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Dramaturgias sem palco

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Dramaturgias sem palco

Dramaturgias sem palco

Alberto Bravo

FICHA TÉCNICA

título: Dramaturgias sem palco

autor: Alberto Bravo

edição: edições Vírgula ® (Chancela Sítio do Livro)

arranjo de capa: Ângela Espinha

paginação: Alda Teixeira

Lisboa, janeiro 2026

isbn: 978-989-9284-07-4

depósito legal: 557506/25

Todos os direitos de propriedade reservados, em conformidade com a legislação vigente. A reprodução, a digitalização ou a divulgação, por qualquer meio, não autorizadas, de partes do conteúdo desta obra ou do seu todo constituem delito penal e estão sujeitas às sanções previstas na Lei.

Declinação de Responsabilidade: a titularidade plena dos Direitos Autorais desta obra pertence apenas ao(s) seu(s) autor(es), a quem incumbe exclusivamente toda a responsabilidade pelo seu conteúdo substantivo, textual ou gráfico, não podendo ser imputada, a qualquer título, ao Sítio do Livro, a sua autoria parcial ou total. Assim mesmo, quaisquer afirmações, declarações, conjeturas, relatos, eventuais inexatidões, conotações, interpretações, associações ou implicações constantes ou inerentes àquele conteúdo ou dele decorrentes são da exclusiva responsabilidade do(s) seu(s) autor(es).

publicação e comercialização:

www.sitiodolivro.pt publicar@sitiodolivro.pt (+351) 211 932 500

ÍNDICE

O Imaginário das Palavras

Retirar, repor, recomeçar (Monólogos)

O Berço

O Boneco de Praga (Uma Comédia sombria)

O Círculo

Agonia em Dourado velho

A Toca

Comédia

O Opúsculo dos Deuses (Acção dramática) 183

Primeira Parte

Revisão dos Cânones

As Suposições

Preview

O Imaginário das Palavras

Preview

RETIRAR REPOR RECOMEÇAR

(Monólogos)

MULHER Retirei o azul ao céu azul e o céu ficou vazio. Retirei o verde às folhas verdes e as folhas ficaram vazias. Retirei o sangue ao meu corpo e o meu corpo ficou vazio. Ao meu coração o amor e o meu coração ficou vazio. Retirar repor recomeçar.

MULHER Tudo podia ser mais simples, mas é preciso começar por qualquer coisa, que nunca será simples . Que tudo possa tornar-se mais simples, é por isso que é preciso começar por qualquer coisa . Simples é Preview

HOMEM Observado com atenção, aquele homem além parece deslocar-se, a menos que sejam os meus olhos .

MULHER A reposição é difícil de descrever . Passa-se durante a noite quando expulso pela boca tudo o que foi retirado como uma bulímica maliciosa: cores, cheiros, bocados de frases, bocados de corpos, mais raramente seres inteiros . De manhã, estou tão fresca e cheia de apetite quanto as coisas estão palpitantes do desejo de serem devoradas . Existe uma correspondência extrema entre o meu acto de retirar e o mundo oferecendo-se à extorsão das suas coisas, cores e criaturas . É um reabastecimento a partes iguais, a ganhos iguais, a perdas iguais . Não pode haver culpa . Mas tudo podia ser mais simples ainda .

HOMEM É preciso começar por qualquer coisa .

como tudo ter sido retirado uma vez e simples é também tudo poder ter sido reposto uma vez . Simples é recomeçar .

HOMEM Os olhos enganam . Dedicam-se a constantes movimentos quase imperceptíveis de sucção sobre a realidade, podendo assim pôr a realidade em movimento . Eu ainda não distingui com alguma certeza o que está dentro e o que está fora, como não estou seguro do que fazem os olhos porque me parece que os olhos não fazem senão dar a entender que vêem . Não é nada simples, mas complicado não me parece que seja . Tive uma amiga que dizia que retirava o azul ao céu azul e que o céu ficava vazio, por exemplo, e dava outros exemplos. Procurava a simplicidade . Porém, toda a gente continuava a ver o céu azul . Mas é preciso começar por qualquer coisa .

MULHER Por exemplo, recomeçar, será como ter nascido? Nascer é recomeçar? O que é que recomeça? Será que nasci ou apenas recomecei? Ou recomeçaram por mim? Recomeçar é simples . Nascer é simples . Sim, talvez possa dizer que estas duas coisas são simples, recomeçar e nascer, mas enfrentamos as consequências . O meu nascimento parece-me ser uma dessas consequências, e dentre essas, a que mais tem a ver comigo . Mas é compensador saber que outro nascimento teve a ver com outra pessoa, e outro nascimento com outra pessoa ainda, e por aí adiante . Pensar nisto relativiza tudo, não é verdade? Até lá, estamos todos aqui em determinada altura, e amamos mais ou amamos menos ou nada, odiamos mais ou odiamos menos ou nada, como naquele jogo do malmequer . Querem mais simples? Mas para algumas pessoas como eu esta simplicidade não é todavia suficiente. Está muito longe daquela simplicidade que procuro quando, privado de azul o céu azul fica vazio, e privado de sangue o meu corpo fica vazio. Ou melhor: concordo que há ainda mais simples . Há-de haver mais simples . Em todo o caso, com recurso à imaginação, há-de haver mais simples . Tomo então nota: aprofundar a imaginação. Se aprofundar a imaginação, obtenho cada vez mais simplicidade . Preview

