ALBERTO BRANQUINHO
CAMBANÇA FINAL (Guiné – Guerra Colonial)
- CONTOS -
Cambança Final
Edição: Vírgula Título: Cambança Final Autor: Alberto Branquinho Paginação: Nuno Remígio Capa: Patrícia Andrade 1ª Edição Lisboa, Maio 2013 ISBN: 978-989-8413-88-8 Depósito Legal: 357374/13 Publicação e Comercialização: Sítio do Livro, Ldª Av. de Roma nº 11 1º Dtº - 1000-261 LISBOA www.sitiodolivro.pt ·4·
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OBRAS DO AUTOR Prosa: - “Pretexto” - Edição de autor (1973) - “Contos com encontros” - Setecaminhos (2007) - “Cambança/Guiné - morte e vida em maré baixa”- Setecaminhos (2009) - 2ª edição - “Parições & Aparições” – Fonte da Palavra (2012) Poesia: - “Sobrevivências” – Setecaminhos (2004) – (identificado como Alberto Abrunhosa)
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APRESENTAÇÃO Este livro “CAMBANÇA FINAL” está na continuidade de um outro, intitulado “CAMBAÇA – Morte e vida em maré baixa”, editado pela Setecaminhos, com 2ª. edição revista. Foi mencionado a páginas 127-129 da antologia de literatura sobre a guerra colonial na Guiné “Adeus até ao meu regresso”- Âncora Editora, 2012, de Mário Beja Santos. A maior parte dos textos aqui contidos foi já publicada no blogue colectivo “luisgraça&camaradasdaguiné”. São mini contos, abordando não só aspectos dramáticos da guerra, como também situações pícaras ou bizarras e encontros/desencontros de culturas que foram obrigadas a conviver no mesmo espaço geográfico, em tempo de guerra.
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ADVERTÊNCIAS As personagens destas pequenas histórias poderão ter semelhanças com pessoas que tenham, porventura, vivido acontecimentos idênticos. As aldeias, rios e lugares referidos nos textos não existem na realidade geográfica da Guiné.
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CAMBANÇA É uma passagem para o outro lado (de um rio). Por vezes uma fuga ou uma mudança. Pode ser uma partida ou um regresso. Quase sempre com a vida em maré baixa.
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A GUERRA E OS HERÓIS Toda a guerra é estúpida. Herói não é o temerário, o desesperado, o inconsciente, o vingativo, que, como consequência dessa temeridade, desespero, inconsciência ou sede de vingança, pratica actos que provocam danos ou baixas ao inimigo. Herói é aquele que, consciente do perigo, se expõe, ajudando os outros e salvando vidas. No entanto… … todo e qualquer homem, alienado, dentro de ambiente de guerra, pode perder a serenidade e a capacidade de discernimento e praticar actos que, em circunstâncias normais, nunca teria praticado.
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CAMBANÇA COM CARONTE No meio de tanta confusão - tiroteio, gritaria, bazucadas, roquetadas, rebentamentos de morteiro… - o homem ouviu um grande estouro próximo de si. Depois… foi o silêncio. …………………………. Agora navegava. Sentia um leve baloiçar. Talvez da água. O rio era escuro. A canoa avançava, a impulsos do remador. Lentos. Os remos a chapinharem levemente na água. O ar irrespirável, espesso. Céu não havia. Só uma luz ténue a afastar-se. Longe. A canoa penetrava o escuro lentamente. O homem, deitado, via o vulto do remador, o oscilar das vestes, o capuz que lhe cobria o rosto. Via a repetição dos gestos dos braços. Agora havia um grito agudo, contínuo e angustiante. Não sabia se lhe estava dentro da cabeça ou se vinha de longe. Tempo, não havia. Por entre o grito ouvia vozes graves, profundas. Ora próximas, ora distantes. E, talvez, murmúrios de quem reza. Parou. A canoa ficou suspensa sobre a água. Vozes. E o grito. Vozes, mais vozes. Perto, muito perto. · 15 ·
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Sentiu que abria os olhos. Por entre um manto vermelho, para além tudo era branco. Sentiu uma grande angústia. Fechou os olhos. Lentamente. Sentiu a cabeça, dentro, bater com força, ao ritmo do coração. E o grito a aumentar, a aumentar. Ouviu berrar. Chamar alguém. Agora o remador empurrava-lhe o peito, ao ritmo de quem rema. Tentou gritar. Não conseguiu. O grito ficou-lhe encalhado na garganta. Depois, tudo foi ficando escuro. Lentamente. Escuro e quedo. E acabou. (NUNCA MAIS!)
