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Ramón del Valle-Inclán
TIRano BandeRas novela de Terra Quente
tradução e apresentação
Aníbal Fernandes
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TÍTULO DO ORIGINAL: Tirano Banderas — novela de Tierra CalienTe
© SISTEMA SOLAR, CRL (2019) RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: GUILHERME GERALDES, desenHo (2019) REVISÃO: DIOGO FERREIRA 1.ª EDIÇÃO, MAIO 2019 ISBN 978-989-8833-39-6 ————— DEPÓSITO LEGAL 456279/19 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA EUROPRESS RUA JOÃO SARAIVA, 10 A 1700-249 LISBOA PORTUGAL
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era galego; nascido, segundo dados biográficos mais seguros, em 1866 na velha casa «el Cantillo» de villanueva de arosa (embora costumasse afirmar, com imaginação à solta, que tinha nascido num barco). e chamava-se ramón José simón del valle y Peña, antes de descobrir que um hífen a anteceder um inventado inclán lhe daria uma sonoridade aristocrática, favorável às pretensões de quem se queria com destaque nas letras do seu país. Tinha sido um señorito del pueblo mimado, vigiado e bem vestido, com uma inteligência precoce que suscitava boas expectativas, mas sem conseguir passar de «assim-assim» num liceu de Pontevedra e capaz de se arrastar apenas por três anos nos estudos de direito em santiago de Compostela; que hostilizou desde muito cedo a compostura familiar, as conservadoras mentalidades da sua Galiza e travou uma luta sem quartéis para se impor ao arrepio de tudo quanto o rodeava, muito solto na fantasia e na decisão de cultivar uma provocatória extravagância física; que em tertúlias de cafés — com ele já no fim da adolescência — começou a inventar-se e a desdobrar-se, palavroso, pelos meandros de uma autobiografia dia a dia falada e cada vez mais empolgante nas suas improváveis aventuras, cheia de histórias pensadas para desbanalizar o que em si existia de mais comezinho. em 1890, a morte do seu pai e vinte e quatro anos na sua idade incitaram-no sem mais demoras à «grande libertação».
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desapareceu do entendiante norte de espanha; desceu desde a sua Galiza até uma Madrid que encontrou movimentada mas dura, difícil para o seu hábito de desafogo material, a Madrid que ele viria a transformar em dias de maior desenvoltura imaginativa numa excitante, perigosa e aventureira itália; uma Madrid onde colaborou em el Globo, onde escreveu contos e artigos para La Ilustración Ibérica, tudo para viver — bem longe estavam as facilidades de Compostela — com recursos materiais que alimentavam mal as suas exigências de comportamento e as estranhas elegâncias do seu físico. Com estas limitações ficou ainda assim de imagem numa frase de Gómez de la serna: «a melhor máscara a pé que cruzava a calle de alcalá.» Tinha, de facto, barba e cabeleira românticas que enfeitavam com êxito a boémia literária da cidade. Uma exuberância que também fê-lo ver-se como actor de teatro e chegou mesmo a fazê-lo declamar textos dramáticos com ênfase e gestos incómodos para os seus parceiros de palco. em 1892, já desiludido com Madrid mas seduzido por um México que talvez desse resposta aos seus desejos de vida aventureira, atravessou o oceano. e esteve nesse lado de lá um ano, ao que parece com poucas aventuras mas a escrever artigos para jornais de espanha e também, ao que se julga, a fazer traduções de textos italianos e franceses. Foi depois do seu regresso à europa (em 1903 e com trinta e sete anos de idade), que a revista alma española pôde publicar a surpreendente nota que transcrevemos e onde o encontramos desenvoltamente transtornado:
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este que aqui vedes com rosto espanhol e quevedesco, negra guedelha e longa barba, sou eu: don Ramón María del Valle-Inclán. Tive o começo da minha vida cheio de riscos e azares. Fui irmão converso num mosteiro de cartuxos e soldado em terras da nova espanha. Uma vida como a dos segundogénitos fidalgos que se penduravam nos terços1 da Itália à procura de proezas de amor, de espada e fortuna. Tenho, como os capitães dessa época, uma divisa; divisa que é, como eu, orgulhosa e resignada: «desdenhar os outros e não ter amor a si próprio.» Hoje, com as flores juvenis já murchas e moribundos todos os entusiasmos, entretenho