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Mário Cesariny, «Sinal Respiratório — Cartas para Sergio Lima»

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SINAL RESPIRATÓRIO Cartas de Mário Cesariny para Sergio Lima


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Primeiro encontro de Mário Cesariny e Sergio Lima. Na cozinha da casa de Cesariny a tomar um café servido pela irmã Henriette, Lisboa, 1994. Fotografia de Lilian Lufti.


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Mário Cesariny SINAL R E S P I R AT Ó R I O Cartas para Sergio Lima apresentação

Sergio Lima edição e posfácio

Perfecto E. Cuadrado

D O C U M E N TA FUNDAÇÃO CUPERTINO DE MIRANDA


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ÍNDICE

Apresentação, Sergio Lima.........................................

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C A R TA S (1967-1995) ..............................................

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Posfácio, Perfecto E. Cuadrado .............................. 185 Índice onomástico ....................................................... 195


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Atrasado como estou em dar-lhe sinal respiratório não vou deixar o dia de hoje sem ao menos pôr aqui escrito o abraço ininterrupto que vai de mim para seu desde o primeiro dia do nosso contacto. Mário Cesariny, carta de 20 de Abril de 1977


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AP RES ENTAÇ ÃO

Ser g i o L im a


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Em 1963, faz 10 anos da morte de António Maria Lisboa, é impresso Surrealismo/Abjeccionismo, organizado por Mário Cesariny nas edições Minotauro de Lisboa. E, no meio do ano, é impressa a primeira plaqueta com documentos da movimentação pró-Péret, De la part de Benjamin Péret, e que resultaria na Association des Amis de Benjamin Péret, com vistas à edição de suas Obras Completas. Enquanto aqui em São Paulo, imediatamente depois dos levantamentos primeiros dos passos de Péret no Brasil, realiza-se o «escandaloso» lançamento da romança de Sergio Lima: Amore. Dois acontecimentos que devem balizar, diria assim no meu entender, seus múltiplos desdobramentos no presente feixe de cartas entre Mário Cesariny e Sergio Lima (correspondência ativa e passiva de 1967 a 1995). E que se cruzam e/ou se contrapõem a de outros amigos no eixo Paris-São Paulo-Lisboa. A primeira notícia de Mário Cesariny me foi dada por Aldo Pellegrini, em meados de 1967, quando da nossa troca de cartas para a montagem em São Paulo da I Exposição Surrealista, aliás XIII Exposição Internacional do Movimento dos Surrealistas. De imediato lhe escrevi sobre os planos da exposição. Em seguida enviou todo um material do movimento em Lisboa — envio urgente que Mário me comunicou por telegrama, dia 13 de julho ’67. A partir do que nossa correspondência vai se estender larga e lou13


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camente, com umas poucas interrupções até 1995 e depois, nos últimos anos, torna-se rara e muito espaçada. Mesmo assim vigorou sempre a parceria e cumplicidades que culminariam com a entrevista em vídeo que lhe fiz — em fins de junho 2006 — por ocasião da apresentação da «boneca» da revista-almanaque A Phala 2. Projeto esse, afinal, de que fora o principal incentivador desde meados de 1987 e que agora tinha em suas mãos. Por volta de 1959, Aldo Pellegrini foi até Paris, cuidar dos originais para sua Antologia de la poesia surrealista de lengua francesa [1961], nesta viagem pois, teve oportunidade de contatar também publicações e atividades de outros nomes do movimento dos surrealistas fora de Paris, por exemplo em Espanha e Portugal. É bem verdade que Jean-Louis Bédouin publicaria no 1964, a prestigiosa coletânea contemporânea La poésie surréaliste, na qual não menciona as atividades fora de Paris. Lacuna que já se observara nas «Ephémérides» publicadas no Almanach surréaliste du démi-siècle [1950], omitindo a presença do movimento em Portugal, desde os acontecimentos à roda da exposição internacional de 1947/Paris, ou ainda das escaramuças de ’49/’51 — ocasião em que Nora Mitrani passa uma temporada em Lisboa e deixa Alexandre O’Neill perdidamente apaixonado. Desde o artigo de Nora Mitrani: «Poésie, liberté d’être», publicado na revista Le surréalisme, même n. 2 [printemps 1957], acompanhado da famosa carta de Fernando Pessoa sobre os heterônimos, já se recolocava em pauta e de fato as relações dos surrealistas centrados em Paris com os cantos revolucionários e subversivos do movimento correspondente em florilégio português. Então liderados por Mário Cesariny em Lisboa, e Pedro Oom no Porto. Não se menciona tampouco as idas 14


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significativas, para não dizer emblemáticas, até o grupo do café Cyrano a Place Banche, de Mário Cesariny no ’47 e António Maria Lisboa, recebido por Benjamin Péret em Paris (onde permanece de março a maio) nos meados do ’49. Contudo, assinala Mário numa das cartas, os ecos do movimento em Portugal e que vinham desde a publicação da Antologia de la poesia surrealista não se fizeram por esperar, como na sua correspondência com Carlos Latorre e Aldo Pellegrini — a quem Mário solicitou dados para a cronologia da Intervenção Surrealista. Portanto, meu contacto inicial com Mário abre-se em pleno fluxo e numa história que se processava há alguns anos. É muito importante atentar para o contexto que nossas cartas cruzam. Se do lado de Mário vale pautar publicações capitais de ’63, aforismos de Teixeira de Pascoaes e eventos do Abjeccionismo, mais os da ’66 Intervenção Surrealista, penso que do meu lado, poderia datar seu principal campo de convergências assim: de um lado a partir do «affaire Péret», e do outro a XIII Exposição Internacional — o caso de Péret iniciado propriamente a partir de janeiro de ’63 e a dita exposição nos meandros dos debates e reformulações que rodearam em ’65 a Exposition L’Oeil, aliás XII Exposição Internacional em Paris. Pode-se dizer que até as publicações e notícias propiciadas por Nora Mitrani, 1956/57, o grupo parisiense estava em falta com o movimento dos surrealistas em Portugal. Fato que não se alardeava, por certo, até a importante coletânea organizada por Cesariny e impressa em 1966: A Intervenção Surrealista, onde tudo veio a ser posto e finalmente se esclarecer. E do lado de cá do Atlântico, igualmente, A Phala 1 serviu para por um ponto final nos erros grosseiros do historicismo em 15


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voga e encobrimentos intencionais da presença e de atividades dos surrealistas em nosso meio. Além de se pautar por uma abrangência sul-americana logo notória desde as suas páginas. Entre 1975 e 1985, em meio a atividades no cinema comercial e exposições individuais, avançamos duas publicações que ecoam substancialmente junto aos amigos e Mário Cesariny: O Corpo Significa e Collage… em nova superfície. Por isso mesmo fazemos constar neste epistolário, as cartas e documentos ao redor destes dois livros. Escusado dizer que, depois de Aldo Pellegrini, não se mantinha mais nenhuma atividade coletiva em Buenos Aires. E que o novo grupo «Signo Ascendente» só iria se formar, aí, nos inícios dos ’80, graças às atuações de Julio Del Mar e Silvia Guiard, Ricardo Robotnik, Alberto Arias e, logo, Carmen Bruna. Julio e Silvia vieram até São Paulo para ver A Phala 1 e nos encontrar. A partir do que as ligações entre Buenos Aires e São Paulo seguiram ininterruptas. Sabe-se da folha-manifesto, encabeçada por Julio e Silvia, contra a «morte anunciada e/ou oficial» do Movimento e do dito «surrealismo histórico», que se fez circular por ocasião da Semana Surrealista de São Paulo, novembro’85, e que imediatamente Mário Cesariny transcreveu num de seus folhetins Noa-Noa ou Surrealist Papers. Ligações essas, com o grupo de Buenos Aires, que se estenderiam até os meados da década de 1990, ou seja até o desmanche do grupo. Mesmo assim, ainda contamos no 1996 com participação portenha na mostra realizada em São Paulo: exposição «Collage — Homenagem ao Centenário de André Breton (1896-1996)».

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«Os Surrealistas»: Henrique Risques Pereira, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Pedro Oom (sentado), Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa e Fernando Alves dos Santos, na primeira exposição, Junho, 1949.


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«Altar» na 1.ª Exposição dos Surrealistas, 1949.


