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Malcolm Lowry CÁUSTICO LUNAR seguido de
GHOSTKEEPER
tradução e apresentação de
Aníbal Fernandes
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TÍTULOS DOS ORIGINAIS: LUNAR CAUSTIC E GHOSTKEEPER
© SISTEMA SOLAR, CRL RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES, 2019 1.ª EDIÇÃO, OUTUBRO DE 2019 ISBN 978-989-8566-11-9 CAPA: DÉBORA FIGUEIREDO, DESENHO (2019) REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE DEPÓSITO LEGAL: 461146/19 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA EUROPRESS RUA JOÃO SARAIVA, 10 A 1700-249 LISBOA PORTUGAL
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Todas as línguas têm destas coisas. O homem é chamado a nomear um objecto, uma abstracção, e quando menos espera passa-lhe por cima a asa de um espírito poético. Como exemplo o pergaminho que já tinha assinalados o Norte e o Sul, o Este e Nor-noroeste, e veio a querer toda a sua festa de rumos numa rosa-dos-ventos. E de outra vez morria o homem que tinha traficado o chumbo, e o físico pôs-se a pensar, e às tantas saiu-lhe uma coisa assim: que ele sucumbia de saturnismo. (O espírito tinha aparecido de asa negra, a arrastar um manto também negro.) E quando foi do arquitecto e daquilo a que chamou perspectiva cavaleira, houve à sua volta surrealidades que dão a imaginar o cavalo (montado pela perspectiva), embora fiquemos sem saber que estranha coisa-fêmea pôde sentar-se assim, de través na sela e agarrada à crina. Todas as línguas têm destas coisas. Por isso um alquimista — alquimista que andava aos sais — misturou o ácido e a base, precipitou uma maciez branca que assentava em flocos no fundo da proveta, e daí nasceu a tentação de um nome acasalado com céu e terra, sublime, e daí aconteceu um sal que, sossegado na secura da linguagem técnica com a designação insípida e química de «nitrato de prata», soube fabricar um nimbo, soprar-se ao mesmo tempo gelado e quente, obrigando o alquimista a baptizá-lo de: Cáustico lunar.
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(Neste passo o tradutor hesita, com a bic parada no ar.) Pois não quis o autor Lowry pedir ao cáustico lunar o nitrato nem a prata, antes o sentido perverso que lá desencantou e soube trazer ao de cima, e vingá-lo gloriosamente de uma injusta subalternidade. Se é nitrato e mancha a pele de negro, diz à letra que é cáustico e lunar, prevê um acto corrosivo e a matéria causticada com assombrações de lua, com lunáticos; quer isto dizer que será, por metáfora, os do manicómio. Há, assim, os corrosivos solares que ardem, queimam e destroem; mas este outro — lunar — que procede como a lua, em silêncio e com luz fria, mesmo quando inspira a fúria. Os lunáticos sofrem com um cáustico de lua. * Nem sempre cidade branca. Há quem desça do rio no Cais da Rocha ou de Alcântara, e regresse a bordo sem levar certezas para nenhuma cor. No Verão de 1933, Malcolm Lowry não chegou a encontrar (e venha daí o biógrafo atacado de minúcia, com a prova do contrário) uma cor para Lisboa. Sabemos, sim, que o camarote do Straihaird tinha atmosfera viciada por três coronéis «à Somerset Maugham»; que o jovem escritor, ainda não publicado, saíra de um Gibraltar de má memória onde as suas bebedeiras se complicavam muito, ao ponto de a gentinha do rochedo o apontar na rua e dizer: el borracho inglés; que uma relação amorosa o deixava bem ferido na fase de ruptura; que um original de romance estaria por ali, na mala do camarote, enredado nas maiores hesitações: Ultramarine. Terá descido num grupo de quatro — que incluía outro escritor, Conrad Aiken — e é difícil imaginarmos que não tenha
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ido, pelo menos, ao Chiado e ao Rossio, que não tenha parado na Bertrand (que novidade literária — Maria Benigna — seria aquela?); mas é difícil admitir que tenha encontrado um cinema a exibir As Mãos de Orlac, o filme que virá a assombrar o seu futuro Debaixo do Vulcão: porque a primeira versão em cinema deste romance de Maurice Renard já ficava para trás, para bons tempos das fitas do cinema alemão mudo e expressionista, e a outra, a dele e americana, com Peter Lorre a arregalar olhos de pianista assassino, estava por fazer ou, quando muito, em fase de pré-rodagem. E quanto a bebedeiras de vinho português, não; provavelmente não teria apanhado nenhuma porque aos vinte e quatro anos de idade — dizem hoje os pormenores da sua fama — exigia o álcool forte do gin e do uísque, e tinha ao seu lado o