penas e desenganos comentando as Memorias amables que o meu nobre tio, o marquês de Bradomín, começou a escrever durante a sua emigração2. esse velho tão cínico, incrédulo e galante como um cardeal do Renascimento! eu, que nunca senti amor pela minha família, em boa hora o diga, choro muitas vezes de admiração e ternura sobre o manuscrito das Memorias. Todos os anos, no dia de Finados mando dizer missas pela alma deste grande senhor que era feio, católico e sentimental. sou-o também, é um facto, semelhança que o faz mais caro ao meu coração. Pondo fim a uns amores desgraçados, mal terminei a idade a que se chama juventude embarquei na dalila para o México, uma fragata que na viagem seguinte naufragou nas costas do Yucatán. eu era nesses dias um tanto poeta, sem nenhuma antigo corpo de tropas espanholas dos séculos XVI e XVII. (n. do T.) Trata-se da personagem imaginária que percorre as suas quatro novelas com o título geral de sonatas. (n. do T.) 1 2
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experiência e com farto novelismo na cabeça. acreditava de boa fé em muitas coisas que agora ponho em dúvida, e liberto de cepticismos sentia pressa de gozar a existência. embora não o confessasse e talvez sem o saber, era feliz; como um aventureiro de outros tempos, sonhava com a realização de altos cometimentos e desprezava as glórias literárias. a bordo da dalila — recordo-o com orgulho — assassinei sir Roberto Yones. Uma vingança digna de Benvenuto Cellini. Vou dizer-vos como isto foi, apesar de serdes incapazes de compreender-lhe a beleza. Mas, vendo bem, melhor será que o não diga porque ficaríeis por certo horrorizados. Bastar-vos-á saber que a bordo da dalila só o capelão suspeitou de mim. Como o adivinhei a tempo, poucas horas depois de cometer o crime ele confessou-me e impus-lhe assim silêncio antes de passarem a certeza as suas suspeitas, e consegui além disto a absolvição do crime e a tranquilidade da minha consciência. nesse mesmo dia a fragata fundeou nas águas de Vera Cruz e desembarquei naquela praia abrasadora onde os aventureiros espanhóis, antes de qualquer outro povo da velha europa tê-lo feito, desembarcaram. a cidade que fundaram, e à qual deram avoengo de valentia, espelhava-se no mar calmo e de chumbo como se olhasse fascinada para a estrada que os homens brancos ali tinham traçado. Confesso que senti nesse momento levantar-se na minha alma de fidalgo e cristão o ruído augusto da história. Gonzalo de sandoval, um dos meus antepassados, tinha fundado naquelas terras o Reino da nova Galiza. e eu, seguindo os impulsos de uma vida errante, ia como ele perder-me na vastidão do velho império asteca, império de história desconhecida, sepultada para sempre com as
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múmias dos seus reis entre restos ciclópicos que falam de civilizações, cultos, raças que já se foram e hoje só persistem nesse tão misterioso quanto remoto oriente. depois disto… santillana, abra aqui um parêntesis e escreva a meu respeito o que mais lhe der na gana. vamos então aproveitar — como poderia tê-lo feito o santillana da alma española — este concedido direito; e fá-lo-emos para dizer que valle-inclán se fez escritor de capa, xaile, chapéu e polainas brancas (com uma diligência criativa que viria a estender-se por trinta e seis peças de teatro, quatro livros de poesia, cerca de vinte romances e novelas, e um muito apreciável número de contos) desde logo a servir as letras do seu país com um labor largamente permitido pelas horas brandas de um funcionalismo sentado e de poucas exigências no Ministério de instrução Pública e Belas artes; para dizer também que ele conseguiu chegar, numa noite de tertúlia, a razões de literatura merecedoras de um duelo com o escritor Julio lópez del Castillo; e que num dia aziago de 1899 brigou no Café nuevo de la Montañada com o escritor Manuel Bueno (discutiam sobre a coragem comparativa de espanhóis e portugueses nesse ajuste de honras decidido a tiros de pistola nos arredores da cidade e com testemunhas) saindo de tudo isto ferido no antebraço esquerdo ao ponto de a medicina prescrever, pouco tempo depois, a sua amputação. a boémia literária de Madrid viu-se acrescentada pelo enfeite de um orgulhoso e exibicionista maneta; e a sua obra teatral
