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Gérald de Nerval, «Balkis (A Lenda num Café)»

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BALKIS (A Lenda num CafĂŠ)

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TÍTULO DO ORIGINAL: La Légende dans un café

© SISTEMA SOLAR, CRL (2019) RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES 1.ª EDIÇÃO, OUTUBRO 2019 ISBN 978-989-8833-41-9 NA CAPA: GIOVANNI DEMIN, saLOMÃO e a RaInHa de saBÁ (PORMENOR), SÉC. XIX REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE DEPÓSITO LEGAL 461145/19 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA EUROPRESS RUA JOÃO SARAIVA, 10 A 1700-249 LISBOA PORTUGAL

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Ainda tenho a fronte enrubescida com o beijo da rainha. Nerval, El Desdichado.

Balkis (como os muçulmanos lhe chamam), rainha de Sabá (como nos aparece na tradição cristã), bem mais se enfeita com as belezas da Lenda do que se verga às precisões da História. No que respeita a Salomão diz-nos a Bíblia — e a História consente-o — que era filho do rei-pastor David que tocava harpa, escrevia salmos e soube exterminar o gigante Golias; aquele que Miguel Ângelo impõe em Florença, talhado em mármore e de pé numa versão naturista. Salomão sucedeu no trono ao seu pai, como rei do povo escolhido por Jeová, e fê-lo depois de uma complicada intriga que teve a sua mãe Betsabé, o profeta Natã e o sumo sacerdote Zadoque a congeminarem e a executarem um acto assassino necessário para ser ele, contra os direitos da sucessão, a ocupar o trono de Israel. Imposto pela intriga e pelo crime, não desmereceu a frieza de sangue que lhe chegava pelo exemplo materno; eliminou, um a um, todos os que podiam lançar sombras sobre a ilegitimidade do seu poder. Esquecidos, porém, estes desvios à moral básica e às normas da lei, terá de reconhecer-se que foi hábil no trono; fez com mão

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firme o comércio e a indústria florescerem; deu uma sensata ordem administrativa ao seu reino dividindo-o em doze distritos; com uma força bélica que não fazia guerras mas assustava a debilidade defensiva dos estados vizinhos, vergou-os mansamente à tributação. E para a fama da posteridade mostrou-se — quem tal diria — exemplo cimeiro e proverbial do sentido de justiça. Temo-lo também (com todas as hesitações que os textos bíblicos levantam quanto a autenticidades autorais) como escritor de muitos dos seus Provérbios, das sentenças do Eclesiastes por vezes tão fora do previsível, e desse belo poema bastardo, porque de uma sensualidade incómoda no Antigo Testamento — encalhado, sabe-se lá porquê, entre os seus irmãos — a que chamamos «Cântico dos Cânticos». A largueza das suas exigências sexuais bate em números o que é contado sobre os mais ardentes sultões. Fez um casamento estratégico com Anelise, uma filha de faraó que lhe trouxe como dote a cidade de Gezar e ele depois afastou, quando percebeu que ela se mantinha fiel a Ísis, a Osíris, e menosprezava o seu absoluto e inquestionável Jeová. Casou-se ainda — como consta nessa vertigem de números que a história bíblica lhe reserva — com setecentas mulheres de alta linhagem e dispôs, para poder variar ainda mais numa tão grande variedade, de trezentas concubinas. Foi um audacioso e incansável construtor. São dele o primeiro grande templo de Jerusalém, o palácio do sumo-sacerdote, a Casa de Cedro, o Pórtico das Colunas, as muralhas da cidade, para citarmos o que ficou com destaque na sua memória histórica e como mais relevante nas suas imaginações arquitectónicas. O seu templo, o templo de Salomão iniciado no quarto ano do seu reinado e que demorou sete anos a construir, teve como

