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crónicas de algures
crónicas de algures
edição: João António Tavares
título: Hei de Voltar – Crónicas de Algures autor (texto e fotografias): João António Tavares
fotografia da capa (do autor): Arábia Saudita
revisão: Inês Dias
arranjo de capa: Ângela Espinha
paginação: Paulo S. Resende
1.ª edição Lisboa, dezembro 2025
isbn: 978‑989 54484 1 8
depósito legal: 556552/25
© J oão A ntónio t AvA res
0 Hei de voltar (Introdução) 11
1 Tocando em frente (Brasil, 2023) 13
2 Na fábrica de televisões e telemóveis (Coreia do Sul, 2019) 36
3 Fortes e muito mais (Gana, 2023) 52
4 Sem pontos altos (Dinamarca, 2022) 67
5 A ilha-natureza (Dominica, 2023) 79
6 Hei de voltar ao deserto (Argélia, 2024) 94
7 Modernidade escondida (Tailândia, 2020) 113
8 Mancha imaculada (Espanha, 2021) 126
9 A oriente no ocidente (Uruguai, 2019) 138
10 Entre os rios (Gâmbia e Senegal, 2024) 153
11 A atração turística (Paquistão, 2023) 170
12 Viagens no espaço e no tempo (Grécia, 2019) 191
13 O bom pretexto (Estados Unidos da América, 2024) 205
14 Tempo parado (Eritreia, 2025) 223
15 O último dos 50 (Sérvia, 2022) 238
16 A caminho de 2030 (Arábia Saudita, 2022) 253
17 Entre tempos e tradições (Benim e Togo, 2023) 273
18 Desalinhamento conveniente (Barbados, 2023) 291
19 Litorais atlânticos (República da Irlanda e Irlanda do Norte, 2021) 304
20 Apontamentos faraónicos (Egipto, 2025) 320
Introdução
Tenho tido o privilégio de continuar a explorar os vários cantos do planeta, sem especiais regras ou estratégias. Vou planeando as viagens que posso concretizar nos meses seguintes, tendo em conta as circunstâncias da vida, as minhas, as de quem me é próximo, as oportunidades que surgem. Não me move a contagem de países, interessa-me apenas conhecer o mundo, em especial o que ele tem de fantástico e de interessante. Nesta perspetiva, prefiro visitar certas regiões em países que já pisei, por exemplo, do que exaurir-me para chegar a umas ilhas perdidas, semelhantes a outras, apenas porque por contingências da história ganharam assento nas Nações Unidas. A vida é curta e o pragmatismo é a minha bússola.
Depois de cada viagem, gosto de escrever uma crónica, o que me permite prolongar a experiência por mais uns dias. Também não tenho um método rígido para os textos, escrevo o que me sai. Às vezes abordo apenas uma das zonas visitadas, noutras foco-me numa certa perspetiva do que vi e vivi, noutras refiro-me a um pouco de tudo. A única certeza que tenho é a de que procuro ser frugal, sob pena de me alongar e desrespeitar a paciência dos eventuais leitores.
Deste privilégio de viajar e deste gosto em escrever, eis «Hei de voltar», o meu quarto livro de crónicas de viagens. Tal como os seus antecessores, tem o subtítulo «Crónicas de Algures», o que define a série iniciada com «De Mapas a Tesouros» (dezembro de 2013), e continuada com «Folhas de Plátano» (junho de 2017) e «Entre Diamantes» (outubro de 2019).
Ao escrever esta introdução, reli as introduções dos 3 livros anteriores. Todas elas se mantêm completamente atuais. A passagem do tempo vai-se manifestando de diferentes formas, umas óbvias (menor agilidade física, seguramente), outras subtis (maior exigência, porventura), mas a minha essência é a mesma.
Reli também todas as crónicas agora incluídas e reparei que nelas surge, com frequência, uma ideia curiosa, a ideia de voltar. Ela decorre do facto de que ficam sempre coisas por ver: um museu ou monumento que estava fechado, uma região próxima para a qual não houve tempo, uma zona ou cidade que compreendemos ter visto demasiado pela rama, um espaço onde nos sentimos bem e ao qual regressaríamos com prazer. A maioria das viagens tem este paradoxo: saímos com uma lista de sítios para ver e regressamos com uma lista igual ou maior de sítios que não vimos e gostaríamos de ter visto.
Trata-se apenas de uma ideia, não sei se voltarei ou não. Como a minha bússola pragmática me aponta normalmente para destinos desconhecidos, é provável que não volte, sobretudo se se tratar de um local difícil, seja pela distância, seja por outras caraterísticas. Ainda assim, agrada-me esta ideia do regresso aos sítios onde fomos felizes, quer porque um regresso até é verosímil, quer porque este deixar da porta aberta nos amplia os horizontes futuros e nos tranquiliza, mesmo quando se trata de uma doce ilusão.
Viajar, repescando as tais introduções dos livros anteriores, é continuar a transformar mapas abstratos em tesouros de memória, é continuar a apreciar a beleza das folhas de plátano caídas, é circular entre diamantes, dos mais rombos aos mais cintilantes. E é, também, querer voltar.
«Hei de voltar», como os seus antecessores, é um livro de textos com fotografias ou de fotografias com textos, o leitor que decida. Igualmente, é um meio de partilhar experiências e conhecimentos que me dá muito prazer concretizar. É ainda uma forma de deixar registados traços de mim próprio. É o quarto livro. Haverá um quinto? Hei de voltar.
Observo os espaços cultivados, quadrados, retângulos e círculos de diferentes tons entre o verde e o castanhoclaro, quebrados por barragens, lagos, rios e pequenas zonas montanhosas. Da janela do avião, a onze quilómetros de altura, não consigo distinguir os cultivos: soja, milho, cana, pastagens, quiçá estes e outros, em quantidades que fazem do Brasil um dos grandes produtores mundiais de alimentos. Só depois de muitos
A mistura amazónica de florestas e águas, vista do voo ManausBelém, Brasil

quilómetros dedicados ao chamado «agronegócio» é que a floresta começa a aparecer. Olho para o mapa e verifico estar na zona onde convergem os estados de Mato Grosso, Pará e Amazonas. A floresta começa a predominar, mas veem-se claramente os retângulos desmatados, alguns sem plantações, por vezes ainda com vestígios de fumo. Ao longo de linhas rodoviárias e fluviais, compridas a perder de vista, a presença humana expande-se, como uma praga que come floresta com vorazes bocas mecânicas, abrindo formas geométricas verde-claras que se estendem sobre o verde-escuro da base arborizada. Impressionante.