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Lisboa, 5 de Julho de 1967 Sérgio Lima O seu livro é algo muito extraordinário, mais do que em qualquer caso eu poderia esperar. Não por ser-se o Sérgio Lima ou ser eu: é este um momento que parecia perdido ou a perder-se. Muita repetição, certo didatismo de inteligência que só detém as tintas, além da pinturice e do entusiasmo fácil ou difícil dos que chegam depois do deflagrar. Consigo, e não sei dizer melhor, tudo deflagra de novo (como no texto, para mim único, de Artaud entre os taraumaras, e em poucos mais); é um poema de importância capital para o surrealismo hoje. Se se chega à exaustão é porque o movimento é esse, acabaram-se as paralelas! O seu livro AMORE mete medo por isso. E tantas coisas mais que gostaria de trocar consigo num encontro qualquer que venha a ser possível, aqui ou aí. Darei aos amigos daqui os exemplares que lhes dedica. Devo dizer-lhe: vivemos aqui muito dispersos, não há revistas, não há dinheiro, quase não há nada. As temporadas de «café» exaurem pelo pior lado. Mil vezes encontrados para gizar coisas, outras tantas dispersos pelo impasse. Há muitos anos que é assim. Peço-lhe licença para guardar comigo o exemplar que dedica ao António Maria Lisboa. Como lhe disse em carta anterior, o António Maria morreu em 1953 mas será tudo menos um poeta morto. Para mim, que não sou espiritualista nem nada, foi pelo menos perturbadora esta coincidência de encontrar na poesia do Sérgio Lima muitos dos elementos, corrijamos para: alguns elementos, do que forma a poesia do Lisboa; e coincidentemente, 19


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este engano, ou esta verdade, sua, de julgá-lo ainda vivo sobre a terra, e escrever-lhe. Diga-me o que recebeu do material que lhe enviei — em remessas por avião e em volumes por barco — e como decorrem os trabalhos da Exposição. Há sempre possibilidade de extravio, por isso lho peço. E porque há muito já não chegam notícias suas. Um Abraço seu para o Mário Cesariny

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Lisboa, 22 de Outubro de 1967 Queridos Amigos Chegou finalmente o primeiro de A Phala. O que há a dizer imediatamente é um calorosíssimo voto de que possa continuar a publicar-se e a reunir tanta e tão valorosa gente como a que lá vem. Os vossos estudos e trabalhos, seus, Leila, Fiker, Paranaguá, a sua liberdade e realidade de afirmação galvanizaram todos os amigos a quem já entreguei a revista. Em português, ainda nada saíra assim; aqui, nunca poderia ter saído. Graves e altas bandeiras de vidro ondulado onde nascem corpos circulatórios pertencentes a todos os três reinos! E um rio, de espaço a espaço, de perna a perna, de estrela a sol.lua.neve.poesia.liberdade.amor. Outra carta irá mais clara, mais perto. Esta, diz-vos que a notícia em que vos falei sai realmente no fim deste mês no Jornal de Letras e Artes, desesperantemente resumida aos informes do Penteado serviço de propaganda da exposição, e não há processo de acrescentá-la — o jornal já está inteiramente composto, apenas lhe falta a capa — com elementos agora chegados. Tal está, envio-o para aí e para o Pellegrini, mal esteja pronto. Mais importante é isto: falando com o director ficou combinado fazer-se, no próximo mês, um número especial dedicado à XIII Internacional, I de São Paulo, com elementos tirados de A Phala, e outros juntos. Espero que dê o seu acordo, como editor da revista. Certas matérias serão dificilmente reproduzíveis, esse o senão. Mas, no plano do possível, iremos até ao mais radioso impossível. Apago todas as reticências feitas na minha última carta ao grupo em França. O texto que publicam é magnífico, nada soaria melhor. 42


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Idem para a colaboração paulista! De esperar que num possível número seguinte, se chega a existir, a participação portuguesa vá mais fundo, menos improvisada. Vocês têm aí a morada do José Pierre ou semelhante? Sai agora um livrito sobre o Cruzeiro Seixas com palavras minhas a propósito de exposição individual dele aqui, em Novembro — queria enviar-lho. Beijos, beijos, beijos, do vosso Mário 43


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Lisboa, Setembro de 1976 Meus Caros Sérgio e Leila Lima Espero que vocês estejam de aguentável saúde. A última notícia que tive vossa, uma carta da Leila, relatava incidentes maus e saúde abalada do Sérgio. Certo que isso foi há muitos anos passados. Em muitos desses anos esperei notícias vossas, para obter a vossa (então) nova morada mas nada chegou. Uma carta recentemente vinda de Amesterdão, dos Vancrevel, acusa recepção dum livro de Sérgio Lima e isso alegrou-me muito, pois tanto como eu tenho perguntado por vocês, a gente brasileira até, muitos amigos me têm inquirido do vosso paradeiro, do que se tem passado aí convosco, e eu sem poder abrir bico pois de nada sabia, sequer a morada. A meu pedido, a Frida Vancrevel manda-me agora essa (morada). E aqui estou a perguntar e a querer. Eu entretanto estive em vários pontos e portos, dos quais os que mais interessam agora é ter estado no México, Cidado do, em Nova Iorque e em Chicago, assistindo nesta última cidade-monstro à Exposição Internacional Surrealista deste ano, para a qual organizei a participação portuguesa (trabalhos colectivos e cadáveres-esquisitos). Como em Paris, também ali me perguntaram por vocês. E o Paulo Antonio de Paranaguá? Ainda estará preso na anti-pampa argentina? Eu tenho a entrar na tipografia um livro de nome Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial (1924-1976). A vossa participação, à qual de resto rendo homenagem-dedicatória no prefácio, deveu resumir-se aos elementos que tinha, retirados do primeiro A Phala e do livro AMORE — que continuo 44


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a achar um livro essencial. Sai a vossa declaração a três, sai o poema-manifesto do Sérgio ao Surrealismo, sai o poema da Leila «Meu Amor eu Te Falo de Um Amor». Sai a capa do Gogó-de-Sola, do Paulo Antonio, e sairão gravuras de coisas plásticas vossas. Do livro O Corpo Significa, de que o Laurens Vancrevel me enviou, a meu pedido, uma fotocópia (má) da capa, tentarei fazer gravura. Pois não tenho exemplar da publicação. Isto é só um bilhete de alegria por saber-vos à obra e não desistidos. E uma sugestão de renovo do nosso convívio-contacto. E um grande grande abraço do Mário Cesariny

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Lisboa, Outubro de 1976 Querido Amigo Sérgio Lima: Isto é só um bilhete a tranquilizá-lo sobre a recepção dos elementos que recentemente me enviou. Obrigado! E, sobretudo, a dizer-lhe da minha muita alegria em renovarmos o nosso contacto. Mais tarde poderei escrever-lhe mais detidamente. Grande abraço do seu Mário Cesariny

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Lisboa, Outubro de 1986 Meu Muito Caro Sérgio Lima Já há tempo me lembra que o Sérgio me fez pergunta sobre o Herberto Helder, quanto a questões de inclusão ou não numa antologia do Surrealismo em português. Perdoe só ir agora: na antologia que eu, mesmo, preparo sobre o mesmo leque indo-europeu, o princípio (bom? mau? julgo-o o melhor) a que me obriguei foi de, para além dos tais do surto ou susto de 1947-49

Mário Cesariny, Sergio Lima e Herberto Helder, Lisboa, 1994. Fotografia de Lilian Lufti.

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(o O’Neill, eu, que mais? o António Pedro com uma novela semi-automática, ou automática-mesmo, pouco importa já, a que no entanto ele nunca chamou — nem a si próprio chamou, surrealista até à data da formação do Grupo Surrealista de Lisboa (1947-49) — nem a si próprio chamou Surrealista, e que é uma novela totalmente considerável, publicada em 1942 e chamada Apenas Uma Narrativa); para além do susto algo maior dos que seguiram, por 48-49 e formaram grupo, até aí 1953, data da morte do António Maria Lisboa, antecipada pela saída do Cruzeiro Seixas para África e pela «deserção» dos Mário Henrique Leiria e Carlos Eurico da Costa (1952); para além destes, que não refiro todos, há então o encontro dos que desaguaram no Café Royal, já desaparecido, e no Café do Gelo, desaparecido também. Quanto a estes — e pode crer que, aí à roda de 1958, eles ocupavam pelo menos metade das mesas de todo o Café Gelo — o meu critério é ou terá de ser inclusão dos que de uma ou outra maneira participaram de uma actividade colectiva, mesmo mínima — poemas ou textos a dois, como haviam sido os meus com o O’Neill, ou do Carlos Eurico da Costa com o Alfredo Margarido, ou os do Mário Henrique Leiria com o Carlos Calvet, pintor; ou a três, como um meu com o Ernesto Sampaio e o Gonçalo Duarte, este, pintor que vem de morrer em Paris na mais extrema penúria; ou o de Herberto Helder com João Rodrigues e José Sebag. Claro que houve mais textos e mais gentes (não tanta) a fazer estes cadavres-exquis iguais aos da lenda francesa, ou parecidos, porque às vezes escrevia-se em voz alta, mas onde bate o ponto que você quer é a colaboração surrealista praticada pelo Herberto Helder nesses anos cinquenta e oitos, sessentas. E pois… está pois incluso na lista negra-azul que o tempo areja. (Ele tem, ou teve, um pendor lírico 92


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«Grupo Surrealista de Lisboa»: Mário Cesariny, José-Augusto França e Vespeira (em cima), António Pedro, Alexandre O’Neill e João Moniz Pereira (em baixo), 15 de Maio de 1948.