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principal objectivo oferecer um faustoso e seguro abrigo à Arca da Aliança que continha, afirma-se na Bíblia, as tábuas com os mandamentos dados por uma sarça ardente a Moisés no monte Sinai; e este espaço com enormes átrios e uma altivez de madeira e pedra que se destinava a espantar todo o Oriente, também deu origem a uma vertiginosa colecção de números: trinta mil serradores de madeira, setenta mil transportadores de cargas, oitenta mil pedreiros, três mil e trezentos chefes. Mas esta obra, que deveria ainda hoje espantar-nos, cerca de trezentos e quarenta anos depois da sua morte foi destruída por Nabucodonosor, rei da Babilónia que sitiou durante três anos a cidade. O templo assírio que Nabucodonosor construiu, foi por sua vez destruído para fazer nascer o templo de Herodes o Grande, esplendoroso também na sua arquitectura mas destruído, este pelos Romanos de Tito no ano 70 d.C. Depois de umas quantas restaurações e destruições feitas a esta suprema homenagem a Adonai, resta no monte Moriá um Muro das Lamentações onde hoje vemos semitas estáticos ou com implorativos movimentos de cabeça a honrarem e a pedirem ajuda, iluminação divina ou perdão para os seus pecados. Salomão reinou durante quarenta anos. E já entrava, dizem-nos contas por alto, na sua idade madura quando foi visitado por Balkis, a rainha de Sabá. Com esta rainha, a nebulosa histórica ainda mais espessa se mostra. Temos, para este encontro, palavras da Bíblia e do Corão que chegam para ignorarmos se o reino de Sabá está hoje ocupado pelo Iémen ou pela Etiópia; para nos surpreendermos com a dilatada cultura de uma mulher, numa época em que o sexo feminino era arredado de um saber considerado exclusiva aquisição dos homens.

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Balkis deslocou-se a Jerusalém, seguida por um pomposo séquito e camelos vergados com o peso de ofertas ao poderoso rei. Ia fazer de Esfinge; tentaria embaraçar a destreza de Salomão com enigmas que escapassem às malhas da sua cultura. E a mesquinhez deste propósito, posta ao lado do esforço e do incómodo que uma tal viagem exigiria, pode surpreender-nos se não lhe acrescentarmos outras intenções que a tradição de textos orientais lhe atribuem. A Bíblia e o Corão divergem nos pormenores da sua visita. A verdade histórica (se alguma existir neste episódio) prefere admitir que Balkis, seduzida pela fama da inteligência e da cultura de Salomão, se deslocou a Jerusalém com o propósito de dar um pai com grandes qualidades genéticas a um filho seu, futuro rei de Sabá. E poderia haver nesta estratégia de acasalamento outras motivações. O rei de Israel descendia de Adão e Eva, feitos a partir do barro pelo Eloin Jeová, a raça que mais poder tinha naquela extensão da terra. E Balkis pertencia a uma outra humanidade nascida do fogo, mais nobre neste elemento básico do corpo mas menos bem sucedida no poder terreno. A conjunção destas duas origens garantiria um mestiço com qualidades humanas ímpares e capazes de garantir uma inegável supremacia ao reino de Sabá. Gérard de Nerval, num dos seus momentos literários de ficção em prosa mais logrados, não permite nenhum êxito a esta heteróclita fusão genética; pede ajuda à imaginação livre dos contadores orientais de histórias para construir uma narrativa que concentra no discurso elementos de grande parte das tradições, sagradas e profanas, ligadas a este episódio. Fê-lo depois de uma viagem que incluiu Constantinopla, onde teria ocasião para se encantar e também desiludir com um Oriente posto a par do seu Oriente pessoal, soprado por ficções literárias, e que ele tinha mitificado com a esquisita lucidez do

