TÍTULO DO ORIGINAL: NOTRE-DAME DES RATS
© SISTEMA SOLAR, CRL (2020) RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES 1.ª EDIÇÃO, MARÇO 2020 ISBN: 978-989-8833-44-0 CAPA: PINTURA DE ARNOLD BÖCKLIN (PORMENOR), 1871 REVISÃO: DIOGO FERREIRA DEPÓSITO LEGAL: 469038/20 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA EUROPRESS RUA JOÃO SARAIVA, 10 A 1700-249 LISBOA PORTUGAL
Não são poucos, os maus abraços entre religiões. Um deles persistente e nunca desarmado pelo tempo, em Jerusalém cidade ferida com a incómoda convivência de lugares sagrados para os fiéis de três religiões. Lá muito para trás, dentro de névoas que enfeitam os mais remotos tempos da Bíblia, Salomão edificou com grande largueza de meios o templo onde se venerava o eloim Iahvê e que até guardava — quis fazer-se crer — a Arca da Aliança com as Tábuas da Lei gravadas em pedra no monte Sinai pela caligrafia de uma excelsa sarça ardente. Esse templo e a muralha da cidade foram depois arrasados por Nabucodunosor, poderoso rei do império babilónico que se mostrava com grandes energias de conquistador e, quanto a poderes divinos, com exclusivas simpatias pelo eloim Baal; ainda mais tarde, o rei-fantoche Herodes o Grande, subserviente ao poder de Roma, deitou abaixo o segundo templo reconstruído entretanto pelo modelo assírio e edificou «o seu» templo, que rivalizava em prestígio arquitectónico com os dias gloriosos de Salomão. Mas este «templo de Herodes» foi por sua vez arrasado durante a destruição da cidade pelo imperador romano Tito Flávio Vespasiano no ano 70 D.C., e o seu lugar veio também a suportar — numa incansável sucessão de pedras sobre pedras — um templo dedicado a Júpiter Capitolino. De toda esta insistência demolidora e edificadora sobraram restos
6
A p r e s e n ta ç ã o
bastantes para ser restaurado o gigantesco muro de suporte chamado agora Muro das Lamentações, com pedras que sobraram de múltiplas arremetidas nefastas à glória de Iahvê, venerado como supremo símbolo pelos leitores da Tora. Não muito longe do lugar das lamentações judaístas fica outro lugar sagrado, atribuído ao túmulo humano do Cristo, filho híbrido de Iahvê, nem todo homem nem todo Deus, olhado com alguma indiferença pelos fiéis do Muro mas venerado com religioso fervor por todas as religiões cristãs. Como se tudo isto a Jerusalém não bastasse, o anjo Gabriel — o anjo emissário que já tinha anunciado a Maria os pormenores mais singulares da sua gravidez extra-conjugal não ferida por adultério (essa falta tão condenada no Velho Testamento da Bíblia), fazendo-a saber que era escolhida para uma inédita complexidade conceptiva que teria por consequência um primogénito divino mas também humano (tão tocado por seduções humanas, que as verdades segundo São Mateus lhe chamam, em XI-19, «comilão e beberrão»). — Como se tudo isto a Jerusalém não bastasse, este mesmo anjo Gabriel interpelou Maomé no seu retiro do Monte Hira, perto de Meca, para lhe ser dito que seria ele «o último profeta enviado à humanidade» e para levá-lo numa só noite até à cidade judaica, abreviando com as asas de um fantástico al-Buraq — cavalo com cabeça feminina — a viagem de três dias que essa distância pediria a um saudável camelo. O al-Buraq foi amarrado a um canto do Muro das Lamentações, e Maomé subiu com Gabriel desde o local que hoje se chama mesquita al-Aqsa até à muito elevada presença do eloim Alá. Jerusalém passou, com todos estes momentos de multi-religiosa consagração, a ter dentro de si lugares muito venerados pelos
