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Contos (ir)racionais

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Jorge Arriaga

Contos (ir)racionais

CONTOS

IR(RACIONAIS)

título: Contos ir(racionais)

autor: Jorge Arriaga

edição: Edições Vírgula® (Chancela Sítio do Livro)

arranjo de capa: Ângela Espinha

paginação: Paulo Resende

1.ª edição

Lisboa, fevereiro 2026

isbn: 978‑989 9284 09 8

depósito legal: 557551/25

Todos os direitos de propriedade reservados, em conformidade com a legislação vigente. A reprodução, a digitalização ou a divulgação, por qualquer meio, não autorizadas, de partes do conteúdo desta obra ou do seu todo constituem delito penal e estão sujeitas às sanções previstas na Lei.

Declinação de Responsabilidade: a titularidade plena dos Direitos Autorais desta obra pertence apenas ao seu autor, a quem incumbe exclusivamente toda a responsabilidade pelo seu conteúdo substantivo, textual ou gráfico, não podendo ser imputada, a qualquer título, ao Sítio do Livro, a sua autoria parcial ou total.

publicação e comercialização:

www.sitiodolivro.pt publicar@sitiodolivro.pt (+351) 211 932 500

jorge arriaga

CONTOS

IR(RACIONAIS)

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Descrevi nas páginas que se seguem, puxando pela memória, umas tantas histórias escondidas, que deixarão de o ser porque não resisto à tentação de as transmitir, preparando-as para a provável vadiagem a que ficarão sujeitas.

Episódios em que o protagonista se empenhou na busca de si próprio e em que a razão se desvia para caminhos originais. Caminhos que conduzem, quantas vezes, a comportamentos irracionais, porque a irracionalidade privada, tal como a pública, pode ser racionalmente construída e praticada. Neste caso para alcançar e proteger o que cada um considera a sua felicidade.

É esta específica vulnerabilidade da razão que me sensibiliza, e julgo compreender no seu sentido mais profundo. Lado a lado com os acertos e os desacertos que, vindos de fora, batem às portas para vender crenças coletivas.

Manipulações de uma das mais antigas capacidades humanas, a do raciocínio, a que Steven Pinker, da Universidade de Harvard, reconhecido como notável investigador na área da psicologia, dedicou profunda e esperançosa atenção. Nas próprias palavras do título da sua obra: Racionalidade: o que é, porque parece rara e porque importa.

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ÍNDICE

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O homem é um animal racional. É pelo menos o que nos têm dito. Através de uma longa vida, procurei diligentemente prova em favor desta afirmação. Até agora, não tive a boa sorte de a encontrar.

Bertrand Russel

Todos nós procuramos motivos racionais para crer no absurdo.

Laurence Durrel, O Quarteto de Alexandria

No combate que em mim opõe a razão à desrazão, esta última tem marcado pontos.

Amin Malouf, A odisseia de Baldassare

Steven Pinker, Racionalidade Preview

Devemos seguir sempre a razão? Precisarei de um argumento racional sobre porque é que deva apaixonar-me, amar os meus filhos e apreciar os prazeres da vida?

Por vezes não será bom enlouquecer, ser tolo, parar de fazer sentido? Ou será a intuição um guia melhor para as decisões da vida do que a cogitação (…), com o seu risco de reflexão excessiva e de racionalização?

A minha posição sobre a razão é: sou a seu favor. Embora não possa dizer que a razão é “fixe” (…) e, estritamente falando, não possa sequer justificar ou racionalizar a razão (…), devemos seguir a razão

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O PRESÉPIO

Num destes últimos Dezembros, em que uma neve adiantada já branqueava as árvores, resolvi construir um presépio com as minhas próprias mãos. Desiludia-me encontrar por todo o lado presépios sem alma, vindos de imaginações esgotadas, duas tristes figuras plantadas numa tabuinha onde mal cabia o sagrado recém-nascido.

