CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA
ATELIER-MUSEU JÚLIO POMAR
presidente Fernando Medina
directora | curadora Sara Antónia Matos
vereadora da cultura Catarina Vaz Pinto
adjunto de direcção Pedro Faro
director municipal de cultura Manuel Veiga
conservação e produção Sara Antónia Matos Pedro Faro Hugo Dinis Joana Batel
CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA EGEAC Joana Gomes Cardoso Sofia Meneses Manuel Veiga
comunicação e assessoria de imprensa Pedro Faro Hugo Dinis investigação Sara Antónia Matos Pedro Faro Hugo Dinis coordenação editorial Sara Antónia Matos serviços administrativos Isabel Marques Teresa Cardoso serviço educativo Ana Gonçalves Joana Batel Teresa Cardoso
apoio / parceria
Atelier-Museu Júlio Pomar | EGEAC Rua do Vale, 7 1200-472 Lisboa, Portugal Tel + 351 215 880 793
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Luisa Cunha O MATERIAL NÃO AGUENTA
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Luisa Cunha O MATERIAL NÃO AGUENTA conversas com Sara Antónia Matos, Pedro Faro e Hugo Dinis
DOCUMENTA CADERNOS DO ATELIER-MUSEU JÚLIO POMAR
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ÍNDICE
Introdução, Sara Antónia Matos . . . . . . . . . . . . . .
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Conversas com Sara Antónia Matos, Pedro Faro e Hugo Dinis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Março de 2018 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Abril de 2018 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Abril de 2018 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Maio de 2018 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Maio de 2018 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Junho de 2018 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Julho de 2018 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Julho de 2018 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Setembro de 2018 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Outubro de 2018 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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INTRODUçÃO
Sara Antónia Matos [Directora do Atelier-Museu Júlio Pomar]
Luisa Cunha: O Material Não Aguenta — Conversas com Sara Antónia Matos, Pedro Faro e Hugo Dinis insere-se na colecção Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar e dá seguimento ao projecto de entrevistas que se iniciou com Júlio Pomar: O Artista Fala… [2014], continuou com Rui Chafes: Sob a Pele [2015], Julião Sarmento: O Artista Como Ele É [2016], Pedro Cabrita Reis: A Voragem do Mundo [2017] e Alexandre Melo: Cúmplice dos Artistas [2018] . As entrevistas são feitas por ocasião do programa de exposições do Atelier-Museu, que cruza a obra do pintor com a de artistas convidados, mostrando novas relações daquele com a contemporaneidade . Periodicamente, durante a investigação conducente às exposições, as conversas vão acontecendo, ora nos ateliers dos artistas, ora no museu, gerando-se um corpo de diálogos espaçados no tempo, que permite ao leitor acompanhar e desvendar o processo de preparação da exposição, desde a sua concepção até às opções de montagem e materialização .
