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tÍtUlo do oriGinAl: la bête du vaccarès
© sistemA solAr, crl (2019) rUA PAssos mAnUel, 67B, 1150-258 lisBoA tradução © AnÍBAl FernAndes 1.ª ediÇÃo, oUtUBro 2019 isBn 978-989-8833-43-3 nA cAPA: GUstAve coUrBet, le desesPÉrÉ, 1845 revisÃo: dioGo FerreirA dePÓsito leGAl 461989/19 este livro Foi imPresso nA UlZAmA, esPAnhA
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Os deuses também morrem. Os primeiros homens — não totalmente erectos e ainda irracionais — não tinham deuses na cultura nem no medo (continua a arqueologia a dizê-lo); reduziam o mundo à procura de bens essenciais à espécie, à eficácia na luta contra animais selvagens e homens de outras tribos. viveram depois séculos de um rápido e surpreendente progresso orgânico — os que lhe formaram um cérebro excedido até à racionalidade. O homem surgiu «sapiens»; conquistou o seu altivo porte e esta incómoda consciência de que vai morrer para terminar um período dotado da força a que passou a chamar vida; e acima de si sentiu espíritos, os que ele pressentiu com um poder decisor, capaz de determinar o seu destino. Perturbado por estas interrogações, inventou deuses. Inventou-os de acordo com a sua cultura, de todas as espécies e de todas as crueldades. venerou-os, temeu-os e sentiu dentro de si a fé, sentimento novo que lhe alimentava as contingências de um destino desconhecido e as substituía por certezas que a sua ciência não explicava. Houve civilizações que os criaram com um poder e uma sedução estética que a cultura ainda estuda e preserva; houve pequenas civilizações com deuses afogados na sua história, que hoje quase desconhecemos e o tempo apagou ou quase apagou. e em quase todas surgiram seres mistos, filhos de um deus e de uma não-deusa totalmente humana ou tão mitológica como as ninfas.
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dos romanos e dos Gregos chegou-nos um destes seres híbridos — Pã (para os Gregos), Fauno ou silvano (para os romanos); um Pã muitas vezes imaginado com forma caprina, a que era conhecida pelo nome mais específico de egipã; filho de Hermes ou de Zeus — a Mitologia oscila nesta filiação — e de uma ninfa incauta mas receptiva que se deixou apanhar por invencíveis furores de fauno entre duas águas. Foi deus dos pastores, dos pomares, dos bosques e dos rebanhos. tinha rosto barbudo e testa cornuda, orelhas pontiagudas, coxas de bode, cascos nos pés, e inventou uma flauta com sete tubos de caniço de comprimento decrescente que encantava com um som hipnótico os animais e reduzia as ninfas ao estado físico que tudo cedia à sua volúpia de fauno. Pã chegou a ser visto como representação da Natureza, do desejo, das forças materiais da criação. e conta-se que um dia, no tempo do imperador tibério, um barco que vogava no Mar egeu ficou imóvel e o seu piloto ouviu uma voz que lhe dizia para gritar: o Grande deus Pã morreu. Quando lhe obedeceu, soaram por todo o lado gemidos como se a terra inteira tivesse ficado de luto com a notícia. era a morte simbólica de Pã, ou seja, da crença nos deuses da Mitologia romana e Grega, e talvez anúncio do fim do império que os venerava. as palavras de o estranho Animal do vaccarès nunca associam a sua criatura nominalmente a Pã, embora tudo façam para nos lembrarmos dele: descrevem-na com a sua forma caprina, dão-lhe uma flauta que encanta os animais; mas deslocam-no para a camarga medieval e mostram-no ali com uma velhice de deus decrépito e fora de época, nostalgicamente anulado no seu poder e destinado à morte de todos os deuses quando o progresso cultural dos homens os destrói para encontrar outros adaptados
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à sua necessidade de fé, mas compatíveis com o avanço da sua cultura e do seu progresso civilizacional. esta camarga, que d’arbaud elegeu como cenário, lembra-nos que Jean Giono também lá andou e bem definida ficou no seu texto camargue: «É um delta, o depósito de um rio, a sua alcova. ele até ali correu rápido, sem tempo para fazer metafísica; esteve vivo. encontra-se neste delta o seu fim, vai desaparecer no mar, faz-se mole, vagueia, partilha-se, enrosca-se, rumina, hesita, recapitula-se; compulsa tudo o que até ali carreou e mistura-o, apodrece-o, e daí tira a sua glória.» e ainda: «este cheiro a podridão que sobe das raízes das turfeiras é o cheiro dos guerreiros vencedores. e em vez da fé e da sua paz, os seus oratórios e os seus pedestais trazem consigo o sinal da inteligência e dos seus combates.» No canto selvagem de d’arbaud, esta camarga de silêncios, de animais e deuses é o cenário adequado ao envelhecimento de um grande mito, para as infinitas águas e as lonjuras de que não vemos nenhum fim, para um calor que abrasa, para caminhos de sonho, para águas que cintilam. e o seu animal de poesia e lenda — saído de uma elegia pânica que o faz aparecer e desaparecer sem sabermos de onde veio e para onde vai partir, talvez expulso de velhos países com uma religião morta que já não o abriga nem reconhece — escolhe uma terra que ainda não perdeu o seu travo primitivo, onde o seu resto de deus talvez possa viver e confundir-se com ela. Mas tudo isto — mesmo no século Xv desta história — não passa de uma ilusão. esta camarga de cavalos e touros que um Pã envelhecido ainda seduz com a sua flauta, nega-se à sua pretendida e desesperada extensão de vida; esta camarga de lama, húmus e areia só consegue oferecer-se como cenário do seu fim.