tutelar e dissuasor Conrad Aiken que ele um dia encontrou (numa impulsiva romagem de paixão literária) e lhe ficou na vida (mítica, afectiva) para sempre. Fotografias dessa época propõem-no ameno, sem pesos aparentes de melancolia (aquela mais conhecida, com tronco nu e mar atrás, chega a ser excessivamente Cary Grant), mas vamos corrigir o que isto possa ter de infiel à realidade com a memória de um professor de Cambridge: — «Era um rapaz silencioso, emudecido ou de palavra difícil, já a beber que era um caso sério. Várias vezes entrou em casa com uma bebedeira que roçava a inconsciência. […] Pessoalmente não me atraía, mas algum interesse ainda assim me despertava porque atrás daquele mutismo eu pressentia uma grande inteligência. Um dia espantei-me ao descobrir que era bom pianista de jazz.» Podemos suavizar este retrato se o levarmos a memórias de maior intimidade; porque sabia, afinal, impor-se com uma sim-
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pática extravagância de atitudes, di-lo como nenhum outro Doris Lewis, enteada de Aiken: — «Roupa, quase não tinha. E estava sempre a tocar ukulelé [um instrumento idêntico ao cavaquinho português]; andávamos a passear e ele cantava músicas estranhas. […] Estou a ver-lhe o rosto luzidio e pálido, as calças de flanela cinzenta (que eram de Conrad) todas franzidas na cinta, a camisa branca de colarinho aberto e apertado, muito agarrado ao pescoço. […] Quando veio passar uns dias connosco, como bagagem só trazia o ukulelé e uma esponja enorme que deixou lá ficar, de regresso a Cambridge. Calçava uns sapatos de couro preto, de boa marca mas bicudos de mais. […] Malcolm lia livros estranhos… Lembro-me de que andava todo o dia à procura de histórias do mar (tínhamos bem poucas!) e depois lia passagens em voz alta. Nessa altura eu era uma rapariga abominavelmente recatada, e o que ele lia chocava-me!» Recordações de 1929, ou seja, de um Lowry com vinte anos, estudante pouco aplicado e já com uma aventura no SS Pyrrhus para contar, da altura em que lhe deu para ser marujo de viagem única (ao Extremo Oriente) só para consumar uma experiência de rebeldia e de paixão nascida em leituras de Melville; viagem que adiante, na novela Cáustico Lunar, terá força de uma lesão profunda (aliás explicada de forma oblíqua numa carta que mais tarde escreveu: — Não, lamentar não lamento, mas não tenciono voltar à vida do mar. O trabalho mais difícil era desenferrujar os guinchos, que até nos levava unhas e dentes. A seguir pintar de negro o interior de um paiol de carvão. Em geral eu trabalhava das 5.30 da manhã até às 7 da tarde, lavava o convés, polia cobres, ia levar comida à tripulação. Tinha comigo o ukulelé e tentei compor vários foxtrots. E pensava
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em compor outros quando voltasse para a universidade, e também escrever romances). O penoso esforço da universidade acaba com um diploma do 3.º grau em Literatura Inglesa, e fá-lo sair de Cambridge a desfraldar as velas que tinha para desfraldar. A quietude da disciplina universitária tão vingada será em desassossegos, que desistimos de fixar um desenho à sua peregrinação. Para simplificar, vamos imaginá-lo sempre bêbado e a mudar de sítio. Em 1930 é a Noruega? Pois em 32 são Londres e Paris. Em 34 os Estados Unidos? Pois em 36 será a mexicana Cuernavaca e em 38 Los Angeles. Em 41 é o Canadá? Pois em 45 é de novo o México. Uma teia complexa de idas e vindas. Voltamos a citar Lisboa para dizer que teve um Lowry turista-escritor prestes a ser publicado. Ultramarine, o original que um dia esteve a balançar-se ali, à beira-Tejo, surge pouco depois em livro, em seu primeiro livro, e para lhe cair durante treze anos na consciência como chumbo: — Ao princípio estava para ser um livro conseguido, mas acabou por não passar de uma imperdoável confusão de coisas que me encheram de vergonha durante treze anos. A primeira e única versão foi perdida pela editora Chatto and Windus. Rescrevi-o três vezes, a partir de notas que tinham sido salvas de um cesto de papéis e de fragmentos publicados. (Note-se que Malcolm Lowry olhava para o seu romance Ultramarine como companheiro menor de Blue Voyage, com inspiração idêntica e escrito na mesma altura por Conrad Aiken, que aliás o retrata na personagem Dana Hilliot.) Treze anos? São os que precisa o seu Debaixo do Vulcão para surgir impresso, apagar cicatrizes do que ele considera um fracasso. Esta obra-prima consegue vir a público depois de quatro
