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miguel rodrigues de oliveira
ROMANCE
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Inspirado numa História Verídica Imprevisível
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FICHA TÉCNICA TÍTULO:
Aroma Tóxico Miguel Rodrigues de Oliveira EDIÇÃO: Edições Pártenon® AUTOR:
CAPA:
Alda Teixeira Filipa Pestana
ISBN:
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1.a Edição Lisboa, setembro 2019
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PAGINAÇÃO:
978-989-8845-29-0 DEPÓSITO LEGAL: 459099/19
© MIGUEL RODRIGUES DE OLIVEIRA
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Todos os direitos de propriedade reservados, em conformidade com a legislação vigente. A reprodução, a digitalização ou a divulgação, por qualquer meio, não autorizadas, de partes do conteúdo desta obra ou do seu todo constituem delito penal e estão sujeitas às sanções previstas na Lei.
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Esta é uma obra de ficção, pelo que, nomes, personagens, lugares ou situações constantes no seu conteúdo são ficcionados pelo seu/sua autor/a e qualquer eventual semelhança com, ou alusão a pessoas reais, vivas ou mortas, designações comerciais ou outras, bem como acontecimentos ou situações reais serão mera coincidência.
PUBLICAÇÃO:
www.sitiodolivro.pt publicar@sitiodolivro.pt (+351) 211 932 500
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“Perder uma ilusão torna-nos mais sábios do que encontrar uma verdade.”
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KARL LUDWIG BORNE
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AGRADECIMENTOS
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A todas as famílias que acreditam num futuro melhor, que defendem ideais perante adversidades inesperadas e injustiças sem receber gratidões ou indulgências. Aos meus pais e amigos por me ensinarem valores de carácter, humildade e honestidade. Um agradecimento especial a todos aqueles que me fizeram chorar e rir, suar e tremer, e me tornaram mais forte, mais rico e mais pobre. Um forte abraço!
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CAPÍTULOS
Prólogo
A Notícia
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Nova Aventura
Proposta e Contraproposta Outros Voos Ilusões
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Carta de Rescisão
Advogado do Diabo Affidavit
Quarta-feira
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Vale da Morte Juan
Vere Dictum Tavira Descolocado Epílogo
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Prólogo Assam, Índia
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Três anos antes
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ntre, entre. Bem-vindo! Aceite água da nossa nascente. – O homem que se encontrava sentado no chão, de pernas – cruzadas, virou-se para chegar ao balde de madeira a seu lado. Ouviu-se um batuque quando este levantou uma grande colher de madeira tosca, a respingar, e, esboçando um sorriso simpático, a ofereceu ao visitante à sua frente. Aparentava idade avançada e uma figura franzina. Sobressaíam-lhe as ossadas da cara rugosa e das canelas raquíticas. A mão que se estendeu apareceu de entre as vestes, que se pareciam com lençóis brancos… Oliver acenou, enquanto retomava o folego. – Por favor… Obrigado… Levantou a cabeça para engolir a água. Bebeu diretamente da concha que por sua vez se encontrava amarrada por um cordel ao balde, não se importando com os fios de água que corriam nos cantos da boca. Quando limpou a boca, a testa e a cara, ao sudário que trazia no pescoço, reparou na paisagem em redor e numa suave melodia cantarejada de fundo, com cavidades polidas, o suficiente para um homem adulto conseguir entrar, e ao 11
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longe, entre a vegetação densa de arvoredos exóticos, as escavações arqueológicas. À medida que rodopiava, a colina revelou o que se assemelhava a uma galeria de arte de esculturas ao ar livre. Era possível vislumbrar os vestígios culturais das religiões locais e várias ruínas de templos antigos. Entrevia alguns visitantes, turistas, peregrinos, e arqueólogos pelos caminhos no meio do terreno montanhoso delineado pelas saliências lapidadas na pedra. Apercebeu-se que alguém cantarolava. Sentia-se hipnotizado. «…Nilanjanam Samabhasam Raviputra Yamagrajam Chhaya Maanda Sambhutam tam Namami Shanaishcharam…» Desta vez estendeu-lhe a mão com a palma aberta para cima como quem lhe pede algo. Oliver ofereceu-lhe as mãos timidamente e assim que as estendeu suficientemente ao alcance este puxou-lhe uma mão, e com a outra pousou algo sobre a dele. Quando a abriu, tinha sete pedras azuis na palma. – Neelam! – exclamou o homem. – Safiras?! – tentou adivinhar. – Yeah, Neelam! Número da sorte! O indivíduo que até aqui era parco em palavras, começou a dicção pausadamente, ao mesmo tempo que lhe segurava na mão. Oliver apercebeu-se que seria ele o Guru. – Estas são as posições planetárias no dia do teu nascimento. O Ascendente, a Lua, e o Sol, são aqueles que antecipam acontecimentos auspiciosos no seu respetivo espaço temporal. O Guru folheou uma série de papeis que tinha na sua frente com vários gráficos, pontos e números em diversos vetores, e por fim disse: – Terás uma natureza forte, cuidadosa, forçada e vigilante. És laborioso e possuis um caráter incontrolável e austero. Infor12
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túnios poderão tornar-te desconfiado dos outros. O teu forte orgulho pode fazer fronteira com a glória e a vaidade, que atenuaram com a tua força de vontade. Terás uma natureza afortunada, ganhos e legados. As combinações planetárias mostram um casamento feliz, e uma família unida. Terás um dom artístico e muita autoconfiança. Um dos teus progenitores vai ser uma fonte de alegria para a família. O teu signo zodíaco mostra que tens uma natureza forte e vigorosa e uma personalidade capaz de desejar o comando. És franco e generoso e de espírito aventureiro por natureza, não és feito para a vida eremítica, mas acautela-te com a inveja alheia e as situações perigosas que se adivinham. O homem inspirou profundamente, e depois expirou o ar, mantendo-se sempre de olhos fechados, enquanto Oliver escutava atentamente. Concentrava-se em perceber o melhor que podia entre um sotaque carregado e uma mistura estropiada de português com inglês. – Tu serás ambicioso, generoso, fiel, destemido e orgulhoso. Serás rico em vida e em sentimento, com amplitude de pensamento, e estarás alheio à inimizade. O Ascendente é afligido por Urano, e Rahu aflige a Lua, o que te deixa propenso a sofrer de constipações e doenças cardíacas. Oliver arregalou os olhos de espantado com a naturalidade com que este lhe ditou tamanhas atrocidades. – ….As combinações planetárias da tua carta fazem de ti uma pessoa afortunada, terás ganhos e felicidade através de amigos e da socialização; terás a realização das tuas ambições e todas as tuas aspirações serão razoavelmente satisfeitas. «…podia ser pior…» – pensou Oliver.