A segunda metade no meu voo de dois mil quilómetros de Brasília a Manaus foi sobre florestas e mais florestas, uma mancha contínua e remota, sulcada por uma malha desorganizada de rios de diferentes calibres. Por vezes, água e arvoredo confundem-se, num caos de tons azulados e esverdeados, sendo impossível distinguir lagos, rios e afluentes, se é que tal distinção faz sentido, se não é apenas um delírio de uma cabeça demasiado estruturada, vinda de outros mundos. Dou um passo atrás no meu raciocínio e foco-me no espetáculo, no privilégio de poder observar de uma confortável poltrona aquela singular mancha: a Amazónia, 6,7 milhões de km2 abrangendo nove países do continente sul-americano, 60% dos quais no Brasil.
Seja qual for a rota pela qual se chega a Manaus, a realidade é a mesma: centenas de quilómetros de águas e árvores misteriosas e recônditas, um pedaço diferente do nosso planeta, algo que não precisa de mais introitos para se entender o interesse da visita. E ao aterrar no aeroporto, com o grande rio Negro à minha direita, não tive dúvidas da singularidade do meu destino: uma abstrusa metrópole de 2,2 milhões de habitantes, perdida no meio de um arvoredo imenso, capital de um estado equivalente a três penínsulas ibéricas. A pergunta tornou-se-me óbvia: por que existe aqui esta cidade despropositada? Quem foram os loucos que, séculos atrás, aqui se estabeleceram? Para quê? E como se desenvolveu neste fim-de-mundo uma urbe como esta? Do que vive, como subsiste?
As respostas foram surgindo nos dias seguintes, em conversas com alguns interlocutores locais e com a indispensável pesquisa na floresta digital. Manaus foi fundada pelos portugueses em 1669, com objetivos de ocupação territorial e de pesquisa de possíveis riquezas. A zona fora atravessada por uma expedição espanhola, a partir da costa do Pacífico, sem consequências, mas as presenças inglesa, holandesa e francesa no norte e nordeste do litoral brasileiro, aproveitando as debilidades lusitanas e a oportunidade trazida pelo período filipino, ameaçavam as pretensões portuguesas. A bem-sucedida contraofensiva, na qual se destaca o nome de Pedro Teixeira, abriu caminho para uma mais afirmativa exploração e marcação do interior do território, sendo nesse contexto que nasce a cidade à beira dos rios que, ontem e hoje, são as vias de ligação ao Atlântico e ao mundo.
O nome da cidade deriva de Manaós, o principal grupo indígena da região, e a história da cidade começa marcada pela conflitualidade entre colonizadores e colonizados, que foi gradualmente atenuada por uma estratégia de miscigenação. Desse processo, comum a outras zonas do atual Brasil, resultaram diferentes combinações mestiças, sendo designadas caboclos (1) as pessoas de ascendência branca e indígena.
Após décadas de instabilidade política, adveio o denominado «ciclo da borracha», quando a extração do látex da seringueira deu resposta a uma procura mundial explosiva por parte da indústria automóvel. Essa fase de abundância, vivida de 1890 a 1910, dotou a cidade de novas infraestruturas e de grande parte dos edifícios que hoje se podem apreciar no seu centro histórico. O mais famoso é o Teatro Amazonas, de 1896, ainda ativo (quando o visitei decorriam ensaios para um espetáculo que teria lugar nesse serão), embora mostrando muitos sinais de degradação. O Palácio
1 Existem no Brasil variadas designações para os diferentes tipos de cruzamentos raciais, com algumas sobreposições e ambiguidades. Em Manaus, ouvi sempre a palavra «caboclo» para designar as pessoas com ascendência indígena, independentemente dos contributos posteriores de outras proveniências.

Pirarucus secos à venda no Mercado Adolfo Lisboa, Manaus, Brasil
Rio Negro, o Palacete Provincial, o Palácio da Justiça, a Alfândega e o Mercado Adolfo Lisboa são outros exemplos das construções sofisticadas desse período, em diferentes estados de conservação.
As riquezas da borracha foram efémeras, dado que a produção amazónica foi rapidamente superada pelas plantações bem-sucedidas na Malásia, com condições de solo e clima propícias ao crescimento das seringueiras. Manaus entrou em declínio, só tendo começado a recuperar a partir de 1967, quando foi criada a Zona Franca e se instalaram e desenvolveram várias indústrias, entre as quais a química, a agroalimentar, a de transportes, a de equipamentos elétricos e eletrónicos, e a refinação de petróleo. Este novo ciclo de crescimento tem-se mantido até hoje, atraindo muitos migrantes, em particular do nordeste do país, fazendo a população crescer acentuadamente e trazendo novos problemas ambientais, como sejam a pressão sobre a floresta circundante, a poluição, a ocupação
dos solos e a degradação dos numerosos furos e igarapés (2) sobre os quais grande parte da urbe se ergueu.
Apesar dos palácios e igrejas que evocam passados opulentos e de algum casario com fachadas interessantes, exibindo uma clara herança arquitetónica lusitana, o centro de Manaus é pouco atrativo. As ruas estão em fraco estado, muitas casas exibem sinais de abandono ou negligência e numerosos mamarrachos inestéticos contribuem para um reticulado de ruas desinteressante. O clima chuvoso e húmido não ajuda, sendo fácil a vida de bolores, bafios e manchas cinzentas. A «lavagem de cara» do centro histórico parece-me possível, mas exigirá décadas de determinação, investimento e boa governação, elementos que creio serem escassos nestas paragens.
