Skip to main content

Jules Verne, «O Chancellor — (Diário do passageiro J.R. Kazallon)»

Page 1

P_JĂşlio Verne_Chancellor.indd 2

16/01/19 13:12


o chancellor (DiĂĄrio do passageiro J.r. Kazallon)

P_JĂşlio Verne_Chancellor.indd 3

16/01/19 13:12


P_JĂşlio Verne_Chancellor.indd 4

16/01/19 13:12


Jules Verne o chancellor (Diário do passageiro J.r. Kazallon)

tradução e apresentação

Aníbal Fernandes

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 5

16/01/19 13:12


TÍTUlo Do orIGInal: Le ChanCeLLor (JournaL do passager J.-r. KazaLLon)

© SISTeMa Solar, crl (2018) rUa PaSSoS ManUel, 67B, 1150-258 lISBoa tradução © anÍBal FernanDeS na caPa: ThÉoDore GÉrIcaUlT, Le radeau de La MÉduse (PorMenor), 1875 reVISÃo: anTÓnIo D’anDraDe 1.ª eDIÇÃo, JaneIro 2019 ISBn 978-989-8833-38-9

————————

DePÓSITo leGal 000000/19 eSTe lIVro FoI IMPreSSo na eUroPreSS rUa JoÃo SaraIVa, 10 a 1700-249 lISBoa PorTUGal

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 6

16/01/19 13:12


Era, pela certidão do baptismo, Jules Gabriel Verne; e o seu pai, um magistrado de Nantes, desde os seus tempos de berço sonhava-o a brilhar na mesma profissão. Mas bastaram-lhe onze anos de vida e umas quantas e emocionantes leituras para fugir de casa levando consigo um desejo de mar e aventura (e a decisão, muito mais prática, de trazer um colar de coral para oferecer à sua prima Caroline, por quem estava apaixonado) tudo isto vivido — não mais lhe consentiria a idade — como grumete num barco-correio. Sobressaltado, M. Verne foi a tempo de capturá-lo em Paimbæuf, um pequeno porto do Loire-Atlântico. «Pois bem», prometeu a criança frustrada e ingloriamente retida nos seus altos voos, «só vou viajar em sonho». — Quem poderia prever que estas palavras, proferidas numa tão tenra idade, deviam ser tomadas à letra? É verdade que Jules Verne, para satisfazer os desejos do seu pai chegou à Sorbonne e à licenciatura que poderia dar-lhe o sonhado futuro como magistrado; mas sobrepôs-se a toda esta sabedoria em Direito uma irresistível fascinação literária. De regresso a Nantes, e frustrado por ver a mulher que amava casada com outro homem, voltou para a capital. Parto porque fui desprezado, escreveu numa carta ao músico Aristide Heignard, mas todos verão de que matéria é feito o pobre rapaz a que chamam Jules Verne. O «pobre rapaz» foi sempre infeliz nos seus amores da juventude; cinco mulheres fugir-lhe-iam dos braços para casar com outros — elas e os seus pais sem grande entusiasmo pelas contingências da

