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Alexandre Conefrey I João Jacinto, «Snuff»

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Alexandre Conefrey Joรฃo Jacinto

snuff Texto | Text

Pedro Proenรงa

D O C U M E N TA


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O É PIC O E O TRÁGI C O

Os pintores mostram as acções no ponto crítico do devir, os narradores contam-nos como tendo ocorrido. Plutarco

Sei que cheirei um jasmim uma tarde na infância e não existiu a tarde. Francisco Brines

O pensamento alude ao norte, a essa ideia que relaciona o norte com o frio puro e a dramática alegria da neve, das temperaturas muito baixas. Alude também à viagem sem fé, inconsequente, feita com o inexplicável ardor de quem se inicia na eternidade. Mas nem cigarros tenho. Estou possuído pelo dom infernal com que se cria um estilo sem tempo nem lugar, a fraternidade solitária, o amor sempre em viagem. O meu gosto pela exactidão já sabe o horário dos comboios que possivelmente (evidentemente) não vão para lá. Deus principia a inspirar-me terror. A minha unidade, sobretudo. A unidade fechada e imóvel. O universo passa bem sem mim, e o terror é uma inspiração sem mácula, dentro do que se pode alcançar. Não, não está ninguém junto à porta. Herberto Helder

O assunto desta exposição é um assunto terrível, repugnante, fascinante, e o que aqui se mostra (promete?) é o que se não vê, é o que está lá in absentia, é a elipse que devolve o olhar à fatalidade, à sua predação projectiva. O pretexto começou por ser a pornografia, a porné, o medusante das imagens dos genitalia entumescidos em acção, pressupondo o medo de olhar, o prazer de transgredir e a talvez felix culpa. A história do temor regista alguns casos, como as Górgones, que eram vislumbradas nos templos a partir de espelhos, ou como fez Perseu em seu escudo espelhado e Adonai YHVH, o deus dos hebreus, que, no seu frente a frente com Moisés, o obrigou a enco-

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brir suas faces, pois temeu fitar Deus. Também com S. Paulo deus só se deu a ver em espelhos e enigmas. O face a face adiado seria o apocalipse, a porné da grande prostituta da Babilónia. As faces talvez sejam o que há de mais apocalíptico. Da porné, o tema deslizou num ápice para snuff. Dizem-me o Alexandre Conefrey e o João Jacinto que são filmes criminosos feitos com pessoas em situação ilegal e que combinam o terror com a pornografia. Os actores à força destes filmes são mortos. Acabou-se. Trata-se da morte. Da pequena e da grande morte. Questionam-se os atentos se isto será ou não será mito. O termo snuff aparece pela primeira vez no quinto romance de Tarzan, de Edgar Rice Bourrogs, em 1916, como verbo usado pelos vilões para o acto de matar, e generaliza-se como calão quanto a um modo reles de matar. A associação do acto de filmar sexo ao terror, à bestialidade e morte gerou um género a que não faltam condimentos fortes. A morte em directo ou o sexo em directo estão implícitos na cultura contemporânea mediática. Não é difícil encontrarmos precedentes, quer no real, quer na ficção. O panem et circenses, o pão e circo, ou algumas novelas de Sade como os 120 Dias de Sodoma. O devorar, o fornicar, o ver, o nascer, o morrer, o caçar e ser caçado são indissolúveis. É aqui que se situa o acto de desenhar-pintar. O desenho começa nas crianças como uma forma de adestrar a mão. Desenha-se antes de escrever. Desenha-se antes de falar. Desenha-se para tomar o mundo. Desenha-se para ocupar mais espaço e dominá-lo. Desenham-se os pais para ir canibalizando os pais, para nos irmos fazendo antepassados, os que estão antes do passado. A angústia da influência de que fala Bloom no campo literário é um processo de que nos damos conta na construção das primeiras imagens. É estranho que em praticamente todas as civilizações o acto de desenhar seja abandonado a partir do momento em que se verbaliza razoavelmente. Só sobram os que persistiram em desenhar, como uma maldição, como se quedam os poetas, os que teimam em insuflar um não-falar dentro do falar, um a-Logos dentro do Logos. É a transe da afasia que perdura na pintura e na poesia. É a evasão do narrativo supondo o narrativo. É o congelamento no vislumbre da morte e do sexo envolvente que nos antecedente. Como escreveu Vila-Matas num pequeno ensaio, o romance é adiamento. Adiamento excitante, para curiosos e prazenteiros, de um desaparecimento prometido. A brevidade dos contos já vinha pedindo adiamento, como nos

