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J.-K. Huysmans, «O Castelo do Homem Ancorado»

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Joris-Karl Huysmans

O CASTELO DO HOMEM ANCORADO tradução e apresentação

Aníbal Fernandes


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TÍTULO DO ORIGINAL: EN RADE

© SISTEMA SOLAR, CRL (2018) RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: PAUL CÉZANNE, LE CHATEAU NOIR, 1904 (PORMENOR) REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE 1.ª EDIÇÃO, JULHO 2018 ISBN 978-989-8833-28-0


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Solteiro, misógino, com um azedume que lhe chegava das rotinas de manga-de-alpaca no Ministério do Interior, assim foi sentido J.-K. Huysmans nos seus trinta e três anos de vida literária. Muito afamado na prosa, houve muito perto dela a legenda de uma audácia com que entreteve à mesa dos cafés de Montmartre um discurso onde se cruzavam as ironias e as frustrações do celibatário. No seu Livre des Masques, Rémy de Gourmont regista-o numa dessas cavaqueiras: «Inventava as metáforas mais atrevidas para traduzir experiências e preocupações sexuais, e as mais sujas também. São castos os seus livros, se os compararmos com as conversas que ele animava.» Na literatura, onde deixou o seu nome flamengo semi-inventado (o verdadeiro era Charles Marie Georges Huysmans) bebido numa ilustre cepa de pintores da Flandres, foi exemplo de um notável domínio da palavra. E com essa frase «pintada», que pretendeu sentir como metamorfose em escrita da pincelada flamenga, pretendeu terçar armas pelo «naturalismo» — quase uma obrigação, um preço exigido pela sua convivência apertada com Émile Zola. Mas… qual quê! A robusta saúde desta escola era toda modelada pelos valores solares do homem, e ele só conseguia aproximar-se dela subvertendo-a com o seu humor hepático, com o vómito que o mundo moderno de sacripantas e imbecis lhe inspirava. (Ah! «Naturalismo», que tão pouco me serves o pendor ilumi-


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nista do colorido!) Ainda o vemos dobrar-se às regras de Zola com Les Sœurs Vatard (1879), En Ménage (1881), À Vau-l’eau (1882), mas dir-se-á que incomodado ou à beira de uma alucinação — a gritar liberdades sopradas do inferno, licenças dessa febre que terá a sua primeira grande desforra com À Rebours (1884) uma «viragem», ou seja, a sua nova atitude literária, que ainda não desligada do naturalismo põe ao de cima outro prosador, agora assombrado por humores negros, por inquietações de um dândi decadente do seu tempo. A contrapelo das ficções literárias que nessa época iam fazendo lei, e sem antecedentes reconhecíveis, À Rebours pintava o celibatário pederasta e taciturno, consumido à custa de nervos, um mundo de imaginações insólitas que agravam até ao desespero a imagem do intelectual faisandé do final do século XIX. Entregue ao público num francês magnífico, causou um arrepio. Léon Bloy, que detivera até ali uma incontestada supremacia na truculência verbal, na corda-bamba da prosa extravagante e bem sonorizada, acaba por chegar à rendição. Não logo (porque a sua mitomania não lho consentiu) mas anos mais tarde, quando lhe aconteceu a vontade de cantar louvores ao escriba desaparecido (Sur la tombe de Huysmans, 1913): «É o ódio cartaginês ao lirismo», acede a escrever, «mas com a melodia no discurso e a marca indelével [do autor]. Quando uma frase podia terminar na eloquência, Huysmans mutila-a num repente, corta-lhe o rabo com muita maldade, perversamente, fá-lo com tesouras rangentes e cheias de falhas na lâmina, como se fosse um bárbaro ou um garoto maldoso a destruir sem contemplações uma linda frase.» Zola sente o seu discípulo fugidio, e entristece. Joris-Karl Huysmans escreve-lhe a carta onde tenta explicar-se, mas não avisa


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nem desavisa que vai seguir uma nova linha. No fundo era um livro que não devia ter sito escrito — diz, fazendo crer que havia no seu romance À Rebours qualquer coisa não lograda. Demasiado difícil e com uma personagem flutuante, como eu a concebia, cristã e pederasta, impotente e incrédula, schopenhauarista por raciocínio mas católica por educação, que desemboca num Cristo não católico mas bizantino, com medo da morte depois daqueles princípios que a solidão exasperou. Pareceu, aos que lhe ouviam o quotidiano discurso fascinante à mesa do café, que o homem escondido atrás das suas próprias palavras começava a transbordar da literatura para cair desamparado na vida real. O céptico azedo rodeava-se agora de pressentimentos e ameaças misteriosas, começava a cultivar publicamente um desvairado temor por fenómenos sobrenaturais que a relação intensa com ocultistas e magnetizadores (entre eles o padre renegado Boulhan) exasperava até ao delírio. Com o pseudónimo A. Meunier (que pode associar-se a Anna Meunier, a sua amante intermitente), Huysmans publica um texto onde ataca com implacável ferocidade a sua própria obra literária ligada ao naturalismo. Ficamos ali a saber que Les Sœurs Vatard só é uma inexplicável amálgama de um parisiense requintado e de um pintor holandês, que En Ménage é o canto do niilismo, e também um canto assombrado por rasgos de uma jovialidade sinistra e palavras de um espírito feroz, que À Vau-l’Eau é um diaconato de misérias médias, que À Rebours é demência e baba. Vinte anos depois de ter sido publicado À Rebours, Huysmans consente numa reedição do seu texto com um prefácio onde lemos as objecções que o programa do naturalismo lhe suscita. Os seus romances tinham-se impregnado de satanismo, e a seguir de um ca-


