K Irene Nemirowsky_O Caso Kurilov.qxp:lombada 10,5 18/11/16 13:29 Page 1
tradução e apresentação de
Aníbal Fernandes
Schopenhauer: «Se conseguires descer até ao coração do mais detestado dos teus inimigos, tu próprio ali te encontrarás.»
www.sistemasolar.pt
Irène Némirowsky O CASO KURÍLOV
Irène Némirowsky O CASO KURÍLOV
Irène Némirowsky
O CASO KURÍLOV
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 2
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 3
O CASO KURÍLOV
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 4
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 5
Irène Némirowsky
O CASO KURÍLOV tradução e apresentação
Aníbal Fernandes
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 6
TÍTULO DO ORIGINAL: L’AFFAIRE COURILOF
© SISTEMA SOLAR, CRL RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES, 2016 NA CAPA: LÉON BONNAT, AUTO-RETRATO, 1850 (PORMENOR) REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE 1.ª EDIÇÃO, NOVEMBRO DE 2016 ISBN 978-989-8833-15-0
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 7
Quando Albert Camus publicou em 1950 a sua peça teatral Les Justes, poucos se lembraram de O Caso Kurílov de Irène Némirowsky, que desde há dezoito anos circulava pelas mãos dos leitores. Tinham ambos escolhido um mundo com sintomas de extinção, a tardia Rússia dos czares já incomodada pelos prenúncios do socialismo; contavam ambos a história de um revolucionário falhado, incapaz de sobrepor aos seus sentimentos pessoais aquele outro, imposto por uma consciência social e política, e dirigido ao colectivo; em ambos era uma mulher quem assumia o atentado que ele se recusava a concretizar. No entanto, nestas duas obras com personagens que dificilmente nos evitam uma comparação, as motivações do fracasso divergem; em Camus o revolucionário não mata o grão-duque Serguei, um dos derradeiros tiranos da Rússia imperial, por saber que ele estará nesse momento acompanhado pelos seus inocentes filhos. «A revolução, é claro que sim! Mas a revolução pela vida, para dar uma hipótese à vida!», lê-se numa tirada da peça de Camus. A personagem de Némirowsky, essa é mais complexa e perversa quanto à verdade que domina as suas hesitações. Parece padecer do que encontramos numa conhecida frase de Schopenhauer: «Se conseguires descer até ao coração do mais detestado dos teus inimigos, tu próprio ali te encontrarás.» Lev M… não é um «justo» no sentido proposto por Camus. Pressente que a crueldade do revolucionário é implacável e fria,
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 8
8
A p r e s e n ta ç ã o
qualquer que seja a motivação do seu poder, e que ele próprio será capaz de actos tão cruéis como os do alvo humano que se propõe abater, desde que se encontre na situação de executor de uma facção adversa. Em 1932, Némirowsky parecia prever que tanto Adolf Hitler seria capaz dos seus onze milhões de vítimas, em nome de uma implantação rácica e valores que ele associava à superioridade ariana, como Josef Stalin chegaria aos seus vinte milhões para eliminar quem se opusesse à sua visão política de país programado para um igualitário bem-estar material e cultural do seu povo. Como seria de esperar, nem um nem outro destes textos podia ser compensado com o aplauso das ortodoxias revolucionárias; os sentimentos individuais não podem desviar o executor da severa disciplina imposta pelas convicções políticas; não é aceitável «inventar» revolucionários com uma fraqueza interior que vacila nos cruciais momentos da sua actuação. Em 1950, as más reacções críticas a Camus dissolveram-se numa bem mais vasta e intelectual aceitação da complexidade de sentimentos do revolucionário; em 1932, Némirowsky foi mais violentamente beliscada. O jornal L’Aube desabafou: «Ah! Como estamos fartos destas histórias! Já conhecemos tantas!»; e Jean-Baptiste Séverac: «Não encontrei no herói de Mme Némirowsky nenhum dos traços que me pareçam característicos dos terroristas daquele tempo». Mas o mais significativo está na evidente desonestidade intelectual de um anónimo de l’Action Française. Um livro ao qual muito falta para atingir duzentas páginas, é «engrossado» até às duzentas e setenta; um livro que arrasta a atenção do leitor ao longo de todos os seus capítulos, é acusado de sensaboria: «Mme Némirowsky estendeu o tema da sua novela até conseguir duzentas e setenta páginas que destilam, desde a primeira até à última, o mais
