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Ernest Renan, «O Cântico dos Cânticos»

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O CÂNTICO DOS CÂNTICOS


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Ernest Renan por Nadar.


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Ernest Renan O CÂNTICO DOS CÂNTICOS traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano a idade e o carácter do poema

tradução e apresentação

Aníbal Fernandes


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TÍTULO DO ORIGINAL: LE CANTIQUE DES CANTIQUES, TRADUIT DE L’HEBREU, AVEC UNE ETUDE SUR LE PLAN, L’AGE ET LE CARACTERE DU POEME © SISTEMA SOLAR, CRL RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: JEAN-BAPTISTE ANGE TISSIER, ODALISQUE REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE 1.ª EDIÇÃO, OUTUBRO 2017 ISBN 978-989-8566-12-6


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O historiador sobe a contracorrente de um rio e perde-se aos poucos numa distância enfeitada, numa festa de luzes e superlativos físicos, ou na sombra das desventuras que mais força dão aos dotes do espírito. Se Homero se enfeita com a cegueira e às vezes com a mendicidade, Sebastião dispõe de um excesso de flechas desferidas pelos archeiros de Diocleciano, Isabel da prestidigitação de flores oferecidas por um improvável roseiral. São maravilhas que não chegam a perturbar o cerne da História: suavizam-lhe a superfície dura das batalhas, dos tratados, das conquistas. Mas há outras que ambicionam um centro; rodeiam de irremediável lenda personagens essenciais à percepção de uma época, de um país, e constroem-nas em versão fantástica e poetizadora da realidade. Que homem da História sobra para aquele Artur erguido dos romances do Ciclo Bretão?; o que resta de biografia ao príncipe em versos, cantado no «Dito da Batalha de Igor»? Quem foi o David que vive na Bíblia e uma só vez fora dela, para a inscrição arménia que lhe chama byt dwd? Neste rei, que somos obrigados a conhecer atrás de uma rede de versículos sagrados, há sestros de epopeia quando degola o gigante com força de três metros de altura, o que punha em risco os homens da sua tribo; quando surge, humilde e entre rebanhos de cabras como tantos que a lenda destina à condução dos homens; quando lhe é concedida a dádiva dos arpejos de cítara que ame-


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nizaram as neuras de Saul, da poesia que o deixou enobrecido como poeta dos «Salmos». Foi doce, foi belo, foi ruivo (segundo entendidos nas línguas da Bíblia porque o encontram descrito com a palavra ’admoni, desde o «Génesis» associada aos homens de cabelo vermelho), foi rei pela vontade do povo a quem restituiu um talismã — a arca da aliança de Jeová com os Hebreus, desde há vinte anos retida em Quiriat-Iarim, foi soberano em Jerusalém e alargou fronteiras chamando ao seu poder a Síria, a Fenícia e a Transjordânia, terras que Deus conferira a Abraão e à sua descendência. A tantas severidades de um rei endurecido pela ambição e pelas exigências do mandato divino faltava, contudo, o sal do amor, melhor ainda se amor vivido com uma vertigem dos sentidos. Betsabé, mulher do hitita Urias, fez-lhe a clássica sedução do banho; e assim, nua e molhada, não soube David resistir-lhe nem ao desvario que nos seus ouvidos de amante transtornado segredou um estratagema todo ao lado da moral, o que mandava Urias para morte certa numa frente de batalhas e nos braços lhe deixava a Betsabé viúva, disponível e seca de lágrimas, com quem se casou. Hoje, central no livro sagrado e envolto em prestígios de conquistador e fundador do reino de Israel, vemo-lo de pé e sempre jovem, com um sexo turístico e feiticista erguido a metros do chão de Florença, em réplica na piazza della Signoria e em verdadeiro mármore de Miguel Ângelo na Galleria dell’Accademia; posto em descanso pelo cinzel do Renascimento, dir-se-á que ali está esquecido de Betsabé e dos dias da paixão quente recompensada com um filho — o filósofo, o sábio, o rei Salomão. Salomão é o último filho de David, segundo a Bíblia, elevado a rei ao arrepio das regras dinásticas — por intrigas da mãe


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Betsabé, persuasões do profeta Natan, decisão suprema de Jeová. No trono, este monarca fora das leis do sangue marca diferenças: ao pai David, bélico e expansionista, sucede como defensor da tranquilidade e da estabilidade do reino; desce a tradição da poesia paterna até uma secura de provérbios e máximas, e nalgumas Bíblias a um «Livro da Sabedoria»; consegue apagar crueldades, como a morte do seu irmão Adonias, com um sentido de justiça que chega a exemplo universal. O seu palácio faz-se símbolo de majestade; manda-o construir com requintes arquitectónicos que o entretêm durante treze anos (o dobro dos que precisou para levar a cabo o «seu» templo), rodeia-se de ouros e jóias, perfumes, madeiras preciosas, animais exóticos. Um dia recebe a visita da rainha do Sabá (o actual Iémen), que queria pô-lo à prova com enigmas capazes de embaraçar a sua sabedoria, e dá-se o confronto célebre, que é mítico e fabuloso, de duas imponências afogadas em luxo e com momento alto talvez consumado em volúpia sobre os coxins do rei; porque este ascendente em vigésimo sétimo grau de Jesus Cristo (segundo o saber genealógico de Mateus), é auge nas sensualidades bíblicas: explora um harém de setecentas princesas e trezentas concubinas, concerto de números que alcança a soma redonda de mil. (Um rei tão treinado pelos banquetes do sexo teria resistido a não conhecer intimamente a trigueira de Sabá?) A meio do Velho Testamento, entre a sabedoria perplexa do «Eclesiastes» e a boa nova aos pobres derramada no «Livro de Isaías», a autoridade de um versículo faz deste Salomão erótico o poeta da grande surpresa profana — pese embora esta evidência às retóricas da interpretação aconselhada; do «Cântico dos Cânticos», chamado assim porque talvez melhor momento entre os hinos


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ao amor físico saídos da velha literatura hebraica, e que é o incómodo, o indisfarçável embaraço cristão nas águas da espiritualidade bíblica; colecção de metáforas sobre a gramática dos sentidos e com potencialidades de interpretação que chegam a uma inesperada licença. Na verdade, até onde pode levar a redução a realismo das palavras de uma apaixonada que acha o fruto do seu amado «doce ao paladar», o incita a «penetrar no seu jardim e comer dos seus belos frutos», a «beber o mosto das suas romãs», ou vê os dedos da sua própria mão molhados pela «mirra líquida que banha o ferrolho»? O Velho Testamento, herança que a cultura judaica legou aos cristãos, levantou-lhes um problema de corpo e de sexo. Para o judaísmo, a alma habita o corpo e a sua carne que deve viver em felicidade; para os cristãos o corpo é receptáculo onde a alma habita, deve ser sublimado e reprimido para dar ensejo a todos os voos, e o seu sexo deve limitar-se à procriação. Ora, «O Cântico dos Cânticos» excede-se em audácia neste campo. Parece tão profano, que os próprios Judeus se defenderam atribuindo-o a Salomão para caucionar a sua entrada na Bíblia. Os cristãos, esses, olharam-no com prudência e bastante incómodo. Uma tal liberdade feminina colidia com o ensinamento de São Paulo, que desaconselha toda a carga sensual na relação entre os sexos. Este agente erótico que saltou muros de convento trazendo consigo o arrepio, a perturbadora intromissão de alguns perfumes do mundo, desassossegou a rispidez de muitas celas. A confusão maravilhada de Santa Teresa de Ávila, convicta de que a Bíblia só lhe daria a conhecer palavras de Deus ainda que proferidas de tão estranha forma naquele texto santo, ficaram célebres. Vejam-se frases do seu espanto, escritas nos «Conceptos del Amor de