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tolicismo bem comportado, e a atitude naturalista mostrava-lhe defeitos que impediam o escritor, com o seu desejo de realidade imediata, de aceder ao que há de mais profundo e autêntico na humanidade. Esta escola, pode ler-se no seu prefácio, que prestaria o inesquecível serviço de situar personagens reais em meios exactos, estava condenada a repisar-se, a marcar passo. Não admitia, pelo menos teoricamente, a excepção; confinava-se, portanto, à pintura da existência comum; com o pretexto de fazer vivo, esforçava-se por criar seres tanto quanto possível semelhantes à boa metade das pessoas. Este ideal estava realizado numa obra-prima — L’Education sentimentale de Gustave Flaubert — que é, muito mais que L’Assommoir, a parangona do naturalismo. […] Estávamos, nesse tempo, todos reduzidos a ladear, a rondar à sua volta por vias mais ou menos exploradas. E acrescentava: A virtude, teremos de dizê-lo, é neste mundo uma excepção, e estava por isso retirada do plano naturalista. Porque não possuíamos o conceito católico da queda e da tentação, ignorávamos de que esforços, de que sofrimentos resulta. […] Restavam os vícios; mas era restrito, o campo em que podíamos cultivá-los. Huysmans tinha posto, portanto, a sua «pintura» literária ao serviço de temas pouco vulgares. Construía penumbras, as que vão ficar bem ligadas ao seu renome da posteridade. Em 1887, com um intervalo de poucos meses publicava Un Dilemme, novela nada menos do que fuliginosa, e este En Rade (que à letra significa apenas «ancorado» mas o título português complica, por razões estéticas e comerciais, chamando-lhe O Castelo do Homem Ancorado). A sua inspiração ainda vagueia numa fronteira que não se declara aberta ao satanismo, mas é nitidamente banhada pelos


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seus reflexos. Em 1891, Là-Bas é explícito. Gilles de Rais e as práticas rosacruzianas fazem uma aparição sumptuosa de quatrocentas páginas, e J.-K. Huysmans fica ligado de vez à ficção ocultista como autor de um dos seus mais altos monumentos literários. O Castelo do Homem Ancorado é, no entanto, um estranho casamento. Faz a sombra de um cenário gótico entender-se à força com uma anedota naturalista de tédio urbano. O habitual discurso celibatário do autor corre agora por sonhos com um traçado baudelaireano, interroga-se com angustiada nevrose sobre as naturezas do mundo onírico. Um capítulo passado na Lua surrealiza os desertos do amor, acusa de forma implacável a Mulher grande problema do Homem Solitário, a Mulher «de ferida periodicamente aberta, que sangra, por isso imperfeita». Cinco anos antes de publicar este livro, J.-K. Huysmans fez a experiência directa de alojamento no castelo arruinado de Lourps, e arrastou consigo Anna Meunier, costureira semilouca e as suas duas filhas que vivem com ela; fez-se acompanhar por esta mulher doente, que anos mais tarde morrerá num manicómio, depois de um ataque em que pretendeu incendiar o edifício. Foi um Verão pouco tranquilo, como se depreenderá do extracto de uma carta do escritor ao seu amigo Alexis Orsat: Todos os dias comemos carne e ovos, e vamos passando bem assim. Pelo contrário, a burguesa [ou seja, Anna Meunier] anda-me toda consumida. Não dorme, durante a noite aterroriza-se nesta ruína ao abandono onde não há nada que feche. Os gigantescos corredores negros, o eco de todos os passos, as batalhas de pássaros, mal cai a noite assustam-na. Assim mesmo vou esperando que se adapte e não dê ouvidos às patranhas dos camponeses desconfiados com este castelo, talvez assombrado desde a morte dos velhos Saint-Phal. Joséphine vai


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sornando, eu também, Tonine esfalfa-se a brincar e passa depois a sono solto pelas brasas. Aqui tens o inventário. Costumamos jantar na cidade, em Jutigny, e bebemos um pouco mais do que é hábito. Durante o dia devaneio pelos deliciosos caminhos da floresta, leio na erva, vivo em perfeita calmaria. À noite, quando estamos sós, um jogo de cartas ajuda a matar o tempo e, de resto, tenho a cama mesmo à mão de semear… Este Verão será transfigurado num caso-limite, pretexto para uma exasperação misógina que arrebanha símbolos góticos, que abafa a atmosfera com uma incompreensão amorosa, catalisa os desesperos do homem solitário e da sua hostilidade perante a Mulher. Os camponeses vão carregar as tintas do quadro e fazer-se dignos de um qualquer feroz lápis à Daumier. O livro atravessa-se de sonhos, compraz-se com a descrição das mais delirantes formas da incomunicabilidade, do drama do homem vivo que come e é comido (uma boa imaginação destas relações recíprocas consta do capítulo «das ptomaínas», que André Breton utilizou na sua Antologia do Humor Negro). Em 1953 foi publicado um texto de Henry Lefai (Huysmans à Lourps, Paris, Chez Durtal) de onde é oportuno destacar alguns extractos: «Huysmans — e com ele Léon Bloy — exageram muito ao falar de duzentos ou mesmo trezentos quartos em Lourps. Chegam cinquenta. […] Em páginas muito célebres J.-K. descreve (sem dúvida na parte já destruída) os apartamentos com bafio, a biblioteca saqueada dessa marquesa de Saint-Phal sua autêntica cortesã no século XVIII, da qual se deleita a evocar os encantos e da qual acredita que reencontrou os perfumes. […] O Castelo do Homem Ancorado e A Casa Husher banham-se na mesma atmosfera de desastre, é um facto, mas há mais: “há mais, aqui, do que


