GANÂNCIA
FICHA TÉCNICA Edição: José Solá Título: Ganância Autor: José Solá Design da Capa: João Pedro Pina (www.tec4web.net) Revisão, Capa, Paginação: Paulo Silva Resende 1.ª EDIÇÃO LISBOA, 2011 Impressão e Acabamento: Publidisa ISBN: 978-989-8413-35-2 Depósito Legal: 328421/11 © JOSÉ SOLÁ Publicação e Comercialização Sítio do Livro, Lda. Lg. Machado de Assis, lote 2, porta C – 1700-116 Lisboa www.sitiodolivro.pt
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POR
CIMA DO ENORME PORTÃO CONSTITUÍDO POR UMA
trabalhada e intrincada rede de perfis e de chapas metálicas, imitando um rendilhado arabesco, num plano de chapa lisa colocada entre pilastras de mármore, escrito em letras douradas, lia-se primeiro, ainda a uma razoável distância: ESCOLA PARA APERFEIÇOAR RICOS, e por baixo, já em letras de tamanho menor, só visíveis a curta distância do portão, “leccionam-se todos os níveis de ensino”, e ainda uma linha mais a baixo, escrito com letras menos importantes, pintadas sobre fundo branco em tinta metálica preta, de tom brilhante, “desde o primário ao universitário, com mestrados e doutoramentos das diversas disciplinas de conhecimento ministradas nesta escola”. Por último, em modestas letras de cor avermelhada, esbatida em tons laranja, dizia: “Direcção Técnica e Pedagógica a cargo de dona Ganância Maltesa”, e numa última linha, em letras vulgares, seguia-se uma extensa lista com os nomes dos professores e das respectivas disciplinas curriculares – Doutor Mesquinho, Doutor Doente Forreta, etc. –, acrescidas então, depois de cada nome, da respectiva disciplina leccionada.
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Ultrapassado o portão, a limusina parou junto a um pequeno edifício baixo, pintado a cor-de-rosa, onde se lia escrito em letras garrafais, pretas, “Recepção”, e na frente do segurança que efectuava o primeiro controlo de chegada, um homem robusto, de meia-idade, (percebia-se que tinha forte compleição física), vestido com um fato cinzento cintado e apertado na cintura, e com um “bivaque” do mesmo material e cor colocado na presilha da camisa, do ombro esquerdo. O vidro cinzento-escuro, (quase preto), do lado do condutor, baixou com um imperceptível ZZZZZZ característico dos vidros eléctricos, e um homem com enormes óculos escuros que, para além de lhe cobrirem os olhos, também escondiam parte significativa do rosto, envergando fato preto cheio de dourados, gravata preta, e boné de pala cheio de cordões amarelos brilhantes, que lhe emprestavam um certo ar de almirante da marinha de guerra americana, mostrou um sorriso deslavado, salvo por fiadas de dentes de uma brancura imaculada, e informou num inglês com sotaque latino de origem italiana: – Transporto a menina Lucrécia, filha do Rei americano da Associação das Casas de Penhores de Apoio Financeiro aos Países Pobres do Terceiro Mundo, e que vem para o internato do primeiro ano lectivo. O segurança do fato cinzento, afastando para um lado o focinho do enorme cão que se empinara no diminuto balcão, respondeu em tom respeitoso e profissional: – Por gentileza, importa-se de abrir o vidro de trás para eu poder confirmar? Mais um ZZZZZZ imperceptível e o vidro da parte traseira da limusina baixou, mostrando uma miúda loura e magricela,
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vestida com uma camisola de malha fina, com listas horizontais, cada uma de cor diferente, emprestando à vista como que a imagem agradável de um caleidoscópio, os cabelos pouco longos arrepanhados para os lados do rosto oval e sardento, de ar brigão, em duas tranças bem apertadas e rematadas por laços cor-de-rosa, ambas espetadas, tipo totós. – Já pode fechar, obrigado! Um novo ZZZZZZ e o vidro da janela de trás da limusina subiu. Depois de consultar o monitor do computador, ao mesmo tempo que dedilhava no teclado, o segurança encontrou a respectiva ficha, com a fotografia da criança, bastou-lhe um simples e rápido olhar, e ele voltou a falar: – Siga em frente por esta estrada. Ao fundo desta recta vai encontrar um edifício de aspecto fabril, vire à sua direita, por uma estrada ladeada por árvores em ambos os lados, e siga até encontrar uma cerca metálica alta que delimita o complexo escolar. Tem aqui um mapa para o ajudar, se tiver dificuldades (e estendeu ao motorista uma folha A4 com um esquema), mas, por favor, em nenhuma circunstância saia do carro. Se lhe acontecer algum imprevisto, em segundos terá o auxílio! Obrigado e boa estadia para a menina! A limusina pôs-se de novo em movimento. Pouco depois, após fazer uma curva para a direita, junto aos tais barracões de aspecto fabril, passou para uma estrada agradável, exibindo em ambos os lados enormes e frondosas árvores. O motorista pensou que raio teria aquela aprazível parte do percurso, para nunca poder parar e sair do carro, nem que fosse apenas para esticar as pernas, mas rapidamente entendeu. Por entre os troncos, a uma curta distância, viu cães pretos com coleiras de bicos afiados, animais esguios, ágeis, doberman lindos, apesar
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do seu aspecto agressivo, aqueles dentes mostrados com o vermelho das línguas, as orelhas espetadas, olhos faiscantes, o frenesim resultante de uma raça criada pelo homem, manipulada, com predisposição para a loucura, uma arma viva, de carne e osso, com um cérebro de combatente para quem tudo o que mexe é o inimigo; um pouco atrás, como uma segunda linha de defesa, colocadas a espaços relativamente afastados, desencontradas em relação às que se situavam no lado contrário da estrada, vislumbrou, metidas parcialmente na terra, casamatas que mostravam nas aberturas os canos pretos de armas automáticas. O motorista, apesar de empedernido pela vida e pelos anos do seu trabalho, homem de inteira e absoluta confiança dos seus patrões, mesmo sentindo no íntimo que a miúda era embirrante, e que se não mudasse o rumo da vida, quando crescesse ia ser uma má pessoa, sonsa, manipuladora, entediante e falsa, do tipo Belzebu disfarçado de mulher, teve pena da catraia. Talvez dá-la ali e agora aos cães viesse a evitar muito sofrimento a ela e ao mundo. Deixou escapar um sorriso triste da face inexpressiva. E depois, onde (se escapasse) iria arranjar um tão grande e chorudo ordenado? O motorista continuou em frente, devorando a extensa recta a uma velocidade relativamente alta, oscilando entre os cento e vinte e os cento e quarenta quilómetros horários. Espreitou pelo retrovisor a miúda no banco de trás, recostada no assento com cara de amuo. Lucrécia, nariz pequeno arrebitado, de jeito voluntarioso, não dizia palavra, hábito sem dúvida consequente da superior aristocracia dada pelo dinheiro; deixava-se simplesmente conduzir a um destino
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desconhecido, a passar-se numa terra distante. Lucrécia estava só, e ia a continuar essa solidão herdada pelo simples e banal facto de ter nascido. Metida dentro de umas calças de ganga justas, com a camisola preenchida por listas horizontais coloridas como fantasia de caleidoscópio (e para que servem os caleidoscópios senão para parecerem agradáveis?), os seus totós espetados para os lados do rosto oval, as mãos ao lado do corpo, abandonadas sobre o estofo de pele do assento. De olhos imprecisos, na cor e no brilho, lábios finos vermelhos cerrados com afinco a constatarem com uma certa garotice que as sardas lhe emprestavam às faces do rosto. Lucrécia estava vazia, como de costume, não pensava em nada. Tudo uma questão de hábito, talvez um complemento da sua solidão. Não pensar, para além de ser o refúgio dos tristes, é também um privilégio dos filhos de ricos. Em todos estes pormenores reparava o motorista, figura sempre discreta e apagada, estando sempre presente sem que na aparência nunca demonstrasse presença, tipo salta-quando-te-dão-a-ordem, ou esvazia-te-agora-e-fica-aí-quieto-no-teucanto-até-que-chegue-o-momento-em-que-seja-preciso-quesaltes-novamente. Mas Tibério (o homem do volante), bem lá no fundo do seu metal inexpressivo moldado em permanência no rosto, tinha um eu que de quando em vez (sem compreender porquê), pensava, pouco, diga-se, mas pensava, apesar de, na verdade, ser apenas um mero executante de ordens, arrancado na tenra idade ao seu canto da aldeia italiana onde nascera, para acompanhar os pais para a América. Lembrava-se de quando, em pequeno, o rei das Casas de Penhores para Apoio aos Países Pobres do Terceiro Mundo,
