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Joanot Martorell
TIRANT LO BLANC 3.º volume
tradução do catalão e notas
Artur Guerra desenhos e xilogravuras
Ilda David’
D O C U M E N TA
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Esta tradução foi apoiada pelo Institut Ramon Llull
TÍTULO ORIGINAL: TIRANT LO BLANC
© SISTEMA SOLAR, CRL (DOCUMENTA), 2018 RUA PASSOS MANUEL, 67 B 1150-258 LISBOA tradução © ARTUR GUERRA, 2018 imagens © ILDA DAVID’, 2018 REVISÃO: LUÍS GUERRA 1.ª EDIÇÃO, MAIO DE 2018 ISBN 978-989-8618-87-0 (I VOLUME) ISBN 978-989-8834-75-1 (II VOLUME) ISBN 978-989-8902-17-7 (III VOLUME) ISBN 978-989-8902-18-4 (OBRA COMPLETA) DEPÓSITO LEGAL 000000/18 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA EUROPRESS RUA JOÃO SARAIVA, 10 A 1700-249 LISBOA PORTUGAL
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ccxcvii. Lamentações de Tirant, navegando no mar profundo. – Oh, Senhor, verdadeiro Deus omnipotente e misericordioso! Que triste sorte a minha e grande desventura que tão grandes trabalhos e cruel infortúnio me trouxeram! Oh, que miserável sou! Como permitiu a tua divina bondade que eu morra neste mar cruel e combata contra os peixes? Não morri nas fortes batalhas dos turcos, e morrerei agora sem poder oferecer resistência alguma? Porque não morri na dura batalha do senhor de Vilasermas, já que com tanto sofrimento haveria de findar a minha triste vida? Louvada seja a Divina Majestade, a quem apraz que pelos meus grandes pecados eu receba a punição que eles merecem. Oh, triste de mim, a minha cruel morte não me dói, mas dói-me que esta donzela seja punida pelas minhas faltas, ou que por minha causa ela permaneça em tribulações e fora de toda a esperança! Oh, Tirant, bem triste e desventurado é este dia para ti e de nada te servem a força e a coragem, pois pensavas que não havia no mundo cavaleiro que te pudesse vencer e subjugar, e agora te encontras às portas da morte e não sabes quem te mata nem por que motivo! Oh, senhora Princesa, que sois fénix do mundo, quisera Deus que estivésseis aqui presente para verdes os derradeiros dias da minha triste vida, e para eu vos pedir perdão por tantas ofensas que vos fiz, se bem que não tenham sido por costume meu, mas por acção de falsa gente! Oh, Viúva fingida e reprovada, que a Divina Providência me conceda só o tempo de vida bastante para que eu te possa dar o merecido prémio pelas nefandíssimas maldades que, com tão pouco temor a Deus e vergonha do mundo, tu cometeste, pois pelos teus pecados morro eu e todos os outros, e terás sido também tu a causa da destruição do Império Grego! Oh, senhor Imperador, pleno de grande benignidade! Quanto sofrereis por mim, que morro em tão grande desventura! Oh, cavaleiros do meu parentado, quão breve será a nossa partida e quem vos poderá ajudar e tirar-vos da prisão? Oh, 7
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excelentíssima Princesa e esposa minha, vós éreis o meu conforto e salvação da minha vida! Suplico ao Senhor do mundo inteiro que vos queira libertar do poder dos vossos inimigos, vos eleve em honra e majestade e vos envie outro Tirant que tenha a mesma vontade que eu de vos servir. Não pôde Prazerdaminhavida conter-se sem que, com esforçada voz, e repreendendo-o por ele se lamentar da fortuna, começasse assim a falar.
ccxcviii. Réplica que Prazerdaminhavida dá a Tirant. – Acontece-vos como ao lavrador quando ele quer segar o trigo e apenas colhe espigas vazias. E não deveis reclamar da fortuna, mas de vós mesmo, porque não vos forçou a fortuna a amar ou a odiar, já que não é esse o seu ofício, nem tem senhorio algum em coisas que pertencem à liberdade do livre-arbítrio. Quereis saber o que vos forçou a isso? O vosso pouco saber, que abandonou a razão para seguir a vontade desordenada. Riquezas, poderes e dignidades e coisas semelhantes são dadas pela fortuna, mas a escolha de amar ou odiar, agir bem ou mal, querer ou não querer, está no livre-arbítrio, e dele pode cada um usar segundo a sua vontade. Não demorou Tirant a dar início à sua resposta.
ccxcix. Tirant replica os argumentos de Prazerdaminhavida. Como a galera de Tirant se perdeu na costa da Berberia. – Se dos meus males fui eu a ocasião, então não me dói a minha morte, pois eu a terei procurado; mas dói-me a tua, e que por minha causa hajas de perder a vida. Queira a Divina Bondade arrancar-te e libertar-te dos braços da morte escura. 8
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E se me fosse possível dizer quanto pôde sobre mim a má sorte desde que sua majestade a senhora Princesa nela me fez incorrer já não sei qual me é mais contrário: o amor ou a fortuna. Fantasiando continuamente sobre a sua majestade, tenho sempre a sua imagem diante dos meus olhos. Mas, deixando-me de palavras vãs, porque temos a morte bem próxima, digo que não estamos em tempo e hora de muita conversa, mas sim de recorrer ao auxílio divino, pelo que suplico à misericórdia do meu senhor Jesus Cristo que se digne ter piedade da minha alma e da tua. E, virando-se para o outro lado, viu o grande pranto em que estavam os marinheiros, e viu o comitre da galera, que era o melhor marinheiro de todos, entregar a alma a Deus, porque lhe havia caído uma roldana em cima da cabeça. Um galeote levantou-se, aproximou-se de Tirant e disse-lhe com grande esforço: – Senhor, mandai os homens tirar a água que entrou na galera. Eis aqui um bastão; com ele na mão, ide já por toda a galera, pois o comitre morreu e estão todos desanimados, vendo-se às portas da morte. Animai-os para que esvaziem a galera, e se conseguirmos passar aquele cabo, poderemos salvar as nossas vidas, pois mais vale escolher o menor de dois males, isto é, sermos cativos em poder dos mouros em vez de perdermos a vida. Tirant alçou a cabeça e disse: – Em que mares estamos? – Senhor – disse o galeote –, vede além – apontando – os mares da Sicília, e estes são os de Tunes. E porque sois pessoa valerosa, condoo-me mais de vós do que de mim, pois quer a fortuna que havemos de perecer nesta triste costa da Berberia, e em semelhante caso cada um de nós deve pedir perdão aos outros. Tirant levantou-se imediatamente, embora o tormentoso mar lhe provocasse tal mareação que não conseguia levantar-se, e fez tudo o que lhe foi possível; mas viu que o escandalar, o quarto do meio e o porão, estava tudo cheio de água. Tirant, ao ver tudo isto, mandou trazer as melhores roupas que tinha e vestiu-as, pegou numa bolsa com mil ducados e pôs dentro um papel escrito que dizia: Peço e suplico a quem vier apoderar-se do meu corpo que, por gentileza, amor ou piedade, queira ao meu corpo dar sepultura honrada, sendo eu Tirant lo Blanc, da linhagem da Bretanha e daquela singular conquista do Rochedo Salgado, e Capitão-mor do Império Grego. 9
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Já passava do meio-dia quando terminou de fazer isto, a galera quanto mais avançava mais se enchia de água, e mais ainda o sofrimento crescia no meio deles, e a morte aproximava-se. Estando perto de terra, os mouros viram chegar a galera, que ia em direcção ao lugar onde eles queriam, e os cristãos viam que não se livravam de ser mortos ou cativos. Naquele momento, Tirant invocou de novo a Mãe de Deus, Senhora Nossa, dizendo semelhantes palavras: – Oh, Mãe piedosa e misericordiosa dos pecadores, tu que foste virgem antes do parto, no parto e depois do parto, que tal como eu acredito nisto verdadeiramente assim tenhas compaixão da minha alma! A galera aproximou-se de terra e toda a gente se lançava ao mar, cada um procurando salvar a sua vida. Entretanto, era já quase noite escura. Quando Tirant viu que os marinheiros cuidavam cada um de si, decidiu não abandonar a galera; por isso, como na galera não havia barca, nem corda, nem remo, pois tudo se havia perdido, pediu Tirant a dois marinheiros seus amigos fiéis, daqueles que tinham vindo com ele na nau que armou na Bretanha, que tomassem conta da donzela; tanto lhes pediu e prometeu que eles se comprometeram a fazê-lo. Despiram-na até ficar toda nua, e como a galera já estava quase cheia de água, um marinheiro pegou numa prancha de cortiça que estava presa a um ferro e com uma faca cortou a corda, atou-a ao peito e a donzela abraçou-o pelas costas; um outro marinheiro ajudava-o a suster-se. Um golpe de mar lançou Prazerdaminhavida e os marinheiros de um lado para o outro; o que tinha a prancha de cortiça, com o embaraço da corda e da donzela, para a salvar a ela, afogou-se ele; o outro marinheiro ajudou a donzela tanto quanto lhe foi possível, mas por fim viu-se forçado a largá-la. Mas teve a sorte de já estar muito perto de terra e, sendo noite escura, ouvia-se o grande barulho que os mouros faziam para se apoderarem dos cristãos. A donzela pôs os pés em terra e, sentindo-se desprotegida, ficou parada, porque não queria sair para terra, mas aproximou-se um pouco mais para não ficar em lugar tão fundo, pois às vezes as ondas vinham e cobriam-na totalmente. Avançando pela água perto de terra, afastava-se dos gritos com medo de que a matassem, porque via que os próprios mouros se matavam uns aos outros na caça aos prisioneiros: 10
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para ver quem mais conseguia apanhar; com os relâmpagos que havia, ela via reluzir as espadas à beira-mar. Assim, toda nua, foi avançando na água à beira da praia e, quando ouvia alguém a aproximar-se, mergulhava na água e ficava assim até eles se afastarem. A pobre Prazerdaminhavida, nua e crua, sem roupa nenhuma, morta de frio, ia o tempo todo invocando a Mãe de Deus, Senhora Nossa, para que, já que a sua boa sorte a havia trazido para a terra dos mouros, lhe concedesse a graça de encontrar alguma pessoa que a tratasse bem. E, andando assim perto de meia légua, encontrou uns barcos de pescadores, entrou numa barraca e encontrou duas peles de carneiro, atou-as uma à outra com uma corda fina e pôs uma à frente e outra atrás do corpo, encontrando assim um pouco de remédio para o frio; pôs-se a dormir um pouco, pois estava mui fatigada dos trabalhos do mar. Quando despertou, vendo-se só, começou a gemer, a chorar e a proferir grandes lamentos, vertendo lágrimas vivas que muito lhe desfeavam os olhos, a sua voz tornou-se tão rouca que quase não conseguia falar, e com passos apressados ia procurando os caminhos da cruel fortuna, que está continuamente à espreita daqueles que desejam viver em tranquilo repouso. E, falando consigo mesma, a aflita donzela dizia: – Oh, impiedosa fortuna, que tanta crueldade tens demonstrado comigo! Haverá maior mal que me pudesses fazer do que lançar-me como cativa em terra de mouros? Teria sido para mim menor sofrimento que no mar tempestuoso eu recebesse sepultura no ventre de algum peixe. Mas eu prefiro doravante possuir menos bens do que devia, porque a fortuna alegra-se com os enganos que traz consigo, pois perde-se sem dor o que sem amor se possui; e eu agora desejo a morte, já que a este ponto cheguei, mas tenho medo de que, desejando-a, a minha vida se prolongue. Porque sei que, neste momento, todos os santos me são adversos, e a impiedade me obriga a cometer crime contra a minha pessoa, pois a morte é o fim de todos os males e, quando benignamente recebida, dá às donzelas o prémio da honestidade. É certo que terminarei a minha terna castidade com uma morte agradável, para pôr fim à minha penosa vida conservando a minha boa fama, pois viver é morrer, para quem não espera ter alegria. Oh, triste de mim, a 12
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areia está húmida com as minhas dolorosas lágrimas! Oh, senhora Princesa, estou bem certa de que agora chorais a minha ausência, descontente convosco mesma, esperando que eu volte com a desejada resposta! Bem poderá Vossa Alteza procurar consolo pela minha ausência, pois penso que, por causa desta minha grande desventura, jamais me vereis! Estando nesta dor, já perto do amanhecer, ouviu que se aproximava um mouro a cantar; escondeu-se perto do caminho para não ser vista por ele; quando este passou, viu-lhe a barba toda branca e pensou que este velho mouro lhe poderia dar algum bom conselho, aproximou-se dele e contou-lhe toda a sua desventura. O mouro, movido de grande piedade ao ver aquela donzela jovem e de fino porte, disse-lhe semelhantes palavras: – Donzela, vejo que a fortuna te lançou nesta miséria; quero que saibas que eu fui durante muito tempo cativo dos cristãos em Espanha, num lugar chamado Cádis. A senhora de quem eu era escravo, viu como eu a servia com total dedicação quando se deu o caso de uns inimigos virem para lhe matarem o filho, e certamente o teriam matado se eu, empunhando com valentia a espada, não tivesse levantado do chão o filho da minha senhora, ferido dois e posto em fuga os outros; tendo isto em consideração, fui posto em liberdade pela senhora: vestiu-me todo com roupas novas, deu-me dinheiro para as despesas e mandou-me que me levassem, como era da minha vontade, para Granada. Pela gentileza que esta senhora me fez, tu serás acolhida por mim; e como eu tenho uma filha viúva, esta, em consideração a mim, estimar-te-á como irmã. Prazerdaminhavida levou imediatamente os joelhos ao chão de terra dura e deu-lhe graças infinitas. O mouro despiu o albornoz que trazia vestido e deu-o a Prazerdaminhavida, e os dois dirigiram-se para um lugar que ficava perto de Tunes que se chamava Rafal. Quando a filha do mouro viu a donzela, tão jovem e de feições tão delicadas, sem roupas, sentiu grande compaixão por ela; o pai pediu-lhe que lhe fizesse a melhor companhia possível e disse-lhe: – Fica a saber, minha filha, que ela é filha daquela senhora que me concedeu a liberdade, por isso, pelo bom procedimento que teve comigo, e pela graça que dela obtive, quero retribuir-lhe através desta donzela. 13
