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o homem a quem chamaram
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antÓnio trindade tavares
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FICHA TÉCNICA EDIÇÃO:
Vírgula O Homem a quem chamaram G3 AUTOR: António Trindade Tavares TÍTULO:
EDIÇÃO DE TEXTO, PAGINAÇÃO E CAPA: FOTO DE CAPA:
Paulo S. Resende
Vitor Madeira
1.ª EDIÇÃO Lisboa, Outubro 2012 IMPRESSÃO E ACABAMENTO:
ISBN:
Publidisa
978-989-8413-69-7 347235/12
DEPÓSITO LEGAL:
© ANTÓNIO TRINDADE TAVARES PUBLICAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO
Sítio do Livro, Lda. Av. de Roma n.º 11 - 1.º dt | 1000-261 Lisboa www.sitiodolivro.pt
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DESERTOR A DESERTOR CAI O DITADOR. Não há ditadura que não acabe com estrondo nem democracia que não se esvaia em silêncio. Ou por outras palavras, o desertor está para a tirania assim como o ditador está para a democracia. Ambos são a potência negativa do seu sistema. A ditadura desmorona-se pelas fendas e fugas dos desertores tal como a democracia se esboroa por entre os dedos silenciosos dos manipuladores. A história deste homem a quem chamaram G3 é o esboroar de caliça do edifício arruinado do Estado Novo, a degradação que antecedeu o estrondo da queda. Quarenta e tal anos depois, o silêncio e o embaraço perante a vergonha da história recente do país é semelhante à retirada dos capítulos sobre o extermínio nazi dos manuais escolares em vários países europeus. Deixo registada a pergunta sobre qual será o som da democracia a ser abafada. Sei que a resposta não virá. 7
É necessário ter em mente que as pessoas não estão a lutar por ideias, pelas coisas na cabeça de alguém. Elas lutam para ganhar benefícios materiais, para viverem melhor e em paz, para verem as suas vidas a avançar, para garantirem o futuro dos seus filhos. Amílcar Cabral
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O que interessa é o nome das coisas. Quando se dá um nome atribui-se uma personalidade, e é sobre as personalidades que se constroem as histórias. No final são as histórias que ficam, mesmo depois de os nomes terem sido mudados. A verdade raramente é algo de absoluto, tal como a mentira. Quando se faz uma especulação, se lança um boato, após a primeira repetição este passa a ser a verdade, tendo ou não factos que o comprovem. Esta é uma história sobre uns poucos factos da vida de um homem e sobre o muito que a propósito deles foi dito, sobre os nomes dados a quem os viveu. Claro que, à distância do tempo que separa a juventude da idade de ouro, a emoção dos momentos vividos é uma memória do passado e o que se lê e escuta hoje é o tremor de pôr em palavras algo guardado a cada dia de silêncio. Cabe-nos a nós, leitores e ouvintes do presente, 11
sentirmos as nossas próprias emoções e imaginarmos as de quem conta. É de emoções que a vida é feita. É disto que a vida se esquece. *
* * Noutros tempos eu seria um PIDE. Hoje não sou ninguém, é como se não existisse. No entanto sou o mesmo. Só não tenho nome. Noutros tempos eu seria a personificação da Polícia Internacional de Defesa do Estado, a polícia secreta do regime existiria através da minha pessoa, através da minha identificação. Quando eu aparecesse e me identificasse, para a pessoa ou pessoas a quem isso acontecesse, significaria “Estou lixado!” Nem mais. Mas o nome é que interessa. A princípio foi PVDE, Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, e servia para vigiar elementos cujas actividades fossem potencialmente prejudiciais ao Estado. “Vigiar e defender,” pensa o cidadão de bem que, por princípio, são todos. Numa população de dez milhões de cidadãos temos dez milhões de pessoas de bem. “O bem de todos é o meu bem,” 12
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diz cada um de nós, cidadão de bem. Depois passou a chamar-se PIDE. Já não bastava vigiar, era necessário ser internacional. O mal a vigiar já não era só nacional, vinha de todos os lados, era internacional. No entanto continuávamos defendidos, o Estado estava seguro, tinha polícia que o defendesse. “Eu estou seguro,” podia ainda dizer o cidadão de bem. Acontece que há cidadãos de bem que são mais cidadãos do que outros cidadãos de bem. De entre os cidadãos de bem que são mais cidadãos do que outros cidadãos de bem havia um cidadão que ainda era mais cidadão de bem do que todos os outros. Esse começou também por dizer “O bem de todos é o meu bem.” Algum tempo depois passou a dizer “O meu bem é bem de todos.” No fim já dizia “Eu quero este bem para todos e todos têm que querer este bem.” Mas o fim durou muito tempo. Durante esse longo fim havia cidadãos que preferiam um bem diferente do bem dos outros ou do único que lhes era oferecido. Esses deixaram de ser cidadãos de bem e passaram a ser inimigos. Há quem diga, e não são poucos, que a melhor defesa é o ataque, e essa frase não é de hoje. Para continuar a 13