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CAMBANÇA NOCTURNA Qualquer intervenção militar na outra margem do Rio Chabarol envolvia, pelo menos, uma Companhia. Cerca de cem homens, portanto. Para fazer a cambança desses homens havia somente uma canoa com dimensão capaz, que era de um homem balanta, que a operava. Transportava doze a quinze homens em cada travessia, dependendo da carga que cada homem transportasse. Se carregasse bazuca ou metralhadora mais as respectivas granadas ou fitas, a carga de homens tinha que ser aligeirada. Eram, assim, seis a oito viagens de ida e volta, regressando, de cada vez, o remador sozinho. O Rio Chabarol tinha, ali, cerca de duzentos metros de largura. Toda a cambança tinha que ser feita em maré-cheia para que o pessoal não ficasse atascado nos lodos durante as operações de embarque e desembarque. Toda esta movimentação atraía a atenção das populações, afectando, portanto, a surpresa das operações e o seu sucesso. A notícia da tropa a cambar o rio passava rapidamente. Os guerrilheiros tinham tempo para tomarem as medidas que entendessem adequadas, entre a primeira travessia e o início das movimentações da tropa na outra margem. Por essa razão, o oficial de operações propôs ao comando que a cambança fosse efectuada durante a noite e em tempo de lua nova. Os homens ficariam a aguardar o romper do dia deitados pelos cantos do destacamento situado na outra margem. · 17 ·
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Houve quem colocasse objecções à cambança nocturna, argumentando que, no caso de o carregamento cair ao rio, não havia qualquer possibilidade de socorro. Porque na primeira travessia não ocorreu acidente, passou a ser rotina a cambança nocturna. O remador balanta era chamado somente depois de a tropa ter saído do quartel em coluna apeada em direcção contrária à do rio, evitando, assim, dar sinais sobre a sua intenção. Os resultados militares foram superiores aos dos tempos da cambança diurna, mas somente nos três ou quatro primeiros casos. Depois, os resultados diminuíram. (- Porquê? – interrogava-se o oficial de operações.) Depois de a tropa ter já saído do quartel, era enviado um soldado milícia chamar o remador. Este esperava que o outro se afastasse e, ainda estremunhado, fazia a lavagem sumária das mãos e da cara, vertendo água de um pote de barro. Arrumava o pote no interior da palhota e metia nos bolsos qualquer coisa para comer. Ainda ensonado, batia na porta de uma palhota próxima. Do interior respondia um grunhido ensonado. Batia de novo. Surgia a cabeça do vizinho e, então, dizia-lhe: - Amanhã vai matar galinha. O outro regressava ao interior da palhota e ele seguia para o rio. Alguns minutos depois de o remador ter saído, o vizinho ia também para o rio, mas por caminho diferente e mais longo. Num local a jusante da cambança da tropa atravessava o rio numa pequena canoa, escondida e amarrada à vegetação de tarrafe. Chegado à outra margem caminhava para o interior durante alguns quilómetros. Regressava antes do amanhecer.
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CRÓNICA DE UM LUGAR NO MEIO DA GUERRA Mesmo em espaço de guerra, havia lugares e… lugares. Embora com muito em comum, eram, também, muito diferentes – na guerra em si mesma, na sua intensidade, perigosidade e proximidade. O lugar de que venho falar era maior que os lugares mais comuns, que, além de serem mais pequenos, tinham só militares ou só militares e população nativa. Este tinha, até, população civil não nativa. Para o tamanho da Guiné, era uma vila. Tinha casas de pedra e tijolo, algumas casas comerciais próximas do quartel, que era, na sua maior parte, resultante do aproveitamento de habitações de civis. Antes da guerra era um entreposto para recolha e saída de produtos da terra. Como é sabido, todos os lugares têm as suas figuras e os seus figurantes, com mais ou menos capacidade de intervenção (e interacção) na sociedade civil (se a entidade militar o permitir…). Essas figuras desempenham o seu papel no palco da vida (e, por vezes, da morte – porque esse, como outros lugares, era, de onde em onde, atacado pelos “turras” com canhões e morteiros pesados). Havia um PIDE, mais propriamente um Agente da Polícia Internacional e de Defesa do Estado. Estava instalado numa vivenda junto ao quartel, não muito longe de um dos cavalos de frisa. O PIDE tinha uma mulher, a sua mulher ali consigo, que, convenhamos, era estranho naquele lugar, pois que comportava um certo perigo. Muitos tinham mulher, mas não tinham (ali!) as suas mulheres. · 19 ·
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Um dia, durante um ataque nocturno, rebentou uma granada de canhão contra o muro da vivenda habitada pelo PIDE. A mulher quase abortou. Saiu em helicóptero, na manhã seguinte, para Bissau e não me recordo que tenha regressado. O PIDE, agora sozinho, quando não falava pelas antenas, passou a andar mais fora de portas, procurando o convívio com os militares (os PIDES também sofriam de solidão…). Havia, também, um Oficial de Informações do Batalhão que não gostava do PIDE porque ele tinha mais (e melhores?) informadores que ele e porque o PIDE tinha antenas mais altas (daquelas das telecomunicações…). Quando o PIDE lhe aparecia, com salamaleques, fingindo trazer-lhe informações importantes (que eram, afinal, os restos das que já tinha transmitido para Bissau através das suas antenas), o Oficial de Informações tratava-o “por cima da burra” e não o convidava para um whisky no bar. Aí o PIDE procurava atracar-se aos oficiais milicianos, mas estes “assobiavam para o lado”. E o Chefe de Posto? Ah, pois! O Chefe de Posto. Não, não era chefe de posto – era Administrador. Mas sem funções