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Cenizas foi encenada e levada a representação para lhe ser comprado um antebraço ortopédico. Mas esta diminuição física, talvez reforçada com algum cansaço, acabou por moderá-lo, por amaciá-lo um pouco em factos e gestos, por dar-lhe uma vontade de maior pacatez que o levou (em 1907 e com quarenta e um anos de idade) a casar-se com Josefina Blanco Tejerina e a fazer-lhe — fecundador tardio, mas diligente — filhos que subiriam ao número de seis. em 1915, com uma gasta meia-idade de quarenta e nove anos e já autor conhecido, e já autor respeitado, escreveu ao rei afonso Xiii solicitando-lhe que fossem reabilitados os títulos de marquesado do Valle, viscondado de Vieixin e senhorio do Caramiñal, petição que o monarca não atendeu. apesar do pseudónimo, valle-inclán teve de resignar-se a que o soubessem não-aristocrata, é verdade que escritor muito visível, muito publicado, e que leccionava com destaque a cadeira de estética das Belas artes na escola especial de Pintura, escultura e Gravura de Madrid. nesta mesma época também decidiu dar um estranho toque verbal às suas diferenças com a palavra «esperpêntica», que passaria a adjectivar a sua obra conferindo-lhe o sentido de busca do lado cómico e trágico da vida, e fazer a invenção de outra, «fantocheril», que definiria a sua forma de expor-se fisicamente ao mundo como homem vestido de preto, de barba negra e decidido a renegar tudo. valle-inclán terá uma vida de setenta anos, e o que lhe aconteceu de mais significativo liga-o a honrosos cargos públicos, a exacerbadas atitudes perante as políticas do seu país, aos apoios que deu a políticas «estrangeiras» de muito acentuada vanguarda. Foi oficialmente convidado em 1921 para revisitar o México que nesse ano celebrava com muito orgulho e muita música o
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centenário da sua independência; em 1924 Madrid viu-o bem renascido na sua veia exibicionista, a vociferar alto e bom som em cafés contra o ditador Primo de rivera; a França convidou-o a fazer-lhe uma visita, e ele aproveitou a passagem pelo local de má memória onde se travou a batalha de verdun para gritar uma vistosa diatribe contra os alemães; em 1929 fez-se comentar com o fait-divers de uma pena de prisão de quinze dias, por se negar a pagar a multa atribuída ao seu comportamento tumultuoso no Palácio da Música, durante a representação de el Hijo del diablo de Montaner. Chegou depois a época em que pareceu mais contido. Foi eleito deputado e defendeu a Corunha nas listas do Partido republicano liberal. nomearam-no director do novo Museu de aranjuez e também presidente do ateneu Científico, literário e artístico de Madrid; em 1933 organizou o Congresso da associação de escritores e artistas revolucionários e esteve entre os que fundaram a associação de amigos da União soviética; uma intensa campanha de apoios fê-lo director da academia espanhola de Belas artes de roma. numa itália de alguns meses, acompanhado por três filhos, pouco se rendeu aos benefícios da honra que o afastava de espanha. em 1934, o seu regresso foi melancólico; Josefina Tejerina, a sua mulher, já se tinha divorciado e posto fim ao convívio marital com um «revolucionário» de atitudes e posições políticas incompatíveis com os seus princípios de mulher burguesa e de boas famílias. valle-inclán, com um bastante comprometido estado físico sentiu-se vítima de uma pitoresca falta de meios de subsistência e viu-se na contingência de ser internado num sanatório de santiago de Compostela. são de 1936 o seu coma rápido
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(devido a um cancro na bexiga) e a morte depois de recusar, com uma derradeira porém fraca veemência de gestos e palavras, o conforto de um ofício religioso. * Costumam ser reconhecidas na sua obra literária duas épocas, uma primeira onde um visível esforço mostra-o fiel às mais honradas tradições da literatura do seu país, uma segunda que tem como faróis escritores mais recentes, um deles eça de Queiroz (de quem traduziu a Relíquia, o Crime do Padre amaro e o Primo Basílio). Tinham-lhe chamado «romântico aristocrático» quando era lido nos apuramentos de estilo dessa primeira fase que ele próprio se encarregou de definir como tentativa de transformar com matemática de espelho côncavo as normas clássicas. a segunda época mostrou-o numa outra