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Dios»: «Beija-me com o beijo da tua boca. E a seguir parece que diz àquele com quem está: Melhores são teus peitos. Isto não entendo como é, e não entendê-lo faz-me uma grande dádiva.»1 E depois, dirigindo-se às companheiras de convento: «Por isso vos recomendo muito que ao lerdes um livro qualquer e ao ouvirdes um sermão, aquilo que não puderdes de boamente entender quando pensardes nos mistérios da nossa sagrada fé, não vos canseis nem consumais o pensamento a esmiuçá-lo; muitas coisas não são para mulheres nem mesmo para homens.» E mais adiante, a Deus: «Oh, senhor meu e Deus meu, mas que palavras para um verme dizê-las ao seu Criador! Bendito sejais Vós, Senhor, por nos terdes elucidado de tantas maneiras diferentes! Mas quem se atreverá, Rei meu, a dizer estas palavras se não tiver para tal o Vosso consentimento? […] Pelo menos tenho a certeza de que eles [os que chegam ao Santíssimo Sacramento com graves pecados mortais] não as dirão porque estas palavras e outras semelhantes, que estão no “Cântico”, di-las o amor; e como eles o não têm, bem podem ler todos os dias o “Cântico” porque se não instruem com elas e também não irão atrever-se a pô-las na boca; porque só ouvi-las atemoriza, tal a grandeza que trazem consigo.» Levantado num oceano de religiosidades, este farol dos sentidos ao longo dos tempos inspirou poetas com imaginações alegorizantes. No século X, o abade Williram de Edesburg converteu o «Cântico» à disciplina dos hexâmetros e fê-lo símbolo do amor do Cristo pela Igreja; dois séculos mais tarde, o alto alemão de São Trudpest deu 1 As traduções mais recentes deste texto não utilizam a palavra «peitos» mas «carícias». Dir-se-á que houve em bíblias mais antigas uma interpretação agravada do sentido de uma mesma palavra. Voltaire ainda é mais violento ao escrever tetons, de mais grosseiro registo, sem dúvida, que os pechos perturbadores da santa de Ávila.


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sentido triplo ao amor da Sulamita pelo amante, vendo nele o amor do Cristo pela sua mãe, pela humanidade e pela alma dos pecadores; em 1275, os versos de Brun von Schonebecke fizeram de Salomão premonitória imagem do Cristo, e de uma discreta referência à mandrágora alusão ao Anticristo; em 1561, o monge Luis de Leon teve de defender o seu poema e o seu comentário, inspirados pelo «Cântico», num tribunal da Inquisição; e a pobre irmã Isabel Osorio, poetisa de claustro, viu os seus ardores líricos proibidos pelo Concílio de Trento, que não admitia glosas de textos sagrados em linguagem profana. Mas a esta relação ainda falta a sua mais célebre paráfrase: a do «Canto Espiritual» de São João da Cruz, escrito durante nove meses de cárcere e maus tratos físicos em Toledo, punição de uma contenda sobre disciplinas que opôs os calçados e os descalços da Ordem do Carmelo. Dir-se-á, no entanto, que estas inspirações vocacionadas para glosas alegorizantes do «Cântico» esmoreceram depois da Idade Média; que à vontade de lhe inventar novos sentidos sucedeu a de fazer saltar o seu corpo estranho para fora das páginas da Bíblia, de o atirar aos circuitos alargados da poesia profana com traduções (directas ou indirectas) de poeta a poeta, ressuscitar noutras línguas este amor físico que sobressai e se faz impertinente quando encaixado entre os versículos do misticismo bíblico. A relação de Ernest Renan com o «Cântico» não prolonga a veia destas intenções poéticas. Para as palavras bíblicas do «Cântico» Renan quer um palco; quer actores; quer um libelo contra a escravatura dos haréns e recuperar o mais antigo grito da literatura que em voz feminina reivindica a liberdade sexual da mulher. Por três vezes Renan escreveu sobre livros do velho Testamento, não como poeta nem seguidor das interpretações autoritá-


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rias da Igreja, mas no papel de implacável filólogo: em 1858, Le Livre de Job marcou os inícios da sua carreira literária com a audácia de ver Job perturbado pela dúvida da existência de Deus, o que levou o Vaticano a inscrevê-lo no seu Index das leituras proibidas; vinte e quatro anos mais tarde dissertou sobre o «Eclesiastes» e fez dele uma exegese que chocou os adeptos da tradição; e em 1860 escolheu o «Cântico dos Cânticos», história de harém investigada versículo a versículo e levada às evidências de um primeiro estado em que era utilizada como peça teatral para festas populares. Os desajustamentos, os solavancos que perturbam a coerência da interpretação tradicional — a que impõe Salomão e a Sulamita (assim chamada porque natural de Sulém) como únicos protagonistas do poema — desfazem-se ou quase se desfazem com as alterações cénicas da sua proposta. A intriga do «Cântico» é triangular e contra a prepotência de Salomão; fala de uma sequestrada e do seu direito de mulher à escolha sentimental e sexual, a que obtém uma resposta no seu corpo. Para Renan, o entreacto do «Cântico» é um momento de Bíblia esquecido do amor a Deus para cantar outro, o que vive nos encontros físicos e no sentimento «forte como a morte» que é construtor da humanidade. Apesar de feita à margem das leituras propostas pela Igreja, a exegese de Renan não o leva a posições radicais. Se lhe parece que um «Cântico» profano enriquece a Bíblia com a mais forte emoção do homem, aquela que lá estava em falta, também concorda que a interpretação cristã confere ao original hebraico uma diferente dimensão com transparência e delicadeza que escapam à interpretação realista. Bem mais distinta é a Sulamita cristã que a antiga virgem da tribo de Issacar, escreve no final do seu