HOMEM Enquanto o homem no topo do horizonte faz de conta que avança à custa das palpitações luminosas dos meus olhos, enquanto eu, talvez, ou talvez outro, tento lembrar-me do nome dessa minha amiga que intentava retirar coisas da realidade e depois repô-las sem ninguém dar por nada . Em suma, recomeçava de cada vez . Mas nunca repunha exactamente igual ao que retirara . Existia algures na operação um desperdício que para ela era um ganho mas que para a realidade significava uma perda . O recomeço, que para ela constituía grosso modo um acto positivo, uma aquisição, era para a realidade um acto negativo e como que a perda duma regalia . Pensando agora melhor do que pensei na altura, o que me parece estranho não é tanto o acto de apropriação, reposição e recomeço da minha amiga, mas o facto de haver uma coisa, que dizem ser a realidade, que se considerava lesada nessa transacção em busca da simplicidade . Assim, esta minha amiga, na sua paixão pela simplicidade, tornava-se em simultâneo a responsável dum abuso de confiança na pessoa da realidade, por mais bizarra que nos pareça uma tal formulação . E foi no entanto o que aconteceu . A realidade leva sempre a melhor, talvez por haver uma imponente maioria a apoiá-la . Mas eu devia, antes de tudo, interessar-me por aquele homem no topo do horizonte, a fazer esforços para deslocar-se com a cumplicidade preguiçosa dos meus olhos porque muito leva a supor que possa ser eu . Por conseguinte, convém que me mantenha atento .

MULHER E ao lado de tudo isto, de todas estas operações de sensibilidade que se desenvolviam na minha intimidade, era preciso viver . Estava estabelecido como condição necessária para que essas operações pudessem desenvolver-se e prosseguir como outra tarefa qualquer que se desenrolassem na vida . Portanto, eu vivia para isso . Eu vivia para lesar a realidade no seio da qual a vida se reduz à sua expressão mais complicada, e lesava-a da pior maneira, adiantando-lhe simplicidade para beneficiar no futuro, como uma conta de poupança. Não me vão dizer que é complicado . Para mim é simples, mas ainda não suficientemente.

HOMEM Meu Deus, como se chamava essa minha amiga? Como desejaria encontrá-la neste momento . Falo dela como se ainda estivesse viva, como se esse seu combate cheio de compaixão com a realidade não acabasse um dia por lhe roubar a vida duma maneira ou doutra . Era suave e triste como um pássaro das margens, aqueles que nos vêem passar sem ironia nem recolhimento excessivo . Aves simples, portanto . Aproximo-me do nome dela, mas aquele vulto no horizonte não se cansa de persistir sem resultados visíveis nem tão pouco parece desistir . Ao passo que eu complico tudo . Se me comparasse com ela, com essa minha amiga, o que não tenciono fazer, ela seria a água clara e eu a montanha que a ensombra com as suas formas agudas ou arredondadas, aproveitando-me da sua transparência . Acho que é um pouco isto . Sulcando de rochas em riste a sua transparência, como faz a realidade . Ou de rochas redondas .

MULHER Eu tentava ser delicada na minha empresa de devoração . Devoração, não seria bem isso, talvez esteja a exagerar por excesso de simplicidade. De apropriação, fica melhor assim. É menos violento do que um bebé a sugar . É mais apropriado . Assim, eu tentava ser delicada, ter cuidado com aquilo que levava, sem querer arrancar à força, como se a realidade, ou melhor, o que eu queria da realidade, se pudesse descolar docemente de acordo comigo . Mas nada na realidade estava de acordo comigo . Era como se eu tivesse de seguir uma norma não escrita, uma conveniência implícita, que me daria acesso com o agrado geral da realidade . Ora eu só conhecia a minha linguagem simples, e a realidade, as coisas que eu esperava destacar da realidade não me entenderam e empurraram-me com força para trás para que eu me despegasse . Como se costuma dizer, foi aqui que as coisas se complicaram . A complicação das coisas caiu-me em cima como uma ave de rapina sobre a simplicidade . Não é fácil, todos podem entender, a gente libertar-se das garras duma ave de rapina . E eu não era mais do que uma menina bebé . Mas era possivelmente uma bebé de rapina porque o grande pássaro negro acabou por me deixar, talvez por outros nasciPreview

mentos mais acomodatícios . Eu falei de aprofundamento da imaginação, não foi? E onde começa a invenção também começa a história disto e daquilo, a minha, neste caso . E foi assim que fui expulsa por excesso de simplicidade, ao que parece. Devia ter-me ficado de emenda em vez de perseverar na simplicidade . Este excesso de simplicidade, se era um excesso, para onde poderia eu transferi-lo senão para a realidade, onde ela falta?

HOMEM Estaria melhor com alguém, aqui, em frente do vulto . Alguém que me conhecesse bem e pudesse dizer-me com sinceridade e conhecimento de causa o que acha, que opinião tem, sem recear desiludir-me . Alguém que me dissesse: “não és tu” ou então “és tu”, com uma certeza que me desse confiança em qualquer dos casos. Nós dependemos muito dos outros . Pelo menos eu . Isto é, dependemos da realidade . E exceptuando talvez a natureza selvagem dos primórdios, eu não conheço realidade que não seja constituída pelos outros, com coisas uns dos outros, e outros à volta disso . A minha amiga também diria o mesmo noutro sentido . Ela queria dar simplicidade à realidade por meio daquela que tinha a mais . Ela era boa e corajosa . Eu sou um egoísta e um pusilânime, se a palavra é correcta . Dela afastam-se porque receiam a simplicidade do seu amor de apropriação, de mim porque não deixo que se apropriem de mim, grosseiramente dito . Não é bem assim . Tudo parece ser apenas um pouco do que pretendemos dizer . Não há que ter ilusões . Se não estivesse sozinho, podia até repousar-me e o outro ficar de atalaia. De atalaia para mim. Como eu sou egoísta! E o que faria eu por ele? Ia depender do pedido que me fizesse. E eu ia saber ou poder responder ao pedido dele? Que complicação. Eu sou mesmo complicado. E para simplificar digo: é preciso começar por qualquer coisa .