Os esforços de estruturação de novos bairros foram insuficientes para fazer face ao aumento populacional, pelo que a malha urbana se foi estendendo de forma caótica, numa mistura de prédios altos incaraterísticos, casas modestas e favelas. Como noutras cidades brasileiras, a elite vive em condomínios fechados, protegendo-se da elevada criminalidade, longe das lutas entre gangues e milícias com ligação ao tráfico de droga e conexões promíscuas com as forças de segurança. Uma das evidências desta decadência institucional são as «invasões», ocupações ilegais de pedaços arborizados na periferia da cidade, que são desmatados e ocupados por famílias pobres, sob proteção destas milícias, numa teia mafiosa de negócios e interdependências. Quando me mostraram algumas destas invasões, a caminho da reserva florestal Adolpho Ducke, onde se situa o belíssimo Jardim Botânico –Museu da Amazónia, fiquei incrédulo, observando barracas e casebres de tijolo construídos entre tocos de árvores acabadas de cortar. Um crime gravíssimo, pensei, imaginando aqueles tesouros frondosos estatelando-se aos pés de bandidos armados de motosserras.
2 Furos e igarapés são braços naturais dos rios que cruzam as florestas, os primeiros, ao contrário dos segundos, com entrada e saída, unindo braços maiores.
Mas depois lembrei-me dos enormes retângulos fumegantes desbravados em plena floresta, para darem lugar não a casas, mas a mais um qualquer cultivo promovido pelos barões do agronegócio sob uma legalidade provavelmente comprada ou em associação a teias de atividades ilícitas, e refreei a minha liminar condenação. Num país com maus exemplos que brotam de cima, dos lados e de baixo, é difícil sobreviver e manter a sanidade ética, e falo da generalidade da população, que se esforça por ir «tocando em frente» (3).
É isso que me dá a entender Carla, uma cabocla de 55 anos, que curiosamente não sabe de que povo indígena é descendente. Além dos biscates turísticos, pinta t-shirts para venda e mantém o sonho de um dia poder emigrar. «Haverá oportunidades em Portugal para quem fala alemão?», pergunta-me. Já Ilenque, uma motorista mais jovem, também cabocla, pareceu-me mais conformada com a sua vida em Manaus. É natural de Santarém, uma importante cidade à beira do Amazonas, a jusante, já no estado do Pará, e visita regularmente a sua família. Relata sem entusiasmo o transporte de passageiros por via fluvial, com noites mal dormidas em redes penduradas no convés e a necessidade permanente de vigiar os seus pertences. «Sempre que posso vou de avião», exclama, afirmação que mereceu a minha total compreensão. Todas as pessoas a quem perguntei sobre o turismo em Manaus me referiram que vai bem e que a cidade é demandada por muita gente, de dentro e de fora. Vi vários grupos de turistas, identifiquei norte-americanos, franceses e alemães, mas Manaus não é exceção no Brasil: um grande potencial, mas um seriíssimo problema de imagem, infraestruturas e organização, que fazem do país, à escala global, um anão turístico. Por outras palavras, há mais turistas no Chiado lisboeta ou na Ribeira portuense do que na imensa Amazónia, o que, devo egoisticamente dizer, esteve longe de me perturbar.
3 Gosto muito da expressão «tocando em frente», uma digna herdeira da alma lusa, com o seu quê de resignação e persistência. Gosto também da música do mesmo nome, com letra de Almir Sater, tão bem cantada, entre outros, por Maria Bethânia e Paula Fernandes.
Manaus revelou-se mais um meio do que um fim, valendo sobretudo como base indispensável para explorar a selva em redor, essa sim única, deslumbrante, infinita, cheia de mistérios e perigos que convivem com maravilhas e curiosidades. Existem muitas possibilidades de explorar essa natureza, com diferentes níveis de aventura, exigindo distintas disponibilidades de tempo e de condições físicas. As minhas e as da minha companheira não eram abundantes, pelo que optei por uma abordagem conservadora, espreitando a selva em incursões curtas a partir da cidade e procurando fugir do que me pareceram ser clichés turísticos para os quais tenho pouca paciência, de visitas a aldeias indígenas de genuinidade duvidosa a sessões de alimentação de golfinhos cor-de-rosa, que me pareceram de mau gosto. Além de uma simpática caminhada na reserva florestal Adolpho Ducke, fui ao inevitável «encontro das águas», a zona em que as águas escuras e frias do rio Negro se
A floresta alagada no Parque Ecológico Januari, Amazonas, Brasil

encontram, sem se misturarem, com as águas quentes e barrentas do Amazonas, ali chamado Solimões.
A incursão mais interessante foi a terceira, um passeio em lancha pelo Parque Ecológico Januari, em que assim que se sai da paisagem humanizada do rio Negro, se mergulha num pedaço de verdadeira selva. A estação das chuvas terminara pouco antes, pelo que as águas se encontravam num nível alto e a floresta estava totalmente alagada, para mim uma estreia em semelhantes circunstâncias. Adorei a sensação de sulcar o espelho líquido entre as copas das árvores, compreendendo melhor o emaranhado de azuis e verdes que, do avião, avistara em grandes extensões. O arvoredo é diverso, com troncos, folhagens, ramos, tons e texturas que, com a luz de um Sol entretanto aberto, compunham quadros de uma surpreendente beleza e inexplicável complexidade. Aos poucos, a natureza foi-se revelando: garças, águias, pica-paus, iguanas e macacos foram-se mostrando, e muito mais haveria para ver se a hora de regressar à incivilizada civilização não se tivesse imposto. Estas singelas incursões cumpriram o meu objetivo de espreitar a selva e a sua notável biodiversidade, e uso o verbo «espreitar» com plena consciência de que foi isso que fiz. Deram-me também uma melhor noção do que não fiz, do que poderia ter desfrutado e aprendido se me tivesse sido possível ir mais longe. Digo isto sem tristeza, apenas com realismo: o tempo é o mais limitado de todos os recursos e as opções em viagem fazem parte da gestão que dele fazemos. Eu fiz as minhas escolhas e aceito as suas consequências, focando-me no positivo. Por outras palavras, vou «tocando em frente».
A minha segunda paragem no por vezes chamado «pulmão do mundo» (4) foi Belém, a capital do estado do Pará. Para lá chegar, voei mil e trezentos quilómetros para leste, sobre águas e árvores, boa parte ao longo do grande Amazonas, cruzando os seus afluentes e todo o caótico reticulado aquoso que se mistura com a mata.