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À medida que o homem continuou a recitar a carta astral, Oliver debatia-se entre o seu lado cético, que o levava a ironizar tais dizeres, e a exaltação, que sentia ao descobrir as coisas boas que decifrava, e que o deixavam maravilhado. – …A maioria dos planetas está situada em sinais móveis e/ou comuns. Isso fará de ti um viajante nato que terá muitas mudanças na vida. – O Guru abriu os olhos momentaneamente – Terás jornadas em conexão com a profissão, e também terás viagens e passeios de prazer e lucro… De seguida, fechou-lhe a mão envolvendo-a com ambas as suas mãos, e depois passou-lhe uma mão nos olhos para os fechar. Acabado o discurso deixou-se ficar largos minutos sentado e continuou a cantarejar a melodia inicial... Oliver era um curioso. Não estava ali por fé ou devoção a qualquer entidade transcendente. Gostava de aprender e experimentar. Depois daquela sessão, veio pensativo no caminho de volta. «Até que acertou em bastantes factos com que me identifico. A ver vamos o que o universo acaba por conspirar…»
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1 A Notícia
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Arredores de Berna, Suíça Julho – quarta-feira
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orria como um desalmado, ofegante, e o único som que ouvia era o pulsar do seu ritmo cardíaco, pautado pelo impacto das passadas no asfalto. Controlava a respiração, inspirando o mais rápido possível e tanto quanto o peito lhe permitisse suster. O leve aroma floral que emanava do ar, a narcisos, prímulas e anémonas selvagens era como fonte de energia que lhe propulsionava o alento. E, ao expirar, entre saliva e muco, tinha a sensação que deitava tudo para fora, até os pulmões. Nem os espaços verdejantes, os lagos que desenhavam a paisagem, o nascer do Sol ou a lebre que lhe atravessara à frente, por onde passava, o distraíam da corrida. Tudo ficara para trás sem merecer atenção alguma. Depois de passar por uma dezena de casas, avistou a meta. Estava perto. Respirou fundo e ganhou coragem para a última centena de metros. O perfume no ar fazia-se notar mais inten-
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samente vindo dos canteiros nas janelas das casas. Eram lírios, rosas, violetas e cíclames de variadas cores. «Cheguei!», pensou, ao aproximar-se de sua casa. Quando finalmente parou, a transpiração cobria-lhe o rosto. Tinha gotas de suor a pingar-lhe pelos olhos, e a roupa ensopada. Olhou para o relógio e viu que ainda não eram sete da manhã. Markus tinha corrido os dez quilómetros que eram parte da sua rotina diária. Depois de fazer uns alongamentos, entrou em casa, com o ritmo cardíaco já normalizado, subiu até ao primeiro andar e espreitou pela porta entreaberta do quarto do filho, Stefan. Notou que ainda dormia, fechou a porta e dirigiu-se ao seu quarto, onde a mulher estava ainda deitada. Chegou-se à beira da cama e beijou-a na cabeça. Depois, afastou-lhe o cabelo e tornou a beijá-la na testa, e depois na face até lhe encontrar a boca. Ela não reagiu aos primeiros beijos, mas depois, lentamente, começou a espreguiçar-se. Markus aproveitou para continuar a cobri-la de beijos, agora na pele descoberta. – Bom dia, Amor! – sussurrou ao seu ouvido, entre os beijos que lhe dava. – Bom dia! Que horas são? – perguntou a mulher ainda meia adormecida. – Temos quinze minutos para tomar banho, o menino ainda está a dormir – disse baixinho num tom meigo. Continuaram os beijos e, como um íman, levantaram-se os dois da cama aunados, encaminhando-se para o duche, como por hipnose. Depois de a água correr alguns minutos, não tardou a formar-se uma nuvem de vapor na casa de banho, embaciando os vidros, o que contribuiu para a experiência surrealista de éden. Deixaram-se levar pelas carícias um do outro e pela cascata de água quente, soltando alguns gemidos tímidos. 16
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O ritmo cardíaco de Markus aumentara novamente, desta feita, ao ritmo do coração da amante que batia junto ao seu. Tomaram o pequeno-almoço juntos e prepararam Stefan para a creche. De seguida, Markus despediu-se dos dois com um beijo e um abraço, foi buscar a bicicleta e pôs-se a caminho do trabalho. Era uma vantagem, estar perto de casa e ter a oportunidade de se deslocar de bicicleta para o emprego. Chegara pouco antes das oito da manhã, mesmo a tempo de começar mais um dia. Era verão, e agora com a plena luz do dia, conseguiam ver-se os prados verdes ondulantes sarapintados de branco, amarelo, cor-de-rosa, violeta e vermelho das flores selvagens, onde passeavam algumas vacas de um lado, e do outro, alpacas. Os montes, à distância, sublevavam-se até às nuvens e pareciam unir o céu aos prados.