MULHER E foi assim que comecei a fazer a prospecção duma história simples sem estar na posse das ferramentas indicadas . Nas imediações onde me despenharam, quando fui violentamente despegada Preview

naquele gesto de me empurrarem para trás, para lá, comecei a procurar as coisas simples . Não podia ser senão nas imediações . Onde caíra doía, havia mesmo uma ferida, enorme, e da ferida saía sangue até um certo limite, construindo um círculo vermelho regular e belo, apaixonante, que seria talvez o protótipo da minha máquina de sangue simples, com que esvaziaria de sangue o meu corpo, a intervalos regulares, a fim de simplificá-lo. Quem está espalmado no chão como uma sombra do crepúsculo, ou quem foi lançado do alto e ficou a secar o sangue com a infinita paciência dos mártires, esses sabem do que falo, podem ter uma ideia do que é a simplificação. A simplificação é como a solução final com que os expulsos deste mundo, os despegados à força, os empurrados para trás com uma violência a que não se puderam opor se protegem de futuros horrores . Quando as coisas se complicarem para todos até não serem toleráveis, nós poderemos vir em socorro com a nossa experiência da simplificação. Como anjos ou águias brancas, voaremos em torno . Escreveremos pela mão do sol a primeira letra . Mas isso é para depois .

HOMEM Aqui estou então procurando outro, para observar comigo as deslocações e os desenvolvimentos do homem no topo do horizonte, talvez para contrariar o sentimento que tenho de que não há deslocação nem movimento mas uma espécie de colagem no céu, com a forma da criatura, colagem que os meus olhos sacodem de surpresa pestanejando, dando a impressão de que se move . Esse outro que evoco, um amigo com toda a certeza, poderia confirmar o movimento do homem no topo do horizonte, onde eu estou encerrado como um feto, e assim dar-me esperança . E como esse feto engastado no homem do horizonte – mas nesse caso seria mulher, mas terá importância? – contém em si toda a minha vida pronta a desdobrar-se, seria preciosa a opinião do meu companheiro, confirmando o suposto bem fundado da minha esperança. E se ele estivesse em desacordo? E se ele fizesse uma leitura dos acontecimentos acontecendo diferentemente? Se ele afirmasse, e pior ainda provasse, que o homem no topo do horizonte não existe de facto e que

é uma ilusão nascida do meu desejo, que o próprio horizonte todo é uma ilusão, que sustenta outras ilusões? E se assim fosse? Para que fim? Para obter o quê? Não é possível. Estas coisas não acontecem. Existe um acordo harmónico de princípio que afasta de nós o insuportável ainda que o estejamos a viver, e que o torna suportável . É isso . Que nome tem? Pertencerá às coisas simples da minha amiga? Ou não pertencerá? Ou a minha amiga, ao fornecer simplicidade ao insuportável, ia torná-lo, afinal, ainda mais insuportável? Ou, pelo contrário, torná-lo suportável à pele dolorida dos homens como água fria? São coisas de que não saberemos nada em tempo algum porque nunca serão realizadas ao nosso alcance . Eu não sei . Por conseguinte, o meu hipotético companheiro, observando comigo as evoluções estáticas da criatura do horizonte (chamemos-lhe antes criatura) chegaria a conclusões semelhantes, isto é, que se move ainda que imperceptivelmente e dando lugar a controvérsia .

MULHER A qualquer momento tudo podia sucumbir-me ou eu sucumbir ao avanço cego das coisas . A cada momento jogava-se a minha vida contra a realidade e a realidade contra a minha vida . Um jogo que ao mesmo tempo ambos os jogadores ganham e perdem, procurando simplificação. Passagem rítmica e delirante do passado ao futuro no bater dos segundos no ponteiro esguio e alto do relógio ao fundo da sala, onde a escuridão é maior . Eu sentava-me no chão em frente e chorava porque sabia que perdera, sabia que perdera e que ia perder depois de saber que perdera, sem poder impedir, sem poder rezar, sem poder morrer. Procurava simplificação e não sabia o que procurava. Diziam-me: “procura saber o que procuras” . Quem consegue entender isto? Voltava todas as manhãs, como uma viciosa, obediente, procurando saber o que procurava, procurando simplificação, em frente do imenso relógio sombrio, sentada no chão de pernas abertas como uma criança sem inocência nenhuma, como uma criança . Devorava, aspirava, mordia o ar, chupava tudo o que era luz no imenso aposento, depois lançava-me às sombras com os lábios trémulos, os dentes duros e finos, procurando

simplificação. Não era a morte ainda. Eu era uma criança. Acabara de cair do alto . Acabara de ser repelida, empurrada para trás com toda a violência do amor . Quem entende este amor?

HOMEM Ignorante de tudo, seria melhor, ignorante de tudo, e neste estado, olhar a criatura no topo do horizonte . Portanto, em estado de inocência . Como uma criança, supostamente . Um olhar assim, com estas características tão simplificadas, facultaria uma visão nova. Sem preconceito, sem desejo, sem memória, sem reserva hereditária, sem ADN descrito, sem sexo, sem género, apenas com o olhar cheio de visão nova . Portanto, sem interpretação nem tratamento de imagem . Neste estado, fixar-se. E rodar à volta da criatura. Um planeta. Sem velocidade mensurável do movimento . Sem ano solar . Uma coisa de infinito, de extracção de infinito, é como se definiria melhor. Uma coisa de infinito não está ao nosso alcance. E rodar à volta do que não está ao alcance . Rodar . Rodar .

