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O Mundo Suspenso e o Riso Invertido

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RAUL FERNANDES

ROMANCE

O MUNDO SUSPENSO

RISO INVERTIDO

Uma travessia íntima pela condição humana

RAUL FERNANDES

O MUNDO SUSPENSO

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FICHA TÉCNICA

título: O Mundo Suspenso e O Riso Invertido

autor: Raul Fernandes

edição: edições Vírgula ® (Chancela Sítio do Livro)

revisão: Patrícia Espinha

grafismo de capa: Ângela Espinha

paginação: Alda Teixeira

1.ª Edição Lisboa, fevereiro 2026

isbn: 978-989-9284-08-1

depósito legal: 557550/25

© Raul Fernandes

Todos os direitos de propriedade reservados, em conformidade com a legislação vigente. A reprodução, a digitalização ou a divulgação, por qualquer meio, não autorizadas, de partes do conteúdo desta obra ou do seu todo constituem delito penal e estão sujeitas às sanções previstas na Lei.

Declinação de Responsabilidade: a titularidade plena dos Direitos Autorais desta obra pertence apenas ao(s) seu(s) autor(es), a quem incumbe exclusivamente toda a responsabilidade pelo seu conteúdo substantivo, textual ou gráfico, não podendo ser imputada, a qualquer título, ao Sítio do Livro, a sua autoria parcial ou total. Assim mesmo, quaisquer afirmações, declarações, conjeturas, relatos, eventuais inexatidões, conotações, interpretações, associações ou implicações constantes ou inerentes àquele conteúdo ou dele decorrentes são da exclusiva responsabilidade do(s) seu(s) autor(es).

publicação e comercialização: www.sitiodolivro.pt publicar@sitiodolivro.pt (+351) 211 932 500

Para Cláudia

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O Mundo Suspenso a R

A certa altura e já um pouco tensa, num ambiente não menos carregado, Inês perguntou a Mário:

«Não te sentes só?»

«Não, não me sinto só.», respondeu Mário. A sua voz era indiferente, era a voz de alguém que mesmo que fosse só, nunca se sentiria só.

«Vives sozinho há tanto tempo. Desde que a Helena partiu que nunca mais tiveste uma relação duradoura. Quase ninguém entra na tua rulote e até mesmo tu, quando entras, pareces outra pessoa.»

«Não. Sou exatamente o mesmo gajo. A Helena é que mudava a fotografia. Trazia o sol, a chuva, as dívidas, as compras, os amigos, as amigas, o vinho, os cigarros e as multas.

Era ela quem produzia a desilusão, o amor, as depressões, as fúrias, o prazer, a alegria e a tristeza, a esperança e a raiva. Mas eu era e sou sempre o mesmo gajo, o Mário o artista de circo, o palhaço.»

«E agora andas pela noite, sempre com essa gente esquisita. E esse amigo ou essa amiga?»

«Acho que por hoje não podemos conversar mais. És uma mulher cheia de medos, e defendes-te armada até aos dentes com todo o tipo de preconceitos. Não tens uma conversa justa. Pensas para o lado que te dá mais jeito e não fazes nem tentas fazer o que te vai na alma.»

«Se calhar estás a fazer o mesmo. Não tens força para tentar fazer melhor e foges para algo diferente, mas que, no fundo, é de fácil acesso.»

«Não é bem assim. O que é que tu sabes sobre isso? Não peço a ninguém que me siga nem ando a partilhar cada peido ou risada que dou.»

«Tens uma profissão fabulosa. Já foste reconhecido várias vezes pelo teu trabalho. Enfrentas o público todas as noites, escreves os guiões e os arranjos musicais, desenhas o teu próprio guarda-roupa e o do Carlos, recebes aplausos, as tuas maquilhagens são exímias e depois cais nesse mundo depressivo. Como é que chegaste aqui?»

«Aqui como? Ao circo? À vida de um homem divorciado? À vida de um homem? À vida de um gajo com amigos? À vida de alguém que trabalha? À vida do Mário que às vezes se sente melhor e outras vezes não tão bem? À vida? Gostava de poder contar-te ou partilhar algo, desenvolver e discutir outras coisas, mas não o faço porque não tens um ouvir honesto. Agora vou ter de começar a preparar-me para o espetáculo. Não posso ficar mais tempo a conversar.»

«Deixa-me entrar e ficar ao pé de ti enquanto te preparas.»

«Não, Inês, não vai ser possível. Não quero. Tenho de mudar o chip. Tenho de passar para o outro lado e isso só é possível sozinho e só.»

«Queres beber um copo depois do espetáculo?», insistiu a Inês.

«Não. Tenho outras coisas combinadas.»