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d’arbaud chegou ao estranho Animal do vaccarès depois de ele próprio procurar, como o seu fauno, uma possibilidade de vida fantástica na camarga de irreal atmosfera, com auroras, noites, sombra adormecida, e arrepio de folhas no silêncio, como ficou descrita num dos seus poemas. cinquenta e dois anos antes deste romance (que é de 1926) — a minha mão hesitou, antes de ceder a esta fórmula que tão pouco se harmoniza com a sua prosa dominada pelo silêncio dos pântanos, por um céu desmesurado, que tão pouco se conforma às conveniências de uma verdadeira narrativa de ficção romântica — Joseph d’arbaud nasceu na herdade la Petite bastide em Meyrargues, o que é dizer Provença-alta-costa-azul, à beira do Mediterrâneo, terra de um orgulhoso dialecto e ainda hoje com gente que o prefere ao francês; numa família com antepassados que deixavam, na desenvoltura e no prestígio, bem marcada a sua aristocracia; agarrada a tradições; com um avô e uma mãe que já tinham escrito versos provençais na língua d’oc, e só por circunstância e contingência falavam o francês. Joseph frequentou um colégio de jesuítas em avinhão, fez o seu direito na universidade de aix-en-Provence e também quis — quando sentiu a sedução das letras — prolongar-se nas tradições literárias da sua família como escritor da língua d’oc. «a todos tu dominas», dizia-lhe Fréderic Mistral, mesmo sem saber que se antecipava ao que muitos viriam a ter como irrecusável verdade. — escreve em francês, escreve em francês — diziam-lhe também outros — ou nunca serás reconhecido na literatura deste país. Mas se a mãe dele tinha um livro de poemas que chamava às amoras das escarpas li amoro de ribas, por que não iria ele próprio ter poemas que só rimariam com as palavras d’oc e com
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títulos que seriam lou lausié d’Arle, la vesioun de l’Uba ou li rampau d’Aram? Por esta Provença natal d’arbaud andou, até contrariar o parecer e os conselhos da sua família e deslocar-se para outra, na costa mediterrânica, para chegar à ilha da camarga, local que lhe parecia indicado para uma tomada de consciência isenta das perigosas influências uniformizadoras do mundo moderno, para viver em pleno o que existe de mais estritamente provençal nas terras de França, explicava ele como seu remédio para o desejo de fugir de lugares onde apenas se privilegiava o êxito mundano. em 1898, com vinte e quatro anos de idade d’arbaud rodeou-se de cavalos, de touros selvagens, e cedeu à vocação de uma rude existência que o deixou abrigado em duas palhotas com telhado de junco. aprendeu os rudimentos da profissão de guardador, comprou jumentos, comprou cabras e cavalos, uma manada de noventa touros «cruzados», e instalou-se no clos du radeau, ao norte do porto de saint-louis du rhône, onde construiu durante oito anos a estranha imagem de vaqueiro culto, de «rapaz de princípios» ora a lidar com a ferocidade indominável dos seus touros, ora a entregar-se a desvios elitistas que o mergulhavam em poesias, em prosas — as que treinou sob a forma curta do conto e reuniu com o título la caraco, as que o fizeram chegar à obra mestra, aquela que teve na versão d’oc o título de la Bèstio dóu vacarés. a sua vida, com um profundo corte nas comodidades burguesas, era transmudada em versos até às imaginações de um paraíso: vem até à minha casa, virgem provençal que sonhaste o amor sem o conheceres. da minha porta, sempre aberta como um ninho, verás passar com asa larga as aves de terras distantes.
