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Francisco Tropa, O Bigode Escondido na Barba

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OBI GODE ESC OND IDO NAB ARBA


Francisco Tropa O BIGODE ESCONDIDO NA BARBA [LA MOUSTACHE CACHÉE DANS LA BARBE / THE MOUSTACHE HIDDEN IN THE BEARD] obras [œuvres / plates]

6-9

Secção de tronco de sobreiro com insectos xilófagos [Morceau de tronc de chêne-liège avec insectes xylophages / Cross section of cork oak trunk with xylophagous insects], 1991-2017, 20 x 120 x 20 cm

13-14

Papel [papier / paper], 1989, 50 x 70 cm, frente e verso [recto verso / front and back ]

15-16

Papel [papier / paper], 1989, 24 x 34 cm, frente e verso [recto verso / front and back ]

19-20

Papel [papier / paper], 1989, 48 x 63 cm, frente e verso [recto verso / front and back ]

23-24

Papel [papier / paper], 1989, 45 x 68,5 cm, frente e verso [recto verso / front and back ]

27-28

Papel com emulsão de óleo de linho [papier avec émulsion d’huile de lin / paper with linseed oil emulsion], 1991, 50 x 65 cm, frente e verso [recto verso / front and back ]

32-33

Assembleia de Euclides (Ciclista), 2005, guache sobre papel [gouache sur papier / gouache on paper ], 100 x 70 cm, e desenho realizado simultaneamente pela minha filha Alice [et dessin simultanément réalisé par ma fille Alice / and picture drawn simultaneously by my daughter Alice], 2005, guache sobre papel [gouache sur papier / gouache on paper], 50,5 x 61 cm

35

Desenho realizado em conjunto com a minha filha Alice [dessin réalisé conjointement avec ma fille Alice / picture drawn with my daughter Alice], 2005, aguarela sobre papel [aquarelle sur papier / watercolour on paper], 100 x 70 cm

38-39

Assembleia de Euclides (O ciclista entra na tenda – dia), 2007, aguarela sobre papel [aquarelle sur papier / watercolour on paper], 100 x 70 cm

40-41

Assembleia de Euclides (O ciclista entra na tenda – noite), 2007, impressão fotográfica a jacto de tinta sobre papel [impression photographique au jet d’encre sur papier / photographic inkjet print on paper ], 44 x 57 cm

45

Máscara, 2005, argila sobre papel [argile sur papier / clay on paper], 50 x 65 cm

47

Assembleia de Euclides (O transe do ciclista), 2007, aguarela sobre papel [aquarelle sur papier / watercolour on paper], 100 x 70 cm, colecção privada [colection privée / private collection], Paris

49-50

Gruta, 2006, aguarela sobre papel [aquarelle sur papier / watercolour on paper], 100 x 70 cm, frente e verso [recto verso / front and back ]

55

1 — figura, 2006, tinta-da-china sobre papel [encre de chine sur papier / India ink on paper], 57 x 76 cm 2

57-58

1 — figura, 2007, aguarela sobre papel [aquarelle sur papier / watercolour on paper], 100 x 70 cm, frente e verso 2

[recto verso / front and back ] 61

Desenho fragmento de desenho, 2007, aguarela e lápis sobre papel [aquarelle et crayon sur papier / watercolour and pencil on paper], 21 x 17 cm

63-64

Placa apanha moscas retirada de uma oliveira em Jerusalém [plaque attrape-mouches prise sur un olivier à Jérusalem / fly-trap taken from a olive tree in Jerusalem ], 1995, 22,5 x 14 cm

67-68

?, 2017, torneira em latão, balde em plástico, bomba de água [robinet en laiton, sceau en plastique, pompe à eau / brass tap, plastic bucket, water-pump], 120 x 30 x 30 cm