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 9
A p r e s e n ta ç ã o
9
mortal dos tédios. Juramos que, para se aguentar até à última, há que lançar mão de uma coragem que chega ao heroísmo. […] É um curioso caso que uma vez mais demonstra o perigo de uma crítica hiperbólica. Quando acreditamos no nosso génio, deixamos de trabalhar e somos disso a nossa própria vítima.» Muito mais tarde Olivier Philipponat e Patrick Lienhardt, seus biógrafos, considerá-lo-iam a maior exibição do talento da autora desde David Golder; e também René Lalou no seu Le Roman Français depuis 1900 escreve: «David Golder conseguiu a imediata celebração do nome de Irène Némirowsky pela sua furiosa violência. […] A mesma força, mais concentrada, reaparece no relato realista do revolucionário de O Caso Kurílov.» Camus concebeu Les Justes a partir do assassínio de um déspota, um grão-duque Serguei que realmente existiu; mas O Caso Kurílov (que começou por ser Épisode e depois Deux Hommes, antes de chegar ao título que hoje lhe conhecemos; que foi folhetim em Annales politiquices et littérature, antes de surgir como edição Grasset) introduz na precisa realidade histórica uma ficção política. A autora achou por bem explicar-se a este respeito num número de Toute l’édition: A época e o meio em que se passa O Caso Kurílov […] têm para mim a vantagem de pertencer às minhas recordações da infância e de haver uma grande quantidade de memórias e correspondência que pude consultar. — Kurílov não é, por certo, Sukhominov, tal como David Golder não é o rigoroso retrato de um qualquer exacto homem de finanças: são retratos imaginários. — Li uma enorme quantidade de biografias, memórias, correspondências dessa época. Existem em grande número, tanto em russo como em francês. Servi-me de muitos pormenores autênticos que chegam a ser
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 10
10
A p r e s e n ta ç ã o
frases pronunciadas ou escritas por gente dessa época, e coloquei-as na boca do meu herói. Já foi notado que são evidentes alguns ecos de A Minha Vida de Trotski, de Memórias de um Revolucionário do bolchevista Savinkov e de Memórias de Vera Figuer, autora de numerosos atentados (como o de Alexandre II em 1881). Mas aquele que mata Kurílov parece inspirado muito de perto por outro, o que em 1901 vitimou Nikolai Pavlóvitch Bogolépov, um ministro da Instrução Pública abatido a tiro de pistola pelo estudante Karpóvitch. Neste livro sobressai uma curiosa história de coabitação entre o assassino e a sua vítima. Lev M…, assumindo uma falsa identidade de médico, introduz-se nos mais íntimos círculos de um feroz ditador cuja eliminação física é preconizada pelos comités revolucionários de inspiração comunista. Mas o conhecimento profundo da natureza humana revela-se o pior dos inimigos da pureza revolucionária. Apesar de Kurílov ser visto por Lev M… como «o imbecil», «o cachalote», o «déspota frio», sentimentos de obscura piedade acabarão por fazê-lo fraquejar perante aquele enorme declínio do corpo roído por um cancro do fígado, aquela erosão, aquele doloroso crepúsculo de poder. E a Lev M…, quando escreve estas memórias e ele próprio já tem no seu passado um período de vida em que praticou, ao serviço da revolução socialista, actos de crueldade tão fria como a do ditador czarista, só lhe resta uma consciência melancólica de derradeiros dias, aquela que o sol ameno de Nice mal consegue iluminar. O Caso Kurílov é a sexta obra publicada de Irène Némirowsky, escritora de vinte e nove anos de idade e documentos de identificação com outro nome, Irma Irina Lvovna Nemirovskaia, ligado à sua infância russa-ucraniana perturbada pelos sobressaltos da ascensão soviética. O seu pai teve a má sorte de ser visto como
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 11
A p r e s e n ta ç ã o
11