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ardis de Scherazade nas mil e uma noites, metendo histórias dentro de histórias para arredar os fins, ou nos dispositivos de fazer e refazer o tapete de Penélope (os modos de editar o texto). Trata-se sempre de demoras, da astúcia de protelar, desviando do terror do sacrifício (da morte) e prolongando o prazer da multiplicidade das histórias. Queremos ficar nas redes das narrativas e no prazer do suspense para sempre, porque essa seria a forma ideal da eternidade, e um belo antídoto para o nada e o tédio. Num livro recente Peter Mendelsund mostra que não vemos o que lemos, que as personagens dos romances mais realistas são sem rosto, que os olhos de Madame Bovary mudam de cor. Estamos hipnotizados por associações de palavras e por memórias ambíguas que ressuscitamos e de que impregnamos os textos (como se o sentido fosse uma combinatória de reminiscências que vão formando imagens que se fazem encarnar por associações de palavras). O texto, como se sabe, não dá a ver, por muito que as palavras designem coisas do mundo. Mesmo a ekphrasis, que é uma das origens do romanesco, é uma errância a partir do invisual do verbal-escrito, não se sabendo ao certo o que estamos a ver — deambulamos alegres em modos de projecção inexactos, num cinema a palpos de aranha. Assim como a poesia morre na paráfrase, o que se vê não é parafraseável, e a pintura não é, no seu cerne, descritível. Paradoxalmente, é da indescritibilidade das imagens que emerge a força (e a frustração) do romanesco. É essa resistência à fala que os pintores teimam em reclamar como o seu lugar e a sua glória, mesmo quando se socorrem de histórias. Pintar histórias é retornar ao fundo que as antecede. A pintura e o desenho mostram antecipando. Algumas frases do povo Ainu, do norte do Japão, são indicativas quanto ao carácter indissolúvel do desenho e da caça: como caçar se não se desenhar primeiro? As fêmeas dos animais seduzem os caçadores. Cada caça é uma caça de almas. A pintura e o desenho são assim requisitos da caça, o que é também uma antecipação da devoração. São uma somatização da ansiedade do caçador. A predação da produção visual transfere-se como fome para o corpo. A prática do desenho é um refúgio quanto à iminência da morte. Regista-se para se sobreviver nos traços e ter poder sobre as imagens: inscrever, fender, marcar o «real». Ou, de outra maneira, no filão que vai com Bloom e Genet via Rui Chafes: canibalizar os antepassados ao mesmo tempo que se fazem imagens para os mortos ou deuses com quem conversamos.

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Nestas obras de Alexandre Conefrey e João Jacinto o snuff não se vê. Não fixamos directamente nem o acto de crueldade, nem a grafia da porné. Não está ali aquilo que se vê num filme, numa fotografia ou no circo romano. Em Conefrey não há ninguém, só uma arqueologia da crueldade consumada. É ausência de expectativas, é a história contemplando os seus despojos. E a história é contemplação e o que se vai acumulando, qual herança — é a crueldade legada ao mundo indistinta do modo como nos relacionamos com o que há de mais brilhante e mais obscuro. Em Jacinto estamos no que no cinema se chama a câmara subjectiva, no olhar do mais terrível espanto a meio do terror, no brilho dos olhos, na boca aberta. Sobre isto falarei mais adiante, assim como do sublime, na sua acessão somática: aquilo em que o corpo larga as defesas incapaz de o suportar. Platão pensava as imagens representadas como degradação das figuras matemáticas, das essências que intermedeiam estas e as coisas, e por fim, em quarto grau, como uma carente e desessencializada imitação das coisas. Platão parece ignorar que os artistas trabalham directamente a partir da geometria, e que, mesmo quando estes imitam as coisas, a arte salta por cima das supostas essências. A pintura não exila o «esquema», mas sabe da cor, dos brilhos e da propensão à ilusão. A pintura desvia-se das armadilhas da fala e do endeusamento dos conceitos. É mais terrível e enigmática: quando re-presenta pre-ausenta. Ou: quando re-ausenta pre-presenta. Quando mostra uma coisa diz a sua presença como ausentação eminente, isto é, catástrofe seguida de consumação e dissolução. E como actualização do que está ausente no presente, o regresso do passado, o que conduziu ao que se vê, a pintura e o desenho também declaram a repetição da ausentação e da presentificação num só lance de pleonasmo e maravilha. Esta actividade mágica e recorrente tem levado a proibições e maldições, fazendo recair sobre a pintura e o desenho suspeitas de imoralidade, de rivalidade com o divino (pelo fabrico de figuras devocionais), de promover a irrelevância do Logos (do discurso verbal) e de reactivar forças reaccionárias, isto é, de reintroduzir no presente um passado de que ninguém quer falar, de um outrora que é impossível parar de regressar.

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Este livro foi publicado por ocasião da exposição Snuff, de Alexandre Conefrey e João Jacinto, com curadoria de Carlos Corais, realizada na Galeria do Paço – Universidade do Minho, em Braga, de 10 de Maio a 30 de Junho de 2019


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© Universidade do Minho, 2019 © Sistema Solar Crl (chancela Documenta) Imagens © Alexandre Conefrey, João Jacinto Texto © Pedro Proença Maio 2019 ISBN 978-989-8902-82-5 Fotografias: Pedro Lobo, Nuno Moreira Inácio Revisão: Helena Roldão Depósito legal: 455568/19 Pré-impressão, impressão e acabamento: Gráfica Maiadouro SA Rua Padre Luís Campos, 586 e 686 (Vermoim) 4471-909 Maia Portugal


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