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vem, a casa é branca como um lírio do mar e tudo será teu; fica com as chaves que guardam o pão, com a mesa de nogueira, a masseira, as cadeiras, o grande armário que cheira a alecrim. A casa é pequena mas sou rei de um grande reino: (dá-me um beijo de amor, dá-me o teu anel) para ti conquistarei reinos tão belos, que nem se falará nos reis de Arles ou no dom Jaime. sou rei. tenho jumentos além, perto do golfo, uma manada de touros com bois condutores, e tenho cabras; os pastos que alimentam juntam no clos cordeiros que nem sei contar. As ondas do mar que molham as minhas margens são uma voz que canta desde que amanhece até escurecer; o grande sol do meu país abre no ar mangues azuis e fontes de miragem; vem, porque eu quero oferecer-te o mais belo cavalo. tem a brancura da neve, é doce como uma criança, vais guiá-lo e verás que ao som dos seus cascos salta a água dos pântanos como uma chama. À noite, quando ouvirmos o eco dos chocalhos, a voz dos guardadores e o mugido dos touros, voltaremos para a casa à luz da lua e dir-te-ei o nome de animais e estrelas.
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deus fez de mim um rei sem decretos nem cidades. e se aos pés de uma donzela me ajoelho é por ficar, com esta vontade de te ver feliz, belo como os jovens e sábio como os velhos. embora d’arbaud se embriagasse com frases visionárias de um sonho, tinha à sua volta a má realidade dos pântanos do vaccarès; os que sopram um Mediterrâneo estagnado e sempre a lembrar-se de África, dos seus mosquitos anófeles, dos seus tifos. Os corpos urbanos ressentem-se, sitiados por uma sub-reptícia maldade. Joseph d’arbaud foi vencido pelos maus hálitos da camarga. Já tinha escrito os versos de li cant Palustre, e esse entusiasmado canto expulsava-o agora dos seus touros, da nostalgia dos seus mangues, para o entregar à medicina mais eficaz do valais suisse. se alguns meses mais tarde a medicina o considerou livre de perigo, também o feriu com um conselho que soava como ordem e o afastava para sempre da camarga. sem cavalos e sem touros, Joseph d’arbaud regressou a aix-en-Provence com um corpo abalado e obrigatoriamente defendido de todos os excessos, que o deixou longe de quartéis e batalhas durante a Primeira Grande Guerra Mundial. dirigiu uma revista com um título que na época parecia redundante — Feu — onde a sua voz se dividia pela literatura e pela defesa «inflamada» das liberdades provençais. e em 1923 fundou o comité des revendications Méridionales, na altura em que julgou importante contrariar, com uma indignação de terra de touros, a campanha parisiense que tentava impedir aquele sul, vaqueiro e tradicionalista, de fazer touradas. (curiosamente,
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d’arbaud é autor de um conto — «O remorso de Pierre Guilhem» — que retrata com compaixão e indignação o cruel sacrifício do touro numa tourada.) O escritor da língua d’oc resolveu então duplicar-se e surgir em paralelo como escritor em língua francesa. («escreve em francês, escreve em francês», era um eco que ele ouvia desde os seus dias de adolescente.) d’arbaud deu aos seus textos em prosa uma versão paralela; em 1926 la Bèstio dóu vacarés passou também a ser la Bête du vaccarès; e em 1929 la sóuvagino também foi la sauvagine. Mas este d’arbaud bilingue queria ser e era, sobretudo, uma figura de primeiro plano na língua provençal. louis bayle (1907-1989), poeta e ficcionista da literatura provençal, o autor que melhor a estudou e retratou na sua histoire abrégée de la littérature provençale moderne (1971), conheceu pessoalmente Joseph d’arbaud e deixou-nos dele e do seu estranho animal esta visão entusiasmada: «Não são menor encanto deste livro as evocações que lá encontramos das paisagens camarguesas e da vida camarguesa através das quatro estações do ano, sob sóis que tudo secam ou com as chuvas que dilatam os mangues. Horizontes sem limites, círculo perfeito como o do mar; planícies estendidas e a cintilarem de sal, que os tufos de salicórnias cobrem como pústulas; águas irisadas dos pântanos que recebem toda a luz do dia e parecem conservá-la ainda e durante muito tempo, quando o dia cai; caminhos com um traçado que mal se vê, melancolicamente incertos entre os resguardos de juncos e de tamargueiras éticas, torcidas pelos ventos contrários, o mistral que sopra do norte, a largade que sobe do mar; e a incontável vida dos animais pernaltas, roedores, cavalos, touros selvagens. entramos na cabana do que guarda manadas, o guardador. É