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literatura”, e ao ler o livro temos razão para pressentir autênticas angústias, verdadeiras dores.» Através de Lefai ficamos também a saber que os tios de Louise foram inspirados num casal autêntico, os Legueux, e o carteiro Antoine era caricatura de um tal Fricot; que a publicação deste livro caiu mal entre os habitantes das cercanias de Lourps, escandalizados com a imagem que Huysmans dava dos seus hábitos e das suas artimanhas. «O ignóbil livro En Rade», escreveu uma voz anónima local, «deveria ser queimado com solenidade perante as autoridades constituídas de Provins… e não se falar mais no assunto!» * Em 1893, depois da morte do padre renegado Boulhan, o crente marginal Huysmans cedeu à influência de outro padre, este chamado Mugnier, e fez uma entrega total ao catolicismo e a todos os seus dogmas. Vemo-lo assim em La Cathédrale, o romance que este grande prosador publicou em 1898 sob as asas de uma fé católica atenta aos simbolismos de Chartres. Huysmans decidiu viver a vida dos oblatos, ao lado da Abadia de Ligugé. Aí mesmo escreverá a biografia Sainte Lydwine de Schiedan. Mais tarde, quando os socialistas de Jaurès expulsaram com o seu combate anti-clerical de 1902 a maioria das congregações católicas, Huysmans regressou a Paris e recolheu-se na vizinhança dos beneditinos da rua Monsieur. Apesar do tempo que a devoção lhe pedia, este burguês cheio de incertezas e ressentimentos conseguiu ser presidente da Academia Goncourt desde 1900 a 1906. E foi escrevendo. Da pena saíram-lhe ortodoxias enfeitadas por boa prosa, e no capítulo dos sentimentos ainda encontrou ânimo e dis-


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ponibilidade para uma admiração apaixonada, a que dedicou a Henriette du Fresnel, a jovem que em dias finais parece abrandar-lhe a misoginia. J.-K. Huysmans abeirou-se dos sessenta arrasado por novenas, comunhões e jejuns que talvez negociassem o perdão divino para a sua obra literária de vinte anos atrás. Em 1907 morreu, apesar disto, com os grandes sofrimentos físicos de um cancro e aterrorizado com o exame rigoroso que o esperava à porta estreita de São Pedro. «Sim», veio a dizer dele outro escritor católico, Barbey d’Aurevilly, «das duas uma: ou era um desses casos que se resolvem de pistola na boca, ou com a humilhação aos pés da cruz!» A.F.


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i.

A noite ia descendo; Jacques Marles apressou o passo; deixara para trás o casal de Jutigny e seguia agora a estrada interminável que liga Bray-sur-Seine a Longueville. Procurava à esquerda o caminho que um campónio lhe indicara para chegar mais depressa ao Castelo de Lourps. — Raios partam a vida! — murmurou de cabeça baixa; e pôs-se num desespero a pensar no deplorável estado dos seus negócios. Em Paris, a sua fortuna perdera-se depois da irremissível falência de um banqueiro cheio de esperteza; no horizonte, ameaçadoras filas de amanhãs negros; na sua casa uma verdadeira matilha de credores a farejar a derrocada, a uivar à porta com tamanha raiva, que fora obrigado a fugir; a Louise em Lourps, a sua mulher doente refugiada ao pé do tio, administrador do castelo pertencente a um opulento alfaiate de bulevar que o deixava desabitado, sem reparação e sem móveis, à espera de que ele o vendesse. Era esse o único refúgio com que podiam, ele e a sua mulher, contar. Abandonados por todos desde a derrocada, tinham pensado em procurar um abrigo, uma enseada onde pudessem lançar a âncora e refazer-se durante um passageiro armistício, antes de regressarem a Paris para recomeçar a luta. O velho Antoine, o tio da sua mulher, convidara-o muitas vezes a passar o Verão no castelo vazio. Desta vez aceitara. A sua


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mulher partira para a Comuna de Longueville, onde se eleva nos seus confins o Castelo de Lourps; ele continuara de comboio até à estação de Ormes, onde descera esperançado em cobrar algumas dívidas. Visitara um amigo insolvente, ou que assim se intitulava, e tinha aguentado acalorados protestos, promessas vagas, ao cabo e ao resto uma recusa muito explícita; e sem perder mais tempo batera em retirada até ao castelo onde Louise, desde manhã chegada, o esperava. Sentia-se torturado por inquietações. Desde há anos a saúde da sua mulher desconcertava a medicina; era uma doença com fases incompreensíveis que derrotavam os especialistas, uma perpétua viragem de héctica e engorda, com a magreza a substituir-se em menos de quinze dias a uma fartura de carnes por sua vez desaparecida; logo a seguir dores estranhas que saltavam nas pernas como faíscas eléctricas e espicaçavam o calcanhar, que verrumavam o joelho arrancando sobressaltos e gritos; todo um cortejo de fenómenos que descambavam em alucinações, em síncopes, em fraquezas tais que a agonia começava no próprio instante em que a enferma, numa reviravolta inexplicável, recuperava os sentidos e a sensação de viver. Depois desta falência que fizera dela um destroço, com ela e o seu marido atirados sem cheta ao chão, a doença tinha-se agudizado e intensificado; era isto a única evidência que podia confirmar-se. Quando nenhum motivo de alarme ou perturbação surgia, o seu abatimento parecia encravar, as cores regressavam, as carnes ficavam firmes; a doença parecia acima de tudo espiritual, com os acontecimentos a fazê-la avançar ou estacionar, conforme fossem deploráveis ou propícios.