íntimo do czar Nicolau II fuzilado pelos revolucionários de Outubro. E era, além do mais, exemplo rematado do russo com tiques aristocráticos, que falava francês com os seus iguais e russo com os seus inferiores. Estes senãos sociais e de carácter, que se acrescentavam à má nota da sua condição de banqueiro no novo mundo de regras socialistas, foram postos a salvo com uma fuga arriscada que manteve esta família de três escondida num apartamento de Moscovo, e depois a arrastou até à Suécia e à França, onde era de todos a língua preferida pela alta sociedade dos czares. Antes de se afirmar como escritora, a jovem Irina viveu anos de adolescência francesa com o seu pai a restabelecer-se com notável eficácia judaica no mundo das finanças. Mlle Irène pôde fazer os exercícios de barra que lhe eram exigidos numa escola de dança, pôde frequentar um curso de letras na Sorbonne e divertir-se: Éramos um bando simpático que dividia o seu tempo entre a Sorbonne, o dancing e os folguedos na relva. Mas o seu grande frenesi de flirts acalmou quando lhe apareceu, em 1926 e disposto a casar-se, o judeu Michel Epstein. A placidez de um matrimónio confortável (Epstein também vogava em boas ondas no mundo das finanças) incitou-a a dar fôlego ao que sentia dentro de si como irreprimível vocação de mulher de letras. Publicou contos em revistas, escondendo a sua identidade atrás de pseudónimos, mas o seu romance de estreia David Golder mostrá-la-ia com um nome verdadeiro: não Irina Epstein, como passou a chamar-se depois da cerimónia festiva na sinagoga, mas outro que acrescentava a um Irène à francesa o Némirowsky que ela fez sair do alfabeto cirílico com inesperados w e y. O talento literário e a crueldade postos em obra no seu David Golder de 1929 fizeram Edmond Jaloux escrever: «Fiquei estupe-
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 12
12
A p r e s e n ta ç ã o
facto.» Seguiram-se, com descida na expectativa dos leitores, Le Bal (1930) e Les Mouches d’automne (1931), antes deste Caso Kurílov que a passagem do tempo faz reconhecer como um dos mais originais e fortes entre a larga escolha dos seus livros. Havia, no conforto material de Irène Némirowsky, mãos incansáveis e uma dessas forças mentais que extraem os seus maiores prazeres dos exercícios de uma imaginação que cria personagens e histórias. Até 1942, o ano que acrescentou um final fatídico à sua carreira de escritor, Némirowsky publicou cerca de quinze romances, aos quais viriam juntar-se um número idêntico de obras póstumas. Em 1942, a exterminação programada dos judeus que vivessem em territórios dominados pela política nazi, não poupou Némirowsky. Não havia nenhuma atenuante para as maldições genética e religiosa que se agarravam ao corpo dos judeus. Muito claro era o panfleto «O Reino dos Judeus»: «O judeu convertido continua judeu, como o negro baptizado conserva a cor da pele e as suas características raciais. O problema judaico não é um problema religioso mas uma questão de raça.» Desde 1941, Dannecker e Eichmann tinham programada uma deportação de judeus residentes na França, separando-os em grupos de mil. Mas até à viagem final foi levado a cabo um cruel exercício de humilhações que passou por contas bancárias congeladas, espoliação legal de bens, a proibição de aparelhos de rádio em casa, o acesso ao telefone cortado. A proibição de venda de livros de autores judeus nas livrarias culminou este mecanismo anulador dos direitos elementares do cidadão judaico. Começou então a escolha dos quarenta mil destinados a Auschwitz. O prenúncio do terrível final que todos estes preliminares anunciavam desviou Irène dos mais visíveis circuitos e fê-la insta-
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 13
A p r e s e n ta ç ã o
13
lar-se com as suas duas filhas em Issy-l´Éveque, uma aldeia sob a influência do equívoco governo de Vichy, onde o marechal Pétain construía uma «colaboração» com o ar de alguma independência mas tolerada e até acarinhada pelas forças do Reich. Talvez fosse, para Némirowsky, um do-mal-o-menos que poderia fazê-la passar por «esquecida» das brigadas da purga judaica. Michel Epstein continuou em Paris, a trabalhar no banco Des Pays du Nord. Tudo era, porém, uma ilusão. No dia 13 de Julho de 1942, polícias bateram à porta da sua casa e mostraram-lhe uma ordem de deportação para o campo de Pitchiviers, que recolhia os judeus «apátridas». Em anos anteriores tinham sido inúteis as tentativas de Irène e Michel para lhes ser concedida a nacionalidade francesa. Era qualquer deles demasiado judeu, ao que parecia, para aquele