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lhe dizer (enquanto o pai conduzia a limusina) com ar de quem quer diversão: – Zurra rapaz! Zurra! E ele imitava na perfeição o zurro do burro, e o senhor ria, e todos quantos iam dentro do carro riam, incluindo o pai, e o senhor dizia para o seu pai (o motorista que ele substituíra quando foi chegada a altura): – Isto é que tens aqui um rapaz esperto! E mais tarde, poucos anos passados, quando já assumira as funções, o patrão irritado lhe gritava: – Passa com o carro por cima desse filho da puta! Ele simplesmente passava, tal como em menino zurrava para o patrão rir, e o pai cantava na sua voz timbrada de tenor, belas canções napolitanas, sempre que o mandavam cantar. As ordens não são feitas para serem discutidas, são para serem cumpridas. É tão simples quanto isto. Um dia o pai faltou-lhe de vez; fora baleado em serviço, no cumprimento do seu dever, como qualquer cabo de ordens que tenha a sua dignidade, e o seu pai acima de tudo era um homem digno e um homem de palavra. Estava a cumprir ordens, como sempre. E Tibério filho, aos dezoito anos de idade ocupou o cargo de maior confiança dentro da complexa estrutura de apoio aos países mais pobres do mundo. O pai faleceu bastante novo, no ano em que completava trinta e oito anos, e a madrasta voltou para a Itália; o patrão deslumbrou-o com os seus favores, desvelos e cuidados. Tibério iniciara a sua carreira profissional ainda Lucrécia era um projecto de gente na barriga da mãe, a atormentar a criatura com enjoos, desconfortos e desejos estranhos, tanto que se recordava bem de parar a limusina (lembrava-se como
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se tivesse acontecido no dia anterior) num descampado de um parque de uma das tantas propriedades da Casa, sem vivalma nas redondezas, e ver a pobre e sofrida patroa sair e ir trincar relva, de joelhos, com a enorme pança de rojo pelo chão. – Tu que não te atrevas de contar isto nem sequer ao patrão! – Contar o quê, senhora, se eu não vi nada… – Pois! Ainda bem que saíste em tudo ao teu falecido pai! Tibério espreitou a miúda pelo espelho retrovisor e sorriu. Lá estava o diabrete (a bem dizer, uma irmã mais nova) encostada, qual boneca de feira, na imensidão dos estofos vestidos a pele genuína. E também Tibério se recordou do inicio do grande negócio, as Casas de Penhores, engendradas e iniciadas aquando do maior desarranjo intestinal que o mundo alguma vez sofreu (depois da segunda guerra mundial) durante a luta selvática entre o dólar e o euro, pelo controlo e posse do planeta. A ideia mais genial que o seu magnata patrão tivera em toda a vida, que agora lhe permitia ser filantropo, rei, príncipe, tudo o que quisesse e bem lhe apetecesse, mesmo que fosse possuir a Lua ou o Sol (podia muito bem tocá-los e tê-los). O seu magnata patrão tinha assim o privilégio de ser Deus, de decidir e mandar até nessa ideia abstracta que o homem um dia teve, depois de muito olhar para cima e não entender o que via. Para ele, Deus passou a ser a ideia que se compra, e não a ideia que se teme. E com justificada razão alcançara o seu mestre esse privilégio, ao anular a força das agências (surgidas, a bem dizer, do nada, pelo menos segundo a aparência) para avaliarem o poder de solvência dos países, caso a caso, tocando-lhes com a
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varinha mágica de condão e dizendo: “Este é para acabar, este aqui ainda nos pode dar mais qualquer coisa, aquele acolá ainda consegue vender pessoas para pagar as dívidas, o outro mais adiante tem de levar uma dura lição, só tem direito a crescer quando e se nós quisermos.” Com a solução arrancada em dia de sorte de dentro do seu patrão, das suas poderosas entranhas parideiras, viera ao mundo a solução, sem que fossem necessários para os países outros sofrimentos que não somente e apenas os que resultam do esforço e da concentração; acabara-se de vez a avaliação, uma vez que a garantia de liquidação dos créditos cedidos era prestada à cabeça do negócio, no acto da entrega do direito a usufruir de um ou mais créditos, e essa garantia, guardada a sete chaves pelo prestamista, e segundo o contrato, mudava automaticamente de mãos logo que o pagamento dos juros contratuais estivesse em falta. Os países podiam entregar como penhor da sua seriedade tudo o que, de mútuo acordo entre prestamista e candidato ao crédito, fosse aceite como boa garantia: as jóias das coroas, terras de cultivo, patentes científicas, áreas de pesca exclusivas, poços de petróleo. O valor dos créditos cedidos, em caso algum, e para cabal garantia do prestamista, podia ultrapassar o montante de sessenta por cento do valor da garantia calculada por ambas as partes. Como as quantias fabulosas indispensáveis ao negócio eram inexistentes nos cofres e nos activos do pequeno banco de fomento propriedade e sustento da família, nascera a fusão com o capital dos poderosos bancos judaicos, e mesmo ficando estes com a parte de leão dos lucros, ponderaram que o autor da ideia era o homem ideal para superintender e supervisionar
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tudo, para esquadrinhar o mundo e até os pormenores mais secretos da vida íntima das pessoas, ciosamente guardados na consciência de cada um. Um negócio de tamanha amplitude e importância não pode deixar nunca que o fortuito acaso interfira, e o magnata que tivera a ideia foi nomeado Presidente do Conselho de Administração das Casas de Penhores para Auxilio aos Países Pobres do Terceiro Mundo, com sede em Washington, capital política da América do Norte, e com filiais por todos os recantos deste nosso mundo atribuído a Deus. O negócio floresceu, e que negócio! Em meia dúzia de anos destronou todos os bancos tradicionais, agarrados à aberração das agências de avaliação, e chamou a si todos os pobrezinhos do mundo (por manifesta falta de juízo ou outro qualquer motivo, como a incompetência dos governos) e açambarcou e guardou nos seus cofres uma parte significativa dos seus valores e riquezas, aferrolhadas a sete chaves em cofres com o tamanho dos lobbies dos maiores hotéis do planeta, construções antiatómicas comandadas por complexos e infalíveis computadores de última geração. Deus todo-poderoso tinha descido à terra para nos ensinar que o negócio é a principal essência da vida, e desta vez não enviara o seu Filho, mas viera Pessoalmente, tal a solenidade da ocasião. E lá estava ele, – personificado no seu patrão magnata, oriundo de uma modesta e pobre aldeia esquecida entre os contrafortes montanhosos da distante Sicília. Afinal, quem apregoou aos quatro cantos da Terra que um membro da Santíssima Trindade, o Filho, nascera na Judeia, há que milénios, mentiu com quantos dentes tinha na boca; na verdade Ele era um italiano de boa cepa, diamante
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de primeira água, e tinha sido gerado por homem e mulher no sul da Itália… Vito Cícero Malquisto, o magnata, o grande, o todo-poderoso, o omnipotente que, infelizmente, pelo infortúnio de ser feito de carne, osso e sangue, como toda a gente, os mesmos átomos com as mesmas estruturas, as mesmas funções, o mesmo objectivo – Viver –, podia ser travado por uma simples, insignificante e modesta bala, disparada por uma mísera pistola; um baque surdo quando o corpo caísse no chão, saco esvaziado desta vida, e pronto. Lá vai um Vito Cícero prestar contas à natureza, a transformar-se em pó, a regressar às origens, talvez, se essa coisa do espírito é real, a voltar à vida na qualidade de cobra cuspideira de venenos mortais. E era a ele, Tibério, o resto do nome não interessava, que tinha o privilégio de travar a bala, estrangulando depois com as suas mãos grandes e possantes o pescoço do dono da mão que premira o gatilho. Como é a vida, um nome sem importância, um Zé-ninguém, a proteger um Malquisto, um grande e poderoso senhor da vida, um homem que, se muito bem lhe apetecesse, podia ser Deus, adorado no altar do dinheiro, aspergido de incenso e de mirras! O motorista abrandou a velocidade do carro, apreciando um campo aberto, despido de árvores, imenso, exposto ao Sol, dividido em talhões de agriculturas variadas, criteriosamente tratados, onde os vários aparelhos de rega arremetiam para o ar pequenos arco-íris com as cores da aliança de compromissos estabelecidos entre Deus e os homens, saídos da profusão de água aspergida sobre os cultivos e aquelas maravilhosas terras negras que lhe iluminavam os olhos.