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A viagem fora singularmente penosa, atravessada por desmaios, dores fulgurantes, desordens mentais pavorosas. Jacques estivera vinte vezes a ponto de interromper o percurso, descer numa estação, parar num albergue, censurando-se por ter arrastado Louise, sem querer saber de mais nada. Mas ela teimava em continuar no comboio, e ele próprio se tranquilizava repetindo que Louise teria morrido em Paris se a não tirasse da horrorosa situação que é a falta de dinheiro, da vergonha das reclamações insultuosas e das ameaçadoras queixas. Perto da estação ficou aliviado ao imaginar o tio Antoine a esperar a sua sobrinha com uma carripana que iria levá-la, e a carregar as suas malas; no entanto, estafado agora pela monotonia de um caminho plano, abandonava-se a uma angústia obsessiva cujo exagero compreendia mas o oprimia e, fosse como fosse, dominava; chegar ao castelo inspirava-lhe qualquer coisa que era quase um receio, por ter medo de encontrar a sua mulher ainda mais sofredora ou morta. Impacientava-se, teria querido correr para dissipar mais depressa os temores, mas arrastava-se pelo caminho a tremer, com as pernas ora cheias de energia, ora pesadas. Depois, o espectáculo exterior da paisagem reprimiu por minutos as suas visões internas. Ficou com os olhos parados, a tentar ver a estrada, e a atenção desviou-o dos transes da alma, que se acalmaram. Acabou por descobrir à esquerda o atalho que lhe tinham indicado, um atalho que subia e serpenteava até ao horizonte. Ladeou um pequeno cemitério de muros com uma bordadura de telhas, e meteu-se num caminho escavado por dois trilhos lustrosos, feitos pelo ferro das rodas. À volta estendia-se uma


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enfiada de campos com um limite que o crepúsculo escurecia. E ao longe, na encosta, o céu era preenchido por uma grande construção parecida com um celeiro enorme, de contornos pretos e duros, por cima do qual corriam silenciosos rios de nuvens vermelhas. — Cheguei — disse de si para si, pois bem sabia que atrás do celeiro, que era afinal uma velha igreja, se escondia o Castelo de Lourps no meio das suas matas. Recuperava alguma coragem ao ver aproximar-se de si aquele edifício furado por janelas que, em face umas das outras ao longo da nave, ardiam trespassadas pelo incêndio das nuvens. A rendilhada igreja negra e vermelha, as suas janelas de rosáceas estreladas com filetes de chumbo que pareciam gigantescas teias de aranha penduradas por cima de uma fornalha, tinham um ar sinistro. Olhou mais para cima; ondas escarlates continuavam desfraldadas no céu; e mais abaixo a paisagem estava completamente deserta, com os camponeses aconchegados, os animais recolhidos. Apurando o ouvido podia captar-se ao longe, na extensão da planície, nas vertentes, o imperceptível latido de um cão. Ficou acabrunhado por uma tristeza entorpecedora, diferente da que sentira durante o caminho. A personalidade das suas angústias sumira-se; tinham-se alargado, dilatado, perdido a particular essência, tinham ao fim e ao cabo saído dele para se combinar com a indizível melancolia exalada pelas paisagens entorpecidas sob o pesado repouso das noites; foi aliviado por essa vaga e afogada angústia que exclui a reflexão, que purifica a alma dos seus mais nítidos transes, que adormenta os pontos dolorosos, dulcificando com o seu mistério a certeza dos bem definidos sofrimentos.


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Chegado ao cimo da encosta, voltou-se. A noite ainda estava a fechar-se. A paisagem imensa e sem profundidade durante o dia escavava-se agora como um abismo; o fundo do vale desaparecido no escuro parecia afundar-se até ao infinito, enquanto os seus bordos reaproximados pela sombra pareciam menos largos; desenhava-se ali um funil de trevas onde um vale descia à tarde dos seus andares suavemente inclinados. Naquela névoa abrandava o passo. Diluídos na massa de melancolia que o rodeava, os seus pensamentos reanimaram-se; e voltando a estar, à custa de coerência, activos, bateram-lhe em cheio no coração com uma pancada brusca. Pensou na sua mulher, estremeceu e voltou a andar. Chegava à igreja; junto do portal viu na volta do caminho, dois passos à frente, o Castelo de Lourps. Esta visão dissipou-lhe as angústias. A curiosidade por um castelo de que ouvia desde há tanto tempo falar sem nunca o ter visto, atingiu-o; olhou para ele. As nuvens guerreiras do céu tinham fugido; ao fragor solene do poente em fogo sucedera o silêncio lúgubre de um firmamento de cinza. Brasas mal consumidas avermelharam-se aqui e além no fumo das nuvens, e iluminaram por trás o castelo, sem querer saber da orgulhosa aresta do telhado, dos corpos altos das chaminés, de duas torres com bonés afunilados, uma quadrada e a outra redonda. Iluminado assim, o castelo parecia uma ruína calcinada que tivesse atrás de si a energia latente de um incêndio. Jacques acabou fatalmente por se recordar das histórias debitadas pelo camponês que lhe indicara o caminho. A estrada às curvas chamava-se Caminho do Fogo, por ter sido traçada há muitos anos nos campos, durante a noite, pelos pés de toda a aldeia de Jutigny que acudia ao castelo em chamas.