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pequena, parecida com uma barca voltada ao contrário, protegida dos perigos pela cruz fixada no cimo do telhado, na parte de trás, como um leme para a alma. Não contém mais do que o indispensável à vida, alguns panos, alguma louça, utensílios de cozinha, uma mesa, uma cama, cordas e laços que o homem entrançou com as crinas da sua montada — um animal branco, curto, de cabeça grossa, com esqueleto que revela uma cauda bífida e o aparenta com a raça pré-histórica de solutré. seguimos este homem em todos os actos da sua existência solitária, na busca de um animal extraviado, nos esforços que ele faz para domar um jovem cavalo. conduz-nos sobre um chão de argila cinzenta que estala ao sol; e desde a sua porta entreaberta, com ele veremos cair interminavelmente na terra afogada as chuvas de Novembro.» Joseph d’arbaud morreu com setenta e seis anos de idade em aix-en-Provence, no dia 2 de Março de 1950, e foi sepultado em barjois sob o triplo signo da cruz do languedoque, do tridente da camarga e do loureiro de arles. Há uma lápide comemorativa em sua honra, iniciativa da confraria dos Guardadores, instalada «à beira do Étang redon, para memória do autor de “O animal do vaccarès”». a.F.
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desde a planície de Arles até à região de nîmes, entre os Alpilles e as cévennes, a «gente dos touros», todos aqueles que a paixão hereditária aproxima, sabem que no território de caban, à beira do Grande ródano, eu tinha como baile, ou seja, como chefe dos homens da minha manada, Jacques Antoine recoulin a quem chamavam long-tòni. era um grande corpo ossudo e flexível, encimado por um rosto recozido e completamente barbeado à romana, com cabelo grisalho e espesso que lhe tapava as têmporas e a nuca pro-consular, largas arcadas superciliares com pequenos olhos atentos e duros que abaixo delas dançavam. Um bom tipo de cavaleiro camarguês e mais nada, mas com um porte que levava aqueles que eu recebia uma vez por outra — o menos possível — a chamar-lhe Grande chefe e legionário. inteligente e iletrado como a maior parte dos guardadores da sua época (porque no momento a que me refiro o long-tòni já era muito idoso), tinha perante os livros um sentimento de desconfiança e respeito, uma confusa superstição que ele quase sempre, e de forma idêntica, traduzia. Ainda o vejo. como era seu hábito, tirava subitamente o cachimbo da boca, mais emudecido do que as carpas da roubine1, fazia os olhos correrem em direcção à pequena biblioteca 1
canal de escoamento. (N. do t.)
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instalada na minha cabana sobre prateleiras de um velho estanié 1, punha de novo o cachimbo na boca, e depois de engolir corajosamente a saliva voltava-se para mim. eu sabia, ou quase sabia, o que estava destinado a ouvir. — esses livros! e dizer-se que o meu amigo consegue fazer passar para a sua cabeça tudo quanto está no papel. Aí está uma coisa que me é difícil compreender. essa coisa da instrução é boa, não digo o contrário; mas não é natural. será necessário sabermos ler para montar um cavalo selvagem, para o adestrar, para ensinar ao touro os lances difíceis? ler? não digo que não seja uma bela coisa, mas acaba por nos partir a cabeça. estávamos numa noite de inverno, de regresso a casa vindos da caça e a beberricar perante as labaredas de tamargueira uns goles frescos de «verde», à espera do catigot2 de enguias que borbulhava ao fogo na panela, quando o long-tòni me disse de repente: — mal acabe de cear, vou enfiar-me na palha. A caça aos patos não vale as dores que nos causa. Apesar das minhas botas, esta noite fiquei molhado quando tive de ir buscar o danado de um desses filhos da puta ao meio do pântano. mas tenho a certeza de que ainda vai ler. A leitura é uma paixão, como os touros. eu cá tenho em Arles um livro que talvez o faça dar voltas à cabeça para o decifrar. Um dia ainda lho trago. está de uma ponta à outra escrito à mão, e quem poderá dizer que idade tem? Foi-me legado pelo Galastre, o tio-avô da minha mãe que foi noutros tempos um famoso guardador de touros. tenho a minha mulher por testemunha de que eu 1 2
Aparador provençal. (N. do t.) Uma espécie de caldeirada camarguesa cozida em vinho. (N. do t.)