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Markus tinha-se mudado com a família, mulher e filho, para a Suíça, há pouco mais de um ano, após ter arranjado trabalho numa multinacional do ramo alimentar. A Suíça era conhecida por acomodar prestigiadas empresas nesta indústria, mas não era essa a única razão pela qual Markus se decidira mudar para lá. Para além da vertente profissional, fora em busca de qualidade de vida. Adorava as montanhas, as atividades a céu aberto, e ali, a neve possibilitava a prática de inúmeros desportos durante o inverno. E de verão havia sol e temperaturas amenas. Tinha finalmente encontrado maneira de conjugar o trabalho e o prazer da maneira mais vantajosa possível, com um cenário diferente daquele onde tinha estado antes.
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Nos últimos cinco anos, morara na Irlanda. Tinham sido anos risonhos, e uma experiência muito proveitosa, principalmente pelo traquejo profissional que adquirira, mas também pelas amizades que tinha feito, se bem que houvesse um lado menos positivo: não estavam completamente satisfeitos com a qualidade do sistema de saúde, nem com a limitação natural à prática dos desportos e das atividades ao ar livre, simplesmente pela quantidade colossal de chuva e de frio que se fazia sentir naquele país durante a maioria do ano. Na Irlanda, só havia duas estações do ano; uma com chuva, e outra com muita chuva. Para quem não estava habituado, era um osso duro de roer. Um dos seus grandes amigos era Oliver, cuja amizade já vinha de há cerca de nove anos. De início, ainda solteiros, tinham passado um ano juntos na Suíça, e logo aí criado uma forte ligação. Embora tivessem estado separados nos cinco anos seguintes, quando se reencontraram na Irlanda, sentiam que nunca se tinham separado. Eram estas amizades que Markus lembrava com carinho e, embora mantivessem contacto à distância, sentia saudades da sua presença. Fora na Suíça, pelos Alpes, que passaram por muitas aventuras marcantes, tal como a da escalada do monte Arpelistock ou a da escalada do Jungfraujoch. Era destas memórias que gostava, de aventuras passadas no exterior, de descobertas e da natureza. No primeiro inverno juntos, entre outras montanhas, tinham subido o monte Arpelistock, com um cume a 3 025 metros, onde a vista era de arrebatar. O ponto de partida fora Lauenen, no Cantão Berna, após estacionarem o carro. Subiram por um caminho estreito ladrilhado e deveras íngreme, delimitado pela relva e réstia de neve que cobria os montes em redor. Depois de andarem três horas a pique, com os 18
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músculos das pernas a doerem devido ao movimento repetitivo e das costas arqueadas para a frente para contrabalançar o peso das mochilas e manter o equilíbrio, pareceu-lhes ter avistado uma cabana. «Será uma quimera?», perguntavam-se. O caminho era tão inclinado, que tinham de erguer as cabeças aos céus para ver e, de tão cansados que estavam, perguntavam-se se seria verdadeira. Depois de algumas centenas de metros, por baixo de um manto branco de neve, conseguiram distinguir paredes com tonalidades castanhas e cinza, e janelas de madeira. À frente da entrada da casa, havia alguns degraus. Era Geltenhütte, a cabana onde pernoitariam para descansarem e se abastecerem, antes do resto da subida. Estavam agora a 2 000 metros de altura, a meio da subida. A barraca era modesta vista de fora, notavam-se frinchas e sulcos na madeira tosca e descolorada que revelavam a erosão do tempo. Tinha um primeiro andar com uma correnteza de janelas e em baixo, muita lenha rachada amontoada, pronta para a lareira, e bancos feitos de troncos grossos. Ao abrirem a porta, levaram com um bafo de ar quente na cara que os confortou de imediato, depois de todo o frio, chuva e lama por que tinham passado, e agora tentavam despir a primeira camada de roupa o mais rápido possível. No hall, havia várias sapateiras com muitas prateleiras cheias. A sala de convívio era ampla e havia sequências de bancos corridos e uma grande lareira. Cheirava a uma mistura de madeira, lume, e vegetais, quiçá havia sopa para o jantar. Não havia balcões, nem receção de hotel, o que o tornava num sítio mesmo muito acolhedor ao estilo rústico. Naquela noite, tiveram direito a sopa e chá bem quentinho, e massa, muita massa, que os preparou para passarem uma noite 19
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descansada antes da grande subida no dia seguinte. Quando se dirigiram para o quarto, espantaram-se e até acharam piada às camas que pareciam de criança, ou de anões; muito pequenas e todas corridas. Antes de adormecerem, ainda contaram algumas anedotas, já com a luz apagada. «O que é que o boneco de neve comeu ao almoço? Ice-bergers.» «Jesus Cristo disse que a sua fé move montanhas e Mohammed disse que a sua fé movia arranha-céus.» «Qual é a montanha mais preguiçosa? Monte Ever-rest» – Eu lembro-me de uma – disse Oliver –, que tipo de montanha todos gostam? – Fez uma pausa, para ouvir algum palpite. – Mountain Dew! – revelou. Poucos sabiam que Mountain Dew era efetivamente um refrigerante disponível no mercado, mas Oliver e Markus riam-se até não haver amanhã, ou não trabalhassem eles com bebidas. No dia seguinte, depois de tomarem o pequeno-almoço, equiparam-se a rigor, confirmaram a boa previsão do tempo, e seguiram pelo último troço, que era também o mais difícil. O gelo e a neve complicavam o caminho, mas a cada obstáculo que ultrapassavam, eram recompensados com vistas de uma beleza estonteante, cascatas gigantes, pântanos de gelo, e ribas sem fundo. Parecia-lhes que caminhavam para os confins do mundo. Num dos troços onde cabia apenas uma pessoa, depararam-se com uma corda presa numa pedra, com cerca de dez metros de lonjura, sem ter um carreiro suficientemente largo para um pé, mesmo ao lado de uma ravina. Normalmente, dava para ir à volta, mas naquele dia, a neve tinha apagado essa passagem por completo. Oliver e Markus fitaram-se um ao outro, come20