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versões, a primeira perdida nas inconsciências de uma grande bebedeira, outra feita em cinzas numa cabana que ardeu, a quarta e última policiada com mão de ferro por uma mulher chamada Margerie e polida entre as violências de uma relação tempestuosa. Quando aparece, sufoca leitores com uma chuva de enxofre; rasga um céu negro que promete o inferno; tem germes para construir um mito, qualidades para o deixarem incluído, sem grandes controvérsias, entre os maiores romances do século XX. Só o autor desconfia: — Sim, o danado deste livro parece cem foguetes a rebentarem ao mesmo tempo, e ainda hoje ando a esquivar-me de faúlhas e escórias que me caem na cabeça; e ela, a cabeça, em vez de se encher de vento tem de ficar bem assente, e espero que fique, para pensar que um êxito destes (se podemos, no fundo, chamar-lhe êxito) é o pior que pode a um autor acontecer. Under the Volcano é publicado pela primeira vez em 1947, dez anos antes da sua morte, e o reconhecimento público «do grande escritor» não consegue impedir a redutora descida ao alcoolismo, que ele várias vezes levou à tentação de mostrar sublime, atribuindo-lhe um valor que a experiência pessoal esteve longe de comprovar. Numa das suas novelas pode ler-se: — O que até hoje se escreveu sobre a bebida é de um absurdo total. Há que fazê-lo desde o princípio. Falar do conflito, da tristeza que deprime e conduz, quer à participação no trágico da natureza humana, quer a um conhecimento de nós próprios, a uma disciplina. Os testemunhos sobre a última fase da sua vida referem os «espinhos» que a sua convivência implicava, risco de actos violentos, de insultos, de situações incómodas. Era difícil arredá-lo de fantasmas que espreitavam em todos os lados: em janelas
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(Cáustico Lunar vai insistir nisto), em objectos, em seres vivos. Leia-se, por exemplo, esta recordação do seu amigo Martin Case: — «Uma tarde, íamos por uma rua que fica perto de Charing Cross, e Malcolm sentiu-se de repente perseguido. Quando passávamos por um cavalo parado entre os varais de uma carroça, o animal resfolegou surdamente, fez um desses barulhos vulgares nos cavalos mas que não podem ser descritos, detestáveis, uma autêntica gargalhada de Parca. Ora, animais e objectos inanimados sempre tinham conspirado contra ele. Pregou-lhe tamanho murro abaixo da orelha, que o cavalo se desequilibrou e caiu de joelhos. O incidente não passou disto, mas durante semanas viveu com remorsos.» Como se sente hoje o senhor Remorso? — pergunta-lhe o médico de Cáustico Lunar. Mais tarde, quando a força da celebridade pôs a funcionar inquéritos, houve amigos seus que tentaram justificar a estratégia que os levou ao «afastamento». Clarissa Lorenz, por exemplo, conta uma cena a que preferiu assistir de longe, indecisa sobre os resultados que a sua intervenção poderia ter: — «Um dia vi-o a cambalear na rua, no meio de garotos e adultos que o apupavam e lhe atiravam coisas sujas. Dispersá-los? Só teria como efeito duplicar-lhe a humilhação. Por fim lá parou à frente de uma loja de música, a ouvir um disco de flamenco, com o rosto crispado, e acabou por continuar a andar, aos esses…» Depois de publicar o seu livro fundamental (o único onde podemos avaliá-lo através de uma prosa realmente concluída), Malcolm Lowry escreveu, rescreveu, refundiu e alterou sem descanso vários textos que nunca chegou a considerar em estado de serem entregues a um editor. Descrente de si mesmo, incansável perseguidor das belezas da forma, não raro o escritor com este desenho
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constrói o seu reverso amargo e póstumo, marcado por audácias e apaixonadas traições. Depois de si, a sua história literária prosseguiu num trilho de viúva — do casamento, da amizade, da oportunidade — que após vencer o prazo das faltas de coragem deu às suas obras de gaveta algum apuro e atirou-as à grande circulação, a prolongar no tempo a vitalidade do «seu» autor já morto. (De permeio andarão alquimias: técnicas, secretas, que o leitor estará longe de poder devassar.) O extenso resto que prolonga Ultramarine e Under the Volcano chega-nos hoje pelo crivo e por um trabalho de Margerie Lowry. Os frequentes períodos de incapacidade física de Malcolm Lowry já antes tinham levado a uma aquiescência deste tipo, tanto mais que a sua colaboradora conhecia de perto os conteúdos e as formas da sua criação, tinha larga experiência de escrita obtida com guiões