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 7

16/01/19 13:12


8

A p r e s e n ta ç ã o

vida pouco estável e um tanto boémia que ele levava em Paris. Um pedido feito por Alexandre Dumas Pai tinha-lhe dado um lugar de secretário junto do director do Théâtre Lyrique. E se era emprego ideal para quem queria ver de perto o mundo dos palcos e ter tempo para escrever comédias, dramas românticos e textos para operetas, só retribuía com salário muito baixo, incapaz de garantir dignidade a um homem casado. Mas Jules Verne mantinha-se decidido a renegar quaisquer oportunidades profissionais relacionadas com a sua formação jurídica (Poderei chegar a bom literato, lê-se numa das cartas à sua mãe, mas nunca iria passar de um mau advogado); sentia-se entregue à invencível força, à sua quase convulsiva actividade criativa estendida sobretudo à poesia e a textos teatrais, mas onde começavam a intrometer-se prosas a que poderiam chamar-se novelas. Este escritor sem grandes êxitos, que apenas conseguia ver no palco textos seus pouco aclamados, que via ficções suas publicadas e recebidas sem entusiasmos significativos pelos leitores da revista Musée des familles, com uma saúde que lhe afectava o estômago, os intestinos, e por três vezes o sujeitou a paralisias faciais com origem num mau funcionamento do ouvido interno, chegou ainda assim, materialmente desfalcado — a rejeitar o convite para dirigir o Théâtre Lyrique. Quero ser livre e provar a qualidade daquilo que faço, contrapôs numa carta, tentando dar resposta às incompreensões da sua mãe. Continuaria nesse teatro, sem aspirar a mais do que às funções de secretário, porque não o impediriam de trabalhar todo o dia em casa e sair apenas quando as circunstâncias o exigissem. Mas este Jules Verne rejeitado por cinco namoradas ou quase namoradas, apesar de mal pago no seu emprego não desistia de chegar à respeitabilidade social de um casamento. E se não tinha em si persuasões eficientes, por que não recorrer às competências da persuasão materna? Casarei com aquela que encontrares,

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 8

16/01/19 13:12


A p r e s e n ta ç ã o

9

anunciou numa carta, casarei de olhos fechados e com a bolsa aberta; escolhe, minha mãe, e falo a sério! […] Podes arranjar-me uma mulher corcunda — desde que tenha rendimentos. […] Todas as raparigas a quem dou honras da minha preferência ficam pouco depois casadas com outros! Tratava-se, no entanto, de uma disponibilidade menos cega do que seríamos levados a crer. Na tardou que a aplicada diligência da sua mãe lhe arranjasse uma noiva, e ele teria de ir a Mortague conhecer o que era apontado como «bom partido». O encontro com o seu possível sogro serviu-lhe porém de pretexto para observações que o pormenor das biografias nos mostram temperadas por um feroz humor escatológico. Não, nada daquilo lhe servia; via-se forçado a encontrar por conquista pessoal a sua mulher. E, quando a encontrou, era uma viúva. Julgo-me apaixonado por uma viúva com vinte e seis anos de idade! Ah! Mas por que diabo haveria de ser mãe de dois filhos? É ter pouca sorte! O casamento forçava-o à necessidade de uma ocupação com mais folgado rendimento mensal mas que não pusesse em causa o tempo livre, exigido pelos seus trabalhos literários. Alexandre Dumas Filho aconselhou-o a ser, como ele, corretor de acções bolsistas. Sim, era um bom conselho mas a exigir-lhe a quantia em dinheiro necessária para instalar o «negócio». Pediu cinquenta mil francos ao seu velho pai que lhe relembrou, em contraposição ao que tomava por um «desvairado sonho» filial, os recursos materiais ao alcance da sua formação em Direito. Há a carta longa de um filho a prever que a insistência e a boa argumentação acabariam por amolecer as reservas paternas. Vejo que voltas a tomar-me por um rapazola irreflectido; que me sobem à cabeça novas ideias ao sabor dos ventos da fantasia, e achas que só quero meter-me nos câmbios por gostar de fazer mudanças na minha vida, lê-se nesse esforço epistolar pressionado pelas dificuldades monetárias do seu casamento.

