Os Maias da Atalaia
Edição: edições Ex-Libris ® (Chancela Sítio do Livro) Título: Os Maias da Atalaia Autor: José Mota Maia Capa: Patrícia Andrade Paginação: Sítio do Livro 1.ª Edição Lisboa, Maio de 2015 ISBN: 978-989-8714-40-4 Depósito legal: 392042/15 © José Mota Maia PUBLICAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO:
Rua da Assunção, n.º 42, 5.º Piso, Sala 35 1100-044 Lisboa www.sitiodolivro.pt
JosĂŠ Mota Maia
Os Maias da Atalaia
ÍNDICE
Introdução – A origem do apelido MAIA . . . . . . . . . . . . .
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Capítulo I – Resumo histórico da Atalaia . . . . . . . . . . . . .
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Capítulo II – Tomada de Santarém aos Mouros . . . . . . . . . . 19 Capítulo III – A Igreja Matriz da Atalaia . . . . . . . . . . . . . .
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Capítulo IV – O Cardeal Patriarca de Lisboa . . . . . . . . . . . . 31 Capítulo V – A «Mina» ou túnel, referência templária na Atalaia . 45 Capítulo VI – A Perda do estatuto de freguesia sede do concelho de Atalaia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51 Capítulo VII – A População da Vila Velha de Atalaia . . . . . . .
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Capítulo VIII – As famílias ilustres da Atalaia . . . . . . . . . . . 65 1. Os Zagalos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65 2. Os Picciochi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73 7
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Capítulo IX – Os Maias da Atalaia . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Capítulo X – Os Maias da Atalaia e a Cidade de Tomar . . . . . 121 Capítulo XI – Os Maias da Atalaia e a Mocidade Portuguesa . . 133 Capítulo XII – A Praça de Touros de Tomar . . . . . . . . . . . . 139 Capítulo XIII – A estreia do José Mota Maia na arte do toureio 141 Capítulo XIV – A passagem dos Maias da Atalaia para Lisboa . 145 Capítulo XV. O Instituto Superior Técnico e os Maias da Atalaia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 155 Capítulo XVI – O Serviço Militar Obrigatório . . . . . . . . . . . 163 Capítulo XVII – O Quartel do Porto Brandão . . . . . . . . . . . 177 Capítulo XVIII – O Quartel de Abrantes e as Manobras de Santa Margarida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 185 Capítulo XIX – O regresso ao Instituto Superior Técnico . . . . 195 Capítulo XX – A Elisabete Horta Freitas Maia . . . . . . . . . . 203 Capítulo XXI – A Maria Ângela de França Mendes Machado . . 211 Capítulo XXII – A viagem pela Europa . . . . . . . . . . . . . . 247 Capítulo XXIII – A Licenciatura do José Mota Maia . . . . . . . 261 8
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Capítulo XXIV – A nomeação do engenheiro José Mota Maia para Secretário do Secretário de Estado da Indústria . . . 263 Capítulo XXV – A nomeação do engenheiro José Mota Maia para o cargo de Chefe do Serviço de Invenções do Quadro da Direcção Geral do Comércio . . . . . . . . . . . . . . . 267 Capítulo XXVI – O Marcial Mota Maia e a Felizarda do Nascimento Maia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 271 Capítulo XXVII – O regresso de Manuel Freitas Maia e de Maria José Mota Maia à Atalaia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 275 Capítulo XXVIII. As mudanças políticas ocorridas em Portugal
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Capítulo XXIX – A criação do Instituto Nacional da Propriedade Industrial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 289 Capítulo XXX – Principais linhas de actuação do engenheiro José Mota Maia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 295 Capítulo XXXI – A estrutura jurídica Nacional, Internacional e Europeia em matéria de Propriedade Industrial . . . . . . 303 Capítulo XXXII – A doença da Maria Ângela . . . . . . . . . . . 311 Capítulo XXXIII – A quarta geração dos Maias da Atalaia . . . . 313
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DEDICATÓRIA
Cumpre-me, em primeiro lugar, o grato dever de dedicar este meu livro a minha querida mulher, Maria Ângela de França M. Machado Mota Maia e à minha querida filha, Sónia Maria de França Machado Mota Maia; E Com muita saudade, dedicar, a título póstumo, este meu trabalho aos meus avós: Manuel António Maia e Maria Nazaré Freitas Maia; aos meus pais: Manuel Freitas Maia e Maria José Mota Maia; aos meus tios: António Freitas Maia e José Freitas Maia e ao meu irmão, Marcial Mota Maia. É com muita estima e amizade que também dedico este meu trabalho à minha prima Elisabete Horta Freitas Maia Costa Prates e aos Maias da quarta geração: Aos meus sobrinhos, Rodrigo do Nascimento Maia, e Cláudia do Nascimento Maia, filhos de Marcial Mota Maia; Ao meu primo, Renato Maia Prates, filho da Elisabete Horta Freitas Maia Costa Prates;
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E, ainda, A todos os que, de uma forma ou de outra, incluem nos seus nomes o apelido MAIA.
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INTRODUÇÃO
A ORÍGEM DO APELIDO MAIA
MAIA. É uma das mais antigas linhagens portuguesas – A dos Maias.
Tudo parece ter começado com o casamento de D. Ramiro II de Leão com a moura Ortiga, do qual nasceu um rapaz a que deram o nome de Alboazar Ramires. Este casou com D. Helena Godins, filha de D. Godinho das Astúrias. Deste matrimónio nasceu Traslamiro Alboazar que casou, em primeiras núpcias, com D. Mêndola Gonçalves, filha do Conde D. Gonçalo Nunes. 13
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Deste casamento nasceu D. Gonçalo Trastamires da Maia que foi senhor da Terra da Maia, da qual tomou o apelido. D. Gonçalo Trastamires da Maia foi contemporâneo dos Reis D. Afonso V de Leão e de D. Afonso VI de Castela. D. Gonçalo da Maia foi grande batalhador, tendo tido muitas guerras com os Mouros, a quem tomou a Terra da Maia que, então, era constituída por toda a região situada entre-os-rios Douro e Lima. D. Gonçalo da Maia casou em primeiras núpcias com D. Mécia Rodrigues, filha de D. Rodrigo Vermuíz, e, em segundas, com D. Usco Soares, deixando larga geração de ambos os matrimónios, a qual seguiu o apelido de Maia. Entre os versos feitos por D. João Ribeiro Gaio, bispo de Malaca, encontram-se os seguintes, dedicados à linhagem dos Maias: Entre Braga e fértil Maya Está um nobre casal Que dizem ser dos da Maya Gente de mui boa laia Em Castela e Portugal. De tantos séculos passados e de tantas gerações havidas não será exagero admitir que as múltiplas famílias que, no século XXI, ostentam no seu nome o apelido Maia, sejam longinquamente descendentes das nobres famílias dos originais Senhores das Terras da Maia. É nesse pressuposto que não parece descabido incluir nessa descendência a família dos MAIAS DA ATALAIA à qual esta narrativa respeita desde a família de Manuel António Maia, até à quarta geração, conhecendo-se, contudo, a existência de um seu primo, de nome Frederico Maia, que constituiu outra família e outra geração dos MAIAS DA ATALAIA. 14
Capítulo I
Resumo histórico da Atalaia
A Atalaia é uma das povoações mais antigas de Portugal. Pode admitir-se que as suas origens remontam à ocupação romana da Península Ibérica, mas conhece-se, seguramente, que foi povoada pelos mouros (invasão árabe) a partir do ano de 711 e onde se mantiveram por mais de 400 anos. O nome de ATALAIA resulta, com efeito, da latinização do termo árabe ATA-LÀ Ã que, nessa língua, significaria “monte de onde se pode vigiar ou estar de ATALAIA”. Durante esses 400 anos os mouros foram enraizando as suas culturas e actividades económicas de que são testemunhos que chegaram aos nossos dias, as indústrias artesanais da olaria como arte de fabrico de objectos de barro. Embora o nome de olaria tenha a sua origem no latim: “olla” – panela - com o sufixo “ária”, certamente a sua origem se inclui na cultura artesanal mourisca. Na verdade, a oficina de oleiro é considerada a mais antiga das indústrias, isto porque a humanidade, na pré-história, come15