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As conversas com Luisa Cunha pretendiam dar a conhecer uma artista com um percurso invulgar, mulher, que começou relativamente tarde a sua carreira, e cuja obra tem recaído eminentemente sobre uma materialização sonora e espacial, pouco comum à época em que começou a fazê-la . Por isso, nas conversas realizadas com a artista, procurou perceber-se se esses factores, bem como os seus posicionamentos pessoais e políticos, quase sempre críticos de uma normalização e de um consenso instituídos, condicionaram o seu reconhecimento e a sua aceitação no sistema da arte, nomeadamente comercial . A imprevisibilidade subjacente às conversas, durante as quais a autora surge com respostas lapidares e desconcertantes, está também na linguagem que atravessa a sua obra, a qual desconstrói as convenções e os protocolos museológicos, da forma e no momento que menos se espera . A este propósito não posso deixar de contar como conheci Luisa Cunha e como partilhar tempo com a artista me levou a compreender aspectos da sua obra e da vida em geral, nomeadamente a reviravolta súbita causada por certos acontecimentos . Em 2011, quando fui convidada pela Culturgest — Fundação Caixa Geral de Depósitos para realizar algumas exposições com as obras da colecção, escolhi uma obra de Luisa Cunha que exigia a presença da artista na montagem . Tratava-se de uma obra
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performativa e espacial, com componente escrita, que a artista realiza com a sua própria mão inscrevendo uma frase sobre as paredes da sala da galeria . Foi daí que surgiu a necessidade da presença da artista, que me acompanhou em cada montagem da itinerância, particularmente nos museus em Elvas e Tavira . Assim, durante uma série de dias, tive o privilégio e o benefício do seu contacto sem o ter premeditado ou sequer pedido . Esse contacto, que num primeiro momento se traduziu numa espécie de familiarização entre ambas, rapidamente se estendeu a tardes inteiras de convivência, cafés rápidos ou longas conversas . Não é que a sua obra demorasse mais do que algumas horas a ser executada sobre a parede do espaço . Não . Aquilo que aprendi no contacto e convivência com a artista é que ela esperava pelo momento exacto para realizar a peça, sem que pudesse prever antecipadamente qual era . E se, por acaso, a artista alguma vez tentava antecipar esse momento, eventualmente pressentindo a ansiedade da curadora ou da equipa de montagem, a peça tinha de ser refeita: a sala repintada, uma e outra demão, seca, preparada e vazia — também de olhares alheios — para o momento certo . Como é bom de adivinhar, cada vez que isto acontecia, e que a execução da peça tinha de voltar à estaca zero, gerava-se motivo para a curadora e a artista irem desanuviar, sair do espaço e conversar sobre o
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que viesse à baila, sobre tudo e sobre nada, sobre o tempo e a falta dele, sobre arte e sobre a vida . A última conversa desta entrevista foi realizada com a montagem da exposição no Atelier-Museu já quase terminada e mostra como a artista pensa a instalação das peças milímetro a milímetro, revelando o seu rigor e exigência, não deixando nada ao acaso . É disso exemplo a peça Até aqui [2018], realizada propositadamente para a exposição no Atelier-Museu e que exigia um corte preciso, no rodapé do espaço, desenhado pelo arquitecto Siza Vieira, corte exactamente da largura do instrumento de madeira que ali encaixaria . Sendo a primeira mulher que expõe com Júlio Pomar neste programa de exposições, devo confessar que não deixa de ter alguma piada ser o trabalho de uma mulher perfurar a obra de um homem, o nosso grande arquitecto . Foi tempo de afinar, rever a identificação das peças e dar pistas aos colaboradores do serviço educativo sobre os trabalhos que, eventualmente, se revelassem mais opacos ou intransponíveis . Aí, Luisa Cunha mostrou porventura o seu melhor lado de professora, já que, sem nunca facilitar as abordagens, sem nunca cair na decifração das obras, conduziu cada pessoa a entrar na peça generosamente, como só os bons professores sabem fazer, fazendo saltar o cerco e no lugar de uma porta abrir múltiplas janelas . Por tudo isto não tenho qualquer dú-
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vida em afirmar que, ao ler esta entrevista, Júlio Pomar, se ainda estivesse vivo, ter-se-ia divertido à brava com as palavras de Luisa Cunha porque lhe teria reconhecido um lado anti-regra que ele também tinha . Particularmente para mim, enquanto directora do Atelier-Museu, devo dizer que foi um projecto especialmente sensível porque o recente falecimento de Júlio Pomar exigia uma subtileza e um recato, no tipo de obras expostas, no discurso veiculado, nas imagens divulgadas, a que só uma artista como Luisa Cunha podia corresponder, sem se deixar apagar a si ou à força da sua obra . E o mais impressionante de tudo é que nunca falámos, nem um minuto, desta necessidade de sobriedade . Essa questão nunca foi tocada ou referida .
O Atelier-Museu Júlio Pomar agradece a disponibilidade de Luisa Cunha, não só para a realização desta entrevista mas também para a exposição que pensou, com a equipa do museu, ao milímetro e sempre com a discrição que a caracteriza.