defender os cidadãos de bem, a Polícia Internacional de Defesa do Estado atacava os inimigos, e esses vinham de todos os lados. Nesse tempo, se me perguntassem qual era a minha missão eu diria “Defender o Estado,” mas se eu dissesse o que fazia “Atacar os inimigos do Estado,” Isto se eu dissesse a verdade. Na luta entre o bem e o mal não se sabe qual é a verdade ou a mentira. Durante esse longo e lento fim o Estado passou a ter mais inimigos do que cidadãos de bem. Uns e outros passaram a ter medo. Os que tinham medo atrapalhavam-se, os que se atrapalhavam faziam erros e os que faziam erros passavam a ser inimigos, e com tantos inimigos o Estado deixou de ter cidadãos de bem. Sem cidadãos de bem o Estado acabou-se. Mas antes de se acabar, como o cidadão de bem que era mais cidadão do que todos os outros cidadãos de bem não queria que o Estado se acabasse – o seu Estado, a sua casa, o seu Império – ele fez uma guerra – que acabou por perder – para combater e arrasar com todos os inimigos do seu Estado, do seu Império. Nesse tempo os homens só eram homens adultos depois dos vinte e um anos. Mas como era preciso acabar com os inimigos que conspiravam contra o seu Estado 14
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os homens não precisavam de ser homens adultos para ir à guerra, tal como não precisavam de ser homens adultos para trabalhar. Nesse tempo os homens começavam e deixavam de trabalhar para ir à guerra com a idade de miúdos. * * * O homem que eu finalmente conheci em pessoa num cair de tarde de Abril à chuva deixou de trabalhar e foi para a guerra aos dezassete. Digo finalmente porque já o conhecia de muito papel arquivado. Como eu disse, noutros tempos eu seria um PIDE mas hoje não sou ninguém, passo despercebido entre pilhas de informação. Noutros tempos a polícia secreta tinha como função intimidar e, como tal, aparecia à vista de toda a gente. Hoje que toda a gente sabe da existência de um sistema de informações ninguém sabe o que este faz. Acabou-se com um nome, mudaram-se as pessoas, mas o aparelho é o mesmo e mais eficaz. Não há nada mais fácil do que encontrar uma pessoa. Descobre-se-lhe a morada e seguem-se-lhe os passos como se fosse um passeante ocasional ou um novo vizinho acabado de se mudar. Anda-se pela rua olhando para tudo e para nada fazendo flores e poesia com os pingos da chuva de Abril regando as flores de Maio, com o céu 15
carregado de nuvens cinzentas antecipando o pôr-do-sol, fazem-se metáforas sobre ruas que se abrigam em toldos de esplanadas e cafés aconchegados, e pelo canto do olho não se perde de vista o homem que se persegue. Um dia aparecemos-lhe à frente, já depois de lhe conhecermos os hábitos. Quando quisermos provocar um contacto e que ele se dê à conversa arranjamos maneira de lhe surgirmos de alguma forma que lhe seja familiar. Nesse dia era sexta-feira e ele ainda não tinha metido o euromilhões. Eu tinha vestido o fato escuro completo e estava sentado no seu sítio habitual com um jornal aberto à minha frente, fixando-o sem ler uma única linha. Ele entrou no café, encolhido no seu blusão e a sacudir-se dos pingos de chuva à porta. “Vê lá a inundação aí à porta, ó Tavares? A máquina já estava à tua espera para fechar”, disse-lhe o dono atrás do balcão. “‘Tão mete lá isso. E uma mini p’ra ti, que também estás a precisar…”, e passou-lhe os boletins de sempre para a mão. “Abre lá tu as garrafas.” O homem pôs-lhe as garrafas em cima do balcão juntamente com os talões do euromilhões e o saca-caricas a fazer de pisa-papéis. “Vamos lá a ver se é esta semana… Era pegar nas canas e havias de ver a bela vida que levava todos dias a dar banho à minhoca à beira-mar longe daqui.” 16
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“Essa é que era. Eu até ia contigo só para andar todo o dia a enfiar-te a minhoca,” disse o dono do café. Riram-se juntos, a mesma gargalhada de todas as semanas, o riso que engana a pobreza e dá amparo às dificuldades de toda a vida. O Tavares, era assim que se chamava o homem de que eu andava atrás, depois de guardados os papéis no bolso interior do blusão de ganga forrado a lã, sentou-se numa mesa de lado para o balcão, com vista para a porta e para o interior do café, de cerveja na mão e olhar nostálgico de quem vê o presente a passar e fixa o passado, instante a instante, na superfície ondulante do líquido no interior da garrafa. O passado para onde olhava era o de sempre, o da sua história, o das perguntas que fazia a si próprio nas noites em que as insónias não o deixavam dormir e lhe atacavam as costas com as dores na bacia partida muitos anos antes num acidente de carro, quando se levantava e ia para a cozinha sozinho beber o copo de leite acompanhado pelo cigarro. Mas nesse dia era mais do que isso. Eu sabia que ele já me tinha visto e que as sacudidelas dos pingos de chuva à porta lhe tinham dado tempo para me tirar as medidas e ter a certeza do que estava a ver. Ao fim de algum tempo, tal como eu já previa, levantou-se e veio ter comigo. “Se eu fosse dado as essas coisas diria que você é uma assombração do meu passado. Você tem ar de PIDE. Sabe quem eu sou?” 17