4 Expressão que não corresponde à verdade, sem diminuir a relevância da floresta amazónica e a importância da sua preservação. A existirem «pulmões do mundo», dizem os entendidos, os eleitos devem ser os oceanos.
Algumas cidades improváveis surgiram aquém e além, encurraladas entre os rios e o compacto arvoredo. Desta vez não vi sinais de desmatação, apenas reduzidas zonas cultivadas nos limites urbanos. Tal como em Manaus, basta estar umas centenas de metros afastado da influência humana para se estar em plena selva. Os rios, como sempre, são a estrada, o caminho por onde tudo entra e tudo sai.
Também é assim em Belém, urbe de 1,3 milhões de habitantes, quase tão fechada na selva como Manaus, as suas vantagens sendo a sua saída direta para o Atlântico pela baía de Marajó e a sua menor distância para outras capitais estaduais. Não tenhamos dúvidas: Belém é tão amazónica como Manaus, não me surpreendendo o facto de que, quando escrevo este texto, tenha sido ela a cidade escolhida para acolher a Cimeira da Amazónia, da qual se esperam importantes decisões sobre o futuro da região.
Como cidade, Belém é mais interessante do que Manaus. Reúne as caraterísticas normais das cidades brasileiras, com misturas de favelas, prédios incaraterísticos e centros históricos insuficientemente valorizados, mas possui um património maior e mais rico. Estende-se numa península rodeada pelos rios Guajará e Guamá, que se abrem a jusante na baía de Marajó, esta já mais mar do que rio. Tem mais ligações rodoviárias do que a capital do estado do Amazonas, estando, nesse sentido, menos isolada, mas em todo o caso é necessário percorrer muitas centenas de quilómetros de rodovias de qualidade incerta para se chegar a algum lugar digno de relevo. Neste sentido, Belém é também um fim-de-mundo, atenuado pela existência de um bom aeroporto.
Belém partilha com Manaus muitas dimensões da «gastronomia amazónica», que se distingue de outras regiões brasileiras pelos seus ingredientes regionais e pela forte influência indígena. Os peixes do rio mantêm a sua presença, como o pirarucu (um dos maiores peixes fluviais do mundo, de grandes escamas avermelhadas com laivos prateados e dourados), o filhote (nome simpático para um enorme peixe-gato cinzento de feições harmoniosas), o tambaqui (um peixão achatado e espinhoso), a pescada (muito distinta da do


Atlântico Norte) e outros espécimes estranhíssimos. Dos experimentados, o filhote e o pirarucu ficaram aprovados, e o tambaqui ficou reservado para uma segunda prova (que não chegou a ocorrer). Dos frutos, devo dizer ter comido mais açaí em uma semana do que na vida toda, e que mantive a opinião obtida das provas lusitanas da tão afamada baga de palmeira arroxeada: come-se, mas está longe de impressionar. Se a cor importa, então prefiro mirtilos, amoras ou framboesas. Experimentei também o cupuaçu, um fruto da família do cacau, usado em tudo, de sucedâneo do chocolate a ingrediente de sobremesas, coquetéis e acompanhamentos de pratos principais. Achei-o enjoativo e fiquei a rejeitá-lo depois de uma caipirinha do dito. No plano nas verduras fiquei cliente do jambu, que me pareceu um bom substituto de espinafres ou grelos. De resto, a culinária amazónica baseia-se em produtos da mandioca (farinhas, tapiocas, beijus e outros) que como sem sacrifício, mas troco por arroz ou batatas.
Em Belém, conheci o fervoroso culto de Nossa Senhora da Nazaré, com origem em histórias de imagens esculpidas em madeira, que se repetem, com variantes, em diversos locais do globo. Aqui a coisa tornou-se séria, de tal forma que o Círio da Nazaré, realizado todos os anos no segundo domingo de outubro, é apresentado como a «maior manifestação católica do mundo», reunindo dois milhões de dedicados fiéis, que enchem as ruas da cidade num evento cujas imagens impressionam. Vi-as no pequeno museu intitulado «Memória de Nazaré», um espaço muito bem-apresentado situado ao lado da magnífica Basílica de Nossa Senhora da Nazaré, o mais prestigiado templo católico da cidade, sem desprimor para a Catedral Metropolitana, também ela bonita, por dentro e por fora.
Outro ponto marcante da visita a Belém é o Mercado Ver-oPeso, com diferentes zonas interessantes, como o peixe, a carne (exposta num belíssimo mercado de ferro de 1867), o artesanato e a perfumaria tradicional (com uma ampla variedade de poções com designações hilariantes, como «amansa corno», «afasta ex», Preview

«chama homem» ou «quebra inveja»). Neste espaço cosmopolita pode-se ver como se processa o açaí e a mandioca, e provar inúmeras iguarias locais, do omnipresente «peixe frito com açaí» a sobremesas diversas, cheias de cupuaçu e afins. Indispensáveis, também, as castanhas-do-pará (nunca lhes chamar «castanhas-do-brasil» por aqui), ficando-se a perceber de onde vêm os frutinhos secos presentes nos nossos supermercados. Mal reputado como «zona perigosa», devo dizer que andei nele com relativo à-vontade. A manhã parece ser mais movimentada e segura, sendo de tarde que surge uma «fauna» mais sinistra, composta por drogados e gentes pouco recomendáveis. Testemunhei essa presença desagradável ao sair do Museu do Círio, nas proximidades do porto antigo, onde todas as madrugadas se realiza a «feira do açaí», e refugiei-me no Uber que chamara. A zona, de facto, é heterogénea e requer cuidados, mais fáceis para quem conhece o ambiente, o que não é o caso de forasteiros como eu, com ar pronto a ser assaltado. Em todo o caso,
No Porto Antigo de Belém do Pará, ao lado do Mercado Ver-o-Peso, Brasil
Na zona dos perfumes tradicionais do Mercado Ver-o-Peso, Belém, Brasil
controlando riscos e exposições de abastança desnecessárias, escapei incólume das perturbantes criminalidades tropicais.