tipo «Cântico dos Cânticos», servido por suma jeitaça para a metáfora-uma-atrás-da-outra-e-é-um-nunca-acabar. Que fazer?) Agora: soube por um brasileiro jovem, doido, e quase bonito, que vos conhece a vocês todos, que o Roberto Piva tem continuado a publicar poemas. O dito doido, que estava de ida para Londres e de quem não me recorda agora o nome, disse que ia arranjar-me esses livros do R. Piva (eu só tenho o primeiro que ele publicou), mas, até hoje, nada. Eu tenho a Poesia do Sérgio Lima, e a do Claudio Willer, (Jardins da Provocação), mas do Piva, nada senão o 1.º (que aliás não sei onde pára, cá nesta minha barraca. Talvez apareça). Haverá remédio para isso? Grande abraço Mário Cesariny Se necessitar de outros esclarecimentos, diga! 93


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Lisboa, Dezembro de 1986 Sérgio Lima, Meu Querido Poeta: Aqui tenho a sua carta e as coisas que me enviou. Muito obrigado, sim? Sabe uma coisa minha? Não sabe, mas vou dizer: estou muito contente de ter apostado, e forte, em si, quando começámos a conhecer-nos-escrever-nos. A gente engana-se muito, não é? O André Breton, por exemplo fartou-se de se enganar (e, às vezes, enganar-nos, mas não era por mal, era excesso de bens!) Pois eu, com o Sérgio, ao menos consigo, não me enganei! Vivó!! Quando, há uma série de anos, lhe deu a macaca brava — depois da XIII Int. Sur. São Paulo — eu pensei e tive muita pena e pensei: outro que a bem ou a mal, obrigado ou à força, vai pôr as chinelas… E não é que você ressuscitou e calou e tornou a ressuscitar e calar e agora, de há uns anos, para cá, é o que vejo: a Fonte da Vida jorra, bela como nunca! Oh, que Abraço! Eu estou feito uma múmia. Mas não falemos de mim, falemos do Piva. A antologia dele, que a meu pedido o Sérgio me enviou, e mais a entrevista homem enfim célebre, É TUDO UM HORROR! Na antologia, os poemas ainda legíveis, quem sabe se aproveitáveis, são os do primeiro livro, Paranoia, livro que eu tenho por aqui em casa e um dia destes me há-de reaparecer. Tudo o mais é pedantismo de em terra de parvos quem tem um olho na cara é poeta e agora tomem lá… O Sérgio acredite que aqui em Lisboa e Porto temos daquilo aos molhos, à tonelada, mas, justiça seja feita, muito e muito melhor, e mesmo assim não presta: nunca vai prestar! Pelo que 94


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vejo, isso aí corre à disparada para o lixo. Não lhes ponha entraves, por favor! Deixe-os ir! Deixa! O Claudio Willer sempre é outra figura e outro verso; mas, pelo que o Sérgio me aponta, é de desconfiar. AH quem é esta gente afinal? ESTA QUE SE PEGA TODA TALVEZ! Mesmo assim, ter traduzido o Lautréamont, e agora o Breton, segundo o Sérgio me diz nesta recente carta, é algo que não deve ser minimizado. Gostava de ter data, nome, editora, cidade, dessas duas traduções. Posso? Visto tal panorama, estou algo inclinado a reservar para o Sérgio Lima e só para o Sérgio Lima o espaço que teria de repartir, decerto ineficazmente, entre três. No prefácio a escrever, posso mencionar o Willer, o Piva e o Paranaguá — e as actividades deles, consigo, nos anos 60 —, e bem ficar por aí quanto a eles. Isto porque a obra publicada (e a publicar!), sua, é já tanta e tão válida que, pelo menos para o que eu quero com esta antologia, nunca estará suficientemente representada. Quanto à actualização da «Tábua Cronológica» do meu livro A Intervenção Surrealista, creio ter-lhe já dito o que já disse ao meu editor, e amigo: não quero actualizar. Teria de começar a apontar quedas no chão, subidas ao telhado, elevadores imobilizados-estragados, etc., etc., e não estou mais para isso. Mas você pode ir perguntando. Decerto haverá algo mais a es[a]quecer e a realçar. Abraço muito grande Mário 95


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É excelente a «ficha» de actividades suas — vou utilizar. Gostaria de ter também, ainda que nem igual nem parecida, a dos Paranaguá, Piva e Willer, para pôr no «Prefácio» (se houver prefácio!) «Revendo»: o melhor do Piva ainda serão aqueles três «Manifestos». A «poesia», nem pensar! Outro abraço Mário

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Lisboa, Outubro de 1995 Querido Sérgio Só para dizer-te que sempre recebi o teu monumental A Aventura Surrealista (estava guardado por uma vizinha que o recebeu [Helena Barbas]). Se entretanto me enviaste outro exemplar, não te arrependas porque o oferecerei à actual Direcção da Fundação Gulbenkian, que mudou de próceres. Os Fernando de Azevedo, os José-Augusto França e os Vespeira que do «Grupo Surrealista de Lisboa», que mal chegou a durar um ano, se passaram em bloco e rapidamente para os mais altos postos operacionais da dita fundação, e nos fizeram uma guerra de morte — pelo silenciamento absoluto — acabaram por sair, por limite de idade, imagina só. Agora a direcção é outra e outras também as perspectivas. E assim que, se não me enviaste já outro exemplar (repito-me), pois não seria mau que me enviasses um para a dita fundação, dirigido ao Director e oferecido à Biblioteca da dita Fundação. Eu tenho dois ou três catálogos (dos tais pesadíssimos) que gostaria também os tivesses tu, para serviço teu e de A Aventura Surrealista. Um, é o da Paula Rego, que pelo casamento com o pintor inglês Victor Willing, agora já falecido, se tornou inglesa mas é portuguesa dos cinco costados e vive em Londres há décadas. Numa entrevista concedida há não muito tempo disse esta coisa engraçada (e, somme tout, profunda): «É-se surrealista, mas não se fala nisso…». O outro é do António Dacosta, também falecido há um par de anos e que foi para Paris em 1947, assinou ma169


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nifestos (2, parece-me) com o Grupo de Paris e deixou de pintar durante quase 30 anos. Quando regressou à pintura, era outro, não menos surrealista, longe disso, e muito mais pessoal, para não dizer genial. O outro é do António Areal, um caso de surrealista, mesmo, e um bem extraordinário pintor — ia dizer um caso único, aqui em Portugal, como consciência crítica, como vida desvairada — morreu em condições tão dramáticas ou tão trágicas que ainda não se sabe (não pode saber-se!) o que «aquilo» foi. Não poderia esquecer-se tampouco o caso do Manuel D’Assumpção, que se suicidou sem hipóteses de retorno: cortou as veias e depois pendurou-se, enforcado. Na noite em que o homem chegou à Lua! A pintura dele começou, ainda que plena de talento, nos anos 40, por aquilo a que já chamei «surrealista-copista» (surrealistas à la Magritte, à la Dalí…) passando-se depois, felizmente, para uma via pessoal mais abstracta, e de um poder pictórico formidável. Estou a ver se passo um destes dias pela Fundação Gulbenkian, conhecer de perto o novo Director (que conheço de nome, que agora esqueço) e convencê-lo a enviar-te esses catálogos. Se o não fizer, poderei emprestar-tos. Num relance, muito a sobrevoo, pelo teu livro, parte I, vejo que vai ficar como documento talvez ainda mais importante do que o foi, no seu tempo, o Dada, Painters and Poets, do Robert Motherwell — quando o Dadaísmo estava completamente em ocultação. Avante, pois! Mas penso que devias dobrar, fazer uma segunda sequência de gravuras em cada Livro. Não o digo por mim, mas pelo exemplo habitual das obras deste tipo. É que o Surrealismo necessita desesperadamente de ser visto, como aliás por demais o sabes também. 170


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A capa saiu um deslumbramento! C’est comme La naissance du surréalisme. Percorrendo a tua bibliografia — mas não sei se me escapou algum item — não vi nomeado o André Breton do Julien Gracq. É uma edição do José Corti, que deverias ler e ter. Sem entrar propriamente no assunto, aponta mais de uma vez para o carácter de seita religiosa dos grupos surrealistas e, mais fundo, para a tentação esotérica-exotérica de Breton. Eu concordo em pleno. É certo que Breton pára sempre no limiar, mas não o é menos que esse limiar está sempre presente onde ele, Breton, está. No ano passado comprei em Paris o livro de memórias do José Corti, Souvenirs désordonnés (Librairie José Corti, 2ème tirage, Paris, 1983). Corti raconte que, d’aprés de témoins vraiment honorables, entre os quais o da própria mulher de Breton, Jacqueline Lamba, Breton se sentia, nos seus últimos anos de vida — e de silêncio, depois dos Prolegómenos a Um Terceiro Manifesto do Surrealismo ou Não (Manifesto que não chegou, o que significa, não quis fazer), Breton se sentia o «homem mais desgraçado do mundo». Corti espanta-se, invocando «o triunfo» do Surrealismo em todo o mundo letrado (que lê ou vê). Eu não me espanto, nada, porque não menos desgraçado, desgraçadíssimo, me sinto eu, embora eu não possa, agora, pintar, ou escrever, seja o que for, que não tenha o marchand à porta a tirar-me a «pintura» e o editor a «obra». Nem seja eu — isto nem se diz! — o Breton. Nem sei de quem tenha à sua volta, agora, deserto maior do que este em que sobrevivo eu. Salva-me — ou mata-me! — o meu terror da faca, da pistola, ou das dores do veneno. Chego a lamentar não ter feito o serviço militar para familiarizar-me, ao menos, com o revólver. Como fez, doutro modo, o, o, o? escapa-me agora o nome 171


