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Inventarium Vitae

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Inventarium Vitae Escritos, Memórias e Olvidos

Alberto Branquinho

Inventarium Vitæ

Escritos, Memórias e Olvidos

FICHA TÉCNICA

título: Inventarium Vitæ (Escritos, Memórias e Olvidos)

autor: Alberto Branquinho

edição: edições Partenon ® (Chancela Sítio do Livro)

imagem de capa: Igreja Matriz de Vila Nova de Foz-Côa

imagem de contracapa: Museu do Côa grafismo de capa: Ângela Espinha paginação: Alda Teixeira

1.ª Edição

Lisboa, maio, 2026

isbn: 978-989-9198-51-7

depósito legal: 562921/26

© Alberto Branquinho

Todos os direitos de propriedade reservados, em conformidade com a legislação vigente. A reprodução, a digitalização ou a divulgação, por qualquer meio, não autorizadas, de partes do conteúdo desta obra ou do seu todo constituem delito penal e estão sujeitas às sanções previstas na Lei.

Declinação de Responsabilidade: a titularidade plena dos Direitos Autorais desta obra pertence apenas ao(s) seu(s) autor(es), a quem incumbe exclusivamente toda a responsabilidade pelo seu conteúdo substantivo, textual ou gráfico, não podendo ser imputada, a qualquer título, ao Sítio do Livro, a sua autoria parcial ou total. Assim mesmo, quaisquer afirmações, declarações, conjeturas, relatos, eventuais inexatidões, conotações, interpretações, associações ou implicações constantes ou inerentes àquele conteúdo ou dele decorrentes são da exclusiva responsabilidade do(s) seu(s) autor(es).

publicação e comercialização: www.sitiodolivro.pt publicar@sitiodolivro.pt (+351) 211 932 500

Alberto Branquinho

Inventarium Vitæ

Escritos, Memórias e Olvidos

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I – GUINÉ – TEMPO DE GUERRILHA

A

B

E

– Despojos

– Noss’ cabo Abel bai na Bissau

– REGRESSOS – Missa de corpos presentes

– “Destroçar!”

G – Regresso da guerra

H – Muito tempo depois da guerra ou “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…”

II – OUTROS LUGARES – OUTROS TEMPOS

– Sempre em cena

– Parábola do livro esquecido

– Tertúlias

– (Extra-terrestre ou pedaço de céu?)

– “…Às vezes não é da idade…”

– Maus encontros

– “Nos anos 30 a 50”

– Como se fossem humanos

– Parábola dos dedos da mão

– Os condenados

– Sono e sonho

– Passado passado

– Os tempos

III – VIDA CUMPRIDA – (Inventário breve)

– PALAVRAS E EXPRESSÕES EM CRIOULO (Por ordem alfabética)

NOTAS

1 – O autor escreve segundo as regras imediatamente anteriores ao Acordo Ortográfico de 1990 .

2 – Foram feitas pequenas alterações a textos de outros livros do autor aqui transcritos .

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I

GUINÉ – TEMPO DE GUERRILHA

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A – EXAME PARA IR À GUERRA

Estavam já quase todos despidos, embora alguns ainda estivessem com meias e sem sapatos e outros com meias e sapatos ainda calçados .

Uma mulher, de bata vestida mas não abotoada, com cerca de 50 anos, chegou junto à porta . Acertou os óculos no nariz, olhou os rapazes, levantou uma folha de papel à altura dos olhos e chamou três nomes . Aproximaram-se os três . Ela observou-os . Um deles tapava o sexo com ambas as mãos . Oh! Oh! Que é isso? Estás com medo que te caiam no chão?

Venham comigo .

Entraram num salão grande, com chão e paredes em cantarias . Estavam mais dois homens de bata, um com estetoscópio ao pescoço . Fazia frio lá dentro .

Foram pesados, medida a altura e observados os corpos nus, mandando-os rodar, mostrando frente e costas . Quando julgavam necessário faziam a observação mais cuidada de alguma parte do corpo . Aqui parece que há varicocele . — disse a enfermeira, palpando os testículos de um dos rapazes . O médico, sentado à secretária, olhou por cima dos óculos . Abre mais as pernas, rapaz! — ordenou ela . Voltou a apalpar, agora com ambas as mãos .

Não é nada, doutor . Está tudo bem .

A inspecção dos três foi dada por terminada . O médico, ainda sentado, estava a tomar notas . Recebeu os papéis, olhou, arrumou bem as folhas e, depois, olhou na direcção deles: Podem vestir-se . Boa sorte!

Mais tarde, consultadas as listas afixadas, constataram: “Apurado para todo o serviço militar”.

B

– PREPARAÇÃO

E IDA PARA A GUERRA

Cerca de dois anos depois, a vida militar .

Foram meses de preparação e treino para ir fazer guerra . (Mais tarde, já na guerra e preparados para ir à guerra, constataram que a guerra em que estavam pouco tinha que ver com a preparação recebida) .