Em Belém, visitei ainda outros pontos relevantes, como o Teatro da Paz (belo edifício de 1878, mais antigo e mais bem conservado do que o de Manaus), o Museu Emílio Goeldi (com bons exemplos de arte local, no meio de um acervo mais próximo de um jardim zoológico ou botânico), o Mangal das Garças (um jardim polivalente, muito agradável, onde pude aproximar-me de uns magníficos íbis escarlates), o Forte do Presépio (uma edificação portuguesa de 1616), a Casa das Onze Janelas e o Espaço São José Liberto (uma antiga prisão, hoje albergando o Museu das Gemas). Para almoçar, ver o pôr do Sol, jantar, ou simplesmente provar um gelado de carimbó, como foi o meu caso, gostei bastante da Estação das Docas, um conjunto de armazéns (galpões) restaurados, dando ao litoral a norte do Ver-o-Peso um visual moderno e civilizado, agora popular na juventude belenense.

Em Belém, ao contrário de Manaus, não reservei tempo para «espreitar a selva», nem para, tão-pouco, visitar a ilha de Marajó, a duas horas de distância por barco e implicando uma cansativa excursão de dia inteiro. Uma ilha muito plana, dedicada à agropecuária, que me pareceu dispensável, no contexto das sempre inevitáveis escolhas. Quanto à floresta amazónica em redor da cidade, teria de bom gosto visitado a ilha de Combú, se tivesse mais um dia, ou ido até um dos parques florestais próximos do limite urbano, como o do Utinga. Importava seguir para a terceira e última paragem do meu circuito amazónico, neste caso no seu limite leste, o Maranhão. Este estado já se integra formalmente na região do Nordeste, mas em boa verdade representa a transição entre a Amazónia e a aridez nordestina, tendo um território ainda muito verde, em boa parte sujeito às humidades equatoriais. Os meus objetivos eram dois: conhecer a cidade histórica de São Luís e o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.
Na requalificada Estação das Docas, Belém, Brasil


Não é Lisboa, é a Rua Humberto de Campos em São
Luís do Maranhão, Brasil
São Luís tem a curiosidade de ser a única capital estadual fundada por franceses, em 1612. Essa presença, porém, foi de curta duração. Após um período instável, que incluiu uma curta ocupação holandesa, os portugueses estabeleceram-se definitivamente a partir de 1644. A cidade desenvolveu-se como importante entreposto comercial, decorrendo dessa prosperidade dos séculos xvii e xviii a edificação da urbe cuja arquitetura hoje se pode apreciar, classificada pela Unesco em 1997.
O centro histórico é bastante compacto, com uma rede de ruas empedradas estreitas ladeadas por casas cujo visual, sem surpresa, mas com agrado, reconhecemos como lusitano. Alguns edifícios notáveis (Palácio dos Leões, Palácio La Ravardière, Teatro Artur Azevedo), numerosas igrejas (Matriz da Sé, Nossa Senhora dos Remédios, São José do Desterro) e alguns museus e exposições (Casa do Maranhão, Casa Nhozinho) compõem uma visita muito agradável. Mas mais do que estes espaços com
relevância cultural, o que mais apreciei foi o simples passeio pelas ruas (a rua de Portugal e a rua do Giz ficaram na memória), mirando as lojinhas de comércio tradicional (com destaque para a Casa das Tulhas), as fachadas coloridas, algumas com azulejos, as varandas de ferro forjado, as escadarias iguais às de Lisboa, a animação de barzinhos, o movimento que parece fazer a cidade sair da sua letargia e da sua degradação.
A este propósito, vi várias obras em curso, com satisfação, mas não vale a pena iludir a verdade: há muito a fazer em São Luís para a recuperar e valorizar. Numerosas casas estão fechadas e decadentes, há passeios e ruas esburacados, apenas uma pequena parte do centro histórico está reanimada. Só recentemente os brasileiros gsificações pela Unesco têm sido um instrumento útil), numa população que, maioritariamente, valoriza o moderno, despreza tudo o que é antigo e não está reconciliada com a sua própria história. Pelo que li e ouvi, o centro histórico de São Luís terá «batido no fundo» no virar do século e parece estar, aos poucos, a recuperar a consideração que merece. Entretanto, a maioria da população vive fora do centro, sendo a faixa mais apreciada a do litoral poucos quilómetros a norte, zona de longas praias arejadas, onde nascem os «cogumelos» típicos das cidades brasileiras, as esguias torres de apartamentos desprovidas de particular estética.
Quatro horas para leste, por estrada só há poucos anos alcatroada na sua totalidade, cheguei a Barreirinhas, o principal ponto de acesso ao Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, uma maravilha natural fantástica, que conhecia por imagens, uma extensa zona dunar, formada pela constância dos ventos alísios. Todo o nordeste tem muitas dunas, mas estas destacam-se pela sua dimensão (1565 km2, cerca de duas vezes a ilha da Madeira), pela sua cor (uma areia quase branca) e pela sua estrutura, em que os baixos entre as dunas retêm a água das chuvas durante alguns meses. Os «lençóis» são isso mesmo: uma sucessão a perder de vista de dunas brancas intercaladas com lagoas azuladas, numa paisagem de outro mundo. Algumas lagoas duram poucos dias, a maioria uns meses, Preview


outras subsistem todo o ano. Algumas desenvolvem algas e limos, com os azuis dando lugar aos verdes e aos castanhos, outras mantêm-se com água límpida, num cenário paradisíaco.
As dunas estão protegidas por lei, sendo o acesso permitido apenas a algumas zonas e o estacionamento dos veículos 4X4 que ali chegam estritamente limitado. Após quase uma hora de tombos, porque a parte final do troço de acesso já é feita sobre lençóis cobertos de vegetação, implicando subidas e descidas e o atravessamento de numerosas lagoas, chega-se ao ondulado branco, insólito, luminoso, e a várias lagoas lindíssimas, em algumas das quais se permite uma banhoca refrescante. Um prazer.
Esta visão por terra, em todo o caso, pode e deve ser complementada pela visão por ar, existindo a possibilidade de sobrevoos de meia hora sobre os lençóis em avionetas de brinquedo, com espaço para 4 ou 5 passageiros. Uma verdadeira delícia, apreciar aquela enorme extensão de ondas brancas misturada com lagoas esguias de várias cores, das azuis de águas límpidas às castanhas cheias de algas, estas muitas vezes formando manchas e linhas que constituem fenomenais obras de arte naturais. No limite norte dos lençóis, o litoral bravio do Atlântico, permanente batido pelos ventos de leste e nordeste; no limite sul, o manto verde de árvores e arbustos, a tal transição da Amazónia para as zonas mais secas do Piauí e do Ceará.