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çaram a apertar as luvas, os atacadores, e de seguida, tiraram os mosquetões e cordas da mochila, enrolando tudo em volta do ombro e da cintura. Por fim, ataram as cordas um ao outro por segurança. Markus foi o primeiro a arriscar-se e, lentamente, lá conseguiu passar, o que deu confiança a Oliver, que agarrou na corda cravada na pedra e seguiu confiante. Depois de alguns passos, meteu o pé no que parecia chão sólido, mas ao suportar-se nele, deu conta que se desfazia em neve. O pé escorregou, e assim que fez corpo morto, as mãos falharam a corda. Estava em queda de rompante quando foi balançado e suspenso contra a rocha de lado. Depois do susto, olhou para cima. «Sobe! Sobe!», ouviu, e trepou a corda o quanto antes, pensando que se poderia partir a qualquer momento. Ao alcançar o cabeço do penhasco, viu Markus em esforço, com os calcanhares assentes no chão como alicerces. Agarrou-se a tudo quanto conseguiu no solo e rolou pela neve para o mais longe possível da falésia. Ainda deitado, respirava a um ritmo frenético. Levantou-se esbaforido, apoiado primeiro num joelho, e depois no outro, e ao passar por Markus deu-lhe umas palmadas nas costas. – Boa pega! – disse ofegante, soltando uma risada devida ao stresse momentâneo. Markus ainda não queria acreditar no que acontecera. Salvara a vida do amigo. Estava sobressaltado só de imaginar o que poderia ter acontecido, se não estivessem precavidos com o equipamento adequado. Cinco meses depois, outra snowtrip, partilhada pelos dois, numa das cordilheiras mais altas dos Alpes Berneses, no Jungfraujoch, a 3 466 metros, também chamado de Topo da Europa, classificado como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO. A cordilheira liga os 2 500 picos, incluindo a mon21
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tanha Jungfrau, que se eleva a 4 158 metros e fica no Grande Glaciar Aletsch, a neve eterna, com o seu palácio de gelo, para admirar as suas obras de arte e descortinar os seus túneis. Era um must see para turistas, por isso já estava no calendário há algum tempo e eles sabiam exatamente ao que iam. Era primavera, e, ao subirem, encontraram as montanhas cobertas de edelweiss, pequenas flores alpinas com características pétalas brancas felpudas que pareciam carregar camadas de neve do último inverno. A estação ferroviária era já a mais alta da Europa, e por ela passavam composições de comboios de rodas dentadas. Quando estavam entretidos num dos platôs a desenhar anjos na neve, Markus sussurrou a Oliver: – Aconteça o que acontecer, continua a gravar sem dar nas vistas. – E deu-lhe a máquina fotográfica para a mão, naturalmente, sem a namorada se aperceber. Oliver, surpreso, aceitou a máquina e alinhou no que o amigo lhe disse. Não sabia ao certo o que se iria passar, mas começou por deduzir que havia planos maiores em jogo naquela viagem. O amigo afastou-se e, de surpresa, apanhou a namorada que construía um pequeno castelo de neve. Ao virar-se, esta viu-lhe o ar sério e começou a desconfiar do que dali viria. Quando Markus se ajoelhou e lhe estendeu os braços com o anel de noivado, corou, contorceu-se de tanto se rir, levou as mãos ao rosto, que, com as luvas, lhe taparam a cara toda. Ficou sem reação, num misto de vergonha e espanto. No meio daquilo tudo, Oliver soltou umas gargalhadas ao mesmo tempo que filmava, o que, apercebeu-se mais tarde, ficara um quanto ou tanto distrativo no filme, mas no momento, não se conseguira conter.
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Para além de todas as aventuras, as memórias que ficavam eram aquelas de amizade, de alegria, de sorrisos e de entreajuda perante as adversidades. Estes eram valores pelos quais se guiavam, e mesmo que inconscientemente, estavam prevalentes em todas as aventuras que tinham passado. Não era nada tangível, de que se pudesse falar, não era tema de conversa; não se viravam um para o outro e declaravam: «temos grandes valores que nos unem e que nos vão ajudar no futuro». Não. Era tudo uma aventura. E só mais tarde, com o passar de uma vida, e ao olhar para trás, é que seria possível dar valor e apreciar a amizade, como agora o podemos descrever.
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No final do dia, Markus acabou o trabalho e seguiu para casa, continuando a rotina de uma qualquer quarta-feira. Imediatamente após abrir a porta, ouviram-se gritos de criança, gritos de felicidade, como quem espera para abrir um presente. – Quem é, Stefan? Quem é? É o Papá?! – perguntou a mãe. – Papá!! Papá!! – ouvia-se gritar do outro lado da porta. – Oláaa! – disse Markus ao abrir a porta da rua, com um sorriso do tamanho do mundo. – Anda ao papá! – disse, estendendo-lhe os braços. Stefan acelerou na direção do pai que o pegou ao colo. De seguida, cumprimentou a mulher com um beijo na boca. – Não vais acreditar no que recebi hoje! – exclamou ela com um ar assustado. – Então, o que se passou? – Vem daí, eu mostro-te no telemóvel, nem sei explicar.