De entre o silêncio que se fez a seguir a tal declaração, alguém sussurrou: Preview

No final, quando já terminados a preparação e o treino, estavam em formatura militar e chovia . Chovia uma chuva miudinha, teimosa, impertinente . E fria .

Em frente estava um palco coberto com um toldo ornamentado com motivos militares . E dentro, por baixo do toldo, uma haste metálica, vertical, com microfone .

A formatura, pelotão a pelotão, com centenas de soldados-cadete e os seus comandantes-instrutores postados em frente, aguardavam o Comandante da Unidade .

A chuva continuava a cair, mas o Comandante demorava a chegar .

Finalmente, chegou . Foram dadas as ordens de “SENTIDO”, “DESCANSAR” e, depois, “À-VONTADE”!

O Senhor Comandante começou o seu discurso dizendo: Chuva civil não molha militar!

Se estiver debaixo do toldo…

O alferes comandante do pelotão olhou na direcção do sussurro, mas não conseguiu identificar o autor . Terminado o discurso e a sessão, todos foram considerados aprovados na instrução básica para ir fazer a guerra .

Depois foram as andanças pela parte central do país e, também, pelo norte, a receber ordens, dando ordens (e contra-ordens) e todos, tudo ficou pronto para irem fazer a guerra (ou a contra-guerra) .

Um comboio nocturno, viajando de norte para o sul/centro, rumou ao navio que os levaria à guerra .

Dormiu-se, dormitou-se, roeram-se as unhas, conversou-se, olhou-se a noite pelas janelas e jogou-se às cartas . Mas, a comoção foi logo no início da viagem . Passados que foram uns poucos minutos, sem qualquer indicação ou aviso prévio, o comboio começou a emitir um sinal agudo, angustiante, contínuo, que demorou muito tempo (ou assim pareceu), enquanto seguia em marcha lenta em direcção a sul . Imediatamente a seguir a esse apito começaram a acender-se as luzes das janelas e varandas dos prédios junto à linha, à medida que o comboio seguia a sua marcha . Sempre devagar, muito devagar . Nessas janelas e varandas surgiram, apressadas, pessoas em pijama ou vestindo roupões, que acenavam um adeus contínuo e demorado . As mulheres tocavam com as mãos nos lábios e atiravam beijos para além dos parapeitos, na direcção do comboio . Os militares diziam adeus com as mãos, acenavam e agradeciam . Alguns choravam . Outros engoliam lágrimas . Preview

As luzes interiores do comboio tinham sido acesas, dando à noite um ar fantasmagórico .

Porquê isto? Um adeus sentido aos militares que vão para África combater e que poderão não regressar ao lugar de onde agora estão a partir? Ou é uma manifestação de apoio à luta que acontecia, então, nos três territórios africanos contra aqueles que queriam roubar à Pátria aquilo que à Pátria e só à Pátria pertencia?

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C – DE NAVIO PARA A GUERRA

A chegada ao Porto de Lisboa . A formatura no cais . Destroçar!

O embarque . As despedidas, os gritos, as lágrimas, os desmaios . Os abraços que demoravam a desfazer-se . As mãos atiradas para a frente, a quererem tocar, ainda, de quem se despedem . Ou a quererem agarrar quem parte, que vai para longe e pode não voltar?

Acenar um adeus para bordo, para uma farda igual a centenas de outras e que não se consegue localizar . O ADEUS!

O navio levanta ferro . Os gritos furam o ar até longe e ainda se ouvem . Ainda se ouvem nos primeiros momentos em que o navio se afasta . Começa a viagem Tejo abaixo . A Ponte (ainda chamada “Salazar”) .

Olhá Ponte! Bámos passar por baixo, carago!

O “panorama” da ponte com o tabuleiro mesmo por cima do navio . Ó mórcon! Eu bi-lhe as cuecas! Tu biste?

Depois o Bugio e o mar largo .

Foram cinco dias de mar . Os vómitos . Os soldados e as noites mal dormidas . A palidez . A fuga para o deck em busca de ar puro . Fuga ao cheiro do porão, ao cheiro de bolor e vómitos requentados . Preview

Na sala de jantar dos oficiais o serviço é esmerado . Principalmente o jantar .

Dias depois, o jantar de despedida . Na última noite . Com as luzes da sala apagadas, entram em cena as travessas iluminadas e com lantejoulas, volteando por entre as mesas, até que as luzes são acesas e começa o serviço . O espectáculo é diminuído pelos arrancos ruidosos dos vómitos em algumas mesas, seguidos de fugas precipitadas com as mãos e os guardanapos na boca, a caminho dos camarotes . Mas, de permeio, os corredores também ficam decorados.

D – A CHEGADA À GUERRA

Fundeados frente a Bissau, da qual se avistavam algumas, poucas casas, telhados e árvores . Uma aldeia? Será? (“- Não tem nada a ver com Luanda ou Lourenço Marques”) . E o cais lá longe . O navio fundeado ao largo . Viam-se muitos negros prontos a começar o trabalho . E outros, sentados, talvez procurando trabalho . Depois foi uma grande espera durante a manhã . Todo o Batalhão (e não só) aguardando indicações . Para onde vamos? Onde recebemos as armas? Como serão as instalações? Como e onde será o quartel? Será longe? Vamos ficar em Bissau algum tempo?