Por isso, arranjei um bom pedaço de barro, dos que não precisam de ir ao forno, e meti-me à obra. Em várias noites de vigília, com os meus dedos inábeis, pouco habituados a trabalhos manuais, lá fui amassando o barro até lhe dar vida. Quando o primeiro boneco viu a luz do dia, senti-me investido na tarefa divina da criação. Presunçoso dessa competência, prossegui a construção dos demais actores. Apeteceu-me enriquecer o elenco, meter-lhe gente variada. Entretinha-me com a ideia de que o meu presépio viria a possuir vida própria. Um presépio em movimento, onde velhas e novas personagens se reunissem, por sua iniciativa e não através de mecanismos, para celebrar, ao som de algum cântico inventado, a vinda do Salvador. Assim, sem prejuízo de futuras aquisições, acrescentei-lhe desde logo um gigantesco aldeão vindo das estepes nórdicas, um anónimo soldado romano

e um músico flautista, de flauta pendurada ao pescoço, depois de cuidadosa investigação sobre a legitimidade de todos participarem naquele cenário.

Concluída a modelagem e atribuídas as devidas cores a todo o elenco, depositei a obra junto a uma janela, tendo como pano de fundo uma árvore que se descortinava no exterior, já enfeitada com farrapos de neve. Obedecendo aos preceitos usuais e à natureza das coisas, deixei vagas as palhinhas centrais do presépio, já que, como se sabe, o divino parto apenas haveria de ter lugar no dia vinte e quatro. Era noite alta e, extenuado, enfiei-me, feliz, na cama, para dormir o justo sono do criador.

Mas aconteceu não descansar muito tempo. Ainda a alvorada mal se adivinhava quando comecei suavemente a acordar, devido a um ruído persistente vindo de algum canto da casa. Apurei o ouvido sonolento e pareceu-me reconhecer vozes, vozes humanas, finas, agudas, embora em baixo volume. O meu cérebro, apesar de mal acordado, disparou-me logo avisos de alerta. Ainda com um pé no sonho de onde fora expulso e o outro no chão, procurei desajeitado a pequena pistola ilegal herdada do meu avô, escondida na cabeceira, e saí do quarto, em medrosa exploração. Não tardei a entender que a oculta conversa, que já me parecia ganhar moldes de discussão, se situava na sala agora palco da minha obra de arte. Foi talvez a ânsia de defesa desse património artístico, que contudo me parecia pouco apetecível para qualquer gatuno entendido, que me apagou os medos.

Empunhando a pistola, vazia de balas, abri a luz, entrei na sala e olhei o presépio. Fui de imediato acometido de forte

vertigem e tive de me agarrar a uma cadeira para não cair. Passada a tontura, restava-me acreditar no inacreditável. As vozes, pequenas e estridentes, saíam das bocas das figuras do presépio. E como se tal não bastasse, as figuras mexiam, gesticulavam, fazendo letra morta da dureza e da rigidez do barro já seco, que nem precisava de ir ao forno.

Devo confessar que a irrealidade da cena vinha ao encontro dos meus caprichos. De pistola caída, inclinado para a frente, limitei-me a ver e a ouvir. Diga-se de passagem que os figurantes não pareceram aperceber-se minimamente da minha presença. Atuavam fechados dentro do seu mundo, e eu, por meu lado, admiti que a minha capacidade de criar vida a partir do barro se aproximava afinal muito mais de outros poderes bem superiores.

Prestando mais atenção, verifiquei que o uso da palavra era sobretudo aproveitado pelo soldado romano, dirigindo-se com voz esganiçada ao aldeão nórdico. De forma tão agressiva que só fortes razões poderiam justificar. A figura alvo do ataque, do alto do seu corpanzil (que eu então reparei ter moldado demasiado grande), não se coibia de responder, com voz mais grossa, embora naturalmente limitada à dimensão geral do presépio. Infelizmente, estava-me vedado entender o que quer que fosse da discussão, já que os interlocutores, por mim criados com tanta devoção, se exprimiam em linguagem incompreensível. Concluí, porque assim me ditava a lógica e o bom senso, que estariam a falar línguas da época a que se reportava a minha obra. Talvez latim, ou aramaico, ou qualquer outro dialeto de comunicação entre os povos, que a minha pobre cultura desconhecia

e que, portanto, eu nunca poderia ter injectado no barro que amassara.

A discussão começou a azedar, sem que eu soubesse como lhe pôr termo. A tal ponto que um dos reis magos, concretamente o rei Belchior, incapaz de se conter, interveio na disputa, aparentemente tomando o partido do aldeão. Fez soar a sua pausada voz de velho, mas as mãos tremiam-lhe de tal modo que por pouco não lhe caía ao chão o esplendoroso cofre repleto de ouro, desvendando antecipadamente uma das mais preciosas ofertas destinadas ao Deus Menino. Por momentos, cheguei a pensar se não estaria a assistir a uma discussão com contornos políticos. Apesar da barreira da língua, parecia-me que o destemido soldado, na sua linguagem gestual, pretendia expulsar o cidadão nórdico do presépio. Talvez os seus olhos de legionário vissem naquela figura um dos odiosos bárbaros que procuravam invadir o seu querido império romano. Talvez o bom rei Belchior, que uma brilhante estrela guiara desde a Pérsia, se escandalizasse com a presença naquele lugar sagrado de um militar romano, inimigo da sua pátria.