executivas, como é óbvio. Ocupava uma casa grande, com muro e grades de ferro (de um verde debotado) em volta. Como é fácil adivinhar, era de origem cabo-verdiana. Com porte solene e respeitável, tinha ao seu serviço alguns cipaios, fardados de calção e camisa caqui, armados de Mausers e tinham, no topo, um chapéu colonial, igual ao que é usado nos safaris (safari sem esse chapéu não é safari!). De vez em quando visitava o Comandante do Batalhão, que, enfadado, o recebia e, depois, acompanhava à porta. Apareciam, também, um ou dois padres italianos, que falavam assim para o esquisito – não era português nem italiano nem crioulo, era um cocktail dos três modos de falar. Apareciam depois das chuvas e às prestações. Constava que recebiam informações em “sentido contrário”. Talvez por isso deixaram de aparecer. Havia mais, muitas mais personagens. Havia um alferes, especialista em fazer contas, que era muito distraído, mas, a fazer contas, ficava muito concentrado e batia tudo certo. · 20 ·
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Para terminar, queria falar do Zeca Babuíno, um macaco-cão que tinha sido adoptado pelos soldados que trabalhavam na messe de oficiais. Era, também, protegido do alferes das contas. Um dia, o Zeca, apanhando a porta aberta, invadiu a sala de jantar e decidiu passear por cima da mesa das refeições e mijou em cima da fileira de pratos e talheres. Tristemente, ninguém entendeu que esse acto tão simples significava grande apreciação pela limpeza e ordenação daquele espaço e que não era mais do que a demarcação do seu próprio território. O Zeca foi zurzido de pancadaria e chorou, chorou, chorou. Fugiu para as traseiras da casa, arrastando-se pelos cantos, cosido com as paredes. Pensei que ia passar à clandestinidade. Não. Acabou, como sempre, o seu choro no meio dos ramos, em cima da mangueira próxima. Quando chegou o alferes das contas, saltou-lhe para o colo, abraçando-o pelo pescoço e continuando o choro. Acabou por entrar-lhe para dentro da camisa, aninhando-se-lhe no peito. Que conclusão retirar da análise destas personagens? Quem era, afinal, aquel qui na manda? Era quem tinha o cuidado de demarcar o seu próprio território? A resposta está na análise do acto do Zeca Babuíno, que, mijando, estabeleceu as suas fronteiras e tentou transmitir que: - Neste território mando eu! Não conseguiu o que pretendia e, além disso, levou pancada dos guardiães desse espaço. E também nada conseguiu com o apoio do alferes das contas, pois ele tinha só… canetas e lápis.
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NOTÍCIAS NOUTRA BANDA Passados quase três dias de mar revolto, enjoo, vómitos e clausura na cabina, o alferes conseguiu tomar um banho e sair. Foi jantar com a cabeça e o estômago já acomodados à leve oscilação do navio. Depois do jantar e de algum tempo de conversa, decidiu sair da sala e ir apanhar ar. Foi sentar-se num cadeirão virado para a popa. A lua, em quarto crescente, com céu limpo, permitia ver um pouco da espuma do rasto do navio. Olhando para o convés abaixo, viu vários vultos. Desceu as escadas e foi ao encontro deles, tentando identificar soldados do seu pelotão. Chegaram-se vários, mesmo de outros pelotões. Exalavam um cheiro a vómito fermentado, que incomodava. A leve aragem que corria ajudava a afastar o cheiro. Essa era a razão porque vinham para cima, para o ar livre e ali vinham permanecendo todo o tempo, mesmo durante a noite. Alguns estavam alojados num porão abaixo da linha de água. Queixaramse de que não se podia estar “lá em baixo”. Tinham começado a vomitar desde a entrada em mar alto. Os comprimidos para o enjoo começavam agora a fazer efeito. Não reclamavam da alimentação. Queixavam-se das condições do alojamento, que os obrigava a trazer os sacos de campanha para cima, porque “há filhos de muita mãe”. O alferes ficou por ali algum tempo, circulando por entre eles, conversando, tentando localizar mais soldados do pelotão. · 23 ·
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Subiu as escadas e voltou a sentar-se no cadeirão, observando-os. Alguns já se acomodavam, com cabeça sobre os sacos, aproveitando os cantos mais abrigados. Olhando em volta, viu sobre a direita, quase junto à amurada, uma escada de ferro que dava acesso ao convés superior. Aproximou-se e concluiu que a escada começava mais abaixo. Agarrou os ferros da escada com ambas as mãos e tentou abaná-los, testando a segurança. Satisfeito com a firmeza que demonstravam, subiu. Primeiro um lanço de escadas, depois o outro. Ali a aragem era mais forte, quase fria. Para o lado da proa nada conseguia ver por causa das chaminés e outras saliências. Olhou para a popa e notou que o borbulhar da espuma era dali mais notório. Olhando em volta, viu um vulto de homem, sentado no chão, de pernas cruzadas, parecendo ter uma mão na cabeça. Devia ter os olhos fechados, pois não deu pela sua aproximação. Num repente, levantou-se, metendo qualquer coisa no bolso das calças. Viu, então que era o furriel de origem cabo-verdiana, pertencente a outra Companhia do mesmo Batalhão, com quem tinha bom relacionamento. Dissera-lhe ter já vivido em Bissau nos tempos de menino. O furriel, ao ver quem era, sorriu, tirou do bolso um pequeno transístor e mostrou-o. - Então, saudades já? A ouvir a Emissora Nacional… - Não, alferes. Do outro lado… - Você aqui já consegue ouvir Bissau? - Nã… do outro lado… - Do outro lado?... Ah! - Eles já sabem que nós vamos aqui. - ?! - Sabem o nome do barco e qual a tropa que aqui vai. Ficaram ambos calados, a olhar-se. Um, talvez, já arrependido do que dissera, o outro atentar interiorizar a realidade. - Alferes, espero que não vá falar disto a ninguém. - Nã… não. Até amanhã.
