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FANTASMAGORIANA Apa r iç õ es , E s p e c t ro s, A s s o m b r a ç õ e s…
pinturas e edição
Adriana Molder
tradução, notas e posfácio
Nuno Fonseca
D O C U M E N TA
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Este livro foi publicado por ocasião da exposição «Adriana Molder — Fantasmagoriana», com curadoria de António Gonçalves, realizada na Galeria Ala da Frente, em Vila Nova de Famalicão, de 22 de Setembro de 2018 a 19 de Janeiro de 2019
© Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão (Ala da Frente), 2018 © Sistema Solar Crl (chancela Documenta) Imagens © Adriana Molder Tradução © Nuno Fonseca Setembro de 2018 ISBN 978-989-8902-31-3 Fotografia: Daniel Malhão Revisão: António d’Andrade
Depósito legal: 445958/18 Pré-impressão, impressão e acabamento: Gráfica Maiadouro SA Rua Padre Luís Campos, 586 e 686 (Vermoim) 4471-909 Maia Portugal
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índice
As pinturas inspiradas em Fantasmagoriana, Adriana Molder FANTASMAGORIANA Prefácio do tradutor francês O Amor Mudo . . . . . . . . . Os Retratos de Família . . . . O Crânio do Morto . . . . . . A Noiva Morta . . . . . . . . . A Hora Fatal . . . . . . . . . . . A Aparição . . . . . . . . . . . . O Quarto Cinzento . . . . . . O Quarto Negro . . . . . . . .
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Algumas notas sobre a tradução destes contos, Nuno Fonseca
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nas páginas anteriores : 3
Adriana Molder, The Spectre Barber, da série Fantasmagoriana, 2015 acrílico sobre tela, 162 × 107 cm
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Adriana Molder, Die Totenbraut, da série Fantasmagoriana, 2015 acrílico sobre tela, 163 × 111cm
7
Adriana Molder, Retrato de Família, da série Fantasmagoriana, 2015 acrílico sobre tela, 155 × 105 cm
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Adriana Molder, I Thought You Were Fire But You Were Just Blue, da série Fantasmagoriana, 2015, acrílico sobre tela, 167 × 100 cm
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Adriana Molder, Fretting, da série Fantasmagoriana, 2015 acrílico sobre tela, 166 × 106 cm
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Adriana Molder, A Dúvida, da série Fantasmagoriana, 2015 acrílico sobre tela, 163 × 106,5 cm
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Adriana Molder, O Vento Púrpura, da série Fantasmagoriana, 2015 acrílico sobre tela, 155 × 105 cm
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as pinturas inspiradas em fantasmagoriana
Adriana Molder
«este retrato», dizia ela, «lança-me olhares, não tanto sombrios ou aterradores, mas cheios de uma melancolia singularmente doce. Parece que quer chamar a minha atenção e abrir os lábios para me falar. Será certamente a causa da minha morte.»
Foi no Inverno de 2007 que li pela primeira vez a colectânea de contos alemães, na sua maioria retirados dos primeiros volumes do Gespensterbuch de Johann August Apel e Friedrich Laun, que inclui também contos de Johann Karl August Musäus e Henrich Clauren, chamada Fantasmagoriana. Certos contos desta compilação serviram como inspiração directa a quatro desenhos que criei durante a minha residência em Berlim na Künstlerhaus Bethanien — um hospital do século XVIII, transformado em ateliers para artistas —, desenhos estes que fizeram parte da série do mesmo ano, a que chamei Der Traumdeuter (dezassete desenhos ao todo). Os livros que li naquele espaço tão habitado por espectros e fantasmas ficaram de alguma maneira comigo e há quase quatro anos decidi «usá-lo» outra vez para inspiração do meu trabalho, agora de pintura, e propô-lo para tradução e edição a Manuel Rosa e a António Gonçalves. É exactamente esta compilação, contos traduzidos anonimamente por Jean Baptiste Benoît Eyriès, lidos por Mary Shelley na Villa Diodati, e que a inspiraram a escrever Frankenstein, que agora se apresentam finalmente traduzidos em português.