MULHER Sabem? Com o tempo, com a insistência, tudo acaba por ser evacuado pela função das traseiras, coisas sujas, fecais coisas feias, lembranças que não são para ser lembradas, o pão duro, a água que adoeceu. Procurar simplificação seria não recordar, estar sentado com as pernas alongadas esperando a morte, voltado para a janela voltada para outra janela, e esta para outra, e esta para outras, e todas as outras para outras ainda; por fim, realizado o círculo, regressando pela entrada principal com a pompa dos nascimentos anunciados, sem simplificação, como um conto de vigário para levar a admitir como os baptizados são brancos, e como cheiram bem, quando os enterram com as suas crianças indecisas . Eu já passara, nas minhas deambulações, antes da madrugada, vadia, escrupulosa, e tinha levado o horizonte com todos aqueles que o procuravam para morrer em paz; por piedade, limpei-os dos dejectos e dos rancores que supuravam, enrolei tudo com o grande tapete do corredor, e foi possível ver no fundo, ver cegamente . O que vemos então zumbe e morre, vemos o simplificado e o que vai

ser simplificado quando for visto no fundo. Diziam-me que eu era uma mosca enlouquecida . E eu acrescentava ao que me diziam as duas asas que arrancara, para confirmar essa loucura de mosca, com a perícia solitária da simplificação. Era o mal e o seu resultado. O monstro e a sua tarefa esquartejada . Eu era tudo isso mais o que iria trazer no dia seguinte, sem memória que me fizesse arrepender, sem nada que me impedisse porque passava longe, como o fantasma na parede, celebrado pelo pavor das crianças viciosas . Diziam-me: “ por que recordas apenas o mal?” Eu não me lembrava de nada . Se me lembrasse, como poderia ser alguma vez o bem? Quem mo ensinou como um idioma que eu pudesse recordar? O mal, aprendi-o sozinha, quando todos passaram longe e me abandonaram, quando nem um só rosto se voltou para mim, quando todos os perfis humanos acabaram por desaparecer na realidade, na maldita realidade, e a porta se fechou em silêncio . Procurar simplificação talvez seja descrever como fui adoptada pelo silêncio, e não esperar ser compreendida .

MULHER Talvez eu já tenha uma história e tu te obstines a construir uma. Tu. Se queres a minha opinião, deixa-te ficar onde o destino te pôs, ou seja, preserva de qualquer mudança o lugar do que te aconteceu . Vai ao lado do tempo, apenas um nadinha mais atrás, para apreciares como o perdes . Entretanto, imaginas que alguma coisa mudou . Verifica se alguma coisa mudou, e verás como aquilo que digo é verdade. Verás que a mudança não tem aqui lugar, melhor, verás que não é essa a palavra. Isto é simplificar, foi o que eu te disse, calar-se porque houve engano de palavra, não é esperar que nos compreendam . Ficar em silêncio e ficar em paz. Ficar em silêncio é ficar em paz. Aqui está o ostrácio. Recebi-o na primeira manhã da minha vida . A gente não precisa que nos expulsem . Nós não partimos, aguardamos no ventre até que nos desterrem para donde chegámos, para lugar nenhum, ou para donde nos expulsaram . É a roda do riso gelado . Não lográmos nascer nem conPreview

HOMEM Verificar se alguma coisa mudou.

seguimos morrer, isto é simplificar, retirar, repor, recomeçar, naquele círculo de sangue que restou da queda do alto, paul rubro mudo, é a mesma palavra, a palavra que procuramos . E verás ainda que não é essa palavra .

HOMEM Quando passei a ouvir-te?

MULHER Nunca deixámos de nos ouvir . Há palavras dentro do sangue, por baixo do sangue . Soubeste tu de sangue que secasse sem voz? Faz-nos falta quem o oiça repudiando o mosquedo do poema, o grácil voltejar de libélulas admoestadas gentilmente por deuses sonolentos . Pedir esmola à porta do Olimpo é uma maneira tão inútil de viver como outra qualquer, e ainda por cima, com o fluir do tempo e o empobrecimento progressivo, já se passou discretamente à moeda falsa . Ficas assim a saber que também me sei interessar por assuntos de actualidade .

HOMEM Mas continuo a olhar aquela criatura no topo do horizonte . Deste ponto de vista, nada mudou, dando razão ao que disseste . Como também não mudou, dando razão ao que disseste, o meu desejo de outro que não seja eu, do outro que não sou eu… Não sei explicar-me .

MULHER Não te preocupes . Nunca serás entendido pelo que disseres . Compreender isso é o primeiro passo para a simplificação e para a união entre os homens . Achas-me cínica, sem dúvida . Não existe palavra mais utilizada desde que lhe perverteram o sentido. Já reflectiste alguma vez na paciente e competentíssima obra de perversão dos homens sobre o que ainda se mantem inocente? É logo ao sair do meio das coxas que perdemos a inocência .

HOMEM Que horror .

MULHER O que é que te horroriza tanto? Tu acreditas naquela criatura que leva nos flancos um feto alegre. Tu acreditas no animal robusto

que cumpre a sua missão de fecundidade, disseminando pelo mundo a sagrada ordem de Deus . A mim, puxaram-me para fora e atiraram-me para o chão, onde explodi dentro do meu corpinho enrugado e roxo . Sangue e mais sangue . Até hoje a aprender a falar como se houvesse uma relação . A palavra justa fará estancar o sangue? Diz-me . Tu que acreditas no nascimento como se fosse renascimento, diz-me que não estou morta de evidência, dá-me esperança a jorros de sangue . Consegue-me uma crença que não me aniquile pela segunda vez .

HOMEM Tento lembrar-me do teu nome .

MULHER Se me deres um nome, perdes-me . É porque vemos em profusão que somos cegos à cor que uniu todas as cores e é por caminharmos sem atenção que perdemos em absoluto o sentido da viagem . Se me deres um nome, passo a não ser . Aqui está . Como vês, tive todo o tempo para estabelecer os melhores paradoxos . A minha chegada a este mundo não foi, toda ela, um paradoxo? Queres melhor acolhimento do que um soco nas costas e uma tesourada numa tripa? Tudo previsto para encolher, para ficar enrolado, para tapar a simplificação. Muito do que se tira não é reposto, claro, é o que dá gosto à vida e uma apetência combativa pelo nascer do sol .

HOMEM Admitamos que sim .