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Tibério tinha todas as costelas do camponês amarrado à terra, e talvez por isso, instintivamente, encostou à berma, perto de um rancho de raparigas curvadas no amanho dos campos, mostrando um ballet bem seu conhecido, que lhe ficara gravado na memória e nos instintos. Com um estalo dado com a língua, a jeito de arrelia, murmurou: “O tipo não me falou nisto! Nunca dizem tudo, estes gajos!” Pegou na folha A4 pousada no banco do seu lado direito, e logo verificou que estava tudo certo. “Zona agrícola, – diz aqui, – já falta pouco!” – Estamos com problemas? – perguntou Lucrécia do seu canto, sem que todavia mexe-se um dedo da sua posição. – Não menina, parei apenas para reconfirmar o caminho. Só falta, aqui pelos meus cálculos, uns vinte ou vinte e cinco minutos de estrada. – respondeu, ao mesmo tempo que pensava: “Afinal ela fala! Será que também pensa?” E acrescentou em voz alta: – A menina está bem? Lucrécia abanou a cabeça em sinal de confirmação, fazendo o narizito de sardas parecer a parte saliente de um boneco articulado. Lucrécia falava e também pensava (para espanto de quantos julgassem que, em simultâneo, essas actividades lhe fossem impossíveis). E em que pensava Lucrécia, naquele preciso instante, recostada com a majestade de uma princesa nos estofos de pele genuína da limusina da família? Nas amigas, nas muitas bonecas espalhadas pelas duas salas de que dispunha para brincar? Não! Lucrécia pensava na Levínia, a sua criadita pessoal, o seu brinquedo predilecto, pois falava (quando lhe davam troco falava pelos cotovelos), dizia “Ai!”
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Sempre que lhe dava um estalo sonoro nas faces rosadas, por mera diversão ou outro motivo inventado. A Levínia fora-lhe entregue pelo pai pelos seus anos, dois anos atrás, e se não vinha embrulhada, dentro de uma caixa, atada com um laçarote cor-de-rosa, com uma etiqueta a dizer parabéns, isso deveu-se ao pai não ter pensado nesse pormenor atempadamente, e que o podia muito bem tê-lo feito, porque o pai, o grande Malquisto, tinha o direito a fazer tudo o que lhe apetecesse. Levínia fazia tudo o que uma pessoa de carne e osso faz: chichi, cocó, dormia, sonhava, falava, pensava, roía as unhas até ao sabugo das cabeças dos dedos, e (porque era dois anos mais velha do que ela) também lhe ensinava coisas que ainda não tivera tempo de aprender por si, como escutar às portas e espreitar pelos buracos das fechaduras. Que coisa preciosa, aquela de espreitar pelos buracos das fechaduras, sempre que a chave não se encontrava do outro lado, a obstruir a visão. Que meio eficaz de aprendizagem sem dispêndio do mínimo esforço intelectual e, sempre que o objecto espreitado esteja em contraluz, que qualidade de imagem; e que visões, meu Deus, que coisas estranhas que as pessoas fazem quando se julgam livres da observação dos outros. Certo dia, Lucrécia e Levínia, perdidas no intrincado emaranhado de corredores e salas da principal casa de penhores do mundo, sem dúvida a casa-mãe de todas as casas de penhores para auxílio aos países pobres do terceiro mundo, espreitaram pelo buraco da fechadura para o interior de uma das salas onde se guardavam alguns dos objectos penhorados.
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Levínia foi a primeira das duas, um pouco em bicos de pés, dada a envergadura da porta, e logo recuou, abafando um grito com a palma da mão a tapar a boca. – Que foi que vistes?! – perguntou Lucrécia, em voz segredada. Levínia encarou-a com os olhos esbugalhados, as faces rosadas agora vermelhas como um pimentão. – Olha, vê tu mesma… E Lucrécia espreitou. Em contraluz, perto da janela gradeada o pai passeava-se a toda a altura da sua corpulência, com a magnificência da sua majestade, cabeça erguida, olhar brilhante, gestos autoritários, como se afastasse criados imaginários, com a fronte cingida com uma coroa cravejada de pedras preciosas e, corpo nu, tão nu tal como viera a este mundo de imundice e sofrimento. Lucrécia reparou no sexo hirto, cada vez mais e mais hirto, aos tremeções. Foi a primeira vez que Lucrécia viu o sexo de um homem. À noite, quando Levínia, que dormia no quarto da sua dona, saltou da sua cama para a cama dela, e quando, a meio da noite, dormindo abraçadas, Levínia (como era seu hábito), tocou com a mão na sua vagina, apertou-a e acariciou-a, entreabriu-lhe a vulva e meteu o seu dedo já experiente, Lucrécia sentiu um frémito de volúpia como nunca antes sentira… A voz sonora de Tibério tirou-a dos seus sonhos de jovem princesa. Pelo sistema de comunicação interno da limusina, uma vez que um vidro de resguardo da privacidade dos passageiros os separava, Tibério dava notícias de que a viagem estava a terminar. Já tinham ultrapassado a barreira que delimitava o espaço reservado aos alunos.
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– Já? – questionou Lucrécia, como que a sentir a falta de intimidade do seu habitual silêncio. – Já?! Eu digo finalmente, menina. Reparou no percurso? Passámos por zonas fortemente protegidas, onde era expressamente proibido estacionar e sair do carro, por campos de cultivo, por pomares, por lagos, ao longe avistavam-se montanhas, por duas engraçadas aldeias que mais pareciam terras de bonecos dado a sua pequenez, e finalmente, isto! E Tibério apontou com o dedo enluvado o lago enorme de água reluzente de prata pelo Sol que nela se reflectia, delimitada por uma praia em jeito de baía, de um lado um jardim imenso primorosamente tratado, a tabuleta com a indicação de alojamento de alunos do primeiro e do segundo ano, um edifício de um só andar coberto por um telhado a imitar colmo, a ladear um pequeno parque de estacionamento, e um pouco mais adiante, um aldeamento formado por moradias de arquitectura agradável, separadas por largas avenidas, jardins frondosos, cortes de ténis e piscinas. E tudo sobre um céu azul sem nuvens, um céu matizado de raios dourados de Sol, com uma brisa suave, fresca e doce. Tibério concluiu: – Até parece que é para aqui que Deus vem descansar! À vista do fim, Lucrécia saiu da quietude da sua postura, piscou os olhitos vivos e fez mexer as sardas de ambos os lados das faces, narizito pequeno arrebitado, com posse de senhora crescida, dona do seu nariz. Depois fez um gorjeio fininho arrancado de dentro da garganta e que se escapou através dos seus lábios finos e vermelhos. – Sabes, Tibério, nesta nova vida só há coisas de cuja falta vou sentir. O meu pai, porque é meu pai, a Levínia, porque é propriedade minha, foi prenda do meu pai por altura dos
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meus anos, como muito bem te deves lembrar, posso fazer com ela tudo o que me apetecer, e de ti, que afinal és o meu único amigo…
Lucrécia Malquisto, depois de completar todas as formalidades inerentes à sua admissão na escola, soube de que dispunha de mais dois dias para se adaptar às suas novas circunstâncias, para conhecer a criadagem que recebera a incumbência de a servir (uma equipa com nove pessoas), todas qualificadas e certificadas pela escola, e também para estabelecer convivência com os seus colegas do primeiro ano. Eram três os alunos, com ela quatro, as idades variavam entre os dez e os doze anos. Havia o Paolo Máximo, filho do rei do lixo de Nápoles, um americano vindo do Texas, de nome Bush das Direitas, neto do rei dos petróleos e filho de um Thomas, um valdevino que afrontara a autoridade paterna, e que em consequência perdera o filho, e uma Margarida Marques, herdeira da oitava maior fortuna do mundo, mas que não fazia ideia alguma dos negócios a que o pai se dedicava, tal seria a diversidade das actividades, e que vinha de um país desconhecido que se localizava a um extremo da Europa, quase expulso pela terra para o meio do mar. Eram portanto dois alunos e duas alunas. Lucrécia achava o grupo por demais curioso, mas cada vez sentia mais a falta da Levínia, para viverem juntas aventuras de escutar às portas e espreitar através dos buracos das fechaduras…
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SENTAVA-SE A MEIO DA AMPLA
mesa de conferências que, colocada à frente de um quadro branco de grandes dimensões, dava solenidade ao pequeno anfiteatro. Ladeavam-na, ao seu lado direito, o doutor Mesquinho, e do seu lado esquerdo, o doutor Doente Forreta, um director adjunto e o outro presidente do conselho disciplinar da escola. À sua frente, sentados nas poltronas reclináveis da terceira fila do auditório, cadernos pousados nos suportes de apoio, estavam os quatro alunos internos que davam início a uma nova vida de aprendizagem, que se iniciavam nos conhecimentos indispensáveis à sua condição de muito ricos. Ganância Maltesa passou a mão esguia e branca de cera pelo cabelo enovelado e preso na nuca, bebeu um terço do seu copo de água mineral, ajeitou-se na cadeira, recostou-se com ambas as mãos espalmadas sobre o tampo e, de cabeça erguida e jogada para trás, num gesto pretensamente teatral, encarou os novos alunos com os seus olhos penetrantes.