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A filha, pelo grande amor que devotava ao pai, com amor infinito recebeu a aflita donzela e deu-lhe uma camisa e uma aljuba com alquinal; e não havia ninguém que a visse que não a tomasse por moura1. Voltemos agora a Tirant, o qual, pouco depois de Prazerdaminhavida sair da galera com os marinheiros a quem ele a havia recomendado, se manteve com um marinheiro na galera até que esta ficou completamente cheia de água e começou a ir ao fundo. Então, Tirant combinou com o marinheiro lançarem-se ao mar e, com a ajuda deste marinheiro, poder ir para terra, se bem que Tirant tivesse sempre a consciência de que tanto no mar como em terra ele não se livraria da morte, pois os mouros, ao saberem que ele era Tirant, Capitão dos Gregos, que tanto mal havia feito aos turcos, não o deixariam vivo nem por todo o tesouro do mundo. Porém, com a ajuda da Divina Providência e do marinheiro, chegaram a terra já de noite bem escura e, em segredo e de gatas, afastaram-se de onde ouviam o barulho dos mouros. Quando já haviam andado um bom bocado de terra e já não ouviam o barulho das pessoas, afastaram-se do mar e entraram terra adentro e encontraram uma vinha onde naquele tempo havia uvas. Disse o marinheiro: – Por Deus, Senhor, fiquemos aqui nesta vinha deliciosa e poderemos estar aqui amanhã todo o dia e vermos esta terra; e ao chegar a noite poderemos partir e ir para onde Vossa Senhoria ordenar, pois nem na vida nem na morte vos hei-de faltar. Tirant concordou com os seus pedidos. Depois de encherem a barriga de uvas, viram ali uma gruta e entraram nela para dormir completamente nus. Quando acordaram, estavam cheios de frio; levantaram-se e começaram a mudar pedras de um lugar para o outro para se aquecerem. Ao nascer do sol, Tirant tinha uma grande dor nas pernas, que muito lhe doíam, não tendo esperança nenhuma de melhorar2. O relato do naufrágio de Prazerdaminhavida inspira-se, em parte, na seconda novella della quinta giornata, do Decameron, de Giovanni Boccaccio. 2 Segundo a tradução castelhana de 1511, termina aqui a terceira parte do livro, sendo o resto «traduzido» por Martí Joan de Galba (vide cólofon do livro). No entanto, a maioria dos críticos não está de acordo, e segundo Martí de Riquer, a participação de Martí Joan de Galba deve ter-se limitado ao último capítulo. 1
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Aconteceu naquele tempo que o rei de Tremicen enviou como embaixador ao rei de Tunes o maior e melhor dos seus cavaleiros e em quem mais confiava, este era capitão-general de toda a sua terra e todos lhe chamavam caudilho-dos-caudilhos. Este embaixador estava ali há três meses, e haviam-lhe dado pousada a ele e a toda a comitiva num lugar que era mui aprazível e mui abundante em caça. Por sorte, ele saiu naquela manhã para se distrair com falcões e lebréus, e, caçando, encontraram uma lebre que, ao ser mui perseguida pelos cães e pelos falcões, e não encontrando outro recurso, entrou na gruta onde estava Tirant. Um dos caçadores que a viu entrar, desceu do cavalo e, à porta da gruta, viu Tirant deitado sem se poder mexer, e o marinheiro ajudou-o a apanhar a lebre. O caçador foi direito ao capitão e disse-lhe: – Senhor, não acredito que a natureza possa formar um corpo mortal mais perfeito, nem que um pintor possa pintar um corpo mais bonito do que aquele que eu vi. Oh, fortuna! Porque me prejudicaste tanto? Não sei se é defeito da minha vista, mas, na minha opinião, pela cor tão pálida que tinha pareceu-me mais morto do que vivo, com uma cara tão bonita e olhos tão brilhantes que parecem rubis lapidados. Não penso que se encontre em todo o mundo um corpo mortal com tal perfeição de membros. Eu vi-o num tal estado que julgo estará bem cheio de dores e sofrimentos. O senhor perguntou-lhe onde estava o homem que tanta beleza possuía. Disse o mouro: – Senhor, vinde comigo, que eu vo-lo mostrarei naquela vinha, dentro de uma pequena gruta. O embaixador fez aquele caminho com inestimável prazer. O marinheiro, ao ver aproximar-se tanta gente, abandonou Tirant sem nada lhe dizer, e fugiu tão disfarçadamente que não foi visto pelos mouros. Quando chegou à gruta, o embaixador ficou a olhar para Tirant durante algum tempo, teve compaixão dele e, com modos e rosto humildes, começou assim a falar.
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ccc. Palavras de conforto que o embaixador diz a Tirant. – A grande beleza que vejo na tua pessoa enche a minha alma de mui profunda piedade e, como é costume entre os homens, por maiores senhores que sejam, quer sejam presos em batalhas em terra ou no mar, ou ainda por naufrágio, como a fortuna fez agora contigo, se és virtuoso não deves desanimar, pois embora a fortuna te trouxesse para aqui, não deves desesperar da misericórdia daquele grande Deus que governa o mundo inteiro, pois juro-te pelo nosso santo profeta Maomé, que te libertou de tão grande perigo e te concedeu a graça de caíres em meu poder, e como vejo que a natureza não falhou ao formar o teu corpo tão singular, não acredito que ele não o haja dotado de muitas virtudes, e já que tenho três filhos, tu serás o quarto – chamou o segundo filho e disse-lhe: – Terás a este como irmão – depois, disse a Tirant: – E se quiseres conceder-me este prazer, peço-te que me fales das tuas aventuras, que muito desejo conhecer. Depois de concluir uma empresa minha, que é do interesse do meu filho mais velho, pois querem tirar-lhe a prometida, coisa que de bom grado não consentirei, pois ela é uma donzela mui virtuosa e filha do rei de Tremicen3; como esta empresa é mui perigosa, se aprouver a Maomé que eu saia dela com honra e tu não sofras com a tua perda, por mui grande que ela seja, eu far-te-ei rico quando voltar para a minha casa, que agora não posso, pois os sinistros fados da fortuna não quiseram que o matrimónio que foi jurado alcance o fim que desejamos. Oh, cristão! Vejo-te sofrer muito; diz-me o que te dói, pois da tua boca ouço sair dolorosos suspiros; peço-te que mo digas com a confiança de que será para teu bem. Acabando o embaixador mouro de dizer estas palavras, Tirant levantou-se e, com voz esforçada, começou a falar deste modo.
3 Actual Tlemcen (ou Tremecém), província mais ocidental de Tunes, hoje fronteira entre a Argélia e Marrocos, este último chamado aqui reino de Fez.
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ccci. Como Tirant fez um relato fantasioso dos seus feitos ao embaixador. – É próprio de grande humanidade ter piedade e compaixão dos miseráveis4, e é para mim uma grande glória haver caído em poder de tua senhoria como cativo e prisioneiro, porque és um cavaleiro tão magnânimo e virtuoso que me prometeste premiar com aquilo que a fortuna, com a autoridade que lhe é própria, houve por bem tirar-me, pois é esse o seu ofício, dar e tirar a quem lhe apraz. E como a tua senhoria me dá licença para contar a minha desventura e deseja conhecê-la, terei grande prazer em narrá-la a tua senhoria, porque tenho notícia da tua muita virtude e bondade, e é grande descanso para os miseráveis poderem contar as suas dores a uma pessoa fiel e piedosa. Quero que saibas que a minha condição é de nobreza, embora eu não seja príncipe nem grande senhor, mas, como homem jovem que deseja adquirir honra e fama, percorri o mundo e, encontrando-me para os lados de Levante, para minha desventura dei ouvidos a uma viúva que, com palavras falsas e acções diabólicas, me fez ver em pleno dia no horto o pior mal e o mais doloroso sofrimento que o meu corpo e a minha alma podiam sentir. E foi tão extrema a minha dor que, com as minhas próprias mãos, me vinguei completamente do maior inimigo da minha atribulada vida. E, continuando doído, parti numa nau em direcção à Síria, e daqui fui para a casa santa de Jerusalém, onde está o santo sepulcro de Jesus Cristo, para fazer emenda dos meus pecados, e para retornar embarquei nesta galera, como tua senhoria viu. E assim podes ver toda a minha desventura e como, despido, inteiramente nu, livre do perigo do mar tempestuoso, graças à Divina Misericórdia, cheguei à Berberia, pelo que peço à tua senhoria que me queiras manter sob a tua protecção. O mensageiro, respondendo, disse: – É raro ver que de uma navegação louca se possa esperar uma viagem segura. Eu sou caudilho-dos-caudilhos; consola-te, porque tenho muita terra e 4
Citação do Decameron, nota a IV, 180, 8: «Umana cosa è aver compassione degli afflitti».
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grande riqueza. Não receies nada, pois assim que chegarmos terás tudo o que te aprouver. Peço-te, porém, que não me escondas o teu nome, pois juro-te por Maomé, o meu Deus, que ter-te-ei como filho. – Digo-te, meu senhor – disse Tirant –, que dou graças infinitas a tua senhoria por tudo o que me ofereceste, e peço à Divina Bondade que me deixe servir-te. E pois que tanto desejas saber o meu nome, com toda a verdade, senhor, te digo que o meu nome certo é Blanc. Com muita piedade, respondeu o caudilho: – Bendita seja a tua mãe, que tão belo nome te deu, porque o teu nome está de acordo com a tua singular perfeição. E o filho despiu rapidamente uma aljuba e deu-a a Tirant, fazendo-o montar na garupa de um ginete, e assim o levaram até um lugar onde foi mui bem vestido à maneira mourisca. Para que o rei de Tunes não tivesse dele notícia, pois haviam-no apresado nas suas terras, o caudilho fê-lo montar numa azémola e enviou-o para um dos seus castelos, dizendo que o mantivessem bem guardado para que não fugisse. Quando ouviu as afáveis palavras do caudilho-dos-caudilhos e se viu assim vestido, Tirant sentiu grande consolo; virou-se para o mar e, erguendo os olhos ao céu, reclamou a Deus Nosso Senhor e a todos os santos dizendo que o mar tinha de mudar o seu costume, pois o vento e o mar tinham-se posto de acordo para o destruírem, como um homem que está nos limites do seu fim e não encontra lugar por onde possa fugir. Querendo partir de noite, o céu mostrava-se azul e estava uma lua cheia que lançava tão grande claridade que parecia de dia; por isso, ao cessar o vento, fizeram-no partir àquela hora. Ao primeiro passo que deu ao sair de casa, caiu logo no chão com os braços abertos e estendidos. Disseram os mouros: – É um grande mau sinal este cativo cristão cair com os braços estendidos: curta será a sua vida. Tirant levantou-se a toda a pressa, pois entendeu tudo o que os mouros haviam dito, e disse: – Não fizestes um bom juízo, porque o meu nome é Blanc e a lua é clara, branca e bela agora na hora em que eu caí, e a lua ficou na direcção da minha 18
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cabeça e dos braços assinalando o caminho que eu devo fazer, e não ficou atrás nem ao lado, e as minhas mãos ficaram abertas e estendidas para a lua, o que demonstra que eu, com a ajuda da Divina Providência, tenho de conquistar toda a Berberia. Os mouros desataram todos em grandes risadas e tomaram aquilo como uma brincadeira e seguiram o seu caminho até que, após algumas jornadas, chegaram a um castelo mui fortificado. O filho deste caudilho (o que havia desposado a filha do rei de Tremicen) estava a três jornadas dali, e disseram-lhe que o seu pai havia enviado um prisioneiro cristão, um homem de aspecto mui belo e de boas graças. O noivo ordenou que ele fosse bem vigiado e lhe pusessem correntes e grilhões, e assim foi feito. Tirant ficou mui consternado e tornou a mergulhar em seus tristes pensamentos. Seguiu-se depois que, passados dois meses, o embaixador caudilho-dos-caudilhos recebeu a resposta do rei de Tunes; voltou para o seu senhor com a resposta e encontrou o dito senhor mui desconsolado, assim como a mulher e os filhos, porque havia sabido que o rei Escariano, homem fortíssimo, completamente negro e de mui desmesurada estatura, em comparação com os outros homens, rei mui poderoso, com muita gente e grande riqueza, havia ajustado contra ele todas as suas forças, e muitos reis vinham em sua ajuda. Ele era especialmente achegado a este rei de Tunes, e por isso retardou tanto o caudilho-dos-caudilhos com a resposta, para que aquele tivesse toda a sua gente aprontada. Este rei Escariano tinha as suas terras a confinar com o reino de Tremicen, e queria que o rei de Tremicen lhe desse a filha por esposa, juntamente com todo o seu tesouro, e que depois do seu óbito lhe desse todo o seu reino. Este rei de Tremicen era de ânimo fraco, e mandou dizer ao rei Escariano que já havia desposado a filha com o filho do caudilho-dos-caudilhos e que ele não devia querer a mulher que já fosse pertença de outro, e que além disso já estava grávida, pelo que o aconselhava a não querer ter nem criar em sua casa o filho de outrem; porém, se fazia aquilo por cobiça do tesouro que ele havia juntado, concordava em reparti-lo com ele para que o deixasse viver em paz, a ele e aos filhos. O rei Escariano mandou dizer-lhe que não desistiria enquanto não tivesse a filha dele juntamente com o tesouro, e aos outros filhos mantê-los-ia sob a sua guarda num castelo. 19
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No fim não chegaram a um acordo, e o rei Escariano veio com todo o seu poderio de cinquenta e cinco mil combatentes, entre homens a pé e a cavalo. Este rei de Tremicen não tinha mais de vinte mil combatentes e, sabendo que o outro vinha e já estava perto, avançou e esperou-o para travar a batalha do alto das montanhas. Quando o rei Escariano chegou junto de um rio, perdeu muita gente ao atravessá-lo; porém, transposta a água, subiu com a sua gente as montanhas e encontrou no cimo o rei de Tremicen, as suas gentes sitiaram-no num vale mui belo, onde havia abundância de todas as coisas devido às muitas águas que o enobreciam, e por isso os mouros o chamavam Vale Aprazível. E havia no dito vale três castelos com as suas grandes vilas e robusta fortaleza, e ali o rei tinha sua casa permanente, a mulher e os filhos, e ali ficou cercado. Dois castelos estavam de um lado do rio, o terceiro estava do outro lado, ligados por uma grande ponte de pedra. Tantas vezes atacaram um castelo que o tomaram à força das armas. O rei estava num outro castelo muito mais forte do que aquele que havia sito tomado. O rei de Tremicen sentiu-se totalmente perdido. O caudilho, fugindo da batalha, foi para aquele seu castelo onde estava Tirant, porque não quis refugiar-se no castelo onde estava o rei, e disse ao seu filho: – Tu deves desejar mais a morte do que ser privado da tua esposa, que descende de tão grande e alto sangue; pelo que te aconselho e mando que vás ter com o teu senhor e o sirvas como bom cavaleiro, segundo é costume dos teus fazer; e quem servindo o seu senhor pode fazer bravos combates não deve esconder-se em casa. Lembra-te da honra que é subir a um grau tão elevado, porque nestes casos ela dá a glória a quem a sabe alcançar. E se a tua vontade estiver disposta a realizar coisas que trazem consigo a honra, vai directamente aonde está o teu senhor, e eu verei que solução poderei encontrar para, junto com alguns príncipes, levantarmos, por via directa ou indirecta, o assédio. Respondeu o filho, dizendo: – Senhor, irei com todo o prazer junto do famoso rei e meu senhor natural, e estou decidido a dar a vida e morrer por ele. Despediu-se do pai, beijando-lhe as mãos e a boca, e começou a falar com palavras como estas.