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çou a substituir os utensílios domésticos feitos de cascas de árvores, nomeadamente de cortiça, por vasos de cerâmica. Assim, a manufactura de objectos de barro e o surgimento de oficinas de oleiro ocorrem no período neolítico, quando os povos ou sociedades iniciam a confecção de instrumentos mais sofisticados, nomeadamente para resolver o problema do armazenamento ou o do preparo dos produtos oriundos da actividade agro pastoril, principal característica da revolução neolítica. É na evolução desta antiga actividade que os romanos criaram os Centros Oleiros da Província Romana da Lusitânia, cujos vestígios se encontram em escavações arqueológicas feitas em vários pontos do território português e da península ibérica. Era nesses Centros Oleiros que os romanos produziam, fundamentalmente, as muito conhecidas ânforas de barro. Os mouros, que vieram ocupar os territórios deixados pelos romanos, a partir do ano 711 continuaram e aperfeiçoaram a indústria da olaria, produzindo outros tipos de objectos de barro, tais como os cântaros, com uma ou duas asas, e as infusas, ou bilhas, que são cântaros pequenos com uma só asa de lado, de diversas dimensões, que ainda conhecemos nos nossos dias. O engenho utilizado nesta indústria de olaria era constituído pela designada roda, dado que o seu elemento principal era uma roda de madeira pesada para permitir ao oleiro o benefício da inércia de movimento. Essa roda era colocada horizontalmente, apoiada num suporte de madeira por um espigão que lhe permitia o movimento rotativo, e do centro da qual saía um eixo vertical apoiado na banca do oleiro. No topo desse eixo era montado um pequeno prato, igualmente de madeira, onde o oleiro colocava o barro previamente preparado e de tamanho calculado de acordo com a dimensão do objecto a produzir. 16
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O Oleiro, sentado num pequeno banco corrido de maneira a poder chegar com o pé direito á superfície da roda, fazia-a rodar por impulsos do pé com o qual também controlava a velocidade do movimento da roda conforme era necessário para a execução do objecto a produzir. Hoje, ainda se mantém o fabrico de objectos de barro, mas a tradicional roda foi substituída por um pequeno motor que faz mover o prato onde o oleiro trabalha e, até mesmo este tem vindo a ser substituído por injecção do barro em moldes do objecto a produzir em série. Outro sinal da presença dos mouros na Atalaia que, aliás, se encontra em muitos outros pontos do País, é a nora com os seus alcatruzes, este nome nitidamente de origem árabe – al-qãdus. Os alcatruzes são pequenos vasos de barro, madeira ou de metal que se encontram ligados á corrente da nora. O engenho já dispunha de um sistema rudimentar de rodas dentadas em que a horizontal que recebia o movimento circular produzido no exterior, normalmente por um muar, e o transmitia a uma roda dentada vertical que fazia mover a corrente dos alcatruzes que mergulhavam na água do poço e a transportava para o exterior onde era recolhida numa calha que, por sua vez, a conduzia para um tanque de recolha ou era, mesmo, canalizada directamente para o espaço a regar. Um elemento curioso é o pormenor dos alcatruzes serem furados no fundo, o que, embora motivassem a perda de alguma água na sua ascensão, esses furos eram indispensáveis para evitar que o ar que se mantinha dentro do alcatruz impedisse que estes, ao mergulharem na água, formassem uma bolsa de ar e, consequentemente, travassem o movimento da nora. Ainda outro engenho deixado pelos mouros e que muito se utilizava na Atalaia e noutros pontos do país, era a cegonha. 17
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A cegonha era um engenho rudimentar utilizado para tirar água dos poços, dos rios ou das ribeiras. A cegonha, também designada por “burra”, “picanço” ou “picota”, consoante a região do País onde fosse utilizada, era constituída, em geral, por uma espécie de alavanca inter fixa com um ponto central de apoio que permitia o movimento da barra principal. No extremo de um dos braços dessa barra era montado um contrapeso, em geral uma ou mais pedras, e no outro extremo era pendurada uma vara, com liberdade de movimento, na ponta da qual se adaptava um balde para mergulhar na água. Com um impulso de braço, ajudado pelo contrapeso, erguia-se o balde com a água recolhida. Hoje, com a revolução industrial, todos estes engenhos são peças históricas visto que, tanto as noras como as picotas ou cegonhas para tirar água, foram, vantajosamente, substituídas por bombas de água movidas por motores.
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Capítulo II
Tomada de Santarém aos mouros
D. Afonso Henriques era um guerreiro destemido, experimentado e um estratega hábil na preparação das batalhas que havia de enfrentar para expandir o território português, nomeadamente por terras ocupadas pelos mouros, “dilatando”, também a fé cristã em terras de fé muçulmana. Com vista a alcançar esse objectivo, D. Afonso Henriques sabia que era necessário, de imediato, conquistar as praças-fortes que eram os castelos de Santarém e de Lisboa. Estando em Coimbra, na Capital de Portugal de então, D. Afonso Henriques sabia que o castelo de Santarém era tido como quase impossível de conquistar, dado que se situava no alto de um monte, defendido por muralhas e torreões, equipado com as mais modernas máquinas de guerra e dispondo de soldados bem treinados e muito temidos pela sua violência e agressividade nos combates. Para melhor planear o assalto, D. Afonso Henriques incumbiu o seu mais fiel companheiro de armas – Mem Ramires – para ir sozinho e em absoluto segredo, analisar as defesas do castelo, esco19
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lher os melhores caminhos para o exército se aproximar da cidade de Santarém e marcar o lugar do muro do castelo onde se pudesse escalar com a melhor segurança. D. Afonso Henriques sabia, também, que, a cerca de 40km. de Santarém se situava a Atalaia– ATA-LÀ Ã - que funcionava como posto avançado, vigia ou sentinela mourisco e que, no âmbito estratégico da conquista do Castelo de Santarém era fundamental eliminar. Munido de todas estas informações, não foi por acaso que D. Afonso Henriques, no dia 9 de Março de 1147, saiu de Coimbra com um pequeno exército e marcou no seu percurso a passagem por Atalaia. Com efeito, ao fim de 4 dias de viagem entrou na Atalaia e arrasou-a completamente não tendo deixado vivalma que pudesse contar a história. Eliminado, assim, qualquer espécie de contacto mouro com o castelo de Santarém, o exército de D. Afonso Henriques foi montar arraiais em Pernes. Só aí, a cerca de 1,5kms.de distância da cidade de Santarém, D. Afonso Henriques reuniu o exército e informou os homens do objectivo da deslocação; dividiu o exército por grupos específicos e distribuiu tarefas a cada um deles. Com vista á realização do assalto era necessário, antes do mais, construir escadas e mandou construir 10 escadas que, a coberto da escuridão, seriam encostadas à muralha, todas ao mesmo tempo, no local escolhido por Mem Ramires quando do seu reconhecimento. D. Afonso Henriques ordenou, também, que, junto a cada escada estariam 12 homens prontos a trepar com rapidez de modo a que quando os mouros dessem por isso já estariam nas muralhas 120 homens. 20