A p r e s e n ta ç ã o
7
judaístas, pelos cristãos e pelos maometanos, e a ser ponto nevrálgico de três religiões pouco dadas à coexistência pacífica; e se já tinha sido politicamente dominada por sucessivos poderes que lá sentaram Roma, Bizâncio, os Persas, os Árabes, os Turcos e novamente os Árabes, ficou entregue à mão forte do sultão egípcio al-Malik al-Ashrat, primo de Maomé, que a conquistou no ano 1129. O catolicismo ocidental e os reis que lhes estavam obrigados resolveram então revoltar-se contra o supremo desacato — ter os lugares do Cristo secundarizados ou até desprezados pelos devotos de Alá. Inventaram-se as Cruzadas. O concílio de Troyes criou, nesse mesmo ano de 1129, uma ordem religiosa e militar vocacionada para a que se chamou Guerra Santa. E durante os séculos XII e XIII os peregrinos do Ocidente tiveram uma eficaz protecção militar às suas piedosas incursões nos lugares centrais da veneração cristã, permitindo-lhes que percorressem com segurança as estradas de Jaffa a Jerusalém e de Jerusalém ao Jordão. Mas os cruzados monges-guerreiros, que na luta a favor do Cristo foram chamados templários, não se contentaram com esta missão protectora; a sua religião, que ao fazê-los monges com votos de pobreza e castidade também lhes dava armas e incutia um muito aceso espírito guerreiro, bem depressa tornou visível a sua vocação latente de saque e violação, e que este piedoso voluntariado entre «infiéis» os especializava em requintes de violência e desmesuradamente os enriquecia. Um século e meio depois (em 1291) já a sua vitória, com dias que a tinham dado por tão firme, estava a esmorecer; confrontos nem sempre vencedores contra as forças inimigas «infiéis» culminariam com a derrocada final, a que levou à desastrosa perda de São João d’Acre, porto principal de Jerusalém.
8
A p r e s e n ta ç ã o
Restou aos templários abandonar a Terra Santa com uma sensação de batalha perdida, e regressar aos seus países de origem. Confortados pelas riquezas imensas que tinham trazido da sua missão piedosa, religiosa, ferozmente bélica e saqueadora, instalaram-se em castelos e conventos bem defendidos, e inspiravam invejas aos poderes real e papal; exibiam um orgulho de casta que se pretendia acima das leis com domínio sobre os outros cidadãos; cobravam impostos aos lavradores das terras que a perder de vista rodeavam os seus castelos; tinham práticas religiosas heterodoxas, consideradas hereges, com ecos pagãos e licenciosos que alimentavam comentários por vezes exagerados na sua importância mas com qualquer coisa a sobrar-lhes de inegável verdade. Estes desvios construíram-lhes uma fama de sodomia e de uma adoração de ídolos com uma génese perversa.
Templário a ter práticas sexuais com um eclesiástico, num manuscrito do século XIV.
