Rui Calรงada Bastos
Rua Conde das Antas 53–B 1070-069 lisboa
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Ideias e anotações, ou uma proposta de reflexão a partir de Unsettling Affairs Ideas and annotations, or a proposal for a reflection based on Unsettling Affairs AnA AnAcleto
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Debrucemo-nos sobre a exposição Unsettling Affairs que se constitui, até à data, como a mais vasta apresentação individual de Rui Calçada Bastos no contexto nacional e que, assumindo uma tipologia antológica, apresenta um conjunto de obras inéditas resultantes da sua mais recente produção, em articulação com uma selecção de obras já pré-existentes. Tomando de empréstimo o título de uma obra nova, de carácter performativo – especificamente criada para o contexto da exposição – que ocupa toda a área de uma das quatro salas da galeria, a exposição propõe-se como um momento de reflexão sobre um núcleo de trabalhos disciplinarmente distintos que partilham entre si um conjunto de preocupações em torno da inquietude e das suas manifestações. Assunto caro ao universo criativo do artista que resulta, em grande medida, de um fazer amplamente alicerçado no sujeito e numa relação eminentemente empírica com o que lhe é exterior. Mantendo-se fiel ao seu fascínio pelo quotidiano e pelos acontecimentos e incidentes vulgarmente invisíveis que têm lugar nos contextos urbanos por onde circula ou (diríamos) deambula, o artista apresenta, na primeira sala da galeria, um conjunto de imagens fotográficas de grandes dimensões (parte da série Untitled [Pp. 17, 32, 36, 46] que tem vindo a desenvolver desde 2016) e cujo carácter diarístico reforça a obsessão e a infinita curiosidade que denota o seu olhar. A articulação destas imagens com obras escultóricas (com um carácter mais instalativo) é particularmente pertinente. Essa experiência de encontro do olhar, em deriva, com os acasos e incidentes que lhe são exteriores, dá lugar no atelier a conjuntos de formas tridimensionais que testam relações improváveis e que, mais tarde, em contexto expositivo se apresentam ao espectador propondo um diálogo estranhamente familiar com as impressões bidimensionais. Recuperando e fazendo eco, tanto da tradição da escultura minimalista quanto da apropriação dadaísta de objectos encontrados, o artista constrói momentos de tensão, pondo em evidência as questões que tradicionalmente associamos à relação que temos com a escultura – peso, equilíbrio, matéria, corpo, imobilidade ou dinâmica. Ao percorrermos as salas seguintes deparamo-nos com um conjunto de obras formalmente distintas das anteriores mas cuja presença assume, de forma indelével, o mesmo sentido diarístico, o mesmo carácter obsessivo, a mesma atenção no olhar. Diríamos que talvez mais próximas do desenho na sua componente expandida – um número significativo de obras em que a colagem de papéis encontrados assume o protagonismo – estas obras voltam a evocar a ideia de deriva, de errância, de distância e de viagem, reforçando a importância da memória enquanto ferramenta de acesso a um contexto ausente. A partir da referência directa à carta enquanto objecto de comunicação – que sublinha a distância mas permite o acesso à memória e estimula a imaginação – reconhecemos a presença de uma ideia de deslocação continuada, de afastamento, de ausência, um entendimento da viagem enquanto processo de conhecimento
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