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Não foram colocados na mesma zona de intervenção na Guiné, mas, alguns meses depois, o alferes soube que o furriel fora transferido para Bissau. Constava que, quando a sua Companhia ficava debaixo de fogo, ele se deitava no chão, de costas, colocando a arma ao lado do corpo, até que o fogo acabasse e a caminhada fosse retomada.
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OS QUE FALTAVAM ESTAVAM… ALI A coluna automóvel seguia devagar e cuidadosamente, com picadores à frente da viatura rebenta-minas. O pessoal ia tenso, receoso e extremamente atento, porque a estrada, de cerca de quinze quilómetros, vinha sendo um cemitério de homens (e de viaturas), causado não só pelas minas como pelas violentas emboscadas. A fronteira estava a cerca de sete quilómetros. Era uma coluna de abastecimento de víveres e de munições. Faltavam somente três a quatro quilómetros para chegar ao destino. A viagem de regresso seria feita imediatamente a seguir à descarga das viaturas, que era feita rapidamente para juntos dos abrigos, excepto as munições que iam directamente para o paiol. Depois, seriam mais cerca de quinze quilómetros para o regresso ao quartel de origem, habitualmente menos perigosos, no que respeitava a minas. No entanto, a estrada voltava a ser picada (talvez com menos cuidado), pois podia ser montada alguma mina depois de terem passado. O enquadramento das dez viaturas era feito por uma companhia, reforçada por um pelotão de caçadores nativos. Um dos picadores parou e, virando-se para trás, levantou o braço, fazendo sinal de “alto à coluna”. Tinha detectado um fio na beira da estrada, meio encoberto por terra, no meio de erva seca. Imediatamente se ouviu uma rajada vinda da mata, do lado esquerdo da coluna e, logo a seguir, outra. Não houve mais fogo de ambos os lados, mas o fogo de · 27 ·
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resposta do pessoal, já deitado no chão e abrigado atrás das rodas das viaturas, continuava. Ouviram, então, rebentamentos de vários fornilhos nos dois lados da estrada, que provocaram paragem momentânea do fogo da tropa. Uma coluna de fumo e, principalmente, de pó começou a elevar-se em turbilhão e, em ondas, para os dois lados do declive da estrada. Os homens mais próximos dos rebentamentos ficaram cobertos de pó. O cheiro agridoce dos rebentamentos era intenso e, conjuntamente com o pó e o calor, tornavam o ar irrespirável. Passado o espanto inicial, o pessoal começou a soerguer-se e a olhar em volta. Havia pedaços de corpos por toda a zona em volta dos rebentamentos e também nos declives de um lado e do outro da estrada, bem dentro da mata, nos arbustos e em cima das árvores. Sentia-se a raiva nos dentes e espanto nos olhos. Espanto e medo. O capitão tomou algum tempo a falar com os alferes através do “rádio-banana”. Foi montada segurança apertada de um lado e do outro da estrada, aproveitando os troncos mais grossos e as rodas das viaturas. O capitão chamou alguns homens mais próximos para recolherem os pedaços de corpos e colocá-los na carroçaria da viatura rebenta-minas. Passado o horror inicial em agarrarem os pedaços de corpos, em alguns casos sem conseguirem descortinar o que eram, começaram a carregar, também, braços e pernas (algumas com as botas calçadas), duas ou três cabeças esfaceladas e partes de troncos. Observando a pele, todos os pedaços pareciam de homens negros, mas os corpos tisnados pelas explosões ficam sempre negros. O capitão aproximou-se de um tronco quase completo, que tinha o toco de um braço e a parte superior das duas pernas. Ajoelhou e pareceulhe descortinar junto ao ombro um pedaço de pele branca, por baixo do camuflado que ainda restava. Chamou um soldado: - Ajuda aqui. Os dois carregaram o tronco sem cabeça, com o sangue das feridas coagulado pela mistura com o pó, mas sangrando, ainda, pelo ventre (de onde pendiam vísceras cheias de pó) e colocaram-no em cima de um saco de areia, no lado direito da viatura. · 28 ·
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O capit茫o pensou: - Deve ser do alferes Vicente. Ao chegarem ao destino, foi feita a contagem do pessoal, enquanto as viaturas eram descarregados. Faltavam cinco soldados nativos e o alferes que os comandava.