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nunca quis vender esse livro a ninguém. É cá uma ideia! vai ser para si! Fiquem-se todos com esta. se conseguir entender-se com ele, é mesmo um homem! como todos sabem, foi em 1912 que o long-tòni morreu. e a sua mulher fez questão de cumprir a sua promessa. devo-lhe a ela e aos herdeiros do meu baile poder transcrever estas páginas. seja-lhes feito aqui publicamente o agradecimento. o manuscrito original é um espesso registo com uma couraça de couro e pergaminho, o exterior em mais de um ponto furado por traças e ratos. A escrita amarelecida é tosca, quase ilegível. Algumas páginas que outrora se molharam ou estiveram, sem dúvida, expostas a muito longa humidade, foram atacadas pelo bolor, e mal as folheei desfizeram-se em cinza. reformulei esse texto com a maior fidelidade possível. Para tornar inteligível a mais inacreditável mistura de francês, provençal e um pobre latim de sacristia tive muitas vezes de o adaptar, de fazer com ele qualquer coisa parecida com uma tradução. dá ideia de que o autor viveu, segundo as suas próprias indicações, nos meados do século Xv e foi filho de um guardador, ele próprio guardador e um pouco mais instruído do que os seus companheiros, nesse tempo uma espécie de semi-letrado e ainda por cima pobre escritor pretensioso e incansável maçador. irá notar-se isto bastantes vezes ao longo das páginas da narrativa. respeitei o mais que pude o tom primitivo e o boleio da frase, tentando apenas que os fragmentos de um texto muito incoerente surgissem, sempre que isto fosse possível, ligados. o mau estado do manuscrito tornou a tarefa bastante ingrata.
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Fique a saber-se que não coube aqui à literatura nenhum papel. limitei-me a retocar um relato confuso, cheio de pontos obscuros e redundâncias mas com uma evidente sinceridade e um especial mistério que não deixam de acrescentar-lhe algum interesse. sem o muito providencial legado que o long-tòni me fez, é bem provável que este relato se tivesse perdido para sempre. devo a alguns leitores pedir desculpa. talvez gostassem de encontrar aqui uma transcrição forçosamente monótona e baça. Quem não reconhece hoje a força do bricabraque? Quem não sabe como tantos espíritos de qualidade se deliciam com as imaginações extravagantes e complicadas? confesso, no que me toca, que os meus esforços se conjugaram para ser fiel ao texto, e severamente me coibi de toda afectação erudita, de toda a preocupação de arcaísmo e reconstituição, tanto no cenário como na acção, tanto no vocabulário como na sintaxe. As pessoas de gosto vão agradecer-me por isto, imagino eu, e por não ter recorrido a tão fáceis ornatos.