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seu cérebro já visitado por uma crise de loucura. Temos um vislumbre desta decepção numa carta sua a Jules Janin: «O Oriente, em suma, não se aproxima do sonho acordado que há dois anos tive, ou então esse Oriente fica mais longe e mais alto do que isto.» E também ficamos a saber, pelos textos que esta viagem lhe inspirou, que a mais culpada em todo este mau Oriente era a Turquia, corruptora dos valores poéticos e mágicos que a civilização árabe tinha conquistado: «Temos de notar que esta espécie de obscurantismo em que o Oriente caiu desde há três séculos não resulta do princípio maometano mas, em especial, da influência turca. O génio árabe, que tinha coberto o mundo com maravilhas, foi sufocado sob estes dominadores estúpidos; os anjos do Islão perderam as suas asas, os génios de As Mil e uma Noites viram os seus talismãs quebrados; uma espécie de protestantismo árido e sombrio estendeu-se a todos os povos do Levante. O Corão, através da interpretação turca tornou-se no que era a Bíblia para os puritanos da Inglaterra, um meio de tudo nivelar. Desde aí, as artes, as letras e as ciências desapareceram; a poesia dos costumes e das crenças primitivas só deixaram aqui e além leves traços, e o Egipto foi aquele que ainda as conservou mais profundas.»

Gérard de Nerval nasceu em Paris no ano 1808, e aos quarenta e sete anos de idade foi encontrado morto por enforcamento numa trave da rua de La Vieille-Lanterne, mal afamada, diz-se, e hoje sem nenhum rasto na urbanização que rodeia a torre de Saint-Jacques; pendurou-se em coordenadas da cidade que pertencem agora a um qualquer recanto do teatro Sarah Bernhardt. Gérard de Nerval, na realidade Gérard Labrunie, inventou para si e para o público um Nerval de sílabas que bem se casam com

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o estado de nervos psicótico que o dominou e determinou nalguns momentos célebres da sua literatura. Órfão de mãe a partir dos dois anos de idade e com um pai médico militar obrigado a exigências profissionais que o impediam de olhar pelo seu filho, foi uma criança destituída desde a primeira infância de uma qualquer figura a que pudesse chamar materna ou paterna, e encontrou a sua tutela emocional num tio-avô que o fez herdeiro de trinta mil francos (recompensa do seu amor de quase-pai) — desbaratados, diga-se desde já, em folganças de dois anos num Paris vivido à larga e a pagar as páginas luxuosas da revista Le Monde Dramatique, inspiradora de gastos perdulários que as suas poucas vendas mal agradeceram. Mas até à plena vivência destes momentos, desde muito cedo mostrou que seria escritor. Não foi surpresa, para quem o sentia de perto, ver o seu nome impresso nas páginas de um jornalismo parisiense mais ou menos lateral, anunciado no sítio do autor em peças de teatro (que nunca entusiasmaram excessivamente o bulevar, mesmo nas duas vezes em que colaborou com Alexandre Dumas), e depois como autor de contos e novelas; tudo contra as insistências do seu pai (com quem tinha passado a viver depois de ele estar reformado) que em sonhos de médico velho se via profissionalmente prolongado por um filho e o forçou (por pouco tempo) a sentar-se e a afogar-se em tédios de corpo e alma nos frios e lustrosos bancos da Sorbonne. Gérard de Nerval gostava muito mais do convívio com intelectuais e dos salões que eles frequentavam. Era visto no círculo de Pétrus Borel, era íntimo de Théophile Gautier e Jules Janin, conversava com Victor Hugo e ouvia com atenção Baudelaire. E também sabia a par destas tertúlias apaixonar-se e ser nas paixões infeliz; por isso amou perdidamente a actriz Jenny Colon, casa-