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cccii. Palavras que o filho do caudilho diz ao pai quando se separa dele. – Os trabalhos e perigos não devem desviar do juízo de razão os homens esforçados e de bom entendimento, pelo contrário, quando estão em maior necessidade mais esforçadamente devem servir-se do entendimento e da coragem, pois a virtude, ao enfrentar e vencer a fortuna adversa, ganha experiência e fica mais forte. Por isso, pai e senhor, beijo-vos as mãos e agradeço-vos profundamente por tão bem me aconselhardes como cavaleiro virtuoso e por dardes remédio salutar aos meus sofrimentos, pois sinto uma dor tão incalculável pela ausência da minha senhora que preferia perder a vida e não a ela, se bem que eu tenha a esperança de que ninguém ma conseguirá afastar de mim, pois ela está num castelo mui fortificado e bem provido de todas as coisas necessárias para muito tempo. E se o nosso santo profeta Maomé me ajudar, incutindo-me o saber que me falta para me poder guardar de toda a vergonha, conceder-me-ia singular graça, porque o vosso claro parecer traz consigo honra e fama, desde que se possa salvar a vida, e separo-me de vossa mercê para ir directamente aonde está o meu senhor, e a coisa que mais amo neste mundo miserável. Separando-se do pai, e cavalgando em direcção ao castelo, ouviu um forte rumor de gente de armas, e temeu que estivessem a atacar o castelo onde estavam o rei e a sua senhora. E, quando chegou ao cimo de um monte, viu o grande combate que era feito contra o outro castelo. Então, mui contente por isso, entrou com quinze homens a cavalo no castelo onde estava o rei. O caudilho-dos-caudilhos, fugindo em grande desespero, entrou no castelo onde Tirant estava preso. Tendo desmontado e sido bem recebido pelo filho, perguntou o que era feito do prisioneiro cristão; e disseram-lhe que estava preso e bem guardado. O caudilho ficou mui enojado ao lembrar-se do que havia dito, caído no chão, quando dele se separou: que ele haveria de conquistar aquela terra; pensou muitas vezes naquelas palavras e pensava também em que Tirant era cristão e devia ser mui ágil nas armas. Entrou para o ver, e saudou-o com cara mui afável, sabendo que Tirant tinha muita razão para estar aborrecido e descontente com ele; por isso, com palavras deste estilo, começou assim a falar. 21
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ccciii. Consolo que o caudilho dá a Tirant. – Peço-te, cristão valeroso, que não te aborreças por haveres sido tão maltratado pelo meu filho, pois juro-te por Maomé que isso não foi feito a mando meu nem segundo a minha vontade, nem penses que tive tal pensamento; pelo contrário, foi sempre minha decisão desde que te vi tratar-te como filho, pois reconheço que és disso merecedor, e peço-te que te alegres e te consoles, porque tenho a esperança de que por meio de ti também serei consolado. E peço-te perdão, pois reconheço que tens justa causa para reclamares de mim; mas eu juro-te, palavra de cavaleiro, que, se eu viver, será tal a satisfação que te darei, que ficarás inteiramente feliz. Não te admires se, como cavaleiro fugitivo de batalha, em nome do meu senhor venho em demanda de ti, pois acredito que tu, cristão, deves saber muito de armas e ter participado em muitas guerras, segundo as marcas que em ti se vêem; o que mais me leva a acreditar nisso foi dizeres, quando caíste, que, com a ajuda do teu Deus, conquistarias toda esta terra. Outra razão me ajuda a confirmar a minha crença, pois quando te vi nu, sem camisa, e olhando para o teu bem proporcionado corpo, semelhante ao de Sebastião, que foi cravado de setas, o teu eu vi tão cheio de feridas que de certeza quem tas causou não teve muita compaixão de ti, nem creio que as hajas recebido enquanto dormias ou as tuas mãos estivessem ociosas. Pelo que me parece suficientemente bem provado como tu deves ser destro nas armas e sabedor nas guerras. Não sei que necessidade tens de outro pai que não eu, e não sei porque imploras a morte, pois ela é de uma natureza tal que vem mais depressa para os que a temem do que para aqueles que a desejam. Portanto, se estás na suma miséria, enche-te do espírito de consolação e aparta de ti toda a espécie de dor e pensamento, e peço-te que te alegres para que me possas dar a mim consolo, pois eu só desejo reduzir-me a nada quando penso na dolorosa batalha que perdemos, e mais ainda pensando nas piedosas lágrimas de todos os que nesta triste batalha foram mortos ou feridos. Pelo que agora te peço como a um filho que tenhas compaixão da minha miséria; que será da minha honra quando a notícia deste acontecimento chegar aos ouvidos das gentes? E pôs fim ao seu falar. Não demorou Tirant, com voz piedosa, a dar início a esta resposta. 22
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ccciv. Resposta que Tirant deu ao caudilho. – A grande virtude que em vós reconheço, senhor caudilho, é porque me haveis libertado da prisão, não pelos meus méritos anteriores, mas pelo muito valor de Vossa Senhoria. E não mostrais o vosso valeroso ânimo de cavaleiro mudando o vosso valeroso propósito de não temer os perigos da guerra por mais que a fortuna vos tenha sido adversa. Por isso, como a minha adversidade foi mui grande, tenho compaixão da vossa; agradeço a Vossa Senhoria porque me haveis dado consolo, pois ao ver-me em liberdade todos os meus males passados dou por olvidados, confiando na misericórdia daquele bom Senhor que me criou e que jamais me faltará. Peço-vos, senhor, que não desespereis tanto, pois faríeis com que os vossos súbditos e todos os que irão sob a vossa bandeira perdessem a esperança. Porque é próprio dos cavaleiros, umas vezes serem vencidos, e outras, vencedores. Mas deve Vossa Senhoria pensar nas virtudes que possuís, e não presuma Vossa Prosperidade alguma maldade em mim, pois outra coisa não quero de Vossa Senhoria, nem peço senão a vida, pois só a desejo porque tenho a esperança de tirar Vossa Senhoria de angústias, e assim a minha alma ficará consolada, pois não desejo bens de fortuna, porque estes são transitórios e sem qualquer firmeza. Por isso, senhor, pelo grande amor que vos tenho, e para não ser ingrato ao modo como fui recebido por Vossa Mercê, não vos ocultarei a minha fortuna e, como em Espanha pratiquei largamente o nobre exercício das armas, saberei aconselhar e ajudar tanto como qualquer outro, e serei dos primeiros no perigo das armas. E disto vos peço perdão, de tanto me haver elogiado, mas as minhas obras testemunharão o que digo. Que este rei tenha sitiado o vosso rei e senhor, isso não vos deve surpreender, pois é coisa própria de reis. Se temeis que as bombardas destruam o castelo, e pensais que eu deva dar prazer a Vossa Senhoria, eu destruirei todas as que houver. O caudilho ficou mui consolado com tudo o que Tirant lhe disse e fez com que este se aprontasse para partir, pedindo-lhe muito que levasse todas as coisas necessárias para destruir as bombardas. Tirant respondeu, dizendo: – Senhor, é coisa certa, segundo dizem os antigos, que o homem pobre, para fazer ou realizar alguma obra valerosa, há necessariamente mister de grande 23
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abundância de bens, pois na bem-aventurança política o homem totalmente pobre não pode ser considerado bem-aventurado, pois é muito difícil ao mui necessitado poder realizar alguma coisa virtuosa. Embora Salomão diga que a pobreza é uma riqueza infinita e um bem desconhecido5, pois à pobreza basta tudo o que necessita ou requer a natureza. Então o caudilho ordenou que lhe dessem o melhor cavalo que ele tinha, armas e bastante dinheiro. Tirant comprou um fel de baleia mui velha, pegou em mercúrio vivo, salitre, vitríolo romano e outros materiais e fez com isso tudo um unguento, pô-lo numa caixa e deu-o àquele que agora era o seu senhor. Saíram do castelo o mais secretamente que puderam, atravessaram o rio e, de noite, refugiaram-se no outro castelo; deste castelo até ao outro onde estava o rei, a distância era de um quarto de légua. Quando fez o reconhecimento daquela zona, Tirant viu uma ponte de pedra que atravessava o rio e que os inimigos estavam instalados no meio de uma grande plantação, pelo que ninguém ousava atravessar a ponte, e se o fizesse cairia nas mãos dos inimigos. Tirant pediu então ao caudilho que lhe desse um mouro que não fosse conhecido, em quem ele pudesse confiar, e que lhe entregasse também duzentos carneiros; estes prontamente lhe foram dados. Tirant vestiu um capucho de pastor, fingindo ser um criado daquele mouro. O rei Escariano, convencido de que nenhum dos seus adversários o podia molestar, pois tinha grande multidão de gente de armas e havia saído vencedor da batalha, não estava preocupado com os inimigos; fazia disparar continuamente trinta e sete bombardas, entre grandes e pequenas, e isto três vezes por dia; e já havia derrubado mais de metade do castelo. Havia mandado apregoar que todos os que trouxessem vitualhas para o acampamento seriam guiados na ida, na volta e enquanto lá estivessem. O mouro e Tirant subiram uma boa légua em direcção à ponte com o gado, vieram directamente para o acampamento e pediam por cada carneiro mais do que ele valia, porque havia muitos compradores; e para que o gado não fosse vendido muito depressa, pediam grandes preços. Permaneceram ali três dias e leva5
Provavelmente em Provérbios, 13,7.
