Adriana Nóbrega Simões
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A fortaleza mergulha no mar os cansados flancos e sonha com impossíveis naves moiras Tudo mais são ruas prisioneiras e casas velhas a mirar o tédio As gentes calam na voz uma vontade antiga de lágrimas e um riquexó de sono desce a Travessa da "Amizade" Em pleno dia claro vejo-te adormecer na distância, Ilha de Moçambique, e faço-te estes versos de sal e esquecimento.
À História pedi um tempo, cerca de meio século, para reler, reflectir, avaliar e decidir o que fazer deste trabalho. Ouvir-me, a mim própria, e também àqueles que dele iam tendo conhecimento e pesar também a opinião da Tutela que, ao analisar o meu Curriculum Vitae, me aconselhou a publicar o trabalho, por considerar o seu interesse pedagógico… Estas foram as principais razões que me levaram a dar à estampa a “Visita de Estudo à Ilha de Moçambique”, passados cerca de 50 anos.
(Rui Knopfli)
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A Ilha de Moçambique - A Ilha das duas Cidades
ILHA DOURADA
Estudar a História da Ilha de Moçambique, nas suas vertentes culturais e socioeconómica; criar as condições necessárias para, durante uma semana, reunir 52 alunos e 10 professores, vivendo e convivendo no edifício da Escola Técnica da Ilha; fazer, de todos, investigadores, economistas, cozinheiros, cuidadores do espaço e, simultaneamente, fortalecer o espírito de tolerância, de respeito mútuo e de interesse pelo trabalho de investigação e de equipa… foi, talvez, a tarefa mais extraordinária e arriscada que empreendi, enquanto docente, contrariando, assim, o velho sistema pedagógico de “decorar a História, página a página”, a que fui obrigada na minha juventude. Talvez por isso mesmo me tenha licenciado em História e enveredado pela carreira docente.
A Ilha de Moçambique
A Ilha das duas Cidades Maria Adriana da Silva Nóbrega Simões, angolana de 2ª geração, nasceu na cidade de Sá da Bandeira, actual Lubango, neta de colonos madeirenses que, nos finais do séc. XIX, se instalaram no sítio hoje denominado “Barracões”. O sítio foi crescendo e, em poucos anos, se tornou vila e depois cidade.
Adriana Nóbrega Simões
A inexistência de ensino superior em Angola, determinou o apartamento da sua terra natal, obrigando-a a rumar a Lisboa, onde, na Faculdade de Letras, se licenciou em História, caminho aberto para a carreira docente que percorreu por mais de três décadas em escolas de Lisboa, Beira (Moçambique) e Setúbal. É Sócia Fundadora da Universidade Popular de Setúbal “Bento de Jesus Caraça” a cuja direcção presidiu em 1996/97 e 1997/98. Concluiu o Curso Superior de Medicina Tradicional Chinesa – Acupunctura Clínica em UMC (2001/2006).
Adriana Nóbrega Simões
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À História pedi um tempo, cerca de meio século, para reler, reflectir, avaliar e decidir o que fazer deste trabalho.
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Ouvir-me, a mim própria, e também àqueles que dele iam tendo conhecimento e pesar também a opinião da Tutela que, ao analisar o meu Curriculum Vitae, me aconselhou a publicar o trabalho, por considerar o seu interesse pedagógico… Estas foram as principais razões que me levaram a dar à estampa a “Visita de Estudo à Ilha de Moçambique”, passados cerca de 50 anos.
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Adriana Nóbrega Simões
A Ilha de Moçambique - A ilha de duas cidades
Estudar a História da Ilha de Moçambique, nas suas vertentes culturais e socioeconómica; criar as condições necessárias para, durante uma semana, reunir 52 alunos e 10 professores, vivendo e convivendo no edifício da Escola Técnica da Ilha; fazer, de todos, investigadores, economistas, cozinheiros, cuidadores do espaço e, simultaneamente, fortalecer o espírito de tolerância, de respeito mútuo e de interesse pelo trabalho de investigação e de equipa… foi, talvez, a tarefa mais extraordinária e arriscada que empreendi, enquanto docente, contrariando, assim, o velho sistema pedagógico de “decorar a História, página a página”, a que fui obrigada na minha juventude. Talvez por isso mesmo me tenha licenciado em História e enveredado pela carreira docente.