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CAPÍTULO PRIMEIRO
em nome do Pai, do Filho e do espírito santo, em nome de nossa senhora do mar e das nossas santas marias. hoje, dia onze do mês de Abril e santo domingo de Páscoa do ano 1417, eu, Jacques roubaud, que tenho por alcunha O bexigoso, baile-guardador da manada de touros selvagens que frequenta os lugares a que chamam malagroy, os impériaux e o riège, comecei a escrever este caderno. e ao fazê-lo quis começar por traçar à cabeça desta primeira página o sinal da cruz, símbolo da minha redenção, porque julgo garantir assim com solenidade, sobre a minha parte de paraíso e salvação eterna, a total e completa veracidade de tudo o que abaixo registo e tudo o que talvez me veja impelido depois a registar. Quero dar um indesmentível carácter a estas páginas sobre o que hoje vi e ouvi, porque é causa de grande tormento e me leva a uma contínua meditação; porque bem vejo que não posso encontrar-lhe por mim próprio explicação natural e tenho a certeza de que um dia mais sábia gente irá tirar proveito de tão curiosos acontecimentos. Aquele ou aqueles a quem a Providência entregar o segredo deste livro não deverão espantar-se por me ver com uma instrução bastante superior à do meu estado e não habitual entre os outros guardadores de gado selvagem, meus companheiros. não sou um ignorante porque bem cedo o destino me desti-
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nou às honras do sacerdócio; mas tive de abandonar os estudos e a esperança de um dia chegar às dignidades da santa igreja, e só o devo à grande desgraça que me aconteceu. mas não agradeço menos ao céu por me ter dado, a mim, um pouco mais do saber que aos outros não deu, porque sem ele ter-me-ia sido impossível levar a bom termo a tarefa que hoje empreendo. o meu pai André roubaud, guardador de rossatine, ou seja, dos cavalos camargueses que pastam através da sylve por conta dos monges de Psalmodi, tinha um irmão mais velho, honoré roubaud, que o padre cura protegeu e instruiu, e mais tarde se ordenou e tornou cónego no venerável capítulo da igreja maior de Arles. este cónego roubaud, meu tio, dedicou-me um profundo e paternal afecto. Posso dizer que em boa hora fui chamado para junto dele e educado pelos seus cuidados, instruído pelas escrituras, por letras latinas e gregas; que no altar lhe dava de manhã as respostas da santa missa, o acompanhava nos seus passeios, que tinha na sua mesa lugar como se fosse seu filho. e era-o, de facto, pela alma e pelo afecto. tinha o meu leito bem macio na casa branca, vizinha das arenas, corria como queria através das áleas da pequena horta que dava no outono tão belos frutos. Ai de mim! Andava eu pelos quinze anos quando a pestilência da febre devastou aquela terra, me levou o benfeitor e me atacou, deixando-me débil e quase desfigurado. A falta de protector fez-me regressar à manada, voltar à sela e ao ficheron1. não me lamento. cada estado tem as suas graças e as suas provações. Amo o que dá vida serena e livre, tridente defensivo que o guardador de touros conserva sempre na sua mão. (N. do t.) 1
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e desde há muito corre de pai a filho, o tradicional estado de todos os meus. era esta a opinião, lembro-me bem, do meu tio cónego. — Bem vês, pequeno — dizia quando ao crepúsculo nos atrasávamos num qualquer draille1 da camarga e olhávamos para o horizonte onde a massa móvel de uma manada decrescia, empurrada através do pântano pelos seus guardadores — bem vês, pequeno, seja qual for o cimo a que a Providência te eleve, nunca desprezes a condição do teu pai. A profissão de guardador é uma bela profissão, e exactamente igual à dos patriarcas. e não será também na solidão que uma alma pura melhor sente a ordem do mundo e a presença de deus? Pobre e venerado tio. Por que já aqui não está? mas de outro modo eu não me sentiria hoje impelido a escrevinhar estas páginas para me libertar um pouco de tudo o que me persegue. Porque não me atrevo, de facto, a fazer confidências. não, a ninguém. Quantas vezes não acabei, durante as horas de insónia ou a cavalgar sozinho através das vasas de malagroy, por resolver confessar tudo, dizer tudo? Que as santas me guardem na sua piedade e perdoem. sei que não conseguiria fazê-lo. mas tomei um dia a decisão. sentei-me na sela. sem ter embora a coragem de chegar a notre-dame-de-la-mer. sinto que não saberia falar disto ao tão prudente abade nem ao nosso tão venerável cura. não, nem mesmo ao abrigo do sigilo da confissão. mais forte do que tudo, uma apreensão fecha-me os lábios. se eu contasse livremente o que me assombra, julgo que iriam tomar-me por louco. Aliás, 1
caminho rural onde as manadas têm direito de passagem. (N. do t.)
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vivemos tempos em que os juízes eclesiásticos não são dados à indulgência e a todas as coisas maravilhosas que deitam facilmente um cheiro a patranha. não há, neste caso, feitiçaria nem sortilégio, tenho sobre isso todas as garantias e todas as certezas. mas o temor é quase tão grande como se houvesse. Para me libertar disto, volto a repeti-lo, escrevo hoje estas páginas. saberei tomar as minhas precauções para se manterem ocultas até eu não ter nada a temer e, comigo ainda vivo, não me traírem.