cinematográficos para estúdios de Hollywood e com a publicação de uns quantos romances policiais. A confessada intervenção de Margerie Lowry não nos deixa, porém, conhecer os pontos em que ela se deu, que pedaços lemos hoje refeitos «à maneira de» e moldados pela memória de conversas, de intenções sobre obras por escrever ou a rescrever. Douglas Day, biógrafo de Malcolm Lowry, dirigiu-se a Margerie para obter esclarecimentos sobre «a autenticidade» do texto de Dark as the Grave Wherein My Friend is Laid. E se a resposta recebida começa por uma discreta confissão de consciência pesada perante a natureza do seu trabalho, logo depois cede ao maior entusiasmo: «Penso, porém, que tudo isto é estúpido. Quando preparei a edição de «Through the Panama» e «The Forest Path to the Spring», já eu tinha escrito uma porção de passagens, de cenas, que me valeram imensas felicitações; fartei-me de
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receber cartas sobre esse assunto, e nenhuma me censurava ou insinuava que eu tivesse prejudicado o Malcolm, fosse no que fosse. Douglas Day acrescenta: «Depois de 1939, nada do que Lowry escreveu foi obra apenas devida, no mais estrito sentido do termo, à sua mão». Poderá acrescentar-se que Dark as the Grave Wherein My Friend is Laid, October Ferry to Gabriola, um conjunto de oito novelas a que ele chamou Hear us O Lord from Heaven Thy Dwelling Place e Lunar Caustic surgiram ao público depois de um trabalho extenso (e de dimensão difícil de avaliar) levado a cabo por Margerie Lowry. Vários anos passariam até ser conhecido Ghostkeeper, momento de o reencontrarmos autêntico — desta vez com a espontaneidade do primeiro impulso da escrita, oferecido antes das grandes batalhas da forma, exposto em pleno mistério da criação literária, com o autor vulnerável perante o desenho autónomo do seu próprio texto que se faz e desfaz e se impõe de traçado, que a si próprio se escolhe contra o autor, exposto como corpo vivo e indomável. Note-se que o acaso fez mais fascinante este projecto. Porque Lowry se deixa ver numa fase da criação literária em geral escamoteada à curiosidade do leitor; porque se conta como criador de histórias numa história sobreposta à do seu texto; porque em dois planos confundidos mostra a mesma luta com um mistério idêntico; porque se faz, com todas estas singularidades involuntárias, um caso (talvez) único da literatura. Antes de Ghostkeeper, em duas cartas já ele se tinha confessado a braços com esta mesma perplexidade, incapaz de se reconhecer inteiro nas suas ficções, nas suas palavras, levado a pôr-se em causa no que escrevia: A obra vive uma vida misteriosa, autónoma, que começa por confundir o próprio escritor. Quem es-
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colhe a forma não é ele; é, antes, escolhido pela forma. E de uma outra vez: [O escritor] o que sabe? Desconfia que quem escreve não é tanto ele e bem mais anda a ser escrito do que a escrever. Nos últimos dias de vida, em clareiras de lucidez que lhe permitiam o regresso a hábitos de escrita, Malcolm Lowry trabalhou no texto de Cáustico Lunar e desde há quatro anos tinha «parado» o primeiro esboço da novela a que ele quereria chamar Ghostkeeper ou Henrik Ghostkeeper, ou Lost and Found, ou I Walk in the Park, ou But Who Else Walks in the Park?, ou O. K. But What Does it Mean?, ou ainda Wheels Within Wheels, como ficamos a saber pelas hesitações registadas no manuscrito. Juntar estes dois textos no mesmo livro nada tem de arbitrário. São assombrados ambos por um destroço de barco, carcaça desfigurada pela usura do tempo e que se faz anúncio de uma inevitável mas indescortinável catástrofe. Cáustico Lunar tinha começado por chamar-se The Last Adress, na altura em que a revista Story se dispunha a publicá-lo, não fora a surpresa de uma carta do autor a exigir que o original lhe fosse devolvido. Mais tarde, uma segunda versão do mesmo «conflito» foi baptizada de Swinging the Maelström. Insatisfeito, como sempre, em relação à sua própria obra, decidiu-se por um novo adiamento: — Vou deixar que assente alguns anos para ganhar pó, diz numa carta. Em 1957 mostra-se novamente disposto a retomar o tema, tragédia de álcool a planar sobre um abismo que só de muito alto se vê e é revelado a Bill Plantagenet, seu anti-herói que habita uma noite com «vibrações insuportáveis», onde Melville, Rimbaud e o jazz são hóspedes preferenciais. Hoje existem publicadas duas versões deste texto que acabou por ficar associado ao título Cáustico Lunar.