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Os Cavaleiros, fiéis e dedicados a D. Afonso Henriques, entusiasmados com o projecto, mas reconhecendo o grande perigo, pediram-lhe que não participasse, pois receavam perder o seu rei. Ao que D. Afonso Henriques respondeu: - “Eu estou convosco e serei o primeiro a trepar as escadas. Ninguém poderá separar-me da vossa companhia quer na vida quer na morte. E se tiver que morrer sem esta cidade estar conquistada, peço a Deus que não me deixe sair vivo deste combate”! Estas palavras de D. Afonso Henriques levaram o exército ao rubro. E como nessa noite viram uma grande estrela riscar o céu e cair para as bandas do mar, todos acharam que era um bom presságio. De madrugada puseram-se em marcha rumo ao local escolhido por Mem Ramires. Quando os primeiros homens chegaram ao cimo das muralhas ouviram as sentinelas mouras perguntar: - “Manhu?” que significa: Quem sois vós? Obviamente que ninguém respondeu. E, então, as sentinelas mouras deram o alarme gritando: “Annachara! Annachara” que quer dizer: Cilada de cristãos. Mas era tarde demais. Na muralha circulavam já, de espada em punho, muitos Cavaleiros de D. Afonso Henriques, outros destruíram as portas de madeira com machados e pedras. A conquista foi rápida e, poucas horas depois, Santarém fazia parte do reino de Portugal. Sete meses e dez dias depois, em 25 de Outubro do mesmo ano de 1147, D. Afonso Henriques, auxiliado por ingleses, normandos, flamengos, alemães e almocadéns (mouros que ocupavam o 21
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burgo) conquista a cidade de Lisboa aos mouros, caindo, em consequência, outros castelos que Lisboa dominava: Almada e Palmela foram abandonados pelos mouros; Sintra rendeu-se a um pequeno grupos de Cavaleiros portugueses. Assim nos finais do ano de 1147, a fronteira de Portugal ficava, por enquanto, na linha do rio Tejo. Entretanto, a Atalaia, ou os espaços que haviam sido a ATA-LÀ Ã mourisca, apresentava-se completamente despovoada, tal como a havia deixado o exército de D. Afonso Henriques, em 9 de Março de 1147, e assim se manteve durante o resto do reinado de D. Afonso Henriques e de seu filho, D. Sancho I e só 65 anos depois, já no reinado de, D. Afonso II, neto de D. Afonso Henriques, com o objectivo de povoar, de novo, essa região, foi mandado atribuir à Atalaia o seu primeiro foral, no ano de 1213. Não obstante, essa primeira medida não se mostrou suficiente, continuando a verificar-se uma grande carência de habitantes na Atalaia, situação que se manteve por mais de um século. Essa carência de habitantes parece justificar-se por duas razões fundamentais: A primeira é a de que, nessa época, o número de habitantes de Portugal era nitidamente insuficiente para povoar todas as cidades e povoações que foram sendo conquistadas aos mouros, e a segunda, não menos admissível, era a de que não era simples convencer os habitantes a abandonar as suas terras, cidades, vilas ou aldeias, onde tinham as suas habitações e onde desempenhavam as suas actividades, e trocá-las por regiões despovoadas, provavelmente inóspitas e, até, perigosas, e isso sem quaisquer incentivos ou benefícios imediatos. Provavelmente sensibilizado por essas circunstâncias, D. Diniz, em 1315, um século depois da concessão do primeiro Foral por D. Afonso II, insiste, novamente, em repovoar a região da Atalaia, concedendo-lhe o segundo Foral, incluindo a concessão de grandes 22
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privilégios, nomeadamente o estatuto de Sede de Concelho, assim como Senhorio de grande importância e Condado com Brasão, pertencente a Pedro Vaz de Melo que, em 1466, quando já reinava D. Afonso V, recebeu a mercê de Primeiro Conde de Atalaia, bisneto daquele valoroso e leal Vasco Martins de Melo que salvou a vida de D. João I, conforme o testemunho do cronista Fernão Lopes. Por falecimento de tão ilustre donatário, herdou o senhorio o seu filho, também chamado Pedro, que viveu pouco e apenas deixou, ao cabo de efémera vida conjugal, uma filha que a família encerrou no Convento de Santa Clara, de Lisboa, por ser “desassisada”. A povoação da Atalaia ficou pertencendo, portanto, à mais velha das duas filhas do Conde, D. Leonor de Melo. Era esta Senhora casada com um parente, D. Álvaro de Ataíde, fidalgo ambicioso e irrequieto que, em 1484, movido por pretensos deveres de solidariedade, senão por promessas bem azadas para afervorarem o desejo de os ver cumpridos, não duvidou em participar da conspiração urdida pelo Duque de Viseu contra a vida de D. João II. Entre os porvindouros prémios, com que, sem dúvida, o seduziram, devia achar-se incluída a renovação, a seu favor, do título de Conde da Atalaia, de que sua mulher era natural herdeira, e poder-se-lhe-ia atribuir, verosimilmente, o desejo de engrandecer o senhorio… Ora, os sonhos de engrandecimento que o Duque de Viseu lhe fizera, porventura, conceber, não chegaram a realizar-se; a sua intempestiva actividade de conspirador apenas teve por efeito cobrir de luto e de lágrimas a família que constituíra. A terrível vingança do “Príncipe Perfeito” não o atingiu porque uma bem preparada fuga para Castela o livrou a tempo de todo o perigo; mas seu filho D. Pedro, que ele arrastara também 23
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aos azares da conjura, foi preso, degolado e, por fim, esquartejado em Setúbal, naquele mesmo ano de 1484. A mãe deste desditoso moço, D. Leonor de Melo, herdeira da casa da Atalaia, devia ter falecido antes de ver o seu lar desfeito por tamanha desgraça; pois tudo induz a crer que o senhorio – talvez já possuído por seu filho, o justiçado – não escapou às largas redes do confisco com que D. João II repagou a sua dívida de ódio a todos os conspiradores. Em verdade, só de tal modo se pode explicar, plausivelmente, o facto de se deparar, não muitos anos depois, como Senhor da Atalaia, Tancos e Ericeira (terras pertencentes à casa dos Melos) uma personagem estranha à família dos primitivos donatários: D. Pedro de Meneses, Senhor de Cantanhede, guerreiro ilustre, fiel à Coroa e neto daqueles bem-casados: D. Fernando de Meneses e D. Brites de Andrade que jazem no Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde num dos mais notáveis mausoléus medievais que ali existem. O certo, porém, é que o senhorio da Atalaia não permaneceu longo tempo na Casa de Cantanhede; muito antes de se poder celebrar o centenário da posse, já a bela povoação estremenha, a quem D. Manuel I, em 1514, repete a honra de conceder novo Foral, se achava sob o domínio de outro donatário que não era parente de nenhum dos seus antecessores: D. Fradique Manuel, um benjamim da Corte, filho de outro colaço do rei “Venturoso”. Esta nova mutação realizou-se por meio de uma troca de bens, secundando, afanosamente, os árduos trabalhos de ambição que seu pai empreendera para constituir, à sombra do favor real, uma grande família, e cobiçando um senhorio de antigas e lisonjeadoras tradições, não longe de outros que já possuía. D. Fradique logrou, afinal, alcançar dos Meneses a cedência da Atalaia e de Tancos, em troca de outras terras que, por situação ou rendimento, se lhes afiguraram mais valiosas do que aquelas. 24
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Assim, nos meados do século XVI, graças a esse escambo, de diverso modo vantajoso para as duas casas interessadas, o senhorio da Atalaia já se achava, com beneplácito de D. João III, em poder da família dos Manueis portugueses, na qual devia, finalmente, criar duradouras raízes; pois, nobilitado, em 1563, com sede de um condado de jure, erigido por Filipe I em benefício de D. Francisco Manuel, neto de D. Fradique, na descendência deste último se conservou até aos nossos dias.