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A visão deste castelo, que ainda parecia arder num incêndio surdo, exasperou-lhe o estado de agitação nervosa cuja força desde manhã crescia. Os sobressaltos de apreensão ora interrompidos, ora reatados, e os solavancos dos seus transes, decuplicaram. Tocou impaciente a uma pequena porta rasgada no muro; o ruído da sineta puxada pelo seu cordão aliviou-o. Ficou à escura, de ouvido colado à madeira da porta, mas não havia do outro lado da vedação nenhum ruído. Pôs de novo a galope os seus terrores; pendurado à corda do sino, quase desfalecia. Por fim sentiu um ranger súbito, tamancos a baterem; houve na fechadura a agitação de um chiar de ferragens; alguém puxava com muita força a porta que estremecia sem se abrir. — Empurre também — disse uma voz. Jacques deu uma forte pancada de ombro e mergulhou com o batente, que cedeu no escuro. — Ah! És tu, meu sobrinho! — disse uma sombra de camponês que o reteve nos seus braços e lhe esfregou a face com pêlos de uma barba mal feita. — Sou sim, meu tio. E a Louise? — Anda para ali a instalar-se. Pois então! Bem sabes, homem, que o campo não é o mesmo que a cidade. Não há aqui desses berlicoques que vocês lá têm para facilitar tudo. — Bem sei; mas ela, como vai? — A Louise? Olha, ela e a Norine escovam, varrem, batem! Raios as partam! Mas diverte-as; é um pagode, mexem-se as duas juntas numa tal risota que a gente nem sabe qual delas deve ouvir! Jacques respirou.


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— Anda-me daí ter com ela, meu rapaz — continuou o velho. — A gente dá-lhes uma ajudinha porque a Norine tem de ir tratar da bicharada: e depressa, antes que uma carga nos deixe encharcados. Chegaste a tempo; o diabo do céu vai pôr-se de pantanas! Jacques foi atrás do tio Antoine. No caminho não parava de olhar à sua volta. Andavam por invisíveis áleas contornadas a maciços denunciados pela suspensa agitação da ramagem. No céu mais claro, onde corriam nuvens de tule rasgado, folhagens em agulha, parecidas com as dos pinheiros, levantavam-se até às formidáveis alturas das copas eriçadas com troncos que, espetados na sombra, já não se conseguiam distinguir. Jacques não podia ver como era o jardim que estava a atravessar. Mas houve uma aberta; deixou de haver árvores, a noite ficou vazia; ao fundo surgiu uma massa clara, o castelo, e saíram da sua porta duas mulheres. — Como é que isso vai? — gritou a tia Norine atirando-lhe os braços ao pescoço, com um gesto mecânico de boneco de pau. Bastaram duas palavras para Jacques e Louise se compreenderem. Ela ia melhor; ele voltava na mesma, sem dinheiro. — Norine, puseste o que se bebe à fresca? — perguntou o tio Antoine. — Ai não! E com medo que vocês não demorassem, tenho andado a vigiar o tempero da sopa. — E lá em cima, aquilo acabou? — quis saber o velho dirigindo-se a Louise. — Acabou, meu tio, mas não temos água!


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— Água! Há grande falta dela! Mas vou tirar-vos um balde. A tia Norine desapareceu com largas passadas pela noite adentro; o tio Antoine sumiu-se entre árvores no sentido oposto. Jacques e Louise ficaram sós. — Sim, vou indo melhor — disse ela com um beijo. — A esfrega que aqui apanhei recompôs-me, mas o melhor é subirmos; correndo todo o castelo acabei por descobrir um quarto quase habitável. Entraram num corredor de prisão. À luz fraca de um fósforo, que Jacques riscou, puderam ver-se enormes muralhas de cantaria fuliginosas, esburacadas, com portas de enxovia encimadas por uma cúpula abrupta em ogiva, como que talhada na pedra. Um cheiro a cisterna enchia esse corredor calcetado a pedras que a todos os passos oscilavam. Quando o corredor fez um cotovelo, ele viu-se num gigantesco vestíbulo de lambris com uma pintura que imitava mármore, que se iam pelando à frente de uma escada com um resguardo de ferro forjado; subiu-a, interessado por aquela gaiola quadrada de pedra que três janelas de caixilho duplo furavam. O vento metia-se pelos vidros partidos e remexia a sombra aglomerada sob a abóbada, sacudia as portas de batentes que nos andares de cima gemiam ao ar. Pararam no primeiro piso. — É ali — disse Louise. Havia três portas; uma à frente, uma no espaço fundo da direita, outra no espaço fundo da esquerda. Por baixo da primeira passava um fio de luz. Jacques entrou e foi imediatamente tomado por uma inexplicável má-


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-disposição; o quarto onde tinha entrado era grande, de paredes e tecto forrados com um papel que imitava uma latada, com barras de um verde forte, aos losangos sobre um fundo cor de salmão. Tremós de madeira escura encimavam as portas e, na chaminé de mármore manchado a vermelho-escuro, um pequeno espelho verdoso com um estanho a desfazer-se e picado na sua água por vírgulas de prata viva tinha um caixilho de madeiras igualmente escuras. A fazer de soalho, mosaicos outrora pintados a cor de laranja; e ao longo das paredes, armários com portas de um papel tenso entre caixilhos, cheio de facadas e arranhões. Apesar de o quarto ter sido varrido e ter estado com a janela aberta, levantava-se daquele alojamento morto um cheiro a madeira velha, a gesso amolecido, a estopa húmida e a cave. Que sinistro! — pensou Jacques. E olhou para Louise, que não parecia assustar-se com a solidão glaciar da sala. Pelo contrário; complacente, examinava o quarto e sorria ao espelho que lhe devolvia o rosto descolorido pela sua água verde, granizado pelas fendas do estanho. Sentia-se, como acontece com a maior parte das mulheres, fustigada por este imprevisto de um acampamento a três pancadas, de uma instalação de cigana que levanta em qualquer sítio a sua barraca. A felicidade infantil que a mulher sente quando contraria um hábito, vê novidades, engendra expedientes hábeis para garantir uma instalação; quando há necessidade de pensar «extraordinário», a obrigação de simular um poleiro nómada de actriz em digressão pela província, que em segredo toda a burguesa inveja desde que atenuada, sem perigo real e de curta duração; quando se sente com a importância do furriel responsável,


