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Memórias de um Homem que virou para o Destino

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TESTEMUNHO DE UM FILHO DE ANGOLA

Do Bairro Popular à Faculdade de Letras de Olomouc

MEMÓRIAS DE UM HOMEM

QUE VIROU PARA O DESTINO

DO BAIRRO POPULAR À

FACULDADE DE LETRAS DE OLOMOUC

TESTEMUNHO DE UM FILHO DE ANGOLA

FERNANDES MANUEL

FICHA TÉCNICA

título: Memórias de um Homem que virou para o Destino

Do Bairro Popular à Faculdade de Letras de Olomouc

– Testemunho de um Filho de Angola

autor: Fernandes Manuel

edição: edições ex-Libris ® (Chancela Sítio do Livro)

revisão: Mário Potes

grafismo de capa: Ângela Espinha

paginação: Alda Teixeira

1.ª Edição Lisboa, outubro 2025

isbn: 978-989-9198-37-1

depósito legal: 551162/25

© Fernandes Manuel

Todos os direitos de propriedade reservados, em conformidade com a legislação vigente. A reprodução, a digitalização ou a divulgação, por qualquer meio, não autorizadas, de partes do conteúdo desta obra ou do seu todo constituem delito penal e estão sujeitas às sanções previstas na Lei.

Declinação de Responsabilidade: a titularidade plena dos Direitos Autorais desta obra pertence apenas ao(s) seu(s) autor(es), a quem incumbe exclusivamente toda a responsabilidade pelo seu conteúdo substantivo, textual ou gráfico, não podendo ser imputada, a qualquer título, ao Sítio do Livro, a sua autoria parcial ou total. Assim mesmo, quaisquer afirmações, declarações, conjeturas, relatos, eventuais inexatidões, conotações, interpretações, associações ou implicações constantes ou inerentes àquele conteúdo ou dele decorrentes são da exclusiva responsabilidade do(s) seu(s) autor(es).

publicação e comercialização:

www.sitiodolivro.pt publicar@sitiodolivro.pt

(+351) 211 932 500

DEDICATÓRIA

À minha mãe, Adélia Ribeiro, que me deu à luz mesmo quando tudo parecia perdido.

Ao meu pai, Pedro Manuel “Chuva” (em memória), cuja disciplina moldou o meu carácter.

Aos meus filhos, Bruno Fernandes, Cláudio, Vanessa, Marília, Tidianne, Alex, Isadelia e Yeshua Fernandes.

Dedico também esta obra aos meus netos:

Esanjo Fernandes, Itiela, Jasmin, William Fernandes, Fayola, e Eliel Fernandes.

— que a força das minhas memórias vos inspire, desperte hábitos de leitura e a escrever no futuro as vossas com dignidade e coragem.

E a Angola, pátria querida, minha terra de dores e esperanças.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiro ao Pai Celestial pelo fôlego da vida e proteção, desde a concepção até ao momento em que escrevo estas linhas;

A todos os que se manifestaram e os lactentes nesta longa estrada, cada um me ensinou a caminhar com os pés no chão e os olhos na alma.

Aos meus manos: Zeca, Natália, Dibuka, Vitó, Gia, Xuvinha, Nelo, Eliseu, Jújú e Miro.

Às tias: Marica, Alice, Aninhas, madrinha Maria Antónia, Luísa, Manuela, Inês, Filipa, Avó Juliana, Mãe Bernarda.

Aos tios: João cometa, Paiva, João Ferreira, Padrinho Armando, tio Martins da Silva, Julião, Eliseu, Júlio, Zé Kuerra.

Agradecimento especial aos meus amigos: Loy, Betinho, Buda, Maninho, Neide, Joca, Jimmy, Luizinha, Belinha, Nanete, Odete, Didinho, Nandinho, JoJeVe, Gino, Edjane, Lana, Felicia, Aércia, Selma, Maguy, Felicia e tantos outros.

Por último, agradecer ao MAPTSS, na pessoa da Senhora Ministra Dra Teresa Rodrigues, por apoiar este projecto.

Ao Sítio do Livro pela edição na pessoa da Sandra Pena por abraçar esta nobre causa.

A todos gratidão.

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�� NOTA INTRODUTÓRIA

Entre as ruas poeirentas do Bairro Popular, onde a infância se tecia entre sonhos e surpresas, e as salas solenes da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Palacký de Olomouc, onde o saber ganhava forma e direcção, constrói-se esta obra — uma travessia de coragem, dor, fé e missão.