Em Barreirinhas, cidadezinha que tem crescido graças à abertura do Parque Nacional ao turismo, tive ainda a possibilidade de fazer um passeio de lancha no rio Preguiças, que chega ao Atlântico no limite oriental dos lençóis, dividindo os «grandes lençóis» dos «pequenos lençóis», estes com areia de um tom menos claro. Primeiro floresta, depois mangues e por fim praias fluviais e extensos areais complementaram a visita a esta zona ainda remota, num país em que as distâncias se medem a uma escala que nos desafia.
As infraestruturas de Barreirinhas, o mais desenvolvido dos acessos ao Parque Nacional, evidenciam ainda muitas mazelas. São exemplos as incompreensíveis crateras rodoviárias, o desmazelo da malha urbana, a inexistência de uma ponte sobre o rio Preguiças,
que obriga ao transporte dos veículos 4X4 em balsas morosas, numa enorme e poluente improdutividade, e o próprio acesso às dunas, que poderia ser drasticamente melhorado com obras pouco dispendiosas. Em conversa com vários motoristas e guias, percebi que são muitos os interesses que se cruzam e que as coisas só avançam quando «os planetas se alinham», o que deve implicar fluxos financeiros de ética duvidosa. «Começaram a construir a ponte, mas depois a obra foi embargada», disse-me Jhon (o nome é assim mesmo), que me transportou de São Luís a Barreirinhas, de onde é natural. «Já temos aeroporto, mas ainda só recebe voos privados, os turistas têm de vir por estrada», refere-me Talmo, de 30 anos, que tinha vivido em Florianópolis, no sul, e que percebi estar a concluir ser Barreirinhas demasiado limitada para as suas ambições de vida. Manuel, taxista, encolheu os ombros e sorriu, quando lhe comentei os buracos das ruas, como quem diz que as coisas são assim mesmo, numa resignação porventura ajudada pela sua fé, uma vez que todos os percursos foram feitos ao som de músicas religiosas. Já Adinael, taxista em São Luís, exibiu uma atitude proativa, tentando vender-me passeios e visitas a «bons preços». Todos estes são mais exemplos de brasileiros que vão «tocando em frente» as suas vidas, uns mais conformados e adaptados às suas circunstâncias, outros mais atentos a oportunidades de progredir no seu nível económico, procurando aprender com os forasteiros e ouvir as suas perspetivas.
Visitas e contactos contribuíram para consolidar as minhas impressões do Brasil, um país gigantesco, mas com um povo bastante homogéneo nas suas formas de ver e viver a vida. Agrada-me muito o sentir-me em casa, não só pela língua, mas por todos os pequenos aspetos, alguns subtis, pelos quais sabemos estar entre familiares, talvez mais primos do que irmãos, como é comum dizer-se. Desagradam-me as obscenas desigualdades e as suas consequências, e entristece-me o tipo de ignorância causada pelo facto de que num espaço continental (tal como nos Estados Unidos) o exterior é longínquo e os horizontes são limitados.
Seja como for, esta minha incursão no norte do Brasil foi agradável e bem-sucedida. Aprendi muito e confirmei o habitual paradoxo das viagens, em que se gasta dinheiro e se fica mais rico. Voltar a casa dos primos? Talvez, quem sabe, para os estados do sul.
Até lá, irei «tocando em frente»:
Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada, eu vou
Estrada eu sou.

Coreia do Sul, 2019
Muitos portugueses usam produtos sul-coreanos todos os dias, em particular telemóveis e televisões, mas a maioria pouco sabe desse pequeno país situado entre a China e o Japão, que surge nas notícias sobretudo a propósito das diabruras do seu irmão do norte. Um low profile estranho, tratando-se da 11.ª economia mundial, à frente das da Rússia e da Espanha. Completamente destroçada a seguir à guerra fratricida dos anos 50, a Coreia do Sul foi capaz, desde então, de um dos mais expressivos «milagres económicos» do planeta, a ponto de estar hoje a par da média da União Europeia em riqueza por habitante. Foi um progresso rápido e recente, talvez por isso ainda insuficientemente estudado.
A metade sul da península coreana é hoje um colosso económico, erguido pelo labor de 52 milhões de pessoas, apertadas num território de apenas 100 000 km2, pouco mais do que o nosso cantinho atlântico. Este êxito resulta em boa parte de uma aposta nas indústrias exportadoras e na inovação, geradoras de grandes conglomerados que dão hoje cartas na cena mundial. O país tem 16 empresas entre as 500 maiores do mundo (5) e a maior delas, a Samsung, a 12.ª na lista, tem um volume de negócios equivalente ao PIB português.
Conheci algumas pessoas que se tiveram de estabelecer na Coreia do Sul por motivos profissionais, em diferentes momentos e setores. Delas ouvi comentários pouco entusiastas, dos quais
5 Segundo a lista Fortune Global 500 2018.

retenho as expressões «gente esquisita» e «adaptação difícil». Assim sendo, parti para Seul sem grandes expectativas, consciente da minha ignorância e disponível para as descobertas que o ecrã sul-coreano da minha sala de estar fora incapaz de desvendar.
A primeira impressão, ao aterrar no aeroporto de Incheon, foi a da esperada modernidade: construído num amplo aterro que uniu duas ilhas e ligado ao continente por duas infindáveis pontes, é uma infraestrutura bem classificada nas avaliações internacionais pela sua eficácia, pontualidade e limpeza. Quarenta quilómetros de autoestradas depois, entra-se na mancha urbana da capital, demasiado extensa e complexa para que se consiga entender sem algum tempo e esforço.