impertinente direito de aspirar a uma cidadania francesa. Irène chegou a trocar a sinagoga por uma igreja católica e passar-se para o lado de Cristo com um baptizado católico. Mas a estratégia desta renúncia de nada lhe valeu. Perante a força daquela intimação despediu-se das suas duas filhas dizendo-lhes que ia fazer uma viagem de alguns dias. Em Paris, Michel Epstein mexeu inutilmente vários cordéis ao seu alcance e com alguma influência nas decisões da Gestapo. Depois de Pitchiviers, Irène Némirowsky juntou-se, durante três dias e duas noites, a 928 judeus transportados num vagão que passou da França para a Alemanha, e depois para a Polónia até Auschwitz. À entrada, a frase de boas-vindas era auspiciosa: Arbeit macht frei (O Trabalho Liberta). Mas não libertava por aí além. Irène entregou jóias e a sua aliança de casamento, foi rapada, tomou um banho de chuveiro com água fria e vestiu uma bata às riscas. (O nazismo viu sempre os seus judeus, homens e mulheres,
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 14
14
A p r e s e n ta ç ã o
às riscas). Foi tatuada num pulso com a sua marca de identificação, mas não chegou ao forno de gás nem a uma daquelas decadências físicas, bem divulgadas, da sub-alimentação. Um tifo providencial matou-a a 17 de Agosto de 1942. Michel Epstein, esse, morreu cerca de dois meses depois, gaseado no campo de concentração de Drancy. As duas filhas do casal Epstein viveram com nomes falsos e ao cuidado de Mme Ravaud, uma professora reformada. Da sua própria história teria Irène Némirowsky sabido inventar um curioso romance. A.F.
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 15
Atraídos pela chama de um pequeno braseiro vermelho, dois homens foram sentar-se na esplanada deserta de um café de Nice. Era um crepúsculo de Outono que parecia frio para aquela parte do mundo. «Um céu de Paris…», disse uma mulher que ali passava, a apontar para as nuvens amarelas expulsas pelo vento. Ao fim de alguns instantes a chuva começou a cair, escurecendo ainda mais a rua vazia onde as luzes não brilhavam; em certos pontos, gotas atravessavam a lona cheia de água que se estendia por cima do café. Os dois homens — Lev M… e aquele que tinha ido atrás dele e desde então o olhava de soslaio, parecendo que fazia um esforço de memória para o reconhecer — inclinaram-se com um movimento idêntico para o braseiro aceso. Do interior do café chegava um ruído confuso de vozes, de chamadas; o choque das bolas de bilhar, dos tabuleiros contra as mesas, as peças a moverem-se nos tabuleiros de xadrez, que se sobrepunham por momentos à ácida e pouco nítida fanfarra de uma pequena orquestra. Lev M… levantou a cabeça, enrolou melhor o lenço de lã cinzenta que lhe rodeava o pescoço, e o homem sentado à sua frente perguntou em voz baixa: — Marcel Legrand?
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 16
16
Irène N ém irowsk y
No mesmo instante ao longo da rua, nas fachadas e nas esplanadas dos cafés, os globos eléctricos acenderam-se. Surpreendido pela brusca claridade, Lev M… desviou durante um momento o olhar. O homem repetiu: — Marcel Legrand? Atravessadas por uma corrente que era, sem dúvida, demasiado intensa, as lâmpadas eléctricas escureceram; durante um segundo a luz vacilou como a chama de uma vela deixada ao ar livre; pareceu depois reanimar-se, iluminou com violência o rosto de Lev M…, os seus ombros curvos, as mãos ossudas, os pulsos frágeis. — Em 1903 esteve encarregado do caso Kurílov? — Em 1903? — repetiu M… com lentidão. Inclinou a cabeça para um lado, assobiou ao de leve com a expressão cansada e irónica de um velho e friorento pássaro. O homem sentado à sua frente tinha sessenta e cinco anos, um rosto cinzento e fatigado, um tique nervoso que lhe repuxava o lábio superior, erguendo com guinadas o bigode outrora amarelo e que tinha embranquecido, que punha a descoberto uma boca pálida com um esgar inquieto e amargo. Os seus olhos vivos, com um ar penetrante e desconfiado, iluminaram-se de repente e quase a seguir desviaram-se. Encolhendo os ombros, M… acabou por declarar: — Não há nada a fazer. Não estou a reconhecê-lo. Estou com má memória. — Não se recorda do polícia encarregado nesses tempos de guardar o Kurílov? Aquele que uma noite, no Cáucaso, foi atrás de si?