Neste primeiro volume de Memórias de um Homem que virou para o Destino, “FEPEMA” — psicólogo clínico e forense, professor, pensador e servidor público — abre as portas do seu passado com honestidade comovente e linguagem viva. Do número 226 da escola primária às trincheiras da reabilitação prisional, do frio das repúblicas socialistas ao calor dos corredores angolanos, cada capítulo é um testemunho íntimo e colectivo.

Aqui se narra a formação de um homem em tempos de guerra, o despertar de um psicólogo entre grades e diagnósticos, e a luta diária por dignidade num país em construção. Mais do que uma autobiografia, este livro é um grito manso de esperança, uma homenagem aos que, mesmo sem farda nem título, resistem todos os dias para que o saber, a ética e a humanidade triunfem.

Para os jovens angolanos, para os que acreditam na educação como caminho e para os que recusam ser vítimas das circunstâncias — este é um livro que não apenas se lê, mas se vive.

PREFÁCIO 1.

“Memórias de um Homem que virou para o Destino”, décimo rebento literário de Fernandes Manuel, sintetiza o percurso de vida do autor, desde a infância até à fase adulta. De cariz auto-biógrafico, o livro traduz-se num casamento perfeito entre a poesia e a prosa. Uma viagem introspectiva assente em factos que contribuíram para moldar a vida do pioneiro, órfão de pai, desde os 11 anos, até à construção da identidade pessoal e profissional do académico, o Prof. Doutor Fernandes Pedro Manuel. Diferente das obras anteriores, focadas principalmente na Psicologia e outros aspectos decorrentes da sua formação virada para a pesquisa do complexo universo da mente humana, desta vez o autor brinda-nos com um prato cheio centrado numa figura: ele próprio.

A narrativa envolvente traz o testemunho de um ilustre filho de Angola, nascido e criado no célebre Bairro Popular, antigo Bairro Cemitério Novo, palco de acontecimentos relevantes da luta pela independência nacional. Forjado para o mundo profissional e académico na longínqua e fria Checoslováquia, mais propriamente na Faculdade de Letras da Universidade Palacký de Olomouc, os caminhos do jovem estudante Fernandes

Manuel entrecruzaram-se com os sonhos de infância alimentados nas ruelas empoeiradas do Bairro Popular.

A jornada do jovem Nando Chuva inclui a marcante passagem por Ndalatanto e surpresas inerentes à vida estão patentes no livro. Nas salas da Faculdade de Letras do país que se partiu em dois, o jovem absorveu conhecimentos consolidados na ciência, estruturou-se enquanto homem, resultando tudo na estruturação desta obra, “uma travessia de coragem, dor, fé e missão”, conforme faz questão realçar na nota introdutória.

A narrativa despretensiosa inclui episódios que poderiam, eventualmente, ser ocultados, como a injusta prisão em Ndalatando, durante seis meses. Da escola primária número 226, no Bairro Popular, berço de intelectuais e quadros consolidados em diferentes áreas do saber, “às trincheiras da reeducação prisional, Preview

O primeiro volume de Memórias de um Homem que Virou para o Destino, FEPEMA, psicólogo forense e clínico, professor, pensador e servidor público, conduz-nos ao passado na OPA, então designada Organização dos Pioneiros Angolanos, ao período do pós-independência, assombrado pela morte precoce do pai, Pedro Chuva, e de boas referências junto da vizinhança e familiares. As vivências que o prepararam para desafios decorrentes da formação académica num país com diferenças multifacetadas, desde culturais a históricas, encerram uma incursão à parte.

do frio das repúblicas socialistas ao calor dos corredores angolanos”, cada capítulo do livro compõe um depoimento único. Arrebatador e expressivo. Revelador e, sobretudo, humano!

A interessante obra, escrita numa linguagem leve e descodificada, tendo como alvo um público heterogéneo, retrata a formação de um homem na época da guerra. O psicólogo dividido entre diagnósticos clínicos e estabelecimentos prisionais, a omnipresente luta pela sobrevivência sem abdicar da dignidade, num país cujos pilares estão ainda a ser edificados, destacam-se nesta obra.

O livro, lançado no ano em que Nando Chuva, o ser humano que dá corpo ao académico Fernandes Manuel, completa 60 anos, deixa um recado especial para os jovens angolanos, a expressão sublime do futuro: a concretização de projectos passa pela educação! Ou seja, o segredo é acreditar no poder transformador da educação como ponte para o sucesso, pois a recusa em ser “vítima das circunstâncias” pode resultar de escolhas certas. Este livro lê-se em dois actos. Primeiro, de forma voraz, quase num ápice. Depois, de maneira degustativa. E introjectiva. Para apreciar e absorver lições de vida.