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conversas com Sara Antรณnia Matos, Pedro Faro e Hugo Dinis
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Março de 2018
Para iniciar estas conversas que fazemos com os artistas, podemos começar por lhe perguntar se leu todas as publicações do Atelier-Museu Júlio Pomar que lhe oferecemos? Li todas as entrevistas com os artistas e os respectivos catálogos das exposições . Os livros Parte Escrita I, II e III ainda não li, mas quero fazê-lo . Na eventualidade de alguma frase de Júlio Pomar lhe interessar ou de algo que tenha surgido a partir das leituras dos seus livros, gostávamos de a desafiar a realizar uma obra com frases, vertente escrita, para a exposição no Atelier-Museu. Referem-se à escrita nas paredes? Não queremos interferir no trabalho, é uma hipótese para a Luisa pensar. A ideia da exposição é mostrar uma selecção do trabalho já realizado, ao longo do tempo, mas obviamente que seria muito interessante ter também trabalho novo, produzido especificamente para a ocasião. A escolha das peças é sempre um trabalho feito em conjunto com o artista, e já temos algumas ideias… Eu também tenho umas ideias…
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Uma das peças que queremos ter é Drop the bomb! [1994], que associamos a uma gravura de Júlio Pomar intitulada Mulheres Fugindo (à bomba atómica) [1951]. A ideia é encontrar este tipo de relações sem deixar que se tornem ilustrativas. Mas como os suportes em que o Júlio e a Luisa trabalham são diferentes pensamos que há margem para estabelecer associações sem se ser explícito. Mais exemplos de peças que tenham em mente? Outra peça que consideramos importante, e que fazia todo o sentido neste espaço pelas características físicas do Atelier-Museu, é a persiana vermelha Dirty Mind [1995]. Acho bem, mas não para colocar numa janela, porque vai aparecer luz por detrás da persiana e não pode ser . A peça não funciona com luz por detrás . A intenção não é essa. Pensamos que a peça realça as características deste museu, com o qual todos os artistas se debatem, por vezes em tensão: as janelas e as entradas de luz. Uns valorizam essas entradas, como Sara Bichão, e outros querem bloqueá-las, como Rui Chafes. Ao olhar para este eixo de janelas, tanto no piso térreo como no primeiro piso, percebemos que são muito impositivas, de facto . É uma qualidade física do espaço que está muito presente .
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É uma espécie de paradoxo que, geralmente, não faz sentido nos museus, mas é muito importante para este em particular, pela sua estrutura arquitectónica de casa, atelier, espaço de trabalho. Para ter ideia de como as pessoas se debatem com esta arquitectura e com estas janelas, podemos contar que, por regra, os curadores que convidamos querem construir paredes falsas ou tapar janelas. E isto foi algo a que nos opusemos desde o primeiro dia. Este museu tem estas características que causam dificuldades de exposição. Assim, deve trabalhar-se com o espaço que existe. Achámos que podia ser interessante ter a sua peça Dirty Mind, que questiona as entradas de luz e os percursos espaciais. Aliás, a obra da Luisa é muito espacial neste sentido de reclamar a presença e o movimento do corpo, não é? O próprio texto da peça foi feito a partir da arquitectura da Galeria Estrany-de la Mota em Barcelona . O projecto de curadoria do João Fernandes intitulava-se «Peninsulares» [1995], e ele pediu-me para fazer uma obra nova . Como não conhecia a galeria pedi para me enviarem as plantas e as fotografias do espaço . O texto da peça foi feito a partir destas informações . A peça pertence à colecção da SEC e foi adquirida, na altura, pela Isabel Carlos . Até será bom pedir a peça para saber onde está e em que condições .