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 9

16/01/19 13:12


10

A p r e s e n ta ç ã o

O velho pai acabou por ceder, adiantando ao filho quarenta mil francos dos que iriam pertencer-lhe mais tarde como herança. Mas este «bolsista», com a obsessão da literatura a impedi-lo de triunfar entre os que via à sua volta muito empenhados na profissão, decidiu repudiá-la e entregar-se por inteiro à força criadora que faria de si — pressentia ele — um contador de histórias diferente, um singular manipulador de sonhos e ciência; tudo o que acabaria, afinal, por deixá-lo na literatura francesa… como clássico; clássico de obras conjecturais, quanto a isto tinha íntimas certezas… e nesta marginalidade um inimitável Jules Verne. Precisaria, como era evidente, de criar um tom pessoal, uma inconfundível marca de escritor; sentia-se capaz de fascinar como «fantasista da ciência» — digamo-lo assim para lembrar o título de Zola quando o classificou. Faria viagens de visionário caucionadas por conhecimentos e pressentimentos da ciência desse tempo, sem as reduzir a modestas caminhadas «à volta do seu quarto», como Xavier de Maistre; viajaria, sim, fechado no seu quarto mas enchendo-o de um mundo (e mais do que um mundo), levado a uma verdade pessoal saída de mapas, de documentos científicos, da paisagem e da aventura de velhas narrativas que o tinham antecedido e até às suas mãos baixado, retiradas às estantes da Biblioteca Nacional; faria essas viagens conviverem com termos técnicos e calões profissionais, instruindo os seus leitores com histórias povoadas com amenos discursos científicos. Estava porém consciente dos sorrisos irónicos que esta ficção didáctica da ciência inspiraria à crítica literária de uma época cheia de escritas que fulguravam, rendidas à pintura realista dos costumes (e di-lo assim, numa carta ao editor Pierre-Jules Hetzel: Na escala da literatura, o romance de aventuras tem lugar menos alto do que o romance de costumes.)

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 10

16/01/19 13:12


A p r e s e n ta ç ã o

11

A primeira viagem deste barco ébrio (já foi argumentado que o poema de Rimbaud não passa de «uma transcrição parcial e hermética» das vinte mil léguas submarinas do anarquista capitão Nemo) surgiu em 1863 e chamou-se Cinq semaines en ballon. O seu êxito — que exigiu sucessivas e apressadas reimpressões para responder à impaciência dos leitores — deu-lhe direito a um entusiasmo editorial correspondido com um contrato de vinte anos: o das Viagens Extraordinárias que iriam alargar-se a sessenta e dois romances e dezoito novelas — capazes, na sua maioria, de alimentar uma nunca vista fidelização de um certo público atento, sempre ansioso pelo aparecimento da sua próxima criação, com pressa de se anestesiar com histórias que o faziam pensar noutras paisagens ou em cometimentos que a ciência talvez estivesse prestes a realizar. Com uma regularidade paga a dez mil francos por volume, e através de cinco sucessivos contratos que obrigavam o editor ao pagamento de somas cada vez mais elevadas, Jules Verne publicou em 1864 Voyage au centre de la Terre; cinco livros e seis anos depois Vingt mille lieues sous les mers; cinco livros e três anos depois Le Tour du monde en quatre-vingts jours; e em 1875 — impressionado com o quadro Le Radeau de la Méduse, de Théodore Géricault, que inquietava no Louvre os visitantes, espalhando numa enorme tela todo o horror de um naufrágio que emocionara a França de Luís XVIII — publicou O Chancellor. Era, no autor, um desvio até ao realismo; seria em toda a sua obra o único livro destituído de um qualquer elemento fantástico, fantasista ou pré-realista; e isto surpreendia e inquietava. Estaria aquele «querido escritor» a anunciar-se com um novo tom, a despedir-se da sua visionária imaginação, a dar uma notícia triste aos seus fanáticos leitores? Antes de aparecer o Michel Strogoff do ano seguinte, com uma Rússia inegavelmente sonhada à Verne, as consciências não se tranquilizaram.