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FICHA TÉCNICA
arranjo de capa: Ângela Espinha paginação: Alda Teixeira
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1.a Edição Lisboa, junho 2026
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título: A Ilha de Moçambique – A Ilha das duas Cidades autora: Adriana Nóbrega Simões edição: edições Ex-Libris ® (Chancela Sítio do Livro)
isbn: 978-989-9198-54-8 depósito legal: 564879/26
© Adriana Nóbrega Simões
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Declinação de Responsabilidade: a titularidade plena dos Direitos Autorais desta obra pertence apenas ao(s) seu(s) autor(es), a quem incumbe exclusivamente toda a responsabilidade pelo seu conteúdo substantivo, textual ou gráfico, não podendo ser imputada, a qualquer título, ao Sítio do Livro, a sua autoria parcial ou total. Assim mesmo, quaisquer afirmações, declarações, conjeturas, relatos, eventuais inexatidões, conotações, interpretações, associações ou implicações constantes ou inerentes àquele con teúdo ou dele decorrentes são da exclusiva responsabilidade do(s) seu(s) autor(es). A autora não segue a grafia do Acordo Ortográfico de 1990.
publicação e comercialização:
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Na 15.ª sessão da Comissão do Património Mundial da UNESCO, De 9 a 13 Dezembro de 1991, a Ilha foi incluída na Lista do Património Mundial (Cartago, Tunísia).
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Esta ilha pequena que habitamos É em toda esta terra certa escala. De todos os que as ondas navegamos, De Quíloa, de Mombaça e de Sofala. E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha: Moçambique
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Dedicatória
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Em memória de Emídio da Silva Simões Arquitecto e Professor da Escola Incansável colaborador na realização deste projecto
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Até logo, meu amor. Lanita
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AGRADECIMENTOS
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Este trabalho, naturalmente muito incompleto, dada a exiguidade de tempo de que dispusemos, apenas uma semana, não teria sido possível, …se a Força Aérea Portuguesa não tivesse disponibilizado o avião “Nord Atlas” para transportar alunos e professores integrados no projecto “Visita de Estudo à Ilha de Moçambique” e prestado todo o apoio, durante a deslocação; …se militares, na cidade da Beira, não se tivessem aliado a alunos e a professores da Escola Industrial e Comercial Freire de Andrade, participando em festivais desportivos, para a obtenção de verbas indispensáveis à manutenção do grupo, na Ilha de Moçambique; …se a Direcção da Escola Técnica da Ilha não tivesse posto à disposição do grupo o seu edifício, nele instalando alunos e professores, na semana de 24 a 30 de março de 1975; …se não tivéssemos tido um precioso auxiliar, na pessoa do senhor Álvaro Pinto de Carvalho, estudioso da história da Ilha, onde nasceu em 1903 e onde sempre permaneceu investigando a história da região, a quem devemos a prontidão com que respondeu, sempre, às nossas solicitações, bem como as muitas informações, em todo o tempo, cedidas com invulgar espírito de colaboração e modéstia… …se os alunos e os professores não tivessem acreditado neste projecto e não tivessem dado a sua colaboração da forma inequívoca e entusiástica como fizeram… Sem tais apoios, este trabalho nunca teria sido uma realidade. Para todos, a gratidão de alunos e professores que integraram este projecto. 9
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HISTÓRIA DA ILHA DE MOÇAMBIQUE A Ilha das duas Cidades