As centenas de soldados, todos em camuflado de combate (que, nos tempos actuais, é tão comum e usado mesmo quando almoçam em restaurantes!), esperando ordens dos seus comandantes . E estes à espera de ordens ou indicações de terra . Finalmente chegou a notícia: a Companhia iria ser separada do seu Batalhão e não desembarcaria em Bissau .

Desembarcámos directamente para um batelão, carregado de madeira cortada e toscamente acondicionada . Cada um procurou um espaço onde se pudesse instalar — entre tábuas, em cima das tábuas e, até, em pequenos espaços debaixo de algumas tábuas . Porque o sol já começava a manifestar-se . Mesmo assim, houve quem desejasse estar ao sol e em tronco nu .

O batelão foi atracado a um rebocador que, ao acelerar, empestou o ar com um fumo negro de gasóleo mal queimado, seguindo rio acima a caminho do quartel que nos esperava . Subia o Geba, largo, grande, calmo . E sujo, no início . Quando o rio começou a estreitar, a aproximar cada vez mais as margens, o capitão veio sentar-se a meu lado:

Você já viu isto? Nem pedras nos deram para atirarmos aos gajos!

A viagem continuou rio acima sob um sol cada vez mais quente . Oscilando entre o receio de surgirem disparos das margens e a observação da vegetação que as ladeava (para onde fugiam crocodilos assustados com o barulho do motor), o tempo foi passando com África a apresentar-se aos observadores atentos .

Alguns dormiam .

Depois de várias horas subindo o Geba, o motor e o movimento do rebocador deram notícia de que ia fazer uma paragem . Depois de uma curva apertada sobre a direita, surgiu um espaço terraplanado para atracagem . Largo, plano e sem vegetação .

Ainda a manobra para atracar estava demorada, rompeu, de terra, uma gritaria agressiva de umas duas dezenas de militares . Todos brancos, sem camisas, com a pele muito escura e com grandes garrafas de cerveja numa das mãos . Berravam para o batelão:

Piriquitos! Piriquitos! Cabrões! Filhos da puta, que nunca mais chegavam!

Andai cá! Salta, piriquito! Salta! Piriquito! Piriquito! Quando os primeiros desembarcaram foram agredidos pelos de terra e os seus sacos atirados para longe, talvez tentado atirá-los ao rio . Seguiu-se uma cena de pancadaria em que os poucos Preview

acabados de desembarcar e os de terra (em maior número) se envolveram a soco e pontapé . A confusão só começou a diminuir quando o capitão, em pé e em cima do batelão, berrava para terra e repetia:

Quem está a comandar esta tropa? Onde está o comandante?

Não havia comandante, era só uma auto-nomeada “comissão de boas-vindas” dos “velhinhos” aos “piriquitos”.

Poucos minutos depois começaram a chegar viaturas militares . Ao identificar o capitão, apresentou-se um alferes acabado de chegar .

Carregados os homens e os sacos nas viaturas começou o movimento de uma Companhia (sem armas) no interior da Guiné . (Sentado ao lado de um dos condutores, surgiu pela primeira vez a questão: Afinal a Guiné é assim?) .

Foram cerca de cinco minutos de viagem até chegar à sede do Batalhão . O capitão e os alferes foram cumprimentar o Comandante .

Depois viajaram mais uns (poucos) quilómetros até chegarem ao destino e ocuparem as instalações . Foi, então, distribuído equipamento e armamento .

Assim foi o primeiro dia na Guiné . Preview

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E – PRELÚDIOS DA GUERRA

No segundo ou no terceiro dia, depois do almoço, veio um jeep do Batalhão (sem cobertura) com condutor e um acompanhante armado de G-3, buscar o capitão . Estava com ele e perguntou: — Quer vir?

Chegámos à sede do Batalhão, que ficava a poucos quilómetros .

Chegados, o capitão foi falar com o Comandante do Batalhão . Fui até à messe beber uma cerveja, para sentir o ambiente . Estava a observar o pátio interior (a “parada”) quando chegaram dois alferes . Viram-me, vieram cumprimentar-me e sentaram-se na minha mesa . Seguiu-se uma sessão de perguntas e respostas, em que eles procuraram informar-se sobre a tropa chegada no dia anterior e eu tentava colher informações sobre a zona . As informações que consegui não eram de modo a satisfazer as minhas preocupações, porque eles eram de administração e de transmissões . No entanto, para além do prazer do convívio, o que disseram teve alguma utilidade . A tarde já ia avançada quando chegou o capitão . Apresentei-o aos alferes e sentou-se . Seguiu mais conversa, sempre orientada no sentido de obtermos informações sobre quem, como, actividade operacional . Quando o capitão olhou em volta pelas mesas, observando os militares

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