Eu disse-lhe que sim, que sabia. “Então e porque é que anda aqui? Pensava que já se tinham esquecido de mim. Sabe, quando me despacharam da Marinha nunca mais quiseram saber de mim. Como é que você sabe quem eu sou? O que é que sabe de mim? Respondi-lhe que sabia das histórias que se contavam sobre ele. “Papéis, há uns quantos onde aparece o seu nome, a sua fotografia, mas isso, tal como o que se diz, ao fim de algum tempo já não tem significado nenhum. É como os nomes, não querem dizer nada. É como a alcunha que lhe puseram. O que ficou são as histórias que se criaram à volta disso, durante algum tempo, e depois o esquecimento.” “Hoje nem eu sei.” E pela primeira vez vi-lhe um olhar que passei a reconhecer como seu, os olhos como pedra fria a fixar um ponto no vazio que só ele via. “Só sei que a última vez que eu vi um parecido consigo foi no Lavradio, já depois do 25 de Abril. Nessa altura eu não morava aqui. Depois de ter saído em liberdade ainda voltei para a Marinha, ainda me faltava tempo de serviço. Dois anos ainda, dois anos sem fazer nada. De vez em quando lá aparecia um que me perguntava o qu’é que eu estava a fazer quando me via ali a coçar-me… Isto foi na base do Alfeite, e eu perguntava-lhe se sabia quem eu era. ‘Não,’ diziam eles. 18
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E eu virava-me para eles e dizia-lhes. Nunca mais me dirigiam palavra. Mas isso é outra história. Como estava a dizer, eu vivia no Lavradio por ocasião da última vez que eu vi um assim como você. Não sei quem você é mas eles eram todos iguais, só mudavam de tromba a cada vez que apareciam, o resto era tudo igual, a mesma roupa, um bocado mais gordo ou magro, mais alto ou baixo, mas a aparição era sempre a mesma, metiam-se atrás do jornal aberto sem ler e ficavam ali especados a olhar. Então nesse tempo havia um que se plantava no café onde eu costumava parar lá por aquelas bandas, e aconteceu lá estar comigo um cunhado meu. Está a ver como é o meu feitio? Pois é, em novo era bem pior. Levava tudo à frente. Então agora veja o meu cunhado, maluco do caraças, o gajo era ainda pior que eu, e ainda por cima maior e com mais caparro. O gajo passou-se da cabeça com aquilo e eu ainda o tentei acalmar, que aquilo não valia a pena e que o tipo mais tarde ou mais cedo havia de desaparecer. ‘Tá bem, ‘tá! O meu cunhado vai disparado ao tipo, agarra-o pelos colarinhos ali mesmo no café e levanta-o da cadeira que a mesa até lhe foi por ali além à frente, jornal e tudo – e o tipo manteve-se na mesma como ser não fosse nada apesar de estar ali pendurado pelas ventas – e dizlhe: ‘Tu, se voltas a aparecer aqui a andar atrás do meu cunhado eu dou cabo de ti, ouviste? Eu mato-te se continuas a andar aqui atrás do meu cunhado a chateá-lo a 19
ele e à família, sempre a morder-lhe os calcanhares, ‘tás a ouvir? Eu mato-te!’ Hoje eu não consigo perceber se aquela gente era má ou se era estúpida, se era a maldade que os fazia parvos ou se era a parvoíce que os tornava maus. Já tenho dificuldades em perceber o que era aquela gente. Uma estupidez pegada, aquilo tudo… Tenho dificuldade em lembrar-me do que aconteceu, quando é que foi isto ou aquilo… Já se passaram quarenta e tal anos… Naquela altura, se lhes tivesse podido pôr as mãos em cima, ainda tinha dado cabo de alguns…” À minha frente eu via um homem para quem a vida tem as cores das necessidades e da capacidade do desenrasque para as resolver, um homem marcado pelo tempo mas que conserva dentro de si como uma jóia o rapaz criado nas ruas de Alcântara, com os olhos a brilhar perante as brincadeiras reinadias e a camaradagem entre amigos, uns copos valentes e uns petiscos, os momentos de família com irmãos, a filha e a neta, e o sossego para tudo, um presente que ele resumiria simplesmente com um “Quero é estar em paz!” tal como em tempos de juventude diria “Quero é paródia!” Um homem com sangue na guelra que, no 25 de Abril, mal soube do que estava a acontecer, se foi pôr na António Maria Cardoso à coca para ver se conseguia apanhar algum a sair pela porta que ele conhecia bem, o Mortágua 20