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Gostava muito de ver essa obra outra vez . E a cor vermelha tem muita importância para mim porque venho a reutilizar essa cor, posteriormente, noutras obras . Fechado. Acho que pode ficar muito bem. Decidimos qual a parede onde a vamos instalar e durante a montagem testamos e apuramos o seu lugar. Uma vez que a exposição vai decorrer durante três meses, outra coisa que gostávamos muito era apresentar uma performance diferente uma vez por mês. Vocês estão doidos… Mas pode acontecer . Já não digo nada . Há performances antigas que não vimos e que poucas pessoas terão visto. Só tenho três ou quatro performances . A ideia é muito doida . Fisicamente não faço nada que seja exigente . Aliás, fiz apenas uma vez e acabou . Tenho de pensar nessa hipótese . Parece que esta conversa de hoje é para me inquietar . Pensámos ainda numa outra peça para cruzar com uma obra de Pomar. Ele tem um desenho muito curioso que se chama Engraçadinho da bicicleta [1963], e lembrámo-nos de que a Luisa tem a peça Side by side [2006-2007], composta por uma série de fotografias com uma bicicleta, que parece mudar de lugar num extenso areal.
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O movimento é ilusório, pois quem muda de lugar sou eu ao fotografar . Essas fotografias são muito bonitas . Podemos contar com essas fotografias? Não sei se já foram compradas e quem as tem . Ou até se são minhas . De qualquer modo, o Miguel Nabinho [galerista] deve saber . As fotografias têm um formato pequeno, 10 × 15 cm, e foram expostas em Serralves . Essas fotografias, bem como o desenho de Pomar, mostram o tipo de coisas para que os dois artistas olham. Coisas e situações inesperadas. Coisas irrisórias. Parece-me bem . Acho que sim . A exposição pode seguir nessa direcção e apontar para o tipo de olhar e pensamento que está por detrás das vossas obras. Há um modo de pensar e uma ironia que não são estranhos à produção de ambos. E de resto, não nos parece óbvio cruzar o seu trabalho com o de Pomar. Não, de facto não . Já não sei quem, mas perguntaram-me o que é que o meu trabalho tinha que ver com o de Pomar? É isso que vamos tentar materializar na exposição e pôr a funcionar em conjunto. Não é nada óbvio mas parece-nos haver
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questões que se tocam de modo inusitado, nomeadamente um interesse e uma atenção especial à linguagem. A vontade e o interesse que Pomar teve pela crítica têm muito que ver com os seus interesses. Nesse apecto pode haver toques, sim . Quando Pomar põe um macaco em cima de um quadrado em bronze todo negro [ Quadrado Preto (Homenagem a Malevitch), (1958-2003)], na posição do Pensador de Rodin, ou a Luisa, um macaco pousado, em equilíbrio, sobre uma linha [ 3, 2, 1 (1998)], há uma dimensão de humor, ou até de sarcasmo, que nos parece tocar-se. Essa é muito boa! Noutro dia, em conversa com o André e. Teodósio, no programa de televisão Super Swing no canal Q, constatámos que hoje em dia há quase um preconceito com a ideia de humor na arte contemporânea. Tudo se apresenta muito sério e estéril — algo que não é necessariamente válido para artistas como a Luisa ou como Pomar. Em 2012, houve uma exposição na EDP intitulada «Riso: uma exposição a sério», comissariada por José Manuel dos Santos, João Pinharanda, Nuno Artur Silva e Nuno Crespo, que trouxe esse tema para a contemporaneidade, mas foi-nos dito que não foi muito bem recebida.
