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Alberto Bravo
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FICHA TÉCNICA
1.ª Edição Lisboa, julho, 2026
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grafismo de capa: Ângela Espinha paginação: Alda Teixeira
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título: Inerte autor: Alberto Bravo edição: Edições Vírgula ® (Chancela Sítio do Livro)
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isbn: 978-989-9284-18-0 depósito legal: 566121/26 © Alberto Bravo
Todos os direitos de propriedade reservados, em conformidade com a legislação vigente. A reprodução, a digitalização ou a divulgação, por qualquer meio, não autorizadas, de partes do conteúdo desta obra ou do seu todo constituem delito penal e estão sujeitas às sanções previstas na Lei.
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Tira as mãos dos bolsos. Vamos, avança Ou é uma doença? Que longo mal é o teu? Foste gravado na pedra? O que és, ser ou coisa? A tua mudez interpela-me. Não te vou deixar sem resposta, pobre tipo. Vou dar tudo por nada. E não vais morrer depois de mim. Não vais. Há tempo para os dois, o mesmo, avulso, revulso, e já contado e enterrado. Tira as mãos dos bolsos. Avança. Fica onde estás. Vamos lá. Não pares.
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Ou não avances. Ou não pares. Para que quero eu que avances? Estás melhor assim. Vendo bem, para onde irias? Para um armário de adereços? Estás onde devias estar. Aqui mesmo. Nem perdido nem achado. A frequência dum facto, por maior que ele seja, não o torna comum. Apesar disso, retirado do mercado no primeiro dia de montra, como tudo levaria a crer, descontinuado, como se diz no comércio, sem dúvida por flagrante incapacidade de acesso, permaneces todavia nas prateleiras onde nunca te expuseram de facto. Faltas em todo o lado, mas não fazes falta. Não é frequente. Tem pouco a ver com a razão comum. Mas lá terás a tua. Quanto a mim, por ser vítima de ideias ou de fantasias que te implicam no decurso de acontecimentos em que ambos estaremos envolvidos, vou 5
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ser impelido a falar, seja em relação a ti, seja em relação a mim, seja em relação aos dois, seja em relação ao relacionado com tudo isto e à dúvida impenitente a propósito do relacionável, em conjunto com um sentimento constante de desperdício, podem crer. Mas alguém ia ter de o fazer no teu lugar, por essa razão ou outra, embora desligado de qualquer compromisso. Esse alguém seria eu, mas não é seguro que seja. E se fosse outro? Existes por delegação, é ievitável, no ponto a que chegámos. Que fique assente. Se não é claro, pode vir a ser menos obscuro. Ignoras tu, questão preliminar, e passando para outro plano, o profundo significado revolucionário da tua postura, que se distribui equilibradamente entre o dever de trabalho e o direito à preguiça? Mas desde quando, meu Deus! A esta pergunta não soube responder. A data ajudaria, acrescentei.
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Imaginem um mundo sem datas, uma vida sem datas. Eu procuro datas com uma ansiedade crescente. Traz segurança. Sabida a data, pode impor-se a história do alto dum poleiro mais seguro, assinalado, identificado por todos os galinheiros dum país. Assim, essas mãos nos bolsos, quem tas mandou lá pôr, e quando? Quem iria assumir tamanha responsabilidade? Quem iria ordenar a um garoto que metesse as mãos nos bolsos para a vida inteira? Uma data ajudava. Ou foste tu que as quiseste lá pôr e já não sabes porquê nem quando foi? Ou será que 6