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Capítulo III
A Igreja Matriz da Atalaia
A qual dos donatários sucessores deve ser atribuída a benemérita obra: aos Menezes ou aos Manueis? Ora, a resposta a esta questão é dada pela própria igreja através de um pormenor arquitectónico que consiste no brasão esculpido no friso decorativo que encima o pórtico principal do templo – brasão inconfundível, também sobreposto no rosetão central da abóbada da capela-mor. Dos emblemas contidos nos seus quartéis e no escudete que a todos se sobrepõe, verifica-se que a obra da igreja se deve aos senhores de Cantanhede, pois são aquelas as armas que D. Pedro de Menezes herdou de seus avós e legou aos seus descendentes. Por pertencerem ao número dos últimos, usaram-nas e honraram-nas, nos séculos seguintes, os Condes de Castanheira e Ericeira e os Marqueses de Marialva e Louriçal. Assim, as honras da iniciativa da construção da igreja devem-se a D. Pedro de Menezes. 27
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É certo que, em 1528, data indicada na capela-mor, já este fidalgo devia ser muito idoso, mas tal circunstância não contraria, antes favorece, a conjectura. Ninguém ignora que era sobretudo na velhice, quando do temor religioso do além-túmulo, que os grandes senhores de outrora, não raro sobrecarregados de culpas, procuravam acalmar a cólera do Céu com ostensivos actos de piedade. Além disso, mal se pode acreditar que D. Jorge de Meneses, o filho, consentisse em ceder a outrem o senhorio, no caso de ter sido ele próprio o autor dessa obra concebida com o claro intuito de enobrecer a vila – e intimamente associada, portanto, ao propósito de fixar para sempre na família a terra por tal modo beneficiada. Assim, e por virtude do precioso testemunho que nos oferece o escudo heráldico, esculpido, com valor de assinatura, no frontispício da igreja, de que foi D Pedro de Meneses, Senhor de Cantanhede, contemporâneo e fiel servidor de quatro reis – D. Afonso V, D. João II, D Manuel e D. João III – quem, nos primeiros anos do último reinado e, provavelmente, nos derradeiros da sua vida, resolveu substituir, pelo nobre edifício hoje existente, a ermida que, antes dessa época, devia ter prestado assistência paroquial aos povos ali domiciliados. D. Pedro de Meneses, donatário da Vila de Atalaia, faustoso por índole, senão por educação, pois a sua família tinha tradições de grandeza quase principescas, e considerando que talvez a benevolência do Céu se media, na temida hora do juízo final, pela importância das obras praticadas, para glória de Deus, na Terra, não poderia conceber que a nova Matriz – a sua igreja – não se distinguisse das vulgares edificações com que tantos devotos obscuros diligenciavam, por aqueles tempos, difundir ou estimular o sentimento religioso nos povoados que em toda a parte, nas chãs 28
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mimosas dos vales e nas bravias abas das montanhas, do mesmo modo, se iam formando. Por isso, pagando liberalmente a colaboração de um dos grandes arquitectos que floresciam no glorioso Portugal de então – porventura o próprio João Castilho, que residia a pouca distância, em Tomar, e estava dirigindo os trabalhos dos Jerónimos, devia ter assistido, ora de longe, ora de perto, com crescente e sempre fervoroso interesse, à realização daquela obra, que foi, provavelmente, a última das muitas que empreendeu durante a sua longa existência, para bem servir a Fé na paz, ou o Reino e o Rei na guerra. O belo edifício assim erigido reflecte, com efeito, o saber e a orientação estética dos mestres da escola de Castilho, que, então, enriqueciam, entre nós a “arte da pedraria”. Ampla, com três naves divididas entre si por grandes arcos de volta inteira, que dois renques de seis colunas airosamente elevam, denuncia, de algum modo, o pensamento de ostentação que parece ter dominado o fundador; pois a povoação da Atalaia, sem embargo da sua antiguidade e das suas tradições foralengas, não devia possuir no século XVI tão avultado número de paroquianos que justificasse a necessidade de uma igreja de tais dimensões. Em todo o corpo da igreja, grande parte da superfície das paredes desaparece por detrás de largos painéis de azulejo, onde, em duas cores, habilmente combinadas (azul e amarelo), foram figurados, com notável engenho, embora sem grande feição técnica, diversos episódios bíblicos, imagens sagradas etc. Um arco de elegantes linhas, fiel à arte que predomina em todo o edifício, extrema, da igreja propriamente dita, o recinto absidal. Semelhantemente esculpidos nas duas faces, poisam, com esbelteza e como que de leve, em altas colunas cilíndricas e pilastras onde o cinzel dos canteiros figurou, sem peias de fantasia, os 29
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mais diferentes ornatos: armas defensivas, vasos, medalhões, conchas, cabeças de animais, etc. Dentro, a capela-mor esplende, sob uma abóbada artezoada de primoroso trabalho, cujas nervuras, artisticamente entrecruzadas, procuram apoio e remate, com perfeita graça, em pequenas mísulas firmadas nos ângulos da parede facetada. No seu aspecto exterior, o templo apresenta-se-nos mais esbelto do que imponente, com as principais características das igrejas da época. Entre os lavores que a notabilizam sobressaem as do pórtico principal, verdadeira obra-prima da arte da Renascença. O seu arco de volta redonda, nobremente ornamentado, abre-se amplo e acolhedor, sob um largo friso onde dois anjos sustentam o escudo de armas do fundador. Sobrepujam-no, ainda, nos vãos laterais, dois bustos em alto-relevo, de apurada escultura e – mirabile visu! – sem a menor mutilação. Ladeando-o, duas pilastras sobem, airosamente ao encontro do friso. Ambas têm grande quinhão na riqueza decorativa do conjunto: ornam-nas duas esculturas de grande vulto (as dos apóstolos S. Pedro e S. Paulo), vasos, aves estilizadas, etc. E, até nas suas possantes bases se vêem dois bustos esculpidos.