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ensaio; a delicadeza de sentimentos das novas raças corrigiu aquilo que, um tanto baço e um tanto pesado, o génio hebraico tem. Não foi, porém, uma condescendência que acalmasse a irritação dos intérpretes bem comportados da Bíblia. A profanização do «Cântico» teorizada num livro de vasto circuito comercial, a recusa em aceitá-lo desvirtuado pelas alegorias da sua leitura piedosa, ofendiam o pouco maleável catolicismo da França novecentista. O «Cântico» não podia contar a sua história sem Deus; o «Cântico» não podia correr o risco de surgir como simples intriga de harém e amor físico enunciada por actores, vivida com adereços, danças e arrebatamentos eróticos declamados no palco mundano de um bulevar. * Em Outubro de 1892, quando a Terceira República do presidente Sadi Carnot decidiu pagar o funeral de Ernest Renan com dinheiros públicos, fizeram-se ouvir vozes de uma animosidade que desde há anos se mantinha emudecida mas não distraída; houve panfletos, protestos, declarações inflamadas. Renan continuava controverso nas letras francesas. E apesar de contestado ou mesmo odiado, era reconhecido como importante figura nacional. O ponto mais alto na sua carreira de escritor, chamado Vie de Jésus — um dos grandes acontecimentos literários do século XIX («um acontecimento literário que passou de repente a parecer-se com um acontecimento planetário», escreveu Thibaudet) — recusava o Jesus divino, e em prosa poética e romanesca deixava-o restituído à dimensão de um homem; audácia que emocionara duas gerações de leitores e chegara a todas as línguas cultas do mundo, momento feliz para editores («êxito ainda


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maior», escreveu Michel Lévy, «graças aos mandamentos furibundos dos nossos senhores bispos e arcebispos»)1. Era o Renan do Jesus-homem que morria homenageado pelos políticos e intelectuais laicos da República mas sem o perdão de católicos que tentavam desde há muito incomodá-lo, feridos pela sua impura celebridade. Durante o reinado de Napoleão III, no auge da sua carreira universitária como professor das línguas hebraica, caldaica e siríaca, tinha sido suspenso do corpo docente do Collège de France (depois de afirmar numa aula que Jesus era apenas um homem incomparável; tão grande, que eu não quereria aqui, onde tudo deve ser julgado sob o ponto de vista da ciência positiva, contradizer aqueles que, tocados pelo seu carácter excepcional, lhe chamam Deus). Contudo, o seu êxito de escritor não dava uma significativa dimensão dramática a esta suspensão de vencimentos, e a sua resposta ao ministro que o destituiu reflecte uma segurança material sustentada por confortáveis direitos de autor, nesses dias tão fulgurantes como os de Hugo e de Dumas. Irreprimível erudito, Renan apoiou-se no latim dos «Actos dos Apóstolos» e gritou esta sobranceria: Pecunia tua tecum sit, podes guardar o teu dinheiro. Dois anos depois, o início da Terceira República fê-lo esquecer este desaire. O professor humilhado teve um triunfante regresso ao Collège de France; e um pouco mais tarde pôde ascender à direcção do mesmo estabelecimento, altura em que lhe foi também concedida uma cadeira entre as glórias solenes da Academia Francesa. 1 Em Portugal ligou-se a um grande êxito de vendas de uma editora do Porto, a Lello & Irmão, que no princípio do século XX publicou os sete volumes das Origens do Cristianismo de Renan, um deles a Vida de Jesus. (Em 2005, esta mesma obra surgiu em português numa nova tradução e na editora Vida.)


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Hoje, a mais de um século de distância é difícil perceber o que levou à hostilização deste homem com um programa conciliador das expressões religiosas e filosóficas da humanidade. Talvez a sua prosa doce e fluente, espalhada nas estantes do povo a cantar essa realidade total, a construir argumentações destruidoras de algumas verdades inquestionadas pelo catolicismo, com seduções de agente perversor entre jovens disponíveis e sempre prontos a abraçar os reversos da tradição instituída. Quando morreu, muitos voltaram a dizê-lo indigno dos prestígios que o governo da nação lhe conferia. Onda alta com palavras que ainda hoje se lembram, as de Barbey d’Aurevilly inesperadas num escritor da sua estatura: — «Manhoso destilador que envenena com açúcar e cheio de elegantes maneiras»; as do excesso colorido de Jean Guitton: — «Tinha uma cabeça de Apocalipse. Direi mesmo que uma cabeça de porco. Sim, de porco. Digo-o sem desprezo. Vejo-o refestelado num excesso de carne e pele, com olhar vazio, sobrancelhas ruivas. […] Renan fez-me mal!»; ou as de uma indignação gritada de Paul Claudel: — «Naquele tempo reinava Renan. […] Perdi a fé na divindade do Cristo.» Muitos anos mais tarde ainda houve um tardio momento de cabeça perdida, o da sua neta Henriette Psichari no depoimento para o livro Renan d’après lui-même, publicado em 1937, metralha de um velho ódio de família atirado ao seu avô célebre: «traidor, monstro, trapaceiro, satânico, assassino da sua irmã, incestuoso, ímpio, renegado, Judas, anjo do inferno». Mas a este Renan controverso também não faltam os rendidos de um pólo oposto; aqueles que o vêem como apóstolo da convergência de todas as formas construídas pelo homem para imaginar o seu Deus, os que sabem amar o estilista da Vie de Jésus ou dessa


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Prière sur l’Acropole que François Mitterrand citava como seu livro de cabeceira e levou Flaubert a escrever numa carta de 1876: «Não sei se existe em francês mais bela página de prosa». Stefan Zweig é bom exemplo da expressão deste sentimento quando fala dele num texto de 1937: «Durante longos anos, este espírito livre e indulgente exerceu sobre a juventude francesa, sobre o escol da Europa, o incontestado império de uma força serena e de um verbo elegante. Império, aliás, todo feito de suavidade. Renan não enunciou dogmas, não combateu os que existiam; a sua natureza compreensiva e conciliadora trazia à luz as diferenças entre as línguas e as civilizações, não para lhes sublinhar os contrastes mas provar a eterna unidade do espírito que reveste todas as formas, deus indivisível que as nações, as épocas modelam à sua própria imagem. A sua fé pura, espiritual, quase religiosa, animava de vida intensa as mais frias ciências, a filologia e a exegese; onde os outros mais não viam que inscrições, pergaminhos, fragmentos, o seu olhar de poeta, de visionário, transpunha os mais longínquos horizontes e via o alvor da humanidade, o crepúsculo das idades. Perante os seus olhos dotados de alcance sobre-humano os povos desfilavam como caravanas através do deserto dos tempos. As civilizações floresciam e ruíam, as religiões esfumavam-se, miragens coloridas no infinito céu das gerações. Parecia-lhe que a humanidade fervilhante apenas formava um único ser, só tinha uma única e maravilhosa existência com primeiros jogos que ele espreitava, com primeiros sonhos que ele interpretava; compreendê-los, aprofundá-los sempre mais, dava-lhe a mais pura das alegrias. Foi um grande mestre porque foi um grande artista.» O reconhecimento do Estado de Sadi-Carnot celebrava o erudito mas também o escritor que ao mundo contara a história