A verdade é que o desenrolar dos acontecimentos não me permitiu enredar-me nestas conjeturas. Repentinamente, o soldado calou-se, desembainhou a sua espada (curiosamente, não me lembrava de ter moldado uma bainha para a espada), correu para o aldeão nórdico e, de um só golpe, decepou-lhe a cabeça. Os dois bocados de barro, correspondentes ao corpo e à cabeça do executado, caíram com um baque sonoro no chão do presépio. Tal como a própria espada, que apesar de ter consumado a execução, se partiu em duas com o consequente impacto.

Foi um alarido no presépio. Todos os figurantes se puseram a gritar ao mesmo tempo, numa cacofonia de babel. O rei Belchior acabou por despejar mesmo o seu ouro junto às palhinhas, enquanto o flautista se encolhia lá para o fundo, após alguns segundos de desastrosa desafinação. Nossa Senhora, por hábito serena e radiosa no comum dos presépios, olhava aflita em redor, com as mãos agarradas à sua redonda barriga de grávida, que eu também não me recordava de lhe ter colocado, por não ser adereço tradicional.

Especado frente ao presépio, em evidente processo de autodestruição, compreendi que precisava de agir de imediato, sem cuidar das consequências. Guiado pelo instinto, agarrei rapidamente no soldado, na lâmina quebrada da sua espada e nos dois bocados mortais do aldeão e atirei-os ao chão, bem para longe. Em seguida, retirei o nascituro Jesus da gaveta em que se encontrava a aguardar a data certa do nascimento e, num reflexo certeiro que não poderei explicar, deitei-o nas palhinhas que lhe estavam reservadas.

Nesse momento, o presépio aquietou-se, as figuras imobilizaram-se, novamente reduzidas à sua modesta condição de barro de moldar, e o ventre de Nossa Senhora regressou à esbelta silhueta por mim talhada.

Não entendi, como se calcula, se esta radical mudança se devera ao toque autoritário das minhas mãos, enquanto responsável por um cenário vítima de tão inesperada perversão. Ou se o apaziguamento da desordem foi, ao invés, obra do próprio Menino Jesus, que, extemporaneamente aconchegado nas suas palhas, ali praticou a primeira acção em prol da paz e da bondade universais.

Acordei de manhã, já a luz cinzenta de inverno clareava o quarto. Abri os olhos estremunhados e passei um bom momento até me convencer de que os abria pela primeira vez desde que me enfiara na cama, após terminado o presépio. A vibração do poderoso sonho apoderara-se de mim e regressei com alívio ao mundo real. E também com algum desconsolo. Afinal, fora-me permitido introduzir, e depois anular, com uma mera dezena de bonecos de barro, perturbações num acontecimento de significado universal, capazes de mudar o destino do mundo. Tivera nas mãos um poder supremo.

Sobressaltei-me logo de seguida. Dizia-me a experiência que as imagens sonhadas, mesmo nas melhores cópias da vida autêntica, podem desaparecer num clicar de dedos, despejadas em algum poço sem fundo. Não poderia aceitar que isso acontecesse a tão alto nível.

Saltei da cama, agarrei em papel e lápis e pus-me a relatar, o mais fielmente possível, as peripécias acontecidas. Ignorei o pequeno-almoço, ponto alto da manhã. Esqueci-me de levar à rua o grande labrador amarelo, companheiro de sempre. E nem respondi aos bons-dias da velha empregada, que entrou em casa com chave própria, para a rotina da limpeza.

No final da tarde dei a crónica por terminada e regressei aos afazeres insignificantes da existência.