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– Meninos, são capazes de me dizer, por palavras vossas, se nós, os muito ricos, devemos preocupar-nos com os pobres? Então, qual de vocês quer falar em primeiro lugar? Os quatro novos alunos entreolharam-se, eles que esperavam ter uma simples aula de apresentação, das muitas que existem por esse mundo fora, a bem dizer tiradas a papel químico umas das outras, uns minutos de apresentação e já está, acabou a aula, e logo no primeiro dia, mal conheciam os cantos à casa, já tinham que responder a questões que, pela sua curta existência, nunca por nunca lhes tinham sido postas ou simplesmente faladas à sua frente, nem por mestres nem por pais, que de quando em vez apareciam, talvez para saberem ao certo se os filhos ainda os conheciam. Lucrécia suspirou, a pensar que falta lhe fazia ali a sua Levínia, escondida debaixo do apoio onde colocara o caderno, porque ela, sim, sabia na ponta da língua o que responder àquela mulher encharcada de perfumes e de berloques da cabeça à ponta dos pés. – Meninos, então, o gato comeu-lhes a língua?! O Paolo, a medo, espetou o dedo indicador para o ar, enquanto pelo rabo do olho espreitava os colegas, a ver se mais alguém se decidia. – Sim, pode falar! – Os pobres, minha senhora? – Sim, os pobres! – Sabe, senhora professora, os pobres são tantos e tão diferentes de nós, que não percebo a razão porque nos devemos preocupar com eles! – O menino não precisa de comer todos os dias? – interrogou dona Ganância, como majestade ou deusa, lá do seu lado da cátedra.
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– Sim, senhora professora, eu como todos os dias, isso como… – Então e quem lhe dá a comida? – Penso que será o dinheiro do meu pai! – respondeu Paolo, cada vez mais afoito, afinal responder àquelas questões era a coisa mais fácil deste mundo. – Isso é um erro, menino; o dinheiro do seu pai apenas compra aquilo que os pobres produzem, logo, a minha pergunta fica sem resposta. Então, nós, os muito ricos, devemos ou não preocupar-nos com os pobres? Quem mais quer falar? Bush das Direitas, num rasgo de heroísmo tardio, ergueu o dedo ao mesmo tempo que se levantava para dizer: – Os pobres são tantos por esse mundo fora, que, se uns não quiserem ser pagos pelo nosso dinheiro para nos servir, querem os outros. Pelo menos é mais ou menos isto o que diz o meu avô! – Então quem é que sustenta os primeiros pobres que se recusaram a servir os ricos? Se ninguém lhes pagar eles acabam por sucumbir por falta de capital para se manterem… – Não faz mal nenhum que morram… – retorquiu Bush. – Então e depois? – Depois ficam os outros, eles são tantos! – Nesse caso sobe os preços que temos de pagar aos pobres que nos servem! – Porquê? – Por uma simples questão de mercado, de desequilíbrio entre a procura e a oferta. Se diminui a mão-de-obra valoriza-se o respectivo mercado! Ou nunca lhes falaram destas questões?
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– Bem… – Bem vistas as coisas nunca lhes falaram, o que é perfeitamente natural, porque vocês ainda são crianças, embora sejam crianças muito especiais; mas para lhes falar destas coisas estou aqui eu e os senhores professores desta escola. Bom, vou dar-lhes algumas noções de história, para que vocês possam começar a aprender questões que vão ser fundamentais para a vossa vida. Dona Ganância ajeitou-se melhor na sua poltrona, com o pronto auxílio do doutor Mesquinho, que logo lhe empurrou a poltrona mais para a frente, cruzou os dedos das mãos pousadas sobre o tampo da mesa, aclarou a voz, bebeu mais uns golos de água, e continuou. – Nós, os ricos, sempre fomos servidos, e foi graças a isso que conseguimos dar corpo ao mundo moderno, que fizemos quase todas as coisas boas deste mundo, desde as tão faladas democracias às universidades, enfim, a tudo. No antigamente usámos a arma da escravatura para construir um mundo cada vez mais sofisticado e moderno. Fizemos Impérios, religiões, monumentos, conquistámos povos e conseguimos assim ter mais escravos, cada vez mais e mais escravos, requintámos as guerras e através delas demos países ao mundo. É certo que também nos combatemos uns aos outros, é uma consequência da desmedida ambição pelo poder que fez vencer a espécie humana, prevalecendo sobre todas as outras, subindo até ao topo da cadeia alimentar. O homem tudo pode consumir e devorar, e os ricos em especial, graças ao seu querer, conquistaram o direito de consumirem mesmo outros homens. No entanto, a escravatura deixou de ser viável; os escravos, geração atrás de geração, ficaram cada vez mais dependentes
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dos seus donos, e por isso tornaram-se inviáveis no aspecto económico. Alimentar, alojar, vestir, dar-lhes assistência em caso de doença, e garantir alguns direitos básicos que o imaginário de alguns ricos tiveram, a que mais tarde se passou a chamar de consciência, foi o golpe fatal que inviabilizou todos os bons serviços que a escravatura nos prestava. A professora Ganância ficou por momentos em silêncio, olhando os alunos com tanta fixidez, que parecia que os esquadrinhava por dentro, até ao cerne das almas. Depois continuou: – A democracia grega, que tanto deu ao mundo através dos seus pensadores, dos seus cientistas e filósofos, só foi possível graças à existência dos escravos, senão como seria possível pensar e trabalhar ao mesmo tempo? Agora que vos dei estas breves noções sobre história, volto a perguntar, devem os ricos preocupar-se com os pobres? Silêncio; as duas moças e os dois moços, vistos dos lugares dos professores, pareciam cada vez mais pequenos, de tão encolhidos que estavam nos seus lugares. – Bem vistas as coisas… – disse a Margarida na sua voz cheia de hesitações –, bem vistas as coisas, assim por esse prisma… – Vá, vá, então? – encorajou a mestra. Margarida encheu o peito de ar, como se fosse mergulhar num mar de águas turvas, e com uma coragem que desconhecia ter, foi então mais longe com a frase: – Bem vistas as coisas… devemos dar parte do que temos aos pobres! – E ficamos nós menos ricos?! – Talvez… talvez seja a solução, senhora professora!