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ram o gado para perto das bombardas. Tirant, com a escusa de as ver, aproximou-se delas, untou a mão com o unguento que havia preparado e passou-a por todas as bombardas. O unguento era composto por uns materiais que qualquer metal em que ele tocasse se tornava ferruginoso passadas apenas três horas, de tal forma que a bombarda ou a besta, ao ser disparada, forçosamente se partiria. No dia seguinte, quando as dispararam contra o castelo, partiram-se todas, não ficando nenhuma inteira. O rei Escariano ficou mui admirado por as suas bombardas se terem assim partido, e viu nisto um mau presságio. Tirant e o mouro voltaram para o castelo onde estava o caudilho. Ordenou Tirant que destruíssem um arco da ponte, e no seu lugar puseram uma ponte levadiça de madeira, com correntes de ferro para a levantar e baixar. Depois de feito isto, mandou imediatamente colocar grossas vigas no outro lado da ponte e aí fizeram uma paliçada. Depois de fazerem a paliçada, Tirant, bem armado, montou num bom ginete e, com uma boa lança na mão, foi direito ao acampamento dos inimigos e encontrou cinco mouros que estavam ao sol. Tirant arremeteu contra eles; os mouros, descuidados, vendo que ele vinha só, pensaram que era um homem do campo, e Tirant, com a lança, matou os cinco. Os gritos foram grandes e o acampamento sobressaltou-se, armaram-se todos e montaram nos seus cavalos. Tirant só se preocupou em matar todos os que lhe apareciam pela frente. Quando viu que era gente de armas e a cavalo e que vinham em direcção a ele, recuou para a paliçada, combatendo sem parar. Quando chegou à paliçada, desceu rapidamente do cavalo e os mouros chegaram à paliçada, mas os do castelo desceram para ajudar Tirant. Deu-se ali uma bela escaramuça, e nela morreu muita gente. Os do acampamento atacaram tanto que Tirant teve forçosamente de retroceder, e levantaram a ponte levadiça, com medo dos mouros. Então estes destruíram a paliçada e, de noite, Tirant ordenou que a refizessem. De manhã, os mouros voltaram e encontraram-na reconstruída. E assim todos os dias e a toda a hora faziam combates, e morria muita gente, tanto de um lado como do outro, de tal forma que em todo o dia não faziam outra coisa; e acontecia muitas vezes que combatia todo o acampamento. Dentro do castelo havia duas bombardas e Tirant mandou-as trazer para a entrada da ponte, e dali as fazia atirar contra o acampamento, e muitas 25
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vezes lhes causavam grande dano. Tirant, sempre armado, mantinha-se na paliçada a combater continuamente contra os mouros. Um dia Tirant disse ao caudilho: – Senhor, gostaríeis que eu tirasse o rei, vosso senhor, do castelo e vo-lo trouxesse aqui ou a alguma outra fortaleza onde estivesse em lugar mais seguro? Respondeu o caudilho: – Se tu me prestasses tão grande serviço, de forma a eu ter a minha nora e o seu desposado à minha disposição, eu far-te-ia senhor de todos os meus bens. E no caso de te esqueceres do rei, eu não me importaria muito. – Agora, senhor – disse Tirant –, mandai aparelhar dois ginetes, com um pajem que seja conhecido, e fazei com que os ponham debaixo daquele pinheiro com outro que os guie até meia légua daqui. E imediatamente assim foi feito. Quando o dia chegou claro e limpo, Tirant subiu para o cavalo e fez armar cem homens, ordenou-lhes que passassem a paliçada e que disparassem a toda a pressa as duas bombardas que ali tinha. Quando os do acampamento viram que os cem homens haviam passado a paliçada, tiveram medo que eles entrassem no acampamento para os matarem a todos, como Tirant já havia feito outras vezes. Armaram-se todos e avançaram em direcção à paliçada, onde ocorreram muitos confrontos armados ferindo e matando muita gente de um lado e do outro, e viram-se forçados a recuar até à paliçada, pois os inimigos puseram-se todos de acordo para atacar com toda a força a fim de entrarem todos juntos na ponte e, se tomassem a ponte, teriam o castelo nas mãos; naquele dia pouca gente ficou no acampamento, foram quase todos para a paliçada. Quando Tirant viu ali toda a gente junta, disse ao caudilho: – Senhor, permanecei aqui fazendo-lhes frente o mais que puderdes, e eu irei aonde tenho de ir. Deu de esporas com força e dirigiu-se para onde estava o pajem que o esperava. Quando chegou junto dele, o ginete já ia mui cansado; desceu do cavalo e deu-o ao mouro, e pegou no que estava bom e fresco; partiram ele o pajem; atravessaram a plantação o mais escondidos que conseguiram por detrás do acampamento para não serem vistos por ninguém; mandou seguir o pajem em primeiro lugar, porque os do castelo ainda não conheciam Tirant. Aproxima26
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ram-se tanto que o desposado reconheceu que o pajem era o seu irmão mais novo e não deixou que ninguém disparasse a besta contra ele e contra Tirant. Já dentro do castelo, encontrou-se com o rei, que viera para a sala a fim de o ver, e fez-lhe uma grande festa. – Senhor – disse Tirant –, vós e a vossa filha montai imediatamente a cavalo e vinde comigo, que eu vos levarei para um lugar seguro. O rei pegou no ginete do pajem e fez subir o desposado para a garupa do ginete; Tirant pegou na donzela e fê-la montar na garupa do seu ginete e saíram do castelo a toda a pressa, sempre a correr até já estarem a uma légua do acampamento. Quando a noite caiu, puseram-se a andar a passo. O rei, que conhecia muito bem toda aquela região, foi directamente para a sua cidade mais forte, isto é, Tremicen. Indo o rei a caminho, e estando mui agradado com a bela figura de Tirant, sentiu desejo de saber como a fortuna o havia trazido até ali, e começou assim a falar.
cccv. Como o rei de Tremicen se lamentou dos seus males a Tirant. – Se os cruéis fados não estiverem satisfeitos por tanto me haverem prolongado a vida, vinguem-se eles de mim com uma morte desonrosa. Embora agora me doa que a minha tristeza jamais tenha fim, e estar triste me dê prazer, fico feliz se a minha dor for eternamente manifesta aos seres vivos, pois o ter perdido a última batalha faz-me sentir pena tão dolorosa que é como se eu estivesse morto. Por isso te peço, gentil-homem, que pela tua virtude me faças saber que razão te levou a pôr em tão grande perigo a tua pessoa para me libertares a mim, rei triste e desventurado. Pois com diversidade de mui penosos pensamentos me fizeste sair de lá onde eu julgava acabar os meus derradeiros dias, e os meus males multiplicaram-se ocasionados pela minha grande desventura; por isso, com nova paixão, e quase fora de mim, entre os desventurados eu me encontrava. Oh, for27
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tuna inimiga, que tens inveja da minha felicidade e espreitas com grande solicitude a minha velhice, na esperança de irreversível vitória! Mas de que me vale lamentar-me neste caso? Pois que agora estou aqui, e assim aprouve a Maomé que eu pela tua virtude seja libertado, quero que tenhas total confiança em mim de que serás devidamente premiado pelos teus virtuosos trabalhos. E mais não disse. Tirant não tardou em dar esta resposta às palavras do rei.
cccvi. Resposta que Tirant deu ao rei de Tremicen. – Diante dos olhos e mercê de Vossa Senhoria se manifestarão as míseras lágrimas e os dolorosos suspiros que o vosso povo aflito lança dia e noite por Vossa Senhoria. Podeis ter a certeza, senhor, de que as vossas delicadas faces de lágrimas banhadas me amoleceram e moveram a condoer-me e ter compaixão ao ouvir as vossas injustas angústias, as quais fizeram renascer as minhas dores e tocaram a minha alma para ter piedade de Vossa Senhoria, ouvindo e tendo notícia das grandes angústias que os vossos cruéis inimigos vencedores vos causavam. Cheguei ao vosso castelo com benigna fortuna e por mandato daquele de quem ora se diz ser meu senhor e eu cativo, o famoso cavaleiro caudilho de todos os caudilhos. Agora que manifestei a Vossa Senhoria a causa da minha vinda, que este único e desejado serviço reste para as minhas penas. E perdoai-me, senhor, a frágil resistência que ofereci às armas dos vossos inimigos, por mim desconhecidos, e de mim seja feito o que aprouver a Vossa Senhoria, no lugar e no momento em que a minha fé o merecer, contanto que, louvando-me da vossa mercê, eu multiplique o número dos vossos súbditos. E pelos méritos da singular beleza, graça e saber que a senhora vossa filha possui, eu me expus a tão extremado perigo, remetendo tudo para a bem-aventurada fortuna. O rei, lançando infinitos suspiros, replicou a Tirant com semelhantes palavras deste estilo. 28
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cccvii. Réplica que o rei de Tremicen dá a Tirant. – Mui estimado deve ser o homem cuja disposição é conforme as suas palavras e obras. E de ti devo presumir, segundo o que aos meus olhos se manifesta, que a natureza não falhou em ti, outorgando-te todos os dons que a natureza pode dar. Creio que tu és no mundo o único sem temor. E sou forçosamente levado a crer, segundo os sinais que em ti se mostram, que és cristão, sábio e sério, e com tal ânimo que não tens receio de todo o povo mourisco. Pelo que te peço, como virtuoso que és, te dignes ter piedade da minha filha e de mim, e queiras com discernimento guardar a tua pessoa de todo o perigo, pois a ousadia realizada com sabedoria é de louvar. E digo-te que sinto tão grande abominação quando ouço o nome deste rei Escariano que até desejo morrer. Oh, Maomé! Por que razão a tua santidade me arrebatou a esperança? Tirant confortou-o da melhor maneira que lhe foi possível. E assim falando chegaram à cidade de Tremicen, onde foram recebidos com mui grande honra e alegria por haverem recuperado o seu senhor. O rei mandou dar pousada a Tirant, onde foi mui bem provido e servido. Estando Tirant no seu alojamento, o rei fez-lhe muitos donativos e todos os cavaleiros mouros e outras pessoas vinham vê-lo, e ele era tão encantador que agradava a todo o tipo de pessoas. Vindo Tirant certo dia ao palácio do rei para lhe pedir licença, porque queria ir ter com o seu senhor, o caudilho, para cumprir o que lhe jurara, o rei, ao sabê-lo, disse-lhe: – Cristão virtuoso, peço-te que não te afastes de mim, pois mandei dizer ao caudilho, teu senhor, que venha para cá, e dez dias não passarão sem que ele venha. Organiza-me a cidade e dá-lhe a ordem que tu verificares que é necessária, que eu, como rei coroado, triste e desventurado, te prometo resgatar e pôr-te em liberdade. Tirant pôs os joelhos em terra, rendendo graças infinitas, beijou-lhe a mão e confortou-o, dando-lhe mui boas esperanças. A filha do rei, ao ver a boa figura de Tirant e as acções virtuosas que ele realizara pelo rei, seu pai, e por ela, e os louvores e lisonjas que Tirant lhe dizia na 30
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cdlvi. Carta enviada pelo virtuoso Tirant ao rei Escariano. Ao Excelente Rei e nosso caro irmão de armas, rei de Tunes e de Tremicen, príncipe e senhor de toda a Etiópia. Tirant lo Blanc do Rochedo Salgado, Capitão, César e sucessor de toda a Grécia, ao nosso estimado irmão e companheiro de armas, o rei Escariano, saudações, amor e prosperidade. A vossa vinda alegra-nos tanto como se por ela nos tivesse sido concedida a vitória, e, para vos podermos prestar as honras e fazermos a recepção devidas a um tão grande rei e senhor como vós, pedimos-vos encarecidamente que, onde quer que a presente carta vos encontre, ordeneis montar as tendas e preparar o acampamento e a vossa corte, e dar alojamento à vossa excelentíssima pessoa, posto que o repouso, a honra e a vitória sobre os turcos e infiéis estão nas nossas mãos e domínio pacífico. Remeto as outras palavras para quando nos virmos, e sentireis prazer e consolação pelo nosso casamento e prosperidade bem-aventurada, como é próprio de quem tanto amor e querer tem por mim com virtuoso afecto. Recebida a carta do César, não foi pequena a satisfação do magnânimo rei Escariano, admirado com a grande virtude e fortuna favorável do glorioso cavaleiro Tirant, que pela sua imensa indústria e alta cavalaria havia obtido triunfante vitória sobre tantos grandes senhores do povo mourisco. Encontrando-se próximo de uma grande e nobre cidade chamada Estrenes, o magnânimo rei mandou parar toda a sua gente e aí armaram as tendas. Esta cidade era mui agradável, perto de um grande rio que passa junto dela, e ficava a cinco jornadas de Constantinopla. O correio, ao ver as tendas do acampamento, regressou imediatamente para levar a agradável notícia a Tirant de que o rei Escariano estava parado, havia lido a sua carta e assentado o seu real acampamento diante da cidade de Estrenes. O virtuoso Tirant partiu do seu acampamento com toda a sua gente e meteu-se a caminho de uma belíssima cidade chamada Sinópolis58; acampado 58
Actual Sinope, no Mar Negro.