singularidade, a que mereceu de Unamuno estas palavras: «valle-inclán tem uma língua individual, e por isso uma língua universal. nada há mais universal do que a individualidade.» o tempo pôs em destaque dois momentos altos na sua vasta produção literária. É hoje admirado pelas sonatas (publicadas entre 1902 e 1905), quatro novelas independentes numa excelente prosa modernista (memórias fictícias do marquês de Bradomín psicologicamente dominadas pelas sucessivas estações do ano), mas ainda mais lido no seu Tirano Banderas, o primeiro «romance de tirano» (1926) entre os que hoje conhecemos com exemplos espalhados pelas várias literaturas da américa latina. o que escrevi antes de Tirano Banderas é musiquinha de violino, dizia o seu autor, reforçando a sua ideia com esta insis-
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tência: digo-vos que «musiquinha», e má musiquinha de violino. Tirano Banderas é a primeira obra que eu escrevo. Começa agora o meu trabalho. valle-inclán procurava, com esta radical visão da sua própria obra, sobrepor-se às vozes que um pouco por todo o lado faziam críticas nem sempre abonatórias à criação da imaginária santa Fe de Tierra Firme, que ele deixava fluidamente localizada mas dando-lhe, sem dúvida, um muito forte sabor a México. o escritor venezuelano rufino Blanco Fombona, depois de uma desagradada leitura não esteve com meias medidas: «É uma américa de pandeireta.» e o crítico espanhol eduardo Gómez de Baquero escreveu: «não é uma novela, é um rosário ou uma sucessão de episódios que acabam por não ter uma visão de conjunto. sem necessidade de fio condutor da forma narrativa — pedras unidas sem argamassa.» Mas Martín luis Guzmán, romancista e crítico mexicano, foi mais contemporizador e explicativo em La nación de Buenos aires: «sem qualquer espécie de dúvida, santa Fe de Tierra Firme não é um México disfarçado — como também não é, em especial, nenhum dos outros países da américa Hispânica. Também parece evidente que a época do relato novelesco — que tem indícios de poder situar-se nos cinquentas ou nos setentas do século XiX — não corresponde, de facto, a nenhum momento da história mexicana. Mas embora isto assim seja, os leitores hispano-americanos de Tirano Banderas — pelo menos os de certos países como o México — dificilmente resistirão ao impulso de relacionar a ficção do livro com as realidades vernáculas por eles vividas ou que estão agora a viver.» numa carta ao escritor mexicano Mariano azuela, valle-inclán tentou esclarecer a génese da sua novela: a maior parte
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dos acontecimentos narrados foram compostos com o material que recolhi em conversas com revolucionários de diferentes classes e matizes, sobretudo das práticas que entre eles existiam, com insuperável interesse pela sua autenticidade e significado. os instintivos deixavam-se adivinhar com grande facilidade, mesmo nos pensamentos mais íntimos que queriam manter ocultos. a minha colheita foi feita em quartéis, hospitais, restaurantes, fandangos, caminhos de carroças, comboios e em todos os lados. Mas muitos acontecimentos estão referidos de uma forma completamente diferente daquela que eu presenciei. Tudo isto nos anuncia uma estrutura pouco vulgar, com a sua acção encaixada entre um Prólogo e um epílogo, com episódios de má obediência à rigorosa cronologia, e que a uma rápida leitura poderá fazer-nos pensar em fragmentação indominada se não lhe reconhecermos o intencional «efeito de caleidoscópio» responsável, à custa de ironia e força demolidora, pelo eficaz retrato do mundo demencial do tirano com uma força e um poder que nos são conhecidos de más épocas na história de nações da américa latina. Grande parte dos seus capítulos foram previamente publicados como textos independentes, reunidos e retocados para formarem a «novela de terra quente» que viria a chamar-se Tirano Banderas e que também cumpre a difícil tarefa de integrar na língua castelhana central os modismos que o autor absorveu durante as suas permanências na américa latina1. Foi-lhe também censurado o excessivo uso de diminutivos (um tique 1 o sentido de todas as palavras não pertencentes ao vocabulário castelhano será dado nesta tradução em notas de rodapé, e segue sempre o que consta do trabalho crítico de Francisco Caudet (ediciones Cátedra, 2017, Madrid.)