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(tão conhecido, aliás!) daquele Dadá (não o Jacques Vaché), que pôs a pistola debaixo da almofada de dormir e tantas vezes dormiu com ela que acabou por ser-lhe simplíssimo pôr o dedo no gatilho e puxar. Para tudo é preciso exercício, não é? A obra minha que reproduziste no livro tiraste-a talvez da litografia do «Chateau Surréaliste de Vieira da Silva e de Arpad Szenes», mas o que aquilo é é uma colagem com elementos de cartas de jogar e papéis de música de antigas antifonias. Fi-la na casa de campo deles, em 1964, em Yèvre-le-Châtel, e é das poucas coisas minhas que alcancei conservar, dos tempos antigos, digo. Há agora umas fotocópias a cor que saem tão belas ou mais do que os originais. Digo-te porque também vou mandar-te, por esse sistema, umas coisas como uma do Pedro Oom, belíssima, outra, ou outras, da Debra Taub, uns post-cards-portugueses-colagens, lindos; do R. Green também (1), bem anti-clerical. A Debra Taub, de acordo com a Leonora Carrington, achou que faltavam certas cartas ao Taroth, e fez, e mandou-me, uma série delas que são uma pequena-grande maravilha. Dessa série ela fez apenas 4 tiragens e pelo mesmo processo da fotocópia a cores. Se estas coisas te interessam ou valem para o teu trabalho, diz-mo. Se não, não me valerá a pena mandar fazer essas (fidelíssimas) cópias, todas elas a cor. (Claro que enviarei outras, minhas, sobretudo colagens recentes. Não tens qualquer obrigatoriedade de publicação. Se alguma servir, serve, se não, guarda-as todas, contigo. Voltando por momentos ao Breton do J. Gracq (com quem — o Gracq — entrei em contacto o ano passado em Paris) deves e devemos lembrar-nos que a biografia de que te falo é obra publicada em plena existência e vida do Breton e não teve deste a menor contestação. Pelo contrário, diria. 172


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Eu tenho — agora não sei onde, mas é encontrável — um muito considerável ensaio, ou estudo, na verdade muito autobiográfico do André Coyné sobre a relação dele com Breton, a consequência, etc., e, sobretudo, quando vem a altura disso, a relação-tentação de Breton ante o esoterismo, e com o René Guénon! São 30 a 40 páginas dactilografadas que ele me enviou para o meu / com o Vancrevel, «Inquérito Homenagem a Breton», saído na Salamandra, de Madrid. Enviou-mas mais de um ano depois da Homenagem Enquête ter sido publicada — e mesmo que me fosse enviada a tempo, não era publicável, com aquela extensão. Permanecem, assim, essas páginas, inéditas, e não creio que o Coyné desdenhasse publicá-las na tua Aventura Surrealista (ele conta-nos também, muito, dos longos anos de amizade que teve com o Cesar Moro, em Lima, Peru). Se queres, envio-te esse testemunho. Diz Um forte abraço Mário Tens a nova edição, realmente monumental, de L’Art magique do Breton? Ed. Phébus, Adam Biro, Paris, 1991; assistida pelo Gerard Legrand, já depois da morte de Breton. Por acaso, aqui, eu estou contra. Creio que a Arte, própria ou impropriamente dita, não tem nada a ver com a Arte Mágica, ou da Magia, também propriamente dita, desde há 500 anos na Europa. Mas isso não invalida o caudal de informações, e posições do Breton no assunto. E a tal tentação do Mágico que não é só o charmeur ou Encantador.

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Lisboa, 1 de Novembro de 1995 Querido Sérgio Afinal, em vez de 1 volume do teu moumental A Aventura Surrealista, Tomo I, já tenho 3! Tenciono distribuí-los assim: entrego 1 à Biblioteca Nacional, outro à da Fundação Gulbenkian, e o outro, evidentemente, a mim-mesmo. Como entreli — já que o volume da obra — o teu ensaio — não dá para ser corrido de uma só vez — que, quanto a Portugal, tencionas basear-te no meu A Intervenção Surrealista (na cronologia dela) — peço-te que não te esqueças que um outro livro meu que te dei na tua passagem aqui em Lisboa, o chamado Vieira da Silva / Arpad Szenes, ou O Castelo Surrealista é, da forma possível mas bem concreta, um, ou o, acrecento ao que falta àquela cronologia na parte referente ao período anterior à formação do primeiro grupo, o auto-cognominado — e ai de mim que também para isso contribuí! — embora afastando-me dele menos de um ano depois da sua primeira aparição (na Imprensa, foi a 1.ª, com o Manifesto sobre o Gomes Leal) — período esse que é importante, como já pudeste constatar no álbum que te enviei do Cândido Costa Pinto — como o é, bastante antes, anos 30, na vertente abstracta (e então precursora!) do Surrealismo em Pintura, o da Vieira da Silva e do Arpad Szenes. Mas há ainda o pintor Júlio (que como poeta assinava Saúl Dias) (tens pintura dele no catálogo que te dei da 1.ª Exposição do Surrealismo Ou Não); e, já nos anos 40, e isoladamente, num fim de mundo aqui chamado Portalegre, o Manuel D’Assumpção fazia pintura surrealista, daquela mesmo ortodoxa, ao tempo, só depois se passando para a vertente abstractizante. 174


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Quanto a «polémicas» envio-te aqui tão somente fotocópia de parte de um livro que realmente não sei se tens, (duvido), e que se chama A Pintura Surrealista em Portugal, do José-Augusto França, que embora fosse — e permanece — do outro lado, me dá inteira razão contra o chamado Grupo Surrealista de Lisboa. (De Lisboa, com a Ditadura e a Censura e a Polícia e Tudo em Cima!). Outras coisas te envio aqui, que espero aproveites ou não, conforme incidir o sopro. A minha lástima é eu não ter memória daquilo que, entretanto, ou tão pouco, saído, te fui mandando. Logo verás. E agora acabo, que já é tarde na noite. Abraço grande, sempre, do Cesariny P.S.: Do Huesóptico (Ossóptico) trad. castelhana de 1 dos livros de versos do António Maria Lisboa só tenho o exemplar que te envio. Devolves-me? 175


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Lisboa, [18] de Novembro de 1995 Querido Sérgio Enviei-te já o voluminoso Catálogo da Retrospectiva do António Areal na Gulbenkian. Espero tenhas recebido. Como era de esperar nenhum dos «ensaios», ou artigos inseridos nele por quem diz que sabe, se referem ao Surrealismo, o que só significa que a manobra continua. Pelo que quero que te conste que o António Areal foi e é um Surrealista consciente e coerente conforme cartas que tenho dele e conforme as suas dele actividades públicas. Também é poeta de versos que continuam inéditos. Tenho-os em minha casa, mas incríveis manobras da família — de parte dela — têm impedido a publicação. Também publicou livros, não de versos, mas de tomadas de posição crítica de grande lucidez. Pelos Tracts surréalistes et déclarations collectives, do José Pierre, que vejo na tua Bibliografia, saberás que o Cândido Costa Pinto e o António Dacosta foram os únicos portugueses que assinaram com o Grupo de Paris, naqueles anos 40. Mas não sabes que o Cândido Costa Pinto foi o 1.º a propor ao Breton a constituição de um Grupo Surrealista aqui (em Lisboa). Por isso foi incluído na Exposição Internacional du Surréalisme, na galeria Maeght, em Paris, em 1947, e depois excluído o quadro dele (no entanto reproduzido no Catálogo da Exposição) por o Breton achar que aquilo era «obsceno». A cabeça do Breton devia estar recheada de visões obscenas, refoulées, para ele achar obscenidade naquilo. Por mim, o que penso é que o quadro era fracote, mas 176


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houve outros recusados pelo mesmo motivo (obsceno) e dos próprios pintores do Grupo de Paris (por acaso, um, de uma pintora aliás bem conhecida, mas de que não me vem agora o nome, que representava um urinol parisino urbano). (Também fracote, este quadro, de onde deduzo que para dizer que não o Breton dizia obsceno…) O catálogo que enviei, do Costa Pinto, é mal feito. Está recheado de selinhos postais que o Cândido fazia para o Estado para não morrer de fome e de outras coisas mais para o mesmo efeito. E o que lá vem como uma Caricatura de Hitler, não é, em absoluto, uma «caricatura», mas um Retrato, a óleo, de Hitler, que bem me lembro de ver nas paredes do SNI, do Governo, (ou do Estado) — e me lembra o meu espanto pela coragem dele, Costa Pinto, de expor aquilo ali, naquele sítio então descaradamente germanófilo. Também me lembro que naqueles anos, (1942, parece-me) o SNI era a única galeria existente em todo Portugal onde os pintores ditos modernos podiam expor. (Compartilho contigo, contentíssimo, o teu ódio ao «modernismo» e «modernistas»). No resto de Portugal só havia outra galeria, ou Salão de Exposições, mas esse reservado a académicos, a «Sociedade Nacional de Belas Artes». Como bem poderás supor, eu não morro de amores pela pintura do Costa Pinto, mas há que reconhecer que ele tem uma meia dúzia, ou mesmo uma dúzia de quadros muito superiores a todos os que os Antónios Pedros, Fernandos de Azevedos, e os Vespeiras (os do Grupo Oficial) fizeram depois, e é o que mais se distancia da horrorosa influência daliniana que o irrequieto Catalão espalhou pelo mundo todo. (A pintura surrealista-mesmo inglesa é toda daliniana e quando se engana e não faz de Dalí faz de Magritte). 177