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Há a ideia de que a arte não pode ser divertida . O divertido não é necessariamente mau . O humor pode ser sério . Além da ironia, estávamos muito interessados em focar também a dimensão da palavra, que foi muito importante para Pomar e que é muito cara à Luisa, quer seja oral, quer seja escrita. Até gostávamos de ter alguma obra em que usasse a palavra na dimensão escrita. Por falar em escrita, conhecem aquele trabalho de 2008 que tenho, da mulher de 58 anos aos 2 anos? Acho que me tenho esquecido de pedir para o colocar no meu site . São peças em papel fotográfico cor-de-rosa, com uma frase escrita por mim, que compuseram uma exposição, só com isso, na Galeria Miguel Nabinho . Eu tinha 58 anos, portanto foi há quase dez anos . Foram adquiridas pelo Eduardo Rosa, da Galeria Sete, em Coimbra . Um dos textos que tem inscrito é: «Fotografia de mulher de 58 anos, aos 2 anos de idade, sentada num banco de jardim, de jornal aberto na mão e apontando para a letra O .» Por que razão a obra é em papel fotográfico, se não tem imagem? Porque faz referência às únicas fotografias minhas de que gosto, de quando eu era pequena, e que estão no álbum da minha mãe . O texto é a descrição das fotografias segundo aquilo que eu me lembrava . Como se estivesse a descrever
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as fotografias a alguém de memória, pois não as revi para as descrever . Vamos rever todo o seu site, particularmente o separador de escultura e do trabalho tridimensional. Temos de ter a peça Obra com nível [2011] na exposição, pois foi a obra que despertou logo a atenção de Pomar, que se lembrou imediatamente de É uma pena [2003], sua. É exemplo do tipo de raciocínio que une as duas obras. Essa peça é do Alberto Caetano . Também temos de ter o Straight to the point [1993], no pátio de entrada do museu, e podíamos ter a obra Hello! [1994] nas casas de banho. A peça Hello! diz «Are you there? Can you hear me? Hello!» . Esta peça pertence à Gulbenkian, tal como a peça Senhora! [2010]. «Senhora! Toda a gente sabe…» A Senhora! pode estar em qualquer sítio, porque não é para se ouvir muito alto . É uma coluna vermelha, com um som suave . Este ano fiz uma peça que também se intromete com os espectadores . O coleccionador António Cachola pediu-me para fazer alguma coisa para a entrada do MACE — Museu de Arte Contemporânea de Elvas . Então fiz uma peça de som que se chama Shiu! [2018] . Durante não sei quanto tempo estou eu a fazer vários chius: chiuuuu… chiu!
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É um protocolo de museu! A propósito da desconstrução dos protocolos e comportamentos museológicos fale-nos da peça Hello!. Já lá vou . Tenho várias peças que se relacionam com a ideia de protocolo . Tenho a peça BC [1998], que replica a voz que se ouve no avião mas mencionando outro texto: «Visitors coming to this exhibition are kindly requested to remain in an erected position . The carrying of personal objects is strictly forbidden .» De facto é uma peça que também foca os protocolos . Estas coisas dos protocolos têm muita piada . E tenho várias que andam à volta desse mesmo assunto, mas sem eu dar por isso . Não as fiz com essas intenções . Como é que se vai chamar a exposição? Protocolo? Protocolos? Não sei . Gosto desse nome mas não será fácil subentendê-lo . Para a obra de Pomar não fará sentido. Pois . Não é evidente . E não tenho obras, sobre desconstrução de protocolos, suficientes para justificar um título de exposição . Tem também a peça Field of View [2010], que está na colecção da Câmara Municipal de Lisboa: «Oh! Would you mind moving a little bit aside so that I can see? Thank
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you!» Em Maio, vamos fazer uma exposição das aquisições de 2016/17 da Colecção da CML, no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional — Galerias Municipais, durante a feira do ARCOlisboa [2018], para mostrar o que se comprou para o Núcleo de Arte Contemporânea da CML, nos dois anos anteriores. De facto, Fiel of View é mais um exemplo de obra que incide sobre protocolos museológicos e sobre a questão da observação . Por isso, vamos colocá-la logo à entrada da exposição, chamando à atenção e dando relevo ao acto de observação — o qual é um acto ao qual muitas vezes já não se dá importância nenhuma. Por isso, a exposição na Cordoaria, por nós comissariada [Sara Antónia Matos e Pedro Faro], vai abrir com a sua obra e vai tomar o título da peça: Field of View / Campo de Visão. Aliás, o título vai figurar também no catálogo, que será apenas um pequeno guia da exposição, com imagens e um pequeno texto sobre as obras. Fico muito, muito contente . O título é óptimo . Tenho de escrever lá em casa — para ler nos momentos mais em baixo e ficar bem — que tenho o título de uma obra minha como título de uma exposição e na capa do respectivo catálogo…
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Adoptámos o título porque fazia sentido no contexto, mas, como sabe, a obra da Luisa é uma inspiração para nós. Então e essa peça entrará também nesta exposição do Atelier-Museu? Com tantas peças que estão a escolher temos uma antológica. Espero que o Pomar caiba no meio disso tudo. Não o abafem! Consideramos a peça fundamental. A ideia, face a estas conversas, é irmos pensando nas obras de Pomar que queremos inserir na exposição. Percebo. As coisas vão ficando na vossa cabeça a remoer e estas conversas servem para isso mesmo, para estabelecer o encontro. Exactamente. É isso. E desta vez, visto que a sua obra é em parte sonoro-espacial, gostávamos de fazer uma exposição mais limpa, com menos presença visual. Pode ser a primeira vez que o espaço fica mais vazio em termos materiais, algo que também nos interessa. Mas não pode estar totalmente vazio, temos um compromisso para com o público em mostrar sempre algumas obras de Pomar. Isso tem de ser!