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Naquele momento, aproveitando-se da distração de Stefan, a mulher passou o telemóvel ao companheiro. – É sobre a Aroma Corporation? – perguntou, sem desviar o olhar do visor do telemóvel. – Sim! E nem vais acreditar de quem fala... Markus já estava com a pulga atrás da orelha só de pensar no que poderia ser assim tão assustador. Coisa boa não seria. Assim que ficou liberto do filho, concentrou-se na leitura. Ficou vários minutos a olhar para o telemóvel, fazendo scroll para cima e scroll para baixo e olhou pasmo para a mulher, que lhe retribuiu o olhar com um acenar de cabeça. – Acreditas?! – perguntou ela e reparou que o marido começara a escrever algo no telemóvel. – O que estás a fazer? Ele abriu os olhos, incrédulo, e abanou a cabeça. – Estou a escrever ao Oliver. Quero perguntar-lhe o que se passa – respondeu compenetrado. – Aliás, vou já telefonar-lhe – reiterou. A mulher que, entretanto, brincava com o filho, virou-se para ele, depois de este se manter em silêncio durante alguns minutos. – Não consegues falar com ele? – Não atende. Não dá sinal. Vou tentar o WhatsApp. Quando acabou de enviar uma nova mensagem pousou o telemóvel na mesa. – Até me sinto enjoado com esta notícia, isto é muito estranho, não se parece nada com algo que o Oliver possa ter feito. Depois de orientarem o jantar e terem deitado Stefan, Markus e a mulher ainda estavam incrédulos e a pensar no que tinham acabado de ler. Oliver não respondera a nenhuma das suas mensagens. O telemóvel dele parecia estar desligado. 24
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– Porque não telefonas ao Hari? – sugeriu a mulher. – Pode ser que ele saiba o que se passa e que saiba mais que nós... – Sim, boa ideia – respondeu. Foi uma grande surpresa para Markus saber das notícias do seu amigo de longa data, as quais não se encaixavam no seu perfil. Oliver estava incontactável, o que dava ainda mais suspense a toda esta inesperada situação. – Estou, Hari!? Tudo bem? É o Markus. Tenho de falar contigo urgentemente…
Arredores de Londres, Reino Unido Julho – quarta-feira
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Às sete da manhã, já se sentia um aroma ativo pela casa, um misto de especiarias, cardamomo, e erva-caril, com chás, jasmim e incenso, de modo que só pelo nariz se adivinhava ser uma casa indiana. Hari ainda dormia, mas a sua mulher, Maya, já estava quase a acabar uma fornada de pão chapati. Maya fazia tudo de fresco, já eram hábitos adquiridos dos tempos em que morava na Índia, e mesmo após mudar para o Reino Unido, desde o casamento, que continuava a tradição. Fazia todas as iguarias da sua terra natal, com amor, e cada refeição que confecionava era como uma terapia de saudade. Embora reclamasse bastante por não conseguir encontrar ingredientes com sabores tão ricos e intensos como encontrava na sua terra natal, dava-lhe um prazer enorme a preparação destes cozinhados, e o sortudo era o marido. Aos dias de semana, pela manhã, fazia questão de preparar um pequeno-almoço dos deuses indianos, claro está, com chapati feito na chapa, que, depois, normalmente, acompa25
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nhava com uma das suas geleias artesanais de queijo creme com damascos e ervas aromáticas. Maravilhoso! Quando o despertador tocou, já Hari sonhava com comida, embriagado com o cheiro a pão acabado de cozer vindo da cozinha, e que se espalhava por todas as divisões da casa, incluindo o seu quarto no primeiro andar. Era por estas e por outras que ele não conseguia resistir a qualquer refeição da sua esposa, mas depois queixava-se de estar a ser demasiadamente bem alimentado e que precisava de fazer exercício. A culpa era da bondosa mulher, que lhe fazia o agrado de preparar um manjar a cada refeição... Não resistia o marido, nem resistia ninguém. Um dos fãs de Maya era Oliver. O casal mantinha uma grande amizade com Oliver. Este, tinha conhecido Hari na Irlanda, na sua empresa atual, e embora Hari já tivesse mudado de emprego, mantinham contacto quase diário.