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 11

16/01/19 13:12


12

A p r e s e n ta ç ã o

* O continente africano tinha chegado a uma multiplicidade de colonizadores que mutuamente se invadiam sem uma firme definição de fronteiras, sem uma estabilidade de domínios, sem condições para serem exploradas com segurança as riquezas dos territórios conquistados. A França, que tinha perdido a sua colónia do Senegal a favor dos Ingleses, viu o Tratado de Paris devolver-lhe em 1814 a sua antiga possessão. Uns quantos anos de indefinição colonizadora exigiam-lhe agora uma nova energia, um novo esforço de administração colonial. Por causa disto, uma esquadra de quatro navios que em Junho de 1816 enviava para o Senegal trezentos e noventa e cinco colonos, partiu através do Atlântico; uma destas embarcações era a escuna Méduse. A Méduse encalhou num banco, perto da costa da Mauritânia, mas conseguiu voltar a navegar com o leme partido e uma brecha no casco. Dias depois a sua inclinação era muito acentuada; houve a bordo uma desordem que levou à fuga de cento e quinze passageiros e tripulantes em quatro canoas e num escaler. A frágil estabilidade da Méduse (com uma altura de água no porão que chegou a cerca de três metros) exigiu a construção de uma jangada e o seu abandono em 5 de Julho de 1816. Transportava uma acumulada multidão de cento e quarenta e seis homens e uma mulher. Conhecem-se destes dias muitos pormenores: pouco depois do embarque, dez homens foram levados pela ondas, outros feriram-se com uma gravidade incompatível com as condições da jangada, outros atiraram-se ao mar; no dia seguinte, o assalto a um barril de vinho provocou uma embriaguez colectiva e uma desesperada loucura que afogou cerca de vinte passageiros; no terceiro dia, um massacre

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 12

16/01/19 13:12


A p r e s e n ta ç ã o

13

fez desaparecer sessenta e três sobreviventes e levou às primeiras cenas de canibalismo; no quarto dia, outra revolta reduziu os ocupantes da jangada a cerca de trinta pessoas; no sexto dia, os doentes foram atirados ao mar e restaram na jangada dezasseis homens; no décimo segundo dia surgiu o navio Argus, que levou os últimos sobreviventes para o hospital de Saint-Louis, a cidade hoje conhecida por Dakar. Esta tragédia, condimentada por horríveis momentos de violência e canibalismo, impressionou a França. E, meses depois, o jovem pintor Théodore Géricault alugava um estúdio com dimensões que lhe permitissem pintar uma tela com 7,16 metros de comprimento e 4,91 metros de altura, a que ele daria o título não explícito de Cena de Naufrágio. Fez cerca de cinquenta esboços que prepararam a composição final. (O jovem Eugène Delacroix posou para uma das suas personagens.) E quando foi apresentada no Salão de 1819, ninguém teve dúvidas de que era uma terrível e esteticizada imagem dos maus dias que tinham pesado sobre os sobreviventes da Méduse. O rei Luís XVIII parou à frente da tela, surpreendido, e disse ao pintor: «Naufrágio? A haver algum não é realmente o vosso!» A crítica, porém, não o poupou. A mestria técnica não era contestada mas «o mau gosto do seu oportunismo». Tratava-se de um caso que tinha recentemente emocionado e horrorizado o país, transmudado agora numa confortável e luxuosa beleza plástica. «O quadro alegra os abutres», leu-se num jornal. E o crítico de arte Pierre-Alexandre Coupin escreveu: «Ao que parece, M. Géricault enganou-se. O objectivo da pintura é falar à alma e aos olhos, e não repelir-nos.» No ano seguinte, os visitantes do Egyptian Hall de Londres, livres destas emoções caseiras renderam-se a Géricault. E quatro anos mais tarde, depois da morte do autor (nessa altura com trinta e três