«E um café amanhã?»

«Amanhã ainda vem tão longe. Se tiver de decidir agora, a resposta é não.»

Entrou na rulote e, sem olhar para trás, fez deslizar suavemente a porta até o leve som metálico do trinco lhe dar a confirmação de que a mesma estava fechada e de que agora se encontrava verdadeiramente só.

Tinha deixado a sua rulote imaculadamente limpa e organizada. A cama, ao fundo do lado esquerdo da entrada, estava coberta por uma colcha de veludo encarnada e sobre a mesma, junto à cabeceira, quatro almofadas, geometricamente colocadas a par e proporcionalmente distribuídas pela largura da cama, encerravam aquele estanque espaço. A cortina da janela esquerda, que acompanhava quase todo o comprimento da cama, estava corrida até meio. O cenário arrumado e imóvel trazia-lhe paz e acalmava a sua ansiedade constante.

Lídia, era a única que na sua ausência tinha acesso à rulote, mas apenas lhe era permitido mexer, vasculhar ou arrumar a pequena cozinha e o improvisado camarim. O resto ficava a cargo do Mário que tinha uma intrínseca necessidade em organizar e decorar o seu espaço. A nossa pequena Lídia, como lhe fora apresentada aquela mulher, há mais de vinte anos quando Mário, sob o falso pretexto de querer viajar e conhecer o mundo, se candidatou a uma vaga para trabalhar no circo, tinha sido contratada com o intuito de ser uma atração por si só. Contudo, cedo todos perceberam que a atratividade e o magnetismo de Lídia, vinham da sua generosidade, beleza humana e do seu forte sentido de responsabilidade e capacidade de reconciliar e Preview

Sentou-se em frente do seu espelho e acendeu as luzes. Havia alguns bilhetes e cartões espalhados sobre a mesa e apenas um único ramo de flores pousado na ponta com dificuldade em se equilibrar.

dominar qualquer conflito de qualquer dimensão ou de qualquer origem. Só a uma pessoa assim confiaria Mário a chave da sua rulote, da sua casa.

As flores, que eram poucas e que pareciam ter sido compradas há dias e só agora entregues, talvez por falta de coragem, segurança ou oportunidade, encontravam-se atadas por um cordel que atravessava um pequeno cartão com algo escrito. Mário tirou os óculos que estavam pendurados na gola da sua camisola branca de manga comprida, colocou cada haste em sua orelha e pousou a armação a meio do nariz.

Mário, meu querido, desejo-te o melhor de tudo. A noite é tua. Amo-te, meu amigo

O cartão estava assinado, Any.

Mário sorriu, olhou-se ao espelho e atirou o cartão para cima da mesa, que caiu com a mensagem virada para baixo.

A cozinha ficava a meio da rulote do lado oposto à casa de banho e ambas as divisões formavam um pequeno corredor. Ao fundo do lado esquerdo ficava o seu quarto e do lado direito o rudimentar camarim.

Mário gostava de trabalhar nos seus arranjos musicais numa mesinha que articulava numa das paredes da rulote, ou sentado na sua cadeira de napa, que servia também para se maquilhar.

Utilizava o seu estimado acordeão para ensaiar e compor os arranjos. Depois testava também algumas composições no seu trompete.

No interior de uma gaveta extremamente bem oleada e com um abrir e fechar eficientíssimo, guardava um pequeno teclado da Roland que também, algumas ou raras vezes, utilizava para praticar ou criar outras músicas.

O belíssimo Black Excelsiola Van Damme, de 42 teclas e 120 botões, encontrava-se normalmente guardado na sua mala junto aos pés da cama, sempre cuidadosamente pousado sobre a vermelha e não muito espessa alcatifa. Tinha adquirido o mítico instrumento ao filho de um antigo músico de rua a quem a droga e o jogo obrigaram a pôr à venda tão belo e valioso instrumento. Magro e chupado pelo vício, o jovem aparentava muito mais idade do que certamente tinha registado no seu cartão de cidadão. Pediu-lhe novecentos euros pelo acordeão. Mário pagou-lhe mil e duzentos para não ficar com problemas de consciência. Evitava ao máximo esse tipo de sentimentos. Mas, algumas semanas depois e uma vez que a ideia de que provavelmente não teria pagado o preço justo pelo instrumento não o abandonara, procurou novamente o rapaz. Habitualmente deambulava quase sempre pela mesma avenida, ora pedindo deliberadamente alguns trocos, ora arrumando carros. Procurou aquele sorriso simpático e meio desdentado, mas não encontrou o Zé. Uns informaram-no, explicitamente, de que tinha morrido de overdose, outros disseram terem-no visto de Preview

barba feita a jantar num desses restaurantes fancy da cidade, alguns juntaram-se para informar em uníssono que tinha sido internado em estado muito grave e, por fim, havia quem simplesmente tivesse dito que não sabiam dele fazia já algum tempo.