Este livro foi publicado por ocasião da exposição O Bigode Escondido na Barba, de Francisco Tropa, realizada na Fundação Carmona e Costa, com curadoria de Filipa Oliveira, entre 08-04-2017 e 27-05-2017 Ce livre a été publié à l’occasion de l’exposition La moustache cachée dans la barbe, de Francisco Tropa, réalisée à la Fondation Carmona e Costa, commissariat de Filipa Oliveira, du 08-04-2017 au 27-05-2017 This book was published on the occasion of Francisco Tropa’s exhibition The Moustache Hidden in the Beard, at Carmona e Costa Foundation, curated by Filipa Oliveira, from 08-04-2017 to 27-05-2017

© Fundação Carmona e Costa, 2017 © Sistema Solar, Crl (Documenta) imagens [images / plates] © Francisco Tropa texto (folheto) [texte (dépliant) / text (booklet)] © Filipa Oliveira Publicado em Abril 2017 [publié en Avril 2017 / published in April 2017 ] ISBN 978-989-8834-62-1 Coordenação de produção [coordination de la production / production coordination ] Traduções [traductions / translations ] Fotografia [photographie / photography ] Desenho técnico (folheto) [dessin technique (dépliant) / technical drawing (booklet)] Design gráfico [design graphique / graphic design ] Revisão [révision / proofreading ]

Pedro Valdez / fcc Isabel Lopes Cardoso (FR) José Gabriel Flores (EN) Teresa Santos e Pedro Tropa André Maranha Manuel Rosa António d’Andrade

Depósito legal [dépôt légal / legal depot ] 424015/17 Impressão [impression / printing ] Gráfica Maiadouro, SA Rua Padre Luís Campos, 586 e 686 – Vermoim 4471-909 Maia Portugal


OBI GODE ESC OND IDO NAB ARBA


Barba e Bigode Esta exposição de Francisco Tropa constitui-se como o momento inaugural de um novo conjunto de trabalhos. Tropa tem vindo a criar complexas constelações de pensamentos e de objectos como L’Orage, A Assembleia de Euclides ou Tesouros Submersos do Antigo Egipto. O Bigode Escondido na Barba é o novo momento na construção desta mitografia pessoal e tem como preocupação central a forma como, na actualidade, nos relacionamos com as imagens em geral, e as obras de arte em particular. E como o ritmo de produção e consumo de imagens interfere com a nossa percepção da realidade. Sempre fui fascinada pelas imagens em que duas figuras se misturam numa só e temos de descobrir cada uma. Fascina-me o facto de ao focar uma figura, essa ser sempre aquela que vejo primeiro. Fascina-me o meu olhar estar involuntariamente viciado. Vejo sempre a jovem mulher a olhar para trás e não o semblante de uma senhora idosa; vejo sempre as duas caras negras em vez do vaso branco; e sempre o coelho antes do pato. Estes jogos perceptivos foram utilizados nos estudos da Psicologia da Gestalt, os quais relacionavam a forma com a sua percepção. Afirmavam os pesquisadores desta corrente teórica que aos estímulos visuais cada individuo irá responder de forma diferente consoante a sua personalidade, experiências e expectativas. Ou seja, o nosso contexto pessoal influencia e determina as nossas escolhas visuais, a nossa percepção e consciência do mundo. É nessa barba, nesse sistema visual formado em torno da linguagem (mas que não é linguagem), que tomamos decisões sobre o que vemos ou não, inundados por uma incessante multitude de imagens onde se encontra escondida a arte. Esta exposição começou com uma colecção de pequenos anúncios de venda de automóveis. Anúncios que habitualmente são colocados nos pára-brisas, e que na maior parte das vezes passam despercebidos, invisíveis, e que com facilidade são descartados. Francisco Tropa foi recolhendo-os, interessado nessa produção imagética anónima e aleatória. Seleccionou um conjunto de vinte e cinco anúncios diferentes e transformou-os em imagens serigrafadas de grandes dimensões. Essas apoderam-se das paredes da Fundação Carmona e Costa. E entre elas escondem-se outras obras de Tropa, mais delicadas, mais contidas, e que solicitam uma atenção diferente. Elas obrigam o espectador a um sentido especial, exigem-lhe outro tempo, necessitam de selecção, e reclamam um outro estado de consciência e de alerta.


