos tocantes ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a Universidade e a alguns Colégios das Ordens Religiosas da mesma cidade, desde 1518 a 1571”, O Instituto, ano 36.º, n.º 6, dezembro de 1888, págs. 369-370. 12 Segundo Frei Timóteo dos Mártires (“Crónica do Real Mosteiro de Santa Cruz”, O Instituto, ano 106.º, 1946, pág. 111; separata com o título Crónica


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de Santa Cruz, I volume, Coimbra, Biblioteca Municipal, 1955), D. Francisco de Mendanha era “filho de Galaor de Mendanha, cidadão de Coimbra, e de sua mulher Ana Vaz de Azambuja, filha de Vassalo Vaz de Azambuja”. 13 A frequência de Francisco de Mendanha na Universidade de Paris cerca do ano de 1518, estudando Direito Canónico, é registada por Luís de Matos, Les Portugais à l’Université de Paris entre 1500 et 1550, Coimbra, Universitatis Conimbrigensis Studia ac Regesta, 1950, pág. 25, que acrescenta que no mesmo ano também aí Frei Simão Pires estudou Direito Canónico e Frei Brás Lopes estudou Teologia, e que cerca de 1517 chegaram à Universidade de Paris, para estudar Humanidades, Frei Brás de Braga, Frei Diogo de Murça e Frei Dionísio de Morais. Os dois primeiros seguiram depois para a Universidade de Lovaina estudar Teologia, tendo Frei Brás de Braga, futuro Reformador do Mosteiro de Santa Cruz, regressado a Portugal em 1525 e Frei Diogo de Murça, futuro Reitor da Universidade de Coimbra, regressado em 1533. 14 Joaquim Martins Teixeira de Carvalho, “História e bibliografia dos estudos manuscritos e impressos sobre a obra dos escultores franceses que trabalharam em Coimbra no século XVI”, em Arte e Arqueologia ‒ Revista do Conselho de Arte e Arqueologia da 2.ª Circunscrição, ano I, n.º 1, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1930, pág. 13. 15 D. Marcos da Cruz: “Foi [D. Francisco de Mendanha] o primeiro Religioso que foi mandado à Corte de Roma sobre negócios de importância para o Padre Reformador [Frei Brás de Braga]. E por todas estas partes fazia dele El Rei D. João III e a Rainha D. Catarina muito caso, que gostava muito da sua amizade e conversação” (Manuscrito 632 da Biblioteca-Geral da Universidade de Coimbra, fl. 54). 16 Cerimónia descrita por Mário Brandão, Coimbra e D. António, Rei de Portugal: I ‒ A Educação de D. António, Coimbra, Publicações do Arquivo e Museu de Arte da Universidade de Coimbra, 1939, págs. 94-99; cfr. documentos publicados em Francisco Leitão Ferreira, Notícias Cronológicas da Universidade de Coimbra, volume III, tomo II, Coimbra, Universitatis Conimbrigensis Studia ac Regesta, 1944, págs. 52-55. 17 Ver em Mário Brandão (O Colégio das Artes, II volume, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1933, págs. 56-57), a transcrição da carta autógrafa de D. Francisco de Mendanha sobre o litígio, conservada no Arquivo da Universidade de Coimbra. 18 Publicada por Mário Brandão (Cartas de Frei Brás de Braga para os Priores do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, Coimbra, Imprensa Académica, 1937, págs. 178-179): “... E em que eu nom sey o que este moesteyro [do Salvador de Eclesiola, depois Grijó] poderá vyr a ser, e porém se ao que eu vejo em o sytio e em as mais calidades se enadesse a vista de V. A., certo com a eleiçam do Rey dos moesteyros eu daria com bõa consciência mynha voz a este do Salvador,


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e esto diguo, salva a policia da reformaçam e ediffícios dos outros moesteyros que mandou reformar, e inda dos de Sancta Cruz, que sam taes como em algũa maneyra poucos dias ha que vyo per sua descripçam e debuxo que fez o Irmão Veríssimo. E, segundo emtendy, foy sua tentaçam tyrar (como diz Sam Hieronymo) em aquella cousa pouca a ferrugem para escrever algũa de mays momento, e penso era sua intençam, com o favor divino, escrever depoys de mais velho, reformado e posto mais em assessego, algũas lembranças que arremedassem chrónyca da piedade christam de seu Rey e Senhor, pera que sintia abilidade”. 19 Sobre as negociações para o estabelecimento da Inquisição em Portugal até à expedição da bula de 23 de maio de 1536 e o papel nelas desempenhado pelo Cardeal António Pucci, cfr. Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal, volume II, nova edição preparada por Damião Peres, Porto/Lisboa, Livraria Civilização, 1968, págs. 382-402. No Corpo Diplomático Português contendo os atos e relações políticas e diplomáticas de Portugal com as diversas potências do Mundo desde o século XVI até aos nossos dias, publicado por Luís António Rebelo da Silva, encontra-se transcrita diversa correspondência trocada entre António Pucci (designado também por cardeal Santiquatro) e os Reis D. Manuel I e D. João III: Tomo I (Lisboa, Tipografia da Academia das Ciências de Lisboa, 1862), págs. 307308 e 378-79; Tomo III (1863), págs. 177-180, 278-281, 298-300, 309-311, 329333 e 460-463; e Tomo IV (1870), págs. 186-189 e 195-197. 20 Sousa Viterbo, em As grades de Santa Cruz de Coimbra, extraído da Revista Arqueológica, II, n.º 4, abril 1888, detetou dois lapsos na Descrição de D. Francisco de Mendanha: deu à grade que atravessava a Igreja, entre o púlpito e a capela-mor, uma altura (30 palmos) superior aos 25 palmos referidos na carta de Gregório Lourenço para D. João III, de 19 de março de 1522, e deu como feitas de pau-preto, bronzeadas a oiro, as grades que protegiam as sepulturas dos Reis, quando, segundo a mesma carta, eram de ferro. Um terceiro lapso ocorre quando, na descrição da sepultura de D. Afonso Henriques, refere que dois Anjos põem a coroa real na cabeça da estátua jacente. 21 Para conhecimento das transformações dos espaços ao longo dos tempos, são fundamentais os escritos de Vergílio Correia, recolhidos no volume I das suas Obras (Coimbra, Acta Universitatis Conimbrigensis, 1946), e de António Nogueira Gonçalves, quer no capítulo dedicado ao Mosteiro de Santa Cruz no Inventário Artístico de Portugal ‒ Cidade de Coimbra, II, Lisboa, Academia Nacional das Belas Artes, 1947, págs. 40-62, quer na sua Colaboração em Publicações Periódicas, recolhida por Regina Anacleto e Nelson Correia Borges (Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, 2019), vol. I, em especial págs. 51-121. Cfr. ainda Rui Lobo, Santa Cruz e a Rua da Sofia ‒ Arquitetura e urbanismo no século XVI, Coimbra, Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 2006, págs. 25-63.


D. FRANCISCO DE MENDANHA

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DESCRIÇÃO E DEBUXO DO MOSTEIRO DE SANTA CRUZ DE COIMBRA

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Coimbra, Mosteiro de Santa Cruz, 1541

Reproduzido por I. S. Révah

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Separata do Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, vol. XXIII

Coimbra 1957


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Descrição e Debuxo do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra by SitiodoLivro.pt - Issuu