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 17
O Caso Kurílov
17
— Sem êxito. Estou agora a lembrar-me — disse M…, e esfregou suavemente as mãos que o calor entorpecia. Era um homem com cerca de cinquenta anos, que parecia mais velho e doente. Tinha um peito estreito, um rosto sombrio e irónico, uma esquisita mas formosa boca com maus dentes partidos, a testa cortada por uma mecha que embranquecia. Tinha olhos profundamente cavados e a brilharem com uma chama escura. Murmurou: — Um cigarro? — Vive em Nice, Monsieur Legrand? — Vivo. — Retirado dos negócios, se a expressão me for permitida? — O senhor pode… M… respirou o cigarro aceso, sem o fumar, e ficou a vê-lo consumir-se entre os seus dedos; atirou-o para o pavimento e esmagou-o demoradamente com o tacão. — Há muito tempo — acabou por dizer, com um imperceptível sorriso — tudo isso se passou há muitíssimo tempo… — Sim… Fui eu quem se encarregou do inquérito a seu respeito, quando foi preso depois do atentado… — Ah, foi? — murmurou M… com indiferença. — Nunca cheguei a saber qual é o seu verdadeiro nome. Nenhum dos nossos agentes provocadores o conhecia, tanto na Rússia como no estrangeiro. Dê-me esse prazer, agora que isso já não tem importância! Diga-me lá: era mesmo um dos chefes da organização terrorista na Suíça, antes de 1905? — Nunca fui um dos chefes terroristas, apenas subordinado. — Ai não? M… inclinou a cabeça, com um leve e fatigado sorriso.
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 18
Irène N ém irowsk y
18
— Pois é assim, meu caro senhor. — Mas diga lá então, e depois?… Em 1917 e a seguir?… Enganar-me-ei se disser que o senhor… Procurava, segundo parecia, um termo que desse resposta ao seu pensamento; acabou por sorrir, pondo a descoberto os dentes afiados, compridos, que brilhavam entre os lábios pálidos. — Estava fora da panela — disse, fazendo no ar o desenho de um caldeirão — quero eu dizer… à sua superfície?… — Sim… à sua superfície. — A Tcheka1? — Meu caro senhor, fiz um pouco de tudo. Nesses tempos difíceis, todos punham a mão na massa. Com os seus finos dedos curvos tamborilou a compasso no mármore da mesa. — Não quer dizer-me qual é o seu nome? — perguntou o homem, a rir-se. — Juro-lhe que também sou neste momento um pacífico capitalista. Não passa de uma simples curiosidade que me incita; seja como for, uma deformação profissional. Com o gesto friorento que lhe era habitual, M… levantou suavemente a gola do sobretudo e puxou com as mãos as extremidades do lenço. — Não acredito nisso — disse ele com um riso leve que a tosse alterava — regressamos sempre aos primeiros amores. Além disso, o meu nome já não lhe ensinaria nada… Há muito tempo que todos o esqueceram. — Está casado? — Não, mantenho velhas e saudáveis tradições revolucionárias — disse M… 1
A primeira das polícias secretas soviéticas. (N. do T.)