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Malcolm Lowry tinha passado por dois períodos de tratamento psiquiátrico; o primeiro em 1935 — aquele que nos interessa — num hospital de Bellevue em Nova Iorque, internamento de dez dias celebrado à saída com uma vingadora bebedeira de quarenta e oito horas. É a experiência literariamente transposta para Cáustico Lunar, uma hiperlucidez visionária mais tarde diluída em opacidades anuladoras de toda a criação. David Markson, que fez uma tese de doutoramento sobre o Vulcão e privou muito de perto com o autor, refere em pormenor a sua decadência física: — «Nem fazer a barba podia. Para prender as calças, em vez de cinto atava à cintura uma corda ou uma gravata velha. De manhã, dois ou três dedos de gin com sumo de laranja bastavam para lhe acalmar o tremor das mãos antes de um almoço que era a sua única refeição de todo o dia. Depois demorava horas a consumir o conteúdo de um copo que aos poucos ia ficando sem o seu líquido amarelo (isto pode desmentir que nessa altura bebesse apenas gin puro). Acabava por cair em peso na cama, se conseguisse navegar até lá, ou as mais das vezes numa cadeira. Um dia fê-lo em cima do meu gira-discos. Dava soluços, cuspinhava noite fora como uma grande máquina defeituosa, avariada.» O barco, símbolo da vida embriagada pela criação artística, aquele que em Rimbaud e no seu poema mais célebre atravessa mares em delírio, aquele que mistura flores e olhos de pantera, desfaz-se, encalhado, e desfigura-se até ao cadáver metálico que a pouco e pouco lhe destrói a força instigadora da aventura, vitoriosa sobre as tempestades, rodeia-se de uma aura anunciadora de catástrofes. Em Cáustico Lunar, o adolescente Garry vive obcecado pelo prenúncio de uma destruição universal sonhada através da imagem da carcaça de uma lancha de carvão anos antes
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encalhada ao pé de um hospital de Nova Iorque; em Ghostkeeper, Tom Goodheart associa o encontro que tem, com os restos de um salva-vidas naufragado, ao mau presságio que o domina sem nunca definir a sua mensagem nem denunciar a sua dimensão. Estes barcos destroçados são como que centro emocional em ambas as novelas, o foco que em Cáustico Lunar ilumina a percepção do mundo de Bill Plantagenet, que em Ghostkeeper projecta uma luminosidade sombria sobre o futuro de Tom Goodheart. Segundo a American Review, Ghostkeeper foi escrito na Primavera de 1953; numa época, portanto, em que os Lowry já tinham percorrido o «inferno» mexicano de Under the Volcano e sonhavam com o paraíso de Dollarton que viria a reflectir-se por inteiro nas páginas de «The Forest Path to the Spring». Podemos ver Ghostkeeper entre esses dois pólos — purgatório, jardim onde coexistem inferno e paraíso — um quadro, ler-se-á no princípio da novela, que é invernoso, mas também de Verão, é como um pesadelo, mas também muito agradável. No plano físico é o Stanley Park de Vancouver (de igual modo presente na novela «The Bravest Boat»), jardim de redutos zoológicos com sinais contrários — o paradisíaco (Sensação, diz o autor, de qualquer coisa sobrenatural, celestial, como o Paraíso numa pintura flamenga) e o infernal — cenário para se consumar o pecado contra a inocência, simbolizado pelo grupo de jovens que atira pedras aos patos. Dificilmente não nos lembraremos daquele aviso que repetidas vezes surge em Under the Volcano: Le gusta este jardin que es suyo? Evite que sus hijos lo destruyan! Purgatório, lugar para os conflitos do criador com a sua própria criação, para a tensão da sua impotência perante as fatalidades da engrenagem cósmica — um cerco feito por rodas, por
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rodas dentro de rodas — e muitos serão os símbolos de uma geometria circular: o destroço do barco que parece uma roda, as rodas da bicicleta gelada à beira da lagoa, o permanente desfile de relógios, máquinas de rodas que fazem e desfazem o tempo1. É possível que o conto típico, lê-se em Ghostkeeper, seja muito má representação da vida […] pelo facto de a sua acção […] ser um fragmento petrificado de morte, uma espécie de borboleta espetada com um alfinete. Condenado por esta limitação, o autor de ficções apenas terá que agarrar-se às suas «certezas», em Lowry a certeza do amor restituído — como ele o sonhava — ao paraíso que se enche de flores (Rogai por elas!, diz a prece do final da novela) e desejar o milagre dessa floração que a sua vida iria desmentir com agressividades do amor conflituoso, com um mergulho final na noite de 5 de Junho de 1957, aquela em que morreu vitimado por uma «dose excessiva de barbitúricos e etilismo crónico», diz a sua certidão de óbito. Lowry morreu sozinho, depois de agredir Margerie e ouvir com som alto a Sagração da Primavera de Igor Stravinsky. Enterraram-no em Ripe, lugar ao norte de Lewes, perto de Brighton, mas sem direito ao epitáfio rimado que um dia compôs para figurar no seu próprio túmulo, versos ingénuos que entre campas severas talvez marcassem a sua «diferença», e que em português poderiam ficar assim: 1 Em Under the Volcano, a sua obra central, a imagem da roda surge sob muitas formas (Grande Roda na praça, a roda de Ezequiel, a roda da bicicleta lançada por um louco, a roda de um barco de rio, a roda de um moinho, a roda da lotaria). O próprio Lowry chama aos doze capítulos do livro a roda de doze raios. A roda é, para ele, símbolo do destino: Sobre a cidade, na escuridão da noite de tempestade, ao contrário ia rodando, luminosa, a roda.