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diante da dita cidade, os dois embaixadores mouros falaram com o capitão da cidade e ordenaram-lhe, da parte do Sultão e do Grão-Turco, que entregasse a cidade e o seu domínio ao César do Império Grego, e mostraram-lhe a carta credencial. O capitão pegou na carta, beijou-a com grande reverência e mandou que fosse lida. Depois de lida, o capitão disse que obedecia e cumpria as ordens do seu senhor com todo o prazer. Levada a resposta ao César, este entrou na cidade acompanhado de todos os reis e grandes senhores; tomou posse da cidade, e recebeu as homenagens dos que eram cristãos ou haviam sido convertidos, e fez voltar à santa fé católica os que haviam renegado. Estando o virtuoso capitão Tirant na dita cidade, trouxeram as chaves de dez castelos com as suas vilas e deram-lhas; Tirant aceitou-as com cara mui afável e com grande benignidade, e enviou os seus capitães e lugar-tenentes receber as homenagens e expulsar todos os mouros. Partindo daquela cidade, o César dirigiu-se para outra nobre cidade chamada Andrinópolis, abundante em inumeráveis deleites, que lhe foi entregue pela mesma ordem que a outra acima dita, com muitos castelos e vilas que ficavam próximas; e fizeram grandes donativos ao virtuoso capitão Tirant. E assim, avançando o poderoso exército em direcção ao lugar onde sabiam que estava acampado o magnânimo rei Escariano, muitos castelos e vilas se entregaram ao César, e cujos nomes omito para não causar prolixidade. E caminharam durante tantos dias seguidos que chegaram a meia légua da cidade de Estrenes, onde repousavam as hostes do rei Escariano. Sabendo o rei Escariano da vinda do seu caro amigo e irmão de armas, e de que estava tão perto, montou a cavalo a toda a pressa e, juntamente com os grandes senhores da sua hoste, foi ao seu encontro, e encontraram-se a meio caminho. Rapidamente os dois irmãos de armas e os reis desceram dos cavalos, se abraçaram e beijaram com imenso afecto e as maiores festas possíveis. Depois de se haverem cumprimentado efusivamente, Tirant disse ao rei Escariano que tinha na sua companhia o rei da Sicília, a quem tinha na conta de irmão, e o rei de Fez. O rei Escariano foi ter com o rei da Sicília e o rei de Fez e abraçou-os e beijou-os com muito afecto e muitas carícias mútuas. Depois regressaram todos a cavalo e todos juntos tomaram o caminho da cidade. 306
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Quando chegaram às tendas do rei Escariano, o príncipe Tirant e os reis desceram dos cavalos diante da tenda da ínclita rainha da Etiópia, que os recebeu com cara mui afável, os abraçou e beijou a todos e lhes fez imensas festas. O virtuoso príncipe Tirant, depois de haver cumprimentado alegremente tão bela rainha, enviou os animosos barões mouros embaixadores do Sultão e do Grão-Turco à cidade, ordenando-lhes que dissessem da sua parte que, se eles não quisessem entregar-se a bem, se preparassem para a batalha, com o aviso de que, se optassem pelo combate, ele não teria misericórdia de nenhum mouro, fosse ele grande ou pequeno, que se encontrasse dentro da cidade. Ao chegarem às portas da cidade, os embaixadores perguntaram pelo capitão, dizendo que queriam falar com ele. Os guardas das portas mandaram chamar o capitão e, abertas as portas, os mouros embaixadores apresentaram-lhe as cartas credenciais do Sultão e do Turco; o capitão recebeu-as com a devida reverência e, depois de lidas estas cartas, disse que estava pronto a cumprir tudo o que o Sultão e o Grão-Turco lhe ordenavam, pois ele tinha aquela cidade em nome de suas senhorias. Falou o filho do Grande Caramani, dizendo: – Capitão, eu vos ordeno, da parte da grande senhoria, que entregueis a cidade e presteis homenagem ao grande César do Império Grego, e mais vos digo, da parte do César e capitão Tirant que, se não lhe entregardes a cidade a bem, não espereis conseguir dele alguma misericórdia. Respondeu o capitão, dizendo: – Nobres e virtuosos embaixadores, dizei a Sua Senhoria o César que concordo em seguir as ordens dos meus sublimes senhores, e estou pronto a obedecer ao César, assim como à própria pessoa de Sua Majestade o senhor Imperador. E, na presença dos embaixadores, o capitão da cidade mandou de imediato que todas as portas da cidade fossem abertas. Recebida a resposta, o virtuoso capitão Tirant montou a cavalo, junto com o rei Escariano e os outros reis e grandes senhores dos dois acampamentos e, em grande triunfo, com incontáveis atabais, trombetas, clarins e tamborins entraram na cidade, onde lhes prestaram enormes honras e foram distribuídos por alojamentos mui bem mobilados e foram dados muitos presentes e donativos ao César. 308
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Acomodados os grandes senhores na cidade, o príncipe Tirant fez armar as tendas do seu acampamento diante da do rei Escariano, e havia tanta gente em cada um dos acampamentos que nem um terço deles caberia na cidade, embora esta fosse mui grande e bem ordenada. Foram aqui tão bem recebidos que, tanto os de dentro como os de fora, foram mui bem servidos e providos em abundância de tudo o que tinham necessidade. O César quis que o rei Escariano e a rainha repousassem aqui oito dias, pelo longo caminho que haviam feito, pois da terra do rei Escariano até ali havia mais de cem dias de caminho. Por isso, como o rei Escariano tinha o enorme desejo de participar no combate que Tirant haveria de ter com o Sultão e o Turco, caminhava jornadas seguidas e enviava correios todos os dias a Tirant suplicando-lhe que não começasse a batalha enquanto ele não chegasse. Por este motivo, o rei Escariano tinha a sua gente e os cavalos mui fatigados e a precisar de repouso. Estando o príncipe Tirant com grande prazer na cidade de Estrenes a festejar com o magnânimo e virtuoso rei Escariano e a rainha, trocaram entre si muitas e agradáveis palavras, entre as quais o virtuoso Tirant lhes contou os feitos gloriosos por ele realizados depois de haverem partido da Berberia, e as grandes vitórias que havia obtido sobre os mouros, e como o Imperador, na sua imensa benignidade, lhe havia dado por esposa a sua filha Carmesina e o havia feito jurar como Príncipe e César do Império e Imperador depois da sua morte, e os pactos e convénios que havia feito com o Sultão e com o Turco, e como estes lhe haviam prometido e jurado restituir todo o Império e estavam presos, junto com todos os grandes senhores do povo mourisco, e por este motivo ele havia partido da insigne cidade de Constantinopla para recuperar e tomar posse de todas as terras, cidades, castelos e vilas do Império Grego que haviam sido tomadas pelo Sultão e pelo Turco. – Por isso, senhor e meu irmão, suplico da vossa grande virtude e comprovada liberalidade, na qual muito confio, que queirais vir comigo até ao fim desta conquista e dos meus trabalhos, pois confio que, com a ajuda da Divina Providência e com o grande exército que eu e vós temos, o mundo inteiro não conseguirá resistir-nos e, por outro lado, terei como uma grande graça que quei309
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rais enviar a senhora rainha à cidade de Constantinopla, porque estou certo de que a minha Princesa não tem outro desejo neste mundo senão ver a sua grande gentileza, e lá ficará em grande tranquilidade até voltarmos da conquista. Respondeu o rei Escariano com palavras deste estilo.
cdlvii. Como o rei Escariano concordou que a rainha fosse para Constantinopla. – Senhor do Império Grego e meu irmão, a minha língua não vos conseguiria explicar quão grande é a satisfação que a minha alma sente pela vossa próspera fortuna, e podeis ter a certeza de que Vossa Senhoria não tem de me suplicar, mas sim de me ordenar como súbdito, vassalo e servidor vosso. Pois seguir-vos-ei se quiserdes descer aos lugares tenebrosos dos infernos, pois me sinto mais obrigado a vós do que a qualquer outra pessoa deste mundo, mais até do que ao pai que me gerou, quanto mais agora nas coisas relacionadas com a honra e excelência da vossa virtuosa pessoa. Desejo que de aqui em diante disponhais de mim e da rainha em tudo o que vos aprouver, pois só temos de vos obedecer e servir. O virtuoso Tirant, ao ouvir estas grandes cortesias do rei Escariano, agradeceu-lhe o seu grande amor. Decidiram enviar a bela rainha para a cidade de Constantinopla, e foram aprontados quinhentos homens de armas e muitos nobres e cavaleiros mui bem vestidos para a acompanharem. Despediu-se a ínclita rainha do seu senhor, o rei Escariano, e foi acompanhada por Tirant, os outros reis e senhores durante uma légua. Tirant e os outros despediram-se da rainha, e ela continuou o caminho para Constantinopla; Tirant e os outros senhores voltaram para a cidade.
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cdlviii. Como Tirant, com toda a sua hoste, partiu da cidade de Estrenes. Havendo a ínclita rainha da Etiópia partido da cidade de Estrenes, o virtuoso Tirant disse ao rei Escariano: – Senhor e irmão, está na hora de partirmos, pois a vossa gente já haverá repousado bastante, e porque a minha alma sofre continuamente pensando na ausência daquela que sustém a minha vida, e só desejo voltar para dar descanso e remédio ao meu fatigado pensamento. Não sei se a fortuna me permitirá alcançar tamanha glória. Respondeu o rei Escariano, dizendo: – Senhor irmão, que a Majestade Divina se compraza em conceder-vos a graça de realizardes o vosso bom desejo, pois foi por Vossa Mercê bem trabalhado e merecido, e eu ficarei mui contente de que seja rápida a sua execução. De imediato os magnânimos senhores ordenaram que os acampamentos fossem levantados. E cada um pôs a sua gente a postos. Partiram desta cidade, dirigiram-se para a província da Trácia e chegaram a uma cidade que se chama Estranges, que era circundada por uma nobre muralha adornada com torres tão belas e tão altas, com tal devida proporção, que era um grande prazer vê-la. Ao chegar a esta cidade, o César enviou os embaixadores do Sultão e do Turco ao capitão da cidade, para perguntar se ele queria entregar-se ou se queria entrar em combate. Quando o capitão viu chegar os embaixadores, montou imediatamente a cavalo e foi recebê-los fora da cidade e, ao encontrar-se com eles, prestaram-se honras mútuas. Explicada pelos embaixadores a nova embaixada, o capitão disse-lhes que ele não queria opor-se ao César, mas sim obedecer-lhe e servi-lo, e que de imediato lhe seriam abertas as portas da cidade. O capitão transmitiu à cidade a ordem para que todas as portas fossem abertas. E a seguir o capitão foi com os embaixadores ao acampamento de Tirant e, apresentando-se diante dele, desceu do cavalo e beijou-lhe a mão e o pé, e disse-lhe as seguintes palavras.