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Quando depois o Cândido se passa para um mais abstracto, vegetal, que ele chamava bio-morfismo, acho que não fez mal e alguns quadros há, dessa fase, que eu não me importaria de ter em casa. Um. Quanto ao António Dacosta, tenho uma carta dele a dizer-me que, quando chegou a Paris, ao Grupo Surrealista, ficou aterrorizado com a mania dos expurgos, ou expulsões, que imperava no Grupo (casos de Brauner e do Matta, que me lembre) e não foi mais às reuniões. Creio que ele se sentiu também peado pela gloriosa ascensão, nos anos 40, da arte abstracta e pela berraria do existencialismo à la Sartre e Canções. Claro que não é explicação que baste para os 30 anos que ele ficou sem pintar, mas o que importa — parece-me — é que, quando regressa à pintura, deixa de ser o que eu já cognominei de «surrealista copista» — ainda que nesta fase ele seja sem dúvida o maior, entre nós — para cursar uma visão perfeitamente original, muito bela, quase naïf, e não menos, antes mais, surrealista, por própria, do que a outra. Do livrinho do José-Augusto França enviar-te-ei o que pedes, junto com outras coisas mais, como um catálogo do Eduardo Luiz, que vai acabar de arruinar-me junto dos Correios Portugueses. Também não me apaixona o que te enviei do Baptista Antunes, mas este é um caso que merece não ser esquecido. Imagina que o rapaz era pastor de ovelhas das serranias altas deste país, onde convivia alegremente com o seu rebanho. (Diz que os cordeirinhos faziam um broche delicioso). Quis vir para a cidade, apesar dos broches, e foi durante anos rapaz de servir à mesa em restaurantes e hotéis. De súbito, começou a desenhar (a cores) e esse seu início na pintura fez-lhe fazer, a cor, coisas verdadeira178


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mente deslumbrantes, das quais não tenho nenhuma. Um amigo meu, hoje director de serviços na Biblioteca Nacional «descobriu-o» não sei como e quis apresentar-mo. O que fez. Ele atravessa agora — está em Paris — uma fase complicada, qual seja, transplantar para o óleo e para as outras artes ditas «nobres» o caos que descobriu nele, quero dizer: tem de passar da ingenuidade e da inocência primordiais para aquilo a que é costume chamar pintura-pintura, e eu não sei — nem ele! — se o vai conseguir. Mas ele, para pintor-pintor, é ainda muito novo (30 anos, creio) e espera-se que lá chegue. Expôs comigo e com o Francisco Relógio, nos USA, com o grupo dissidente dos Rosemont de Chicago: Tom Burghardt, Tom Burns, Jean-Jacques Dauben, Terry Engel. Alice Farley, Allan Graubard. T.R. Johnson, Chas Krider, Brooke Rothwell, Janine Rothwell, Richard Vasa, Laurence Weisberg. Expunham também eu, o Joaquim Antunes, o Francisco Relógio, o Schlechter Duval, o Eugenio Granell, o Clarence J. Laughlin, o Nanos Valaoritis e a Maria Wilson. A Exposição teve nome: Harvest of Evil — Group Surrealist Exhibition, e fez-se em Columbus, Ohio, em 1983, com magnífico texto introdutório de Jean-Jacques Dauben e Thimoty R. Johnson. Quanto a mágicas e magias, do livro do Breton, ainda bem que estamos em desacordo, para variar, acho eu também. Também acho que (por exemplo), como diz o Novalis, «une jeune fille peut-être une magiciénne bien plus eficaz do que podemos supor», mas o caso é que a Magia, propriamente dita, é uma Ciência, desde os Hebreus, os Incas, os Hindus e mesmo os Sumérios (para não falar nos Persas e nos do Norte, os Shamans da Sibéria) uma Ciência com Leis Próprias e A Prática Delas que nada têm a ver 179


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com Pintura ou Poesia tal a fazemos no Ocidente; e que o forno do Mágico, o Athanor, a Ciência Hermética — e os propósitos desta — nada têm a ver com o atelier do pintor — e muito pouco com a banca do Poeta. Bem sei que tudo é Maya e também sei que o Breton não é parvo e que, da parte dele, é uma confusão — com-fusão — deliberada. No caso do Surrealismo, a proximidade é evidente mas só em muito excepcionais casos e excepcionais circunstâncias será mais do que proximidade. Chamar pois L’Art magique a tudo o que é pintura da boa, como o faz Breton, pode levar, e leva, a confusão ao disparate. E a propósito conto-te um caso que só a uma outra pessoa — um médico que me operou — contei, de tal modo isto me faz impressão para não dizer medo. Ia eu num táxi com um daqueles taxistas muito faladores e que devia pertencer a uma das várias seitas — ou cultos — religiosos que agora por aqui proliferam. De palavras em palavras, sobretudo dele, apercebi-me que ele queria obstinadamente saber o que é que eu fazia neste mundo. De evasiva em evasiva, acabei por dizer-lhe que era pintor. Mas que pintor é? insistia ele. Para acabar de simplificar disse-lhe que era um «artista», um «pintor de Arte». E sabes o que me respondeu? Disse: Ah. Faz obras mortas. Ainda hoje isto me impressiona. E reforça: MÁGICO, é — cito por ser dos últimos — o Aleister Crowley (o inglês). POETA, és tu e o Breton. Parece-me difícil sair disto. Vou dar-te o endereço do André Coyné; e o da Debra Taub e do Robert Green pois claro que é melhor a relação directa. Mas se dos Estados Unidos não vais tratar — e se tratas parece-me que vai haver um não, ou então pancadaria da grossa —. E eu, dos dissi180


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dentes, só tenho a morada do Allan Graubard, (em New York) que não sei como e quando vai emergir da minha papelada. Sei que não respondo a todos os quesitos da tua carta. Mas esta já vai longa e o resto fica para a próxima. Espero, entretanto que me digas se recebeste o catálogo do Areal. Mil abraços, Mário ALLAN GRAUBARD 442 W. 57th St.#3H New York, N.Y. 10019 USA ANDRÉ COYNÉ 35 A Rue de Barcelone 34000 Montpellier França DEBRA TAUB — ROBERT GREEN 1222 W. Grand Avenue Chicago, Illinois, 60622 USA

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Lisboa, Dezembro de 1995 Querido Sérgio Tua carta de 24-11-95 Enviei-te ontem, em correio separado, reprodução da pintura do Malangatana Valente, negro nascido em Moçambique quando meia África central era ainda «portuguesa». Segue aqui agora, com outras coisas, a notícia biográfica que publiquei sobre ele, na Revista Phases, n.º de Novembro de 1973. Antes da Revolução… Sobre o que perguntas na tua última carta a respeito do Aníbal Monteiro Machado a resposta é não. Não o conheci, nem aqui nem em Paris, nem ninguém o conhece aqui hoje, nem a ele nem à sua obra. Aliás, em Paris, não procurei nenhuma das pessoas que o Cândido Costa Pinto me recomendava (o Georges Henein, por exemplo) apenas procurei André Breton e estive com ele, em casa dele, e com o Grupo do Café da Place Blanche. Mas eram tantos, no grupo, que não reconheci o Henein, nem o Aníbal Machado, se este lá estava. Envio-te aqui, agora, a minha última remessa de catálogos e outrens. Quanto a mim, a Paula Rego — dos que vieram depois ou a partir dos anos 50, é a mais-mais. E declara, ou declarou, numa entrevista (e para teu contentamento…) que, para ela, a pintura, ou pintar, é uma operação mágica. Segue-se-lhe o Francisco Relógio, que nunca se declarou como isto ou aquilo mas cuja pintura é surreal nos quatro costados; Eurico, que ainda não conheces, também é importante por ser o único que sempre se declarou surrealista, o que não impediu, antes pelo contrário, de se meter pelo Zen dos pés até 182