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encarregado de assegurar dormida e comida; tudo isto e o lado maternal que ajeita a liteira do homem, só para ele não ter mais do que estender-se depois de tudo estar pronto, tinham actuado fortemente nela e dado aos seus nervos uma boa chicotada. — A mobília é má — disse a apontar na alcova para um velho leito de madeira onde jaziam um colchão e uma enxerga, no centro da sala para duas cadeiras de palha e uma mesa redonda visivelmente subtraída a qualquer jardim que lhe inchara as pernas e desfolhara o tampo com rajadas de sol e chuva — mas amanhã se verá; a gente vai procurar os objectos que faltam. Jacques aprovou com um aceno de cabeça; um só olhar abarcava o quarto, ocupado sobretudo pelas malas abertas ao correr das paredes. Era bem certo: do tecto altíssimo daquele quadrado frio caía um banho de tristeza. Louise desconfiou que o seu marido pensava em problemas relacionados com dinheiro, e beijou-o. — Vá lá, havemos de livrar-nos disso. — E vendo que ele continuava preocupado: — Deves estar com fome! Vamos ter com o tio, e mais tarde falaremos. De regresso ao patamar, Jacques entreabriu as portas da esquerda e da direita; vislumbrou imensos corredores sem fundo, para onde aqueles quartos davam; tudo era o maior dos abandonos, o gelo do sepulcro, a dissolução de paredes batidas pelo vento e pelos aguaceiros. Desceu a escada, mas parou de repente. Um forte ruído de correntes enferrujadas, um chiar de rodas com falta de sebo, o ranger de uma impertinente roldana interrompiam a noite silenciosa. — Mas o que é isto?


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— É o tio a tirar água — disse ela a rir-se, explicando que num sítio tão alto a água rareava, que só um gigantesco poço escavado no pátio alimentava o castelo. — São precisos cinco minutos, contados de relógio na mão, para fazer subir o balde; o que ouves é o ruído da corda a roçar no bolinete. — Vocês! — gritou o tio Antoine, mal os viu no pátio. — Aqui têm água, e da fresca porque saiu da greda. — Agarrou no enorme e marulhoso balde de madeira, transportando-o como uma pena na ponta do braço. E depois, quando se juntou a eles: — Vamos ter com a Norine, porque tenho na ideia que deve estar impaciente; vai dar-nos um raspanete se demorarmos mais. Era uma noite escura, molhada de chuva. Foram em fila indiana por uma álea, com as mãos erguidas a aparar as chibatadas negras dos ramos, seguindo passo a passo o velho que avançava calmo e seguro como se fosse dia. Por fim uma luz estrelada e muito baixa cintilou, aumentou aos poucos de tamanho, divergiu e propagou-se tornando-se difusa à medida que avançavam. Não tardou que se diluísse sem raios e completamente baça na moldura quadrada de uma janela. Foram ter a uma casa térrea coberta de colmo, de uma só divisão. Na grande chaminé encimada por um ressalto com as bordas cheias de louça pintada, o fogo de sarmento crepitava por baixo de uma caçarola de bronze a ferver, que espalhava sob a dança da tampa um impetuoso cheiro a couves cozidas. — Assentai-vos, ó gente — disse Norine. — Tendes fome? — É claro que sim, minha tia! — Ah ben c’étant! — respondeu ela, servindo-se da expressão que os camponeses deste lado de la Brie usam a torto e a direito e sem nenhum sentido.


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— Prova-me só isto, sobrinho, e dir-me-ás da tua justiça — disse o tio Antoine. — É vinho da minha vindima da Graffignes. Brindaram e beberam um vinho rosado, ácido, empestado pelo irritante gosto a pó dos vinhos fabricados em cubas que armazenaram aveia. — Sabe um pouco a aveia, sim senhor, a cuba pregou-me a partida — suspirou o velho dando um estalo com a língua. — O campo não é como a cidade; a gente não tem o vinho de longe guardado em silos; mas assim como assim é pinga que sabe bem. — Oh! Não temos o direito de ser esquisitos; em Paris só bebemos vinhos a martelo onde entra muito pouca uva fresca, meu tio. — Oh, é inevitável, inevitável! — E depois de fazer um ar importante, acrescentou: — Mas não era ainda assim preciso que isso acontecesse, homem! O tio Antoine tirou o canivete do bolso, abriu-o e cortou umas côdeas. Era um velhote franzino, magro como uma estaca, nodoso como um cepo, ressequido como um velho buxo. Tinha a face encarquilhada, com nervuras rosadas nos malares, furada por dois olhos glaucos que ladeavam um nariz ossudo, curto, afilado e torcido para a esquerda sobre uma boca que se abria, muito rasgada, ancinhada por dentes agudos e muito bem conservados. Duas suíças curtas em pata de coelho desciam das orelhas de abano; por todo o rosto — acima dos lábios, nas saliências da face, nas fossas nasais, nas covas do pescoço — cresciam pêlos tão duros como os das escovas e tão sal-e-pimenta como o cabelo grosso que ele acamava debaixo da boina com