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Aqui jaz Malcolm Lowry Perdido e achado em Bowery. Se às vezes na prosa floria, Às vezes também deprimia. Passava noites a viver, Dias inteiros a beber, Quando morreu estava de pé A tocar ukulelé.
A.F.
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i.
De manhã cedo um homem sai de uma taberna ao pé das docas, com o cheiro do mar no nariz e uma garrafa de uísque no bolso, a deslizar tão levemente na calçada como um navio que abandona a barra. Vai meter-se, não tarda, num vendaval, e açoitado de um lado para o outro faz desesperadas tentativas para voltar para trás. Aceitaria agora um porto de abrigo qualquer. Entra noutro botequim. Quando de lá sai, surge expeditamente refeito mas volta de novo a enfrentar dificuldades. Desta vez é a sério: por um triz não fica debaixo de um autocarro, bate com a cabeça numa parede, noutra ocasião cai sobre o contentor de lixo para onde tinha atirado uma garrafa. Os que passam olham-no com curiosidade, alguns com irritação, outros com ar divertido ou mesmo com uma certa cupidez. Neste momento procura refúgio numa rua lateral e com ar desalentado encosta-se à parede, como a querer recordar-se de qualquer coisa. A peregrinação recomeça mas com andar incerto, como se andasse à procura de uma coisa em vez de tentar lembrar-se dela. Ou estaria a acontecer-lhe o mesmo que ao coitado do gato, quando perdeu um olho numa refrega e andou à procura da vista?
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O calor salta poderoso e forte dos pavimentos, Nova Iorque geme e grita por cima, à volta, por baixo dele; cintilam aves brancas no ar trémulo, uma ponte atravessa o rio. Conforme vai andando, letreiros cumprimentam-no: O Melhor por Menos Dinheiro; Romeu e Julieta, a Maior das Histórias de Amor; A Qualquer Hora do Dia Sem Taxa de Serviço; Se a Dor o Ameaça, Ataque-a… Entra noutra taberna e começa a falar de pessoas que nunca conheceu, de sítios onde nunca esteve. Sente-se obcecado pelo hospital que através da porta aberta se ergue altaneiro acima do rio. Perto de si, destroços humanos arrogantes e barbudos estão servilmente debruçados sobre escarradeiras, são homens que parecem atemorizá-lo. O suor inunda-lhe a face. Dos fundos da taberna chega o som de um lamento e o tiquetaque de um relógio. Lá fora retoma a peregrinação; vagueia de taberna em taberna como se andasse à procura de qualquer coisa, mas o hospital não lhe sai da vista; como se as tabernas não passassem no seu círculo de meros pontos de referência. Pára numa rua que percorre o cais e onde um sino toca; uma velha horrível, com o rosto devastado e mal coberto por um véu preto, tenta deitar uma carta no marco do correio; várias vezes tenta fazê-lo sem resultado mas por fim consegue-o com mãos trémulas que nem mãos parecem. Sente que uma ideia estranha o assalta: ele é o destinatário da carta. Bebe da garrafa um trago. No metro aéreo sopra um vento magnífico e vê-se o rio, mas ele anda como se esbarrasse em obstáculos ou como Ahab aos tombos de um lado para o outro no convés galgado pelas
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— Que horas são, Tommy? — Não sei, querida, já te esqueceste de que não ando agora com relógio? — Lembras-te da vez em que levámos o despertador para o piquenique? — Para este passeio de hoje devíamos ter trazido connosco o despertador. — Julgo que são mais ou menos três horas. Faltava cerca de um quarto quando saímos de casa. — De qualquer forma, quando tivermos dado a volta pelo outro lado do parque podemos vê-las no relógio da torre. As duas personagens, o homem e a sua mulher, continuaram a passear no Stanley Park de Vancouver, na Colômbia Britânica1. Apesar de ser Inverno, tinham à direita pessoas a jogar ténis; para sermos exactos, era o dia 5 de Fevereiro de 1952. Havia um vento suave mas cortante, um mar azul de aço, ao longe montanhas de uma grossa sarja azul com coroa de neve. O caminho que seguiam dava a agradável sensação de um passeio pedestre inglês. Para lá dos campos de ténis havia pinheiros negros e salgueiros-chorões que pareciam fontes de fios de ouro quando eram batidos pelo sol ou, quando o 1
A Colômbia Britânica é hoje uma província do Canadá. (N. do T.)