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Três anos antes tinham vivido um dos mais belos momentos das suas vidas, marcante para os dois – o casamento de Hari e de Maya na Índia. A cerimónia, ou Biya, como se refere na língua nativa, fora uma cerimónia tradicional hindu que transformou aquele mês de agosto numa aventura e experiência única para Oliver, que fez questão de viver e partilhar todas as emoções do seu amigo, num dos dias mais felizes e importantes da sua vida. O casamento fora na região mais a Este da Índia, em Assam que, até hoje, poucos ocidentais visitaram. Entre os campos de chá de Assam e a selva desbravada, mais a sul, fica a cidade de Guwahati, a maior área urbana no Nordeste da Índia, e fora ali que Hari e Maya se casaram. Foram 26
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duas semanas de rituais de dança, de canto e de encanto, em nada semelhantes aos típicos casamentos católicos a que Oliver tinha assistido até à data. Nos primeiros dias, houve regras a cumprir: o noivo e a noiva pouco dormiam. Dois amigos da parte de Hari, que vieram do Ocidente, ficaram num resort como escolta real do noivo, para se certificarem de que se portava bem nos dias anteriores ao evento principal. Estavam também encarregues de o animar e de lhe fazerem ver os dois lados de um casamento; o lado bom e o lado ainda melhor! E como a mulher tinha sempre razão, não poderia dizer-se outra coisa. Fazer parte do dia principal do casamento fora algo fenomenal. Os homens tinham ficado separados das mulheres e cada grupo tinha ficado respetivamente na sua casa, a casa das mulheres e a casa dos homens. A outra razão para ficarem num resort prendia-se com o facto de na casa dos noivos se organizarem rituais com cânticos assameses que se arrastavam pela noite dentro acompanhados do uruli, o som feito pelas mulheres ao rolar a língua, o que, a conselho do noivo, tornaria difícil o adormecer para as visitas. Todos se vestiram a rigor, com vestes tradicionais indianas, tendo Oliver passado algum tempo, antes do casamento, nas compras pelos bazares de Guwahati. Sapatos de Aladino dourados, dhoti tradicional, kurta vermelho intenso, e mais vestes suplentes. Também usavam um Cheleng, um xaile tradicional Assamês, que servia para limpar o suor constante que corria, com o calor e a humidade que se fazia sentir. Quanto ao noivo, ia com o seu turbante e sherwani de seda muga, que o cobria até aos joelhos e que se parecia com uma vestimenta de general de
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exército, omnipotente, só que com muito mais cores e brilhantes – um verdadeiro rei da Índia. – E agora, Hari? – perguntara Oliver, aglutinado por aquela algazarra toda. – Agora vamos à casa das mulheres, a ver se conseguimos negociar a noiva – respondeu Hari. – O quê?? – perguntou a rir-se, arregalando os olhos. Estava tão surpreso como entusiasmado. – Temos de conseguir comprar a nossa entrada na casa das mulheres primeiro. É chamada a Dora Aaha! – explicou-lhe Hari. – Vem! Entra! Temos de conseguir passar! – disse energeticamente. – Claro! Vamos! – respondeu Oliver. Deu um pulo para dentro do jipe todo entusiasmado, mesmo não sabendo o que teria de fazer ao certo. Estava em êxtase. Já dentro do carro onde iam, Hari, Oliver e mais alguns amigos e familiares homens, ouviam a música tradicional numa cassete. Oliver cantarolava, era o único que não sabia a letra, mas não se importava nada. – Atenção! Elas vão-te tentar subornar, mas tu fazes-te forte! Temos de conseguir ganhar a nossa passagem! – berrava Hari. Faltavam cinquenta metros para chegar à casa das mulheres e o carro parou. – A partir daqui é a pé! Vamos! – explicou Hari ao amigo. Assim que saíram do carro, a banda começou a tocar, e a andar em frente. Do nada, havia muitas mais pessoas ao redor do carro, na estrada, que presumiu terem vindo a pé das redondezas. Todos começaram a dançar e a cantar. Oliver aproximou-se, observou uns movimentos típicos e juntou-se à dança, e ao ritmo frenético dos tambores grandes e pequenos, chandes 28
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que traziam ao colo, pratos, pandeiretas e flautas. Viu ainda gaitas de foles e violinos. Continuaram nisto até se depararem com uma autêntica barricada na estrada feita de cadeiras, mesas, e uma muralha humana, feita de mulheres! E percebeu que era tempo de negociar. Oliver, assim que se chegou às mulheres em frente, dançou, sorriu, cumprimentou, e levou com um doce inteiro na boca. Tinha sido apanhado desprevenido e não deu muita luta. Mais tarde, finalmente, Maya entrou em cena, elevada nos ombros dos familiares. Não se ficara atrás do noivo, coberta com um sarhi que cintilava, um arco-íris ao passar na sala, com o cabelo e a face coberta de joias douradas. Com os olhos postos no chão e as palmas das mãos juntas, conseguia-se ver o desenho das tradicionais hennas com padrões envoltos em sinais complexos que se estendiam até meio dos braços. – Estás a ver, Oliver!? Ali está a minha Laxmi! A minha deusa indiana! – gritou Hari, dirigindo-se ao meio da sala para assumir a sua posição na cerimónia. Afinal, o choque cultural não passara de uma surpreendente descoberta de novos sabores, novas roupas, novas vivências… Nos dias que passou na Índia, Oliver perdia-se pelos bazares tradicionais. Geralmente, Hari alugava um táxi para o dia por ser tão barato. Deslocavam-se até ao centro da cidade, ziguezagueavam por entre vacas e cabras, e se o trânsito estivesse a atrapalhar, o taxista não fazia mais nada, metia-se em sentido contrário – não importava, desde que chegassem ao destino. Destilavam o dia todo, mas o remédio era muito gratificante: bebiam água de coco acabado de talhar, ou o sumo de cana-de-açúcar, néctar dos deuses, e em certos sítios, nos restaurantes de rua, pediam batido Mango Lassi com sumo e polpa de manga tão madura 29
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e doce que era uma autêntica sobremesa. Não houve um prato que fosse demasiado picante (interessante de saber para alguém que não tinha sido habituado a pratos tão condimentados), só pratos de comer e chorar por mais. Não se cansava de passar naquelas correntezas com os amigos, onde eram presenteados com legumes, vegetais, fruta e especiarias de cores tão vivas que mais se pareciam com autênticas telas pintadas. Oliver ficava de tal maneira hipnotizado com tanta beleza que se perdia, literalmente. Felizmente, era facilmente encontrado, bastando perguntar pelo homem branco que ali tinha passado. Quando voltavam para o resort, ficavam na rua a admirar os elefantes que por ali circulavam, enormes, majestosos. Era sem dúvida um cenário diferente daquele que tinha em casa. Oliver tinha ficado fã de um país tão caótico e ao mesmo tempo de tamanha magnificência. Descobrira toda a variedade das especiarias indianas e tinha-se adaptado a mudanças, como por exemplo, a de não comer carne. Naquela época, muita gente lhe perguntara o como e o porquê de ter deixado de comer carne, especialmente a sua mulher Anna, que ficara completamente revoltada com a ideia, até com ciúmes. Muitos perguntavam se seria pelo valor moral, espiritual, ou se pelo valor nutricional, ou ainda se teria ficado solidário por alguém. As suas escolhas surpreendiam muitos curiosos, não fosse a sua formação e o ambiente anterior, a Engenheira Alimentar. Mas a resposta não era cínica ao ponto de reclamar valor moral, em defesa de animais, nem o apregoar de entidades espirituais, e também não era uma escolha que simplificava a sua vida, isso não era sem dúvida. A mulher jurava a pés juntos que não iria cozinhar dois pratos diferentes por refeição só porque ele se lembrara de não comer carne. 30
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Não foi fácil de conciliar a nível familiar, especialmente numa casa onde se cozinhava muita carne, mas possibilitou a Oliver descobrir dezenas de novas opções vegetarianas e especiarias que ajudavam a confecionar os alimentos de centenas de maneiras diferentes. Sentia-se saudável, era simples, e não havia razão para comer em demasia, pelo que continuou sem comer carne nos dois anos após a viagem.