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– Se isso acontecesse invertiam-se os papéis, passávamos nós a caminhar para sermos os pobres! – Bom raciocínio, Paolo, bom raciocínio, embora fortunas com a envergadura das que os vossos pais conseguiram amealhar não se dissipem facilmente, mesmo que fossem reduzidas a cinquenta por cento do seu montante. – Então porquê? – atreveu-se Lucrécia. – Porque, – esclareceu a professora, – a partir de valores astronómicos, o dinheiro aumenta em progressão geométrica, ou seja, cem sobem para duzentos, e depois para quatrocentos, e logo para oitocentos, compreendem? Rapidamente as fortunas dos vossos pais voltavam aos valores iniciais, mas entretanto os novos-ricos (surgidos em consequência da generosa oferta), ao adquirirem pobres para os servir, tinham inflacionado o preço dos pobres, como atrás vos disse. – Então a resposta será não, não nos devemos preocupar com os pobres! – Isso a acontecer, seria uma forma muito leviana de encarar o problema. Na verdade os muito ricos têm a obrigação de se preocuparem com os pobres, se querem continuar a serem servidos com um dispêndio cada vez menor de custos. É simples, os pobres devem ter a permanente ilusão de que estão a sair da pobreza, quando, na verdade, estão cada vez mais e mais dependentes de nós, percebem agora? – E isso está a ser feito, senhora professora? – Sim, meu querido menino Bush, os vossos pais e avós fazem-no de uma maneira magistral, e a minha obrigação é ensiná-los a fazerem-no pelo menos com os mesmos resultados, ou até mesmo superá-los! Seria bom que, do vosso grupo, saísse alguém capaz de superar os esforços que os
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vossos pais vêm fazendo para manterem a hegemonia do poder! – E isso porquê, senhora professora? – Interrogou Bush. – Porque estão a surgir nações novas carregadas de tantas ânsias de alcançaram a força do poder, que ameaçam a velha ordem estabelecida. – E o que é que isso tem a ver connosco, os muito ricos? – Quem pensam os meninos que governa o mundo? Quem? Os políticos, as democracias, os partidos políticos, as assembleias nacionais. Quem? Os quatro miúdos inclinaram-se para a frente, nas poltronas, mãos apoiadas sobre os joelhos, suspensos das palavras da professora. – Quem dita aos governos as ordens é o dinheiro dos vossos pais, e de tal forma a máquina funciona, movendo na hora certa todas as suas peças, que, por vezes em oposição ao parecer dos vossos pais, as coisas acontecem. É como se o poderoso dinheiro tivesse corpo e alma, completa e autónoma capacidade de decisão. Sabem, se me permitem um modesto desabafo, por vezes penso que o dinheiro é gente que não se vê, mas que existe, muito acima de nós, num plano de superioridade intelectual que nós ainda não atingimos. Bem, meus meninos, para primeira aula, penso que chega; julgo que lhes consegui transmitir a noção exacta da formação que esta escola vos vai dar. Amanhã ainda vamos continuar a desenvolver estas matérias, mas por hoje terminamos. Podem sair! Os quatro abandonaram o auditório com compostura, até perto da porta, depois um esboço de atropelo deu ao grupo a dinâmica de uma corrida ligeira, em direcção ao jardim da frente, na procura do espaço aberto das árvores e do Sol,
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dos bancos baixos e das pequenas mesas, encostadas ao lago sinuoso, mostrando cisnes e nenúfares e um repuxo no centro. – Se isto vai ser sempre assim, esta escola vai ser uma chatura, e não vale um tostão do dinheiro que os nossos pais estão a gastar! Margarida Marques caminhava ao lado de Lucrécia, enquanto os dois rapazes seguiam na sua frente em direcção às mesas colocadas junto do lago. – Não, penso pelo que me disseram em casa que vamos ter disciplinas diversas, parece-me que vamos receber uma vasta formação sobre todas as matérias… – Não me digas que a tua família fala contigo sobre as questões da educação. Os meus, a mim, só me dão ordens, e é sempre à última da hora! Sabes quanto tempo tive para me preparar para vir para cá? Um dia, vê tu, nem consegui despedir-me de todas as minhas amigas; é sempre assim, lá em casa, tanto da parte do pai como da parte da mãe. Aqueles dois são tirados a papel químico… Lucrécia encarou a colega. Afinal a Margarida era acessível, uma miúda menos sofisticada do que parecia à primeira impressão. Não seria, nem de perto nem de longe, uma substituta da Levínia, mas com mais algum tempo podia tornar-se uma amiga e confidente, coisa indispensável e útil para ambas. – No meu caso as coisas não são assim; da parte da minha mãe, não, anda sempre em chás e festas e não tem muito tempo para mim, mas o meu pai tem sempre um bocado do dia para mim, e fala-me de tudo, analisa os prós e os contras de todas as questões, em especial quando elas têm a ver comigo. Só não aprovo que me tenha impedido de trazer a Levínia. – Quem é essa?
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– É o meu brinquedo preferido! – Mas falas dela como se fosse uma pessoa! – E é. A Levínia é tão de carne e osso como qualquer uma de nós… – Ah! Compreendo. Dizes-me que não é uma tua igual... – Não, na verdade não é do nosso meio, foi-me oferecida pelo meu pai pelo dia dos meus anos, há dois anos atrás. Faço dela tudo o que bem quiser, mas a verdade é que nos tornámos amigas, vê tu que até dormimos na mesma cama. Olha, vou contar-te duas das nossas brincadeiras preferidas… Lucrécia e Margarida passaram a tarde sentadas no jardim a falarem em segredinhos; Lucrécia contou-lhe como escutavam às portas e espreitavam pelos buracos das fechaduras, e Margarida falou-lhe sobre o seu vasto guarda-roupa, os vários estojos de maquilhagem, e os brinquedos espalhados pelos cantos de quatro casas que lhe foram destinadas. Com o passar das horas, os alunos dos anos adiantados começaram a surgir dos vários pavilhões escolares. Não eram muitos; aí umas quatro dezenas no máximo. Foram-se espalhando pelos quatro jardins que se viam por entre os pavilhões, por vezes em pares que se entrelaçavam pela cintura, cabeças juntas, ou de mãos dadas de dedos entrelaçados, com braçadas de livros de baixo dos braços, tomando bebidas pelas muitas esplanadas ou simplesmente sentados nos bancos sob árvores frondosas, a admirar as águas calmas do lago. – Será que também vamos arranjar namoros por cá? – perguntou Margarida. – Não é muito o meu estilo, acho que sou demasiado nova para isso, e os rapazes fazem-me um certo medo, não sei porquê! – respondeu Lucrécia.
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– Olha, é exactamente como eu. Por enquanto não quero namoros; só de pensar em certas coisas que os rapazes fazem às raparigas... Querida! Para mim as aulas não deviam ser mistas. O que me dizes tu dos dois moços? – Queres que te seja franca? Olha, o Bush simplesmente mete-me nojo! Viste os olhos que nos deita, aquele meia-leca metido a galo? Até parece que nos está a despir, e isto só com onze anos, imagina quando crescer… – É isso, tens razão! – e Lucrécia fez o seu habitual trejeito com o seu narizito de boneca de feira, mexendo a cabeça para cima e para baixo. – O Paolo é diferente, mais gente crescida, mais maduro; sabes, quando eu crescer vou gostar mais dos homens maduros, não sei porquê. A Levínia costuma dizer que nos fazem fornicoques, sabes aonde? – Não, diz lá, daí não vai sair coisa boa! Lucrécia encostou a cabeça à cabeça de Margarida e segredou-lhe duas ou três palavras ao ouvido. – Puxa! Essa Levínia deve de ser fresca! – Isso é; não tem papas nem tento na língua! Sabes, o meu pai costuma dizer que nós, os muito ricos, temos de nos habituar a ouvir de tudo para ficarmos a saber com o que contamos da vida. – Pois os meus nunca me dão qualquer dica. – O meu pai não. Conta-me muita coisa. Costuma dizer que herdeira dele tem de ficar preparada para defender com unhas e dentes tudo o que é dela! Sabes, Margarida, o meu pai veio de baixo; na sua juventude em Itália foi salsicheiro, imagina tu. A capacidade que é preciso para se ascender na vida desta maneira!