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A ideia é fazer uma abordagem diferente ao espaço e aí vai residir também o desafio de trabalhar consigo. Ter presença sem encher. Percebe o que pretendemos dizer? Sou exímia nisso! [Risos] Gostávamos de ter uma dimensão de desenho, o que relativamente a Pomar é óbvio, mas não tanto quanto à sua obra, Luisa. Lembrámo-nos de uns desenhos muito bonitos das relvas verdes. A Relva [2005-2006] são 18 desenhos que perfazem cerca de seis metros de comprimento por três metros de altura, na totalidade . Todos juntos são maravilhosos . Pertencem à colecção do Fernando Ribeiro, que se encontra no Quartel de Arte Contemporânea de Abrantes . Existem os desenhos das Figueiras [década de 60] de Pomar, em que ele desenha o efeito do vento nas ramas e nas folhas das figueiras. Se as juntarmos, as figueiras e as relvas, vai ser uma exposição muito leve! E aqueles desenhos antigos de que vos enviei imagens anteriormente? Que acharam? Também são dos anos 60 (1968-69) . Achei que este lugar e este espírito de atelier, menos pesado institucionalmente do que outras instituições, seria o único sítio possível e talvez adequado para mostrar esses desenhos .
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Gostámos muito. Não tem um espaço de atelier para vermos os desenhos ao vivo? Não . Trabalho sempre em casa, porque trabalho bem . E grande parte da concepção é mental . Não preciso propriamente de um espaço de fabrico manual . Quando é que esses desenhos foram feitos? Em 68/69 . Estava no começo? Não há começo nem fim . Sempre fiz desenhos e pinturas, mas a dada altura queimei tudo . Esses desenhos salvaram-se! Pode fazer sentido inseri-los na exposição, mas temos de pensar como os enquadrar e contextualizar. Tem os desenhos consigo? Para mim, a contextualização é, como vos disse, dada e fornecida pelo próprio Atelier-Museu, um lugar despretensioso, talvez o único onde eu os mostraria . Nunca encontrei outro lugar onde fosse capaz, ou sequer me lembrasse, de os mostrar . Sim, estão acessíveis . Uma prima minha ficou com isto tudo, porque eu não os quis .
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Podem ter alguma piada, em alguma situação, inserindo na exposição um tom desconcertante. Estes são os seus primeiros trabalhos? Em desenho, sim . A Luisa começa a trabalhar nos mesmos anos que o Julião Sarmento, em 68-69, que o Eduardo Batarda, etc. Há um certo espírito de época que esses desenhos carregam… ou não? Há aqui e em todas estas coisas muito de absurdo . Não tem propriamente que ver com política, nem com nada de reivindicações . Mostrei-vos estes desenhos por causa da linguagem que já está inserida neles . De acordo. Vamos ficar com eles em mente e voltar a conversar em breve. Ainda a propósito de obras destruídas, no contexto da exposição «Void*», de Júlio Pomar com Julião Sarmento, recuperámos uma série de imagens fotográficas de quadros abstractos, destruídos por Júlio Pomar, onde ele não se revia, que publicámos no catálogo (volume III) com a sua autorização. Pois claro, com as ideias políticas que o Pomar defendia não se podia reconhecer em pinturas abstractas . Há artistas que dizem que as obras menos bem-sucedidas, por vezes, abrem para outros caminhos interessantes que nunca tinham pensado anteriormente. Não sente que há equívocos,
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obras que não resultam, mas que podem conduzir a outras obras muito relevantes? Não tenho esses caminhos . Isso para mim não funciona, não faz parte do meu método . O meu método não integra esses caminhos ou desvios, digamos assim .