A p r e s e n ta ç ã o
9
Na França, Filipe o Belo cultivou contra eles uma animosidade que chegou até ao irreprimível desejo da sua extinção; desígnio antecedido por outros factos que facilitaram os seus objectivos. Tudo começou porque o papa Bonifácio VIII fez uma bula pontifícia que determinava a supremacia do seu poder católico sobre o poder temporal. Filipe o Belo reagiu contra esta hierarquia; suportou-a mal durante a vigência de Bonifácio e do papa de curto reinado Bento XI, mas conseguiu que o seu papa sucessor, Clemente V, mudasse a sua residência para França. Este papa fora do Vaticano, instalado em Avinhão, foi ameno em relação ao poder temporal do rei. Rei e papa conviveram sob uma tolerância mútua e cooperativa; e decidiram colaborar no que fosse necessário para a extinção daqueles templários com armas já depostas e confortável ociosidade, e para a apropriação das suas riquezas. Houve um metódico extermínio de templários franceses, depois de julgamentos sumários e autos-da-fé que a ferro e fogo os eliminaram em grande número, incluído nele o seu chefe máximo Jacques de Molay; mas houve, ainda assim, a lograda fuga de muitos para a Península Ibérica e sobretudo para a Escócia, onde se instalaram com outras designações de ordem e onde exerceram a sua vocação bélica (Portugal ficou a dever à sua preciosa colaboração a tomada de Santarém e a de Alcácer do Sal aos Mouros). É neste contexto de extermínio dos templários franceses que deve compreender-se a história que Rachilde conta no seu romance Nossa Senhora dos Ratos (1931); com monges a esmorecerem numa saudosa melancolia que lhes traz à memória a sua guerra aos «infiéis» usurpadores do túmulo do Cristo, e a lutarem com uma resistência sem armas contra o rei de França e o papa de Avinhão. A terem uma tardia consciência da inutilidade da sua
10
A p r e s e n ta ç ã o
riqueza, a viverem num castelo-convento com estruturas fisicamente aliadas ao superior e implacável desígnio que determinava a sua extinção; a desaparecerem… mortos pelos archeiros do rei ou a escaparem, com hábeis fugas além fronteiras, às torturas e aos castigos de Filipe o Belo. * Rachilde — escritora com nome de palavra única, não inventado por si mas articulado por um médium depois das sucessivas pancadas de uma mesa de pé-de-galo numa sessão de espiritismo, inspirado pela presença virtual de um fidalgo sueco do século XVI que se mostrou interessado, vá lá saber-se porquê, pela sua futura carreira literária. — Rachilde era, pelos registos do nascimento, Marguerite Eymery; mais tarde Marguerite Valette depois de se casar com Alfred Valette, director da revista simbolista (e depois editora) Mercure de France. Antes da época-Valette, Marguerite vestia-se e penteava-se como um rapaz; coxeava um pouco mas montava a cavalo, manejava o florim, a espada, e não era má no tiro ao alvo com a pistola; quando o seu pai quis casá-la, atirou-se às águas de um pântano numa atitude que pareceu encenada como um semi-suicídio. Liberta dessa ameaça matrimonial com lágrimas e uma promessa de convento, revelou-se como escritora; e os seus cartões de visita desde logo se encarregaram de fazer este esquisito aviso: «Rachilde, homem de letras». Esta mulher, que se mostrava com trajos masculinos e se declarava profissionalmente sob uma fórmula virilizada, publicou sucessivos romances com histórias provocantes, sobrevoadas por ambiguidades
A p r e s e n ta ç ã o
11
ou explicitações sexuais até ali pouco familiares à literatura francesa, singularidade que lhe valeu a alcunha de Mademoiselle Salamandra. O «homem de letras» Rachilde publicou em 1884 Monsieur Vénus, um cometimento escandaloso para a época e que Maurice Barrès comentou com esta exagerada admiração: «O que é realmente delicado na perversidade deste livro, é ter sido escrito por uma rapariga de vinte anos. Que maravilhosa obra-prima!»; e em 1887 publicou La Marquise de Sade, descrevendo assim as perversas sensualidades da sua heroína: Ela saboreava estas volúpias como as gatas saboreiam o leite, com a pálpebra meio fechada e a garra em repouso, feliz mas à espera de um pretexto para arranhar. Alfred Valette foi seduzido pelos avanços com premeditado fim desta jovem de temas literários audaciosos e esquisitas inocências de trato, de impulsos que