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à cabeça. Enfim, seguem também umas coisas do Júlio, que já conheces de ouvir falar, e o catálogo da Retrospectiva do Eduardo Luiz na Gulbenkian. Sobre este, não preciso dizer-te nada porque se vê logo que é e talvez demais mas, várias vezes, transcende, e fica admirável… mas com um poder de execução realmente espantoso. A propósito, ou a despropósito, conto-te esta anedota (se não a contei já): o José-Augusto França, numa das suas idas a Paris, levou pinturas do Vespeira para mostrá-las ao Breton. Este viu, reviu e disse: C’est trop surréaliste! Eram já os anos 50 e Breton já vociferava contra os «surrealistas copistas»… Mas, quanto ao Vespeira, acho eu que nem essa qualidade tem. É demasiado «grosso» na forma e na ideia, quer ser erótico mas não chega lá. (Este «trop surrealista» do Breton está, ou tenho-o eu documentado em fotocópia de uma carta da Nora Mitrani para o Alexandre O’Neill.) Porque será que aqui o Surrealismo, propriamente dito, seguiu mais pela poesia pintada do que pela poesia escrita? Decerto porque o Surréalisme c’est l’oeil — à l’état sauvage… — mas também a Ditadura — a Censura — com bom aparelho montado para vigiar a escrita (literária) mas com falta de recursos, e falta de olho para a pintura. Continuo a pensar que no teu trabalho há uma falta tremenda de reproduções da coisa plástica e muito ambiciono que nos próximos volumes possas suprir essa falta. Terás tu o supracitado n.º de Novembro de 73 da Phases? Vem lá, além do meu artigo sobre o Malangatana Valente (e um poema dele) um extenso artigo meu sobre o Surrealismo aqui, em Portugal — ou melhor, em Lisboa… Aí (nas reproduções de obra 183


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plástica) quis jogar ao imparcial, e botei tudo, os «certos» e os «errados». Mas, no texto, estão as devidas distinções. Se não tens, diz, que eu faço fotocópia e mando-te. E então até logo, está bem? Mário P.S.: Virá em breve à Gulbenkian uma Retrospectiva do Mário Eloy. Deste, que é dos anos 30, também haverás de falar. E do João Rodrigues, de que te enviarei mais proximamente um enfim álbum com os desenhos dele e um texto meu. E também não te esqueça o Gonçalo Duarte que morreu de fome em Paris por, em absoluto, não ser capaz de vender um só quadro dele. Dizia que os quadros dele eram ele-mesmo e que, tal qual ele, nunca os poria à venda. E não pôs!! É o triângulo de suicidas D’Assumpção / Gonçalo Duarte / João Rodrigues de que pus desenho (cadavre-exquis) na minha Antologia do Cadáver Esquisito, de que te dei um exemplar, creio, quando da tua passagem aqui. Mário P.S.: O catálogo da Paula Rego é para me ser devolvido rapidamente, sim? P.S. 2: Afinal, não te mando este catálogo da Paula Rego porque vejo que já tens reprodução de pintura dela no catálogo da «Primeira Exposição do Surrealismo Ou Não», da Galeria São Mamede, que te dei. Cesariny 184


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P O S F ÁCIO

Per f ec t o E . Cuad rad o


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D E PIRAS S UN UN GA A L ISBOA- OS- SUSTOS: O M ES M O M AR, O MESMO FOGO

Seguindo com a publicação da correspondência de Mário Cesariny, aparecem agora as cartas trocadas com Sergio Lima entre 1967 e 1995. Um pormenor artístico-ortográfico: escrevemos Sergio, sem acento, como ele sempre o escreveu e nele se reconheceu sempre, mas mantemos o acento nas cartas de Mário, como respeitamos sempre as particularidades da sua escrita (em português, castelhano, francês ou inglês). Sergio Lima — o artista plástico e o poeta — é já um autor conhecido em Portugal, sobretudo depois da sua recente e reiterada presença graças a autores como Miguel Pérez Corrales, António Cândido Franco e sua revista A Ideia, Miguel de Carvalho e o Cabo Mondego Section of Portuguese Surrealism ou à Fundação Cupertino de Miranda de Vila Nova de Famalicão, que realizou duas exposições da sua obra plástica em 2007 — Retorno ao selvagem — e em 2016 — Fogo ténue incendeia o corpo — e lhe dedicou o sexto dos Cadernos do Centro de Estudos do Surrealismo (hoje Centro Português do Surrealismo) com os seus Poemas Tableau sob o não-subtítulo e não-lema de «vivant comme tes yeux éperdus d’amour». No Catálogo da exposição de 2007 recolhia-se um texto do surrealista tenerifenho Miguel Pérez Corrales que resumia e definia com o seu habitual rigor apaixonado o percurso de Sergio Lima, ligado desde sempre ao Surrealismo e sobretudo desde que em 1961 viajou para Paris onde Breton tinha levantado nova187


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mente a pirâmide da liberdade, do amor e da poesia. Do Catálogo recolhemos o que o próprio Sergio confessava: «Eduquei-me num ambiente artístico. O meu pai era um pintor, e através dele pude entrar em contacto com algumas orientações que me aproximaram da poesia e da arte: foi, porém, pela via do cinema que fiz a minha entrada no surrealismo. Em 1954 durante as festas do centenário de São Paulo teve lugar o primeiro festival de cinema e ali foram apresentados filmes dos começos do surrealismo como El perro andaluz; tudo isso me atingiu. Abriram-se para mim novas perspectivas. Uma espécie de explosão, como se me revelaram novamente as fontes da vida. «Foi precisamente o surrealismo o que me revelou o mundo da poesia. E quando digo poesia não me refiro à versificação. […] Para mim poesia é uma maneira de agir, de viver a vida. Uma atitude, um acto essencial, alguma coisa do próprio espírito. Uma vivência fundamental que se relaciona com o mito, que vai além do mito até se aproximar do próprio mistério. «Justamente o surrealismo não é uma postura formal. E por isso não se pode incluir o surrealismo na seriação historicista. O surrealismo não é um estilo. Este é um erro enorme. Não é possível […] Nas palavras de Breton: “o surrealismo situa-se na cauda do cometa da revolução romântica. Não representa nem um estilo nem uma escola. O que nos chega da grande revolução romântica é o seu desassossego. A sua grande denúncia da perda do sagrado, da robotização, da industrialização, do afastamento do homem da natureza.”»

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E agora, já como referência específica ao Brasil e à América Latina, apontava em 1993 no n.º 1 da revista Escrituras Surrealistas do Grupo Surrealista de São Paulo: «O Surrealismo é uma luta pelo humano e sua poesia, é uma questão do homem-desejo, o que é distante de qualquer nacionalismo ou regionalismo. Vale lembrar que se dá, além disto, de modo diverso dos demais “ismos” formais e outros sectarismos. Como sublinhou Eunice Odio: “de modo igual ao que acontece em todos os países latino-americanos, o Surrealismo não é um programa, é uma necessidade autêntica (onde) não estão agrupados os artistas no sentido formal ou de conteúdo, embora estejam ligados por uma magia profunda”. Isto é, poderíamos dizer que os artistas e poetas do Surrealismo se correspondem, além de sua situação histórica, pela sua militância numa aventura sob ocultação.» E Miguel Pérez Corrales afirmava: «Sergio Lima é um dos grandes ensaístas, poetas e artistas do surrealismo e do Brasil; é também um dos máximos expoentes da ética surrealista, assumida com todas as suas consequências. Manteve-se sempre afastado da literatura enquanto espectáculo e da arte vista como um investimento sempre lucrativo, que é aquilo em que se tornou há já bastante tempo. Isso explica que Sergio Lima não seja devidamente conhecido, tal como o devia ser. […] «Sergio Lima chegou a Paris em 1961, contando então 20 anos, decidido a estabelecer contacto com o grupo surrealista parisiense 189


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— que foi sempre um grupo internacional, pelo que, se houver realmente algo que nunca existiu, foi precisamente isso a que os despistados chamam o “Surrealismo francês”. Tal como tantos outros, ficou espantado com aquele punhado de seres em estado de revolta, e muito particularmente com o coração do grupo, que era André Breton. «Em conexão com o grupo de Paris, Sergio Lima colaborou na magnífica revista La Brèche. Dois anos depois (1963) publica Amore, um livro único, dedicado a “A Mulher Nocturna” e que vai agora ser reeditado. Iniciava aqui Sergio Lima uma autêntica aventura poética. Existem umas fotografias de Kertész que viriam a supor algo novo no campo da fotografia erótica. Isso parecia impossível, mas ocorreu: trata-se das Distorções de Kertész. O mesmo diria eu da poesia. A poesia de Sergio Lima é, a meu modo de ver, a única verdadeiramente original dos últimos trinta ou quarenta anos. Um verdadeiro torrencial de imagens convulsivas e revulsivas num tremendo paralelismo com a natureza tropical e todo o seu jorro de vida. «Essa aventura poética realmente desmesurada, e que me faz lembrar os poemas de Apollinaire, um outro grande erotómano, às suas amadas Lou e Madeleine — mas em Sergio Lima, feliz e evidentemente, sem a parafernália bélica — será alimentada até hoje por Sergio Lima. A Alta Licenciosidade reúne a sua poesia desde 1965 até 1985. Em cada uma das suas páginas está patente a convicção de que a poesia é a “experiência de uma presença”, a “fidelidade a essa emoção inicial da presença que nos revela o outro e a sua imagem, esta memória erótica que é o amor”. Repito: esta memória erótica que é o amor, porque, como dizia Bataille, “a poesia leva ao mesmo sítio que o erotismo.” 190