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da, que lhe não deu nesse amor grandes êxitos — mas fez dela a futura Aurélia da novela publicada com este nome no título; por isso amou com fraca retribuição Sophie Darves, amazona fogosa que morreu numa cavalgada imprudente — e ele transformou na Sylvie que é uma das suas Filhas do Fogo. Em 1841 teve uma primeira crise de loucura. Começou a ver o que os outros não viam, a ouvir o que os outros não ouviam; foi forçado a sujeitar-se a um período de internamento numa clínica, e saiu de lá num estado de palavras que não mereceu muita confiança àqueles que o rodeavam. Os seus amigos olharam-no como um «incurável», e ele quis dar-lhes prova da sua sanidade mental fazendo uma viagem ao Oriente e extraindo dela matéria literária para um livro que o mostraria ao mundo em plena posse das suas capacidades intelectuais. Conseguiu, podemos com isto espantar-nos, de jornais e ao que parece de um editor, subsídios que o levaram ao Cairo, ao Líbano, à Síria e a Constantinopla. «Não sou doido», afirmava para estabelecer o que só era um especioso matiz, «tenho apenas teomanias». Numa carta desta época lamenta-se: «Quase todos […] estiveram de acordo em falar de mim como de uma espécie de profeta, de iluminado, com a razão perdida por me ter sujeitado na Alemanha a rituais de sociedades secretas e ter estudado os símbolos do Oriente. […] Desde aí os meus amigos […] continuam a chorar a minha razão perdida. […] E em vão falo, argumento, e até escrevo.» E numa outra, endereçada ao seu pai em Agosto de 1843: «Nem o mar, nem o calor, nem o deserto conseguiram interromper esta bela saúde que os meus amigos punham em causa antes da minha partida. Esta viagem servir-me-á sempre para demonstrar que fui há dois anos vítima de um acidente muito isolado. […] Faço esquecer a

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doença com uma viagem; instruí-me, cheguei mesmo a divertir-me, isto fez-me bem no que respeita ao estado da minha saúde.» As memórias orientais de Nerval preencheram um relato que em sete anos de trabalho acabou por ocupar várias centenas de páginas e veio a chamar-se Voyage en Orient. E o discurso ali oferecido, sempre a um passo do romance, percorreu realidades subtilmente transformadas pela imaginação ou pelos seus sonhos de poeta. Reconheceu-o ele próprio assim: «é a criação de um universo fechado e consumado que a si próprio se basta, mais verdadeiro do que a realidade quotidiana, mais vivo do que a vida, ainda que diferente dela.» Nas páginas desta volumosa obra intercala-se uma novela a que chamaremos Balkis; que assume um valor literário independente e nos é dada a conhecer através das palavras de um profissional contador de histórias. (Antes de ser publicada no extenso livro Voyage en Orient (1851), surgiu em 1850 nos números de Março a Maio da revista Le National.) Nerval pretende fazer-nos crer que a escutou ao longo de duas semanas de Ramadão num café de Constantinopla, e que assim soube da estranha relação entre Salomão e Balkis, construída e imaginada a partir de textos centrais e menos centrais das tradições cristãs e muçulmanas. A verdade é que Nerval estava longe de conhecer quanto bastava da língua turca para poder acompanhar a narrativa entregue ao público naquele café. Ainda bem. Porque a si próprio se instituiu como Xerazade; porque à volta de Salomão e Balkis, e ajudado pela sua febril imaginação de poeta, mergulhou numa mistura de situações impostas sobretudo pelo texto do Corão, mas também pelo da Bíblia e de outros escritos laterais — esses que o Oriente teceu no tempo em que se impunha como incansável contador de histórias. Envolveu-as ainda com a tradição que as liga aos mais antigos princípios da maçonaria, os que nasceram na Escócia e na Inglaterra no

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final do século XVI e no século XVII e se inspiraram em símbolos encontrados na organização hierárquica que se supôs ter existido durante a construção do primeiro templo de Jerusalém. Veremos por isso Adoniram (na Bíblia, Hiram), surgir nesta narrativa como o essencial inspirador de futuras hierarquias maçónicas. Gérard de Nerval viveu, depois desta incursão literária no Oriente, cerca de dez anos de uma relativa tranquilidade psicológica, a que lhe consentiu Les Illuminés (1852), Petits Châteaux de Bohème (1853), Les Filles du feu e as poesias de Les Chimères (ambas de 1854). Aurélia (1855), a novela que os Surrealistas tão encarecidamente elegeram como descida lúcida aos mundos do sonho e da loucura, foi escrita durante o período da sua segunda grande crise e poderá dizer-se que num auge de perturbação esquizofrénica. Este Gérard de Nerval, que se entregava pela segunda vez a inadmissíveis comportamentos e a estados de alma incompatíveis com o que lhe era exigido por uma vida autónoma, esteve de novo internado em casas de saúde especializadas no tratamento de doenças mentais. E quando foi, no dia 19 de Outubro de 1854, devolvido à sua plena liberdade de cidadão, era um escritor que só imaginava histórias estranhas, envoltas por esquisitas penumbras pouco apreciadas pelo público, rodeado por uma desconfiança que poucas ou nenhumas condições lhe dava para ser aceite num qualquer trabalho regular de jornalista, para poder aspirar a sustentar-se, mesmo que numa vida reduzida ao essencial. Até meados de Janeiro foi hóspede de um hotel com instalações que hoje recusariam a veleidade da atribuição de uma simples estrela na escala classificativa, e daí despejado por acumulação de um mês de dívidas. Começaram assim os seus dias de parisiense sem-abrigo; de fome, de noites passadas ao relento ou em prisões