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O TEMPO ESTÁ EMBRULHADO Não sei como nem porquê foi integrado na nossa Companhia um rapaz algarvio (o único), desgarrado, no meio de nortenhos: tripeiros, minhotos, transmontanos… Ao aproximar-se a época das chuvas (a primeira que passámos na Guiné), ele, ao acordar, manhã cedo, assomando à porta da caserna, olhou o céu e viu, depois de tanto tempo de céu azul, as primeiras nuvens e concluiu: - O tempe está ficande embrulhade. Assim contaram os que ouviram tal juízo, não entendendo porquê, andando nós sempre a “embrulhar”, agora era o tempo que “embrulhava” também. Pois, como é óbvio, o rapaz continuou, durante algum tempo, a ver as nuvens serem cada vez mais numerosas, depois a chuva a cair sem parar e o azul do céu sem mais aparecer. E ele passou a repetir, em cada dia: - O tempe continua embrulhade. Ora, como sabemos, a chuva continua, ininterruptamente, por meses e meses. E ele repetia: - O tempe continua embrulhade. Um dia, alguém das camas mais próximas, irritado, tentou acabar com a análise meteorológica: - Ó “Tempo Embrulhado” acaba lá com essa merda, que já chateia. Foi assim que passou a ser conhecido por “Tempo Embrulhado”. · 31 ·
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- Chama aí o “Tempo Embrulhado”. – Quem disse? - Foi o “Tempo Embrulhado”. O “Tempo Embrulhado” para aqui, o “Tempo Embrulhado” para ali… E nem mesmo depois da chegada da época seca e do chamado “bom tempo” (!) deixou de haver… “Tempo Embrulhado”.
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RECORDAÇÕES “Vou parar na Vela Latina para tomar um café… e um pastel de nata” – pensou. Arrumou o carro. Aliviou um pouco mais o nó da gravata. Com o casaco sobre os ombros encaminhou-se para a cafetaria, fazendo desvios dos pequenos grupos de turistas estrangeiros que, calmamente, sob o sol de Julho, aguardavam indicações dos guias. Sentou-se na esplanada, saboreou demoradamente o pastel de nata, observando os pardais que, assustadiços, debicavam, à pressa e gulosamente, os restos em cima de uma mesa que acabava de ser abandonada. Regressava lentamente ao carro, quando lhe surgiu a ideia de ir ao Monumento aos Combatentes do Ultramar, ali perto, junto à Torre de Belém, para verificar se constava o nome de um soldado africano que pertencera à sua Companhia. Alguém lhe tinha telefonado a pedir para fazer essa verificação. Parou para tentar recordar o nome completo. Não conseguia. Verificando as listagens dos anos de 1967, 68 e 69, se lá estivesse, iria recordar-se. À medida que caminhava para o Monumento, ia repetindo baixinho: “Mamadu… Mamadu…Mamadu…”, mas o resto do nome não saltava da memória. Chegou. Estava nesse momento a decorrer o render da guarda. Por uma questão de respeito, vestiu o casaco e compôs a gravata. Seguiu · 33 ·
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junto ao muro, olhando sobre a esquerda, até que deparou com o ano de 1967. Procurou a letra M. Leu a lista dos MM. Não estava ali. Procurava já o ano de 1968, quando, atrás de si alguém o interpelou: - Você está à procura de algum nome? Voltou-se. Era um homem alto, com cerca de sessenta anos, que trazia pela mão uma garota de cinco ou seis. - Sim. - E em que ano morreu? - Essa é que é a dificuldade. Ou em 67, que já vi e não está. Ou em 68 ou 69. - E você estava lá? - Sim. - Três anos? Não pode ser. - Foi de princípios de 67 a princípios de 69. - Ah! E qual era o nome? - Esse é outro problema. Não me lembro do nome todo. Mamadu qualquer-coisa. Mas se o vir, lembro-me. - Mamadu? Então você esteve na Guiné. - Sim. - Eu estive lá em 70/71. Então você o que era? Furriel? - Não. Era alferes. - Eh pá, o meu alferes morreu com uma rajada no peito. Quando o vi naquele estado, saltei para cima dele, quer-se dizer, com um pé de cada lado, a disparar a disparar para a mata e a berrar: - Ajuda aqui! Ajuda aqui! Vieram dois ou três a rastejar e vai nisto, vejo a ramagem do poilão a mexer, a mexer, dei um salto para trás, agachei-me e comecei a disparar de rajada. Saiu de lá um cabrão de um turra que, quando caiu no chão, parecia que tinha molas. Levantou-se logo e desapareceu, aos ziguezagues. Foi o cabrão que disparou lá de cima e… - Ó homem! Todos nós tivemos as nossas guerras, todos nós temos as nossas histórias. Tenha calma. O homem falava descontroladamente, com duas bolas de saliva no canto da boca, ajoelhava-se, como se estivesse a disparar uma arma, esbracejava e berrava. · 34 ·