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elas te caíram, lassas, sem memória possível, para dentro dos bolsos por teres dois buracos à mão ali à espera? Acções sem memória como talvez ocorra entre larvas. Talvez. Como vemos, uma data, ou até mais do que uma, seriam imprescindíveis para a formulação duma espécie de lógica das acções desencontradas. Faremos então tudo o que há a fazer sem as datações correspondentes como num negócio senil. Pensando melhor, sem paixão, quase sem emoção nenhuma, deixa-as estar assim, meu enguiçado, essas tuas mãos, deixa-as ficar nos bolsos, sem ti: ao menos não mexem em nada. Este género de coisas (onde pôr as mãos e quando) aprende-se na altura devida, mas faltaste à escola, ninguém deu por isso e a aula continuou e a vida também, que não faz outra coisa. Nada a dizer. Muito provavelmente, ninguém deu mesmo por nada. Estavas à espera que fôssem à tua procura, era? Seria um teste ao amor que te dedicavam? Subtil demais. Tiveste a resposta. Mas por quem te tomavas? Por quem te tomas ainda? Devias ser erradicado, a ideia era essa, presumo; ora, como já sabemos, não existem provas materiais da tua pessoa. Erradicar quem? Erradicar o quê? Não falo por mim, claro. Eu falo no lugar duma ausência cuja aura me pontua e sincopa. Por enquanto, é tudo. Enquanto a ti, entre as razões comuns, falta óbvia razão para que existas, mas afinal existes, nem há porventura a certeza de que existas, mas existes com um intenso esplendor apagado. És um sabotador dos mitos comuns de existências partilháveis, com a minha complacente aprovação. Por isso a 7
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sensação que dás é longa e violenta e sem consequências. A tua falta de definição estrutural invalidaria tanto o perdão como o castigo. Persegues quem afinal te requer presente. E depois – se fôsse esse o caso – não se assassina às claras nestas democracias ensonadamente prorrogadas. Tu não vales o esforço dum acto criminoso de misericórdia. Por que te execro então a este ponto? Porque me és indispensável? Senhores! Beneficiará ele de um direito humano? Tira as mãos dos bolsos, insisto. Ousa a decência de teres pegada humana. Procura ter pé, que pairas. Procura ter peso, que ascendes. Mostra-nos que também tu te submetes à universal lei da gravidade e que não se voa sem esforço. Faz o teu dever vital. Como a libélula ou o mosquito, como a rosa que se ergue. A boa vontade abunda na natureza. Já deste por isso. Mas não queres deixar o mais pequeno sinal no mundo, eis uma boa razão. Apenas nas consciências, talvez Pões a tua esperança na culpa do outro. A tua natureza é a desnatura. Um pensador revertido? É possível. Um buraco cheio do leal ensejo de não ser nada? Seria terrível, mas ainda possível. O núcleo duro de coisa nenhuma? Sabe-se lá. Essas coisas existem. O que se sabe é que tens as mãos nos bolsos. E eu falo. Falo fora do propósito que esse pretexto me concederia, se quisesse falar com um propósito. Porque nada liga uma coisa à outra, falar e ser falado, como seria previsível, embora haja uma relação, e até mais do que uma, como vimos. Apesar disso, as coisas vão ser de outra maneira: é sempre assim. Existe, na natureza do mundo, uma insa8
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tisfação basal, fisiológica, que estimula os apetites ao imaginário. Para complicar tudo, não se encontra um culpado de carne e osso para o defeito primordial de que tu és a coisa. Acaso? Destino? A coisa deve andar por aí. Senhores! Não há criminoso, há a sombra de um crime, e passos a afastarem-se nas sombras, e uma corrente de ar muito frio a descer a montanha. Há emoção e mistério, um pouco de terror, graças a Deus. De entre as sombras vieste, nas sombras te hão-de enterrar, entoam os meninos de choro. No coro. Atrás do archote, a escuridão fecha-se como um cortinado. Memória de luz. Insuficiência radical das estrelas. Seguir-se-ão outras sugestões.
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Se for solicitado, o PLANO será este: não tirar as mãos dos bolsos e as suas evoluções dinâmicas, acrescentando-lhes as consequências inesperadas, tudo entre enxames de palavras. Dos resumos mais fáceis.