HOMEM Eu nada sei disso, limito-me a olhar o vulto no topo do horizonte, ou no limiar do horizonte, não consigo distinguir . E já compreendi que não és quem eu esperava . És tão diferente de mim que não Preview

MULHER Uma falsa identidade é a palavra de passe que cabe a todos . Entendemo-nos tão bem na complicação dos patronímicos, não achas? E há também aquele, o pai . Já ouviste falar dele? Dorme no andar de cima, e tem prestígio . E quando desce a escada é de roldão e sem tempo de ter tirado o pijama . Algumas vezes resulta, outras não .

me serves de nada . O meu diálogo é de sol para sol . Estou para ser, estou para vir, basta olhar a criatura, além . Tens razão, ela transporta-me no seu bojo ardente. Só queria uma confirmação, mais nada. Um acontecimento destes não pode ser vivido sozinho .

MULHER Rastejas aos pés do teu dono como um cão submisso, imaginando que vais nascer do acordar de um deus, e procuras testemunhas para essa banal invenção de prematuro de génio . Meu caro, isso sucede a cada minuto . Terás mais do que testemunhas, terás cúmplices . E o perfume da fraternidade a entreabrir-te as narinas . Terás tudo isso . Quando acontecer, terás toda a vulgaridade do mundo . Terás um lençol branco a recolher o teu sangue honesto, exemplar, para que não se perca uma única gota . Nem retirado nem reposto . Reidratado . Recomendado . Conforme . Mas tem cuidado porque acontece que fabriquem um monstro . Não te vai suceder a ti, é claro… As ancas fartas da besta divina fazem prever quase um divino infante . Eu sim, eu fui arrancada como uma excrescência cancerosa e depois atirada para o chão para que um cão moribundo me levasse por mais quatro dias de vida . Estou apenas no primeiro dia, meu amigo feliz, vais ter de suportar os que faltam . Não tens escolha. O teu herói glorificador não vai chegar, e tens tanto medo de estar sozinho que vais preferir a companhia das minhas palavras, como uma peste que chega pelo ar, e que talvez a distância possa tornar inócua . Acham sempre que eu estou longe demais . O espaço que nos separa está cheio de remédios contra o meu bafo assassino .

HOMEM Eu como e bebo, engulo, absorvo, respiro futuro . Ao passo que tu te alimentas do passado do teu sangue, da crosta seca onde nem pousam as moscas . Por que te oiço ainda? Como fazer para deixar de te ouvir? Contemplar ao longe aquela bela criatura devia proteger-me de ti, calar as tuas palavras, substituindo-as pelo silêncio sensual do advento . Mas não é assim . Vou decidir que é uma provação que me é pedida porque nada do que é bom nos chega sem uma forma de martírio que lhe prepara a vinda . Preview

MULHER Observa como aprendeste depressa . Tu repões a vacuidade onde ela falta com um talento inegável .

HOMEM Por que te chamei minha amiga?

MULHER O que tu queres é um espelho, e eu sou uma parede riscada de vitupérios onde poderás distinguir o Bem do Mal, se te deres ao trabalho . É muito simples . Não vês como é simples? É verdade que eu cheguei apetrechada com tudo o que foi retirado e tudo o que não foi reposto, e ao ser arrancada, disseram-me: a culpa é tua . Repõe o que retiraste . Vai ser a tua tarefa . Não é a isto que se chama uma condição? Não é a isto que se chama um destino? Mas respondi-lhes que apenas iria repor aquilo que tivesse retirado eu própria . E como os dentes chegam antes das palavras, mordi e arranquei . Foi a minha primeira celebração e o meu primeiro gosto de sangue . E logo a seguir fui sorver o meu . Assemelhavam-se no gosto . Já tinha qualquer coisa a repor . De certo modo, apesar de me encontrar espalmada aos pés duma deusa, sentia-me bem comigo . Vês como vou organizando as ideias? A ti o devo .

HOMEM Não és quem eu pensei que fosses, mas não me parece que tenha por isso ficado mais sozinho. Antes pelo contrário: revigoraste o meu desejo . O vulto no topo do horizonte tornou-se um ser que começa a ter os traços de uma identidade que me apela, me reconhece, e sonha dar-me um nome . Estou a caminho do meu renascimento auroral . Tu desconheces a carícia da madrugada no teu corpo, a língua rósea excitando o teu olhar, a suave erecção do reconhecimento . Tu não sabes o que é o amor elevado em profecia . É isto que eu quero . Eu sou o que parte e o que chega . O encontro será onde os unir o destino . Que esse dia venha – esperá-lo, é como morrer na doçura da tarde de estio nos braços do meu duplo feliz, onde reside a ressurreição . Caminho curvado ao sol para arder mais longe . O sémen do meu incêndio de Titã assombrará um mundo novo . Preview

MULHER Depois de tudo o que disseste vai ser difícil renovares-te, falsário . Atingiste por herança a plenitude . Daqui para diante, viverás na estéril grandeza da repetição . Para que necessitas de sacristão quando o teu ofício é tão ferozmente luminoso que se engolfa na sua própria imagem? Não te vês repercutido de sol em sol? Olha bem, e vê se te reconheces, se a língua em fogo do meio-dia não te cegar pela segunda vez . Tem cuidado com as contemplações descuidadas, não aproximes demais os teus olhos do sol porque a cegueira está dentro de ti e, se fores capaz de olhá-la, não só não corres o risco de cegar, como poderás obter uma visão que te faltava, e cuja existência desconhecias . Achas-me pretensiosa e má? Talvez, mas fica a saber que nasci cega da revelação monstruosa desse conhecimento, que a luz infernal do sol fez arder os meus olhos no ventre da minha mãe, e que, graças a esse bem-vindo contratempo, nasci também nua de ilusões . Neste capítulo, como no do vestuário, sigo a minha moda . Mas tu ornas-te com as ferragens de ouro gasto pelo uso das gerações soberanas, e quando te vês ao espelho, julgas que as fabricaram para ti . Mas é assim que se reina neste mundo . Eu não sou mais que a barata que passa, e bem depressa, para que não a vejam .