já ferviam mas dominados ainda por uma paciência que só aguardava a hora propícia para se desfazer e deixá-los manifestar-se com todo o seu vigor. O efeminado rapaz (ou, se preferirmos, a rapariga viril) fez o sacrifício de alterar o seu guarda-roupa e aparecer vestido «à mulher»: Quando me casei vesti-me pura e simplesmente como todas as outras e deixei crescer o cabelo. Mas fê-lo sem convicção, num casamento onde não existia amor: O amor não é uma celeste doença que consiga intoxicar toda a gente. Estas retenções, estas negações, talvez tenham sido para Valette um alívio se tentarmos compreender o subentendido que ela própria construiu quando falou do seu marido em Portraits d’Hommes: «A mim, o casamento mete-me medo — murmurou ele. — Por mim, não me atreveria. É uma aventura de tal forma misteriosa!» Rachilde, a esposa branca ou quase branca de Alfred Valette (esposa só pelo civil, uma provocação à decência nesse final de
12
A p r e s e n ta ç ã o
século XIX francês), bem depressa se tornou eminência parda na editora Mercure de France. Nos bastidores condicionava, atrasava, impedia a publicação dos que não pareciam admirá-la e classificá-la ao nível de grande escritora. As visitas à editora do seu marido, onde ela imperava, implicavam regras de explícita veneração que tinham de ser respeitadas. Mas também se conheciam, ao arrepio destes preceitos, momentos que a mostravam de uma generosidade exemplar. Mexeu todos os cordéis para Jean Lorrain ter publicado um livro que lhe matasse a fome; convenceu M. Valette a publicar o «invendável» Alfred Jarry, quando lhe viu um aspecto de corpo e vestuário que anunciava uma penúria possível de classificar como miséria. Rachilde passou a exercer na revista Mercure de France um diligente trabalho de crítico literário. No seu Diário, Jules Renard não se esqueceu de fazer notar que ela lia «de enfiada» quarenta volumes por mês, sem tomar uma nota; que se limitava a dobrar o canto da página quando queria citar uma passagem; e chegado o dia certo escrevia de um fôlego um artigo sobre todos os livros que lia durante o mês. «É mordaz, mas todos os autores lhe enviam os seus livros. Sabem pelo menos que vai lê-los, que dirá sobre eles uma palavra e não terão para isso de gastar dinheiro.» A par desta profusão de comentários como crítico literário, a sua escrita como romancista não denunciava hesitações nem pausas, e ia entregando ao público ficções que se sucediam indiferentes aos movimentos estéticos da sua época mas a compreenderem, sempre com eficácia, como aqueles anos do princípio do século XX engendravam ilusões e miragens; dando-lhes títulos de uma invenção que raramente desmentia a singularidade das suas histórias. Na extensa lista que lhe preenche a bibliografia podem encontrar-se
A p r e s e n ta ç ã o
13
expressivos exemplos desta veia com promessas sexual e psicologicamente transgressoras: Madame Adonis (1888), La Sanglante ironie (1891), L’Animale (1893), Les Hors Nature (1897), L’Heure sexuelle (1898), Madame de Lydone, assassin (1928), L’Homme aux bras de feu (1930), Les Voluptés imprévues (1931) ou Mon étrange plaisir (1934), para nos restringirmos aos mais significativos. A sua concepção de «homem de letras» foi expressa numa entrevista com estas palavras: Um romancista é um homem que se diverte à custa de outros, e não há mais do que duas escolas eternas: a que distrai e a que entedia. Não acredito na decadência do romance, mas na multiplicação dos talentos medíocres. […] Uma coisa espantosa é o génio de um livro não ser por vezes o do seu autor. Um livro sai da sombra de acordo com a luz que lhe toca. Um conto jocoso, uma história trágica ou puramente quimérica atravessarão o tempo, e estudos de costumes conscientemente feitos hão-de morrer com os costumes da sua época. Rachilde escrevia a respeito de si própria usando tempos verbais e pronominais da terceira pessoa; e até lhe sucedeu fazer críticas com pseudónimo a livros seus, arrasando-lhes com frieza a qualidade literária. Os temas dos seus romances deram-lhe a fama, como seria de esperar, de «sensacionalista» e de «imoral»; o que lhe mereceu na revista Mercure de France esta reflexão: Rachilde passa a justo título por romancista imoral porque não tem reconhecida religião de utilidade pública nem sentimentalismo mundano, e pouco se enternece com a fome, a sede e a pobreza, misérias normais. Não acham as famílias que o seu nome seja recomendável, e os seus melhores colegas das letras