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A garota, que estava com ele, chorava encostada ao muro do Monumento. Deixou cair o chapéu e, sempre a chorar, foi aninhar-se nos degraus da escada de acesso a uma porta que está, mais ou menos no centro. O homem continuava: - E vai o meu alferes, já sem pinga de sangue, a falar muito baixinho, diz-me assim: Vocês sigam, saiam daqui. E eu disse-lhe: Não senhor, se sairmos daqui, vamos todos. Eu ainda não tinha dito isto e vai um dos meus camaradas, que estava ali ao pé, esticou-se ao comprido e ficou de costas, espapaçado, que até parecia um saco de batatas. Ficou com os miolos espalhados pelo chão. Rebentaram-lhe com a caixa dos pirolitos. Arrastei o alferes para uma vala ali ao pé e falei-lhe ao ouvido para lhe dar alma, mas já estava sem pinga de sangue. Foi-se. Você alguma vez… - Ó homem, tenha calma. Olhe a sua neta. Neta, não é? Ali a chorar… Olhou na direcção da garota sem manifestar qualquer preocupação. Queria continuar a ser ouvido, espumando da boca e com os braços hirtos, esticados para a frente, como se empunhasse uma arma. - Mas você sabe… - Ó homem, todos nós temos as nossas histórias. Hitórias que nos marcaram… - Mas você que… O ex-alferes deixou-o a falar sozinho e aproximou-se da criança que continuava a chorar sentada num dos degraus, tapando o rosto com as mãos. Tentou tocar-lhe, mas ela, sempre a chorar, berrou: NÃO!! O homem aproximou-se com um lenço aberto nas mãos, tomou-a ao colo, limpou-lhe as lágrimas. Aproveitando a interrupção do discurso, perturbado, encaminhouse para a listagem dos mortos de 1968. Não encontrava os nomes iniciados com M. Respirou fundo, olhou melhor e procurou: Mamadu… Mamadu… Mamadu… Ali estava. Ficou parado, a olhar. O homem aproximava-se com a neta ao colo e que berrava: Vamos embora! Vamos para casa! - Está bem! Já vamos. Você já encontrou o nome? - Sim, está aqui. · 35 ·
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Colocou o dedo em cima. - O meu alferes está… aqui. É este. Não o conhecia? - Não. Era miliciano? - Não sei. Acho que sim. - Era difícil conhecê-lo. Devia ser mais novo que eu uns dois anos. O homem estava mais calmo. - Já viu como o número de mortos aumentou em 1971, 72 e 73? - É verdade. A criança berrava desesperadamente querer ir embora. - Eu gostava de falar com você sobre isso do meu alferes. E de outras coisas. - Pois. Todos nós passámos os nossos maus bocados. Mas agora tenho que ir. Tenho que fazer. Estendeu-lhe a mão. O outro demorou muito tempo a apertar-lhe a mão, consumando a despedida.
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GRÁVIDO? O capitão miliciano, que comandava a Companhia ali aquartelada, acercou-se da mesa feita de tábuas de caixotes onde um alferes jogava à sueca com outros militares. Jogavam de forma agressiva, brandindo as cartas como se fossem armas, numa concentração total. O capitão miliciano dirigiu-se ao alferes: - Antunes, não se esqueça que é você a sair hoje à tarde, antes do jantar. O alferes não deu sinal de ter ouvido nem manifestou o mínimo respeito hierárquico. - Antunes, estou a falar consigo. É você que tem que sair mais logo, antes do jantar. Avise o seu pessoal. - Está bem, chefe – disse sem levantar a cabeça. E continuou a jogar. - Você ouviu o que eu disse ou não? O alferes olhou-o, segurando uma carta: - OK, chefe. Já ouvi. O capitão afastou-se, com aspecto agastado. Um outro alferes observava, de longe. Quando o capitão se afastava, seguiu-o com o olhar. Então recordou uma cena ocorrida em Mafra quase no período final da instrução, pouco tempo antes de receberem as divisas de aspirante.
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Um grupo de cadetes, onde estava incluído, olhava de longe, com sorrisos irónicos, um grupo de militares com mais que trinta anos, cujas calças e camisas denunciavam serem novos na tropa. Toda a roupa era demasiado grande ou lhes assentava mal nos corpos. Para os cadetes, já inseridos na instituição militar, da qual já tinham absorvido os princípios e comportamentos, aqueles militares pareciam extraterrestres, caídos ali na parada da Escola. Um sargento, novo, aprumado, possivelmente motivado pela função que estava a desempenhar, estava a dar-lhes instrução designada “ordem unida”. Formados a três mantinham o mesmo aspecto desalinhado, mal acomodados dentro das fardas. Até as botas pareciam estar demasiado grandes. Se observados de perto, os rostos transmitiam raiva, indisposição e, até, desespero. Depois de um período de marcha, durante a qual alguns seguiam de passo trocado, o sargento ordenou alto. A seguir: “Direita volver”. Uns quantos “volveram” para a direita, outros para a esquerda, ficando alguns face a face, cada um interrogando o outro com o olhar: “Estarei certo e tu errado?” Então, o sargento disse que se virassem para ele em “À vontade”. Para os cadetes, que observavam de longe, aquilo era hilariante. As cenas que aqueles “velhadas” estavam a fazer! Passado pouco tempo, o sargento: “Firme! Sen… up!” Encaminhou-se, então, para a direita da formatura e berrou: “P’la direita – perfilar!”. - Tronco para fora! Barriga para dentro! Com a mão levantada foi verificando o alinhamento. Depois caminhou um pouco, para o meio da formatura e postou-se em frente de um, detentor de uma portentosa barriga e exclamou: - Ó meu tenente! Parece que está grávido! Inesperadamente, veio a resposta numa voz altissonante: - Se estou grávido ou não, não sei. Mas que me foderam bem fodido, isso é verdade. (Era um curso de capitães milicianos que começara nesse mesmo dia).