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bastante reconhecível na linguagem popular mexicana), considerado por alguns alheio à vontade de captar uma qualquer verdade coloquial e apenas inspirado por uma sobranceira ironia. indiferente a tudo isto, Tirano Banderas é hoje a mais lida novela de valle-inclán. esta vitória da popularidade sobre a crítica talvez fizesse o Tirano soltar a sua exclamação preferida: Chac! Chac! — de ambíguo sentido e consequências que nenhum dos seus fiéis acompanhantes terá sabido alguma vez adivinhar. a.F.
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prólogo
i Filomeno Cuevas, crioulo rancheiro, tinha planeado para aquela noite armar os seus peões com as armas escondidas num mangal, e os magotes de índios avançavam em linhas difusas pelos esteiros de Ticomaipú. — Lua clara, nocturnos horizontes profundos de sussurros e ecos. —
ii saindo para Jarote Quemado com uma tropilha de chefes, o patrão segurou pelas rédeas a montada e começou a fazer à luz de uma lanterna a chamada: — Manuel Romero. — Presente! — aproxima-te. só quero recomendar-te que tomes cuidado e não te ponhas briago1. a primeira badalada das doze será o sinal. Levas contigo a responsabilidade de muitas vidas, e mais nada te digo. dá cá a mão. — Meu querido chefe, nestas sarrafuscas estamos calhados. 1
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o patrão recomeçou a percorrer a listagem: — Benito san Juan. — Presente! — o Chino1viejo já te pôs a par da tarefa? — o Chino viejo só disse para me meter com uns quantos cavalos pelos caminhos da feira e pôr tudo de pernas para o ar. atirar uns balázios e não deixar nada com saúde. É serviço que não parece ter dificuldades de maior. — Às doze! — Com a primeira badalada. Vou acantonar-me debaixo do relógio da catedral. — É preciso andar pela calada, e até ao último momento parecer que são pacíficos feirantes. — assim faremos. — Isso bem cumprido. dá cá a mão. e com o papel posto no cone luminoso da lanterna, o patrão esforçou a vista. — atilio Palmieri. — Presente! atilio Palmieri era primo da niña2 rancheira: louro, entroncado, petulante. o rancheiro puxava pelas barbas de bode. — atilio, tenho para ti uma missão muito arriscada. — agradeço-te, meu parente. a palavra chino não tem neste contexto, e ao longo de todo este livro, o significado de chinês. eram assim chamados os índios em muitos países da américa Latina. (n. do T.) 2 as palavras niña e niño terão muitas vezes um sentido diferente de menina e menino. são uma forma de tratamento afectivo e respeitoso, independente da idade e do estado social. (n. do T.) 1
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— estuda a melhor forma de deitar fogo a um convento de freiras e pôr na rua toda a comunidade em camisa, a dar escândalo. É a tua missão. se vires alguma freira a teu gosto, fecha os olhos. Que o pessoal não se entregue à bebida. É preciso actuar com violência, de cabeça fresca. atilio, boa sorte! Procura dar largas aos teus actos por volta da meia-noite. — de acordo, Filomeno, vou com isso para a frente. — assim espero. Zacarías san José. — Presente! — Para ti nenhuma missão especial. deixo à tua intuição o que melhor convir. Que sarrabulho farias esta noite, entrando com alguns homens em santa Fe? Que sarrabulho seria o teu? — sozinho com outro companheiro para aí virado, revoluciono a feira; deito abaixo a barraca das feras e abro as jaulas. Que diz a isto o patrão? não será assim armada uma das boas? Com cinco valentes pego fogo a todos os abarrotes1de gachupines2. Com vinte e cinco liquido a guarda dos Mostenses. — não mais do que isso prometes? — e tenho muita esperança em fazer uma sangria ao Tirano Banderas. Querido chefe, neste bornal que trago no arção há os restos do meu chamaco3. devoraram-no os porcos no pantanal! e sem carregar mais do que estes restos ganhei quanto chegasse às cartas para arrematar um guaco4 na feira; apanhei a laço um gachupín e escapei ileso no tiroteio dos guardas. em tudo quanto me empenhar, vou esta noite sair-me bem. Tenda de comes e bebes (México.) (n. do T.) Termo depreciativo para designar os emigrantes espanhóis. (n. do T.) 3 Catraio (México.) (n. do T.) 4 Cavalo (México.) (n. do T.) 1 2
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— Cruzado, leva a gente de que precisas e realiza esse lindo programa. até à próxima. dá cá a mão. e passada a noite, sepulta esses restos. na guerra, o ânimo e a inventiva são os melhores amuletos. dá cá a mão. — Meu querido chefe, estas feiras vão ganhar fama! — assim o espero. Crisanto Roa. — Presente! era o último da lista, e o patrão soprou a lanterna. as peonadas recomeçaram a marcha à luz da lua.