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 13

16/01/19 13:12


14

A p r e s e n ta ç ã o

anos de idade) a tela foi vendida em leilão e adquirida pelo Louvre, onde hoje se encontra na chamada sala des grands tableaux. * Jules Verne, impressionado com a obra de Géricault resolveu inspirar-se na tragédia da Méduse para contar a história do seu Chancellor. Começou a escrever este romance em 1870, mas só em 1874 o publicou como folhetim em Le Temps. E tinha consciência do passo ao lado que ele representava na sua habitual maneira de estar na literatura. Como reagiriam os seus fiéis leitores, habituados e encantados com a sua imaginação visionária, a este huis clos escrito com um presente contínuo, que abandonava a história extraordinária no sentido que ele costumava dar-lhe e se concentrava no homem em luta pela sua sobrevivência num espaço exíguo, em circunstâncias que lhe despertavam a mais básica das selvajarias? Numa carta que mandou ao editor Jules Hetzel fez este aviso: Vou levar-lhe uma obra de um realismo assustador. […] Não acho que a jangada da Méduse tenha dado origem a qualquer coisa assim tão terrível. Jules Verne não tinha, neste ponto, razão. O número de pessoas obrigadas a comprimir-se na exígua superfície da jangada da Méduse, os tumultos e as carnificinas que foram matando sucessivamente os seus ocupantes, reduzindo-os desde o elevado número de mais de uma centena até dezasseis, as cenas de um desvairado canibalismo, nada têm de comparável com a relativa amenidade de convívio que ele imaginou para os dias da jangada d’ O Chancellor. E outras significativas diferenças separam os dois naufrágios: a Méduse descia o Atlântico desde a França até ao Senegal; O Chancellor saía dos Estados Unidos da América, atravessava o Atlântico em

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 14

16/01/19 13:12


A p r e s e n ta ç ã o

15

direcção à Inglaterra e, desviado da sua previsível rota, naufragava na América do Sul; a jangada da Méduse andou no mar doze dias até surgir um navio que recolheu os seus sobreviventes; a jangada d’ O Chancellor teve cinquenta e dois dias de errância marítima, antes de chegar ao Amazonas; a avaria da Méduse foi provocada por uma má rota que a atirou para cima de um banco rochoso; a d’ O Chancellor teve origem num desses incêndios sub-reptícios que minam pacientemente cereais ou algodão… É de notar que o «realismo assustador» de Verne pede para ignorarmos a complicada estratégia que a intimidade ao ar livre de uma jangada impõe à satisfação das necessidades orgânicas; pede-nos também para aceitar que tão extremas condições, quanto a misérias física e moral, coexistam com as possibilidades mínimas de se escrever numa prancha flutuante um diário, e um diário que constantemente se lembra de que será literatura. Mas é, de facto, um Jules Verne que sabe continuar a ser, fora do seu hábito, fascinante; que se esquece quase por completo da sua vocação didáctica, que prescinde de quaisquer guinadas visionárias para vogar numa aventura sobrevoada pelo realismo, continuando porém atento, como sempre, ao prémio dos comportamentos; fazendo prevalecer, numa fronteira frágil entre civilização e selvajaria, os critérios morais, o valor da inteligência, da cultura e da razão. Mas nada disto foi compreendido e bem aceite pelos leitores que, na sua época, exigiam outro Jules Verne, o que era capaz de ritmadamente os embalar através de aventuras onde a ciência resvalava em direcção à utopia, à premonição, à descoberta dos seus menos suspeitados poderes. E o seu habitual êxito de vendas mostrou-se menos disposto a premiar as situações de extremo despojamento na aventura que lhe eram propostas por este diário de um passageiro d’ O Chancellor.

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 15

16/01/19 13:12


16

A p r e s e n ta ç ã o

Nada disto era grave. No meio de muitos outros livros Jules Verne ainda chegaria, por exemplo, a Michel Strogoff (1876), a Les Cinq Cent Millions de la Bégum (1879), a Le Rayon Vert (1882) ou a Mathias Sandorf (1885). Era rico; era um marido medíocre, um padrasto distante, um pai distraído. Mas escrevia; comprava barcos de recreio (três) e viajava por mares atlânticos e mediterrânicos, fazia rotas curtas e seguras, que em nada podiam competir com as que ele destinava às suas personagens. Esteve em Lisboa por duas vezes, em 1878 e em 1884. A idade mais avançada deu-lhe diabetes, má visão e uma perna coxa que nunca se recompôs de um tiro de espingarda, saído em má hora das mãos de um sobrinho louco. Começou a escrever menos, e até a não escrever. Na minha idade as palavras fogem e as ideias já não entram, pode ler-se numa carta sua. Morreu em 1905, derrotado por diabetes e cegueira. O século XX fez dele um clássico; tirou algumas das suas obras da esfera adolescente para acompanhar a de grandes clássicos centrais. Michel Butor é peremptório: «Temos de colocar a sua obra nos grandes conjuntos de romances do século XIX.» E Roland Barthes dedicou-lhe todo um capítulo do seu Mythologies, onde compreende o lado-cárcere dos seus grandes espaços: «A imaginação da viagem corresponde em Verne a uma exploração da clausura. […] O barco pode muito bem ser o símbolo da partida; mas é profundamente a cifra da clausura.» […] «O navio é um facto habitacional, antes de ser um meio de transporte.» Nenhum outro dos seus livros leva mais à letra estas palavras do que o seu Chancellor. A.F.