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– O meu também veio muito de baixo. Trabalhou numa data de coisas, até conseguir o seu primeiro negócio, mas não me conta nada; é pena saber estas coisas por pessoas que não nos são nada, apenas serviçais de muita confiança, mas eu, sempre que posso, vou tirando nabos da púcara, como se diz na minha terra! – De onde és tu? – Eu? Sou de Portugal… – Portugal? Onde fica isso, quero dizer, em que país? – Fica na Europa, num extremo da Europa, mesmo junto ao mar… e é um país! – Nunca tinha ouvido falar! – disse Lucrécia, como se divagasse, mas logo continuou: – E tu estavas a dizer que um teu serviçal antigo te conta coisas da vida do teu pai que ele nunca te contou? Então o que fez ele para ganhar tanto dinheiro? – Só sei que se meteu num qualquer negócio de armas, e que passou pela política… – É chato quando são os serviçais que nos contam essas coisas, porque até parece que são nossos iguais! – É, nem queiras saber como me sinto! Lucrécia agarrou na mão de Margarida Marques e encarou-a nos olhos com aquele jeito de boneca de pavilhão de tiros de feira, os totós louros espetados aos lados do rosto oval, em contraste com os cabelos ondulados da Margarida, sedosos, louros de espiga de trigo, num rosto expressivo onde uns olhos verdes limão faziam contraste. A Margarida, apesar dos seus doze anos, tinha um corpo desempoeirado de mulher desinibida, alta e de curvas acentuadas, pernas elegantes e mãos macias e meigas. Para Lucrécia, fazia-lhe
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despertar emoções escaldantes, daquelas a que Levínia a acostumara com os seus avanços sentidos no escuro da noite; havia contudo um factor imprevisto na amizade que despertava entre as duas: é que Margarida era uma sua igual e não um objecto oferecido. – Não te preocupes, amiga, de hoje em diante temo-nos uma à outra! – disse Lucrécia. Margarida baixou o rosto e disse sim com a cabeça. As duas ficaram sentadas próximo uma da outra de mãos dadas, a ver aquele céu sereno de um azul perdido até ao infinito, as areias brancas da praia estreita desenhada em semicírculo a perder-se de vista, as palmeiras gigantes a delimitarem o areal, o passeio empedrado com pedras de cores garridas, a faixa da estrada e os jardins e os palacetes dispersos entre eles, e ao espírito de Lucrécia acudiu a frase que Tibério dissera quando tinham chegado: “Parece que é aqui que Deus vem para descansar.” Lucrécia não entendia muito bem as frases ditas profundas, mas aquela, sem saber bem porquê, tinha ficado a martelar-lhe na cabeça, depois de ter vislumbrado aquele sítio. Se assim acontecia, se Deus vinha descansar ali, era porque, sem a menor dúvida, Deus era criatura com muitas posses; o Senhor poderoso do universo (assim sendo), era um seu igual…
Lucrécia era uma criança que fora parida na solidão da riqueza. Estava pois condenada ao maior e único flagelo que martiriza os ricos – não os abastados, que se passeiam pela
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vida em jeito de importância e mostrando a opulência do ter –, mas sim os muito ricos, aqueles que compram e vendem mundos, mas que por toda a vida estão tristemente sós, passeando entre as suas obras de arte que nunca compreenderam, dizendo a cada passo: “Eu tenho! É meu! Eu sou!” E Lucrécia, na infantilidade dos onze anos, proprietária de coisas e de pessoas, princesa sem Pátria, futura rainha do nada, filha de uma mãe que nunca via e de um pai que apenas a procurava para se continuar (“Filha minha vai ficar preparada para defender com unhas e dentes tudo o que é dela!” ou dizer “filha minha vai continuar a deplicar todo o pecúlio que eu vou deixar”, são expressões de continuidade e não de afecto). Lucrécia afinal não passava de uma instituição de crédito destinada a gerar cada vez mais e mais receitas, tantas e tantas riquezas que o universo na sua noção de espaço infinito seria finito para as conter. Qual o limite da ambição dos poderosos? Qual a dimensão do drama humano? Qual a formula mágica para conter o sentimento de posse que faz parte da grandeza e das misérias humanas? Para um muito rico, um senhor dono de uma fatia deste queijo gigante que é a Terra, o que será mais importante: destruir com armas atómicas a raça humana, mas manter intactas as suas posses, ou não destruir o planeta mas ficar pobre? E Lucrécia, que por mor da idade ainda não ponderava estas questões, a descoberta daquele sítio, a descoberta de que havia no mundo miúdos seus iguais, a palestra da abertura da escola dada pela senhora directora, todo o poder sentido na posse da criadagem destacada para a servir, duas professoras auxiliares, três guarda-costas, uma cozinheira e duas criadas, não era suficiente para esconder a falta da sua principal posse
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física, a Levínia, a criadita chegada da Sicília com treze anos de idade, para a servir. Agora partilhava alguma coisa com a Margarida Marques, mas seria sempre uma amizade e nunca uma posse. Não lhe era permitido assentar a mão na cara da Margarida por puro divertimento, não era possível pô-la a dormir no seu quarto e muito menos consigo na cama, não a podia obrigar a espreitar pelos buracos das fechaduras nem escutar conversas de orelha encostada às portas. Talvez, com o tempo, Margarida viesse a servir para lhe satisfazer alguns dos seus desejos mais íntimos, mas teria de considerar sempre o principio da reciprocidade. Sem o compreender, Lucrécia caminhava para uma vida de negociação constante, com vitórias e derrotas, onde a artimanha se torna na mais poderosa das armas…
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VITO CÍCERO MALQUISTO
PRESIDIA À ASSEMBLEIA DO
conselho de administração da organização de crédito. Sobre o tampo da imensa mesa, na sua frente, o relatório com os números que mostravam o seu primeiro revés nos negócios. Um pequeno País, insignificante e por norma obediente, que cumpria escrupulosamente o pagamento dos seus créditos, que honrara sempre os seus compromissos, uma terra perdida nos limites dessa Europa patética, eternamente enovelada nos pergaminhos do antigamente, repleta de sonhos de conquistas e de descobertas, de cavaleiros lavando a honra com sangue nas lides das guerras, esse país modesto de gentes e de importância tinha-lhe roído a corda (como é hábito falar na linguagem dos negócios), e o calote aí estava bem visível, zombeteiro, um escárnio, uma vergonha, uma mancha na sua carreira e no futuro da sua família, uma nódoa na moral imaculada que lhe fora transmitida pelo pai em longas palestras ao balcão da pequena salsicharia de que era proprietário na pequena aldeia da Sicília distante. “Crimes que envergonhem a honra de um homem lavam-se sempre com sangue.” Tinha sempre presente na memória esta máxima que o pai lhe
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transmitia incansavelmente, dia após dia, sempre que calhava falarem em questões desta natureza. Enquanto Malquisto magicava na estratégia para se vingar do traste que, em representação do país, assinara o acordo, os seus dotes oratórios (que eram vastos e reconhecidos entre os seus iguais), bailavam-lhe na cabeça à espera da ordem para saírem. Nesta fase do momento que estava a viver, da vergonha que estava a sentir, também recordava outra máxima do seu saudoso pai: ”filho, o principal segredo do êxito na vida é agir mais e falar pouco. Acima de tudo, nunca revelar, nem aos nossos, o que decidimos fazer para lavar a nossa honra.” E com tudo isto a martelar-lhe na cabeça, decisão tomada, olhos postos no seu homem de confiança, o Tibério, de quem gostava como se fosse seu filho, e que estava ao fundo da sala, olhos inexpressivos e frios assentes na porta, único acesso à sala, sentiu-se confiante e reconfortado. Vito Cícero pigarreou para aclarar a voz, bebeu o tradicional meio copo de água, apoiou os cotovelos na mesa: – Meus senhores, perante este desaire têm de rever os princípios que temos vindo a seguir para facultar os empréstimos. Um silêncio premeditado, enquanto encarava os rostos dos seus colegas, na maioria banqueiros judeus seus sócios, e depois de perceber que as feições eram inescrutáveis, Cícero prosseguiu: – Como todos sabem, este desnorte representa uma perda insignificante no nosso negócio, o que até serve para realçar o princípio de apoio aos países pobres, mas como os negócios não são caridade nem podem servir para se perder dinheiro, em especial este tipo de negócio, porque entre nações, como todos sabem e aceitam, não existem amizades mas sim inte-
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resses, proponho que seja retirado dos estatutos o princípio que nos obriga a penhorar objectos, embora valiosos, mas que não passam disso mesmo, objectos, e passemos a aceitar apenas riquezas naturais! Estabeleceu-se silêncio na sala. Vito mais uma vez correu os rostos dos seus sócios, e percebeu apenas máscaras inexpressivas, faces fechadas no cofre do segredo, mentes que, tal como a sua, faziam cálculos e movimentavam cifrões, vislumbravam futuros de negócios intrincados, de lucros garantidos. Na mente daqueles homens não cabia lugar para “vendetas”, nem para honras, nem para princípios, nem para nada que não fosse o êxito do lucro garantido a cem por cento. Os seus remoques de vinganças eram pois questões que só a ele diziam respeito. Não que a vida humana tivesse mais peso do que nada, um nada absoluto, uma fantasia com que não valia a pena perder um simples e insignificante segundo. Para os seus sócios a morte abraça a vida a cada segundo que passa; é uma consequência inerente ao facto de se estar vivo, a morte é comparsa da vida, e se, por necessidade do lucro, essa verdade insofismável que comanda tudo o que vale a pena, alguém tivesse de morrer, nada mais natural. Só se tira uma vida para se defender o superior interesse do negócio e nunca por mera e mesquinha vingança. Não era assim para Vito Cícero. A vingança é um doce ou um fruto sumarento, um cálice de licor, um momento de prazer que preenche a vida. Para Vito a vingança estava a par do êxito dos negócios, da dignidade do lucro, era tão importante como viver e transmitir aos filhos a obrigação de defender a sagrada honra da família, a família no seu todo, no significado de clã, de grupo, de interesses e de poder, de poder absoluto e sem contestação.