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ANDANÇAS Não eram, propriamente, as grandes caminhadas, medidas em quilómetros, que cansavam e rebentavam com a resistência física e moral dos homens. Era, principalmente, o calor, a sede, o tipo de terreno pisado, os lodos dos tarrafos e da beira dos rios, os rios, a água, água, sempre água e lodo. Era a marcha lenta, o cuidado na marcha, as minas, as armadilhas e as emboscadas. O picar lento das estradas para detecção de minas. E pior no sul, nessas terras onde Deus se esqueceu de separar as terras das águas. Difícil era, também, quando a aproximação aos objectivos era feita durante a noite, dentro das matas e, inesperadamente, rebentava uma chuva intensa ou sob chuva miudinha, densa, contínua – todo o material molhado e com o cuidado de colocar a arma com o cano virado para o chão. No tempo de seca, em dias de calor intenso, soava, dentro da cabeça, uma canção só com duas notas graves, muito graves, que entonteciam: Huuum…huuum…haaam…haaam… huuuum… A canção seguia os passos de um homem, continuava, continuava, parecia revolver os miolos. O calor desenhava-se nos contornos das coisas, ao longe, que oscilavam, estremeciam em remoinhos, na linha do horizonte. Sede, sede, sede. · 39 ·
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- É pá, dá-me uma pinga de água… Em situações extremas, havia quem urinasse no cantil vazio, para mais tarde beber. Não é que não houvesse cursos de água. Havia, até, demais. Muita água, demasiada água, de tantos rios que correm em curvas e contra curvas que quase se tocam, em requebros e requebros, como num bailado de mulheres em batuque africano. Mas, todas essas águas são salgadas. Quando não eram lodosas, surgindo límpidas e transparentes, todas elas não se conseguem beber, devido à grande salinidade. Só no nordeste os rios têm água doce, porque as pequenas colinas não permitem que as marés os alcancem. - É pá, dá-me uma pinga de água… Água, água, água… A palavra-desejo chamada a todo o momento na caminhada por terras secas e matas densas, nos tarrafos, nas bolanhas alagadas e lodosas, nos lodos, na cambança dos rios, em maré mais ou menos baixa. A maré a subir e o tempo a escassear para sair dali a tempo, antes da enchente. A água a avantajar-se, a correr para a nascente (!), a empurrar pernas e peitos, a arma e as cartucheiras acima das cabeças. Tanta água e tanta sede! Depressa! Agarra-te à vegetação do tarrafo, na margem, trepa o lodo! Escorrega. – Não consigo. – Depressa! Amparam-se os mais baixos, com água já pelo queixo, tomam-lhe a arma um, outro as cartucheiras, outro segura-o pela gola do “bibe”, que está quase todo dentro. – Vamos! Tanta sede dentro de tanta água! - É pá, ainda tens alguma? Escorrega-se no lodo. Cuidado! – Põe o pé direito bem firme, antes de levantar o esquerdo. Outro, outro… depois o outro. – Dá cá a mão. Agora fica aqui tu e ajuda os que vêm, que eu sigo. - Ó meu Sant’Antoninho, vamos andar mais depressa aí à frente! - Quando você chegar aqui vai ver o Sant’Antoninho! (Berram nos “rádios-banana”.) - Está quase a amanhecer, homem! - Verá o lodo que vai engolir… · 40 ·
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Um cheiro intenso a lodo e maresia podre envolve as botas, camuflados, mãos e rostos. No regresso ao quartel, o lodo seco, que caía deles ao passarem, deixava no chão um rasto castanho acinzentado. Emboscada. Outra emboscada. Reacção. Nervos à flor da pele. – Há feridos? Até parece que o cansaço se foi. Anoitece a meio da mata. – Instalar em quadrado. A noite é longa, longa. Muito longa. Nunca mais é dia! Amanhece com o cacimbo agarrado ao chão, agarrado às ervas, agarrado aos corpos, agarrado às árvores. Chega a garrafa de aguardente. Bebe um gole, bochecha para lavar a boca e engole. Sente-se aquecer. Passa a garrafa ao seguinte. A garrafa vai e volta – são dois goles para cada um. O primeiro gole faz estremecer o corpo todo, faz deslaçar as cãibras das coxas. O segundo vai alojar-se profundamente no estômago, desenferruja tudo, da cintura para baixo e provoca vontade de urinar. Descongela o sistema. A caminhada recomeça. Não falta muito para que comecem a clamar por água. É só o sol subir um pouco. E volta o torpor e o “swing”: Huuum… huuum… haaam… huuum… A canção do calor. Dentro dos miolos. No tempo das chuvas é diferente. Não há sede, não só porque o sol está escondido. Pode abrir-se a boca, virada para o céu ou apanhar-se a chuva no quico e beber. O quico, colocado na cabeça, com a pala colocada para a frente (como deve ser!), retém um pingo de água, que corre na pala, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, repetidas vezes, ao ritmo da caminhada, até que pesa demais e cai no chão. Mas, imediatamente, surge outro pingo, que baloiça, baloiça e, depois, cai. E outro… e outro… e outro… A irritação que causa é tanta que, cada vez que surge um pingo, sacode a cabeça para o fazer saltar, antes que recomece a cega-rega de ele baloiçar da esquerda para a direita, da direita para a esquerda… Solução: colocar a pala do quico virada para trás. Mas não pode ser, · 41 ·