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A Ilha de Moçambique, cidade insular que é parte integrante da província de Nampula, situa-se na costa oriental de África, abraçada pelas águas do Oceano Índico, estendendo-se até ao paralelo 15.º 02’ 3’’ Sul, 40.º 44’ 9’’ Leste. Com uma superfície de cerca de 1,5 km2, contava, em 1975, com uma população de 12000 habitantes, aproximadamente. Do ponto de vista geológico, a sua constituição é coralífera. Quase desértica na origem, a Ilha revestia-se de dunas e de mato, não existindo fontes naturais donde brotasse água potável, servindo-se a população de água das cisternas. Só no início da década de 70, a Ilha passou a dispor de água canalizada, resultante do aproveitamento da água do rio Monapo. Com forma de meia-lua, com uma longa enseada e um porto de mar espaçoso que podia albergar grande número de naus, porto que foi considerado, no séc. XV, dentre todos os portos da costa oriental africana, o melhor, o de uso mais fácil 11
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e o mais seguro para a navegação, acercando-se as naus muito perto da terra, nas proximidades da Fortaleza de S. Sebastião, baluarte de defesa contra possíveis ataques. Estrategicamente, o porto da Ilha, reputada escala obrigatória na carreira da Índia, era considerado, não só pausa absolutamente necessária, em tempo de monções, aí aguardando as naus ventos favoráveis, durante várias semanas, mas também porto de refrescamento para a aguada, abastecimento de água potável, e para a recolha de alimentos frescos. Tais condições geoestratégicas fizeram da Ilha um importante entreposto comercial, levando muitas famílias, oriundas de Portugal, a dedicarem-se ao comércio com a Índia. A importância do porto da Ilha e o movimento de naus que nele ocorria são comprovados pelas descobertas que a arqueologia subaquática registou, identificando mais de uma centena de naufrágios, na costa de Moçambique, muitos dos quais envolvendo a própria Ilha. A prosperidade da Ilha deveu-se, sem dúvida, à Carreira da Índia. A ligação da Ilha ao continente faz-se através do Canal de Sancule, com cerca de 5km de largura, por meio de uma ponte larga de 400m, com uma única faixa de rodagem, para a deslocação de peões e de automóveis. O plano para a sua realização já fora equacionado em 1868, não concretizado, porém, devido ao seu elevado custo, cerca de 40.000 contos, verba excessiva para o parco erário público de então. Com o objectivo de ultrapassar esse impedimento, foi criado um imposto especial aduaneiro, o 1.º Fundo de Melhoramentos, aplicado, inicialmente, apenas à província de Nampula, mas, mais tarde, estendido às restantes províncias. Todavia, a obra só foi, efectivamente, realizada em 1960, pelo engenheiro Edgar Cardoso.
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Arquitetonicamente, a Ilha de Moçambique divide-se em duas cidades: A Cidade de Pedra que atesta a presença portuguesa, ocupando cerca da metade Norte da Ilha, onde as casas são construídas de pedra e cal e onde se encontram os principais monumentos. O seu crescimento, até aos séculos XVIII e XIX, deveu-se ao tráfico negreiro e ao comércio de oleaginosas, comércio que levou à construção de grandes armazéns de apoio àquela produção. A cidade estendia-se até ao Bairro da Missanga habitado por gente pobre, aglomerado de habitações que foi demolido, para dar espaço ao crescimento da cidade, obrigando os seus habitantes a instalarem-se na Marangonha, local onde, até então, se executavam, publicamente, os presos civis. A Cidade de Macuti, mais populosa que a Cidade de Pedra, cresceu na metade Sul da Ilha. É caracterizada por uma arquitectura tradicional, representada por 1200 casas de estrutura precária, edificadas com material de construção usado de acordo com a tradição local, com folhas de coqueiro (macuti) e cobertas com o mesmo material. Esta Cidade também está, historicamente, ligada ao importante comércio escravocrata que a Ilha manteve até à independência do Brasil, em 1822, e até à abolição da escravatura, em 1837. Estas restrições ao comércio de escravos fizeram crescer o número de habitantes negros na cidade que acabaram por se concentrar na faixa Sul da Ilha, criando um novo agregado populacional, com diferentes grupos linguísticos, como árabes, indianos e mestiços.