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Maya tinha chegado das aulas de inglês mais cedo, e já preparava o jantar, quando Hari chegou do trabalho. Assim que entrou em casa, conseguiu distinguir o cheiro a cominho, cravo e gengibre. – Namastê! Que bom, caril! – disse Hari enquanto inspirava os voláteis vindos da panela que aproximava com a mão. – Sai! Sai da cozinha, estou a cozinhar! – replicou Maya, com a colher de pau na mão a rir-se para ele. Entretanto, Hari ajudou a pôr a mesa, tanto quanto Maya o deixou, depois foi à sala de estar e acendeu o incenso que ficava ao lado de uma tela enorme do Lord Shiva. Maya juntou-se a ele passado pouco tempo e compenetraram-se em orações. O telemóvel, que se encontrava na mesa ao lado, tocou durante o jantar e Hari, ao reconhecer o toque, esticou-se para ver quem era. – Olá, Markus, tudo bem? Então, como vão as coisas? – Olá, Hari, está tudo bem connosco, sim. Como andas tu? Desculpa telefonar tão tarde... – Ora essa, não tem problema algum, estava só a jantar com a Maya, tu podes ligar a qualquer hora, meu amigo. 31
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– Claro, obrigado. Hari, estou a telefonar para perguntar se sabes alguma coisa do Oliver, se falaste com ele ultimamente. Já viste o que escreveram dele? – Não, por acaso esta semana ainda não falámos, porquê? Aconteceu alguma coisa? – Espera, vou mandar-te um link para veres. – Claro. Manda. Fez-se silêncio. – Já está. Recebeste? – Espera… OK, já recebi, deixa-me ver… – É uma notícia muito estranha sobre o Oliver e a Aroma Corporation, e… Já leste? – perguntou Markus, depois de uma pequena pausa. – O quê? Isto é mentira… A sério? O que é que a Aroma Corp inventou desta vez? Foram longe de mais, isto parece muito mau… – disse Hari, quase sem saber como reagir. – Já tentaste saber se ele está bem? – Eu sei, parece muito grave. Não, ainda não consegui falar com ele. O telemóvel dele não dá nada, e também não me respondeu às mensagens que enviei, por isso fiquei preocupado e resolvi ligar-te, talvez soubesses alguma coisa. – Será que isto tem que ver com a rescisão dele? Ele disse-me que era uma possibilidade real, despedir-se, apresentar a carta. Mas isso não implica que ele tenha feito alguma coisa daquelas. – Concordo, parece muito estranho, mas sinceramente, não acredito que tenha acontecido. – Depois daquela história que aconteceu antes com o recrutamento para aquela nova posição… Ele contou-te? – Sim, sei bem. Foi uma vergonha. 32
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– O que eu sei é que é tudo números para a Aroma Corp, nada mais… – expôs Hari em tom de desânimo. – Mas quem será que está por de trás disto? – interrogou-se Markus. – Isto não é nada boa publicidade… – Boa pergunta, até estou enjoado… Depois da conversa, Hari não se sentia bem-disposto, perdera a fome. A comida que há vinte minutos o fazia salivar de apetite, agora provocava-lhe vómitos. Não conseguiu comer mais nada e contou a notícia à mulher.
Arredores de Cork, Irlanda julho – quarta-feira
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Ouviu-se um choro vindo do quarto dos miúdos. Bela acordou sobressaltada, olhou para o relógio, e viu que ainda eram quatro da manhã. «Outra vez não...», murmurou. Ainda se deixou ficar deitada uns minutos na cama na esperança de que o miúdo voltasse a adormecer, mas o choro continuou. Teve de se levantar. Ao seu lado, deitado, Vítor ressonava – este nem que a casa fosse abaixo acordaria. No corredor, à esquerda ficava o quarto dos miúdos. Tinha uma cama de casal onde dormia o filho mais velho, de quatro anos, e, ao lado, num berço, dormia o mais novo, que naquele momento choramingava e esperneava, sabe-se lá porquê. A divisão estava pintada de azul e a luz de presença, embora branca, dava a mesma tonalidade à mobília. Era um forte de rapazes. – Então, meu bebé, o que se passa?! Anda cá… – Bela pegou no filho e embalou-o ao colo. – Então, perdeste a chucha?