Não era um acordeão que um artista de circo comprasse, mas o seu gosto e formação musical, com base no jazz, e a sua admiração pela música de Art Van Damme1 levaram-no a tomar esta heterodoxa decisão.

Era notória a influência daquele estilo musical nos seus arranjos, que eram trabalhados com o máximo rigor. Mas o corpo principal de cada trabalho tinha como base grandes musicais americanos adaptados para os seus números circenses.

1 Art Van Damme – foi um músico introdutor do acordeão no jazz e é considerado um dos maiores acordeonistas do mundo, 09-4-1920 a 15-2-2010.

Para aquela noite, quente e sem vento, num local não longe do centro da cidade, onde o circo se tinha instalado, escolheu o seu fato cor de marfim cravejado de finíssimas lantejoulas com calças apanhadas em fole um pouco abaixo do joelho. As meias, misteriosas, eram de padrão zebra, brancas com riscas pretas ou pretas com riscas brancas e davam continuidade às suas pernas magras, terminando nuns botins, algo gastos, brancos de atilhos azuis. Ao peito trazia, por cima da sua fatiota, uma gravata azul enfiada no quarto botão a contar do colarinho. O chapéu em cone, escolhido entre muitos, era também de cor azul com dois pompons brancos à frente. Eram uns pompons felpudos.

Mário montava o número dos palhaços com um grande rigor, era um detalhista puro e era dele todo o trabalho desenvolvido.

A música, os diálogos, as coreografias, as luzes e tudo o resto. Fazia-o imbuído de um espírito de transcendência algo que, por vezes, nem o próprio sabia como ali chegara.

O público aplaude e ri com Carlos, o palhaço Zézé, e assobia o Mário, o que o faz sentir-se realizado, mas bastante mais realizado fica quando acompanham, de forma inconsciente e com palmas, as suas músicas. Fica quase em êxtase quando leva o público a entusiasmar-se ou a comover-se com os seus temas, controlando disposições e emoções.

Era um facto que as palmas iam para o Zézé bem como as gargalhadas e os risos, e os assobios e as vaias para ele, Mário.

Tinha consciência de que era o correto, que era o suposto e que representava o sucesso.

Mas alguns instintos são difíceis de controlar e, ao fim de muitos anos, isso fazia mossa. Não podia permitir que emoções dessem origem a incontrolados sentimentos. Vivia num esforço constante a gerir sentimento a sentimento. Isso cansava-o e no final de cada espetáculo sentia uma enorme necessidade de relaxar a mente, de extravasar e de procurar que fossem outros a atuar para ele.

Era sempre tarde quando, quase todas as noites, iniciava a sua caminhada até ao centro da cidade que ficava a poucos quilómetros de distância do circo. Esta mais de meia hora de desfragmentação cerebral, era a passagem de um mundo para outro, era o desligar e o ligar. Apesar dos constantes convites e insistências para que jantasse com a equipa ou parte dela, Mário decidia quase sempre tomar o caminho da cidade.

Com o cair da noite, o movimento agitava-se e o piar dos pássaros, já recolhidos nas grandes e frondosas árvores daquela Preview

No seu passo, não apressado, mas metódico e eficaz, adorava contemplar e sentir as temperaturas, cores e cheiros de cada local. Atravessava bairros, uns mais chiques e outros mais pesados. Por onde passasse, àquela hora e à medida que se aproximava da cidade, era sempre uma montra de vidas díspares, divertidas, tristes ou simplesmente vidas.

Normalmente optava pela avenida dos operários, mas às vezes enganava-se, ou não, e decidia-se pela avenida principal que atravessava o bairro dos mercados. Um bairro pobre, local de grande afluência de prostitutas e negócios de droga. As pobres coitadas eram usadas mais como um canal de distribuição de heroína e anfetaminas do que propriamente estavam ali para vender o seu corpo.

belíssima avenida, eram substituídos por outros sons. Gritos, falsas gargalhadas, motos baratuchas de escape livre, que serviam de mulas rua acima e rua abaixo e tiros de pistolas ilegais que se iam dissipando com o surgir do barulho das sirenes dos ineficazes carros-patrulha, que por vezes denunciavam cedo a sua presença, para evitar algum encontro indesejado.

