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Desta edição única de Éden (o filme desta terra), de Tomás Maia e André Maranha, fez-se uma tiragem normal de 500 exemplares e uma tiragem especial de 100 exemplares numerados de 1/100 a 100/100, assinados pelos autores e acompanhados de um DVD que reproduz o filme.
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ÉDEN O FILME DESTA TERRA
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Os textos e as imagens deste livro reportam-se a Éden (o filme desta terra) cuja ficha tÊcnica figura no final.
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ÍNDICE
Partitura Imagens Notas
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Traduções
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[ Prelúdio. 2’ 15” ]
Plano negro. Regressando lentamente do silêncio, como um vento, vozes reverberadas, instrumentos musicais dispersos — o corredor de um conservatório porventura — e mais longínquo ainda, dir-se-ia vindo de um outro piso, o início d’A Criação de Haydn — «A representação do Caos», o último minuto e cinquenta segundos da introdução orquestral.
[ O exterior. O desterro. 1’ 45” ]
Plano fixo, aberto sobre copa de árvore morta ou somente despida de folhagem, discretamente contrapicado. O mesmo fundo sonoro, agora mais recuado, e voz impassível de mulher que profere: Es ist ein großer Behelf der geheimarbeitenden Seele, daß sie auf dem höchsten Bewußtsein dem Bewußtsein ausweicht, und ehe sie wirklich der gegenwärtige Gott ergreift, mit kühnem, oft sogar blasphemischem Worte diesem begegnet, und so die heilige lebende Möglichkeit des Geistes erhält. 11
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In hohem Bewußtsein vergleicht sie sich dann immer mit Gegenständen, die kein Bewußtsein haben, aber in ihrem Schiksal des Bewußtseins Form annehmen. So einer ist ein wüst gewordenes Land, das in ursprünglicher üppiger Fruchtbarkeit die Wirkungen des Sonnenlichts zu sehr verstärket, und darum dürre wird. [«É um grande recurso da alma que trabalha em segredo, que, no momento da mais elevada consciência, ela se esquive à consciência, e que, antes de o deus presente dela se apossar efectivamente, ela lhe faça frente com uma palavra audaz e muitas vezes mesmo blasfema, preservando assim a possibilidade sagrada, viva do espírito. No auge da consciência, ela compara-se sempre então a objectos que não têm consciência, mas que assumem no seu destino a forma da consciência. Um objecto assim é uma terra tornada deserta, que na sua exuberante fecundidade originária fortalece em excesso os efeitos da luz do sol, e por isso se torna árida.»1] Corte. Negro.
[ O interior. A terra. 23’ aprox. ]
Subida de luz até se tornar visível um chão de terra inculta e uma mão que traça com fio o perímetro de um rectângulo apenas parcialmente em campo. Regresso ao negro inicial. 30 segundos. Plano mudo, muito aproximado. 1
F. Hölderlin, Notas sobre Antígona (II); ver traduções, p. 97.
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Alternando entre si, dois compartimentos de uma habitação. Do primeiro, a luz dá a ver um chão de tábua corrida envelhecido, limitado, do lado direito, por uma parede. Do segundo, um pavimento em soalho imaculado, disposto em torno de uma abertura rectangular — 180 por 40 centímetros —, que confina do lado esquerdo com uma parede. Obscurecimento relativo nos dois interiores impedindo a percepção de qualquer parede de fundo. Eixo dos planos ligeiramente picado e à altura de cento e vinte centímetros. Presume-se que a única parede visível seja a divisória dos dois interiores — doravante chamada tabique. Primeiro compartimento. Vinda da obscuridade, ao fundo, uma figura de mulher ainda jovem. Levanta, uma a uma, sem auxílio de qualquer instrumento, as tábuas do pavimento, até expor completamente o chão de terra que lhe subjaz. Excepção feita a um rectângulo assoalhado de 180 por 40 centímetros, que deverá permanecer suspenso, apoiado no vigamento. Segundo compartimento. Atravessado sucessivamente, ora em direcção ao negro do fundo, ora vindo desse negro, por uma figura de homem igualmente jovem, ocupado com o transporte de pesados sacos que deposita na obscuridade. Apenas interrompe o seu trânsito rectilíneo para contornar a abertura no pavimento. Sequência de planos alternados, mudos como os anteriores.
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Levantado o soalho, vêmo-la agora reclinar-se sobre o leito de tábuas, ajustando o corpo até ficar perfeitamente inscrita, as costas sobre a madeira, os calcanhares tocando uma das extremidades do rectângulo — a mais próxima do tabique —, a nuca na extremidade oposta, para de novo se reerguer e se afastar em direcção à obscuridade do fundo. Coincidindo com o gesto dela, no respectivo compartimento, vêmo-lo suspender o seu vaivém junto do tabique e inclinar o corpo — uns 5 graus, não mais —, a orelha tangendo a superfície rebocada. A mão em concha contornando a orelha. E aí permanece imóvel até que, do lado dela, algum sinal audível de actividade retome. Planos alternados e mudos, como os anteriores.