14
A p r e s e n ta ç ã o
têm por costume dedicar-lhe um desprezo onde misturam em certa deferência pelo seu «real talento». E ainda: Escrevo histórias — que são pouco morais. Assemelham-se assim à vida. É mesmo esse, segundo me parece, o único contacto que elas têm com a vida. Quando se absorvia na escrita de um romance, desaparecia do mundo; mas depois, solta da carga criativa que a tinha enclausurado, surgia impositiva, categórica e mundana no seu «salão» (conhecido por «as terças da Rachilde») onde promovia batalhas verbais que davam saborosos motivos de conversa no meio literário parisiense. Conhece-se sobre isto uma frase do diário de Paul Léautaud (um dos que ela não deixava vencer na Mercure de France): «Reabriu o Guinhol Rachilde.» A sua extensa vida para a época (morreu com noventa e três anos de idade) acabou por esmorecê-la um pouco no que tinha sido uma grande vitalidade criativa, por fazê-la resistir menos às canseiras da escrita. Nos seus últimos anos de vida foi olhada como um monumento das letras; vista como uma curiosidade não isenta de respeito mas que tinha atrás de si toda uma memória de esquisitas audácias femininas, de um saber-estar na crista da onda, de uma dificilmente repetível eficácia na provocação literária. Afirmou numa carta que este trabalho literário tinha sido incompatível com a tentação ou a vocação dos afectos: Estou no fim da minha vida e não perdi o gosto pelo risco. Sentir-me-ia muito ridícula se fosse uma vulgar mulher e, como sabe, não tenho nenhuma das suas fraquezas nem sequer um dos seus instintos primordiais. Não gosto dos homens, desta ou daquela maneira. Não sou capaz de camaradagens sinceras e, nessas camaradagens, de ter uma coerente sucessão de ideias. E repetiu-se na afirmação
A p r e s e n ta ç ã o
15
de que era incompatível com o amor: Cada vez me convenço mais de que é preciso desconfiarmos de misturas. Viver a sua literatura é tomar absinto como remédio. Sonho de amor ou sonho de arte; temos de saber distinguir entre os dois álcoóis e não os misturar com a vida. Depois da sua morte, Camille Lemonnier definiu-a com uma espirituosa e delimitadora lucidez: «Aparece como uma demónia diminuitiva votada às obras malignas, a abraçar os caldeirões das curiosidades reprovadas, mas apenas com a ponta dos dedos; a atirar para o fogo, onde dá vida aos seus cozinhados, uma pitada de pólvora rosada que surge em alternância com as suas fulgurações. Ou antes: é uma freirinha das capelas do mal, uma freira do tempo dessas abadessas que através de iluminuras do seu saltério contemplavam com satisfação o retorcimento dos cornos do diabo; uma freira a quem nenhuma Santa Inquisição, mesmo sem ela atirar para fora do mosteiro os restos do seu capuz, teria deixado de fazer sentir o cheiro a queimado.» A.F.
i. O homem lamentava-se num tom baixo e implorativo, como se quisesse fazer uma súplica aos seus bois ou pedisse socorro a todos os espíritos da terra… A charrua com duras pegas que ele agarrava, já não se enterrava de uma forma normal porque ele estava fatigado no fim desse interminável dia de trabalho que não acabava, que teria na manhã seguinte o seu recomeço… Nada chegava ao fim!… Os bois andavam de esguelha, a puxarem para a direita e para a esquerda, a tropeçar nos torrões, a flectir os joelhos, com flancos magros de animal cansado, prestes a dar o último suspiro. O homem pensava nesses pequenos gnomos compreensivos que podiam, dizia-se, ajudar o pobre cristão se fosse feita a oferta de uma moeda de ouro ou de uma hóstia, de acordo com as circunstâncias. Não acreditava em nada disto, continuava a ser o fiel cumpridor das leis da nossa Madre Igreja que nos diz para fugirmos às tentações de Satanás. Viu no entanto um estranho compagnol que atravessava o seu sulco sem mostrar pressa, com ar de quem troçava dele. Teria sido preciso ter ouro. Coisa que nunca via! Quanto a hóstias, mesmo que tivesse recebido uma na manhã de Páscoa, era tarde de mais para a cuspir ali, à frente daquele demónio. Mas que fatigado se sentia! A fadiga é uma vergonha e por vezes faz-se perigosa conselheira.