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 19
O Caso Kurílov
19
Voltou a sorrir; tinha um leve sorriso maquinal que lhe escavava profundamente os cantos curvos dos lábios. Apanhou entre dois dedos um pedaço de brioche, comeu-o com lentidão e disse franzindo o sobrolho: — E o senhor? Qual é o seu nome, meu caro senhor? — Oh, eu… nenhum mistério… Baránov… Ivan Ivánovitch… Estive durante dez anos pessoalmente ligado a Sua Excelência… Kurílov. — Ah, sim? O leve sorriso fatigado de M… pela primeira vez se apagou; deixou de olhar, como até ali, para os manequins de cera violentamente iluminados, os únicos que povoavam aquela rua vazia e afogada pela chuva. Teve uma tosse ligeira e levantou para Baránov os grandes olhos cavados. — E a família dele? Sabe que destino teve? — A sua mulher foi fuzilada durante a Revolução. Os filhos ainda devem estar vivos. Pobre Kurílov… Lembra-se? Chamavam-lhe o Cachalote. — Feroz e voraz — disse M… Esmigalhou os restos do brioche entre os dedos, fez um movimento para se levantar, mas a chuva que não parava de cair saltava com brilhantes centelhas do pavimento. Voltou, pesadamente, a sentar-se. — O senhor não falhou o seu objectivo — disse Baránov. — Quantas peças chegou a haver no tabuleiro, da sua parte e ao todo? — Nesse tempo? Ou depois? — Ao todo — repetiu Baránov. M… encolheu os ombros.
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 20
20
Irène N ém irowsk y
— O senhor, palavra de honra!, faz-me lembrar o rapaz de um desses jornais americanos que se interessam por requintes estatísticos, e que um dia, na Rússia, veio perguntar-me quantos homens eu tinha mandado matar a partir do momento em que estive no poder. E porque hesitei, perguntou com inocência: «Será possível… será possível que isso lhe tenha saído da memória?» Era um judeuzinho rosado do Chicago Tribune que se chamava Blumenthal. Com um gesto chamou o empregado que atravessava a esplanada. — Mande parar aquele fiacre. A viatura estacionou à frente do café. Levantou-se e estendeu a mão a Baránov. — É cómico encontrarmo-nos assim… — Cómico de mais… M… teve um riso repentino e disse em russo: — Sim… na verdade… quantos morreram… «devido às minhas orações»?… Às nossas mãos?… — Pff! — disse Baránov encolhendo os ombros. — Pelo menos, na parte que me toca era serviço encomendado. Estou-me nas tintas. — É muito justo que assim seja — disse M… num tom de indiferença e fadiga. Abriu com cuidado o grande guarda-chuva preto, acendeu na chama do braseiro um cigarro. O clarão vivo iluminou-lhe de repente o rosto inclinado, com faces cavadas cor de terra, e os grandes olhos escuros preocupados. Não fumou o cigarro, como era habitual; contentou-se, com os olhos semicerrados, em aspirar durante um momento o cheiro do fumo, e depois deitou-o fora. Com um dedo tocou no chapéu e foi-se embora.
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 21
Lev M… morreu em Março de 1932, na casa de Nice onde passou os seus últimos anos. Foi encontrada entre os seus livros uma pequena pasta de couro preto; continha umas quantas folhas dactilografadas e agrafadas em conjunto. A primeira tinha estas palavras escritas a lápis: CASO KURÍLOV
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 22
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 23
I Nice, 1931. O Comité Revolucionário encarregou-me, em 1903, de liquidar… era a palavra usada nessa época… o caso Kurílov. Este acontecimento só ficou ligado de uma forma episódica ao resto da minha vida, mas impõe-se à minha memória no limiar de uma biografia, marca-me o começo de uma vida revolucionária, apesar de eu lhe ter depois mudado o rumo. Entre esta data e a tomada do poder catorze anos se passaram, metade na prisão, metade no exílio. A revolução de Outubro (Sturm und Drang Periode…) foi a seguir, e depois um novo exílio. Vivi cinquenta anos que se escoaram rapidamente; não posso, quanto a isso, queixar-me da sorte… Mas parecem ter um final longo… muito se arrasta o final. Nasci em 81, a 12 de Março, numa pequena e perdida aldeia da Sibéria à beira do Lena, de um pai e de uma mãe deportados políticos, com nomes que eram no seu tempo conhecidos mas estão hoje esquecidos: Viktória Saltikov e o terrorista M… Maxim Davidovitch M… Conheci mal o meu pai; a prisão e o exílio não contribuem para criar intimidade na família. Era um homem alto, com olhos pequenos e salientes, pálpebras escuras, grandes mãos ossudas de pulsos frágeis… Falava pouco, tinha um riso leve cortante e triste. Quando vieram pela última vez prendê-lo, eu ainda era