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– Mas, independente de se rever ou não o nosso sistema para se concederem os empréstimos, não tem maneira de negociar contrapartidas? Do seu lado direito da mesa de reuniões, um homem corpulento, rosto primorosamente escanhoado, mãos tratadas, fora quem o questionara, numa voz rouca e arrastada, cava, baixa e um tanto cavernosa. – Estamos a tratar disso. É evidente que quem deve tem de pagar. Aliás, pelo contrato, as jóias do tesouro nacional desse país já nos pertencem, uma vez que não foi cumprido o pagamento dos juros! – Então e o valor do empréstimo não está amplamente compensado pelo valor superior dos objectos? – Sim e não! – Não entendo bem… – Eu passo a explicar. – e Vito voltou-se para o homem como se falasse em exclusivo para ele. – Há um pormenor que nos escapou: a política, a protecção que nestas circunstâncias os chamados de países pobres fazem uns aos outros, a solidariedade, sabe? Acresce que a venda dos objectos em hasta pública nesta altura não é muito viável, pelas razões de solidariedade e não só, também porque os valores em causa são astronómicos! – Então e não podemos, note-se que estamos a falar de ouro e de pedras preciosas, desmanchar as peças e passá-las assim nos mercados internacionais dos metais preciosos?! – Não é assim tão simples, por duas razões: a primeira tem a ver com a dignidade do país em causa; a segunda deve-se ao facto de uma parte significativa do valor das peças residir no seu valor histórico! Fiz contas, e os números estão visíveis
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nos cadernos que foram entregues a vossas excelências com a súmula desta reunião! – Isso parece uma tardia vingança dos povos que foram escravizados para esse país puder adquirir essas jóias. Lá no além a esta hora deve estar a decorrer uma festarola de arromba! A graça chegou do fim da mesa, e veio de um homem magro e seco, com manifesto ar de bem-disposto, e arrancou gargalhadas de todos os presentes. – Bom, voltando aos assuntos sérios, – disse o primeiro interlocutor –, como pensa o Vito ultrapassar esta questão? Eu sei, porque já analisei os números, que este caso pouco ou nada afecta o nosso negócio, mas sabe, Vito, perder, nunca, nem que seja a feijões! Com o dinheiro de todos não se brinca! Vito Cícero afastou os olhos do dia solarengo que distraído, apreciava, através da vidraça de uma das janelas. Encarou o membro do conselho de administração. – Este país tem amplos recursos em matéria de turismo. Eu, e isto é uma mera opinião pessoal baseada no conhecimento dos locais, considero que é o país que tem as melhores praias da Europa, tem um clima de excepcional qualidade e o norte é rico em paisagem e vegetação; é minha convicção de que devemos manter esta questão das jóias quieta, e de negociar no sentido de aumentar o valor do empréstimo contra a garantia de pudermos explorar comercialmente as praias do sul e parte da hotelaria, até à cabal liquidação dos juros em falta, bem como dos montantes acumulados dos juros em falta. – E isso é seguro? – perguntou um dos presentes. – Você tem confiança na idoneidade dessas pessoas?
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– Porque não? Claro que é uma confiança relativa, como tudo na vida dos negócios. Não se pode ignorar o risco, ele existe, mas temos de o minimizar, e prevê-lo. – Não sei… pela minha parte gostava de dispor de mais tempo para ponderar os riscos! – É uma questão de acertarmos as agulhas para novo encontro, mas breve, dada a necessária agilidade e rapidez que estes negócios impõem. Duas horas? – Três horas! Que dizem, meus senhores? Foi acordado um interregno de três horas e Vito abandonou a sala com Tibério na sua peugada. Passaram ambos pelo bar do edifício, situado no rés-do-chão, onde tomaram café bem quente e forte, como Vito gostava, e saíram para os jardins, como dizia o chefe, esticar as pernas para poder pensar melhor. Como sempre, Vito seguia na frente e Tibério atrás, atento a tudo, o movimento das plantas, das folhas das árvores, adivinhando o que estaria no outro lado dos vasos gigantes orlados de plantas exóticas. – Então e a Lucrécia, ficou bem? – Um bocado só, patrão, mesmo bastante só. Não gostei nada de a deixar assim! – Pois, eu sei. Ela insistiu até à última hora para levar a Levínia, mas teve de ser assim. Sabes, não encontrei outra solução que fosse adequada. O que tem de ser tem muita força… – Se me permite, patrão, eu não compreendo. A Levínia, bem, é uma confidente e uma amiga, uma ligação permanente, um elo que a ligaria a casa…
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Vito Cícero caminhava a passos largos pelas veredas do jardim, cabeça erguida e sobrolho franzido, a mão direita metida com força no bolso das calças. – Eu sei que tu não compreendes! Vocês todos não compreendem! Nem a mãe dela, vê lá, que raramente se lembra da filha. Fez-me um escarcéu dos diabos! Olha, teve todos os arrufos de mãe num simples quarto de hora, não mais, e só parou quando recebeu pelo telefone a notícia que tinha marcação no cabeleireiro para essa tarde! Mas fritou-me a paciência. Não sei como me contive e não lhe meti a mão na cara! A Lucrécia tem de se habituar a estar só, a não ter amigos, a não confiar em ninguém. A Lucrécia não é como tu, que tens de passar a vida a dar provas para subir, para conquistar força e alcançar poder. A Lucrécia, uma miúda, onze anos, não é? – Sim patrão. Quase doze, como se deve recordar… – Isso, isso, claro que recordo. Como não havia de recordar? Ela é minha filha, a minha continuadora! Mas a Lucrécia, como te ia dizendo, uma miúda com doze anos e meio, para sermos rigorosos, já subiu, já está no topo! Vê tu, que sabe ela coitadinha da dureza da vida? Nada, sim, nada. Sabias mais tu, naquela idade, só com um dedo, que ela com o seu corpo todo! A Lucrécia tem que aprender a estar só. Mesmo que case, que tenha filhos, ela vai sempre estar só, tal como eu sempre estou só… – Patrão, eu estou aqui! – Claro Tibério, eu sei que tu estás sempre onde deves, e ainda bem, és o meu homem de mão, a pessoa em quem deposito toda a confiança, o homem a quem confio a própria família, és parte integrante dessa mesma família. Mas não é esse tipo de acompanhamento, não é a modesta presença dos
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outros, o calor humano, o amor aos filhos; é diferente, sabes. O poder faz apenas uma condição. O poder e o dinheiro, aliás, não há poder sem dinheiro, estão intimamente ligados e são inseparáveis, indissociáveis, um é a carne e o outro o sangue, e a condição que o poder impõe é a solidão. Sim, a solidão! Mas é bom, o poder, é como ter sexo, sei lá, é muito e muito melhor que ter sexo. Olhas à volta e é tudo tua pertença. As pessoas, as coisas, os governos. Com um aperto do punho esmagas pessoas, muitas pessoas, muitas, as que quiseres, fazes países, destróis países; só não vences a morte. Por enquanto só a morte te detém. É assim que os filhos ganham importância, se tornam parte do nosso egoísmo, nos continuam. Imagina que a Lucrécia não me continua... A quem vou eu deixar este império, a quem vou transmitir tudo o que sei, a fortuna que acumulei, que nem eu sei qual é o seu montante? Fiz isto para quê? Diz-me! Que coisa estúpida é a morte para determinadas pessoas! Tibério, que raio, quando estou contigo tenho sempre que estar a falar para trás! Para trás mija a burra, como se diz lá na minha aldeia; vá, passa já para aqui, para o meu lado! Então tu ainda não sabes quem és? Vê se aprendes de uma vez por todas, vá, já para aqui! – Mas o meu lugar é aqui… – Não! E se é, a partir de agora não é mais, acabou. Eu tenho planos para ti, muitos planos, nem tu imaginas quantos e tão importantes e arrojados planos. Aquela gente ali dentro não sabe nada – fez um gesto com a cabeça indicando o edifício –, não são importantes, não têm visão, não enxergam as coisas, é como se fossem ceguinhos, assim como aquele companheiro que cantava ou canta, lá na terra, ai, como é que o tipo se chama, deixa-me pensar, não digas… o Andrea!