O Que Está Escondido Apesar de esta exposição não ser uma retrospectiva, nem a montagem adoptar uma orientação cronológica, a sala de entrada apresenta obras da primeira individual de Tropa na Galeria Monumental em 1991, obras que continham em si o que viria a ser o espírito deste novo trabalho. Um tronco de sobreiro infestado de insectos xilófagos. Uma matéria-prima na qual uma força exterior ao artista exerce uma acção de transformação lenta e só visível com o decorrer do tempo. O propósito inicial desta obra tinha sido o de marcar o perfil do tronco de madeira para criar no chão uma linha de pó trazido pelo vento. Agora a madeira é cada vez mais pó. Esta transfiguração natural acabará, num futuro imprevisível, por destruir o próprio objecto, ou por transformá-lo irremediavelmente no seu desígnio primeiro. O mesmo se pode dizer do conjunto de papéis que na exposição acompanham o tronco. Desde cedo que Tropa colecciona folhas de papel. Sobre elas nada faz, conserva-as apenas, e espera que o tempo se encarregue de as trabalhar: de lhes dar cores diferentes, de neles criar manchas ou pequenos orifícios. A espera é uma parte relevante do seu processo de trabalho, processo dinâmico em que forças físicas reais vão exercendo o seu poder. Ser no tempo e com o tempo. Esta poética da espera encontra-se também presente na placa apanha-moscas que Tropa retirou de uma oliveira em Jerusalém. Obras que vivem a experiência da espera e escondem em si a sua metamorfose, e, em última instância, a sua própria destruição ou a possibilidade de uma nova «vida» sob outra forma. Um outro conjunto significativo da exposição é retomado da obra A Assembleia de Euclides, e em particular a personagem do ciclista que aqui ganha nova leitura e novo significado. Nesta assembleia existe uma «máquina de decapitar» que separa a cabeça do corpo do ciclista. Posteriormente cada entidade irá exercer actividades separadas. Nesta exposição surge apenas a personagem acéfala que dança, e que, enquanto dança, traça o desenho da sua passagem. Desenha desenhos cegos, partituras da sua deslocação no espaço e no tempo. Frequentemente colocada no chão, a folha de papel transforma-se num palco onde uma acção tem lugar. A figura dança e regista o seu próprio movimento. O corpo transforma-se em energia cujo vestígio visual encontramos no papel. Concreto, imediato e espontâneo, este desenho-dança incorpora um ser e um estar. Enquanto o ciclista dança, a filha do ciclista imita-o. Dois conjuntos de desenhos apresentam esta relação de co-dependência e de reprodução dos movimentos. Tentativa de duplicação da acção do ciclista, desenhar através do desenho. Uma transferência que estimula uma resposta física. A relação entre a infância do gesto, o gesto irreflectido e o gesto mimético.


Este ciclista em movimento aparece retratado também num díptico constituído por um desenho e uma fotografia desse desenho: Assembleia de Euclides (o ciclista entra na tenda – dia) e Assembleia de Euclides (o ciclista entra na tenda – noite). O dispositivo central da obra A Assembleia de Euclides havia sido construído à semelhança de um estúdio de fotografia do início do século XX. A captação da imagem pelo processo fotográfico é aqui utilizada pelo artista como simples analogia do próprio processo criativo. Os momentos tecnicamente distintos que este implica remetem para as diferentes fases de construção do objecto artístico, metáfora derrisória do papel do artista como ser mediador entre o mundo da luz e o mundo das sombras. O desenho Gruta, apresentado em conjunto com este díptico, reforça a presença desta passagem alegórica, antigo simulacro da realidade. Os pés e as mãos dançantes do ciclista fazem ainda um outro desenho, este de barro executado no espaço. Primeiro tinha aparecido a máscara feita de barro, e depois a parede do espaço expositivo transforma-se em suporte da acção do ciclista-bailarino. Uma dança concreta, uma força de contacto que confere ao corpo ausente do ciclista uma existência fantasmagórica. O desenho na parede apresenta-se quase como uma incisão arqueológica de um conjunto de movimentos que atestam uma irrefutável presença física da figura. No interior da caverna a pintura repete as mesmas formas ancestrais e fundadoras. Na última sala, ? encerra a exposição. De uma torneira em latão corre água para um balde no chão. Esta obra funciona como contraponto à obra que abre a exposição, operando as duas em aparente simetria. Um tronco é desfeito lentamente e uma linha de água cai ininterrupta. Ambas apresentam um movimento constante que o olhar não consegue apreender: o primeiro demasiado lento e o segundo demasiado rápido. Na constelação de obras, e das suas experiências, que esta exposição exibe, ensaia-se um espaço radicalmente novo, quer para o trabalho de Francisco Tropa, quer para as categorias que este desafia. Filipa Oliveira