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cdlix. Como o capitão da cidade de Estranges entregou as chaves e a cidade ao César. – A glória da tua virtuosa fama, preclaríssimo Príncipe e excelente Capitão, aumenta os ânimos dos cavaleiros a quererem amar-te e servir, porque a virtude do grande Deus, em cuja santa fé tu acreditas e defendes, fez-te prosperar tanto que ultrapassas em cavalaria e virtude todos os outros cavaleiros e senhores deste mundo. Eu sou vassalo e servidor do Grão-Turco, que por sua grande bondade e virtude me fez, apesar de não ser digno, cavaleiro e capitão desta cidade, que lhe mantive em tranquila paz até ao dia de hoje. Manda-me agora Sua Senhoria que eu te entregue a cidade a ti, como se fosse à própria pessoa de Sua Majestade Imperial, e liberta-me da promessa de fidelidade e homenagem que eu lhe devia. Por isso, agora mesmo te entrego e confio as chaves, e suplico à tua grande senhoria que me queira aceitar por vassalo e servidor, porque eu, depois de Deus, não poderei servir melhor senhor, e que me queirais dar o santo baptismo, pois quero baptizar-me com a minha mulher e filhos, e quero ser vassalo fidelíssimo da coroa imperial. Respondeu Tirant desta forma: – Espera-se dos homens sábios que, com o seu grande discernimento, venham a obter o que desejam, e superem os infortúnios da fortuna adversa, transformando o mal no maior bem que não possuíam. Por isso, capitão, porque conheço a tua grande virtude e discernimento, aceito as chaves da cidade e a ti como vassalo e servidor dedicado, e desde este momento te confirmo na capitania da cidade, para que a mantenhas em nome de Sua Majestade o senhor Imperador e dos seus sucessores, e prometo-te que, se a fortuna me for favorável, te farei grande senhor. Ao dizer o César estas últimas palavras, o mouro capitão, que estava ajoelhado diante de Tirant, voltou a beijar-lhe o pé e a mão e, com voz esforçada, disse: – Meu senhor, dou infinitas graças à tua grande senhoria pela mercê que pela tua grande liberalidade me outorgas, não sendo eu disso merecedor, e suplico ao grande Deus que defenda a tua virtude e te dê tanta vida que possas 312
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trazer toda a mourisma à santa fé católica, e que eu te veja como imperador, reinando bem-aventuradamente. O virtuoso Tirant mandou que toda a gente acampasse diante da cidade, e ele, junto com o rei Escariano e os outros reis e grandes senhores, entrou na cidade, onde foram todos recebidos com muita alegria pela população grega. Foram dados grandes presentes e donativos ao César, e foram todos colocados em boas pousadas; e os de fora, no acampamento, foram mui bem fornecidos de vitualhas. Na manhã seguinte, o capitão da cidade dirigiu-se ao César e suplicou-lhe que lhe concedesse a mercê de o mandar baptizar, e o César mandou a um bispo que trazia na sua comitiva que voltasse a consagrar a igreja matriz da cidade, que antes era dos cristãos e os mouros haviam transformado em mesquita, e fossem lá colocadas pias baptismais. O reverendo bispo cumpriu a ordem. Consagrada a igreja, Tirant mandou aprestar um belo altar, onde foi posta a imagem da sacratíssima Mãe de Deus, Senhora Nossa. Quando soube que a consagração da igreja já havia sido feita, o virtuoso Tirant, na companhia do rei Escariano, dos outros reis e senhores e do capitão da cidade, dirigiu-se para a igreja, seguido pela maior parte do povo mourisco da cidade. Quando já estavam dentro da igreja, começou uma cerimónia mui singular, pois estavam presentes os chantres da capela de Tirant e os da capela do rei Escariano, e o bispo disse a missa, e era tanto o som agradável da música que os mouros estavam mui admirados e tinham conhecimento da grande perfeição da lei cristã. Terminado o ofício divino, Tirant fez baptizar primeiro o capitão da cidade, e foi seu padrinho o rei Escariano, que assim o quis Tirant; e logo foi chamado mossèn João Escariano. Depois foi baptizada a esposa, e Tirant foi seu padrinho, recebendo o nome de Ângela. Depois baptizaram cinco filhos do capitão, e Tirant, depois de eles serem baptizados, fê-los aos cinco cavaleiros, porque o mais novo tinha vinte anos, e deu a todos cavalos e armas, e todos eles foram cavaleiros bons e valentíssimos. Depois baptizou-se a restante mourisma, e naquele dia foram baptizados dois mil mouros, por verem que o capitão, a quem eles tinham por mui sábio, se baptizava. Depois, Tirant fez com que todos os gregos que haviam renegado a fé se reconciliassem e, já todos bons cristãos, juraram fidelidade ao Imperador na 313
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pessoa do César. Todos os mouros que não quiseram ser baptizados foram expulsos da cidade. Nesta cidade nasceu o grande filósofo Aristóteles, a quem têm na estima de grande santo 59. Estando o príncipe Tirant acampado nesta cidade e a descansar, enviou os dois embaixadores mouros por todas as terras à volta, e todas as cidades, castelos e vilas de toda aquela província enviaram as chaves com os seus síndicos, que prestaram homenagem ao príncipe Tirant, e este em cada cidade, vila ou castelo mudava o capitão. Depois, partindo da cidade de Estranges, dirigiram-se para a Macedónia e chegaram a uma cidade que se chama Olímpia 60. Esta cidade toma o nome de um monte próximo dela, e que é dos mais altos do mundo, que se chama Olimpo. Aqui foram mais bem acolhidos e festejados do que em qualquer uma das outras onde haviam estado, porque sabiam que o César era primo-irmão de Diafebus, seu duque e senhor, e por este motivo entregaram-se mui livremente e de mui boa vontade. Como o capitão era grego e havia renegado, eles entregaram a Tirant muitos presentes e deram-lhe enorme quantidade de tesouros, pois aquela agraciada terra era mui rica. Em poucos dias todo o ducado da Macedónia foi submetido à coroa imperial. Partindo do ducado da Macedónia, o príncipe Tirant e a sua gente tomaram o caminho da cidade de Trapasonda61, que se entregou imediatamente, porque o poderio que o César trazia consigo era tanto que causava pavor a toda a mourisma do mundo, pois eram mais de quatrocentos mil combatentes úteis; entre eles havia-os de muitas nações, e não havia cidade nem fortaleza que tivesse o atrevimento de oferecer resistência. No espaço de tempo de um mês a província de Trapasonda entregou-se toda ao César. Foram trazidos para aqui todos os cavaleiros que haviam sido presos pelo Sultão, e de quem Diafebus, duque da Macedónia, havia sido capitão; foram trazidos da cidade de Alexandria, onde estavam presos, e o seu número era de 59 Estranges é o nome dado por Joanot Martorell à cidade de Estagira, onde nasceu Aristóteles, e que de facto fica na Macedónia. 60 Cidade fictícia, pois a verdadeira Olímpia fica no Peloponeso. 61 A actual Trebizonda, cidade do nordeste da Turquia.
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cento e oitenta e três cavaleiros; todos os outros cavaleiros, juntamente com outra gente, haviam morrido na batalha e na prisão, onde muitos pereceram. O motivo pelo qual foram para ali trazidos foi que, estando presos o Sultão e o Turco, Tirant mandou para Alexandria uma galeota com um cavaleiro do Sultão com ordens rigorosas do Sultão aos seus alcaides para que enviassem imediatamente por terra os cavaleiros presos para o lugar onde soubessem que estava o César; e assim chegaram à cidade de Trapasonda, onde o César descansava, e foram por ele mui bem recebidos. O virtuoso príncipe Tirant perguntou qual deles era o duque da Macedónia, e logo o trouxeram à sua presença; estava tão mudado que nunca o haveria reconhecido, pois tinha a barba até à cintura e o cabelo pelos ombros, magro, pálido e toda a sua bela fisionomia desaparecida, vestido com um albornoz amarelo, com uma toalha azul na cabeça. Todos os outros cavaleiros estavam ataviados de forma semelhante. Quando chegou diante do César, o duque da Macedónia lançou-se aos seus pés para os beijar. O César levantou-o do chão e beijou-o na boca, vertendo os seus olhos lágrimas vivas; soltando suspiros de dor, e com voz lastimosa, pronunciou as seguintes palavras.
cdlx. Palavras de consolação e verdadeiro amor que Tirant disse ao duque da Macedónia. – Nem o meu sangue nem o amor permitem que, ao ver-vos, os meus olhos consigam conter as lágrimas que o meu apiedado coração não cessa de chorar. Grande perturbação e sentimento de dor provocou em mim a vossa presença, pelos evidentes sinais de tristeza, trabalhos e fadigas que no vosso rosto se manifestam, e que eu, pois por mim os haveis suportado com tanta virtude e paciência, humildemente vos rogo que me perdoeis. Apesar de Deus Nosso Senhor haver querido, por causa das minhas faltas, castigar-nos e dar penitência, 315
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a vós e a mim, eu jamais desconfiei do seu infinito poder e misericórdia, e agora ele alegra-nos com um novo prazer, concedendo-nos vitória gloriosa, recuperação do Império e a vossa liberdade, que me é mui cara e me dá a maior satisfação, se bem que a libertação de todos os demais igualmente me dê prazer. Alegrai-vos, pois, primo-irmão, pois a duquesa está viva e vos saúda calorosamente; tomai esta carta que Sua Honestidade vos envia. Respondeu o duque, destilando do fundo dos seus olhos lágrimas amaríssimas: – Senhor Tirant, a nossa alegria de vos ver não é menor do que a dos prisioneiros cativos e a dos nossos antepassados detidos no fundo do purgatório com a vinda do nosso Redentor. Tanto gritaram as nossas vozes pungentes que chegaram aos vossos ouvidos. Sede bem-vindo, primo-irmão e senhor, renovada alegria e prazer singular dos nossos olhos lacrimosos! Vós sois a exaltação da nossa fé, vós sois a glória e reparação dos cristãos, vós sois a nossa vida e o tesouro do nosso resgate. Vós abristes as nossas escuras prisões e quebrastes as nossas fortes e apertadas cadeias. Os trabalhos e ansiedades passadas nada são comparados com o grande descanso e consolo com que nos presenteais agora. Doravante, senhor, se por vós tivermos de sofrer alguma contrariedade, isso não pode deixar de nos dar prazer, que é o que se espera de estar ao vosso serviço, vós que sois o fim último da nossa bem-aventurança. O duque leu a carta da sua esposa, a qual continha o seguinte conteúdo escrito.
cdlxi. Carta enviada pela duquesa da Macedónia ao duque, seu marido. Gozo e tristeza abateram-se sobre mim em tal extremo que só por milagre a vossa Estefania está viva. Mostrar-vos-ei o meu desfigurado rosto quando, ao ver-vos, o meu atemorizado coração recuperar a sua alegria perdida. Descrever-vos agora os 316
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aborrecimentos, trabalhos e pensamentos que me acompanharam desde que vos perdi, não é possível, porque a grande força destes males deixa o meu espírito atormentado e tão aflito o meu entendimento que não sei o que vos diga. Ajoelhada aos vossos pés e beijando as cadeias que juntos nos estreitam, peço-vos que, assim que vos for dada a liberdade, vos digneis vir mui depressa libertar a minha malparada vida que, basta que tardeis um pouco, poreis em risco de morte certa, e posto que a presença do novo César representa a vossa libertação e vida, não há dúvida, senhor, de que só a vossa presença terá a propriedade de me libertar, e ao som da vossa voz sairá a minha ressuscitada vida da sua triste prisão. Não faço menção das minhas aflições para que as tomeis como prova de amor, pois estive e ficaria contente de sofrer ainda maiores para vos proteger das vossas, pois só os vossos enormes trabalhos e as vossas dores são dignas de compaixão e de serem contados, considerando que a vossa virtuosíssima pessoa é merecedora de todo o bem, de toda a glória e prosperidade. Que olhos conseguirão manter-se enxutos, olhando para tão excelente duque e senhor cativo de infiéis e subjugado a nação tão baixa? Que coração será tão forte e duro que não se parta pelo excesso de dor, atendendo a que vós, senhor, fostes maltratado e desservido, posto em contínua tribulação e miséria? E como podeis pensar, senhor, que os olhos do meu pouco entendimento não vos consigam ver no lugar onde a vossa magnânima pessoa está detida? Eu vejo-vos, senhor, com os cabelos compridos e desalinhados, a barba cobrindo a maior parte do vosso belo rosto, caindo sobre o peito, onde por diversas vezes repousou a vossa duquesa. Contemplo também, senhor, que os vossos olhos profundos, a grande fraqueza da vossa carne e a sua palidez não vos roubaram o ar e a presença de grande senhor; porém, sendo manifesto no vosso olhar a grande aflição do vosso ânimo, o meu coração desfalece, arranho a minha cara, solto e arranco os cabelos da cabeça para sentir parte dos vossos tormentos, e encontro o meu prazer no contemplá-los e compadecê-los, em condoer-me e chorar. A vossa sobreveste amarela e subtil, manchada de muitas lágrimas, a toalha azul que envolve a vossa cabeça, merecedora de coroa imperial, desguarneceram e desnudaram a minha alma de toda a glória. Para estar em conformidade convosco, senhor, vesti continuamente o meu afortunado corpo com áspero cilício sobre a carne, e com hábito de grosso burel em forma de saco, para expressar a verdade do meu grande sofrimento e dor terrível que por vós, senhor, eu suportava rezando, suspirando e 317
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gemendo. Pelas vossas cadeias, um nodoso e forte cordão apertava o meu corpo atormentado; pelos vossos grilhões tenho andado descalça; pela vossa prisão, renunciei ao mundo, com o voto solene de jamais deixar esta casa devota e ordem religiosa rigorosa enquanto a vossa duquesa não for chamada por vós, senhor, de quem não só sois senhor da sua alma e suas potências, mas também do seu corpo: sendo vosso por amor e por obrigação de matrimónio lícito, vos será livre e prontamente restituído. Vinde, pois, senhor; vinde, minha esperança, chave das minhas prisões, ceptro da minha senhoria, coroa da minha glória, única alegria das minhas tristezas! Vinde, duque da Macedónia, senhor Diafebus, e sereis o dia luminoso que espantará as trevas da minha noite escura! O duque da Macedónia soltava um terrível choro e fortes gemidos, tanto por ver o seu primo-irmão Tirant, como também pela liberdade recuperada, mas sobretudo pelo conteúdo da carta da duquesa, a quem amava singularmente.
cdlxii. Como todos os outros prisioneiros vieram fazer reverência ao príncipe Tirant. Não tardou muito que o marquês de São Jorge se apresentasse diante do virtuoso Tirant e, levando o joelho à terra dura, deu graças infinitas a Sua Senhoria por ele o haver libertado. O príncipe Tirant, com cara afável e grande demonstração de amor, levantou-o do chão e beijou-o na boca. Depois do marquês, apresentou-se o duque de Pera, seu irmão, o prior de São João e todos os outros cavaleiros por ordem. O César recebeu-os mui benignamente e com imenso amor, prestando-lhes a honra de que ele sabia serem merecedores. O duque da Macedónia foi fazer a sua reverência ao rei Escariano, ao rei da Sicília e ao rei de Fez, e todos lhe prestaram imensas honras pelo seu grande mérito e porque sabiam que ele era primo-irmão do príncipe Tirant. 318
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colocado num túmulo que era sustentado por quatro grandes leões e trabalhado num alabastro mui claro, e a toda a volta nos seus extremos, em letras gregas gravadas em fino ouro, liam-se as seguintes palavras: O cavaleiro que em armas foi fénix E a que foi entre todas a mais bela, Aqui jazem neste pequeno túmulo, Cuja fama viva no mundo ecoa: Tirant lo Blanc e a nobre Carmesina. Os leões eram trabalhados com incrustações de diversas cores, e o túmulo não o era menos: ouro, azul e outros esmaltes, com muita arte e requinte. Havia dois anjos do lado direito do túmulo, e outros dois do lado esquerdo, cada par segurando dois grandes escudos: um com as armas de Tirant, e o outro com as armas da Princesa. Estes leões e o túmulo estavam dentro de uma capela com abóboda, cujos arcos eram de pórfiro e apoiavam-se sobre quatros pilares de jaspe, e a chave do cruzeiro era de ouro maciço, guarnecida com muitas pedras preciosas, e nela via-se outro anjo que tinha nas mãos a espada de Tirant, manchada do sangue de tantas batalhas. O pavimento desta abóboda era de mármore e as paredes, revestidas de brocados carmesins. Só o túmulo estava a descoberto. Do lado de fora estavam pendurados os escudos de vários cavaleiros vencidos em campos de batalha fechados, e sobre o arco triunfal, em grandes e belos retábulos, estavam pintados parte dos maravilhosos feitos e das nobres vitórias de Tirant. Estavam também ali expostas as suas armaduras e protecções do seu nobre corpo, e a jarreteira, com bonitas pérolas, balaches e safiras em toda a volta. Muitas bandeiras e pendões de diversas cidades e províncias vitoriosamente ganhas pendiam do mais alto da igreja; mas entre todos destacavam-se os pendões e estandartes das farsas triunfantemente desfraldadas. As divisas de Tirant eram chamas ou línguas douradas sobre carmesim, e chamas de fogo em campo dourado; nas chamas douradas ardiam estas letras: C.C.C., e nas chamas de fogo ardiam estas: T.T.T.; significando assim que o ouro do seu amor ardente se purificava nas chamas 368
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de Carmesina, e do mesmo modo a Princesa se misturava ardentemente nas chamas purificadoras do amor de Tirant. Sobre o túmulo, com letras douradas, estavam esculpidos estes três versos: Amor cruel que os uniu em vida Com grande dor a vida lhes fez perder Após a morte encerra-os no sepulcro.