luísa rogério

Jornalista

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SUMÁRIO

Capítulo 1 – O Bairro Popular e os Primeiros

Passos de Vida ....................................... 17

Capítulo 2 – Escola Primária 226: Primeiras Lições e Primeiras Quedas ................................... 21

Capítulo 3 – O Ano da Independência: Febre e Recolhimento ................................. 25

Capítulo Especial – O Ano em Que o Silêncio Gritou: 1976 .................................... 29

Capítulo 4 – Escola Primária 176: Futebol, Poesias e Sonhos ... 33

Capítulo 5 – II Nível 1.º de Maio: Formação e Novos Horizontes ................................... 37

Capítulo 6 – Ndalatando: A Prisão que Me Fortaleceu ........ 41

Capítulo 7 – Buco-Zau: O “Kilas” da Juventude ............ 45

Capítulo 8 – De Cabinda ao Kiluanje: O Caminho da Construção .............................

Capítulo 9 – A Bolsa, o Bilhete e o Sonho da Checoslováquia 53

Capítulo 10 – Sonhos que Rompem Fronteiras .............. 55

Capítulo 11 – Pelhřimov: Entre Aulas, Canções e o Amor de Maguy ...................................

Capítulo 12 – O Exame da Vida: Maturidade, Luta e Sentido ... 63

Capítulo 13 – De Volta à Terra da Revolução: Missão de Formação Policial ............................ 69

Epílogo do Capítulo 13 – Entre o Colapso e a Revelação . . . . 73

Capítulo 14 – Regressar para Servir: Da Teoria à Prática na Polícia Económica .................................. 75

Capítulo 15 – O Retorno Académico: Psicologia, Olomouc e o Nascimento de Vanessa ............................. 81

Capítulo 16 – O Apogeu Académico: Título, Perseverança e o Regresso como Mestre .............................. 87

Capítulo 17 – Missão nos Bastidores da Liberdade:

Capítulo 18 – Entre Chefia e Sabedoria: A Escolha pelo Doutoramento ................................... 95

Capítulo 19 – Doutorando entre Dois Mundos: Angola e Tchéquia ....................................

Capítulo 20 – Entre Fardas, Cátedras e Provas de Fogo .......

CAPÍTULO 1

O Bairro Popular e os Primeiros Passos de Vida

Nasci em Luanda, no famoso Bairro Popular, que na altura era chamado Bairro Cemitério Novo, na madrugada do dia 14 de Julho de 1965, numa quarta-feira.

Fruto da relação amorosa entre Pedro Manuel, “Pedro Chuva” e Adélia Joaquim Ribeiro, “Mana Adriana”, como eram carinhosamente chamados no Bairro Popular, e eu era tratado por “Nando Chuva”.

Segundo conta, a razão da minha existência e eterna paixão, minha doce mãe, de todos os partos, o meu foi o mais complicado: até ao último instante, eu estava em posição anómala, de pés para baixo, como quem hesitava em vir ao mundo — ou talvez como quem tentava travar a entrada neste universo frenético e violento, tão confortável que era a vida intrauterina.

A dupla de parteiras tradicionais composta pela minha avó Lemba (mãe de Pedro Chuva), a Avó Zinha, (mãe do Bom-moço), e a própria parturiente viveram momentos de aflição.

Mas, contra as dores e os temores, ali eu vim — de pés firmes na vida, desde o primeiro segundo.

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Poema 1

Terra de Poeira e Esperança

No pó que subia aos céus do Bairro, meus pés desenhavam sonhos sem saber. Entre o barro e as estrelas, cresci, sem ouro, mas com luz na alma a florescer. Era chão duro, mas era livre, era casa pequena, mas era gigante. No Bairro Popular, aprendi cedo: a esperança mora onde a alma é vibrante.

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CAPÍTULO 2

Escola Primária 226: Primeiras

Lições e Primeiras Quedas

Depois dos primeiros passos pela vida no quintal de casa e nas ruas do Bairro Popular, chegou o tempo de ser introduzido oficialmente ao mundo do saber.

Fui matriculado na Escola Primária n.º 226, uma pequena instituição que ficava no coração do bairro, onde as paredes gastas pareciam abrigar tanto os sonhos quanto as dificuldades daqueles tempos.

Minha primeira professora, de nome Leonilde, era uma mulher de presença firme e voz calma, que buscava plantar sementes de conhecimento em meio a turbilhões de inquietude infantil.

Naquela sala, conheci colegas que viriam a marcar minha memória: o Brito, o Teófilo Moniz, (homem com memória de elefante) o Pedro Barbas (o truta), o Sobrinho, o Castigo, e tantos outros cujos nomes ainda ecoam na minha lembrança como notas de uma música antiga.

Mas, naquela altura, a minha atenção estava longe das lições formais. Preview

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