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do Jesus sem milagres e que as hostes emocionadas da religião confundiam com um filho de Deus; era a vénia oficial à sua ascensão difícil para a celebridade, bem conhecida dos homens do seu país, e às dificuldades da sua infância e da sua juventude avaliáveis pelo livro que onze anos antes ele publicara para tornar públicos os passos de uma vida de privações, a hostilidade dos que lhe não consentiram o direito à dúvida e a juízos que ferissem a teologia aprovada pela Igreja de Roma. Nestes Souvenirs d’Enfance et de Jeunesse1 Renan diz-nos que foi gerado durante uma crise de alcoolismo por um capitão de longo curso, o que cinco anos mais tarde daria à costa numa praia de Erquy, com todos os indícios de um mergulho suicida; fala da mãe beata e dominadora, expulsa de uma vida abastada para outra, da viuvez sofrida atrás do balcão de uma mercearia de província; do menino frágil protegido por duas mulheres — a sua mãe e a sua irmã Henriette, sucedâneo materno durante as horas do atendimento no posto de vendas familiar, a que mais lhe defendia o corpo das más arremetidas do clima da Bretanha. Desde cedo, Ernest foi endurecido por privações que lhe eram apontadas como insondável desígnio de Deus; deambulou entre a casa materna e a catedral; viu na Igreja uma consolação sublime, substituiu por santos os heróis do imaginário infantil que era no seu tempo alimentado com Perrault, Grimm ou Andersen. Por isso foi dócil quando aos dez anos de idade lhe mostraram como destino um colégio de padres. E nesse meio vocacionado para disciplinas brilhou, ao ponto de uma inesperada bolsa lhe conceder 1 Publicado em português (Recordaçõers da Infância e da Juventude) na última década dos anos quarenta, pela Editorial Gleba, Limitada.


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Paris e outro colégio de maior prestígio, o de Saint-Nicolas-du-Chardonnet. Mas bem cedo sentiu sobre si a sombra que iria fazer dele o filólogo descrente: àquela educação faltava a ciência positiva, a ideia de uma investigação crítica da verdade; aquele humanismo superficial pôs-me o raciocínio a marcar passo durante três anos, embora ao mesmo tempo conseguisse destruir o que ainda existia em mim de ingenuidade primária da fé. Já perto da crise que o afastará da Igreja, ainda enfrenta a fatalidade dos seminários de Issy e Saint-Sulpice, e com desagrado se aproxima da tonsura. Como não, se a Bíblia está cheia de erros e contradições, vai ele dizendo aos que o rodeiam, a prepará-los para o inevitável momento da ruptura; se está cheia de fábulas e lendas. Como é possível conciliarem-se os evangelhos sinópticos com São João? Forçar Daniel a contemporâneo dos Macabeus? Atribuir o «Pentateuco» a Moisés? Não renuncio ao sacerdócio por razões metafísicas nem sexuais, escreve numa carta dessa época, mas por motivos filológicos. Para regressar ao catolicismo precisaria de amputar o meu raciocínio. Afirmações como estas são proclamadas com uma força que dissuade os esforços da senhora Renan para fazê-lo regressar são e salvo às razões do bom senso bretão; já revelam a sua indiferença perante os maus olhos que a França daquele tempo reserva aos traidores da fé; perante a vida áspera que suportará com a faculdade de adaptação dos que nunca conheceram amenidades nem larguezas. Até aos quinze anos vivi de batatas, explica num dos seus textos autobiográficos; depois suportei os húmidos corredores de Issy, a cela de Saint-Sulpice, as magras rações da pensão Crouzet. No entanto, este Renan batido por tão maus dias tinha a defendê-lo uma invulgar capacidade de estudo; aprendeu o siríaco, o


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caldeu, o persa, o copta, o hebreu «com uma insolente facilidade», recordou um dos mestres que o leccionaram neste período difícil, e poucos anos lhe foram precisos para exibir um impressionante saber nos domínios da História e da Filosofia. Com vinte e quatro anos de idade era assistente na Sorbonne e recebia um prémio pela sua Histoire Générale des Langues Sémitiques; podiam ler-se artigos seus no Journal des Débats e na Revue des Deux Mondes; era-lhe reconhecido mérito para ir à Itália visitar monumentos e descobrir preciosidades na biblioteca do Vaticano. São estes os primeiros anos em que Renan vê recompensada a sua erudição, em que não vive oprimido por um grande peso de dívidas, em que começa a afastar de si os hábitos adquiridos numa vida austera. Resolve, então, visitar a sua irmã Henriette, que trabalha na Alemanha como preceptora dos filhos do conde Zamoyski. O reencontro é decisivo para o futuro de ambos e levá-los-á a coabitar durante doze anos, aqueles em que Ernest exercita a sua escrita incómoda à religião católica, em que Henriette se assume como apoio imprescindível, como força que o irmão precisa para responder aos desafios da sua carreira de escritor e professor. A vigilante madame Renan, essa, continua na Bretanha. Já desistiu de devolver o filho à religião do Cristo que a salvou de grandes desesperos nas más horas da vida, mas julga-se a tempo de impedir que os seus trinta e três anos de idade continuem a mostrar ao mundo um indecoroso celibatário, indiferente ao lar e aos filhos vistos por Deus como verdadeiro centro da vida de um homem. Renan faz-se distraído; começa por não dar nenhuma das respostas que lhe são pedidas mas acaba por ceder. Escolhe a protestante Cornélie Scheffer, com uma doçura de pomba que não chega para desviar duas tempestades: por carta, a da beata


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bretã, incapaz de admitir uma nora moldada por outra religião; a desencadeada pela irmã, que dificilmente aceita partilhar afectos. Mas a brandura de Cornélie faz milagres; não só amacia as hostilidades da sogra e da cunhada, como aceita o casamento católico e a casa em Paris desde logo partilhada por três mulheres — três deusas menores na incansável ronda do génio, que o acalentam e protegem, que entre si disputam o melhor naquela representação secreta, encenada num andar alto do Val-de-Grâce. Em Outubro de 1860, quando Renan é convidado para chefiar uma missão arqueológica na Síria e na Palestina, Henriette é peremptória: também vai; será secretária, será assistente, não terá medo de poeiras nem da vida ao sabor de acampamentos que serão a sua oportunidade de encontro com objectos desde há muito perdidos no solo da então mal conhecida civilização fenícia. Henriette prevê tudo, menos esta fatalidade: ser infectada com paludismo, queixar-se em vão de má saúde àquele estudioso distraído pelas cerâmicas dia a dia levantadas do pó. Numa carta a Marcellin Berthelot ainda vai a tempo de dizer que «ao Ernest mais preocupam as ambições que os afectos». A frase, que parece saída de um amor ressentido, não exagera a sua condição física: sem tratamento, Henriette morre. Ernest chora, tem momentos de má consciência mas vê-se obrigado a sepultá-la na distância solitária de uma qualquer Amshit, terreola de cães e camelos batida por sol e pelas areias de um deserto. Desta viagem com mau fim, ele traz notas essenciais para a Vie de Jésus, dois anos depois publicada e dedicada a Henriette; entre os seus livros o que mais fama e hostilidades lhe trará, o que vai mantê-lo quinze anos afastado da sua Bretanha natal, o que levará uma Marselha retrógrada a dobrar sinos num concertado