HOMEM Por que me interpelaste? Não te bastavam as tuas simplificações? Não te bastavam os teus queridos vermes? Queres mais simples do que um verme? Ainda pretendes simplificar mais? Não estás suficientemente mortificada? Não tens mesmo nada de bom? A tua inveja não tem limites .

MULHER O teu mal é não teres a memória da tua vinda ruinosa, da tua queda humana entre os pés aduncos dos deuses como um jacto de mijo morno . Pois que não foi sequer entre as mãos desses seres sublimes que nós caímos porque talvez então um deles te tivesse recolhido, ao menos por curiosidade, e se tivesse apegado a ti… Mas eu caí aos pés deles, em baixo, muito em baixo . Fui parida de um animal de pernas alta e esbeltas, que se liberta deixando cair o seu fardo e ignorando-lhe

o valor, e que logo a seguir prossegue o seu caminho . Eu nem sabia gritar . E talvez tenha existido uma época assim, em que a fêmea humana se desembaraçava de pé . A violência da dor lembra sempre a violência doutra dor, que lembra ainda a violência doutra dor, até à simplificação precisamente . Não entendeste nada . Tu esperas cair do céu como um anjo desejado, e não nascer de baixo para cima, cego e ensanguentado como um feto mal-amado . Vais-me dizer que tanto tu como eu já nascemos, e que tu nasceste liso e bem alçado como o pénis do teu pai e eu toda enrolada e pegajosa como a outra coisa, donde parece teres-te ausentado sem danos visíveis . Tu não tens sujidade nas mãos, é isso?

De qualquer modo, a questão não é essa, como a tua inteligência já se deu conta . Todos damos ao cais da mesma maneira, em risco de afogamento . Mas, como a tua inteligência não se digna entender, a questão ainda não é essa. Aliás, se te interpelei, se é que o fiz, por que é que me respondeste? Eu não preciso de ti .

HOMEM A tua dor sofre-a sozinha, não quero ter a ver com ela . A minha dor, se assim lhe posso chamar, é uma dor alegre . Entendes isto? Não te é dado entendê-lo . Eu também não preciso de ti .

MULHER Ergue o teu plano, forja as armas, e parte à conquista . Dependes de mim como a carraça do sangue do hospedeiro . Tu pertences ao bando dos que apenas retiram e não repõem, eu tenho de repor por ti . Nunca deste por isso? Misturas caça e homicídio . A Natureza deve-te obediência, e depois será a tua vez de vergares os homens enquanto coisas da Natureza cujo benefício não parece evidente até que um outro homem, mais astuto e brutal, os transforme em escravos de senhores astutos e brutais . Tu serás um destes senhores e endossarás a sua divisa, segundo a qual apenas os escravos são repostos . A vossa alta coroa nunca vos será retirada . A dinastia é indiscutível como o sol e o sal da terra . É a ela que tu aspiras? Olha que não é fácil pertencer-lhe . Há crimes que terão de passar-te pelas mãos que serás incapaz de executar. Espera. Ainda tens tempo. A besta de flancos ornados apenas

se vislumbra ao longe… Talvez sejas tu que a imaginas impelido pela contemplação a que te dedicas no dia após dia das tuas visões sumptuosas . Aprende comigo . Eu nasci antes de tudo isso . Conheço o que quer dizer ficar. Ficar de fora, ficar longe, ficar para depois, ficar para nunca ser . Eu fui puxada ainda antes de nascer, é a única explicação possível, é uma das minhas mais caras simplificações, de facto. Ouve o que não quiseram que ouvisses, sofre o que não quiseram que sofresses . Um ventre abre-se para que venhas ao mundo, e depois o mundo abandona-te . Outros, como tu supões, nascem com o mundo a seus pés .

HOMEM Já ouvi o suficiente.

MULHER Consegues ficar sozinho?

A cada momento tenho de me recordar de mim, de voltar atrás e de contemplar o estrago da minha nascença . Nascença é uma palavra sem exactidão, o que é exacto é o estrago, a perfeita exactidão do imenso estrago, que se assemelha tanto à nascença que se confundem ambos, quando se procura a simplificação. E aqui estou eu a vaguear pelas palavras. Já perceberam como a simplificação é das operações mais complicadas? Acho mesmo que é a operação mais complicada de todas . Não é complicado o facto de afirmar que nascença e estrago se valem um ao outro do ponto de vista da simplificação? Mas é assim. Quem não entender nunca vai entender . Nunca vai entender que, para se chegar à sim- plificação, é necessário ter já perdido o que sempre foi simples, talvez para morrer com simplicidade . Aqui está como uma vida poderia ter sido simples e só o consegue ser no seu derradeiro minuto . O que corresponde a dizer que ninguém diz a verdade a ninguém em matéria de simplificação e que, nesse caso, o melhor é a gente repetir-se até que a simplificação acabe por eclodir pela força das coisas. Já te devo ter falado da força das coisas, como de muitas outras coisas, porque repetir é simplificar por saturação de repor quando se imaginou retirar. Não me perguntem porquê quando tudo é tão evidente excepto ao primeiro olhar, que é aquele que nos é dado para ver as aparências e roçar as for-

mas com malícia e satisfação suficientes para abdicar de outros olhares que possam existir para além desse, ou para cá desse, melhor dizendo . Estou a falar do primeiro olhar . O que eu quero dizer, se quero dizer qualquer coisa, e hei-de querer dizer qualquer coisa, é do mais simples saber. Afirmo por força da minha experiência que, a ver as coisas dessa maneira, não nos apercebemos de que tudo nos foi retirado no instante do estrago, isto é, da nascença . Mas talvez não estejamos a falar da mesma coisa . Todos sabemos que as palavras são um dos melhores meios para nos convencer o tempo inteiro de que estamos na posse de alguma coisa sobre a qual nos poderemos desentender com razão para ambos os lados . Como também sabemos que nascemos mudos e com a capacidade de continuar a sê-lo ou de aprender de vez uma linguagem da simplificação. A cada estrago de nascença é retirado o que nunca será reposto . Alguém devia dizer isto um dia .