Barbe et moustache L’exposition de Francisco Tropa inaugure un nouvel ensemble de travaux. L’artiste a jusqu’ici créé de complexes constellations de pensées et d’objets comme L’Orage, A Assembleia de Euclides [L’Assemblée d’Euclide] ou Tesouros Submersos do Antigo Egipto [Trésors Submergés de l’Ancienne Egypte]. O Bigode Escondido na Barba [La Moustache cachée dans la Barbe] marque un moment nouveau dans la construction de la mythographie personnelle de l’artiste et questionne notre rapport actuel aux images, en général, et aux œuvres d’art, en particulier. Elle explore aussi la manière dont le rythme de la production et de la consommation d’images interfère avec notre perception de la réalité. J’ai toujours été fascinée par les images dans lesquelles deux figures se mélangent pour former une seule, où il faut découvrir chacune d’elles. Je suis fascinée par le fait de toujours voir en premier l’image sur laquelle je me suis focalisée. Je suis fascinée par le constat que mon regard est involontairement vicié. Je vois toujours la jeune femme qui regarde en arrière, et non pas le visage de la femme âgée ; je vois toujours les deux visages noirs, à la place du vase blanc ; et toujours le lapin avant le canard. Ces jeux de perception furent utilisés dans les études de la psychologie de la Gestalt, qui mettent en rapport la forme et sa perception. D’après les chercheurs de ce courant théorique, chaque individu répond différemment aux stimuli visuels, et ce en fonction de sa personnalité, de ses expériences et de ses attentes. Autrement dit, notre contexte personnel influence et détermine nos choix visuels, notre perception et notre conscience du monde. Inondés par un flot incessant d’images dans lequel l’art se cache, c’est dans cette barbe ou système visuel formé autour du langage (mais qui n’est pas du langage) que nous prenons des décisions sur ce que nous voyons ou pas. Cette exposition a commencé bien avant, avec la collecte de petites annonces de vente de voitures. Habituellement placées sur les pare-brises, ces annonces passent presque toujours inaperçues, sont invisibles et facilement écartées. Intéressé par la production anonyme et aléatoire de ce type d’images, Francisco Tropa les a collectionnées. Il en a sélectionné vingt-cinq, toutes différentes, et les a transformées en images sérigraphiées de grandes dimensions qui ont pris possession des murs de la Fondation Carmona e Costa. Parmi ces pièces, se cachent d’autres œuvres de Tropa, plus délicates, plus contenues, qui requièrent une attention différente. Elles obligent le spectateur à un sens particulier, lui exigent un temps autre, nécessitent une sélection et réclament un autre état de conscience et d’alerte.