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A ILHA ANTES DA CHEGADA DE VASCO DA GAMA
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No período anterior à chegada de Vasco da Gama e à instalação dos portugueses na Ilha, nos finais do séc. XV, início do séc. XVI, a povoação era um agregado suaíli, de origem bantu, descendente de imigrantes que se estabeleceram na Ilha por volta de 200 a.C. Com uma população de árabes e negros, a Ilha era governada por um Xeque, sujeito ao sultão de Zanzibar, que fazia o comércio com o Mar Vermelho, Pérsia, Índia e Índico. Arquitectonicamente, a povoação era constituída por palhotas, com a excepção da casa do Xeque e da mesquita construídas em taipa e cobertas com telhados eirados ou açoteias. No entanto, já nesta altura, a Ilha era um importante entreposto comercial da Índia. Nela aportavam os navios extraviados, os que aguardavam o fim das monções e os novos ventos, os que pretendiam fazer aguada ou os que transportavam, para o oriente, marfim, ouro e escravos da Zambézia. Este comércio estava nas mãos dos árabes, tal como a própria Ilha. Antes de a Ilha de Moçambique ter ficado sujeita ao rei de Quíloa (na costa Sueste da actual Tânzania), pertenceu ao sultão Bin Mibiki a quem sucedeu o filho de nome Mussa. Era hábito, entre os mouros, terem, por apelido, o nome do pai. Assim, o herdeiro do sultão ter-se-á chamado Mussa Bin Mibiki. Mais tarde, nos primeiros contactos que os portugueses tiveram com os habitantes locais, estes terão apontado Mussa Bin Mibiki como 14
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primitivo senhor da Ilha. Da deturpação deste nome árabe, por parte dos portugueses, terá resultado a designação de Moçambique que Vasco da Gama adoptaria para a região, designação estendida, posteriormente, a todo o território. Deste modo, procurou o Almirante das Índias agradar à população local e captar-lhe as simpatias, com os objectivos de obter informações seguras sobre a demanda da Índia e de dispor de 2 pilotos mouros que orientassem a armada, na última etapa da viagem. Da existência da Ilha de Moçambique já os portugueses teriam tido conhecimento antes da armada de Gama ali fundear, possivelmente através de informações fornecidas por Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva que, por ordem de D. João II, se deslocaram ao Oriente, em busca das terras do famoso Prestes João das Índias.
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VASCO DA GAMA NA ILHA
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A 2 de Março de 1498, navegando nas águas do Índico, a caminho da Índia, as naus de Vasco da Gama encontraram pela frente algumas ilhas, aproximando-se daquela que se encontrava mais perto da costa, a Ilha de Moçambique. Embora não houvesse uma importante razão para as naus aí se deterem, apenas descansar do mar, encontrar outras gentes, fazer aguada e obter alimentos frescos seriam uma boa justificação para a detença. Ao avistarem as naus, os mouros foram esperar os portugueses, ao largo, nas suas lanchas. A curiosidade de ambas as partes foi notória: os mouros pretendiam saber com quem lidavam, qual a sua origem, a religião, a raça, a lei. Os portugueses não esconderam ao que iam e os mouros prometeram indicar-lhes um piloto que trariam para as naus, bem como alimentos frescos. De acordo com os registos de Vasco da Gama, “Os homens desta terra (…) falam como mouros e as suas vestiduras são de panos de linho e de algodão, muito delgados, e de muitas cores, de listras e são ricos e lavrados. E todos trazem toucas na cabeça, com vivos de seda lavrados com fios de oiro”. No dia imediato, Vasco da Gama mandou embandeirar as naus e enfeitá-las com toldos coloridos para receber, festivamente, a visita do Xeque, que julgava encontrar-se na presença de turcos, obedientes a Alá, o seu Deus. Por sua vez, Gama pressagiava a criação de fortes laços de duradoura amizade com o Xeque e com o seu povo, o que, na realidade, não se veio a verificar, dada a desconfiança que se percebia existir de parte a parte. Entretanto, o Xeque, receando não estar na presença de turcos, mas de inimigos da sua gente, quis saber ao que vinha Vasco da Gama, qual o livro da sua religião e o armamento 16
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que utilizava, prometendo, todavia, um piloto que indicasse a rota da Índia aos portugueses. “Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo e a forte armada; E, perguntando tudo, lhe dizia Se porventura vinham de Turquia.”
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“Responde o valeroso Capitão, Por um que a língua escura bem sabia: «Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da Índia tão famosa.”