iii o coronelito de la Gándara, desertor das milícias federais, com lábias e chicanas discutia os preparativos militares do rancheiro. — Filomeno, não te ponhas chivatón1; não tentes saltar um rego quando te faltam gâmbias para tanto! Incorres numa grave responsabilidade se levares as tuas peonadas ao sacrifício. armas-te em general, e nem consegues compreender um plano de batalha! sou um homem culto, um diplomado pela escola Militar. a razão não te diz quem deve assumir o comando? Pode ser tão cego o teu orgulho? Tão atrevida a tua ignorância? — domiciano, a guerra não se estuda nos livros. Tudo assenta em termos nascido para ela. — e julgas-te um predestinado a napoleão? 1
Com bazófias. (México.) (n. do T.)
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— Talvez! — Filomeno, não comeces a macanar1! — domiciano, convence-me com um plano de campanha que valha mais do que este que tracei, e cedo-te o comando. o que farias com duzentas espingardas? — aumentava-as até formar um exército. — Como se consegue isso? — arregimentando nas povoações da sierra. a revolução conta com poucos amigos na Terra Quente. — seria esse o teu plano? — nas suas linhas gerais. o teatro da campanha deve ser a sierra. os Llanos são para as grandes massas militares, mas as guerrilhas e as outras tropas móveis encontram na topografia montanhosa o melhor aliado. É o que diz a ciência, e desde que há guerras a estrutura do terreno impõe a manobra. duzentas espingardas na planície têm sempre a retirada cortada. — o teu conselho é subirmos a sierra? — Já o disse. Procurar uma fortaleza natural que compense a exiguidade dos combatentes. — Muito bem! Isso é científico, é a doutrina dos tratadistas, o ensinamento das escolas!… Muito de acordo. Mas não sou culto, nem tratadista, nem passei pela academia de Cadetes. domiciano, o teu plano de campanha não me satisfaz. Como viste, planeio para esta noite um golpe sobre santa Fe. desde há algum tempo tenho vindo a meditar nele; e na ria, atracado ao cais, está por acaso um palhabote na descarga. embarco a minha gente e desembarco-a na praia de Punta 1
asneirar. (n. do T.)
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serpientes. surpreendo a guarda do castelo, armo os presos, amotino as tropas da cidadela. — os sargentos já estão do meu lado. — este é o meu plano, domiciano. — e jogas tudo num só lance! não és um émulo do Fábio Máximo1. Que retirada estudaste? esqueces-te de que o bom militar nunca se imola imprudentemente e ataca com prévio conhecimento das suas linhas de retirada. É a mais elementar táctica fabiana. nas nossas pampas, se o que luta cedendo terreno for ágil na manobra e souber como se larga fogo ao petróleo, vence os aníbais e os napoleões. Filomeno, a guerrilha que os revolucionários fazem não pode seguir outra táctica que não seja a do romano contra o cartaginês. Tenho dito! — Muito eloquente! — És um irresponsável que conduz um grupelho de homens ao matadouro. — audácia e fortuna ganham as campanhas, e não as matemáticas das academias. Como actuaram os heróis da nossa independência? — Como apóstolos. Mitos populares, e não grandes estrategos. simón Bolívar, o maior de todos, foi um péssimo general. a guerra é uma técnica científica, e tu converte-la numa bolada de roleta. — nem mais. — Pois isso é falar como um insensato. — É possível! não sou de conhecimentos e estou obrigado a guiar-me apenas pelas regras do que me vai na coraçonada. Vou a santa Fe por causa da cabeça do generalito Banderas! Cônsul e ditador romano, célebre pela sua táctica de defesa baseada no desgaste. (n. do T.) 1