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 24
24
Irène N ém irowsk y
uma criança. Beijou-me, olhou para mim com uma espécie de espanto irónico, com uma pequena prega fatigada nos lábios que podia passar por sorriso. Saía do seu quarto mas voltou lá porque se tinha esquecido de trazer os cigarros, e desapareceu-me da vista para sempre. Morreu na prisão, com a idade a que eu acabo de chegar; na fortaleza de Pedro e Paulo e numa cela onde a água do Neva entrava durante as inundações do Outono. Depois de o prenderem fui viver em Genebra com a minha mãe. Dela, que morreu na Primavera de 1891, lembro-me melhor. Uma criatura fina e franzina com bandós claros e lunetas de mola… O tipo da intelectual dos anos 80… Ainda me lembro dela na Sibéria quando a libertaram, no caminho do regresso. Eu estava com seis anos. E o meu irmão acabava de nascer. Ela tinha-o nos braços mas afastado do peito por uma espantosa inabilidade; era como se o apresentasse às pedras do caminho enquanto ouvia, trémula, o seu grito de esfomeado. Volto a vê-la na altura em que lhe fazia uma muda, o tremor das mãos que se embaraçavam nas fraldas e nos alfinetes. Ela tinha dezasseis anos quando matou com um tiro de pistola, à queima-roupa, o chefe dos polícias de Viatka que à sua frente martirizava uma presa política velha e doente, forçando-a a andar debaixo dessa pancada de clava, que o sol da Rússia é no auge do Verão. Ela própria mo disse sem eu ter idade para o compreender, e como se o fizesse cheia de pressa… Lembro-me da estranha sensação que tive ao escutar este relato. Lembro-me da sua voz sonora e aguda, diferente do tom paciente e cansado que eu lhe conhecia:
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 2
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 2
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 173
Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, Georges Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 18/11/16 13:02 Page 174
A papisa Joana — segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence Bom Crioulo, Adolfo Caminha O meu corpo e eu, René Crevel Manon Lescaut, Padre Prévost O duelo, Joseph Conrad A felicidade dos tristes, Luc Dietrich Inferno, August Strindberg Um milhão conta redonda ou Lemuel Pitkin a desmantelar-se, Nathanael West Freya das sete ilhas, Joseph Conrad O nascimento da arte, Georges Bataille Os ombros da marquesa, Émile Zola O livro branco, Jean Cocteau Verdes moradas, W.H. Hudson A guerra do fogo, J-H. Rosny Aîné Hamlet-Rei (Luís II da Baviera), Guy de Pourtalès Messalina, Alfred Jarry O capitão veneno, Pedro Antonio Alarcón Dona Guidinha do Poço, Manoel de Oliveira Paiva Visão invisível, Jean Cocteau A liberdade ou o amor, Robert Desnos A maçã de Cézanne… e eu, D.H. Lawrence O fogo-fátuo, Drieu la Rochelle Memórias íntimas e confissões de um pecador justificado, James Hogg Histórias aquáticas — O parceiro secreto, A laguna, Mocidade, Joseph Conrad O homem que falou (Un de Baumugnes), Jean Giono O dicionário do diabo, Ambrose Bierce A viúva do enforcado, Camilo Castelo Branco O caso Kurílov, Irène Némirowsky
P_Irène Némirowsky_O Caso Kurílov.qxp:sistema solar 10/11/16 11:48 Page 175
DEPÓSITO LEGAL 417323/16 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA EUROPRESS RUA JOÃO SARAIVA, 10 A 1700-249 LISBOA PORTUGAL
K Irene Nemirowsky_O Caso Kurilov.qxp:lombada 10,5 18/11/16 13:29 Page 1
tradução e apresentação de
Aníbal Fernandes
Schopenhauer: «Se conseguires descer até ao coração do mais detestado dos teus inimigos, tu próprio ali te encontrarás.»
www.sistemasolar.pt
Irène Némirowsky O CASO KURÍLOV
Irène Némirowsky O CASO KURÍLOV
Irène Némirowsky
O CASO KURÍLOV