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Vejo o meu trabalho de retrato herdeiro das criações falhadas de Frankenstein e do rabi Judá Loew ben Betzalel, daí ter desejado fazer destes contos uma inspiração para sete rostos, uma série de pinturas que, tal como a compilação, se chama Fantasmagoriana. São sete retratos que anseio, tal como é descrito no conto «Retratos de Família», possam exercer uma atracção infinita: que os seus olhos tenham vida e movimento, façam sentir arrepios involuntários e terrores secretos, mas não indo tão longe como descreve Juliana na citação acima, pois não gostaria que aterrorizassem de morte os leitores. Longe vai o tempo em que convivíamos com retratos e estes ou nos estarreciam ou nos protegiam, mas nunca nos deixavam indiferentes. Estes sete retratos são também sete momentos inspirados nos contos que se seguem, aos quais procurei dar aquilo que mais procuro, a intensidade, onde o leitor pode conseguir reconhecer-se em rostos que, tal como os fantasmas, não são mais do que vestígios de emoções passadas.
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FANTASMAGORIANA Apa r i ç õ es , E s p e ctro s , Assombrações…
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Falsis terroribus implet Horรกcio
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prefácio do tradutor francês 1
É bastante comum pensar-se que já ninguém acredita em fantasmas. Esta opinião não parece, contudo, ser muito correcta quando se considera o assunto com alguma atenção. Com efeito, sem falar dos menores de idade e dos montanheses, que estão convencidos, uns, da existência de espíritos ou duendes, guardiões de tesouros escondidos no seio da terra, os outros, da verdade das aparições de fantasmas que anunciam novidades, ora boas, ora nefastas, não poderemos perguntar-nos por que é que, entre nós, certos indivíduos se recusam a passar por um cemitério quando o sol já se pôs? Por que é que outros sentem um involuntário calafrio ao entrar de noite numa igreja, ou num edifício amplo e inabitado? Por que é que, finalmente, pessoas que gozam de uma merecida reputação de bom senso e de coragem, não ousam, na escuridão, arriscar-se a visitar lugares nos quais estão certos de nada haver a temer dos vivos? Repetimos incessantemente que estes são os únicos que devemos recear e, apesar disso, temos medo da noite, porque acreditamos, por tradição, que esse é o tempo escolhido pelos fantasmas para aparecer aos habitantes da terra. Admitindo, de resto, como sendo uma verdade demonstrada que, salvo raras excepções, já não se acredita em assombrações e que todos os tipos de receio de que acabamos de falar se devem apenas a um terror das trevas natural ao homem, terror de que não podemos dar razão, há, no entanto, um facto seguro, é que nos deleitamos bastante a escutar histórias de assombrações, espectros e fantasmas. Temos pelo fantástico um certo fascínio que nos faz escutar atentamente todas as histórias nas quais os eventos saem da esfera habitual das coisas. Eis, sem dúvida, porque é que outrora o estudo das ciências 1 Trata-se de Jean-Baptiste Benoît Eyriès que, em 1812, traduziu e seleccionou anonimamente os contos alemães que se incluem nesta edição.
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estava pejado de prodígios. Hoje, reduzimo-lo à mera observação dos factos. Esta revolução salutar e adequada para acelerar os progressos da verdade tem, no entanto, desagradado a alguns espíritos. Estes disseram que se tinha desprovido as ciências de um dos seus pontos de atracção mais vibrante e que o novo método esmoreceu a alma e desencantou o estudo. Eles não perdem qualquer oportunidade para fazer o sobrenatural recuperar um pouco desse império de que foi justamente privado e congratulam-se ruidosamente pelos seus esforços, porém deles não podem felicitar-se, quando os prodígios já ficam banidos para sempre dos tratados de física e de história natural. Mas se o fantástico ou o sobrenatural estão mal situados nesse tipo de obras, eles estão-no perfeitamente num livro do género que agora publicamos. Não pode aqui trazer qualquer perigosa consequência para o espírito, pois já se espera, perante o seu título, ler coisas extraordinárias, às quais só poderá alguém dar crédito, consoante o seu grau de credulidade. É sempre bom que haja este tipo de colectâneas nas quais se possam encontrar alguns traços dos desvios da imaginação pelos quais os homens se demoraram durante tanto tempo. Deles nos rimos hoje e, no entanto, não é muito provável que as histórias em que os fantasmas desempenham o papel principal cessem de ter curso entre nós. Enquanto o género humano subsistir, falar-se-á de assombrações e de espectros e encontrar-se-ão visionários de boa-fé. Poderíamos, neste prefácio, tratar de uma maneira erudita e metódica a questão das aparições, mas não faríamos mais senão repetir aquilo que Dom Calmet e o abade Lenglet-Dufresnoy1 já disseram sobre esta matéria.2 Praticamente esgotaram o tema, de modo que seria muito difícil escrever depois