18
Rachilde
A junta de bois parou. O seu condutor cambaleava. Os bois baixaram as pesadas cabeças com um mesmo movimento, passando as línguas à volta do focinho, a beberem a sua própria baba. Tinham sede. O homem cruzou os braços e tentou conter o coração que saltava dentro do peito. E uma nuvem quente rodeou essas três bestas de carga, a subir do sulco escavado como um incenso que sobe até Deus. Ah! Sim, Deus! Nosso Senhor Jesus, Nossa Senhora e todos os santos! Por sorte havia o céu. Como é que poderíamos viver sem nos lembramos do céu? Como bem sabíamos, aqui nos encontrávamos de passagem. Este lavrador nem jovem nem velho, sem idade porque estava doente, extenuado com a sua fadiga e com a de toda uma linha de camponeses à mercê de estopadas, que tentavam levantar a cabeça, ser diferentes daqueles animais que nem esperança tinham no feno que iriam comer quando regressassem, e do qual nem o cheiro pressentiam. Ele, o homem, através de todos os tormentos já sentia o paraíso. Farejava-o como provisão prometida a todos os mártires da carne. Como devia ser bom, comparado com a fealdade da existência! Desde o começo da vida deste mundo as coisas complicavam-se. Mesmo que não soubéssemos exactamente porquê, os resultados estavam à vista e não podia deixar de ser má vontade, a que dirigia agora no mau sentido a pobre gente simples. E o lavrador pensava nos obscuros peixes que subiam o curso da água enquanto os pássaros seguiam em plena luz a inclinação do vento. Quanto mais baixo nos encontramos na escala dos seres, mais devemos esforçar-nos, contar apenas connosco, voltar subir a corrente…
N o s s a S e n h o r a d o s R at o s
19
Enxugando o suor da testa com a manga de pano rugoso, contemplava a paisagem sombreada pelo crepúsculo. O campo estendia-se a perder de vista, sulcado por riscas castanhas numa superfície cinzenta, raspado pela charrua, penteado por uma garra de ferro que não lhe deixava um só ponto de cabeleira livre, um tufo de erva daninha; e neste lugar um tanto abaulado, neste cimo de colina, o seu grupo de humildes trabalhadores dominava tristemente a terra. A floresta enorme e secreta espiava em redor do campo, emboscando-se, obrigada a recuar perante a cultura, a encolher-se perante o incêndio que lhe tinha mordido os pés das árvores como um cão vermelho que perseguisse um lobo negro. Começava-se por desbravar desta forma violenta e depois misturava-se a cinza e a lama, o carvão e a areia, para fazer da farinha do trigo uma pasta melhor: o pão. E ao alto, muito ao alto numa montanha eriçada por rochedos que lhe formavam uma muralha natural, um terraço a pique, erguia-se o solar dos senhores do lugar, soldados temíveis que tinham cometido todos os pecados de guerra, fossem embora muito nobres senhores, santos religiosos que conheciam as leis da esmola, quer dizer, as que tiravam a uns o que davam aos outros. O lavrador ia devaneando, cheio de bom senso, sobre o facto de todos deverem viver de acordo com a sua estirpe, comandar de acordo com o seu poder; tinha a alma saturada com o mal da reflexão, o que fazia dele por vezes um temeroso e um respeitador do que já tinha acontecido ou talvez nunca viesse a acontecer.