Luís de Camões in “Os Lusíadas” – Canto I
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É evidente que os mouros, que ocupavam a Ilha há muitos séculos e detinham, quase em exclusivo, a navegação e o comércio do Índico, não consentiriam, de boa catadura, a presença de navegadores cristãos que viessem perturbar o seu comércio. Permitir, pacificamente, a sua estadia naquelas terras era algo que os árabes não aceitariam. A percepção da quantidade e qualidade do armamento da frota de Gama acrescentou o receio dos infiéis, o que levou o Xeque a armar uma cilada, contra os portugueses, quando se dirigissem à praia, buscando água e o prometido piloto que levariam para as naus. Assim, aproveitando a deslocação de alguns portugueses a terra, com os citados objectivos, os mouros atacaram-nos à pedrada, ao que a frota ripostou com tiros de besta e de espingarda, havendo fugido, durante a escaramuça, um dos pilotos posto à disposição de Gama. No dia 10 do mesmo mês, fundeou a armada no Ilhéu de Goa, próximo da Ilha de Moçambique, onde a tripulação levantou o padrão de S. Jorge e um altar de que hoje não existem vestígios. No referido altar, no dia seguinte, sendo domingo, foi 17
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rezada a primeira missa na África Oriental. Após a celebração religiosa, a frota prosseguiu na rota da Índia. Todavia, no dia 15, a força da corrente obrigou Vasco da Gama a interromper a viagem, fundeando a armada, de novo, no dia 22, no Ilhéu de Goa, aguardando ventos favoráveis. Neste impasse, voltaram as naus à Ilha de Moçambique, para fazer aguada, sendo os portugueses novamente atacados com pedras e setas, apesar de serem conduzidos pelo piloto mouro. Como resposta, receberam os infiéis tiros de bombarda, o que aterrorizou a população que abandonou a ilha, fugindo para o continente, nos seus zambucos, ficando os portugueses na posse da Ilha. Não ficaram por aqui os conflitos entre os dois povos. Os portugueses da Ilha negociavam com os negros do continente, nos lugares vizinhos, mas também em terras mais remotas, como Sena, Sofala e Cuama (Zambeze), enquanto mantinham, com os árabes, guerras constantes, destruindo-lhes as cidades, fazendo prisioneiros, impondo-lhes os seus monopólios comerciais, sem, todavia, inicialmente, construírem algo de estável, porque a ideia mestra era o domínio do comércio do Índico e, obviamente, o extermínio dos infiéis que o detinham. A propósito do ouro de Sofala, escrevia D. Manuel, referindo-se ao rei de Quíloa: “Este rei de Quíloa é rei de grande poder e riqueza e tem sob o seu poder as minas de oiro de Sofala e as mais ricas em fama que nenhumas outras d’aquelas partes e que nenhumas de quantas são sabidas”. A proximidade das minas de Sofala levou D. Manuel a citar Vasco da Gama como tendo sido o descobridor de “uma grande mina de oiro”. Mais tarde, procurando novamente fazer aguada, mandou Vasco da Gama dois batéis à Cabaceira. Nova oposição se verificou à presença dos portugueses, por parte da população 18
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local, levando Gama à utilização da artilharia portuguesa, pela primeira vez, na África Oriental. Desta sorte, ficou Vasco da Gama senhor da povoação, cuja população procurou dominar pelo medo, acreditando que criaria, assim, fama e prestígio. Servindo-se de tal estratégia, para obter informações sobre o tempo que levaria a chegar a Calecut, pôs a ferros um velho mouro que acabou por estimar o tempo necessário em 30 dias. Entretanto, o Xeque apresentou a Gama as suas desculpas pela reacção da população local à presença portuguesa e pôs à sua disposição outro piloto, alegando que o que fugira fora morto pelas bombardas dos portugueses. A este outro piloto, o Xeque teria dado instruções para que destruísse a armada portuguesa, orientando-a para Quíloa ou Mombaça. “O mesmo o falso Mouro determina Que o seguro cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede À Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama.”
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“Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citera celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada, E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia.”