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os dedos. De pé, tinha as costas um pouco abauladas; e como a maior parte dos camponeses de Jutigny que trabalharam nas turfeiras, pernas de cavaleiro abertas em círculo. À primeira vista parecia fraquitolas e franzino, mas quando lhe víamos o arco tenso do busto, os braços musculosos, a tenaz crestada dos dedos, desconfiávamos da força desta pileca incapaz de vergar sob os mais pesados fardos. Norine, a sua mulher, ainda era mais robusta; também tinha ultrapassado os sessenta. Maior do que o seu marido, ainda era mais magra; sem barriga, sem peito, sem rabo e com ancas de ferro de enxada; nela nada lembrava uma mulher. O rosto amarelo quadriculado por rugas, ravinado com riscas como um mapa viário, lavrado ao longo de todo o pescoço como um tecido, iluminava-se com dois olhos de um estranho azul-claro, olhos incisivos, jovens, quase obscenos na face com rugas e riscas que se mexiam ao menor movimento das pálpebras e da boca. Acrescentava-se a isto o nariz direito, afilado em folha de lâmina, com uma ponta que se mexia ao mesmo tempo que os olhos. Era ao mesmo tempo inquietante e também grotesca, e a estranheza dos seus gestos ainda aumentava mais a perturbação dos olhos muito claros e o recuo da boca desprovida de dentes. Sem ter nenhuma junta, ao levantar-se como um só bloco, a andar como um sargento, a esticar os braços como os autómatos postos a funcionar por uma mola, parecia movida por um mecanismo; e sentada tinha inconscientes atitudes afectadas, de um cómico que acabava por enervar; mantinha a postura sonhadora das damas representadas nos quadros do Primeiro Império, com o olhar no céu, a mão esquerda na boca, o cotovelo apoiado na palma da mão direita.


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Jacques examinava as feições toscas, traçadas a lápis cor de greda deste casal que a chama fraca da vela campestre, tão alta como um círio, ainda acentuava mais do que em pleno dia. Agora tinham ambos o nariz nas últimas gotas de sopa bebidas directamente do prato. Com um verso de manga limparam os lábios; o velho encheu os copos e começou a gemer enquanto palitava os dentes com o canivete. — Por esta noite talvez chegue! — Talvez, talvez — respondeu Norine. — Estou a contar deitar-me no estábulo. O que dizes tu? — Pois sim, para o parto; ela vai parir, mas ao certo não sabemos quando. Nem se acredita o que a pobre da minha Lizarde sofre. Escuta, escuta! Ouviu-se, de facto, um mugido surdo que atravessou o silêncio da sala. — Tal qual as pessoas! Aquilo até a põe em sobressaltos! — continuou a tia Norine a dizer num tom cansado; e explicou que a Lizarde, a sua melhor vaca, ia dar à luz. — Depois, um vitelo é coisa que se vende bem — disse Jacques. — Para vós é uma pechincha. — Claro… claro… mas o pior é custar-lhe parir; a coisa pode ocupar-lhe a noite e durar até amanhã à tarde; além do mais, tem aquilo muito vermelho; se o bezerro morrer e acontecer uma desgraça à Lizarde, lá se vão quase quinhentos francos perdidos. Se a gente não há-de estar inquieta! Pois não… Tiveram início os habituais queixumes dos camponeses. — Só a muito custo a gente consegue viver; a gente esfalfa-se, e depois o que dá a terra? Só dois e meio por cento. Se não tivéssemos criação, aonde é que a gente ia parar? Hoje o


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trigo não custa nada, por assim dizer, se compararmos com o estrangeiro. Ainda vamos acabar a plantar choupos — acrescentou o velho — que assim, sem mais nada, dão um franco ao ano por cada pé. Palavra! Isto aqui é diferente da vossa cidade onde se ganha… com vossa licença… um par de escudos num abrir e fechar de olhos! Interrompeu o discurso para tratar do pavio da vela, que fazia um grande morrão. — Por que diabo me pisca ela assim? — disse quando lhe fechou o canivete em cima, para cortar entre a lâmina e a ranhura do invólucro a ponta carbonizada da mecha. — Mas… — perguntou — não comes? — Como… como… A verdade é que não tenho fome, minha tia. E, fazendo a carne escorregar da colher, tentou afastar a velha que queria pôr-lhe no prato uma perna de coelho. — Vais-me comer, ora já se viu! Não vieste para jejuar, acho eu. — E depois de um segundo de silêncio, suspirou: — Ah ben c’étant, levantando-se bruscamente para sair dali. — Vai para junto da Lizarde — disse o velho como resposta aos olhares espantados de Jacques e de Louise. — Se aquilo se der esta noite, o que pode fazer-se? A esta hora o pastor está longe; o pobre bicho ainda morre antes de ele se meter à estrada. Valha-me Deus — e abanou a cabeça, batendo com o canivete na mesa. — E tu, homem, não bebes? O meu vinho não te quadra? Jacques sentia a cabeça andar à roda nesta pequena sala que os sarmentos em chama enchiam de fervilhantes eflúvios. — Sinto-me abafar — disse ele.