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Capítulo IV
O Cardeal Patriarca de Lisboa
D. José Manoel da Câmara terá nascido no dia de Natal do ano de 1685, tendo sido batizado na Igreja matriz de Nossa Senhora da Assunção de Atalaia, no dia 6 de Janeiro de 1686. Apesar da unanimidade dos autores, coevos e posteriores, que referenciam Lisboa por pátria do que seria o segundo patriarca lisbonense, segundo o testemunho, aparentemente incontroverso, do prior da Atalaia nos meados do século XVIII, pois que se acha vertido nas memórias paroquiais, assinadas de seu punho quando o patriarca ainda vivia, foi naquela mesma vila que D. José Manoel da Câmara nasceu. A data do aniversário, 25 de dezembro, comemorada com pompa no palácio da família Manoel, a São Cristóvão, como noticiou a Gazeta de Lisboa, por exemplo em 1739, encontra-se ainda refletida nos cálculos do epitáfio que, o túmulo sito na Igreja Matriz da Atalaia, ostenta. Nascido no seio da nobreza titular, D. José Manoel da Câmara era filho de D. Luís de Távora, 4.º Conde da Atalaia e senhor de Tancos, Sinceira, Vila Nova da Erra, da Águas, etc. do Concelho de Estado do 31
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Rei D. Pedro II e governador das armas da província do Minho, e de D. Francisca Leonor de Mendonça, ou da Câmara, filha dos Condes da Ribeira Grande. Entre os seus muitos irmãos, contam-se, além de vários decedidos prematuramente: D. João Manoel de Noronha, 6.º Conde de Atalaia e 1.º Marquês de Tancos; D. Teresa de Mendonça, Condessa de Vimieiro; D. Mécia de Mendonça; D. Manoel da Câmara, porcionista do Colégio de São Pedro, em Coimbra, e doutor em Cânones; D. Leonor Manoel, religiosa clarissa, na Madre de Deus, em Xabregas, comunidade de que seria abadessa; D. António Manoel, professo na Congregação do Oratório de São Filipe Néri; D. Francisco da Câmara, porcionista do já referido Colégio de São Pedro, cónego da patriarcal e depois ingressa nos oratorianos; D. Diogo Manoel, coronel de cavalaria; D. Nuno Manoel, dominicano; e D. João Manoel, monge de São Bernardo. Do primeiro matrimónio de seu pai, com D. Maria Madalena de Noronha, teve, como irmãos: D. Pedro Manoel, 5.º Conde de Atalaia, falecido sem sucessão; D. Francisco, arcediago da Sé de Lisboa; e D. Eufrásia de Noronha, religiosa na Madre de Deus. A exemplo do que sucedeu com outros membros da Casa de Atalaia, D. José Manoel cursou no Colégio de São Pedro, em Coimbra, dos Terceiros Regulares de São Francisco, da Província da Penitência, cujo hábito tomou. Terminados os estudos, e nomeado para o serviço da Capela Real, onde foi sumilher da cortina, D. João V, tendo em consideração o seu percurso e “ser bem procedido, e ser irmão do Conde de Atalaya, e estar habilitado para as Dignidades do Padroado Real, apresentou o jovem clérigo, por carta régia de 15 de maio de 1710, como deão da Capela Real, recém-erigida em Insigne Colegiada do título de São Tomé pela bula Apostolatus ministério, de 1 de março desse mesmo ano. 32
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A carta régia tem ainda um interesse particular, pois trata-se de um dos raros testemunhos que aduz o apelido da Câmara, com que seria lembrado para a posteridade o segundo patriarca de Lisboa. Uma vez sublimada a Capela Real em Sede Patriarcal Metropolitana, pela bula áurea In supremo apostolatus, de 7 de novembro de 1716, D. José Manoel da Câmara passou a integrar o Colégio dos Principais. E, na qualidade de deão, presidiu ao cerimonial – um TE Deum, a 24 de dezembro – em que as dignidades e os cónegos usaram, pela primeira vez, os celebrados hábitos prelatícios, segundo concessão pontifícia, embora interpretada muito a gosto da sensibilidade real, isto é, com conhecido exagero. Entre outros desempenhos do nobre eclesiástico, podemos citar os de deputado do Santo Ofício de Lisboa e deputado da Junta dos Três Estados, cargo este que lhe valeu, em prémio dos serviços prestados, uma tença de 300.000 réis sobre a Alfândega do Tabaco, concedida pelo Rei, em 8 de Janeiro de 1753. Foi, também, provedor da Misericórdia de Atalaia, prestigiada responsabilidade que exerceu alternadamente com o seu irmão, marquês de Tancos, como se lê nas memórias paroquiais. Que a pessoa de D. José Manoel da Câmara era bem aceite ao tempo demonstra-o o fato de D. João V ter apresentado o deão da sua Real Capela para preencher o lugar de cardeal nacional, tendo o mesmo sido criado cardeal presbítero pelo papa Bento XIV, em consistório secreto de 10 de abril de 1747. A partir desse momento, não mais usaria do apelido da Câmara. A promoção ao cardinalato não desmereceu o eclesiástico. E, falecido D. Tomás de Almeida, primeiro patriarca de Lisboa, o Rei D. José apresentou o cardeal Manoel para ser promovido no Patriarcado, a 9 de março de 1754, tendo o mesmo tomado posse a 2 de 33
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junho, uma vez garantida a confirmação da Santa Sé, por procuração dada ao principal D. João de Melo. A 25 de junho recebeu a sagração episcopal na capela do núncio apostólico, sendo coordenantes os bispos de Constantina, D. José Henriques, e de Macau, D. Fr. Hilário de Santa Rosa, religioso arrábido. Dois dias mais tarde, a 27, recebeu o pállium, insígnia da jurisdição metropolitana, das mãos do arcebispo de Lacedemónia, D. José Dantas Barbosa. Embora raros, conservam-se alguns atos do início do governo de D. José Manoel na cátedra patriarcal, a começar pela carta de entrada endereçada aos principais e demais prelados da Patriarcal, aos cónegos, aos párocos e clérigos, seculares e regulares, bem como a todos os fieis do Patriarcado, com data de 2 de julho de 1754. A 28 de julho fez publicar uma provisão fixando para 6 de agosto a obtenção da indulgência plenária na Igreja Patriarcal, segundo a concessão que o papa Bento XIV lhe havia feito pelo breve Ad augendam fidelium religionem, de 21 de maio. A própria escolha da data se apresenta plena de significado, pois trata-se do dia: «em que a Igreja universal celebra a Transfiguração do Senhor, que, como Salvador, se solemniza neste nosso Patriarcado por titular da Santa Igreja Patriarcal». A 28 de setembro, outra provisão, saída da oficina de Miguel Rodrigues, «impressor do Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca», traduzia um breve que o pontífice lhe endereçara, com data de 1 de julho, em que lhe era dada faculdade de conceder a bênção papal e a indulgência plenária em artigo de morte e que o próprio Patriarca tornou, com paternal benevolência, extensiva a todos os párocos e seus equiparados ou substitutos, bem como a qualquer clérigo secular ou regular que assistisse os fiéis na referida circunstância. 34
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Entretanto, preparou-se a entrada de D. José Manoel na Patriarcal, evento que teve lugar a 7 de setembro, um sábado, e que a Gazeta de Lisboa assim noticiou: «de tarde foi, pela primeira vez, à Santa Igreja Patriarcal depois da sua exaltação a esta grande Dignidade com todo o seu magnífico Estado, o que a Cidade aplaudiu com os festivos repiques dos sinos das suas 40 Paróquias, e 60 Conventos, além dos Colégios, mais Igrejas, o que continuaram 3 dias sucessivos, em cujas noites se iluminaram todas as ruas da Cidade». As manifestações de regozijo não se ficaram por aqui. Por exemplo, os religiosos do Convento de Nossa Senhora de Jesus (hoje Academia das Ciências de Lisboa e Igreja Paroquial das Mercês), da Ordem Terceira Regular de São Francisco – tão devedores da Casa de Atalaia, que tinham por protetora, desde D. João Manoel, arcebispo de Lisboa e vice-rei de Portugal, aliás, tumulado na capela-mor da igreja-, levaram a cabo, a 26 de agosto, uma sessão de homenagem onde Fr. Manuel do Cenáculo fez uma eloquente oração latina, ato a que o novo Patriarca assistiu. Uma vez elevado ao Patriarcado, D. José Manoel deixou o palácio da sua família, a São Cristóvão, onde sempre vivera com o irmão, mudando-se, a 4 de setembro, para o Palácio dos Marqueses de Niza, no topo da Calçada do Duque, dando para São Roque, onde se havia estabelecido o extinto patriarca D. Tomás de Almeida. Foi neste último edifício que sobreviveu, em circunstâncias dramáticas, ao terramoto de 1755, sem dúvida uma das maiores provações por que passou a cidade e a comunidade eclesial lisbonense. O núncio apostólico de Lisboa, monsenhor Filippo Acciaiuoli, também ele vítima do terrível acontecimento, assim caracterizou o sucedido com o antístite: «O Senhor Cardeal Patriarca estava no seu quarto numa cadeira, da qual, por causa das suas já comunicadas desinterias, não se pode mover, caiu o teto do mesmo quarto 35