cdlxxxvi. Das grandes honras prestadas ao corpo de Tirant na Bretanha. Não seria possível exprimir por palavras as belíssimas solenidades que foram feitas na Bretanha na sepultura de Tirant, pois tanto o duque e a duquesa da Bretanha como todos os parentes de Tirant fizeram mui grande luto pela sua morte quando souberam dos feitos de lembrança imortal que ele havia praticado e da prosperidade que havia alcançado. Naquela altura já haviam morrido o pai e a mãe de Tirant. O rei de Fez deu mui grandes esmolas e favores em sufrágio das almas de Tirant e da Princesa, gastando mui bem e copiosamente os duzentos mil ducados que o Imperador lhe havia dado. Depois de mui homenageado pelo duque e por todos os parentes, decidiu voltar para a sua terra, porque havia estado seis meses na Bretanha para dar cumprimento a tudo o que lhe havia sido incumbido pelo Imperador. O rei e a rainha de Fez despediram-se do duque, da duquesa e de todos os parentes, que sentiam grande dor pela sua partida. O visconde de Branches despediu-se também de todos. Embarcaram nas galeras e partiram rumo às terras do rei de Fez. Nosso Senhor concedeu-lhes tão bom tempo que chegaram ao porto de Tânger em poucos dias. E aqui desembarcaram o rei e a rainha de Fez com toda 369
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a sua gente. O visconde de Branches voltou com as quarenta galeras para Constantinopla, onde chegou são e salvo e foi mui bem recebido pelo Imperador, que desejava muito saber o que haviam feito na Bretanha. O visconde de Branches fez um criterioso relato ao Imperador de tudo o que haviam feito, tal como havia sido ordenado por Sua Majestade. O Imperador ficou mui satisfeito e comprou imediatamente o condado de Benaixi, que era da Princesa, por trezentos mil ducados e deu-o ao visconde de Branches como prémio pelos seus trabalhos. Depois, a todos os que se haviam casado com as criadas da Imperatriz e da Princesa, ele deu boas herdades para que pudessem viver mui bem e honradamente, a cada um segundo o seu grau, de modo que todos estavam mui contentes. Depois, com o tempo, casou todas as outras, como convém a um bom senhor.
cdlxxxvii. Como o Imperador tirou da prisão o Sultão e o Turco, e fez paz e união com eles. A boa fortuna favoreceu tanto este Imperador Hipólito, e ele foi um cavaleiro tão virtuoso que, com a sua grande cavalaria, aumentou muito o Império Grego e ampliou-o com muitas províncias que ele próprio conquistou, e, com a sua grande diligência, amealhou um enorme tesouro. Foi mui amado e temido pelos seus súbditos e também pelos senhores seus vizinhos, a toda a volta do Império. Poucos dias depois de haver sido feito Imperador, fez tirar da prisão o Sultão, o Grão-Turco e todos os outros reis e grandes senhores que estavam presos com eles, e fizeram paz e tréguas de cento e um anos, e homenageou-os de tal modo que eles se foram tão contentes que lhe prometeram total submissão e se ofereceram para, sempre que ele precisasse, o ajudarem contra todo o mundo. Depois o Imperador fê-los transportar em duas galeras para a Turquia. 370
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Este Imperador Hipólito viveu longo tempo. Mas a Imperatriz só viveu três anos depois da morte da filha. O Imperador, pouco tempo depois, tomou outra mulher, que era filha do rei de Inglaterra. Esta Imperatriz foi de mui grande beleza, honesta, humilde e mui virtuosa e cristã devotíssima; esta gentil dama pariu três filhos e duas filhas do Imperador Hipólito, e estes filhos foram cavaleiros mui singulares e valentíssimos; o filho mais velho chamou-se Hipólito, como o pai, e viveu a vida toda como senhor magnânimo e realizou muitos feitos singulares de cavalaria, os quais o presente livro não relata, remetendo para as histórias que foram escritas sobre ele. Mas o Imperador, seu pai, antes de morrer, deixou mui boa herança a todos os seus parentes, criados e servidores. Quando o Imperador e a Imperatriz partiram desta vida, sendo já mui velhos, morreram os dois no mesmo dia e foram colocados num túmulo mui rico que o Imperador havia mandado fazer. Podeis crer que, graças ao bom governo e à sua boa e virtuosa vida, estarão na glória do paraíso.
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DEO GRATIAS Aqui finda o livro do valeroso e intrépido cavaleiro Tirant lo Blanc, Príncipe e César do Império Grego de Constantinopla, o qual foi traduzido do inglês para a língua portuguesa, e depois para a língua vulgar valenciana, pelo magnífico e virtuoso cavaleiro mossèn Joanot Martorell que, havendo morrido, não pôde acabar de traduzir senão três partes. A quarta parte, que é o final do livro, foi traduzida, a rogo da nobre senhora Dona Isabel de Lloris, pelo magnífico cavaleiro mossèn Martí Joan de Galba; e se alguma falta for nele encontrada, quer ele que se atribua à sua ignorância; que Nosso Senhor Jesus Cristo, pela sua imensa bondade, lhe queira conceder, como prémio dos seus trabalhos, a glória do paraíso. E protesta que, se no dito livro houverem sido colocadas algumas coisas que não sejam católicas, ele não as quis dizer, antes as envia para correcção da santa Igreja Católica. ACABOU-SE DE IMPRIMIR A PRESENTE OBRA NA CIDADE DE VALÊNCIA, A 20 DO MÊS DE NOVEMBRO DO ANO DO NASCIMENTO DE NOSSO SENHOR DEUS JESUS CRISTO DE 1490.
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Índice
ccxcvii. Lamentações de Tirant, navegando no mar profundo. . . . . . . . . . . ccxcviii. Réplica que Prazerdaminhavida dá a Tirant.. . . . . . . . . . . . . . . . . . ccxcix. Tirant replica os argumentos de Prazerdaminhavida. Como a galera de Tirant se perdeu na costa da Berberia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ccc. Palavras de conforto que o embaixador diz a Tirant.. . . . . . . . . . . . ccci. Como Tirant fez um relato fantasioso dos seus feitos ao embaixador. cccii. Palavras que o filho do caudilho diz ao pai quando se separa dele. ccciii. Consolo que o caudilho dá a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ccciv. Resposta que Tirant deu ao caudilho. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccv. Como o rei de Tremicen se lamentou dos seus males a Tirant. . . . . cccvi. Resposta que Tirant deu ao rei de Tremicen. . . . . . . . . . . . . . . . . . cccvii. Réplica que o rei de Tremicen dá a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccviii. A embaixada que Tirant expôs ao rei Escariano. . . . . . . . . . . . . . . . cccix. A resposta que o rei Escariano deu a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccx. Réplica que o judeu dá ao rei Escariano. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxi. Como Tirant prometeu ao cativo libertá-lo.. . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxii. Resposta que o cristão cativo deu a Tirant.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxiii. Argumentos que o albanês apresentou ao rei Escariano. . . . . . . . . . cccxiv. O consolo que o rei Escariano dá à sua dama. . . . . . . . . . . . . . . . . cccxv. Resposta que a rainha dá ao rei Escariano em estilo de lamento. . . . cccxvi. Como o caudilho lisonjeou Tirant para o levar aonde ele queria. . . cccxvii. Resposta que Tirant dá ao caudilho. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxviii. Como o rei se entregou ao caudilho como prisioneiro. . . . . . . . . . . cccxix. Lamento que a rainha faz durante a visita de Tirant e do caudilho. cccxx. Como o albanês suplicou a Tirant que o fizesse cavaleiro. . . . . . . . . cccxxi. A resposta que Tirant deu ao albanês. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxxii. Declaração de amor que a rainha faz a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . .
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cccxxiii. Resposta que Tirant deu à declaração de amor que a rainha lhe havia feito. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxxiv. Réplica que a rainha dá a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxxv. Réplica que Tirant dá à rainha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxxvi. Réplica que a rainha dá a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxxvii. Como o rei Escariano pediu a Tirant que o fizesse cristão. . . . . . . . cccxxviii. Qual é o maior bem deste mundo.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxxix. Como o rei Escariano se baptizou.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxxx. O juramento que o rei Escariano fez a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . cccxxxi. Declaração que a nova rainha de Tremicen faz a Tirant para que este a aceite como esposa.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxxxii. A resposta que Tirant deu à rainha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxxxiii. Réplica que a rainha dá a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxxxiv. Como o rei Escariano se escusou da sua falta a Tirant, e como reafirmaram o seu amor. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxxxv. O discurso que o rei da Índia Menor faz à sua gente. . . . . . . . . . . . cccxxxvi. Repreensão de amor que o rei Escariano dá a Tirant. . . . . . . . . . . . cccxxxvii. Resposta que Tirant dá ao rei Escariano. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxxxviii. O conforto que o rei Escariano dá a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxxxix. A resposta que deu Tirant ao rei Escariano. . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxl. O discurso que Tirant fez à gente de armas antes de saírem para a batalha.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxli. O voto que Tirant fez de não dar paz nem tréguas.. . . . . . . . . . . . . cccxlii. Réplica que o rei Escariano dá a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxliii. Réplica que Tirant dá ao rei Escariano. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxliv. Como declarou o rei de África a sua intenção. . . . . . . . . . . . . . . . . cccxlv. Lamento que fez o rei de Tunes antes de morrer. . . . . . . . . . . . . . . cccxlvi. Arrazoado que o cavaleiro mouro faz ao capitão Tirant. . . . . . . . . . cccxlvii. Lamento que o cavaleiro mouro fez na presença do capitão Tirant. cccxlviii. O rei de Damasco expõe a sua intenção. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxlix. Fala o rei de Tremicen. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccl. Como Prazerdaminhavida foi informada da prosperidade de Tirant. cccli. Como Prazerdaminhavida explicou a sua embaixada a Tirant. . . . . ccclii. Resposta que Tirant dá a Prazerdaminhavida. . . . . . . . . . . . . . . . .
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cccliii. cccliv. ccclv. ccclvi. ccclvii. ccclviii. ccclix. ccclx. ccclxi. ccclxii. ccclxiii. ccclxiv. ccclxv. ccclxvi. ccclxvii. ccclxviii. ccclxix. ccclxx. ccclxxi. ccclxxii. ccclxxiii. ccclxxiv. ccclxxv. ccclxxvi. ccclxxvii. ccclxxviii. ccclxxix. ccclxxx. ccclxxxi. ccclxxxii. ccclxxxiii.