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— o mais certo é perderes a tua. — só lá o veremos. o tempo di-lo-á. — Planeias uma operação que não tem nenhuma táctica aprovada, uma simples escaramuça de bandoleirismos contrária a toda a teoria militar. É tua obrigação obedecer ao quartel-general do exército revolucionário, seres já já o mero grão de areia na montanha; e o que fazes, ao actuares de forma independente, é manifestar-te com um acto de indisciplina. És ambicioso e soberbo. não me oiças. Faz como te parecer. sacrifica as tuas peonadas. depois do suor, pedes-lhes o sangue. Muito bem! — Tudo isso me tem feito apenas bem à consciência; e apesar de tantas responsabilidades e tantos encargos, não mudo de opinião. É mais forte o que me vai na coraçonada. — a ambição de dares nas vistas. — domiciano, não podes compreender-me. Quero apagar a guerra com um sopro, como quem apaga uma vela. — e se fracassares, difundir o desalento nas fileiras dos teus amigos, seres um mau exemplo! — ou uma emulação. — daqui a cem anos, para as crianças das escolas nacionais. Mas o presente não é a História e tem caminhos mais realistas. enfim, tanta conversa seca a boca. Passa-me a tua cantimplora. depois de beber um trago, fez faiscar o fuzil e acendeu a beata apagada, espalhando a cinza no seu rotundo ventre de ídolo tibetano.
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iv apenas com cinquenta homens, o patrão caminhou por marismas e mangais até avistar um palhabote acostado para descarga no molhe de uma serração. Filomeno ordenou ao piloto que pusesse as velas ao vento, para se ir aproximando de Punta serpientes. o eixo rotatório e luminoso de um farol girava no horizonte. embarcado o pessoal, o palhabote zarpou com uma manobra silenciosa. a lua navegou sobre o casco visível de bombordo, o mar belo, o barco marinheiro. a proa levantava repuxos de prata, e um negro juntava à sombra da vela bujarrona uma roda de ouvintes; declamava versos com lírico entusiasmo, com fluência de ceceles1. Repartidos em grupos, os homens da expedição jogavam às cartas. Lanternas azeitadas punham em destaque a forma como a jogatina ia por escotilhas e porões. e à sombra da bujarrona, o negro professoral dava largas ao seu lírico floreado de ceceles: navega veleilo meu, sem temol, que nem inimigo navio, nem tolmenta, nem bonança, a tolcel teu lumo alcança nem a sujeital teu valol.
Palavra inventada pelo autor para designar a fala dos negros que pronuncia os erres como eles. (n. do T.) 1
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primeira parte SINFONIA DO TRร PICO
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livro primeiro
ícone do tirano
i santa Fe de Tierra Firme — areais, piteiras, mangais, figueiras-da-índia — nos mapas antigos Punta de las serpientes.
ii numa encosta, entre romãzeiras e palmeiras, a olhar para o vasto mar e para o sol poente, san Martín de los Mostenses inflamava os azulejos das suas redondas cúpulas coloniais. no campanário sem sinos, uma sentinela levantava o brilho da sua baioneta. san Martín de los Mostenses, esse desmantelado convento de onde uma longínqua revolução tinha expulsado os frades, era com as mudanças do tempo o quartel do presidente don santos Banderas. — Tirano Banderas.
iii o generalito acabava de chegar com alguns batalhões de índios, depois de ter fuzilado os insurrectos de Zamalpoa; imóvel e taciturno, emoldurado de perfil numa remota jane-
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la, atento à rendição de guardas na campina rasa do convento, parece uma caveira com antolhos negros e gravata de clérigo. no Peru tinha feito guerra contra os espanhóis, e dessas campanhas ficara-lhe o hábito de mascar coca que lhe deixava sempre nas comissuras dos lábios uma salivagem de veneno verde. da remota janela, emoldurado numa imobilidade de gralha sagrada, olhava para os esquadrões de índios soturnos na sua cruel indiferença pela dor e pela morte. ao longo da formatura, chinitas1 e vivandeiras moviam-se apressadas e a esquadrinhar, entre os tostões e as migalhas caídas das algibeiras, a pitada de tabaco e as moedas para o seu magala. Um globo de cores ia ardendo na cor de turquesa celeste, por cima do campo invadido pela sombra arroxeada do convento. alguns soldados, índios comaltes2 da selva, olhavam para o alto. santa Fe celebrava as famosas feiras dos santos e defuntos. na sua remota janela, Tirano Banderas era sempre o desajeitado esboço de um homem corujento.