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 16

16/01/19 13:12


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 17

Théodore Géricault A Jangada da Méduse vista geral e pormenores


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 18


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 19


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 20


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 21


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 22


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 23


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 24


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 25


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 26


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 27


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 28


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 29


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 30


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 31


17-32_Jules Verne.qxp:sistema solar 16/01/19 13:14 Page 32


i. Charleston. — 27 de Setembro de 1869. — Saímos do cais da Battery às três da tarde, em direcção ao alto-mar. A baixa-mar leva-nos com rapidez para o largo. O capitão Huntly mandou içar as altas e as baixas velas, e a brisa do norte empurra o Chancellor através da baía. Não tarda que o forte Sumter seja ultrapassado e as peças de artilharia ao rés da costa sejam deixadas à esquerda. Às quatro horas a entrada do porto, de onde se escapa uma rápida corrente de refluxo, deixa passar o navio. Mas o alto-mar ainda está longe, e para lá chegarmos temos de seguir pelas estreitas passagens que a onda escavou nas bancos de areia. O capitão Huntly mete-se no canal de sudoeste e alinha o farol da ponta avançada da costa com o ângulo esquerdo do forte Sumter. As velas do Chancellor são orientadas com mais pormenor, e às sete horas da noite a última ponta arenosa da costa é ladeada pela nossa embarcação, que se lança de imediato no Atlântico. O Chancellor, um bonito três mastros carregado com novecentas toneladas, pertence à rica casa Leard Brothers, de Liverpool. É um navio com dois anos de idade, forrado e cavilhado a cobre, com uma bordagem de madeira de teca, de mastros baixos e enxárcia de ferro, com a única excepção do

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 33

16/01/19 13:12


34

J u l e s Ve r n e

mastro da ré. Esta sólida e requintada embarcação, classificada como de primeira qualidade no Veritas1, leva neste momento a cabo a sua terceira viagem entre Charleston e Liverpool. Quando saiu das passagens de Charleston, a bandeira britânica foi arreada; mas bastaria um marinheiro olhar para ele, para não se enganar sobre a sua origem; era exactamente o que parecia, ou seja, inglês desde a linha de flutuação até à ponta dos mastros. Saiba-se agora por que comprei uma passagem para viajar a bordo do Chancellor que regressa à Inglaterra. Não existe nenhum serviço directo de navios a vapor entre a Carolina do Sul e o Reino Unido. Para tomarmos uma linha transatlântica temos de subir até ao norte dos Estados Unidos, a Nova Iorque, ou descer até ao sul, a Nova Orleães. Entre Nova Iorque e o antigo continente funcionam várias linhas, a inglesa, a francesa, a hamburguesa, e um Scotia, um Pereire, um Holsatia ter-me-iam conduzido com rapidez ao destino. Entre Nova Orleães e a Europa, os barcos da National Steam Navigation Co., que estão ligados à linha francesa transatlântica de Colon e Aspinwall, fazem rápidas travessias. Mas quando percorri os cais de Charleston vi o Chancellor. O Chancellor agradou-me, e não sei que instinto me empurrou para bordo deste navio de confortáveis instalações. De resto, quando a navegação à vela é favorecida pelo vento e pelo mar — quase tão rápida como a navegação a vapor — é sob todos os pontos de vista preferível. No começo do Outono e a estas O Veritas, fundado em 1828, é uma das mais antigas sociedades de classificação de navios de acordo com padrões de qualidade. (N. do T.) 1