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e ele ficou intacto entre as ruínas. Dois criados transportaram-no para fora do quarto e da casa e, logo depois de ter saído, caiu todo o Palácio.» Noutro lugar, recordaria que, pelo menos, dez pessoas haviam perecido no desabamento. Tendo fixado residência na Quinta de D. Helena, a Vale de Pereiro, na parte da propriedade então designada Quinta de Fora, passando, depois, para a chamada Quinta de Dentro, D. José Manoel ficou instalado numa barraca de lona, como tantos outros que haviam procurado refúgio em Campolide. Mais tarde, mandou construir uma barraca de madeira, de apreciáveis dimensões, estrutura a que acrescentaria um oratório. Perto, em outras barracas, alojaram-se, além dos seus criados e capelães, os serviços da Relação Patriarcal, com a Câmara e a Audiência Eclesiásticas (transferidas, em setembro de 1756, para a Rua da Atalaia). Por aqui permaneceu o patriarca cerca de um ano, tendo-se mudado para a Junqueira, para uma quinta de Diogo de Mendonça, onde habitou seguramente de 27 de novembro de 1756 até 3 de junho de 1758. Assim desapareceu o patriarca do palco da tragédia, segundo o testemunho do Núncio, sem demonstração de particular cuidado pela multidão de desafortunados; ao ponto de, em carta endereçada ao papa o mesmo não se coibir de escrever: «Beatíssimo Padre, uma exortação forte ao Cardeal Patriarca para incandescer o seu frio espírito eclesiástico seria, a meu modesto juízo, muito, muito profícua…» Não se ficariam por aqui as críticas do representante da Santa Sé na corte de Lisboa, embora seja difícil de avaliar a sua cabal justeza. 36
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Queixas do patriarca, segundo se depreende das comunicações do Núncio com Roma, tê-las-ia o Rei a vários títulos, pois teriam tardado as providências quanto ao serviço religioso da Patriarcal e das Colegiadas, quanto aos pregadores de circunstância, muitos deles empenhados em atemorizar, ainda mais, o espírito dos simples, quanto às monjas dispersas sem destino e sujeitas a todos os perigos, quanto aos párocos que abandonaram as suas paróquias, mais preocupados em salvar a própria vida, refugiados pelos montes, do que em assistir ao rebanho, etc. Um extrato da longa relação enviada pelo Núncio, com data de 9 de dezembro, depois de ampla conferência com Sebastião José de Carvalho e Melo, é bem elucidativo do mal-estar, pois, referindo os planos que o ministro régio gizara, atribuiu-lhe a afirmação de «que, precisamente naquela manhã, o Rei lhe tinha dito, com ira, que ele teria feito de Patriarca, já que Sua Eminência não queria concluir aquilo que lhe pertencia», para declarar, reportando-se ao colóquio que, entretanto, tivera com o patriarca: «com o devido respeito, mas com o zelo a que me obriga o meu ministério, sugeri-lhe aquilo que me pareceu necessário e aquilo que um outro Ordinário teria feito e referi-lhe o exemplo do Bispo de Leiria que foi uma verdadeira cópia de São Carlos Borromeo por ocasião da peste de Milão». Mesmo a denominada “Pastoral do terramoto”, segundo o Núncio escrita pelo vigário-geral, o arcebispo de Lecedemónia, apenas conheceu os prelos por intervenção régia, «sem réplica». Passado o choque inicial provocado pela dimensão da tragédia, o certo é que a firma do Patriarca se estendeu por diversos papéis, que demonstram uma assistência vigilante, por exemplo quanto à Patriarcal, e que não se reduzem aos exigidos desde a Tenda Real. Se o início do processo se revela caracterizado por alguma indefinição, rapidamente o Patriarca toma o assunto em mãos, fazendo vingar a sua escolha («me rezolvi», como se lê em aviso de sua mão) 37
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para o estabelecimento da nova Patriarcal à Cotovia, hoje Príncipe Real. Não sem, entretanto, a ter fixado, provisoriamente, na Capela de São Joaquim e Santa Ana, em Alcântara, contra a opinião de Sebastião José de Carvalho e Melo, que a preferia na Igreja do Convento de São Bento da Saúde. Bem vistas as coisas, não era por decreto que se resolviam os problemas de logística colocados pela necessária deslocação e acomodação de centenas de pessoas envolvidas no serviço da Patriarcal. E essa clarividência tem de ser creditada a D. José Manoel. Fosse como fosse, em cumprimento de régias ordens, ou por iniciativa própria, a atenção do Patriarca também se manifestou no conjunto de medidas em prol do conforto espiritual dos sobreviventes, como ao nível da reorganização dos serviços religiosos, incluída a rede paroquial da urbe, que não apenas o tocante à Patriarcal e às colegiadas, ou mesmo às casas religiosas. Logo na primeira providência, determinada pelo receio da peste, coube a D. José Manoel coordenar a atuação dos religiosos e dos párocos, tanto da capital quanto dos subúrbios, tendo em vista a realização de procissões, exortando o regresso à capital dos seus moradores, de modo a colaborarem na urgente tarefa de dar sepultura aos mortos; neste âmbito, foi, ainda, decretada, por escolha do Patriarca, a colocação dos cadáveres em batelões para serem lançados ao mar fora da barra. Tal eleição, em detrimento das valas comuns no espaço citadino, também aparece marcada por preocupações sanitárias. Enfim, pode calcular-se o que terá sido o esforço despendido para responder á destruição dos cartórios, dos acervos litúrgicos das igrejas, dos próprios templos. Foi, também, nesse quadro que se organizaram os celebrados inquéritos (1758), de há muito conhecidos como Memórias Paroquiais. 38
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No âmbito da obra de reconstrução, vale a pena lembrar, mesmo se a sua aplicação tardou anos, a disposição decretada por Bento XIV, secundando o sentir da corte portuguesa, e do seu Rei, e que se acha vertida em breve pontifício de 19 de agosto de 1756, endereçado ao patriarca D. José Manoel, a quem ficou cometida a sua execução: um terço dos rendimentos eclesiásticos, independentemente da sua natureza, da sua tutela e dos privilégios e isenções adquiridos, foi, por quinze anos, afecto à reconstrução das igrejas, apenas exceptuando do encargo aqueles que viviam da chamada côngrua tridentina, ou os que dependiam dos rendimentos ditos de estola, emolumentos derivados da pastoral sacramental, autêntico subsídio de sobrevivência. Além desta medida, o Pontífice decretou, ainda, a suspensão do grosso das celebrações aniversárias e autorizou a profanação e a alienação de terrenos onde antes havia igrejas, tendo em vista a sua transladação e reconstrução noutros lugares. E foram muitas as que mudaram de chão. Não se encontraram isoladas as disposições pontifícias, pois Bento XIV deu provas de profunda consternação face às notícias vindas de Portugal, participando, por exemplo, pessoalmente, no Tríduo de oração promovido nos dias 22 a 24 de dezembro de 1755, na Igreja de Santo António, dita dos Portugueses. Já antes, com data de 10 de dezembro, endereçara a D. José I um breve de teor consolatório, a que o Rei respondeu em 14 de janeiro seguinte. Em 24 de maio de 1756, também a solicitação de D. José I, fazia expedir o breve que confiava o patrocínio do Reino contra terramotos a São Francisco de Borja. É, pois, num horizonte de comovida reacção à enorme tragédia que temos de atender às palavras com que Fr. Cláudio da Conceição encerra o memorial do Segundo Patriarca de Lisboa, D. José 39