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repúdio à humanização do filho de Deus, o que atirará o bispo de Poitiers para a crista de uma onda de publicidade involuntária: «Um homem público», dirá numa advertência para fiéis, «cumulado de honras, alimentado pelo dinheiro dos contribuintes, […] pôde escrever e em todos os lados difundir um livro repleto de coisas tão ímpias, tão insultuosas para todos os católicos, e não apenas subversivas em relação ao cristianismo mas a tudo o que é religião positiva ou mesmo natural.» — Não vou alterar-lhe uma vírgula — respondia Renan aos que tentavam convencê-lo a outra edição suavizada nas suas páginas mais polémicas. Renan ainda escreveu Les Apôtres, Saint Paul, L’Antéchrist, Les Evangiles, L’Église chrétienne, Marc Aurèle et la fin du monde antique, Histoire du peuple d’Israel… sem uma palavra que a sua honestidade de filólogo pudesse desaprovar. Dezassete anos mais tarde, impressionado com a conversão ao catolicismo do moribundo Littré (o do Dicionário) seu amigo de longa data, deixava este aviso: Eu desolar-me-ia sabendo-me destinado a atravessar um desses períodos de fraqueza em que o homem forte e virtuoso já só é sombra e ruína de si mesmo e muitas vezes, para grande alegria dos tolos, se ocupa a destruir a vida que laboriosamente edificou. Uma tal velhice é a pior dádiva que os deuses podem escolher para presentear o homem. No caso de esta sorte me estar reservada, protesto energicamente contra as fraquezas que um cérebro dessorado poderá fazer-me dizer ou assinar. Não correu esse risco: Renan morreu lúcido e coerente consigo próprio, por isso mesmo com as honras oficiais que a presidência do país achou por bem render-lhe. Dias em que houve novos ex-


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cessos na imprensa, bem mais de censura que de elogio; em que o parlamento se opôs quando o governo mostrou vontade de o deixar no Panteão, ao lado de Michelet e Quinet. Ao Renan da Vie de Jésus, com direito a funerais pagos pela nação, restou a possibilidade de um cemitério em Montmartre e de uma campa discreta, legendada em latim: Veritatem dilexi — diz a sua lápide na língua que lhe era mais cara. A que ele próprio escolheria, talvez, se quisesse lembrar a futuros vivos «que tinha honrado a verdade». A.F.


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prefácio do autor Às vezes Israel deixava-se distrair do seu alto destino, e durante séculos vimos o seu povo esquecer-se da missão religiosa que era chamado a cumprir. Transformada em Terra Santa para a humanidade civilizada, a Judeia só nos surge agora como um país de padres e profetas; à primeira vista, todos os monumentos da literatura hebraica são livros santos. Mas há nisso uma ilusão resultante do preconceito que só nos consente ver nas grandes coisas o próprio princípio que lhes dá grandeza. Um estudo atento desses escritos, todos apresentados como religiosos, revela-nos muitos vestígios de uma vida profana que, sem ter sido o lado mais brilhante do povo judeu, foi naturalmente atirada para a sombra. Por milagre estranho e graças a um equívoco que a crítica não saberia enfrentar com muita severidade, já que nos preservou o talvez mais curioso monumento da Antiguidade, até nós chegou um livro completo, obra desses momentos de olvido em que o povo de Deus deixava sossegadas as suas esperanças infinitas. «O Cântico dos Cânticos» não é a única página profana que a Bíblia encerra, mas de longe a que os escribas decisores da sorte dos escritos hebraicos trataram com a mais larga das suas regras de admissão. Acreditei, portanto, que fazia um trabalho útil ao estudar, depois de «O Livro de Job», este outro livro muito menos importante, no que respeita a filosofia e a reli-


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gião, mas também essencial aos que quiserem conhecer com exactidão a história do desenvolvimento do espírito hebraico. A natureza particular das dificuldades de «O Cântico dos Cânticos» obrigou-me neste ensaio a seguir um plano um pouco diferente do que adoptei para «O Livro de Job». Em nenhum dos dois estudos me propus fazer um comentário definitivo, onde o sentido de todas as passagens difíceis fosse discutido; raras vezes fui levado a propor com pormenor interpretações inteiramente novas; a justificação da minha tradução assenta, por conseguinte, nas numerosas obras onde cada linha destes escritos antigos foi examinada com desenvolvimentos a que eu teria pouco para acrescentar. Contudo, no que respeita a «O Cântico dos Cânticos» mais algumas explicações eram necessárias. O plano da obra, evidente em «O Livro de Job», oferece no poema que desta vez nos ocupa as mais sérias dificuldades e é, para dizer a verdade, o grande problema da sua exegese. Sem nunca recuar perante a necessidade das mais complicadas deduções, propus então ao leitor toda a série dos raciocínios que levaram à minha hipótese sobre a natureza do poema. É o objecto do primeiro parágrafo do «Estudo Preliminar». Sem esses pormenores, a organização que atribuí ao poema pareceria uma construção artificial, e em vários lugares teria a aparência de raciocínio habilidoso. Quanto à forma como o texto traduzido se apresenta, forçou-me a mesma razão a adoptar um critério que talvez comece por surpreender mas ao qual se reconhecerá, segundo espero, utilidade. Neste volume, o texto traduzido surge duas vezes impresso; a primeira sem qualquer adição explicativa e sob uma forma que nada deixa prever quanto ao plano do


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poema; as únicas separações que lá se encontram são aquelas que à primeira vista chamam a atenção de um leitor atento; separações, aliás, com um carácter que é apenas provisório1; uma segunda com as separações e as explicações resultantes da discussão a que me entreguei no estudo preliminar sobre o plano do poema. Se eu me limitasse à primeira forma, teria faltado ao mais essencial dever do tradutor: dar a quem lê um texto que por si só se explica. Se apresentasse apenas a segunda forma ter-me-iam acusado, com razão, de impor a minha hipótese através do texto traduzido; seria difícil abstrairmo-nos das separações e das indicações cénicas; o texto nu não conseguiria ter suficiente nitidez. Pelo contrário, com o partido que tomei, a liberdade do leitor é plenamente respeitada; se lhe aprouver pode ler apenas a primeira forma e tentar construir uma hipótese melhor do que a minha. A quem quiser dar-se a um tal esforço avisarei, porém, que o plano aqui escolhido é o que resulta do trabalho de várias gerações de laboriosos intérpretes. A um primeiro olhar será fácil encontrar-lhe pontos fracos, mas havendo vontade de tudo pesar e de não nos cingirmos à consideração exclusiva de certas passagens, creio que chegará a reconhecer-se como impossível propor outra construção. Claro está que isto só é aplicável ao poema no seu conjunto. Na interpretação de um livro desta natureza há inúmeros matizes que se deixam à apreciação de cada qual, e é mesmo provável que o autor não tivesse, sobre todos os pon1 A velha divisão em capítulos e versículos, sem qualquer valor crítico mas utilizada para as citações, está marcada de acordo com o texto hebraico na margem da primeira tradução. (N. do A.) (Salvo indicação em contrário, todas as notas de pé de página são do autor. — N. do T.)