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 34

16/01/19 13:12


O Chancellor

35

latitudes que já são baixas, a estação ainda é bela. Decidi-me portanto a comprar uma passagem para o Chancellor. Terei feito bem ou mal? Irei arrepender-me da minha determinação? O futuro irá dizer-mo. Redijo dia a dia estas notas, e no momento em que escrevo não sei mais do que sabem os leitores deste diário — se é que ele vai alguma vez encontrar leitores.

ii. 28 de Setembro. — Já disse que o capitão do Chancellor se chama Huntly; e acrescento que tem como nomes próprios John Silas. É um escocês de Dundee com a idade de cinquenta anos e reputação de hábil corredor do Atlântico. Tem estatura média, ombros estreitos, cabeça pequena e por hábito um pouco inclinada para a esquerda. Embora eu não seja um fisionomista de primeira qualidade, e de conhecê-lo apenas desde há algumas horas, parece-me que já posso avaliá-lo. Que Silas Huntly tenha reputação de bom marinheiro, saiba perfeitamente da sua profissão, não serei eu a contradizê-lo; mas que haja neste homem um carácter firme, uma energia física e moral à prova de bala, não!, não é de admitir. O capitão Huntly é, de facto, pesado na atitude, e o seu corpo mostra-o com uma certa prostração. É negligente, o que se vê na indecisão do olhar, no passivo movimento das mãos, na oscilação que o leva lentamente a apoiar-se numa e noutra pernas. Não é, não pode ser um homem enérgico nem sequer teimoso porque os seus olhos não se contraem, o maxilar é

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 35

16/01/19 13:12


36

J u l e s Ve r n e

mole, tem mãos destituídas da tendência para se fechar. Encontro-lhe além disto um estranho ar sobre o qual não saberei ainda dar explicações, embora o tenha observado com a atenção que merece o comandante de um navio, aquele a quem chamamos «o senhor depois de Deus»! Ora, se eu não estiver enganado, entre Deus e Silas Huntly há a bordo outro homem que me parece destinado, se for caso disso, a ocupar um lugar importante. É o imediato do Chancellor, que ainda não estudei o suficiente e sobre quem reservo para mais tarde a oportunidade de falar. A tripulação do Chancellor é composta pelo capitão Huntly, pelo imediato Robert Kurtis, pelo tenente Walter, um contramestre e catorze marinheiros ingleses ou escoceses, ou seja, dezoito homens do mar — o suficiente para manobrar um três-mastros de novecentas toneladas. São homens com aspecto de conhecer bem a sua profissão. Tudo quanto posso até aqui afirmar é que manobraram habilmente nas passagens de Charleston, sob as ordens do imediato. Completo a enumeração das pessoas embarcadas a bordo do Chancellor citando o chefe de mesa Hobbart, o cozinheiro negro Jynxtrop, e fornecendo a lista dos passageiros. Estes passageiros são oito, contando comigo. Mal os conheço, mas o tempo monótono de uma travessia, os incidentes de todos os dias, o acotovelamento quotidiano de pessoas fechadas num estreito espaço, essa necessidade tão natural de trocar ideias, a curiosidade inata que existe no coração do homem, não tardará tudo isto a aproximar-nos. Até aqui a azáfama do embarque, a instalação nos camarotes, as providências exigidas por uma viagem que talvez dure vinte a vinte e

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 36

16/01/19 13:12


O Chancellor

37

cinco dias, as diversas ocupações, mantiveram-nos afastados uns dos outros. Ontem e hoje nem sequer compareceram todos os convivas à mesa do jantar, e talvez haja uns quantos atingidos por enjoos. Não os vi, portanto, na sua totalidade, embora saiba que há entre os passageiros duas senhoras que ocupam os camarotes da popa com janelas abertas para o painel de informações da embarcação. Para finalizar, aqui está a lista dos passageiros que extraí do registo do navio: Mr e Mrs Kear, americanos de Buffalo; Miss Herbey, uma inglesa dama de companhia de Mrs Kear; M. Letourneur e o seu filho André Letourneur, franceses do Havre; William Falsten, um engenheiro de Manchester, e John Ruby, negociante de Cardiff, ambos ingleses; J.R. Kazallon de Londres — o autor destas notas.