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Levantou-se, entreabriu a porta e aspirou uma lufada de ar puro, uma lufada com o perfume rude dos bosques molhados, ao qual se juntava o morno e ambarino cheiro das bostas. — Que bom! — disse ele parado no limiar daquela noite campestre onde se não viam dois palmos à frente do nariz. À frente das suas pupilas dilatadas pela escuridão caía uma espécie de fios vermiculares de chuva, perturbações da vista que só duraram um minuto porque a noite se iluminou ao longe. Uma ponta de fogo verrumou as trevas, estendeu-se em lâmina e com uma grande cutilada de luz cortou a tia Norine tornando-a imensa, com o corpo dobrado pelo meio como se ali tivesse uma charneira, com pernas estendidas ao comprido na erva, o busto e a cabeça direitos e erguidos como uma copa de árvore. De facto, ela ia andando precedida pela sua sombra que uma lanterna tornava móvel. — Como vai a Lizarde, minha tia? — Ná! Não conto que seja esta noite; vai parir mais ou menos ao meio-dia de amanhã. Voltaram a entrar e a sentar-se à mesa. — Olha, prova só para veres! — disse o velho apresentando o terrível queijo da região, o queijo velho, como lhe chamam, uma espécie de Brie duro, da cor de um dente idoso, que espalha cheiros a cárie e a latrina. — A verdade é que a gente não te percebe, minha filha; o contratempo não é razão para pressas que nos impeçam de tomar uma chávena de chá de hortelã. A tia Norine remexeu as brasas a resmungar: — Este fogão terá o rabo gelado? — enquanto o velho tirava do armário um pacote de ervas.


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— Não há nada melhor para o estômago — afirmou ao escolher as folhas; mas os parisienses fizeram uma careta quando provaram aquele chá que parecia a água de um dentífrico. Preferiram o conhaque que a tia trouxe numa garrafa de remédio; e a insistência deles o tio Antoine tornou a enfiar as tamancas, acendeu a lanterna e foi acompanhá-los até ao castelo.


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ii.

Quando Louise entrou no quarto, deixou-se cair numa cadeira. A sobre-excitação do dia chegara ao fim. Sentia-se moída, com um deserto nos miolos, as medulas cansadas. Jacques preparou os cobertores para que ela pudesse deitar-se, pôs a sua mala em cima da mesa, e sentado à sua frente começou a separar os papéis que esperava amarrar e no dia seguinte arrumar num armário. Apesar da longa corrida que fizera, não sentia nenhum esgotamento que entorpecesse os membros mas desfalecia, atacado por uma fadiga espiritual infinita, um desencorajamento sem fim. Com o cotovelo na mesa olhava para a vela de chama curta que não conseguia devassar a noite do quarto, e começava a ficar obcecado por uma indefinível sensação de mal-estar. Atrás dele, no escuro, parecia que uma extensão de água com um barulhento sopro o enregelava. Levantou-se e remexeu os ombros, explicando a si próprio este arrepio com a humidade permanente, com o frio impermeável daquele quarto. Olhou para a sua mulher; ali estava ela, sem cor e estendida no catre, com os olhos semicerrados, dez anos envelhecida pelo descanso brusco dos nervos. Foi inspeccionar as portas. Apesar dos seus esforços, as linguetas não funcionavam e as chaves teimavam em não dar a


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Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, Georges Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire A papisa Joana — segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence Bom Crioulo, Adolfo Caminha O meu corpo e eu, René Crevel Manon Lescaut, Padre Prévost


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O duelo, Joseph Conrad A felicidade dos tristes, Luc Dietrich Inferno, August Strindberg Um milhão conta redonda ou Lemuel Pitkin a desmantelar-se, Nathanael West Freya das sete ilhas, Joseph Conrad O nascimento da arte, Georges Bataille Os ombros da marquesa, Émile Zola O livro branco, Jean Cocteau Verdes moradas, W.H. Hudson A guerra do fogo, J.-H. Rosny Aîné Hamlet-Rei (Luís II da Baviera), Guy de Pourtalès Messalina, Alfred Jarry O capitão Veneno, Pedro Antonio de Alarcón Dona Guidinha do Poço, Manoel de Oliveira Paiva Visão invisível, Jean Cocteau A liberdade ou o amor, Robert Desnos A maçã de Cézanne… e eu, D.H. Lawrence O fogo-fátuo, Drieu la Rochelle Memórias íntimas e confissões de um pecador justificado, James Hogg Histórias aquáticas — O parceiro secreto, A laguna, Mocidade, Joseph Conrad O homem que falou (Un de Baumugnes), Jean Giono O dicionário do diabo, Ambrose Bierce A viúva do enforcado, Camilo Castelo Branco O caso Kurílov, Irène Némirowsky A costa de Falesá, Robert Louis Stevenson Nova Safo — tragédia estranha, Visconde de Vila-Moura Gaspar da Noite — fantasias à maneira de Rembrandt e Callot, Aloysius Bertrand Rimbaud-Verlaine, o estranho casal O rato da América, Jacques Lanzmann As amantes de Dom João V, Alberto Pimentel Os cavalos de Abdera e mais forças estranhas, Leopoldo Lugones Preceptores – Gabrielle de Bergerac seguido de O discípulo, Henry James O Cântico dos Cânticos – traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano a idade e o carácter do poema, Ernest Renan Derborence, Charles Ferdinand Ramuz O farol de amor, Rachilde Diário de um fuzilado, precedido de Palavras de um fumador de ópio, Jules Boissière A minha vida, Isadora Duncan Rakhil, Isabelle Eberhardt Fuga sem fim, Joseph Roth O castelo do homem ancorado, Joris-Karl Huysmans Tufão, Joseph Conrad


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J.-K. Huysmans, «O Castelo do Homem Ancorado» by Sistema Solar - Documenta - Issuu