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que recolhiam o grupo de suspeitos das rusgas policiais; de olhares de soslaio e encontros ostensivamente evitados por velhos amigos. Curiosamente, estes seus últimos dias de vida foram dominados por uma obsessão que tinha como centro a rainha de Sabá, regressada com intensidade às suas elucubrações místicas e poéticas, que o revisitava chegada de distantes dias, os da sua primeira novela. E temos para isto um testemunho do jornalista Edmond Texier publicado no jornal Le Siècle no final de 1883: «Quando eu encontrava o Gérard, ele falava-me quase sempre de uma casa dessa velha e abominável rua de La Vieille-Lanterne, onde costumava estar pendurada numa parede uma grande gaiola com um corvo a grasnar. Ah! Esse corvo! Não lhe saía do pensamento. Esta ave fúnebre talvez se enquadrasse nas suas combinações mitológicas e cabalísticas, porque não muitos dias passavam sem que o Gérard fosse vê-la. Dizia-me confidencialmente que o referido corvo pertencera à rainha de Sabá e direi aqui, entre parêntesis, que até me mostrou o diadema que tinha pertencido a essa rainha.» Foi este Gérard de Nerval ameaçado pela fome, com a indiferença dos seus amigos, num pleno vazio de sentimentos de amizade, frequentado por «teomanias» cada vez mais persistentes, pela realidade fictícia das suas próprias invenções, que na muito fria noite de 25 para 26 de Janeiro de 1855 se dirigiu à rua de La Vieille-Lanterne e bateu tardiamente à porta de uma casa de passe para pedir abrigo. A sua gerente, já desembaraçada dos últimos clientes, já com as suas pupilas a dormir, recusou-se a atendê-lo. Nerval seguiu então o conselho supremo do seu desespero. Havia ali a dois passos a convidativa trave horizontal de um gradeamento, à frente da parede onde costumava grasnar «o corvo da rainha de Sabá». Com um pedaço de corda que trazia no bolso, enforcou-se.

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O local do enforcamento de GÊrard de Nerval, segundo um desenho de Victorien Sardou (o autor da peça teatral La Tosca).

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A morte de Nerval numa gravura de Gustave DorĂŠ.

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Houve a tentação, da parte de alguns dos seus conhecidos picados na consciência por uma ponta de culpabilidade, de complicarem romanticamente esta morte com um assassínio executado por uma qualquer sociedade secreta que se sentia incomodada pelas revelações que transpareciam nos seus alucinados discursos. Mas a polícia judiciária francesa afastou, depois das suas investigações, esta hipótese. No dia 30 de Janeiro de 1885 pôde ser realizado o seu enterro para um cemitério de Paris, o Père-Lachaise, onde os seus restos suportam hoje o peso daquela coluna que olha de frente para o túmulo de Balzac. O Nerval morto, e já não incómodo, voltou a ter amigos que o acompanharam no seu cortejo fúnebre. «Eu sou o Tenebroso — o Viúvo — o Inconsolado…», tinha ele escrito muitos anos antes, quando se viu em versos como El Desdichado; «a minha única Estrela morreu — e o meu alaúde constelado transporta o Sol Negro da Melancolia…» A.F.