Só no dia seguinte me lembrei de rever a obra depositada junto à janela. Enlevei-me com a minha imaginação e habilidade, antes de me quedar boquiaberto. Das três novas personagens inventadas, apenas restava o músico flautista. O soldado romano e o aldeão nórdico tinham desaparecido, precisamente os dois figurantes que, no sonho, eu atirara para o chão, após a vergonhosa desordem em que se haviam metido. Olhei em redor e não tardei a descobrir o soldado, a lâmina quebrada da sua espada e os dois bocados do aldeão caídos no chão, junto de um dos pés do aparador da sala. Parecia que a realidade decidira copiar o enredo do sonho. Alarmado com tão absurda situação, apressei-me a apanhar os restos destroçados dos bonecos e a metê-los sem hesitação no lixo, consciente dos perigos, sonhados ou reais, que envolveria a sua recuperação.

Porém, na primeira ocasião em que de novo me aproximei, para o exibir a amigos, deparou-se-me, bem aconchegado Preview

Tentei encontrar ainda alguma lógica na incoerência que me rodeava. Apesar de lamurientas negativas, não excluí que Valentina, a encarregada da limpeza, já com muita loiça partida no seu activo, tivesse causado, logo na faina daquela manhã, a morte dos dois estreantes. E nada me garantia que Toby, o adorado labrador, curioso de mais e cauteloso de menos, não fosse o responsável pelo mesmo desastre durante a própria noite.

Perante tão frágeis probabilidades, resolvi afastar o assunto das preocupações imediatas. Passei a olhar o presépio apenas de longe, a fim de evitar novas surpresas do destino, divinas ou não.

nas palhinhas, com o ar mais feliz deste mundo e do outro, o futuro ocupante do local. Onde eu o depositara, em sonhos, para reprimir a desordem que lavrava no presépio. E que, na vida real, fora arrumado numa gaveta, aguardando a aparição na noite da consoada.

Esta última descoberta, que me escapara, perturbou-me muito mais do que as anteriores. Já não se tornava possível atribuir à velha empregada, apesar da confiança que conquistara naquela casa, e ainda menos ao cão, a transferência de Jesus da gaveta para o presépio.

Cheguei a admitir ter sido vítima de um sonho lúcido, que alguém, entendido na matéria, me garantira que existia, no qual a pessoa tem perfeita consciência de estar a sonhar, de forma tão intensa que pode alterar, por sua vontade, a sequência do próprio sonho. Teria eu, num excecional sonho lúcido, conseguido mudar o rumo da própria realidade? Ou dedicara-me antes a sonâmbulas deambulações noturnas, um autómato de olhos abertos agindo na escuridão?

Aventurei-me pouco por estes caminhos, receoso de que não me levassem a parte alguma. Limitei-me a admitir que o sonho e a realidade se encontram separados por uma finíssima folha de papel, que apenas quando se rasga deixa à vista abissais aproximações e afastamentos entre ambos. Neste caso, perdurou o encantamento que me provocara a cintilante história vivida no presépio. Fosse ela um sonho da realidade ou a simples realidade de um sonho.

Decidi de imediato guardar o presépio bem guardado, num canto escondido do sótão. Na esperança de, em outras oportunidades, persuadir as figuras sobrantes, quem sabe se Preview

com a ajuda de um sonho lúcido ou demais forças ocultas, a exibirem-se em novos enredos. Embora os desejasse mais pacíficos, pelo menos sem mortes nem agressões físicas. Uma esperança inabalável, um desejo secreto, que sabia que não mais me largariam.

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CÓDIGO DE HONRA

Eric teria à volta de sete anos quando conheceu o bisavô, com cinquenta de idade. O encontro aconteceu por mero acaso, num dia em que a sua mãe precisou de entrar na sala de visitas e Eric aproveitou para a acompanhar, como quem não quer a coisa, e entrar também.

A sala de visitas encontrava-se normalmente fechada à chave e destinava-se apenas a receber determinadas pessoas de fora, quando o pai achava necessário rodear o acontecimento de alguma cerimónia. Eric estava proibido de penetrar nessa divisão, por razões que ele desconhecia, mas que calculava que tivessem a ver com o receio de poder desarrumar, partir, sujar algum objeto ou móvel que por lá existissem. Proibição que o próprio Eric considerava profundamente injusta, ele que era incapaz de estragar o que quer que fosse, a começar pelos próprios brinquedos, sempre mantidos em perfeitas condições. Mas a ordem viera diretamente do pai e uma ordem deste não se discutia. O pai fora um militar de média patente, veterano da guerra colonial, mais tarde convertido aos negócios da construção civil, nos quais, segundo explicava, se ganhava mais de olhos fechados do que nas fileiras do exército, mesmo de arma na mão.

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