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A tua época, o teu transe contra geracional, o teu mito, é teres as mãos nos bolsos, já o sabemos. Mas é também o teu terreiro, a tua lança, o teu lar, o teu refúgio e a tua espiritual arrogância, acrescento eu. Assim és: inerte, e a portas meias com a eternidade, se fizermos um reforço de interpretação. Outra coisa é esse concreto interminável, redondo, que representas tão bem no teu posto: o saber da pedra. Um quebra-cabeças, acreditem-me; absolutamente impensável. Um objecto complexo entre gente simples. 9
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O infinitamente facetado à deriva nas arestas de um cubo opaco. Será que o forro dos bolsos já abriu buracos? Para quê saber coisas destas? Manténs a postura, é o que conta, malgrado a limpeza adiada sucessivamente e o descalabro geral da tua condição, fruto do desleixo do senhorio, em suma, ou do feitor, um deles, enfim, de alguém que devia ocupar-se de ti. Mantens o conceito desdobrável e monolítico de mais um paradoxo no quotidiano ansioso e hanseático da cidade atlântica. O tema é apaixonante, se soubermos esperar, ter paciência, anotar, mas não há tempo para tudo. Ou será que queres guardar o lugar a todo o custo? Terás sempre as mãos nos bolsos, eis o essencial do caso, o que quer que faças. Consequentemente, ou te ficas pelo que não és ou te inventam. Um risco a correr. É grave. Enigma ou mito? Como se isso tivesse a mais pequena importância, arrumar palavras caídas por aí, à distância das tuas mãos. Mas tens as mãos nos bolsos, murmurei. Que outro poderia fazê-lo? Fica onde estás. Avança.
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Eu tento perceber-te, de certa maneira, a única maneira certa, na minha incerta opinião. No fundo, dou-te importância, nem mais nem menos do que aquela que dou a mim mesmo quando sucede que te dou importância. O teu bom lado é esse, provocares a interrogação e, ao mesmo tempo, o culto do desnecessário, do remorso, que se funde em lágrimas sem rosto no claustro vazio e comove as santas imagens. Como se tivesses sido expulso da casa de 10
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um rendeiro. Ter as mãos nos bolsos é uma gramática. Falta saber de que idioma. É esta a tua gloriosa incerteza, que impede a contratação de um linguista banal, que encerrasse o assunto. Queres ser assunto, motivo de angariação social. Sofres de um imenso esquecimento a mal lembrado de par com uma afasia patognomónica, poder-se-ia dizer. Sob o entulho acumulado, no rosto originário – rosto esse talhado em pedra lunar noites a fio, depois de toscamente sugerido a grandes golpes de cinzelador bêbedo – os lábios cerrados indicam, com toda a probabilidade, que não queres que te levem comida à boca e que preferes morrer de fome à simples ideia de abri-la. Afinal, de quem és tu a obra, infeliz? Por que razão perseveras? Senhores, por que diabo persevera ele? Fantasma forçando a hospedagem da motivação obscura da minha atenção ociosa. E a minha voz embargou-se. A largos traços, os serviços mínimos.
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O resumo da trama a enfileirar na passagem do tempo, a semear nas redes astrais, nas traseiras do mundo, em suma. Dito de outra maneira: personagem de mãos nos bolsos sujeita a interpelação. Ou, visto do passeio oposto, o desespero do transeunte dotado de consciência pesada. Um dos poucos que se culpam por todos os outros, que se gabam de serem inocentes. Alguém como eu, portanto, solidamente de pé no liquescer do mundo. Ou como outro. Ou ainda como outro. (Não serão muitos). O rascunho 11
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perdido para uma ordenação futura é uma possibilidade mais, que entrego de coração aberto ao Grupo de Estudos. Ou ainda,
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empurrar uma frase para pôr outra atrás, a dar luz. Supor um cenário. Encher esvaziando. Esvaziar criteriosamente, como se deve. Não deixar rasto. Empurrar uma frase para pôr outra à frente, com o fim de arejar o estilo. Exemplificar com concisão e clareza. Evaporar-se na densidade.
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Sucede que por causa destas delongas, destas transigências com as quais já não devia pactuar, destas explicações etruscas que me implicam e replicam, esqueci a graça do teu nome. Mas convinha um nome, arranja-me aí um nome, bastardo. Um nome ilibava-me imediatamente . Onde escondeste o teu nome? É ele que ciosamente guardas debaixo das mãos escondidas? Num papelinho tão amarrotado como a tua alma? Que nome te terão atribuído, Deus meu, que te levou a tanto te odiares? (Se isso é ódio). Nome de pessoa, de romance, de bicho doméstico? Que erro maligno, nessa atribuição ocorrido, criou este vínculo que nos torna um ao outro suspeitos e preciosos? Toda a pouca força que ergo ainda é para ti, exclamei. O simples facto de evocar-te extenua-me de viver. Desmantelo-te.