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uma lenda num café

Não seria dada mais do que uma pálida ideia dos prazeres de Constantinopla durante o Ramadão e dos principais encantos das suas noites, se passássemos em silêncio os maravilhosos contos recitados ou declamados pelos contadores de histórias profissionais, ligados aos principais cafés de Istambul. Traduzir uma dessas lendas é completar ao mesmo tempo as ideias que devemos fazer de uma literatura sábia e também popular, que enquadra espiritualmente as tradições e as lendas religiosas consideradas sob o ponto de vista do islamismo. Aos olhos dos persas, que me tinham tomado sob protecção, eu passava por um taleb (erudito), e por causa disso me levaram a cafés situados atrás da mesquita de Bayezid, onde outrora se reuniam os fumadores de ópio. Hoje este consumo está proibido; mas os negociantes estrangeiros da Turquia têm o hábito de frequentar esse lugar afastado do tumulto dos quarteirões do centro. Sentamo-nos, mandamos vir um narguilé ou um chibuque, e escutamos as narrativas que se prolongam o mais possível, como as dos nossos folhetins actuais. Isto interessa ao dono do café e ao narrador. Embora eu tenha começado a estudar desde muito novo as línguas do Oriente, delas conheço apenas as mais indispensáveis palavras; apesar disso, a animação da narrativa interes-

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sava-me sempre, e com a ajuda dos meus amigos do caravansará eu conseguia compreender, pelo menos, o seu tema. Posso portanto transmitir com aproximação bastante o efeito de um desses imaginativos relatos onde o tradicional génio dos Orientais se compraz. É necessário dizer que o café onde nos encontrávamos estava situado nos quarteirões operários de Istambul, próximos dos bazares. Nas ruas que o rodeavam havia oficinas de fundidores, cinzeladores, gravadores que fabricavam ou reparavam as ricas armas expostas no Besestão, e também dos que trabalhavam em utensílios de ferro e cobre; outras profissões diferentes estavam ali ligadas às múltiplas mercadorias expostas nas numerosas divisões do grande bazar. Por este motivo, a assembleia teria parecido um tanto vulgar a homens da nossa alta sociedade. Mas aqui e além, nos bancos e nos estrados, ainda assim se vislumbravam uns quantos trajos cuidados. O contador de histórias que íamos ouvir era famoso, ao que parecia. Para além dos frequentadores do café, uma grande porção de ouvintes concentrava-se no exterior. Foi pedido que fizéssemos silêncio; e um jovem com rosto pálido, feições muito regulares, olhar cintilante, compridos cabelos que fugiam por baixo de um boné igual ao dos monges tibetanos, com feitio diferente do que vemos nos tarbuques ou nos fezzi, veio sentar-se num tamborete que estava num espaço de quatro ou cinco pés, rodeado pelos bancos. Trouxeram-lhe café, e todos o escutaram religiosamente porque era sabido que todas as partes da narrativa, de acordo com o costume, demorariam cerca de meia-hora. Os contadores de histórias profissionais

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não são poetas mas, por assim dizer, rapsodos; compõem e desenvolvem um tema já tratado de diversas formas ou baseado em antigas lendas. E é assim vista a renovação, com mil acrescentos ou alterações, das aventuras de Antar, de Abu-Zeid ou de Medjnum. Daquela vez tratava-se de um romance destinado a pintar a glória dessas antigas associações operárias que nasceram no Oriente. — Louvemos Deus — disse ele — e o seu favorito Ahmad com olhos negros de tão suave brilho! É ele o único apóstolo da verdade. Todos gritaram: Amin! (Assim seja!)

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índice

Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Uma lenda num café . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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História da rainha da manhã e de Salomão, Príncipe de Génio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . i. Adoniram. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ii. Balkis. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . iii. O templo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . iv. Milo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . v. O mar de bronze . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . vi. A aparição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . vii. O mundo subterrâneo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . viii. O lavadouro de Siloé . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ix. Os três companheiros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . x. O encontro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . xi. A ceia do rei . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . xii. Macbénach . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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