Com dez milhões de habitantes e em contínua expansão, Seul é uma cidade multipolar, espalhada nas duas margens do rio Han. A melhor candidata à designação de «centro» é a zona em torno do Cheonggyecheon, um canal recentemente limpo e requalificado, na
Festejos no palácio real de Gyeongbokgung, Seul, Coreia do Sul
margem norte, quanto mais não seja por ser aí que se localiza a sede do governo da cidade. É grande a concentração de zonas comerciais e financeiras, e são muitos os edifícios modernos que abrigam escritórios de grandes empresas. As ruas são limpas, largas e com numerosas obras de arte moderna. Na zona ficam também três dos cinco palácios reais existentes na cidade, dos quais visitei o maior, o Gyeongbokgung, com uma planta semelhante à da Cidade Proibida, em Pequim, e o Changdeokgung, que tem a vantagem de ser vizinho dos jardins Huwon, capazes de proporcionar momentos de prazenteira tranquilidade em pleno bulício urbano. Entre ambos fica Bukchon, um dos poucos bairros antigos da cidade, no qual se podem observar as casas tradicionais de madeira e pedra, a maioria de recuperação recente. O conceito de «antigo» e «tradicional», porém, tem de ser relativizado, num país primeiro destruído pelas guerras e depois varrido pelo desvario modernizador. Esta zona central tem vários bairros comerciais, cada um com caraterísticas próprias, do mais seleto Insadong ao mais popular Namdaemun, passando pelo congestionado e luminoso Myeongdong. Entre estes complexos de ruazinhas estreitas encontram-se por vezes vestígios históricos, como edifícios apalaçados do início do século xx, sobreviventes das guerras, e ainda pequenos templos budistas e algumas igrejas.
O rio Han, atravessado por mais de 20 pontes no perímetro urbano, tem vindo a ser requalificado como zona de lazer, com restaurantes flutuantes, jardins e espaços de desporto e de recreação. Na sua margem sul espalham-se bairros modernos planeados e edificados a partir dos anos 70, ou seja, «quando deixámos de ser pobres», usando as palavras dos sul-coreanos. Zonas financeiras, lojas de prestígio, condomínios bem-apresentados, parques de diversões, o Parque Olímpico (6) e, desde 2017, a Lotte World Tower, com 123 andares e 555 metros de altura, definem a nova cidade que se expande e que exibe a prosperidade alcançada. É aqui que
6 Seul organizou os Jogos Olímpicos de 1988.

se situa Gangnam, a zona cujo estilo de vida exuberante e novo-rico foi celebrizada pelo músico Psy, no seu êxito Gangnam Style, de 2012.
A cidade é suficientemente extensa para integrar algumas zonas verdes, uma delas, Namsan, cobrindo uma colina do alto da qual se obtêm interessantes vistas de 360 graus sobre toda a urbe. Melhores perspetivas se terão do alto da torre de comunicações de 236 metros de altura aí situada, privilégio que dispensei, dado que os panoramas estavam acinzentados por uma morrinha tão teimosa quanto inconveniente.
Não estive tempo suficiente em Seul para descobrir todas as suas dimensões e atrativos, mas creio ter ficado quanto basta para concluir que, como outras megalópoles comparáveis, tem diversidade e espaço adequados para acomodar distintos estilos de vida,
jardins
dos mais frenéticos aos mais contemplativos. Não obstante, penso serem os primeiros os maioritários, dados os permanentes fluxos de gente, de veículos e de mercadorias, traduzidos em poluição e decibéis em doses abundantes. O frenesim do trabalho e uma atitude muito competitiva, porventura a outra face do brilhantismo económico, têm consequências diversas na expressão social dos sul-coreanos, amiúde excessiva, pelo menos aos meus olhos lusitanos. Os exemplos de «descarga emocional» são vários, da paixão por karaokes frequentemente desafinados, à popularidade da energética e excêntrica k-pop (7), cujos batuques e sonoridades previsíveis me acompanharam em numerosas paragens do meu percurso.
Outro exemplo mais desconcertante dos elevados níveis de stress é a banalização da cirurgia plástica, um negócio fluorescente, com milhares de clínicas em exercício (só em Gangnam perto de 500) e atraindo um fluxo específico de turistas, que aqui acorre para empinar narizes, desempapar olhos e aperfeiçoar queixos. Li diferentes números quanto à percentagem de habitantes cujas faces já foram transformadas por bisturis habilidosos, e qualquer um deles me causou arrepios. Num plano mais inofensivo, mas que não deixa de ilustrar os exageros sociais, recordo as quantidades absurdas de «cadeados do amor» que vi na cidade, só em torno da torre no Parque Namsan por certo mais do que em toda a cidade de Paris. E não são cadeados metálicos comuns, são objetos espampanantes, muitos em forma de coração, com predominância para o vermelho e o cor-de-rosa. Como aprecio as diferenças e me esforço por me manter de mente aberta, tentei ver tudo isto com a perspetiva positiva de uma loucura exótica. Em todo o caso, fiquei apreensivo quando li que o país tem a quarta maior taxa de suicídios do mundo.
7 A korean-pop ou k-pop é um pop dançável, com refrões simples incluindo frases em inglês, associado a coreografias apelativas, executado por cantores e grupos com penteados e roupas criativas. Esta simbiose de música, dança e moda gerou um produto audiovisual de sucesso, hoje exportado para todo o mundo, em especial para a Ásia.

Seul concentra um quinto da população nacional e, em conformidade, possui uma intensa vida cultural e abriga uma boa rede de museus, de que conheci uma ínfima parte e da qual recolhi uma excelente impressão. Um dos temas que me pareceu relevante nestes espaços expositivos é a guerra, cujas feridas estão ainda abertas, quanto mais não seja pela ameaça permanente que representa o regime maníaco da Coreia do Norte, o fruto mais visível dos conflitos do século passado. Ninguém na cidade ignora o facto de estar a 40 quilómetros da que é talvez a fronteira mais respeitada do mundo, atrás da qual supostamente se acumulam armas e pesadelos. Será que esta difusa pressão psicológica contribui para os devaneios comportamentais de muitos sul-coreanos? Admito que sim, o que é mais um motivo para se ser cauteloso nos julgamentos.