Palavra a palavra. Palavra a palavra, reergo-te para o mesmo efeito nulo. Recorro à literacia esparsa, ansiando 12
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pela expressão redentora do poeta, pelo excremento divino da metáfora, como nos bons velhos tempos. Saboreia lá esta. Eis o teu bom lado, teres deixado de lhe correr atrás, a esse balão balofo de estrelas matutinas, e tentado outro êxtase dos muitos que comungaram nesta terra sem êxito e secaram ao sol. Porém, como embolsaste as mãos, fiz notar, nunca serás o construtor viril e categórico que cavalga a época, mas um banal mação de catedrais imaginárias num tempo raso como uma laje de túmulo. Tu fazes parte da ruína das catedrais, não da sua fundação, estás por isso mais perto da verdade, do inevitável. Não crias nada, mas talvez dês origem, graças tão simplesmente ao silêncio perfilado onde enroscas os teus fedores pensativos. Devias cobrar direitos de autor por não seres autor de nada.
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Eu tenho um vício, digo-vos já. O meu vício, ou a minha salvação, é ter-te a esta distância profiláctica da palavra, que abre caminho ao desejo e ao prazer do hipotético. Apercebo-me, se calhar com horror, das vias nocturnas por que me és indispensável: tornas-te luz para o mínimo de visão ser impossível. É a tua modéstia senão a tua avareza. Não dizes nada porque não desejas nada. Desejar para quê? É a tua pétrea honestidade, aberta ao olhar de todos, o teu exercício, estático e documentadíssimo, de uma cidadania muda. Tu és a ignorância da tua própria celebração.
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O vento sopra onde quer e o olhar de Deus, porventura por falta de ambição, não se estende ao infinito inteiro. Faltaram-lhe horizontes. Deixou-nos algum tempo ainda, e um pouco de espaço, sempre disputados na manada. Esta abençoada e renhida liberdade em luta permite, ainda assim, os encontros mais bizarros maquinados pelo Destino. A ideia não agradaria a um iluminista, e não há senão iluministas entre iluminados, mas a grande escuridão, Senhores, acolheu o nosso encontro, a verdade é esta. Interinos e interpolados, ali estávamos nós, à margem de Deus, face a face, cegos como os recém-nascidos. O que acabei de dizer exclui-se e a todas as provas. A própria redacção mostra-o claramente.
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Valias tu, apesar deste facto, a pena da curiosidade e o sangue do sacrifício? Para dizer a verdade, nunca te tinha esquecido. Fora-me negado o milagre da amnésia que exonera. Ao contrário, eras uma obcessão assombrada. Existias, mas sem propriamente existir. Ao que julgo saber, falou-se de uma fotografia de então, primal, tribal, iniciante, mas nunca na minha presença. Logo, de nada sei. Postulou-se o mistério como um facto, suponho eu, 15
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e mais nada. Imaginem a impressão digital, não de um indivíduo, mas de uma génese. Imaginem um piolho de ADN nas cabeleiras enredadas dos amantes, Senhores, imaginem. É o final provisório de um começo eterno, uma breve pausa para abastecimento: imaginar. Circulai, probabilidades, circulai, ao redor da cópula-mãe! A imaginação será nesta viagem, se vos sorri o embarque, o rolar distante de tambores que vão extinguir-se. O tantã primitivo. Era um retrato vazio de imagem, dizíamos.
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Uma natividade celebrada por cegos de fé perdida, esclareça-se, sugado de dentro, que perdurara nos sótãos onde, festejando, corriam as baratas e guinchavam os ratos. E lá estavas tu entre os dizimados pela impiedade do tempo, a tentar sobreviver por contumácia. No limiar do buraco. Ou devias ser tu. Boatos, ou uma daquelas histórias de família com um segredo no armário? Imaginem: um esqueleto desembrulhado, que cai aberta a porta, e uma poeirada medonha e fedendo forte a morte logo a seguir à surpresa, que ainda não pousou, que nunca há-de pousar, e que nos sufoca aos dois? Ou terei sonhado tudo fora do meu prazo de vigília. Aceito com relutância uma ou outra hipótese, e poderei lealmente considerar outras propostas. Assim não faltem os interessados. Regressemos então ao local de residência. (Que fique claro que o residencial, no quadro desta narração assombrada, significa O QUE ESTÁ POR HABITAR. Algumas mise en garde são indis-
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pensáveis, embora a contragosto, a fim de evitar os sempre possíveis erros de interpretação).