20
Rachilde
Este homem fazia o esforço de se libertar do peso do seu jugo, mas tinha a cabeça tão pesada como os seus bois que baixavam os cornos até ao sulco da terra, a procurar com grandes olhos cegos pelas moscas um buraco que lhes permitisse respirar um pouco de humidade. Tinha feito muito calor. E começava a estar frio na noite que caía. Iriam enraizar-se todos nesta gleba que se agarrava aos pés como uma tina de pez? O lavrador queria voltar a agarrar na charrua para chegar, pelo menos, ao fim do último sulco, mas ali estava de braços pendentes, com os olhos voltados para o ar, o cérebro a dar voltas entre as têmporas como uma roda de moinho batido por cascatas de água. Era apenas o começo do Inverno; e se o sol se fazia traidor ao meio-dia, quando batia com muita força, naquela altura só se mostrava aos senhores lá do alto; e o nevoeiro do riacho, que corria no vale entre muralhas de rochedos e árvores, penetrava-o com a sua sombra. E foi um milagre, e apesar da hora tardia uma iluminação. O homem ouviu de repente sinos com toda a sua força a badalar. Aquilo saía da terra ou não passava de um sonho seu? Seriam as surdas pancadas do seu coração, o que ele tão sonoramente ouvia, ao ponto de se sentir ferido? Lá em cima o campanário, no mais alto do castelo-forte, imitava o penacho de um capacete prestes a ondular a todos os ventos; mas não; não era de lá que aquilo chegava; seria preciso acreditar que a muito fraca brisa saída dos bosques, que o sopro das plantas espalhado no crepúsculo era capaz de fazer dançar com toques a rebate as saias de bronze?
N o s s a S e n h o r a d o s R at o s
21
Que significado tinha todo aquele ruído? Neste momento obsessivo o homem mostrava os olhos transtornados de quem vê imagens de feitiçarias, e soltou um grito de horror. Via qualquer coisa que fazia parte, por certo, do inferno! Dir-se-ia que o campanário e a capela do castelo se mexiam, oscilavam, mudavam de lugar… Chegou até onde ele estava um fumo, talvez um nevoeiro mais denso, talvez o prolongamento dessa névoa que os flancos dos bois, seus companheiros de miséria e do seu próprio cérebro em delírio, exalavam. Levantava-se até às nuvens, ocultando toda a imponente massa do castelo. Quando a coluna de poeira ou de cinzas se dissipou, o horrorizado homem percebeu que a silhueta da igreja de um lado se abatia, meio arruinada, mergulhada num desconhecido abismo como um barco que se afunda e só deixa à mostra um pedaço do casco. Este pobre lavrador magoado, oprimido, ele próprio quebrado e a afundar-se numa visão de pavor e juízo final, caiu desfalecido sobre a charrua enquanto os bois voltavam para ele os grandes olhos cegos e começavam penosamente a mugir.
ii. A sala do Capítulo dava para o terraço, para as altas muralhas de rocha, natural defesa deste castelo a que os senhores davam o nome de Nossa Senhora da Palestina mas os campo-
22
Rachilde
neses, seus servos, ignorando a Palestina e ciosos de lendas, chamavam o Castelo dos Ratos. Das suas grandes janelas com pinázios esculpidos via-se todo aquele maravilhoso campo, um enlevo de pradarias, vinhas, florestas verdejantes, terras férteis que o céu parecia proteger com a sua bandeira azul. Daquelas alturas só um muito suave ruído se ouvia, o murmúrio do ribeiro a correr na base das falésias, sob as frondescências muito densas, a fazerem o efeito de uma ponte de musgo que muito prazer daria atravessar a galope. A sala com lajes de mármore era mobilada por grandes arcas de carvalho, e nos espaços despidos das suas muralhas estendiam-se belas tapeçarias de cores vivas onde cintilavam fios de metal. Um