Luís de Camões in “Os Lusíadas” – Canto I
Segundo Camões, em “Os Lusíadas”, a deusa Vénus, amiga dos portugueses, ter-se-á envolvido na espuma das ondas, afastando as naus para o alto mar. No dia 27 de março, as naus de Vasco da Gama fundearam, de novo, no Ilhéu de Goa, donde partiram para a Índia, a 29 do mesmo mês, tendo alcançado Calecut, a 20 de Maio de 1498. 19
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Logo após a viagem de Vasco da Gama, a Ilha de Moçambique foi reconhecida como porto de escala obrigatória, na rota da Índia, surgindo por isso, em todos os roteiros. Só mais tardiamente, alguns pilotos, devido à insalubridade do clima, propuseram a realização da viagem por fora da ilha de S. Lourenço (Madagáscar), pois a escala em Moçambique era responsável pela “perda de vidas e fazendas”.
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PEDRO ÁLVARES CABRAL RETOMA A ROTA DA ÍNDIA
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Porque Vasco da Gama não conseguira estabelecer relações diplomáticas e comerciais com o Samorim de Calecut, a 9 de Março de 1500, foi enviado à Índia Pedro Álvares Cabral com uma frota mais numerosa e melhor equipada, para fazer face às dificuldades com que se deparara Vasco da Gama. Outros objectivos desta viagem seriam, possivelmente, proceder ao reconhecimento da costa oriental do Sul da América, actual Brasil, (para aqueles que defendem a hipótese de os portugueses já terem estado, naquelas paragens, anteriormente), estabelecer uma feitoria em Sofala e fazer a paz com o Xeque de Quíloa, senhor do maior potentado naquelas regiões que dizia ser rei de Moçambique. A 20 de Julho, a frota fundeou na Ilha de Moçambique, então governada pelo Xeque Ibraímo de Quíloa. Ao visitar a armada portuguesa, desculpou-se o Xeque do acontecido com Vasco da Gama, alegando que aqueles incidentes se deviam a intrigas dos mouros. Cabral aceitou a explicação, ameaçando, porém, que, à primeira perfídia, arrasaria a Ilha. Quanto à feitoria, Cabral não logrou estabelecê-la, pois o Xeque conseguiu, sagazmente, evitá-lo sempre, embora proclamasse a maior amizade para com os portugueses. Em 1502, foi preparada nova frota, sob o comando de Vasco da Gama que, no Cabo da Boa Esperança, entregou parte dos navios a Pedro Afonso de Aguiar que seguiu para Moçambique. Naquele meio tempo, rumou Gama, com quatro navios, para Sofala, donde, dias depois, se dirigiu para Moçambique, cumprindo o velho objectivo de fundar a desejada feitoria, para abastecer de mantimentos os navios que, desde então e regularmente, se dirigiam para a Índia.
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Esta feitoria, a de Quíloa e a de Mombaça formaram o sistema económico e estratégico do monopólio português na Estrada do Ouro de Monomotapa. Foram estes novos contactos comerciais com o Oriente que confirmaram a importância da Ilha como porto de refrescamento, escala de navios e entreposto de comércio da costa SE de África subordinada aos Vice-reis da Índia.
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OCUPAÇÃO EFECTIVA DA ILHA PELOS PORTUGUESES
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Como já vimos, em 1502 foi construída a primeira feitoria na Ilha, defendida por uma torre chamada, mais tarde, “Torre Velha”, no sítio onde hoje está a Capela de S. Paulo. Pequenas igrejas se foram erguendo á sua volta e a população foi crescendo em redor do que viria a ser o Largo do Pelourinho. Todavia, a ocupação efectiva da Ilha pelos portugueses data de cerca de 1507, altura em que a Ilha foi feita Capitania e residência dos Governadores, subordinada aos Vice-reis da Índia, entre 1509 e 1570. Em 1558 teve início a construção da Fortaleza de S. Sebastião, no local escolhido por Dom João de Castro, em 1545. Para que se pudesse terminá-la, foi necessário proibir a construção de casas na Ilha, evitando, deste modo, que a escassez de pedra impedisse a conclusão da referida obra.
Casa de Escravos por eles construída 23
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