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Pois, é isso, o Bocelli, Andrea Bocelli, o tenor. O tipo também compõe, sabes? – Sim, patrão, ele também compõe! – Pois, bem me queria parecer. Mas como te ia dizendo, acerca dos meus sócios, não sentem o dinheiro como eu o sinto. Às vezes penso que não amam o dinheiro, apenas o possuem, e é preciso amar o dinheiro, sabes, amá-lo e senti-lo, tocar-lhe, sentir-lhe o cheiro! Aquela gente vai ser dispensável, é tudo uma simples questão de tempo. O negócio tem de dar uma volta qualitativa, tem de se especializar, tem de criar cláusulas que nos permitam explorar os recursos naturais, as riquezas desses países, para garantir o pagamento de tudo o que é nosso, tudo o que nos devem, e esta é uma oportunidade soberana. Única. É como garantir o controlo do mundo sem armas, sem violências, só e apenas com o dinheiro. Mas estávamos a falar? Já sei! Estávamos a falar de ti, do teu futuro. De algum modo tu também és uma espécie de meu continuador, tu, depois da Lucrécia, sempre, sempre, um duo poderoso que vai espantar o mundo! Olha, um banco de jardim. Sentemo-nos. – Malquisto olhou o mostrador do relógio. – Sim, temos muito tempo enquanto aqueles parvos conferenciam sem se aperceberem que não têm outra saída que não seja aceitar as minhas sugestões! Sentaram-se no banco verde, como todos os bancos de jardim, feito de pedaços de madeira passada à lixa e aparafusada a peças metálicas bem firmes no solo. O Sol, já caído para o ocaso, aquecia pouco uma parte significativa do banco, eram plasmas de luz de oiro que venciam a distância daquela parcela de infinito, escorrendo pelos vazios das nuvens, escamoteando-se sorrateiro por entre folhas e flores como cordéis
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ou fios, como cabelos de princesas louras, como lembranças a recordar aos homens que deve de existir amor. Será que um dia o dinheiro vai conseguir comprar o Sol? Pois, se já o compra! Talvez que ainda não o compre na totalidade, é possível, mas uma parte significativa sim, a parte de leão, a maior fatia, a melhor, a mais apetitosa e opulenta, sumarenta e apetecível fatia. Parece impossível que o dinheiro compre o Sol que é de todos, mas a verdade é que já o comprou. Assim como comprou a água, as florestas, os mares. Também é certo que comprou os céus, mas aí teve um pequeno e arreliante percalço. Um erro de cálculo, dirão muitos, todos os apóstolos que divinizam o dinheiro. Isso corrige-se, não é grande transtorno, um simples e estúpido erro de cálculo. Ora, quantos não se cometeram já? Errar é humano. E como não há-de ser humano errar se as encruzilhadas do caminho são tão difíceis de escolher! O que afinal é certo, o que é errado? Uma questão de simples semântica. O ar ruim polui a vida e é respirado por todos. Uma contrariedade, um contratempo. Não foi feito por mal; nada no fundo é feito por mal, o mal não existe porque para o definirmos tínhamos de o comparar com o bem, e onde pára o bem? – Eu estou só com os meus defeitos e as minhas virtudes. Tibério, isto não significa que não seja solidário. Sim, mais do que solidário eu sou fraterno. É isso, é o termo exacto, fraterno com os meus, contigo, com a família, com o clã, acima de tudo fraterno com a minha continuação. Se não fosse fraterno teria de ser hipócrita, como Judas, como os fariseus; mas eu não sou hipócrita porque escolhi ser fraterno. O mundo não é mais do que dinheiro com vida que se serve de grupos de homens eleitos, homens separados por interesses, mas acima
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de tudo homens fraternos dentro e para com o seu grupo. E tu, Tibério, és por demais precioso para seres um simples e modesto motorista. Tu tens carisma, tu executas as estratégias e os planos sem te desviares um milímetro dos objectivos. O teu sangue ferve-te com a força dos homens da nossa Sicília. Vais ser o meu braço direito, os meus olhos, os meus ouvidos, todos os meus sentidos, neste projecto que me proponho levar a cabo nesse país! – Eu, patrão? Então quem vai cuidar de si, quem o vai proteger, quem vai conduzir o seu carro, guardar-lhe as costas, eliminar os intrusos e os indesejáveis, guardar a sua família? – Tu! – Eu?! – Sim, tu, através de um dos nossos homens que vais indicar para te substituir e que fica sob o teu mando. Tu vais iniciar-te noutros voos! Sabes, Tibério, tu respeitas a justiça feita pelas mãos dos ofendidos, nunca deixaste impunes os que não cumprem com a palavra dada, e nós somos homens de palavra, homens que lavam a honra em sangue, homens que defendem o que lhes pertence. Quando estiveres instalado no país tens duas missões entre mãos. Uma, dar inicio à organização da sede do nosso negócio com novos procedimentos; outra, investigar todos os passos, hábitos e práticas do representante desse governo que assinou connosco os acordos e depois não cumpriu. Não se podem abrir excepções, não se pode nunca mostrar fraqueza; quem deve, paga a tempo e horas, ou é riscado da vida… Por entre as ramadas das árvores, uma fonte no meio de um lago circular punha no ar um arco de aliança com o céu. Um arco de cor, morrendo num extremo nas águas do lago e
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JOSÉ SOLÁ
no outro no topo no jacto da água. Tinha o Sol já adormecido um nadinha, deitado de lado na cama entre o céu e a terra, embalado pelos sonhos do dia que finava para logo, umas escassas horas depois, renascer de esperanças vestido, e Vito Cícero Malquisto teve um arrufo de ternura pelos tempos de outrora, pelo princípio, quando crescia na frente do pequeno banco de família, conquistado a pulso e a sangue, a golpes de audácia e a espertezas inarráveis. Ajeitou-se no banco, sacudiu a cinza de um charuto grosso que entretanto acendera e que, no calor do discurso, se tinha esquecido de atirar para o chão. Depois olhou em redor, cauteloso, atento, como se quisesse descortinar a presença de alguém. – Achas que alguém nos está a ver? – perguntou para Tibério. – Quem, patrão? – Não sei! Só te estou a fazer uma pergunta! Tibério levantou-se, meteu a mão direita por entre o casaco, sentiu a coronha da arma, dobrou o corpo, agachado, e espreitou por baixo das ramadas das árvores, junto ao chão. – Não, não está ninguém a ver-nos! – E achas que alguém nos pode ouvir? – Não, patrão. Se não nos estão a ver também não nos estão a escutar. – Ainda te lembras como faz o burro teimoso quando o querem tirar das couves? – Claro, patrão, isso nunca se esquece! – Então zurra, Tibério, zurra! E Tibério zurrou como nunca, alto e bom som, e depois os dois riram gargalhadas de gozo infantil.