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«O que quero dizer é que a poesia e o pensamento de Sergio Lima definem a permanência desse mundo primordial, não precisamente próximo, mas antes unido à natureza desse mundo que os surrealistas não se cansaram de celebrar. O que significa que nem tudo foi destruído por Anchieta nem pelos seus seguidores. Significa que, nas condições mais adversas, e por mais gigantesco e brutal que seja o que domina e esmaga, a vida e a poesia nunca morrem. E mesmo que aqueles consigam vencer, essas sempre estarão aí. Contra tudo e contra todos.» O Surrealismo é justamente o mar de descobertas e naufrágios onde navegaram juntos Mário Cesariny e Sergio Lima, junto a muitos outros que sentiram a necessidade e a urgência românticas de sair da caverna à procura da luz e do caminho para a conquista do Absoluto (no conhecer, no sentir e no dizer uma realidade reabilitada, uma realidade poética, isto é, transformada e transtornada pela imaginação, como Cesariny pedia). Nos anos em que se inicia a relação epistolar — que depois seria também pessoal — entre Sergio e Mário, isto é, na década de 60 do século passado, e com a intermediação do surrealista argentino Aldo Pellegrini, são os anos da publicação da antologia Surreal-abjeccion(ismo) (Lisboa: Editorial Minotauro, 1963) e A Intervenção Surrealista (Lisboa: Ed. Ulisseia, 1966) de Cesariny e os anos também em que Sergio Lima publica o seu primeiro e muito singular livro Amore (São Paulo: Massao Ohno, 1963), activa o Grupo Surrealista de São Paulo (no qual participaram, entre outros, Leila Ferraz, Raul Fiker, Nelson Guimarães de Paula, Floriano Martins, Claudio Willer, Konrad Zeller, Marcus Salgado ou 191


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Alex Januário), organiza em São Paulo (1967) a 1.ª Exposição Surrealista do Brasil (XIII Exposição Internacional do Movimento dos Surrealistas) e publica A Phala: Revista do Movimento Surrealista (São Paulo: Faap, Agosto 1967), na qual participam, da parte portuguesa, Cruzeiro Seixas, António Maria Lisboa, António José Forte, Pedro Oom, João Rodrigues, Mário Henrique Leiria e Mário Cesariny. A esse 1.º número de uma das revistas surrealistas internacionais mais importantes se seguiriam depois um n.º 2 (Sevilha: Publidisa, Janeiro 2013) com intervenção de Mário Cesariny, editorial de Sergio Lima e Miguel Pérez Corrales, editada com a colaboração da editorial de Tenerife La Página, e um n.º 3 com dois tomos (Carnaval 2015), que dedica três importantes capítulos ao Cabo Mondego Section of Portuguese Surrealists (Miguel de Carvalho, Pedro Prata, Nuno Moura, Claudia Sampaio, Luiz Morgadinho, Rui Pires Cabral, Seixas Peixoto, Manuel de Freitas e Cristina Vouga), ao Surrealist London Action Group e ao Grupo Surrealista de São Paulo, DeCollage e amigos. Este número 3, para além dos dois tomos citados, acrescenta em Setembro de 2016 um Complemento Português em que se destaca o artigo assinado por Miguel Pérez Corrales sobre as «Notas para a compreensão do Surrealismo em Portugal por António Cândido Franco». Em Portugal, A Phala conheceu uma revista homónima publicada pela Assírio & Alvim e hoje agrupada em 4 volumes (I-1986/1990; II-1991/1994; III-1994/1997 e IV-1998/2003), e mais um número especial dedicado a «Um Século de Poesia Portuguesa» (1988) e uma «ressurreição» com novo formato de que só apareceu o primeiro número dedicado a Mário Cesariny (2007). 192


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As cartas de Mário Cesariny para Sergio Lima, como as enviadas para Laurens Vancrevel ou Cruzeiro Seixas, são um documento importante para a história do Surrealismo e, de maneira muito especial, para a história da intervenção surrealista em Portugal e no Brasil e as suas ligações através do diálogo entre dois dos seus protagonistas maiores. A extensa carta de 23 de Agosto de 1967 é particularmente interessante para conhecer alguns aspectos da intra-história da intervenção surrealista em Portugal, e coincide com a exposição de Cesariny e Cruzeiro Seixas na Galeria Divulgação, o que se liga com a especial alusão do primeiro à obra do segundo nos seguintes termos: «O Cruzeiro Seixas é realmente o maior poeta plástico de que tenho notícia aqui. É uma força que só a nossa pequenez de velho país agrícola, esquecido do universo e marginado por ele, consegue murar, adiando até ao infinito a projecção que merece. É um índio navajo, e a actual transformação artístico-geral do objecto-poético em objecto-artístico feito para vender, lavar e durar, tampouco ajuda o sentido assumido. Belíssimo, se conseguissem levá-lo até aí, fazer-lhe uma exposição.» Também merecem destaque especial a carta de Setembro de 1976 onde Cesariny anuncia a próxima aparição de Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial (1924-1976), que seria publicado em 1977 pela editora Perspectivas & Realidades, ficando sem publicação o prometido segundo volume dedicado a O Surrealismo em Português e em Espanhol (que em carta de 7 de Maio de 1978, e já com a colaboração de Francisco Aranda, passaria a chamar-se Surrealismo Ibérico), as referências à Exposição de Chicago de 1976 (carta de 27 de Outubro de 1976), as cartas em que se refere à sua participação no grupo PHASES e o seu afasta193


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mento na altura da incorporação muito activa de Cruzeiro Seixas nele, as referências constantes às suas próprias obras (por exemplo, na carta de Janeiro de 1988, ou as cartas em que fala da série Noa-Noa e outros Surrealist Papers que ainda esperam a sua reunião em livro) e as críticas elogiosas às obras de Sergio Lima. Esta edição das cartas de Mário (que continua a sua viagem no Navio de Espelhos à procura do segredo da Pirâmide) e Sergio (no seu «pequeno bosque verde cercado pelo bares da Vila Madalena» de São Paulo) fica enriquecida com as muitas fotografias seleccionadas pelo próprio Sergio Lima e que acompanham o percurso da correspondência ilustrando os assuntos que considerou mais relevantes o autor de O Corpo Significa e A Alta Licenciosidade. Poetas os dois da palavra mágica que invoca e convoca os nossos «obscuros objectos do desejo» de que Buñuel falava, poetas do triângulo equilátero formado pelo amor, a liberdade e a poesia, quero acabar esta apresentação-homenagem cordial com os últimos versos do poema «A anunciação de fogo» de Sergio Lima: em uma alcova completamente negra você entra com seu véu de sangue terei finalmente seus aquáticos lábios de rainha você traz a anunciação de fogo ao vê-la entro em transe e experimento o delírio do amor sublime

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ÍN D ICE O NO MÁSTIC O

Antunes, Joaquim Baptista, 178-179 Anchieta, José de, 191 Aranda, José Francisco, 59, 87, 193 Apollinaire, Guillaume, 190 Areal, António, 107, 162, 167, 170, 176, 181 Arias, Alberto, 16 Artaud, Antonin, 19, 32, 121, 131, 133 Azevedo, Fernando, 29, 98, 169 Baciu, Stefan, 48, 62, 75-76, 81 Barbas, Helena, 169 Bataille, Georges, 121, 190 Beauvoir, Simone de, 134 Bédouin, Jean-Louis, 14, 28 Biro, Adam, 87, 173 Bocage, Manuel Maria Barbosa du, 97, 106 Botas, Mário, 50 Bounoure, Vincent, 53, 61, 84-85 Bourliouks, 109 Brauner, Victor, 106, 178 Breton, André, 16, 26, 29-31, 53, 87, 94-95, 121-122, 133-134, 141, 150, 154, 156, 162, 168, 171-173, 176-177, 179-180, 182-183, 187-188, 190 Bruna, Carmen, 16 Bryen, Camille, 154 Buñuel, Luis, 87, 194 Burghardt, Tom, 179 Burns, Tom, 179 Cabral, Rui Pires, 192

Calvet, Carlos, 92 Campos, Augusto de, 109 Campos, Haroldo de, 109 Carlon, Enrique, 123 Carrington, Leonora, 172 Carvalho, Adriano de, 36 Claudel, Paul, 109 Carvalho, Miguel de, 187, 192 Cesariny, Henriette, 4, 158 Corrales, Miguel Pérez, 102, 104, 123, 125, 156, 187, 189, 192 Corti, José, 171 Costa, Carlos Eurico da, 17, 92 Coyné, André, 173, 180-181 Crowley, Aleister, 130-131, 180 Cruz, José Santos, 60 Cruzeiro Seixas, Artur Manuel do, 17, 32, 43, 49-50, 57, 92, 106, 160, 162, 165-166, 192-194 D’Assumpção, Manuel, 107, 160, 170, 174, 184 Dacosta, António, 31, 167, 169, 176, 178 Dalí, Salvador, 170, 177 Dauben, Jean-Jacques Jack, 113, 179 Delacroix, Eugène, 104 Dias, Cícero, 31 Dias, Saúl, 174 Dil, Fernando, 72 Domingues, António, 26 Dominguez, Oscar, 154 Duarte, Gonçalo, 92, 160, 184