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Ainda ficou algum tempo a confortá-lo, ora de pé ora sentada, mudou-lhe a fralda, até que lhe foi preparar um biberão de leite. Quando finalmente conseguiu que o filho adormecesse, voltou ao quarto para se deitar. Já eram cinco horas. Volvidas duas horas, Vítor levantou-se para preparar o pequeno-almoço para todos. – Bom dia, dorminhoca! Isso é que é dormir! Nem o despertador te acordou hoje. – Fala baixo, estive acordada a noite toda... – contestou Bela. – A sério? Não dei por nada – respondeu Vítor desconfiado. Bela estava com vontade de lhe bater e dizer das boas, como ele ressonava alto, mas nem para se queixar tinha forças. – Dá-me aí dois comprimidos para a dor de cabeça por favor, tenho a cabeça a estalar... – pediu com visível agonia e a esconder a cabeça da claridade com a almofada. – OK, mas tens de te levantar, já estamos atrasados. Vítor despediu-se da mulher e filhos e saiu para apanhar o autocarro, enquanto Bela, que levava os miúdos, conduzia o carro para os deixar na creche antes de seguir caminho para o emprego. Trabalhava para uma empresa de aromas há seis anos e era responsável pelo departamento sensorial. Bela tinha estudado na universidade de Cork, onde tirara o doutoramento, e quando acabara, fora fácil arranjar trabalho na Irlanda. Como casal português, tinham-se cruzado com mais portugueses durante esse tempo em Cork, incluindo Oliver e Anna. Bela e Oliver tinham estudado na mesma universidade, embora em departamentos diferentes, e mantinham o contacto desde quase há uma década, partilhando vários serões todos juntos.
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Naquela tarde, Bela estava de volta a casa e reparou que uma colega de trabalho lhe enviara uma mensagem por telemóvel. «Este não é um amigo teu português?», viu escrito no visor, com um texto seguido por um link. Antes de se lembrar de ir ver de que se tratava, já tinha chegado à creche e era tempo de ir buscar as crianças. Foi só na manhã seguinte que, com os miúdos ainda a dormir, viu o telemóvel. «Não é possível» – pensara. – Oh my God! – ecoou na casa. – Isto parece um filme, não acredito que esteja a acontecer ao Oliver, o que é que ele poderia ter feito? Ficou estupefacta. Leu a notícia várias vezes. Vítor, que tinha ido à igreja bem cedo, acabara de chegar a casa. Tinha comprado o jornal DNI – Day News Ireland. – Olha lá a notícia que encontrei no jornal hoje!! – disse, enquanto folheava o jornal. – Não me digas que é sobre o Oliver?! É?! – suspeitou Bela. – Como é que sabes?? Apareceu na televisão? – perguntou, espantado. – Não! Mandaram-me este link das notícias da Internet ontem, mas só vi hoje quando acordei. Grande cena… – Aquilo parece coisa tirada de filme, nem dá para acreditar! – disse Vítor, levando as duas mãos à cara. – Parecem as notícias dos Estados Unidos que víamos quando lá vivíamos. Surreal! Isto será verdade? – perguntou incrédulo. – Se fosse dia 1 de abril até adivinhava a mentira, mas se está no jornal deve ser verdade, sei lá. Tenho que telefonar à Anna para saber ao certo o que se passa.
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Bela tentou ligar a Anna, com quem falava mais regularmente, sem querer incomodar Oliver. Como não atendera, mandou uma mensagem escrita pelo telefone. Pensou em telefonar-lhe mais tarde. Já se sabe que as notícias, especialmente as piores, se espalham depressa. A notícia inesperada que todos os amigos de Oliver tinham acabado de ler era a mesma que os tinha petrificado naquela quarta-feira à noite.
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DNI – Day News Ireland – Aroma Corporation acusa empregado de espionagem industrial. Foram impostas medidas cautelares interinas contra um funcionário da Aroma Corporation, que a empresa teme ter removido informações confidenciais sobre o negócio de ingredientes para bebidas. Na semana passada, o grupo Aroma Corporation impôs ordens contra Oliver Mendes, um gerente sénior de aplicações e técnico de desenvolvimento e investigação da Aroma Corporation, depois de afirmar que tinha «fortes suspeitas» de que o sujeito teria retirado a informação e que está em negociações com uma empresa rival. Na semana passada, o advogado do grupo Aroma Corporation disse que o Sr. Mendes, de Rye Spenser Street, Co Kildare, havia apresentado a carta de demissão, e foi colocado em gardening leave por um mês, devido a preocupações com e-mails enviados para fora do local. O advogado representante da Aroma Corporation disse que a empresa acredita que o Sr. Mendes agiu em violação de acordos restritivos no seu contrato de trabalho. Ele entrou nas instalações da empresa dois dias antes da sua renúncia com duas malas e há a preocupação de que propriedade da empresa 36
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possa ter sido retirada. Uma cabine de arquivo foi esvaziada. Houve «fortes evidências», que ele removeu informações confidenciais e estava em discussões com um concorrente alemão, disse o advogado. Um dia depois de se ter demitido, 300 e-mails foram encaminhados para endereços de e-mail pessoais, disse o advogado. A explicação dada não fazia sentido quando o demandante tem o seu próprio sistema de back-up sofisticado, disse o representante da Aroma Corporation. Uma análise ao computador portátil de Sr. Mendes, realizada para a empresa, mostrou que os e-mails incluíam informações confidenciais. A empresa estava muito preocupada com as informações confidenciais que haviam sido enviadas para fora da empresa, contrariando a sua política de confidencialidade, disse o advogado.
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2 Nova Aventura
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eseja-me boa sorte! – disse Oliver ao despedir-se da mulher. – Assim que se aproximou do marido, Anna deu-lhe um beijo demorado, enquanto lhe aconchegava as bochechas com as palmas das mãos. – Adoro-te! Vai correr tudo bem, eu sei. Boa sorte, amor! – segredou-lhe com ternura. Nesse instante, Oliver sentiu calafrios e calor ao mesmo tempo, e o coração a acelerar. Os muitos mecanismos cerebrais envolvidos naquele amor eram inexplicáveis, faziam-no acreditar em magia. Só ele, estando tão apaixonado, o podia compreender, só assim podia explicar as sensações provocadas por um beijo igual ao que Anna lhe oferecera. E embora tivesse provocado uma explosão de mil sensações, haviam passado apenas alguns segundos. 39
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