Ce qui est caché Bien que l’exposition ne constitue pas une rétrospective et que le montage n’adopte pas une orientation chronologique, la salle d’entrée présente des œuvres de la première exposition individuelle de Tropa réalisée à Galeria Monumental, en 1991. Ces œuvres contenaient déjà l’esprit qui se révèle dans ce nouveau travail. Un tronc de chêne-liège infesté d’insectes xylophages. Une matière première sur laquelle une force extérieure à l’artiste exerce une action de transformation lente, seulement visible au fil du temps. Le propos initial était de marquer le profil du tronc afin de créer sur le sol une ligne de poussière amenée par le vent. Progressivement, le bois s’est réduit en poussière. Dans un avenir imprévisible, cette transfiguration naturelle finira par détruire l’objet ou par le transformer irrémédiablement, suivant son dessein premier. On peut en dire autant des papiers qui accompagnent le tronc. Cela fait longtemps que Tropa collectionne des feuilles de papier. Il ne les travaille pas, il ne fait que les conserver et attend que le temps se charge de les labourer : de leur conférer différentes couleurs, de créer des tâches ou de petits orifices. L’attente constitue une partie importante du processus de travail de l’artiste, un processus dynamique au cours duquel des forces physiques réelles exercent progressivement leur pouvoir. Être dans le temps et avec le temps. On retrouve cette poétique de l’attente également dans la plaque attrape-mouches que Tropa a pris sur un olivier à Jérusalem. Ses œuvres vivent l’expérience de l’attente, cachent en elles leur métamorphose et, au bout du compte, leur propre destruction ou la possibilité d’une nouvelle « vie », sous une autre forme. Un autre ensemble de pièces de l’exposition renvoie à l’œuvre A Assembleia de Euclides [L’Assemblée d’Euclide], notamment le personnage du cycliste qui gagne ici une nouvelle lecture et une nouvelle signification. Dans l’Assemblée, il existe une « machine à décapiter » qui sépare la tête du corps du cycliste. Après coup, chacune de ces entités exerce des activités séparées. L’exposition reprend uniquement le personnage acéphale qui danse et trace la ligne de son passage pendant qu’il danse. Il dessine des dessins aveugles, des partitions de son déplacement dans l’espace et dans le temps. Souvent placé à même le sol, le papier se transforme alors en une scène où se déroule l’action. La figure danse et enregistre son propre mouvement. Le corps se transforme en énergie et c’est cette trace que l’on retrouve sur le papier. Concret, immédiat et spontané, ce dessin-danse incorpore un être et un être-là. Pendant que le cycliste danse, la fille du cycliste l’imite. Deux ensembles de dessins évoquent cette relation de co-dépendance et de reproduction des mouvements. Tentative de duplication de l’action du cycliste. Dessiner à travers le dessin. Un transfert qui stimule une réponse physique. La relation entre l’enfance du geste, le geste irréfléchi et le geste mimétique.


Ce cycliste en mouvement apparaît également dans un diptyque constitué par un dessin et une photographie de ce dessin : Assembleia de Euclides (o ciclista entra na tenda – dia) [Assemblée d’Euclide (le cycliste entre dans la tente – jour)] et Assembleia de Euclides (o ciclista entra na tenda – noite) [Assemblée d’Euclide (le cycliste entre dans la tente – nuit)]. Le dispositif central de L’Assemblée d’Euclide était construit à l’image d’un studio de photographie du début du 20ème siècle. Dans l’exposition, la captation de l’image par le processus photographique est utilisée par l’artiste comme simple analogie du processus créateur. Les mouvements techniquement distincts que celui-ci implique renvoient aux différentes phases de la construction de l’objet artistique, métaphore dérisoire du rôle de l’artiste comme médiateur entre le monde de la lumière et le monde de l’ombre. Le dessin Gruta [Grotte], présenté avec le diptyque, renforce la présence de ce passage allégorique, ancien simulacre de la réalité. Les pieds et les mains dansants du cycliste réalisent encore un autre dessin, qui cette fois-ci est exécuté dans l’espace avec de l’argile. Il y a d’abord le masque fait d’argile. Ensuite, le mur de l’espace d’exposition se transforme en support de l’action du cycliste-danseur. Une danse concrète, une force de contact qui confère au corps absent du cycliste une existence fantasmagorique. Sur le mur, le dessin se présente presque comme une incision archéologique d’un ensemble de mouvements attestant l’irréfutable présence physique de la figure. A l’intérieur de la caverne, la peinture répète les mêmes formes ancestrales et fondatrices. ? clôt l’exposition. De l’eau coule d’un robinet en laiton et tombe dans un sceau par terre. Cette œuvre fonctionne comme contrepoint à celle qui ouvre l’exposition. Les deux opèrent en apparente symétrie. Un tronc se défait lentement et une ligne d’eau tombe ininterrompue. Toutes deux présentent un mouvement que le regard ne parvient pas à apprèhender, parce que trop lent dans la première et trop rapide dans l’autre. À travers la constellation des œuvres et de leurs expériences exhibées, cette exposition teste un espace radicalement nouveau, tant pour le travail de Francisco Tropa que pour les catégories qu’il défie. Filipa Oliveira