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porque a chuva bate na testa, passa para além das sobrancelhas, corre para os olhos e não deixa ver o caminho. E se rebenta uma emboscada? Volta a pala para a frente e… volta o pingo a baloiçar. Melhor é fingir que ele não existe e olhar bem em frente. Se a caminhada com chuva é durante a noite, não se vê o pingo, mas, também, não se vê nada. Pior é se for dentro da mata. Há que agarrar o cinturão do homem da frente para que ninguém se perca. Assim a caminhada é muito lenta. Deus, vendo isto lá de cima, deve ter rido muitas vezes. Pareceriam miúdos da escola infantil a atravessar a rua, levando à frente o “mestre-escola”, que era sempre um negro – ou um soldado milícia ou um guia capturado em campo inimigo. (Não tem graça nenhuma!). Quando havia que parar por qualquer razão, o frio que essa chuva causava! Frio nas costas, causado pelo blusão molhado, agarrado às costas, causando arrepios. (Está alguém a pensar: - Frio em África?! Tretas!). Pior era quando algum tropeçava, caía, perdendo o contacto com o dono do cinturão da frente, que, arrastado, prosseguia o seu caminho. A coluna partia. - Pára. Pára. Onde estás, caralho? Mesmo berrando, o barulho da chuva a cair na ramagem das árvores, por cima das cabeças, não deixava ouvir o apelo. Só quando a situação chegava ao conhecimento do portador do “rádio-banana”, era possível transmitir a indicação de parar à coluna frontal. Agora havia que fazer o contacto com os pedaços da coluna situados à frente. Qualquer equívoco no reconhecimento poderia provocar tiroteio. Com tanta chuva não prevista, também o guia perdia a orientação e andava em círculos, tentando encontrar pontos de referência para seguir o caminho correcto. No regresso de operações, passando por zonas que não estavam sob controlo da tropa, era comum, ver-se galinhas, cabritos, vacas bem longe de áreas habitadas. Talvez espantadas pelos rebentamentos. Os soldados nativos e os soldados milícias (que, regressando ao quartel, estavam regressando a suas casas), disputavam a posse dos animais, correndo atrás das galinhas e dos cabritos. As galinhas eram · 42 ·
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atadas pelas patas, duas a duas no mesmo fio e penduradas de ambos os ombros, duas para o lado do peito e duas para as costas. Os cabritos eram amarrados pelas quatro patas e colocados à volta do pescoço, com as quatro patas do lado do peito e o resto do corpo do animal caído para as costas. A coluna, sempre apeada, que tinha saído, progredido e mantido ordem e disciplina mesmo debaixo de fogo, mesmo em caso de assalto, obedecendo ao comando, agora, nestas circunstâncias, entrava em completa anarquia. Os soldados africanos não ouviam, não respeitavam ordens de ninguém. Entre correrias, gritos e gargalhadas, estabelecia-se uma grande confusão, até que, depois de amarrarem os animais, se integravam na fila indiana, mas em qualquer lugar, que não era o seu. Entretanto, ao longo da fila ouviam-se os “protestos” dos animais: Mé! Mé…mé… mé… Mais o cacarejar de galos e galinhas, tudo acompanhado de sonoras gargalhadas, que só os africanos sabem soltar. Uma só vez aconteceu, nestas circunstâncias, ser reposta uma certa ordem. Foi necessário chamar a atenção, quase um a um, para o facto de os balidos e cacarejos poderem ser ouvidos ao longe e os “turras”, aproveitando a falta de organização, atacarem. Com toda aquela barafunda, não seria difícil causar danos elevados. A solução que encontraram foi torcer o pescoço às galinhas e cortar o pescoço aos cabritos, deixando o sangue escorrer para o chão. Colocaram, de novo, os animais nas posições anteriores. As cabeças das galinhas seguiam baloiçando penduradas no corpo dos soldados e as cabeças dos cabritos aspergiam sangue para os lados, escorrendo, também, pelas camisas dos camuflados.
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Camban莽a Final
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