MULHER Se eu precisasse de olhar-me, não recorreria a um espelho já preenchido . Preview

HOMEM Se eu consigo ficar sozinho? Ouve, minha pretensiosa, eu estou rodeado de tudo aquilo que vou ter, do rumor jubiloso ainda distante da Sua chegada, do perfume anunciador das suas corolas expandidas. Cada zéfiro articula o Seu nome na mudez perfeita. O nome do que na felicidade não pode ser nomeado – é esse o nome que pode aplicar-se à agitação profética do meu espírito . Miríades de insectos dourados perfazem uma corola ao redor da minha cabeça e abelhas que dispensarão o mel vêm já a caminho . Algo de excessivamente solar abrirá no meu corpo a rota do Sol. Se eu consigo ficar sozinho? Ousaste dizer-me tal coisa? A mim, o infinitamente habitado? Para onde emigraste, que já não te oiço? Desceste aos Infernos, mais a tua imprecação fogosa? Pois sabe que eu contenho nos pulmões e no ventre, nas coxas trementes, nos testículos míticos, a surpresa insustentável de outra Gestação, o sémen de outra Raça . Sim, sim! Não receio o que digo . Não fujo das palavras como do membro ardente as mulheres frouxas .

HOMEM Invejas-me, é isso!

MULHER Invejar-te, quando tenho tanto para ver no espelho que me reflecte entre as pernas entreabertas? Entre as menstruas e durante elas, quantas são as paisagens! O teu membro ardente, como dizes, entra e sai e não aprendeu nada . Mas eu digo-te que o mundo não está dividido, como tu pretendes . O fulgor solar do teu membro não ilumina nem com um pálido raio a obscuridade húmida e misteriosa que receias mais do que tudo . Mas que me importa a mim este estéril duelo? És tu que o queres porque ganhas sempre . O violador tem a força que lhe vem de melhores músculos e das piores leis . Mas que importa? Acontece que vim ao mundo . Que caí no mundo, que rastejo no mundo . Tu supões em permanência a tua espantosa réplica, o teu clone perfeito .

HOMEM Tens inveja, tens . Eu não cesso de ressurgir-me como descreveste, reconheço-te a argúcia . Eu estou além, no meu melhor, no bojo da nave de ouro .

MULHER Meu Deus, que distância que nem o inalcançável mede!

HOMEM É assim entre nós . Entre mim e essa coisa, esse pântano, que és tu…

MULHER Uma simplificação… Como é bom sentir-me compreendida.

HOMEM Começo a lembrar-me de ti… És aquele gosto de leite nem doce nem amargo .

MULHER Insípido?

HOMEM Sem sabor algum, apenas quente…

MULHER E achas pouco?

HOMEM Por que estou a falar assim, a dizer estas coisas? Eu devia estar no cais pleno de luz, de pé, a ver-me chegar . Seja o que for que me tenhas dado a beber, a minha sede agora é outra .

MULHER E o leite insípido mas frio, gelado até… Já imaginaste?

HOMEM Não me afastarás do meu sonho .

MULHER Como poderia? Apenas um sonho maior te afastaria do teu sonho . E eu não ocupo o sonho de ninguém . Chamam-me uma ilusão, e esvaziam-se, e vão-se embora . Mas não me interpretes mal, não estou a falar da condição da mulher… Faltam-me as credenciais . Eu nem sei se sei falar de mim, ando a aprender, parece-me . A gente vem de baixo, parte do mais obscuro, mas ao contrário da bela trepadeira toda verde e cheia de natural coragem, que se apoia no que lhe serve, não conseguimos mais do que uma bizarra figura no espaço, cuja harmonia nas formas quase sempre conseguida oculta a vanidade do intento .

HOMEM No género, o que queres dizer com isso? Na verdade, não te oiço . És como uma melopeia que me embala enquanto vejo, no horizonte, desenrolarem o meu pendão real . O meu Reino começará pelas armas inscritas, pela alucinação da Coroa, tão perfeita que a realidade Preview

HOMEM Ora… Por que te oiço se não te vejo, se não me lembro de ti, se não sei sequer se existes?

MULHER Aí tens um lindo mistério . E eu por que razão falo se a mais ser nenhum me posso dirigir? É de crer que ensino alguma coisa a mim mesma . Deito-me no meu colo e ensino à criança morta – numa dessas línguas vivas – a arte do inquérito e da procura de sinais. Simplificar, na minha acepção, significa ver claramente, ainda que nunca abandones o imenso país das sombras… Acontece que me engane no género . Já te deste conta?

não pode representá-la e muito menos colocá-la numa cabeça que não seja a do Rei universal . A partir daqui, o sonho é tão exequível e inevitável como a própria História . E sem retorno possível . O género, dizes tu? O meu género é o de que foi gerado na completude exacta e irretorquível . Não terei equivalente . Não haverá outro . Eu serei tudo, o Todo .

MULHER Oxalá foras apenas um poeta… Mais um poeta exaltado, uma mera agitação nas águas, que dura sempre o que dura . Agitação de pouco mais do que uma vida . De pouco mais… Estendo as minhas pernas, ponho o gosto de praia, e comove-me saber que o mar me ignora . Retiro o azul ao céu azul e o mar fica vazio de cor. Eu, que nada sou.