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tos, ideias pré-estabelecidas tão firmes como as que os nossos hábitos de espírito agora exigem. Duas passagens, sobretudo (6.11 e seg; 8.8 e seg.), são de uma dificuldade extrema. Expliquei-as da forma que me pareceu mais verosímil; no entanto, quando se trata de passagens tão obscuras é presunçoso falar de certeza. Não vou encobrir um critério que começou por me preocupar, e do qual só desisti quando fiz o meu trabalho passar pela última revisão. Durante muito tempo pensei que o único meio de encontrar remédio para os tumultos que o plano do «Cântico» parece levantar, seria transpor-lhe algumas cenas. É certo que a ordem cronológica da acção está, no estado actual do poema, totalmente destruída. Por isso vemos no primeiro capítulo a rapariga fazer a sua entrada no serralho; no capítulo terceiro entrar pela primeira vez em Jerusalém; no capítulo sexto ser surpreendida em Sulém pela gente de Salomão; no capítulo oitavo os seus irmãos com ar de quem congemina em conjunto uma trama cujo desenvolvimento constituiria o centro do poema. Devido, sobretudo, a estes dois últimos pedaços é que a tentação se mostrava forte, e confesso que às vezes ainda sou levado a acreditar que o poema sofreu desordens graves. Mas no momento de realizar a tarefa ousada que é tocar num texto desde há tantos anos estabelecido, a minha mão tremeu. A não ser possível levar o poema, como ele é, à forma que as nossas ideias sobre a arte dramática exigiriam, e termos de seguir um critério que é lá adoptado, recusei-me a utilizar uma medida drástica que só em casos de absoluta necessidade deve ser usada. Sei que várias passagens da tradução vão chocar um pouco duas classes de pessoas: em primeiro lugar as que só admiram


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na Antiguidade o que é mais ou menos parecido com as formas do gosto francês; em segundo lugar as que só conheceram o «Cântico» através do véu místico que a consciência religiosa dos séculos pôs à sua volta. Como é natural, a estas últimas mais me custa ferir os hábitos. Temos sempre medo de tocar nestes textos sagrados que fundamentaram ou apoiaram as expectativas da eternidade ou, em nome da ciência crítica, de rectificar os contra-sensos seculares que consolaram a humanidade, que a ajudaram a atravessar tantos desertos áridos e a fizeram conquistar verdades muitíssimo superiores às da filologia. É preferível que a humanidade tenha esperado o Messias, em vez de ter compreendido bem determinado passo de Isaías onde julgou vê-lo anunciado; é preferível que tenha acreditado na ressurreição, em vez de ter lido e compreendido bem determinada passagem obscura de «O Livro de Job» cujo testemunho usou para afirmar a sua futura salvação. Onde estaríamos nós se os contemporâneos do Cristo e os fundadores do cristianismo tivessem sido tão bons filólogos como Gesenius? A fé na ressurreição e a fé no Messias a bem maiores coisas levaram do que a ciência exacta do gramático. À grandeza do espírito moderno cabe não lhe sacrificar uma das necessidades legítimas da natureza humana; as nossas esperanças já deixaram de depender de um texto bem ou mal compreendido. Aliás, cada um de nós bastante mais impõe a sua fé aos textos do que encontra neles matéria para a alimentar. Os que precisam da autoridade de Job para ter esperanças no futuro, não acreditarão no hebraizante que lhes expõe as suas dúvidas e as suas objecções; sem se inquietarem com uma variante, dirão afoitamente com a humanidade: De terra surrecturus sum. De igual


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forma querido a tantas almas piedosas, o «Cântico» subsistirá, apesar das nossas demonstrações. Tal como uma estátua antiga que a piedade da Idade Média tivesse vestido de madona, ele manter-se-á respeitável mesmo que o arqueólogo prove a sua origem profana. Quanto a mim, por objectivo não tive subtrair a imagem tornada santa à veneração, mas despojá-la por um momento de véus, mostrando-a na sua casta nudez aos amantes da arte antiga.


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O CÂNTICO DOS CÂNTICOS tradução onde se introduzem as divisões e as explicações cénicas


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primeiro acto É suposto que a cena representa Salomão no meio do seu serralho.

1.ª Cena uma mulher do harém Que ele me beije com um beijo da sua boca!... as mulheres do harém, em coro. Tens carícias mais doces do que o vinho, quando se misturam aos teus finos perfumes; o teu nome é um óleo derramado; e por isso te amam as donzelas. a sulamita levada à força e dirigindo-se ao amigo amante. Arrasta-me contigo; vamos correr juntos. O rei fez-me entrar no seu harém. as mulheres do harém, a Salomão. Só a ti pertencem os nossos júbilos e as nossas alegrias. Mais valem as tuas carícias do que o vinho! Como há razões para te amarmos!


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a sulamita Mulheres de Jerusalém, sou trigueira mas formosa como as tendas de Quedar, como os pavilhões de Salomão. Por ser morena não me desprezeis; o sol me queimou. Tive contra mim os filhos de minha mãe; para os campos me mandaram guardar vinhas. Mas desgraçada sou, porque muito mal guardei a vinha que me pertencia1.

2.ª Cena a sulamita, sonhadora. Diz-me, amado do meu coração, para onde levas as tuas ovelhas, onde as recolhes ao meio-dia, para eu não vaguear como perdida à volta de rebanhos que são dos teus amigos. uma mulher do harém Se tão grande é a tua ingenuidade, ó mais bela de todas as mulheres, segue o rasto do teu rebanho e leva a pastar as tuas cabras, sem perderes de vista as cabanas dos pastores. salomão À minha égua te comparo, amiga, quando atrelada aos carros que me envia o Faraó. Tens faces enfeitadas com fios de pérolas, e o pescoço com fieiras de coral. Colares de ouro vamos fazer-te, com incrustações de prata. 1 Quer dizer, a minha honra de rapariga. Faz alusão à surpresa de que foi vítima. (Ver Quinto Acto, 2.ª cena.)