Reencontramo-la no seu compartimento, ocupada a atear uma fogueira, que alimenta com a madeira dos restos empilhados do soalho. Ele, dá início ao trabalho de cobrir o pavimento com a terra que antes havia acumulado em sacos, ao fundo, na obscuridade do compartimento. Despeja o conteúdo de um saco até formar um monte de terra quase negra. Imagem de fogo crepitante, por instantes envolto em sombra quando ela se acerca. Plano muito aproximado. Acocorado, vêmo-lo estender com as mãos a terra sobre o pavimento. Pouco a pouco, faz com que a terra se propague do negro do fundo em direcção à abertura. De novo, plano do fogo e do assomar da sombra dela. Enquanto ele se demora no limiar da abertura. Faz deslizar a mão 14
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pelo bordo de terra. Alguns torrões precipitam-se. Plano muito aproximado. Progressivamente o fumo invade o compartimento. Antes que a imagem se desvaneça na total saturação, é possível ainda vislumbrar o rosto dela. Plano muito aproximado. Do lado dele o trabalho está terminado, o compartimento vazio e o pavimento integralmente coberto de terra. A obscuridade domina, visíveis apenas um estreito perfil de madeira através da abertura e uma parcela do tabique onde a luz incide. Plano geral. Corte.
Negro e silêncio — o mesmo silêncio que se instalara desde que nos vemos confinados aos dois compartimentos —, até que se faça escutar uma voz de mulher — a mesma voz que ouvíramos no plano inicial — que profere impassível: Innen aus Verschiedenem entsteht ein ernster Geist. So sehr einfältig aber die Bilder, so sehr heilig sind die, daß man wirklich oft fürchtet, die zu beschreiben. Die Himmlischen aber, die immer gut sind, alles zumal, wie Reiche, haben diese, Tugend und Freude. Der Mensch darf das nachahmen. Darf, wenn lauter Mühe das Leben, ein Mensch aufschauen und sagen: so will ich auch sein? Ja. So lange die Freundlichkeit noch am Herzen, die Reine, dauert, misset nicht unglücklich der Mensch sich mit der Gottheit. Ist unbekannt Gott? Ist er offenbar wie der Himmel? dieses glaub’ ich eher. Des Menschen Maß ist’s. Voll Verdienst, doch 15
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dichterisch, wohnet der Mensch auf dieser Erde. Doch reiner ist nicht der Schatten der Nacht mit den Sternen, wenn ich so sagen könnte, als der Mensch, der heißet ein Bild der Gottheit. Gibt es auf Erden ein Maß? Es gibt keines. [«No interior, a partir do que é distinto forma-se um espírito solene. Tão simples são porém as imagens, tão sagradas, que muitas vezes realmente se teme descrevê-las. Os celestiais, porém, sempre clementes, tudo de uma só vez, como ricos, possuem-nas, virtude e alegria. Tudo isto pode o homem imitar. Pode um homem, quando a vida é puro esforço, olhar para o alto e dizer: assim quero eu ser também? Sim. Enquanto perdurar ainda no coração a amabilidade, a pura, não será infortunadamente que o homem se mede com a divindade. Será Deus desconhecido? Será manifesto como o céu? — antes o creio. É do homem a medida. Pleno de mérito, mas poeticamente, assim habita o homem nesta terra. Mais pura porém não é a sombra da noite com as estrelas, se me é permitido dizê-lo, do que o homem, de quem se diz que é uma imagem da divindade. Existirá na terra uma medida? Nenhuma existe.»2 ] Breve pausa. Leben ist Tod, und Tod ist auch ein Leben. [«A vida é morte, e a morte é também uma vida.»3 ] Formação gradual vinda do negro, 30 segundos após a voz ter começado a fazer-se ouvir, de imagem do pavimento coberto de terra. O mesmo pavimento, tal como havia sido deixado. 2 3
F. Hölderlin, Num ameno azul…; ver traduções, pp. 87-89. Ibidem, p. 91.
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Plano picado, desta vez no eixo da abertura, de modo a que se dê a ver finalmente, sob o estrado, o chão de terra. Campo atravessado, de longe a longe, por passos que contornam a abertura. O mesmo trânsito intermitente dos planos iniciais, mas do homem já nada vemos senão os pés nus. 1 minuto e 35 segundos. Corte. Negro.
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