iii. 29 de Setembro. — O registo do capitão Huntly, ou seja, a acta que informa sobre o carregamento de mercadorias do Chancellor e as condições do transporte destas mercadorias, está lavrada nestes termos: bronsfield & cº, comissários, charleston. Eu, John Silas Huntly de Dundee (Escócia), comandante do navio Chancellor que tem a capacidade de novecentas to-

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 37

16/01/19 13:12


38

J u l e s Ve r n e

neladas, ou cerca disso, encontrando-me presente em Charleston para, havendo tempo propício, me dirigir em linha recta e sob a guarda de Deus até à cidade de Liverpool, onde farei a descarga — reconheço ter recebido de vós, senhores da Bronsfield & Co., comissários de mercadorias em Charleston, no meu referido navio e sob o seu tombadilho, mil e setecentos fardos de algodão com o valor aproximado de vinte e seis mil libras, todos eles inteiros e bem acondicionados, marcados e numerados como consta aqui à margem; prometo levar esta mercadoria em bom estado até Liverpool, exceptuando-se os casos de perigos e azares marítimos, e entregá-los aos senhores da Leard Brothers ou pô-los à sua ordem, sendo-me paga pelo frete a soma de duas mil libras, conta redonda, de acordo com a carta de fretamento, e além disto as avarias de acordo com os usos e costumes do mar. E para que o acima referido seja cumprido tomei e tomo como garante a minha pessoa, os meus bens e a referida embarcação com todos os seus acessórios. E, como prova do combinado, assinei três declarações de mercadorias embarcadas, todas do mesmo teor, uma delas válida, as outras de nulo valor. Feito em Charleston, a 13 de Setembro de 1869. J.S. Huntly. Fica portanto sabido que o Chancellor leva até Liverpool mil e setecentos fardos de algodão. Remetentes: Bronsfield & Cº, de Charleston. Destinatários: Leard Brothers de Liverpool. Este carregamento foi feito com o maior dos cuidados numa embarcação especialmente construída para o transporte

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 38

16/01/19 13:12


P_JĂşlio Verne_Chancellor.indd 2

16/01/19 13:12


P_JĂşlio Verne_Chancellor.indd 2

16/01/19 13:12


ú lt i m o s l i v r o s

o dicionário do diabo, ambrose Bierce a viúva do enforcado, camilo castelo Branco o caso Kurílov, Irène némirowsky a costa de Falesá, robert louis Stevenson nova safo — tragédia estranha, Visconde de Vila-Moura gaspar da noite — fantasias à maneira de rembrandt e Callot, aloysius Bertrand rimbaud-Verlaine, o estranho casal o rato da américa, Jacques lanzmann as amantes de dom João V, alberto Pimentel os cavalos de abdera e mais forças estranhas, leopoldo lugones preceptores – gabrielle de Bergerac seguido de o discípulo, henry James o Cântico dos Cânticos – traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano a idade e o carácter do poema, ernest renan derborence, charles Ferdinand ramuz o farol de amor, rachilde diário de um fuzilado, precedido de palavras de um fumador de ópio, Jules Boissière a minha vida, Isadora Duncan rakhil, Isabelle eberhardt Fuga sem fim, Joseph roth o castelo do homem ancorado, Joris-Karl huysmans Tufão, Joseph conrad heliogábalo ou o anarquista coroado, antonin artaud Van gogh o suicidado da sociedade, antonin artaud eu, antonin artaud a morte difícil, rené crevel a lenda do santo bebedor seguido de o Leviatã, Joseph roth

P_Júlio Verne_Chancellor.indd 239

16/01/19 13:12


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Jules Verne, «O Chancellor — (Diário do passageiro J.R. Kazallon)» by Sistema Solar - Documenta - Issuu