HOMEM Agora antevejo distintamente o que me espera . Aquilo para que fui eleito . As proas agudas não podem senão vir ao meu encontro . Navegam com essa intenção, eu sou o Cais que levou séculos de terror benfazejo a ser edificado sobre as águas apenas de nascente, as águas fartas nas ancas que partirão depois, reabastecidas com o meu jacto promissor de Advento . Quem veio falar de palavras? Foste tu que falaste de palavras? Inscrições na areia, as palavras. Palavras de fim. Nas bodas da sua morte, uso-as à boca cheia para ser ouvido no silêncio que as sorve . Aqui tens o que te deixo . À tua língua de abusadora, aos teus lábios obscenos .

MULHER Sob o céu de que retirei o azul, o céu vazio, e perante o mar sem o azul por mim roubado, vazio, sem cor, deitada ao sol na praia, só, eu sou a realidade, com as pernas estendidas na areia, porque se apreciam os detalhes mais do que tudo, eu sou a realidade . Pouco mais tenho a dizer, a não ser que o meu corpo me foi arrebatado e que me resta dele a sua sombra por fora, por dentro, os ossos . Vou falar-te do meu esqueleto previsto onde o teu se nega . Tu és a triste sombra pintada da tua colecção impensável de ossos, negada . Avança, meu imortal . Preview

Ergue-te mais longe do que a tua erecção . Onde julgas tu que habitas? Onde imaginas que se passa o teu próximo passo? Voas? Não enxergas o teu limite, a cerca de arame farpado a pontas de carne arrancada? Eu sou o teu limite, tu és o meu limite, mesmo que não durmamos uma só vez na mesma cama . Já te disse que nasci daquela coisa que nunca me quis, daquela coisa já vivente que me expulsou de si para continuar viva, com o intuito secreto de abolir-me, ou de me esquecer, daí nasci, afirmo, para desenraizar, a enxadadas forçadas ao abismo, uma origem, e estabelecer memória em cima duma história inventada, como algo escarnado, sangrento, não cessando nunca de sangrar . Quanto da nossa vida é sangramento de ferida que se desconhece! Sabes disso, não sabes? Por que o não queres ver? Donde tiraste essa luz que te cega a esse ponto?

HOMEM Não quero ouvir-te .

MULHER Homem, mulher, não importa . Ver para além sem ressurreição, sem alibi, mas também com lágrimas que não sejam de vidro que se quebre, lágrimas de pena dura e inchada por milénios de infanticídio . Oh, pobres vidas humanas! Quem vos chora dignamente? Quem vos mata a sério, matar de morrer, vós que atravessais o mundo em agonia, moribundas de um homicídio que não foi levado a cabo, de uma sentença ignóbil a ser executada sem data, na estrada do momento, por um bando sem rosto? Mau grado a inscrição cravada na lápide, sempre sem nome, sempre sem data, sempre sem pátria, pobres vidas humanas… Mas também sei que, a vários títulos, o que digo não é correcto . Careço de emenda, não me curvo nem aos grandes ventos . Um dia, também me estenderei na berma do caminho . Um destino deixará de pertencer-me . Estará disponível para outro . Os destinos revezam-se na banalidade . Que miséria!

HOMEM O meu destino é só meu .

MULHER A pretensão da auto-ajuda despovoa o mundo . Cada um com o seu anjo . Somos modestos, dadas as circunstâncias… Fastidiosa dramaturgia de espelhamentos .

HOMEM Nós não nos conhecemos . Talvez nos tenhamos cruzado uma vez, e esquecido . Existem tantas frases, milhões de milhões… Tantas palavras, milhões de milhões de milhões . Oh, como execro as palavras! A melopeia duma língua desconhecida, talvez… A melopeia . As ondas arrastando-se e morrendo .

MULHER Uma canção de embalar, a silhueta da morte no seu primeiro limiar, já à escuta, e a tirar o molde… Mulher, tu és louca! Vai antes cumprir as tuas obrigações de abortadora de deuses . Seja! Será assim! É assim que é e não doutra maneira . Tens razão, somos palavras que se cruzam, um ir e vir de formigas palavrosas .

MULHER Como te conheces mal… Se existe maldade em mim, não é para ser partilhada . Conheço os nichos onde abrigo o meu veneno . Reservo-os para uso próprio e para a minha própria depuração . Filtro-os, abençoo-os, e depois o vento que sabe atardar-se arranca de mim as crias, dá-mas a lamber o tempo exacto, e leva-as . É neste breve alvor, neste instante de esperança, nesta dobra frágil de ilusão que sou mãe, e imediatamente a seguir perco tudo de novo . Refaço-me no interior do buraco, reconstruo as paredes que doem, vou procurar o ar no cimo, onde ele falta, e se tiver sorte, encontro o novo nicho . Vivo no limite da morte . É onde está o nascimento . Vivo num limite que me desmemPreview

HOMEM Que situação insuportável! Forçando a tua sombra imensa que me impede de estar onde o sol se levanta, raspando a tua humidade de fêmea com o meu focinho de migrador triunfal . Não me vergarás . Não me reduzirás á forma da mão pousada no chão, decepada pelo teu capricho de vingança . Deixa-me . Vai . Mulher, tu és louca e má . Louca de maldade .

bra e restaura . Sou modesta, porém: vivo apenas como pode viver uma criatura como eu, que arranca e dá vida, no início de um sonho que é o seu mesmo fim.

HOMEM Como já te disse, não te entendo .

MULHER Retirar, repor, recomeçar .

HOMEM Donde te enviaram para me fazeres desertar com todas as minhas armas?

MULHER Ninguém chegou antes, ninguém está para vir . Consegues viver com este mal de velho a agonizar ao sol? Não esperes desvendar-me . Lembra-te mais uma vez como foste jovem sem nunca poderes ser jovem . O teu mito de amanhã perdeu-se na memória de todos . Já estivemos aqui . Voltamos a habitar para vir habitar um dia . Noutro dia .

A desolação do futuro é para onde aponta o teu cais . A proa gloriosa que já vês despontar vem para atravessar-te e te retalhar como a uma peça de carne fresca . Protege o teu silêncio . FIM

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