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Duarte, Lélia, 67, 68 Duchesne, Marc, 65 Dutra Faria, Francisco de Paula, 154-155 Duval, Schlechter, 179 El Janabi, Abdul Kader, 83, 88, 114 Eloy, Mário, 184 Éluard, Paul, 122, 134, 139 Engel, Terry, 179 Escada, José, 160 Farley, Alice, 179 Ferraz, Leila, 191 Ferro, António, 168 Fiker, Raul, 24, 42, 191 Forte, António José, 192 França, José-Augusto, 22, 26, 29, 93, 107, 167-169, 175, 178, 183 Franco, António Cândido, 187, 192 Freitas, Manuel de, 192 Gauguin, Paul, 113, 126, 147, 158 Gomes Leal, António, 174 Gorky, Arshile, 166 Gracq, Julien, 171-172 Granell, Eugenio, 179 Graubard, Allan, 179, 181 Green, Robert, 172, 180-181 Grenier, Silvia, 124 Guénon, René, 173 Guiard, Silvia, 16 Hausmann, Raoul, 32, 109 Hayter, Stanley-William, 155 Helder, Herberto, 91-92 Henein, Georges, 182 Hitler, Adolf, 168, 177

Huidobro, Vicente, 134 Hulet, Claude L., 62 Iglésias, Maria Alexandra, 75, 90 Iglésias, Tito, 75, 78, 81, 105, 144, 149, 156 Jaguer, Édouard, 47, 52, 57, 80, 83, 85, 88, 106 Januário, Alex, 192 Jarry, Alfred, 144, 147 Johnson, Thimoty R., 179 Kertész, 190 Klebnikov, 109 Krider, Chas, 179 Labrin, António Leal, 83, 85 Lamba, Jacqueline, 171 Latorre, Carlos, 15, 25 Laughlin, Clarence J., 179 Lautréamont, Conde de, 38, 95 Leal, Raul (Henoch), 128, 130-131 Legrand, Gérard, 173 Leiria, Mário Henrique, 17, 75, 92, 105-106, 192 Lemos, Fernando, 29, 98 Lénin, Vladimir, 109, 164 Lichtenstein, Roy, 157 Lima, Leila, 24, 34, 36, 38, 42, 44-45, 51 Lisboa, António Maria, 13, 15, 17, 19, 24, 27, 29, 54, 56, 75, 92, 97, 103, 105, 108, 122, 127, 149-150, 175, 192 Lobillo, Jorge, 77 Losfeld, Eric, 88 Lourenço, M.S., 63 Lufti, Lilian, 4, 91, 157-159, 161, 163 Luiz, Eduardo, 178, 183 Lyle, John, 64, 72 Machado, Aníbal Monteiro, 182 Maddox, Conroy, 86

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Maeterlinck, Maurice, 150 Magalhães, Fernão de, 126 Magritte, René, 170, 177 Maiakovski, Vladimir, 109 Mar, Julio Del, 16 Margarido, Alfredo, 92 Martinho, Virgílio, 31 Martins, Carlos, 160 Martins, Floriano, 133, 139, 148, 191 Martins, Maria, 38 Marx, Karl, 89 Mateos, Manuel Rodriguez, 140 Matta, Roberto, 178 Matthews, J.H., 61-62 Matsinhe, Inácio, 48, 160 Meireles, Cecília, 140 Mendes, Murilo, 140 Meyrelles, Isabel, 106 Miller, Artur, 29 Mitrani, Nora, 14-15, 102, 127, 183 Moisés, Carlos Felipe, 40, 54, 105, 111, 125 Monteiro, Manuel Hermínio, 98, 141 Morais, Eduardo Jardim de, 51 Morgadinho, Luiz, 192 Moro, Cesar, 173 Motherwell, Robert, 170 Moura, Nuno, 192 Muñiz, Grandizo, 110 Neruda, Pablo, 73 Nery, Ismael, 53, 60, 65 Neto, João Cabral de Melo, 32 Neves, João Alves das, 23, 34 Ngwenya, Malangatana Valente, 48, 182-183 Novalis, 150, 179 Odio, Eunice, 189 O’Neill, Alexandre, 14, 24, 26, 29, 80, 92-93, 103, 183

Oliveira, António Braz de, 128 Oom, Pedro, 14, 17, 30, 75, 105, 150, 172, 192 Oppenheim, Meret, 134, 139 Paranaguá, Paulo Antonio, 30, 42, 44-45, 48, 51, 95-96 Pascoaes, Teixeira de, 15, 131, 138, 140, 149-151 Passeron, René, 87 Paula, Nelson Guimarães de, 191 Paz, Octavio, 59, 64, 76, 109, 148-149, 163-164 Pedro, António, 29, 92-93, 98, 106, 154-155 Peixoto, Seixas, 192 Pellegrini, Aldo, 13-16, 22, 25, 31, 38, 40, 42, 51, 191 Pereira Coutinho, 165 Pereira, Henrique Risques, 17 Pereira, João Moniz, 26, 93 Péret, Benjamin, 13, 15, 25, 27, 29, 110, 120, 140, 148 Pessoa, Fernando, 14, 128-131, 149 Pierre, José, 28, 43, 80, 83, 85, 87-88, 176 Pinto, Cândido Costa, 24, 167-168, 174, 176-177, 182 Piva, Roberto, 32, 51, 93-96 Prade, Péricles, 150 Prata, Pedro, 192 Rais, Gilles de, 130 Rego, Paula, 169, 182, 184 Relógio, Francisco, 179, 182 Rimbaud, Arthur, 54, 122, 126, 147 Robotnik, Ricardo, 16 Rodrigues, João, 31, 92, 160, 184, 192 Rodrigues, Miguel, 23, 34 Rojo, José Manuel, 123, 125

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Rolão Preto, Francisco, 155 Rosemont, Franklin, 47-48, 60, 89, 179 Rosemont, Penelope, 47-48, 89, 179 Rothwell, Brooke, 179 Rothwell, Janine, 179 Sá-Carneiro, Mário de, 130 Sade, Marquês de, 90, 97, 106 Salazar, António de Oliveira, 90, 168 Salgado, Marcus, 191 Sampaio, Claudia, 192 Sampaio, Ernesto, 23, 28, 36, 92 Santos, Fernando Alves dos, 17 Santos, José Manuel dos, 110 Sartre, Jean-Paul, 178 Schuster, Jean, 80, 83, 85, 87 Schwitters, Kurt, 32, 109 Sebag, José, 92 Soares, João, 69 Soares, Mário, 69, 110, 127 Sobral, Luís Moura, 127 Stálin, Josef, 46, 109, 164 Szenes, Arpad, 98, 140-141, 155, 167, 172, 174

Vaché, Jacques, 172 Valaoritis, Nanos, 179 Van Gogh, Vincent, 158 Vancrevel, Frida, 44, 47 Vancrevel, Laurens, 44,-45, 47, 173, 193 Vasa, Richard, 179 Vespeira, Marcelino, 29, 31, 93, 98, 169, 177, 183 Vieira da Silva, Maria Helena, 98, 140-141, 167, 172, 174 Vieira, Padre António, 149 Vouga, Cristina, 192 Weisberg, Laurence, 179 West, Philip, 72 Westphalen, Emilio Adolfo, 62 Warhol, Andy, 157 Willer, Claudio, 32, 80-81, 93, 95-96, 191 Willing, Victor, 169 Wilson, Maria, 179 Zanini, Walter, 47-48 Zeller, Konrad, 191

Taub, Debra, 172, 180-181 Tavares, Vitor Silva, 148 Tomás, Américo, 49 Trevelyan, Julian, 155 Ungaretti, Giuseppe, 154

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© HERDEIROS DE MÁRIO CESARINY, 2019 © SERGIO LIMA © FUNDAÇÃO CUPERTINO DE MIRANDA PRAÇA DONA MARIA II, 4760-111 VILA NOVA DE FAMALICÃO © SISTEMA SOLAR, CRL (DOCUMENTA) RUA PASSOS MANUEL, 67-B, 1150-258 LISBOA 1.ª EDIÇÃO, NOVEMBRO DE 2019 ISBN 978-989-9006-02-7 NA CAPA: MÁRIO CESARINY E SERGIO LIMA, LISBOA, 1994 FOTOGRAFIA DE LILIAN LUFTI (PORMENOR) FIXAÇÃO DO TEXTO E REVISÃO: LUÍS GUERRA DEPÓSITO LEGAL 464197/19 IMPRESSÃO E ACABAMENTO: PUBLITO – ESTÚDIO DE ARTES GRÁFICAS PARQUE INDUSTRIAL DE PINTANCINHOS, 4700-727 BRAGA


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Mário Cesariny, «Sinal Respiratório — Cartas para Sergio Lima» by Sistema Solar - Documenta - Issuu