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Manoel, conforme se lê na obra Gabinete Histórico: «succedendo no seguinte anno o fatal terremoto, que reduziu a cinzas a santa igreja patriarchal, sentiu muito estas ruínas; seu coração se affligiu em extremo, tendo de dar muitas providências para que ao povo não faltasse o conforto espiritual; estes trabalhos, pois, e as suas grandes moléstias lhe abreviaram os dias da vida». Na verdade, D. José Manoel não sobreviveria muito ao fatídico terramoto, embora tivesse vivido o suficiente para que outra questão marcasse o seu curto e trágico pontificado: a perseguição movida pelo poder aos jesuítas, a cujo virulento desfecho foi poupado tão-somente por, entretanto, ter falecido. Seja como for, o patriarca faria publicar um edital, com data de 7 de junho de 1758, em que suspendia aos jesuítas o exercício de confessar e de pregar na diocese de Lisboa, cabendo ao seu sucessor na cátedra patriarcal a ativa verificação do fim da Companhia de Jesus em Portugal. Se D. José Manoel se arrependeu do ato, ou se se lamentou do mesmo, como querem alguns, não sabemos. Apenas podemos lembrar que os jesuítas não gozavam, na Casa de Atalaia, do acolhimento que outros titulares do Reino lhes dispensaram, sobretudo depois dos problemas que causaram ao 1.º Marquês de Tancos, irmão do Patriarca, quando da sua passagem pelo governo de Angola. Saindo da Junqueira, onde ainda se encontrava em junho de 1758, D. José Manoel recolheu-se à Vila de Atalaia «a tomar ares» e aí faleceu, a 9 de julho, tendo mandado lavrar testamento dois dias antes. As cerimónias fúnebres tiveram por palco principal o palácio da família e a Igreja Matriz. No primeiro, com as salas decoradas a damasco carmesim e franjas de ouro, celebrou-se o ofício de corpo presente, no dia 11, com participação de todos os párocos de Torres Novas e seu termo. 40
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Os religiosos arrábidos de Santo Antoninho, da mesma vila, cantaram as vésperas, coube o primeiro nocturno de matinas aos carmelitas, o segundo nocturno aos franciscanos de Santa Rita da Ericeira e de Santo Onofre da Golegã, e o terceiro aos antoninhos de Nossa Senhora do Loreto de Tancos, tendo o clero cantado as laudes e restante ofício. No fim, o caixão do extinto patriarca foi encerrado num outro, enviado de Lisboa, e, de seguida, transladado à Matriz. Nesta, a 12, celebrou-se missa de pontifical, a que presidiu o principal Faro. Por seu lado, em Lisboa, na Patriarcal, organizou-se característica cerimónia exequial, com a produção de competente catafalco, onde não faltavam emblemas, serafins e outros elementos decorativos, num programa que, à volta do retrato do falecido Patriarca, glosava a «virtude eclesiástica», segundo o relato que o saldar das contas, uns três anos passados, permite acompanhar. A obra teve a direcção de Mateus Vicente de Oliveira, arquitecto da Patriarcal e da Casa do Infantado. E, da pintura, encarregou-se Francisco Pais, mestre pintor ao serviço da mesma Patriarcal e da Corte. Os despojos do segundo Patriarca de Lisboa foram encerrados num túmulo erguido na capela-mor da Igreja Matriz de Atalaia, onde se acha lançado o seguinte epitáfio: «DOM. JOSÉ. S. R. E. PROESBYTER CARDINALIS. EMMANOEL. S. L. E. PATRIARCHA. I. PATRIARCHATUM REXIT ANN. IV. MENS. I. DIES XIX. VIXIT ANN. LXII. MENS. VI. DIES XIV. OBIT. ANN. DOMINI MDCCLVIII. MENSIS. JULII. DIE. IX. REQUIESCAT IN PACE».
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O túmulo poderá ter sido encomenda do irmão do Patriarca, o 1.º marquês de Tancos, que lhe sobreviveu, ou, como querem alguns, de sua devotada sobrinha, D. Constança Manoel, que recolheu a sucessão da Casa de Atalaia, por morte de seu pai, D. João Manoel de Noronha, em 1761. E, talvez, não seja demasiado venturoso, atendidas as afinidades, ver na sua traça o engenho do arquitecto Mateus Vicente de Oliveira ou do arquitecto Joaquim de Oliveira, a quem anda atribuído o desenho da Igreja das Mercês, em Lisboa, tão ligada que se achou à família dos Manoeis, como referimos, e que foi erguida a partir de 1760. Em certo contraste com a elegância do monumento, fica a simplicidade do testamento, redigido por mão do prior de Atalaia, no dia 7 de julho de 1758 e aberto já na Junqueira e no palácio da então residência do Marquês de Tancos, a 10 de agosto do mesmo ano: Nomeou por testamenteiros o irmão, D. João Manoel de Noronha e o primo, D. Duarte da Câmara, matrimoniado com a sua sobrinha, D. Constância Manoel; deixou alguns bens a familiares, com particular atenção ao morgado principal da Casa de Atalaia e dinheiro para as obras do palácio a São Cristóvão, também atingido pelo terramoto; legou diversos móveis, carruagens e cavalos que adquirira do espólio de D. Tomas de Almeida, aos seus sucessores na cátedra patriarcal; e determinou que a totalidade dos restantes bens fosse vendida, destinando o produto da almoeda a esmolas. Estas tiveram por fim atender não só a algumas comunidades religiosas, mas, sobretudo, aos pobres domiciliados no Patriarcado, tendo D. José Manoel cometido aos párocos a tarefa de lhes fazer chegar os sinais do seu afecto, sem esquecer a dotação de algumas donzelas pobres, baptizadas na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção de Atalaia. De entre os bens inventariados na sequência da implementação das disposições testamentárias, vale a pena referir os sinais cer42
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tos das graves limitações que marcaram os últimos anos do Cardeal Patriarca D. José Manoel – «duas cadeiras grandes de braços, de marroquim, armado com rodas nos pés» -, e que o envolveram num contínuo sofrimento que, ainda assim, não lhe terá tolhido o muito amor à sua igreja diocesana. É certo que o testemunho do Núncio Acciaiuoli parece não permitir que se vislumbre no protagonista de uma impecável carreira eclesiástica, própria, à época, de um filho da primeira nobreza do Reino, o desejado vulto de pastor da Igreja lisbonense, sobretudo numa hora tão unicamente trágica, como a do terramoto de 1 de novembro de 1755. Aliás, vulto de pastor que a bajulice do clérigo António Wever prognosticou em calculista cartilha de actuação, dada aos prelos sob a pomposa moldura de panegírico. Todavia, a falta de testemunhos, que não se acham identificados com suficiência, apenas parece recusar ao Cardeal Manoel que se revele com maior grandeza como Patriarca D. José I, pois o zelo do pastor, mesmo se porventura estremecido por tão grande abalo, não pode deixar de ser apontado, em atenção ao governo da diocese, como o atestam alguns raros documentos do seu pontificado, nem todos arquivados nesta nótula, mas, igualmente, em consideração à obra de reconstrução que lhe coube lançar e a que, decididamente, não voltou costas. Afinal, D. José Manoel da Câmara foi o último grande protagonista da memorável Patriarcal erguida pela vontade do Rei Magnânimo. E, talvez, não tenha morrido sem a dolorosa consciência do fato.