iv Pelo vasto saguão fradesco vinha uma escolta de soldados com a baioneta calada nas negras espingardas, trazendo entre as suas fileiras um desgrenhado pobretanas com a cara a pingar sangue. À frente, no flanco direito o espadim do major abilio del Valle despedia raios. o desenho do bigode castanho-escuro dava uma feroz evidência ao arreganho lupino dos 1 2
nome dado na américa Latina às mulheres indígenas. (n. do T.) Tribo inventada por Valle-Inclán. (n. do T.)
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índice
apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
5
Prólogo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
17
primeira parte: sinfonia do Trópico . . . . . . . . . . . . . . livro primeiro: Ícone do Tirano . . . . . . . . . . . . . . . . livro segundo: o Ministro de espanha . . . . . . . . . livro terceiro: o Jogo da Rãzinha . . . . . . . . . . . . .
25 27 40 48
segunda parte: algazarra e Balbúrdia . . . . . . . . . . . . . livro primeiro: Quartzos Ibéricos . . . . . . . . . . . . . . livro segundo: o Circo Harris . . . . . . . . . . . . . . . . . livro terceiro: a orelha da Raposa . . . . . . . . . . . .
57 59 69 76
terceira parte: noite de Farra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91 livro primeiro: a alcova Verde. . . . . . . . . . . . . . . . . 93 livro segundo: Brilhos de almas . . . . . . . . . . . . . . . 101 livro terceiro: Guinhol dramático . . . . . . . . . . . . 113 quarta parte: amuleto negromante . . . . . . . . . . . . . . livro primeiro: a Fuga . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . livro segundo: a Tambaca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . livro terceiro: o Coronelito . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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121 123 129 143
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livro quarto: o Honrado Gachupín . . . . . . . . . . . . livro quinto: o Rancheiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . livro sexto: apanhado com o Laço . . . . . . . . . . . . . livro sétimo: necromancia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
151 157 165 178
quinta parte: santa Mónica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . livro primeiro: Bilhete de sombra . . . . . . . . . . . . . . livro segundo: o número Três . . . . . . . . . . . . . . . . livro terceiro: Cantos de Cárcere . . . . . . . . . . . . . .
183 185 195 202
sexta parte: alfajores e Venenos . . . . . . . . . . . . . . . . . . livro primeiro: Lição de Loyola . . . . . . . . . . . . . . . . livro segundo: Fraquezas Humanas . . . . . . . . . . . . livro terceiro: a nota . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
211 213 225 238
sétima parte: o Verde esgar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . livro primeiro: Recreios do Tirano . . . . . . . . . . . . . livro segundo: a esplanada do Clube . . . . . . . . . . livro terceiro: Passagem de Bobos . . . . . . . . . . . . .
248 251 260 266
Epílogo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 279
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últimos livros
a viúva do enforcado, Camilo Castelo Branco o caso Kurílov, Irène némirowsky a costa de Falesá, Robert Louis stevenson nova safo — tragédia estranha, Visconde de Vila-Moura Gaspar da noite — fantasias à maneira de rembrandt e Callot, aloysius Bertrand rimbaud-verlaine, o estranho casal o rato da américa, Jacques Lanzmann as amantes de dom João v, alberto Pimentel os cavalos de abdera e mais forças estranhas, Leopoldo Lugones Preceptores – Gabrielle de Bergerac seguido de o discípulo, Henry James o Cântico dos Cânticos – traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano a idade e o carácter do poema, ernest Renan derborence, Charles Ferdinand Ramuz o farol de amor, Rachilde diário de um fuzilado, precedido de Palavras de um fumador de ópio, Jules Boissière a minha vida, Isadora duncan rakhil, Isabelle eberhardt Fuga sem fim, Joseph Roth o castelo do homem ancorado, Joris-Karl Huysmans Tufão, Joseph Conrad Heliogábalo ou o anarquista coroado, antonin artaud van Gogh o suicidado da sociedade, antonin artaud eu, antonin artaud a morte difícil, René Crevel a lenda do santo bebedor seguido de o leviatã, Joseph Roth o Chancellor (diário do passageiro J.r. Kazallon), Jules Verne
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