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Para dar melhor conta disto saltei para o chão, e depois de começar por dar quatro passos na direcção norte, a partir da primeira estaca, percebi que não podia andar mais sem correr o risco de uma pavorosa morte. desfiz-me portanto do seden, enrolei-o na mão com o mesmo cuidado que teria se fosse para capturar um cavalo ou um bovino, e atirei-o esforçando-me para deixar bem aberto o laço da corda e conseguir, apesar do impulso que lhe dei, acertar o melhor que podia no destroço. mas foi tudo inútil. o vento que soprava do mar com desigual violência parecia querer iludir os meus melhores cálculos quanto a movimentos; e, fosse qual fosse o lado onde eu me pusesse, parava a corda ou levava-a, enredando e fechando o nó corredio. o seden ainda por cima enviscava-se e ficava mais pesado, dando a todas as minhas tentativas uma pancada na superfície do lodo. cansei-me, portanto, sem obter nenhum resultado, e saí dali a suar e ao mesmo tempo transido, com os braços quebrantados, as pernas molhadas, e sem nada ter comido desde o amanhecer. o dia, nesta estação muito curto, mesmo depois de me sentir restaurado não permitiu que eu fizesse outra vez aquele caminho; mas logo na madrugada seguinte voltei ao Grand-Abîme munido de uma vara, a mais comprida que encontrei e com peso suficiente para fazer lastro na corda. naquele destroço o que haverá, capaz de me irritar e tão profundamente inquietar? Para vê-lo mais de perto, quero tirá-lo por completo do buraco. deve, segundo penso, sobrenadar durante algum tempo. em todo o caso, vários dias hão-de passar antes de o lodo o submergir.
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este 16 de Janeiro de 1418. Já passou mais de um mês sem eu voltar a agarrar neste caderno. esta noite volto a abri-lo, apesar de poucas coisas ter para escrever. no dia seguinte àquele que referi, voltei ao Grand-Abîme. levantei-me muito cedo, para estar no local antes de a claridade da aurora ter chegado ao máximo. Apesar das minhas previsões, o destroço tinha desaparecido completamente. A vasa dos abismos é voraz e trabalha com rapidez. tentei em vão fazer uma sondagem com a ponta da vara, mas como quis avançar demasiado enfiei-me até ao entre-coxas, conseguindo com grande esforço libertar-me, perturbado com o terror que sentia e a luzir de vasa empestada. Quando regressei fiz novas buscas através do riège. e não passou um só dia sem uma cuidadosa batida, pelo menos num radeau. levo o cavalo até aos locais arborizados, e com a haste do tridente pesquiso uma a uma as ramagens. nada vi. na mais alta ponta do radeau-long descobri algumas claves, mas não me pareceram recentes. o meu saqueton continua pendurado e permanece intacto; mas como não quero fazer nada de que me arrependa, visito-o com regularidade e por vezes renovo as suas provisões. vou fazê-lo durante algum tempo, e logo se verá. Agora, num raio de várias léguas inspeccionei todas
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as terras que nesta estação emergem; quanto ao Étang-redon, não vale a pena perder tempo com ele porque terá este ano, e durante três meses pelo menos, o seu fundo debaixo de água. desta vez o Animal está morto ou partiu. sinto-me agora sozinho, muito sozinho. só passou um ano, desde que ardentemente persigo a cavalo uma presa que eu supunha bela, e esforçava-me por fazer uma batida nos pântanos e nos sansouires seguindo as claves misteriosas até aos arredores ou ao longo dos limites do Badon. sei que vou levar até à morte o veneno que se introduziu nas minhas veias. Um terror, uma amizade, um mistério; e um remorso, um remorso. o meu cão rasclet está deitado aos meus pés; levanta de vez em quando a cabeça e fareja voltado para o lado dos bosques, depois enrola-se a tremer de frio debaixo do seu pêlo húmido. lá fora, mas não muito longe, oiço os pesados passos do castor que salta desastradamente no mesmo lugar, durante a noite, com as duas pernas da frente presas com uma peia. Amanhã vou continuar a minha busca. o Animal foi-se embora ou morreu. se assim não fosse conseguiria encontrá-lo. daqui em diante, se eu nada mais descobrir parece-me inútil escrever. só voltarei a este caderno se me achar em condições de anotar aqui qualquer circunstância nova. daqui até lá quero procurar e continuar a procurar sem me sentir desencorajado nem cansado; desde há algum tempo penso muito naquele pedaço de árvore com duas raízes que uma noite vi meio submerso, e a vasa do Grand-Abîme tinha no dia seguinte devorado.
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