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sol não lhes batia, cordas de uma harpa de bronze. Ali, ao nível do mar, a neve tinha derretido no chão, e debaixo das árvores ainda era possível ver-se um tímido resto de flocos. Começaram por descer até um caminho que acompanhava a costa marítima quase ao nível da praia, na base do aterro alto do parque. Havia muitos pedaços de madeira na praia, testemunho das tormentas invernais. Parecia que o mar tinha escavado um tronco de cedro, à maneira dos índios quando começam a transformá-los numa canoa de guerra. Uma mulher que arregaçara a saia estava sentada numa pedra, ao sol e ao vento. E à frente deles, num local da praia menos desarrumado por restos de madeira, alguém chegava ao ponto de nadar àquela temperatura de gelo, e depois correr de um lado para o outro. (Tudo isto tem como objectivo exprimir uma certa dualidade de aparências do quadro que equilibra a dualidade entre o tema e a vida real. O quadro é invernoso, mas também de Verão. É como um pesadelo, mas também muito agradável). O homem e a mulher atravessaram os destroços do Inverno e voltaram a subir para o aterro. Passou um desvairado, com os pneus a chiar: presságio. A praia fez o homem lembrar-se da sua terra natal, New Brighton na Inglaterra (convém que isto aconteça porque um dos temas é, ou deveria ser, o renascimento). Como são frequentes os lugares com degraus que descem até à praia, um pouco mais adiante voltam a lá estar. Por cima as árvores abanam: um suave ruído de árvores. Gaivotas imóveis, penduradas num céu com pequenas nuvens. Naquela altura o mar está deserto: uma barcaça e ao longe um farol indiferente. (Nota num sítio qualquer: ele teve
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um avô que se chamava Henrik Goodheart e se afundou no mar com o seu navio: uma espécie de Carlsen1). Em baixo, mesmo ao pé do aterro e sob os pinheiros que dão gemidos suaves, vão agora encontrar o barco naufragado. Mas que tipo de barco é aquele? Observado com mais atenção, mal chega a parecer um barco. Visto de perto parece o destroço do guarda-rodas de um barco a vapor. Ainda assim é evidente que se trata de uma qualquer espécie de barco. Muito estreito de vau, rombo de proa e rombo de popa, com cerca de quinze pés ao comprido, sem nenhum resto de pintura e pardacento de sal, danificado, bexigoso, com aspecto de andar pelos cem anos de idade. Sabe Deus que tonelagem teria. Como é que uma coisa daquelas podia ser lançada ao mar, mesmo protegida do vento? Uma enorme quilha ou peça lateral fazia-o parecido com um guarda-rodas. A embarcação era, porém, como que um bloco sólido, construído dentro de areia e com areia a fazer de base. Uma formidável e possante carcaça de navio sem fundo, ainda que exteriormente sólida e vigorosa. Do lado da proa havia qualquer coisa gravada a estibordo: ao que parecia, N.º 1. Para 16 pessoas. A F 13/2/45. E pouco tempo antes alguém tinha escrito por baixo, a giz: H. Ghostkeeper. É neste momento que se aproxima um inglês errante com óculos escuros, cego ou quase cego. Segue-se uma conversa mais ou menos assim: — Isto o que é? — Um salva-vidas, segundo creio.
1 Henrik Kurt Carlsen, capitão de navios dinamarquês, famoso por se ter mantido durante treze dias num Flying Entreprise sem salvação possível, e retirado à força do seu barco apenas uma hora antes de ele se afundar. (N. do T.)