mesa tão maciça que nunca era arrastada, ocupava o centro da sala. Tinha uma grande carga de livros com espessas encadernações de couro; e alguns deles, para comodidade de leitura postos em púlpitos e com marcas terminadas por medalhas brilhantes que caíam, penduradas das folhas do alfarrábio. Uns quantos pergaminhos desenrolados, de grande comprimento, eram toalhas amarelas que podiam usar-se como toalhas de mesa para melhor se apreciarem aqueles alimentos do espírito. Perante esta desordem três homens discutiam, e dir-se-ia que queriam aumentá-la com gestos violentos. Estavam todos vestidos com grandes capas brancas atravessadas pela sangrenta insígnia da sua ordem. No pavimento, no vão de uma janela e a receber em cheio o dia puro que lá fora declinava, jazia sobre almofadas de tecidos preciosos um grande boneco imóvel com uma veste de seda, uma longa túnica bordada com uma tal profusão de pérolas e
A papisa Joana – segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence Bom Crioulo, Adolfo Caminha O meu corpo e eu, René Crevel Manon Lescaut, Padre Prévost O duelo, Joseph Conrad A felicidade dos tristes, Luc Dietrich Inferno, August Strindberg Um milhão conta redonda ou Lemuel Pitkin a desmantelar-se, Nathanael West Freya das sete ilhas, Joseph Conrad O nascimento da arte, Georges Bataille Os ombros da marquesa, Émile Zola O livro branco, Jean Cocteau Verdes moradas, W.H. Hudson A guerra do fogo, J.-H. Rosny Aîné Hamlet-Rei (Luís II da Baviera), Guy de Pourtalès Messalina, Alfred Jarry O capitão Veneno, Pedro Antonio de Alarcón Dona Guidinha do Poço, Manoel de Oliveira Paiva Visão invisível, Jean Cocteau A liberdade ou o amor, Robert Desnos A maçã de Cézanne… e eu, D.H. Lawrence O fogo-fátuo, Drieu la Rochelle Memórias íntimas e confissões de um pecador justificado, James Hogg Histórias aquáticas – O parceiro secreto, A laguna, Mocidade, Joseph Conrad O homem que falou (Un de Baumugnes), Jean Giono O dicionário do diabo, Ambrose Bierce A viúva do enforcado, Camilo Castelo Branco O caso Kurílov, Irène Némirowsky A costa de Falesá, Robert Louis Stevenson Nova Safo – tragédia estranha, Visconde de Vila-Moura Gaspar da Noite – fantasias à maneira de Rembrandt e Callot, Aloysius Bertrand Rimbaud-Verlaine, o estranho casal O rato da América, Jacques Lanzmann As amantes de Dom João V, Alberto Pimentel
Os cavalos de Abdera e mais forças estranhas, Leopoldo Lugones Preceptores – Gabrielle de Bergerac seguido de O discípulo, Henry James O Cântico dos Cânticos – traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano, a idade e o carácter do poema, Ernest Renan Derborence, Charles Ferdinand Ramuz O farol de amor, Rachilde Diário de um fuzilado, precedido de Palavras de um fumador de ópio, Jules Boissière A minha vida, Isadora Duncan Rakhil, Isabelle Eberhardt Fuga sem fim, Joseph Roth O castelo do homem ancorado, Joris-Karl Huysmans Tufão, Joseph Conrad Heliogábalo ou o anarquista coroado, Antonin Artaud Van Gogh o suicidado da sociedade, Antonin Artaud Eu, Antonin Artaud A morte difícil, René Crevel A lenda do santo bebedor seguido de O Leviatã, Joseph Roth O Chancellor (Diário do passageiro J.R. Kazallon), Jules Verne Orunoko ou o escravo real (uma história verídica), Aphra Behn As portas do paraíso, Jerzy Andrzejewski Tirano Banderas (novela de Terra Quente), Ramón del Valle-Inclán Caustico Lunar seguido de Ghostkeeper, Malcolm Lowry Balkis (A lenda num café), Gérard de Nerval Diálogos das carmelitas, Georges Bernanos O estranho animal do Vaccarès, Joseph d’Arbaud Riso vermelho – fragmentos encontrados de um manuscrito, Leonid Andreiev