Aqui, Mário mantinha sempre o seu passo e escolhia o passeio do lado direito de quem sobe a avenida. Raramente parava e ia respondendo com uma “boa noite” ou um “tudo bem” a alguns dos atores desta triste comédia residente, que o conheciam. Uns eram prostitutas que já tinham tido poiso noutros ambientes e com quem já privara e outros, pequenos traficantes de droga, que pontualmente lhe passavam alguma coca com que, muito raramente, se entretinha. Só muito pontualmente usava a droga como escape, preferia o álcool. Mário nunca descera esta avenida.

Estava já nos retoques finais da sua maquilhagem. A cara branca com várias camadas de Mehron2 bem espalhado e os lábios desenhados com um traço fino de cor púrpura carregada. Terminara também o contorno a lápis preto sob os olhos castanhos e as pestanas falsas já se encontravam bem coladas. Apenas faltava desenhar as sobrancelhas, o que fazia sempre à primeira, quando violentamente lhe bateram à porta.

Era Dimitri, o trapezista, que noutros tempos também fora encantador de serpentes, domador de cavalos e contabilista da companhia. Parecia bastante aflito e, aos berros, interpelou Mário.

«O que se passa Mário? Estás atrasadíssimo! Mais de meia hora! Já ninguém os aguenta, o esquema está já todo trocado… se o Rúben te apanha mata-te»

«Não pode ser, estou a horas.»

«Não, não estás, despacha-te.»

«Faltam só as sobrancelhas e vou já.»

«Que se fodam as sobrancelhas, vens já! Está toda a gente à tua espera.»

2 Creme de maquilhar Mehron: maquilhagem em creme que serve de pintura facial para palhaço branco profissional, filmes, mímica, cosplay, etc.

Mário só teve tempo de pegar no seu trompete. Sempre que o stress ou a magnitude do acontecimento exigiam improviso e começava a navegar no caos longe de qualquer controlo, agarrava-se ao seu trompete. Um belo Getzen, com acabamento em prata que lhe fora oferecido pelo pai alguns anos antes de morrer.

Agarrava-se ao trompete como uma criança se agarra à mão do pai para se sentir mais segura. Durante a sua adolescência passara algumas tardes junto ao mar na zona chique da cidade.

A mãe tinha um amante, a quem visitava no seu apartamento a alguns metros da praia. Levava-o com ela sob o pretexto de que iria visitar um tio e deixava-o ir passear na areia, sozinho, mas não lhe permitia banhos.

Na altura em que essas frequentes visitas ocorriam, Mário não teria ainda doze anos. No verão, ficava a observar os pais de mãos dadas com os filhos a enfrentarem as ondas. Ora saltavam ora passavam por baixo delas, e algumas eram bastante grandes. Pensava sempre como seria bom sentir aquela mão forte e fiel transmitindo segurança, perante aquele desafio, confiança essa que perduraria nos tempos para enfrentar os futuros e inevitáveis fantasmas da vida.

Por muito que se esforçasse, não se lembrava de alguma situação em que isso lhe tivesse sucedido. Mário nunca fora à praia com o seu pai. Preview

Da sua rulote até à gigante tenda tentou lembrar-se por onde tinha andado naquela meia hora perdida, mas não conseguiu.

Fez o espetáculo todo mecanicamente, abstraído, flutuando numa realidade virtual. Falou, dialogou, tocou, puxou pelo Zézé, acenou ao público e seguiu na perfeição o complexo guião.

Any assistiu aos números do Mário com bastante atenção. Fazia questão de ser notada, chegando mesmo nos momentos de maior intensidade a acenar efusivamente ou a aplaudir com um vigor desproporcionado. Mário apercebeu-se e isso causou-lhe algum desconforto.

Any representava para Mário a mudança dos tempos e o respeito pela individualidade de cada pessoa.

Era uma jovem com um forte carácter que outrora tinha sido um jovem, também ele sempre determinado à procura do seu eu, e acreditando que somos todos feitos da mesma matéria, mas com almas diferentes.

Quando era mais novo, as coisas que mais gostava de fazer era de ouvir música e jogar à bola. Era um exímio ponta direita, jogava encostado à linha, tinha alguma habilidade, mas distinguia-se dos outros especialmente pela sua velocidade. Às vezes era um bocado fossão agarrava-se demasiado à bola e outras vezes não aparecia para jogar. Fazia-o sem avisar e nem ele percebia bem porquê.

Sempre fora muito popular, não era uma mulher em potência aprisionada num corpo de homem. Não, até pelo contrário, era um jovem com todos os atributos do seu género, paranoias, traumas, sonhos e desejos que um dia se sentiu diferente e com necessidade de buscar outra felicidade.

Any gostava muito do mundo em que vivia, não chorava nem enaltecia o passado, gostava das pessoas que a rodeavam mesmo daquelas que não a compreendiam.

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