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— É um barco de tábua trincada? — O que quer isso dizer? — Que tem tabuado sobreposto. — O inglês assenta as mãos no barco. — Não, é uma caravela. Qual é o seu comprimento? E terá ganchos de turco? — Onde é que deviam estar? — Em baixo, no maciço excedente de madeira, nas duas extremidades. Se for um salva-vidas tem uma porção de cavilhas nos postes da proa e da popa. Em geral cavilhas-fêmeas no poste da popa. — Fêmeas, porquê? — Porque são um buraco redondo. Os machos têm um espigão comprido. — Estes algarismos… serão talvez a data?… — Não, devem ser a cubicagem. — Estranho é não ter nome. Ou porto de registo. — Então é mesmo um salva-vidas. Ocorre-me também uma ideia alternativa: em vez de ser cego, o inglês reconhece Tom e diz: «Não o vi antes, num lado qualquer? Não terei visto o seu retrato no jornal?» Revelaria então que «Eu Passeio no Parque», a coluna de Tom Goodheart, é sua leitura favorita, e a partir daqui talvez seja fácil desenvolver o tema. Em qualquer dos casos, na altura em que o homem se vai embora perguntam-lhe as horas e ele responde: «É estranho, mas ontem perdi o meu relógio». Quando o homem se afasta, Goodheart toma um apontamento no livro de notas: «A coincidência de o inglês também não ter relógio. O destroço: símbolo de qualquer coisa, talvez um mau agoiro. Ou pior — presságio de uma catástrofe qualquer, ou da morte de alguém». Depois acrescenta: «O problema
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famação, etc. E também não poderá usar, como é de admitir, o que ele próprio tem na vida real. Acaba por decidir não dar nenhum nome ao protagonista. Começa por ser «eu», e depois transforma-o em «ele». O homem e a sua mulher. Quanto ao nome escrito no relógio — do rapaz — decide-se por um completamente neutro, como Smithers ou Miller — passando a ser impraticável encontrar o proprietário na lista telefónica. Não mencionará a casa que cai da árvore, as outras coincidências com relógios, o relógio invisível, nem a morte do rei, nem a sensação do protagonista quando começa a ser um isabelino. Estava apenas em causa a selecção, a concisão, o toque do escritor de histórias. A própria personagem principal não seria jornalista, nem um escritor de isto ou daquilo a passar por uma qualquer crise relacionada com a escrita. Nunca ia ser possível, de facto, descobrirmos quem ele era. «Pronto», pensa Goodheart, «pelo menos é uma história tocante, clemente, singela, do lado do “bem”. E tendo a vantagem de ser um tema banal e sem pretensões, o único a poder ofender-se com ela é o Todo-poderoso». O seu único problema era a «inverosimilhança», ou seja, mesmo que conseguisse fazer passar por verosímil uma criança atirar pedras aos patos e ser-lhe dado como troco imediato a perda do relógio, por razões de arte (ou de dinheiro, o que vem a dar ao mesmo) teria de cortar à tesoura muitos outros elementos que pareciam misteriosamente significantes: talvez fosse um pequeno conto sentimental mas castigado em tudo o que se diria sua manifesta essência. O que sobrava não poderia sequer passar por sinédoque dos acontecimentos dos últimos dois dias, nem mesmo da forma como o seu quase enlouquecido encadeamento o tinha afectado.
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Mas enquanto pensava nestas coisas como que ouvia uma certa aprovação divina chegada do alto, como que um acenar de cabeça que dizia: «Sim, sim, é muito bonito, muito comovente, senhor Goodheart, é exactamente como diz…»; e também lhe parecia ouvir outra voz mais abaixo, no espaço: «Não, não, senhor Goodheart, é um grande fracasso. Eu não o tinha avisado? O que é feito do rei? O que é feito do Canadá? O que é feito do cego? O que é feito de Segovia? O que é feito do relógio invisível? E do rapaz francês? O que é feito, senhor Goodheart, das rodas dentro de rodas, e não só das rodas dentro de rodas, mas das rodas dentro de rodas dentro de rodas que continuam, senhor Goodheart, a rodar e a suscitar novas e ainda mais admiráveis significações sem significação nenhuma?… Interiormente ele sabia, porém, de uma significação, e que esta era significante. Pousou o lápis. Terminara a sua história mas ainda se sentia com o espírito extremamente perturbado. O tal Ghostkeeper! E o tal «Eu Passeio no Parque»!… Mas alguém passeava no parque? E quem era o alguém que lá no alto escrevia? Perante os seus olhos, a casa da árvore voltou de repente a cair em cima do banco. Contarem-se histórias estranhas!… Quem escrevia, lá no alto, sobre a morte de reis, isabelinos, relógios invisíveis, discos-voadores, homens cegos, patos-mandarins?… O Henrik Ghostkeeper! Se pelo menos uma pessoa tivesse a certeza de estar a participar num jogo! O que é que sabemos? E ao espírito voltava a acudir-lhe uma imagem do bailado espectral vista através dos vidros semilimpos das janelas do quebra-mar, à entrada do parque. Se uma pessoa pudesse, pelo menos, ter a certeza!
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Mas de repente o seu medo transformou-se em amor, em amor pela sua mulher, e aquele medo que ameaçava e não tinha significação ficou transformado num bosque primaveril com aroma a flores de pessegueiro e a cerejeiras silvestres. Rezemos por eles!
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