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Volto-me para trás depois disto para ter um arejo de realidade, olho em frente e tu continuas lá, com as mãos nos bolsos e coberto de lixo. A tua postura, em princípio banal, tem algo de uma iniciação à estatuária de coprólitos, arte mal cultivada, mal endossada, mal vista, em virtude da sua inspiração anal. Envolve-te como que um apelo, fortuito e inacessível. Tendes fatalmente, e na mais completa inocência, para a educação estética, e por conseguinte moral, de quem dê por ti de surpresa, e são muitos, passados o calafrio e a repulsa. Tu tens de assentar, como aquela poeirada de mortos de que se falou, tão docemente. És sugestivo pelo que não fazes e pelo que não dizes em vez de o ser por um grande feito ou uma frase alta e esbelta espraiados no redondel das épocas de penúria. Pela acumulação tranquila e reservada do que foi chegando dos piores lugares. Pela heroicidade magnânima. Se assim for, tens o meu apoio, irmão, o meu apreço. Tens a persistência dura dum tempo de pedra. Usufruis da ventura do que é imperturbável. Estás oculto, és poético. Se te raspassem as bostas, surgirias cristalino e matinal. Exemplar. Feliz. Tens qualidade e tens pedigree. Avança. Sorri, e saí da sala.
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Sem que te dês conta, prossegui, ainda a sorrir, distribuis a esperança e o ânimo por não seres exactamente o que contam sobre aquilo que vêem quando te vêem, mas possivelmente pior do que o que contam. A sementeira do ambíguo tem a fertilidade assegurada. Tens razão de ser? Tens suficientemente disso? Sem tardar, faz-me chegar o teu depoimento, meu infeliz irmão. Sopras na palavra, bem vejo, a ver se dizes. Inchas, mas o vidro magmático recusa-te uma forma qualquer. Informe, inerte, que infelicidade a tua. Persiste todavia. Anima-te, ó desfigurado. Sobretudo, mantem as mãos nos bolsos.
Talvez seja uma prece, todo ele; uma prece.
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De que igreja se eleva, não sabemos nada.
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No horizonte, nada de novo, em igualdade de circunstâncias, nem uma dedada de fumo, pássaros outros insectos apenas, nenhuma ascensão em curso. Representas acaso um derramamento imperceptível de tempo adventício no movimentado terror da máquina de sugar tempo? Compreendem o que quero dizer? Será isso? És uma compensação infinitesimal, em suma; e ainda sobras. Uma lágrima de fé terrena baixada ao oceano herético, tenho de admitir, embora com reticência. Tens incontestavelmente o teu lado bom. Qualidades, lá muito por ter, lá muito por dentro, encerradas na tua timidez terrível. Ousa um pouco de ambição, ao menos, gritei, sem poder 18
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explicar-me melhor. Sobretudo, não te mexas. Na vida, tudo é movimento. A tua ambição, se chegasses a tê-la, seria, num lance inesperado, conseguires rodar pesadamente sobre os pés guinchando a tornares surdo o mundo, atroando feroz como mil feras e olhares-te a ti mesmo com pudor no fim – porque nu – no meu maravilhado espelhar atlântico à escuta. Um herói antigo. Ou então, mais teu, por maldade, ficar apenas a ver os resultados. Fica como estás. Avança.
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Enquanto isso, a olho nu e pesado, eu escrutino a fotografia amarela, aquela, a tal, a tão piedosa, a que não existe, o mito. Senhores. É essa a diferença, a grande diferença entre os nossos presépios. A fotografia amarela, aquela, a tal, que não retrata nada nem ninguém e que por essa razão, graças à sua reprodutiva evanescência, emana imaginário.
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Também tenho o meu espelho, entre outros búzios e rios – que és tu, e esta miséria nossa. E no entanto, mexo-me. Andas à minha volta como um odor parasita, bem que te sinto. Faro farejando sombra comum em plena barriga da matéria negra. Atracção e repulsão indistintamente. Giramos um à volta do outro com uma habilidade extrema para que não entremos em colisão. Que a colisão ja se deu.
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