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3.ª Cena a sulamita, sozinha. Com o rei no seu divã, o nardo que me perfuma faz sentir o seu odor. Vejo o meu bem-amado como um ramo de mirra; e vai repousar entre os meus seios. Vejo o meu bem-amado como um cacho de ligustro das vinhas de En-Gadi. Salomão entra. salomão Sim, minha amiga, és bela! Sim, és bela! Tens olhos como olhos de uma pomba. a sulamita, dirigindo-se ao seu amigo ausente1. Sim, meu bem-amado, és belo! Sim, és sedutor! O nosso leito é um leito de verdura. salomão As traves do nosso palácio são de cedro, e os nossos lambris de cipreste. a sulamita, a cantar2. Eu sou o narciso de Sarón, O lírio dos vales! Reporta-se, em pensamento, ao tempo em que vivia na aldeia. A Sulamita canta esta copla, provavelmente de uma canção popular, para sossegar o amante quanto à sua fidelidade, e revela-lhe a sua presença. (Ver à frente, Segundo Acto, 2.ª cena.) 1 2


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o pastor entrando bruscamente em cena. Como um lírio no meio dos espinhos, assim está a minha amiga entre raparigas. a sulamita Como a macieira entre as árvores da floresta, assim está o meu amado entre jovens. Muito tempo desejei sentar-me à sua sombra, e o seu fruto é doce ao meu paladar. Os dois amantes reúnem-se. a sulamita Com ele me levou à sala dos lagares; é de amor o estandarte que abre sobre mim. (Ao coro.) Dai-me conforto com uvas, fortalecei-me com frutos porque morro de amor. Cai, desfalecida, nos braços do seu amante e diz, em voz baixa: Com a sua mão esquerda sustém-me a cabeça, e com a direita mantém-me abraçada. o pastor, ao coro. Eu vos suplico, mulheres de Jerusalém: pelas gazelas e pelas corças do campo não desperteis, não desperteis a bem-amada sem que ela o deseje.


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apêndice SALOMÃO por Voltaire


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O nome de Salomão sempre foi venerado no Oriente. As obras julgadas de sua autoria, os anais dos Judeus, as fábulas dos Árabes, estenderam a sua fama até às Índias. O seu reino é a grande época dos Hebreus. Foi o terceiro rei da Palestina. O primeiro livro dos «Reis» diz que a sua mãe Betsabé conseguiu que David coroasse Salomão, seu filho, em vez do mais velho Adonias. Não surpreende que uma mulher, cúmplice da morte do seu primeiro marido, tivesse astúcia bastante para fazer levar a herdeiro o fruto do seu adultério e deserdar o filho legítimo, ainda por cima o primogénito. Uma coisa muito digna de ser assinalada é o profeta Natan, que tinha ido censurar a David o seu adultério, o assassínio de Urias, o casamento celebrado a seguir a este assassínio, também ter vindo a secundar Betsabé para pôr no trono Salomão, nascido desse casamento sanguinário e infame. Uma tal conduta, que só fazia o raciocínio da carne, poderia provar-nos que este profeta Natan usava dois pesos e duas medidas, conforme as ocasiões. O livro não chega sequer a dizer que Natan tivesse recebido uma particular missão de Deus para fazer deserdar Adonias. Se a recebeu, haverá que respeitá-la; mas só podemos levar em conta o que lá encontramos escrito.


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Apêndice

Excluído do trono por Salomão, como única graça Adonias pediu-lhe que o autorizasse a casar com Abisag, a tal rapariga dada a David para o aquecer na velhice. As Escrituras não dizem se Salomão disputava a Adonias a concubina do seu pai, mas dizem que esse pedido bastou para Salomão mandá-lo assassinar. Deus, que lhe concedeu o espírito da sabedoria, aparentemente recusou-lhe o de justiça e de humanidade, como veio depois a recusar-lhe a dádiva da continência. No mesmo livro dos «Reis» se diz que era senhor de um grande reino estendido desde o Eufrates ao Mar Vermelho e ao Mediterrâneo; mas ao mesmo tempo se diz que o rei do Egipto infelizmente conquistara a terra de Guézer no Canaã, e como dote tinha dado a cidade de Guézer à filha com quem se pretende que Salomão casou; é dito que em Damasco havia um rei; que os reinos de Sídon e Tiro floresciam. Rodeado por estados poderosos, não há dúvida de que Salomão mostrou a sua sabedoria mantendo-se em paz com todos eles. A extrema abundância que lhe enriqueceu o país só pode ser fruto desta sabedoria profunda, pois nem um ferreiro lá existia no tempo de Saul, e não mais de duas espadas foram encontradas quando Saul teve de guerrear os Filisteus que mantinham sob domínio o povo Judeu. Saul, que apenas duas espadas começou por ter nos seus Estados, pouco depois já dispunha de um exército de trezentos e trinta mil homens. Nunca o sultão dos Turcos possuiu exércitos tão grandes; chegariam para conquistar a terra. Estas contradições parecem abdicar de todo o raciocínio, e os que quiserem raciocinar acharão difícil que David, sucessor do Saul vencido pelos Filisteus, durante a sua administração tivesse podido fundar um vasto império.


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Mas ainda mais inacreditáveis são as riquezas que ele deixou a Salomão; em dinheiro de contado deu-lhe cento e três mil talentos de ouro e um milhão e treze mil talentos de prata. O talento de ouro dos Hebreus valia cerca de seis mil libras esterlinas; o talento de prata cerca de quinhentas libras esterlinas. Em dinheiro de contado, sem as pedrarias e os outros objectos, e sem o normal rendimento que todo este tesouro, por certo, proporcionava, a soma total dos legados subia a um bilião cento e dezanove milhões e quinhentas mil libras esterlinas, ou a cinco biliões quinhentos e noventa e sete milhões de escudos da Alemanha, ou a vinte e cinco biliões seiscentos e quarenta e oito milhões de escudos da França. Nessa altura não havia em todo o mundo tanto metal sonante a circular. Depois disto não é compreensível que Salomão se tivesse atormentado tanto a mandar as suas frotas até às terras de Ofir para lhe trazerem ouro. Ainda menos se adivinha como é possível que este poderoso monarca não dispusesse nos seus vastos Estados de um único homem capaz de cortar madeira na floresta do Líbano. Foi obrigado a pedir a Hiram, rei de Tiro, que lhe emprestasse rachadores de lenha e operários para executarem os seus trabalhos. Devemos confessar que estas contradições põem à prova o génio dos comentadores. Ao jantar e à ceia da sua casa, todos os dias eram servidos cinquenta bois, cem carneiros e carne de aves e caça em proporção, o que pode chegar a um peso diário de sessenta mil libras de carne, indício de mesa farta. Acrescente-se que tinha quarenta mil cavalariças e outras tantas cocheiras para carros de guerra, mas apenas doze mil cavalariças para a sua cavalaria. Ora aqui temos nós carros de sobra num país de montanhas, grande fausto para este rei com


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um antecessor que só teve uma mula na sua coroação e para uma terra que apenas criava burros. Não se achou justo que um príncipe com tantos carros se limitasse a um reduzido número de mulheres: foram-lhe concedidas setecentas, que usavam o nome de rainhas. Mas é estranho que concubinas só tivesse trezentas, contrariando o costume dos reis, que em geral possuem mais amantes do que esposas. Sustentava, com certeza, quatrocentos e doze mil cavalos para passear com elas ao longo do lago de Genezaré, ou para os lados do lago de Sodoma, ou para os lados da torrente do Cedrom, um dos lugares mais deliciosos da terra se o rio não estivesse seco durante nove meses do ano, e o terreno não fosse um tanto pedregoso. Quanto ao templo que mandou construir e os Judeus tomaram pela mais bela obra do universo, tivessem-no visto os Bramante, os Miguel Ângelo, os Palladio, e não o admirariam. Era uma espécie de fortaleza pequena e quadrada que encerrava um pátio, e neste pátio um edifício com quarenta côvados de comprido, e outro com vinte; deste segundo edifício apenas se diz que era o templo propriamente dito, o oráculo, o santo dos santos, e que tanto tinha vinte côvados no comprimento como na largura e na altura. Na Europa, nenhum arquitecto deixaria de considerar esse edifício um monumento de bárbaros. Os livros atribuídos a Salomão duraram mais que o seu templo; o que talvez seja uma entre as grandes provas da força dos preconceitos e da fraqueza do espírito humano. Só o nome do autor tornou estes livros respeitáveis; julgados bons porque julgados de um rei, e porque este rei passava pelo mais sábio dos homens.