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Capítulo V
A “Mina” ou túnel, referência templária na Atalaia
Uma referência templária que, ao longo dos anos, foi muito notada pela população da Vila da Atalaia, mas que, infelizmente, nunca foi objecto de um estudo arqueológico sério, que bem merecia, é a popularmente designada “mina”, podendo entender-se esta designação como um canal, túnel ou caminho subterrâneo, aberto para levar os sitiantes ao local sitiado, ou, inversamente, para permitir aos sitiados escapar ao cerco. Com efeito, não é possível considerar esse canal, ou túnel subterrâneo, como uma mina, referida a exploração de minérios ou minerais, visto que nunca se conheceram, nesse local, elementos dessa natureza no seu subsolo, além de que se, efectivamente, fosse uma mina de encosta, a respectiva galeria de entrada dirigir-se-ia para a montanha e nunca, em direcção oposta, para o Tejo, como é o do referido canal, ou túnel subterrâneo. A designada “mina” encontra-se na encosta do alto do “Picoto”assim designada a pequena montanha que se sobreleva na Atalaia 45
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- entre a Igreja Matriz e a Capela do Senhor da Ajuda, onde se julga ter existido a torre templária da Atalaia. Diz-se, também, que a referida “mina” estava ligada a Tomar (ao convento de Cristo) e ao Castelo de Almourol. O conhecimento da “mina” era tão popular que os rapazes da escola primária da Atalaia, para sentirem o prazer da aventura, às escondidas das mães, deslocavam-se ao local, entravam na abertura da mina e caminhavam dentro dela até atingirem a água que a inundava e que, provavelmente, vinha do Tejo. Homens mais afoitos e corajosos da Atalaia, chegaram mesmo a entrar na mina e a percorrer maiores distâncias dentro dela, até que o nível da água e a diminuição de oxigénio não permitia prosseguir. Tudo isto conduz a que, para melhor fundamentar uma teoria eventual da razão da existência da mencionada “mina”, se descrevam os aspectos históricos fundamentais, a especificidade da localização e as características próprias da construção do Castelo de Almourol. Assim, deixando de parte as referências à sua longínqua antiguidade que pode remontar à primitiva ocupação do período romano, importa referir que o Castelo de Almourol foi conquistado aos mouros, por D. Afonso Henriques, em 1129, que o entregou aos Cavaleiros da Ordem dos Templários, então encarregados do povoamento do território entre os rios Mondego e Tejo, e da defesa da então Capital de Portugal - Coimbra. Da descrição das características da sua construção, importa referir à designada porta da traição onde se encontram vestígios do que terá sido um poço. Ora, a existir esse poço, coloca-se a questão de saber para que tal serviria, não parecendo ser, com certeza, para abastecimento de água, pois que, sendo o Castelo rodeado de água por 46
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todos os lados, não parece ter necessidade dessa construção para esse efeito. Por outro lado, sendo os Cavaleiros da Ordem dos Templários estrategas experimentados e, conscientes da vulnerabilidade da defesa do Castelo, erguido num afloramento de granito de 18 metros acima do nível das águas, numa pequena ilha de apenas 300 metros de comprimento por 75 metros de largura, parece que lhes devia ter ocorrido a necessidade de o prover, no âmbito da arquitectura militar da época, com uma saída secreta para uso em caso de necessidade. Obviamente que essa saída só poderia ser concebida pela construção de um túnel que passasse por baixo do leito do Tejo e se desenvolvesse em direcção á torre templária da Atalaia. Na falta de um estudo arqueológico que confirmasse ou desmentisse esta teoria, é a que, dados os elementos disponíveis, se evidencia a mais plausível. Obviamente que ao longo dos séculos, as paredes e o tecto do túnel foram-se deteriorando e, em certos pontos, abatendo, deixando entrar água que chegava até próximo da abertura e que, por fim, o inundou e destruiu completamente. Pretendendo atribuir verosimilhança à tese da existência de um túnel entre o poço, cujos vestígios são assinalados por detrás da porta da traição, e a torre dos Templários da Atalaia, transcreve-se, a seguir, a conhecida lenda de D. Beatriz e o Moiro: Diz a lenda que aí pelos séculos IX ou X, era dono do Castelo um senhor Godo chamado D. Ramiro, casado e tendo uma filha única de nome Beatriz. O valoroso soldado era, todavia, rude, orgulhoso e cruel como o era a maioria dos senhores de sangue gótico. Ao regressar de uma das suas sortidas de guerra e orgulhoso dos seus feitos que, em grande parte, se cifravam em inúmeras atro47
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cidades, encontrou, já próximo do Castelo, duas moiras, mãe e filha, que, embora infiéis, reconheceu serem lindas como sua esposa e filha, que deixara em seu solar. Fatigado da viagem e sedento, D. Ramiro interpelou as moiras para que lhe cedessem a água que a mais jovem transportava na bilha. Assustada pela figura e pelo tom de voz do feroz cavaleiro, a pequena moira deixou que a pequena bilha se lhe escapasse das mãos e quebrando-se, perdeu o precioso líquido que D. Ramiro tanto desejava. Encolerizado e cego de raiva, este, de pronto, enristou a lança e feriu as duas desgraçadas que, antes de morrerem, o amaldiçoaram. E, porque surgisse, entretanto, um pequeno moiro de 11 anos, respectivamente, filho e irmão das assassinadas, o tornou cativo e levou-o para o Castelo. Chegado que foi a Almourol, o moço, vendo a mulher e a filha de D. Ramiro, logo ali jurou fazer nelas a sua vingança. Passaram anos. A castelã adoeceu e, pouco a pouco, se foi definhando até morrer, em resultado do veneno que lhe vinha ministrando o cativo agareno. O desgosto do evento leva D. Ramiro a procurar, na luta contra os infiéis, refrigério para a sua desdita e parte, confiando a guarda da sua filha ao jovem mouro, que fizera seu pajem, dada a docilidade e cortesia que o mesmo sempre, astuciosamente, revelara. Acontece, porém, que os dois jovens se enamoraram, paixão contra a qual o mancebo lutou desesperadamente, mas em vão, dado que tal amor lhe impedia de consumar a sua vingança. Mas, lá diz o ditado que não há bem que sempre dure… e, o enlevo e a felicidade dos dois jovens são desfeitos pelo regresso de 48
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D. Ramiro que se fazia acompanhar por outro castelão, a quem prometera a mão de sua filha. O moiro, então, alucinado e perdido, contou tudo a Beatriz: as crueldades do pai, as suas promessas de vingança, o envenenamento da mãe e a luta que travara entre o amor e o juramento de vingança que fizera. Não se sabe o que se seguiu a esta confissão. Diz, entretanto, a lenda que Beatriz e o moiro desapareceram sem que nunca mais houvesse notícias sobre eles. E, D. Ramiro, cheio de remorsos, e de desgosto morreu pouco depois, ficando o Castelo abandonado. Conta a lenda que, em certas noites de luar se vê o moiro abraçado a D. Beatriz e, D. Ramiro, a seus pés, a implorar clemência sempre que o moiro solta a palavra: “maldição”. Deste modo, o viajante que por ali deambule, não deverá surpreender-se se, em certas noites de luar, vir passar por entre as ameias as vestes brancas dos templários com a cruz de sangue sobre o peito de D. Beatriz e o moiro unidos por um abraço eterno. Talvez consiga ouvir mesmo, por entre o rumorejar das águas, os soluços de D. Ramiro. É evidente que esta história não passará de uma lenda romântica, mas, se quiséssemos admitir nela alguns laivos de verosimilhança, caberia colocar a questão de saber como e por onde se tinham escapado os apaixonados se ninguém os encontrou, nem no Castelo nem na pequena ilha onde ele está implantado. A ser verdade, será que, já nessa época, o Castelo dispunha de uma passagem secreta de que a D. Beatriz conhecia a existência e a designada porta da traição por onde escaparam?
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