Beard and Moustache This exhibition by Francisco Tropa is marked by the unveiling of a new group of works. Over time, Tropa has created complex constellations of thoughts and objects like L’Orage [The Storm ], A Assembleia de Euclides [Euclides’ Assembly ] or Tesouros Submersos do Antigo Egipto [Submerged Treasures from Ancient Egypt ]. O Bigode Escondido na Barba [The Moustache Hidden in the Beard] is the new step in the construction of this personal mythography. Its main concern is how we, in the present time, relate to images in general, and to works of art in particular, and also how the rate at which images are produced and consumed interferes with our perception of reality. I have always been fascinated by those pictures in which two figures are mixed into one and viewers are supposed to discover them both. I am fascinated by the fact that once I recognise one figure, that figure is henceforth always the first I see. I am fascinated by the fact that my gaze is involuntarily vitiated. I always see the young woman looking back instead of an old lady’s visage; I always see the two black faces instead of the white vase; and I always see the rabbit before the duck. These perceptual games were used in Gestalt Psychology studies, which related a shape with its perception. Researchers belonging to this theoretical current stated that each individual will react differently to visual stimuli, according to their personality, life experiences and expectations. In other words, our personal context influences and determines our visual choices, our perception and awareness of the world. It is inside that beard, that visual system that forms around language (but which is not a language), that we decide what we see or not, while being flooded by a ceaseless multitude of images where art lies concealed. This exhibition began with a collection of small leaflets for used-car businesses. These leaflets are usually placed on cars’ wind-shields, and most of the time go unnoticed, invisible and easily discarded. Francisco Tropa collected them, finding the random, anonymous nature of these images interesting. Then, he selected a group of 25 different leaflets, which he turned into large silkscreened pictures that take possession of the Carmona e Costa Foundation’s walls. Among them hide other pieces by Tropa: these are more delicate, more discreet, worthy of a different sort of attention. They force viewers to pay special attention, demand from them a different duration, call for their discernment and for a different awareness and alertness.


What is Concealed Even though this exhibition is not a retrospective and is not organised in chronological order, the entrance room contains pieces from Tropa’s first solo show at Galeria Monumental, in 1991, pieces that already contained the spirit that would characterise this new work. A cork oak trunk infested with xylophagous insects. A piece of raw material in which a force independent from the artist carries out an action of slow transformation that can only become visible with the passing of time. The original purpose of this piece had been to delineate the contour of the wood trunk on the floor, creating there a line of wind-blown dust. Now, the wood is increasingly becoming dust. This natural transfiguration will end up, in some unpredictable future, destroying the object itself, or irremediably turning it into its original purpose. The same can be said of the paper pieces that accompany the trunk here. From very early on, Tropa has been collecting sheets of paper. He does nothing with them, he just keeps them and waits for time to work on them: to give them new colours, mark them with spots or tiny holes. Waiting is an important part of his working process, a dynamic process in which real physical forces slowly exert their power. To be in time, and with time. This poetics of waiting is also present in the fly-trap Tropa took from an olive-tree in Jerusalem. These are works that live the experience of waiting and conceal in themselves their metamorphosis and, finally, their own destruction or the possibility of a new “life” under a different form. Another important set in the exhibition is taken from A Assembleia de Euclides [Euclid’s Assembly ], namely the cyclist character, which here undergoes a new reading and thus gains a new meaning. This assembly includes a “decapitation machine” that separates the cyclist’s head from his body. Then, each separate entity performs various activities on its own. In this exhibition, only the headless figure that dances is present, and while it dances it draws its itinerary. It draws blind drawings, marking its passage through space and time. Usually laid on the floor, the paper becomes a stage on which an action takes place. The figure dances and records its own movement. The body becomes energy, whose visual traces we find on the paper. Concrete, immediate and spontaneous, this dance-drawing incorporates a being and its place. While the cyclist dances, the cyclist’s daughter imitates him. Two sets of drawings present this relationship, characterised by co-dependency and the reproduction of gestures. An attempt to duplicate the cyclist’s action: drawing through drawing. A transference that triggers a physical response. The relationship between the childhood gesture, the thoughtless gesture and the mimetic gesture.