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Como primeira obra atribuem-lhe os «Provérbios». É uma recolha de máximas triviais, inferiores, incoerentes, sem gosto, sem critério e sem objectivo. Será possível convencermo-nos de que um rei esclarecido tenha composto uma recolha de sentenças onde se não encontra uma única respeitante à maneira de governar, à política, aos hábitos dos cortesãos, aos costumes da corte? Por lá se vêem capítulos inteiros sobre rameiras a convidarem os que passam nas ruas a deitar-se com elas. Tomem-se ao acaso alguns destes provérbios: «Há três coisas insaciáveis e uma quarta que nunca diz “basta!”: é o sepulcro, a matriz, a terra nunca saciada de água e o fogo que nunca diz “basta!”. «Há três coisas difíceis, e uma quarta que não compreendo de todo: o voo de uma águia no ar, o caminho da cobra na pedra, o caminho do navio no mar, e o caminho de um homem dentro de uma mulher. «Há quatro coisas que são as mais pequenas da terra e mais sábias do que as sábias: as formigas, pequeno povo que prepara o seu alimento durante a ceifa; as lebres, povo fraco que se deita nas pedras; os gafanhotos, que apesar de não terem reis viajam em grupos ordenados; os lagartos, que trabalham com as mãos mas habitam palácios dos reis.»1 A um grande rei, ao mais sábio dos mortais é que nos atrevemos a imputar frioleiras de tão baixa qualidade e tão absurdas? Quem faz dele autor destas baças puerilidades e diz admirá-las não está, por certo, entre os homens mais atilados. 1 Estes excertos correspondem a «Provérbios» 30. 15, 16, 18, 19, 24-28, com uma forma que por vezes se afasta do sentido que lhes é dado nas Bíblias actuais. (N. do T.)


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Os «Provérbios» foram atribuídos a Isaías, a Elzia, a Sobna, a Eliaquim, a Joaquê e a vários outros; mas, qualquer que tenha sido o seu compilador, esta recolha de sentenças orientais não parece saída dos trabalhos de um rei. Ser-lhe-ia possível dizer que «o terror do rei é como o rugido do leão»? Quem assim fala é um súbdito ou um escravo que a cólera do seu senhor faz tremer. Salomão teria falado tanto da mulher impudica? Teria dito: «Não olheis para o vinho quando ele parece claro e a sua cor brilha no copo»? Duvido muito de que houvesse no tempo de Salomão copos de vidro para beber; a sua invenção é muitíssimo recente; toda a Antiguidade bebia em taças de madeira ou de metal. Só esta passagem mostra que uma tal rapsódia judaica foi composta em Alexandria, como tantos outros livros dos Judeus1. O «Eclesiastes», atribuído a Salomão, é de uma ordem e de um gosto completamente diferentes. O que fala nesta obra parece desenganado das ilusões de grandeza, farto de prazeres, enjoado da ciência. É um filósofo epicuriano, e em todas as páginas repete que o justo e o ímpio estão sujeitos aos mesmos acidentes, o homem nada tem de superior ao animal, mais vale não termos nascido do que existirmos, não há outra vida, só é bom e razoável gozarmos em paz o fruto dos nossos trabalhos com a mulher que amamos. Toda esta obra é de um materialismo, ao mesmo tempo, sensual e difícil de contentar. Dir-se-á que apenas foi deixada Um pretensioso julgou encontrar nesta passagem um erro; achou que a palavra copo é má tradução da taça; que era, diz ele, de madeira ou metal. Mas seria possível o vinho brilhar numa taça de madeira ou de metal? E será isto realmente importante? (N. de Voltaire.) 1


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índice


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Apresentação, por Aníbal Fernandes.......................................

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Prefácio do Autor .................................................................

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Estudo sobre o plano, a idade e o carácter do poema............

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O Cântico dos Cânticos tradução onde se introduzem as divisões e as explicações cénicas Primeiro acto .................................................................. Segundo acto .................................................................. Terceiro acto ................................................................... Quarto acto .................................................................... Quinto acto .................................................................... Epílogo...........................................................................

131 133 137 139 143 145 150

Apêndice Salomão, por Voltaire ............................................................ 153


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Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, Georges Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire


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A papisa Joana — segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence Bom Crioulo, Adolfo Caminha O meu corpo e eu, René Crevel Manon Lescaut, Padre Prévost O duelo, Joseph Conrad A felicidade dos tristes, Luc Dietrich Inferno, August Strindberg Um milhão conta redonda ou Lemuel Pitkin a desmantelar-se, Nathanael West Freya das sete ilhas, Joseph Conrad O nascimento da arte, Georges Bataille Os ombros da marquesa, Émile Zola O livro branco, Jean Cocteau Verdes moradas, W.H. Hudson A guerra do fogo, J.-H. Rosny Aîné Hamlet-Rei (Luís II da Baviera), Guy de Pourtalès Messalina, Alfred Jarry O capitão Veneno, Pedro Antonio Alarcón Dona Guidinha do Poço, Manoel de Oliveira Paiva Visão invisível, Jean Cocteau A liberdade ou o amor, Robert Desnos A maçã de Cézanne… e eu, D.H. Lawrence O fogo-fátuo, Drieu la Rochelle Memórias íntimas e confissões de um pecador justificado, James Hogg Histórias aquáticas — O parceiro secreto, A laguna, Mocidade, Joseph Conrad O homem que falou (Un de Baumugnes), Jean Giono O dicionário do diabo, Ambrose Bierce A viúva do enforcado, Camilo Castelo Branco O caso Kurílov, Irène Némirowsky Nova Safo — tragédia estranha, Visconde de Vila-Moura A costa de Falesá, Robert Louis Stevenson Gaspar da Noite — fantasias à maneira de Rembrandt e Callot, Aloysius Bertrand Rimbaud-Verlaine, o estranho casal O rato da América, Jacques Lanzmann As amantes de Dom João V, Alberto Pimentel Os cavalos de Abdera e mais forças estranhas, Leopoldo Lugones


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Ernest Renan, «O Cântico dos Cânticos» by Sistema Solar - Documenta - Issuu