Réplica que Prazerdaminhavida dá a Tirant.. . . . . . . . . . . . . . . . . . Réplica que dá Tirant a Prazerdaminhavida.. . . . . . . . . . . . . . . . . . Réplica que dá Prazerdaminhavida a Tirant.. . . . . . . . . . . . . . . . . . Pergunta que faz Tirant a Prazerdaminhavida. . . . . . . . . . . . . . . . . Resposta que deu Prazerdaminhavida à pergunta de Tirant. . . . . . . Repreensão que o rei Escariano deu a Prazerdaminhavida. . . . . . . . Repreensão que Prazerdaminhavida deu ao rei Escariano.. . . . . . . . Súplica que Prazerdaminhavida fez a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . . Resposta que Tirant dá a Prazerdaminhavida. . . . . . . . . . . . . . . . . Resposta que Prazerdaminhavida dá a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . Como o senhor de Agramunt quis matar Prazerdaminhavida. . . . . As palavras que Tirant disse ao senhor de Agramunt quando se viu ferido. Como o rei Escariano pediu a Tirant que perdoasse ao senhor de Agramunt. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Como a donzela moura se revelou a Tirant como Prazerdaminhavida. Como o senhor de Agramunt pediu perdão a Tirant. . . . . . . . . . . . Como Tirant e o senhor de Agramunt fizeram as pazes. . . . . . . . . . Como o senhor de Agramunt pediu perdão a Prazerdaminhavida. Resposta que Prazerdaminhavida deu ao senhor de Agramunt.. . . . Como Prazerdaminhavida restituiu à sua senhora a cidade e todas as outras coisas.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Resposta que dá Prazerdaminhavida ao senhor de Agramunt.. . . . . Como Prazerdaminhavida narrou a Tirant a sua aventura. . . . . . . . Consolo que Tirant dá a Prazerdaminhavida. . . . . . . . . . . . . . . . . . Resposta que deu Prazerdaminhavida a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . Réplica que Tirant dá a Prazerdaminhavida.. . . . . . . . . . . . . . . . . . Réplica que Prazerdaminhavida dá a Tirant.. . . . . . . . . . . . . . . . . . Réplica que Tirant deu a Prazerdaminhavida.. . . . . . . . . . . . . . . . . Réplica que Prazerdaminhavida dá a Tirant.. . . . . . . . . . . . . . . . . . Réplica que Tirant deu a Prazerdaminhavida.. . . . . . . . . . . . . . . . . Réplica que Prazerdaminhavida dá a Tirant.. . . . . . . . . . . . . . . . . . Como Prazerdaminhavida e o senhor de Agramunt aceitam perante Tirant o casamento. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Dos esponsais que se fizeram de Prazerdaminhavida com o senhor de Agramunt. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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ccclxxxiv. Como Tirant com toda a gente de armas foi montar o cerco a uma cidade onde se haviam refugiado três reis. . . . . . . . . . . . . . . . . . . ccclxxxv. Como o embaixador de Tirant explicou a sua embaixada aos reis. ccclxxxvi. A resposta que foi dada pelos reis ao embaixador.. . . . . . . . . . . . . ccclxxxvii. Discurso que Tirant fez à sua gente de armas. . . . . . . . . . . . . . . . ccclxxxviii. Como o embaixador de Tirant arribou a Constantinopla. . . . . . . ccclxxxix. Carta credencial que Tirant enviou ao Imperador. . . . . . . . . . . . . cccxc. Como o embaixador de Tirant explicou a sua embaixada. . . . . . . cccxci. Como o embaixador obteve licença do Imperador para poder ir fazer a sua reverência à Princesa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxcii. Carta mandada por Tirant à Princesa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxciii. Como o embaixador de Tirant regressou com as respostas do Imperador e da Princesa.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxciv. Como Tirant tomou a cidade de Caramen pela força das armas. . . cccxcv. Como o embaixador que Tirant havia enviado a Constantinopla se apresentou diante de Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxcvi. Carta que enviou o imperador de Constantinopla a Tirant. . . . . . cccxcvii. O relatório que o embaixador fez a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . . cccxcviii. Carta enviada pela Princesa a Tirant lo Blanc. . . . . . . . . . . . . . . . cccxcix. Como Tirant desfalece por excesso de amor e dor. . . . . . . . . . . . . cd. Exclamação que Tirant proferiu. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdi. Como Tirant deu o reino de Fez e de Bugia ao senhor de Agramunt e a Prazerdaminhavida. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdii. O discurso que Tirant faz à gente de armas. . . . . . . . . . . . . . . . . . cdiii. O sermão aos mouros que Tirant mandou fazer. . . . . . . . . . . . . . cdiv. Como foram baptizados trezentos e trinta e quatro mil infiéis. . . . cdv. Como o embaixador Espércius chegou à ilha da Sicília. . . . . . . . . cdvi. Como o embaixador de Tirant explicou a sua embaixada. . . . . . . cdvii. Como as seis naus que Tirant enviava a Constantinopla carregadas de trigo chegaram a salvo ao porto de Valona. . . . . . . . . . . . . . . . cdviii. Como Tirant partiu da cidade de Constantina com toda a sua esquadra. cdix. Como o rei Escariano fez baptizar toda a gente do seu reino. . . . . cdx. Da boa sorte que teve o cavaleiro Espércius. . . . . . . . . . . . . . . . . cdxi. Declaração de amor que o cavaleiro Espércius faz à donzela. . . . .
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cdxii. Resposta dada pela donzela ao cavaleiro Espércius.. . . . . . . . . . . . cdxiii. Como o cavaleiro Espércius volta para os seus companheiros com a gentil dama que havia conquistado.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxiv. Como Tirant enviou um embaixador ao Imperador quando estava com toda a sua esquadra no porto de Tróia. . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxv. Como o embaixador Sinegerus foi fazer a sua reverência à Imperatriz e à Princesa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxvi. Como a Viúva Repousada se matou com medo de Tirant. . . . . . . cdxvii. O discurso de Tirant à sua gente.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxviii. Como Tirant se apoderou da esquadra dos mouros.. . . . . . . . . . . cdxix. Carta enviada por Tirant ao imperador de Constantinopla. . . . . . cdxx. Como o bom cavaleiro Sinegerus voltou para o acampamento de Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxxi. Carta enviada pelo Imperador a Tirant lo Blanc. . . . . . . . . . . . . . cdxxii. Como os mouros reuniram em conselho e deliberaram enviar uma embaixada a Tirant . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxxiii. Como Tirant fez descarregar as vitualhas e despediu todas as embarcações fretadas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxxiv. Como Tirant enviou a rainha de Fez a Constantinopla com toda a esquadra de embarcações com que havia ficado.. . . . . . . . . . . . . . cdxxv. Como os embaixadores do Sultão e do Turco chegaram ao acampamento de Tirant.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxxvi. A forma da embaixada. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxxvii. O conselho que Tirant reuniu sobre a resposta a dar à embaixada explicada. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxxviii. O voto que o rei da Sicília deu no conselho. . . . . . . . . . . . . . . . . cdxxix. O voto que o rei de Fez proferiu por ele e por todos os outros barões. cdxxx. Como toda a esquadra de Tirant chegou ao porto de Constantinopla levando a rainha de Fez.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxxxi. A conversa entre a Princesa e a rainha de Fez.. . . . . . . . . . . . . . . . cdxxxii. Resposta que a rainha dá às dolorosas palavras da Princesa. . . . . . cdxxxiii. Réplica que a Princesa dá à rainha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxxxiv. Como Tirant foi a Constantinopla para falar com o Imperador. . . cdxxxv. Agradecimento de amor que Tirant faz à rainha. . . . . . . . . . . . . .
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cdxxxvi. Como Tirant venceu a batalha e, pela força das armas, entrou no castelo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxxxvii. Repreensão de amor que a Princesa dá a Tirant.. . . . . . . . . . . . . . cdxxxviii. Como depois de feitas as pazes, Tirant contou à Princesa todos os seus trabalhos, e a seguir as grandes prosperidades que havia tido. cdxxxix. Resposta que Tirant dá às palavras da Princesa. . . . . . . . . . . . . . . cdxl. Como Tirant foi falar com o embaixador. . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxli. As palavras que diz o Imperador a Tirant a propósito da sua vinda. cdxlii. A resposta que Tirant dá ao Imperador. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxliii. Lamento que a duquesa da Macedónia faz aos pés de Tirant. . . . . cdxliv. Consolo que Tirant dá à duquesa da Macedónia.. . . . . . . . . . . . . cdxlv. Como o Imperador manifestou a Tirant o que havia sido deliberado no seu conselho. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxlvi. A resposta que Tirant deu aos embaixadores do Sultão e do Turco. cdxlvii. A oração que o Imperador rezou.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdxlviii. Como Tirant chegou à cidade de Constantinopla com os prisioneiros e foi recebido pelo Imperador com honras excelsas. . . . . . . . . cdxlix. Como o Imperador fez pôr os prisioneiros em lugar seguro e com forte guarda. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdl. Como o rei da Sicília e o rei de Fez vieram fazer reverência ao Imperador. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdli. Resposta que a Princesa dá a Tirant. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlii. Como Tirant pediu licença ao Imperador para poder ir recuperar as terras do Império, e como o Imperador, antes de ele partir, o desposou com a sua filha Carmesina. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdliii. O pregão que o Imperador mandou fazer depois de haver casado a sua filha Carmesina. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdliv. Como Tirant partiu de Constantinopla e foi com todo o seu exército receber o rei Escariano.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlv. A carta credencial do Sultão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlvi. Carta enviada pelo virtuoso Tirant ao rei Escariano.. . . . . . . . . . . cdlvii. Como o rei Escariano concordou que a rainha fosse para Constantinopla.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlviii. Como Tirant, com toda a sua hoste, partiu da cidade de Estrenes.
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cdlix. Como o capitão da cidade de Estranges entregou as chaves e a cidade ao César.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlx. Palavras de consolação e verdadeiro amor que Tirant disse ao duque da Macedónia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlxi. Carta enviada pela duquesa da Macedónia ao duque, seu marido. cdlxii. Como todos os outros prisioneiros vieram fazer reverência ao príncipe Tirant.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlxiii. Como a rainha da Etiópia chegou a Constantinopla e as honras que lhe foram prestadas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlxiv. Carta enviada pelo príncipe Tirant à duquesa da Macedónia.. . . . cdlxv. Como o César, depois de partir de Trapasonda, recuperou muitas províncias que eram do Império. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlxvi. Como o almirante, em triunfo e de grande vitória, regressou a Constantinopla, e o Imperador, para o premiar, o desposou com a filha do duque de Pera, chamada Eliseia.. . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlxvii. Como se apoderou de Tirant o mal que o levou desta vida. . . . . . cdlxviii. A oração que Tirant disse diante do Corpus Domini. . . . . . . . . . . cdlxix. O testamento que Tirant fez.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlxx. Breve nota de despedida enviada por Tirant à sua Princesa. . . . . . cdlxxi. Como o Imperador enviou o duque da Macedónia e Hipólito com os médicos, e como Tirant, fazendo-se transportar para Constantinopla, no caminho partiu desta vida.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlxxii. Lamento que o Imperador proferiu pela morte de Tirant. . . . . . . cdlxxiii. As lamentações que a Princesa proferiu em cima do corpo de Tirant. cdlxxiv. Outras lamentações que a Princesa faz em cima do corpo de Tirant. cdlxxv. A resposta que a Princesa dá à Imperatriz, sua mãe. . . . . . . . . . . . cdlxxvi. Como a Princesa preparou a sua alma e quis confessar os pecados publicamente.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlxxvii. O testamento da Princesa.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlxxviii. Palavras de bem morrer que disse a Princesa no seu fim.. . . . . . . . cdlxxix. O luto e o pranto que foi feito após a morte da Princesa. . . . . . . . cdlxxx. Como os parentes de Tirant se juntaram e reuniram em conselho para decidir a qual deles fariam Imperador. . . . . . . . . . . . . . . . . .
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cdlxxxi. Como o rei Escariano entrou em Constantinopla e foi fazer a reverência à Imperatriz.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlxxxii. Como os parentes de Tirant enviaram uma embaixada à Imperatriz para que ela tomasse Hipólito por marido. . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlxxxiii. A resposta que a Imperatriz deu aos embaixadores. . . . . . . . . . . . cdlxxxiv. Como o novo Imperador fez vir toda a gente de armas, lhes pagou magnanimamente e os dispensou. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlxxxv. Como o Imperador enviou os corpos de Tirant e da Princesa para a Bretanha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . cdlxxxvi. Das grandes honras prestadas ao corpo de Tirant na Bretanha . . . cdlxxxvii. Como o Imperador tirou da prisão o Sultão e o Turco, e fez paz e união com eles.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Deo Gratias. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Literatura na DOCUMENTA
Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda, Miguel de Cervantes Tradução, introdução e notas de José Bento; imagens de José Pedro Croft Tirant lo Blanc – 1.º volume, Joanot Martorell Introdução de Martí de Riquer; tradução do catalão e notas de Artur Guerra; xilogravuras de Ilda David Tirant lo Blanc – 2.º volume, Joanot Martorell Tradução do catalão e notas de Artur Guerra; desenhos de Ilda David Tirant lo Blanc – 3.º volume, Joanot Martorell Tradução do catalão e notas de Artur Guerra; xilogravuras e desenhos de Ilda David Os Belos Dias de Aranjuez – Um diálogo de Verão, Peter Handke Tradução de Maria Manuel Viana Livro da Luz (audiolivro), António Poppe Os Trovadores Provençais, Vários autores Selecção e tradução de Irene Freire Nunes e Fernando Cabral Martins Cartas para a Casa de Pascoaes, Mário Cesariny Edição de António Cândido Franco Cartas de Mário Cesariny para Cruzeiro Seixas, Mário Cesariny Edição de Perfecto E. Cuadrado, António Gonçalves e Cristina Guerra Um Sol Esplendente nas Coisas – Cartas de Mário Cesariny para Alberto de Lacerda, Mário Cesariny Edição de Luís Amorim de Sousa Artigos Portugueses, Miguel Tamen Mário Cesariny e O Virgem Negra ou A morte do autor e o nascimento do actor, Fernando Cabral Martins Um Rio à Beira do Rio – Cartas para Frida e Laurens Vancrevel, Mário Cesariny, Edição de Maria Etelvina Santos e Perfecto E. Cuadrado; apresentação, tradução e notas de Maria Etelvina Santos; posfácio e comentários de Laurens Vancrevel […] – Ensaio sobre os mestres, Pedro Eiras O Mundo Gay de António Botto, Anna M. Klobucka