Outra dimensão que reconheci em vários museus e locais, corolário da devastação vivida, é a valorização do antigo, do tradicional, do que as contingências da história abalaram de uma forma
As tumbas reais em Gyeongju, Coreia do Sul

No mercado
Jagalchi, em Busan, Coreia do Sul Preview
porventura mais violenta do que noutras latitudes. Quando se diz que a Coreia ficou destruída depois das duas guerras quase consecutivas (8), isso deve ser entendido à letra: destruída. Só nas últimas décadas, à medida que «deixou de ser pobre», o país se foi apercebendo de como era importante, a par da tecnologia e do betão, reconstruir o património perdido, recuperar a memória que dá forma à identidade de um povo. Em consequência, encontrei mais
8 Na sequência das guerras sino-japonesa (1894) e russo-japonesa (1904), a dinastia Joseon foi afastada do poder e a Coreia foi colonizada pelo Japão de 1910 até 1945. O país foi então repartido entre as potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos e Rússia, tendo surgido dois estados independentes, a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. A Guerra da Coreia iniciou-se após a invasão do sul pelas tropas norte-coreanas, em 1950. Os Estados Unidos lideraram as forças multinacionais de defesa da Coreia do Sul, com mandato das Nações Unidas. O armistício que suspendeu as hostilidades e definiu a atual Zona Desmilitarizada entre os dois países foi assinado em julho de 1953.
património histórico do que esperava, ainda que em regra reabilitado por investimentos recentes.
Em primeiro lugar, subsistem vestígios da longa história sul-coreana, cujos primórdios remontam aos reinos fundados há mais de dois mil anos, com destaque para o de Silla, com capital em Gyeongju. Nesta pequena cidade do sueste do território concentram-se numerosos monumentos, a maioria classificados pela Unesco. No centro urbano, ocupando o que é hoje um aprazível espaço ajardinado, estão 23 tumbas de reis e nobres dos primeiros séculos da era cristã, sendo visíveis as colinas hemisféricas artificiais, sob as quais foram depositados os restos mortais e os objetos pessoais dos defuntos. Têm-se feito achados arqueológicos impressionantes, incluindo grandes artefactos em ouro, de enormes coroas a joias e adornos diversos, hoje expostos no Museu Nacional de Gyeongju.
O património sul-coreano inclui numerosos templos budistas, a maioria sem especial relevância. Alguns, todavia, destacam-se pela sua dimensão e interesse histórico, como o templo Bulguk, perto de Gyeongju. Fundado em 535 quando o budismo se estabeleceu na península, é um grande complexo disposto numa zona ajardinada lindíssima, com vários edifícios, pátios e pagodes. A poucos quilómetros de distância fica a gruta Seokguram, que abriga uma grande estátua de Buda em granito, tida como a obra-prima da arte religiosa nacional.
Visitei mais templos budistas, em Seul, em Busan (a segunda cidade e o principal porto) e no Parque Nacional Seoraksan, mas o que mais me marcou foi o templo Haein, 60 quilómetros a oeste de Daegu, numa zona montanhosa florestada muito bonita. Este templo abriga um tesouro incrível, que felizmente sobreviveu aos intermináveis conflitos que assolaram a península: o Tripitaka Koreana, uma coleção de 81256 blocos de madeira, com três quilos e meio cada, com os ensinamentos de Buda gravados em carateres chineses, 50 milhões de carateres considerados de um rigor irrepreensível. Os milhares de blocos estão guardados em edifícios
com ventilação natural e são visíveis de forma limitada do seu exterior. As peças originais do século xi foram destruídas pelos invasores mongóis e foram depois refeitas de 1237 a 1251, estando guardadas em Haein desde 1488. Que maravilha, ter-se preservado esta herança!
De um ponto de vista arquitetural, os templos sul-coreanos (e também os seus palácios) têm fortes pontos de contacto com os chineses, na disposição dos edifícios e dos pátios, no seu desenho por vezes labiríntico, nos elementos associados ao culto, nas formas decorativas dos telhados. As pinturas exteriores, contudo, são mais policromáticas, com uma predominância do verde em vez do vermelho. Esse facto, associado à profusa decoração dos pátios com lanternas de papel coloridas, faz dos templos coreanos espaços de luz e de cor, nos quais foi um prazer passear.
Na zona centro-leste existem várias escolas confucionistas da dinastia Joseon, que reinou de 1392 a 1910. Esta dinastia sucedeu à Silla e à Goreyo (de cujo nome vem a palavra Coreia) e mudou a capital de Kamsong, na atual Coreia do Norte, para Seul. Os reis Joseon procuraram divulgar a filosofia confucionista, reduzindo a influência do budismo, e fizeram construir várias escolas para o efeito, das quais apenas algumas sobrevivem. Visitei a de Byeongsan Seowon, fundada em 1572, perto da cidade de Andong, hoje um espaço museológico que mantém a serenidade e a beleza que por certo foram critérios de escolha do local. Era época das azáleas e das glicínias, pelo que templos e monumentos exultavam, rodeados de tonalidades e aromas primaveris.
Perto desta escola, também do período Joseon, encontrei Hahoe, uma aldeia recuperada com esmero, que ilustra a arquitetura coreana ancestral. Meia centena de casas com telhados de palha e outras tantas com telhas negras tradicionais abrigam 250 habitantes, fazendo do espaço um museu vivo, por enquanto não infestado por lojas de bugigangas. Numa pequena praça central situa-se uma grande árvore, uma zelkova serrata com 600 anos, o que a torna equeva da fundação do povoado.
De uma época mais tardia, visitei a imponente fortaleza de Hwaseong, em Suwon, não longe de Seul. Erguida com propósitos militares e terminada em 1796, é uma edificação imponente, com 5700 metros de comprimento. Embora tenha sido muito afetada pelas guerras mais recentes, foi objeto de intensa reconstrução, pelo que foi um gosto deambular pelas suas muralhas, apreciando a arrumação dos jardins, o vermelho, o rosa e o branco das azáleas, e o casario disperso de Suwon, com várias igrejas pontiagudas de pedra escura.
São muitas as igrejas que se veem na Coreia do Sul, a maioria dos séculos xix e xx, e a explicação para a sua existência foi uma novidade para mim: 28% dos sul-coreanos dizem-se cristãos, a maioria protestantes (com diversas comunidades autónomas presbiterianas) e com uma presença católica em crescimento. O que é curioso é que este cristianismo desenvolveu-se sozinho, a partir do estímulo singelo de missionários europeus no século xviii

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