Abril de 2018
Para retomar as nossas conversas gostávamos de lhe perguntar se sabe identificar de onde vem o seu interesse pela linguagem. Sabemos que a Luisa foi professora de Inglês e Alemão. Acho que não tem que ver com isso . Para mim a linguagem é uma matéria como outra qualquer . Aliás, nunca me interessou o inglês . Não me interessam as línguas, em geral . Sempre achei mais piada à filosofia da linguagem, mas não posso falar sobre isso porque não tenho conhecimentos aprofundados para tal . De qualquer modo, restringir o meu interesse pela linguagem às línguas é redutor . Muitas das suas obras, até as próprias frases, são ditas em inglês. Como é que toma essa decisão? Isso é espontâneo . A peça tem uma língua própria, que é a que sai! Depois disso, a posteriori, há a consciência de que o inglês tem uma grande vantagem no tipo de
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obras que faço . Não distingue entre o feminino e o masculino . Não tem o tratamento de cerimónia . Não trata por tu ou você . Usa sempre o you . Portanto, elimina-me uma série de coisas e preceitos que não me interessam tratar, nomeadamente, as relações entre as pessoas . Essa versatilidade é óptima . Enfim, isto para concluir que a peça surge de cá de dentro, de dentro de mim, com uma língua própria e definida . Não sou eu que decido se vou pôr em inglês, português ou outro idioma qualquer . É assim! A peça nasce ou emerge com uma língua acoplada . A língua surge conforme o conteúdo . A propósito da indistinção entre feminino e masculino, estava a sugerir que há coisas que na arte não lhe interessam, tais como as questões de género? Na arte, as questões de género não me interessam . Só me interessam na vida . Na arte, quem quiser que trate dessas questões . Eu não estou interessada no assunto . Mas ao escolher o you interessa-se pela abolição do género? Sim, interessa-me pela negativa . Explicando melhor, não me interessa tratar desse assunto ou de submeter o meu trabalho a ele, porque não é esse assunto que motiva a minha obra . Agora se essas questões aparecem colateralmente, sim, é natural que apareçam, não
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Outras Entrevistas da Colecção
Júlio Pomar: O Artista fala… Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro Júlio Pomar, Sara Antónia Matos, Pedro Faro Fotografias de Luísa Ferreira Rui Chafes: Sob a pele. Conversas com Sara Antónia Matos Rui Chafes, Sara Antónia Matos Julião Sarmento: O Artista como ele é. Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro Julião Sarmento, Sara Antónia Matos, Pedro Faro Cabrita Reis: A voragem do mundo. Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro Cabrita Reis, Sara Antónia Matos, Pedro Faro Alexandre Melo: Cúmplice dos artistas. Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro seguido de uma conversa com João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira – Rádio Quântica Alexandre Melo, Sara Antónia Matos, Pedro Faro, João Pedro Vale, Nuno Alexandre Ferreira
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© Atelier-Museu Júlio Pomar / Sistema Solar, Crl (Documenta), 2019 Textos © Sara Antónia Matos, Pedro Faro, Hugo Dinis e Luisa Cunha 1.ª Edição, Fevereiro de 2019 ISBN 978-989-8902-52-8 colecção Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar apresentação Sara Antónia Matos e d ição d e te x to Sara Antónia Matos Luisa Cunha transcrições Hugo Dinis Pedro Faro design gráfico Manuel Rosa revisão Luís Guerra Helena Roldão depósito legal 453491/19 impressão e acabamento Tipografia Lessa Pta dos Mogos, 157 – Zona Industrial de Vermoim 4470-343 Maia
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