This cyclist in motion is also represented in a diptych that consists of a drawing and a photograph of that drawing: Assembleia de Euclides (o ciclista entra na tenda – dia) [Euclid’s Assembly (the cyclist enters the tent – day) ] and Assembleia de Euclides (o ciclista entra na tenda – noite) [Euclid’s Assembly (the cyclist enters the tent – night)]. The main element of Euclid’s Assembly resembles a photo studio from the early 1900s. The capture of the image through the photographic process is used here by the artist as a simple analogy for the creative process. The distinct technical phases it implies echo the various construction phases of the artistic object, in a derisory metaphor of the role of the artist as mediator between the world of light and the world of shadows. Gruta [Cave], a drawing shown together with this diptych, further underscores the presence of this allegorical passage, this ancient simulacrum of reality. The cyclist’s dancing hands and feet create another drawing, this one in clay and made on the space. First, there was the mask, made of clay, and now the wall of the exhibition room becomes a support for the action of the dancer-cyclist. A concrete dance, a force of contact that lends a ghostly existence to the cyclist’s absent body. The drawing on the wall presents itself almost like the archaeological incision of a set of movements that testify to the figure’s irrefutable physical presence. The painting inside the cave repeats the same ancestral, founding forms. In the last room, ? brings the exhibition to a close. Out of a brass tap, water runs into a bucket on the floor. This piece acts as a counterpoint to the one that opens the exhibition; the two operate in apparent symmetry. A trunk slowly crumbles away and a trickle of water flows unbroken. Both of them display a constant movement that the eye cannot apprehend: one, too slow; the other, too fast. The constellation of works, and their experiences, presented in this exhibition is a rehearsal for a radically new space, both in terms of Francisco Tropa’s work and of the categories that it challenges. Filipa Oliveira


Este folheto acompanha o livro publicado por ocasião da exposição O Bigode Escondido na Barba, de Francisco Tropa, realizada na Fundação Carmona e Costa, com curadoria de Filipa Oliveira, entre 08-04-2017 e 27-05-2017 Ce dépliant accompagne le livre publié à l’occasion de l’exposition La moustache cachée dans la barbe, de Francisco Tropa, réalisée à la Fondation Carmona e Costa, commissariat de Filipa Oliveira, du 08-04-2017 au 27-05-2017 This booklet accompanies the book published on the occasion of Francisco Tropa’s exhibition The Moustache Hidden in the Beard, at Carmona e Costa Foundation, curated by Filipa Oliveira, from 08-04-2017 to 27-05-2017

© Fundação Carmona e Costa, 2017 © Sistema Solar, Crl (Documenta) imagens [images / plates] © Francisco Tropa texto (folheto) [texte (dépliant) / text (booklet)] © Filipa Oliveira Publicado em Abril 2017 [publié en Avril 2017 / published in April 2017 ] ISBN 978-989-8834-62-1 Coordenação de produção [coordination de la production / production coordination ] Traduções [traductions / translations ] Fotografia [photographie / photography ] Desenho técnico (folheto) [dessin technique (dépliant) / technical drawing (booklet)] Design gráfico [design graphique / graphic design ] Revisão [révision / proofreading ]

Pedro Valdez / fcc Isabel Lopes Cardoso (FR) José Gabriel Flores (EN) Teresa Santos e Pedro Tropa André Maranha Manuel Rosa António d’Andrade

Depósito legal [dépôt légal / legal depot ] 424015/17 Impressão [impression / printing ] Gráfica Maiadouro, SA Rua Padre Luís Campos, 586 e 686 – Vermoim 4471-909 Maia Portugal


D O C U M E N TA FUNDAÇÃO CARMONA E COSTA


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