1 Augustin Calmet, conhecido por Dom Calmet (1672-1757), foi um exegeta beneditino da Lorena, com grande erudição histórica e que se interessou também por demonologia. Nicolas Lenglet Du Fresnoy (1674-1755) foi outro erudito francês, historiador, geógrafo e filósofo, com particular interesse pelos livros de alquimia e de filosofia hermética. 2 Dissertação sobre as aparições e sobre as assombrações por Dom Augustin Calmet, 3.ª edição, Paris, 1751, 2 volumes in-12. Tratado histórico e dogmático sobre as aparições, visões e revelações particulares, com notas sobre a dissertação do Reverendíssimo Padre Dom Calmet feitas pelo abade Lenglet-Dufresnoy, Avignon ou Paris, 1751, 2 vol. in-12. Colectânea de dissertações antigas e novas sobre as aparições, as visões e os sonhos, com um prefácio histórico pelo abade Lenglet-Dufresnoy, Avignon ou Paris, 1751, 4 vol. in-12. [Nota de Benoît Eyriès]
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a aparição
A terra de dimensões consideráveis e as três bonitas casas do Sr. Soller atraíram para Julie, a sua única filha, duas vezes mais admiradores do que o seu belo porte e a graça particular que distinguia a sua esbelta figura. De qualquer modo, chegada à idade de dezassete anos, já tinha tido a oportunidade de eludir, por meio de respostas ambíguas, algumas propostas de casamento e de rejeitar abertamente muitas outras. O seu pai, a quem confiava os motivos das suas recusas, regozijava-se por ter uma filha tão inteligente. «Não conheceis Julie», respondia com confiança àqueles que queriam chamar-lhe a atenção acerca da intimidade da sua filha com o doutor Hess. Ele pensava que as expectativas de Julie nunca tinham ido além do círculo da sua casa paterna, onde levava uma vida tão doce e tão cómoda. Satisfeito, na sua idade, com os prazeres tranquilos que o estado, ainda razoável, da sua saúde lhe permitiam gozar, esqueceu que as coisas se passam de maneira diferente na juventude e que, quanto mais esta é repleta de atenções e livre de inquietações, mais aspira, com ardor, a realizar aquilo que deseja. Foi por isso que o Sr. Soller teve uma surpresa bem grande, no dia em que, na ausência da sua filha, um mensageiro, um pouco néscio, lhe entregou uma carta destinada a Julie. Reconheceu, pela letra do endereço, a mão de um homem e esperou impacientemente o regresso da sua filha. Ela ficara com um ar tão calado, quando quis dar-lhe a carta, que ele acabou por abrir o envelope naquele mesmo momento e viu que Gustav Hess lhe falava da constância de um amor correspondido. Um interrogatório rigoroso seguiu-se de uma ordem clara para não voltar a ver Gustav. Julie foi obrigada a prometer tudo isso naquele momento, para conseguir recuperar um pouco de tranquilidade.
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A cessação daquela correspondência, sobre a qual Julie não pôde indicar a causa ao seu amante senão mostrando-se a certa altura à janela, com os olhos cheios de lágrimas, levou o atónito doutor a solicitar um encontro com o Sr. Soller. Pediu formalmente a mão de Julie e o pai recusou dar-lha não menos formalmente. Isto pareceu tanto mais inexplicável ao doutor quanto era verdade que possuía uma fortuna independente e bastante considerável, que gozava de uma boa reputação e que era bem-apessoado. Uma pequena cicatriz na bochecha, resultante de um duelo que tinha tido aquando da sua temporada na universidade, nunca lhe tinha merecido qualquer reparo por parte das pessoas mais escrupulosas, pois era do conhecimento geral que não tinha sido ele o agressor. Julie convencia-se, mas em vão, de que o seu pai, em geral pouco preso às suas opiniões, não persistiria eternamente na sua recusa. Todos os seus esforços, todos os de Gustav, para convencer o Sr. Soller a consentir naquela união tão ardentemente desejada, foram absolutamente inúteis. Julie acabou por concluir que a inflexível teimosia do seu pai se deveria a um qualquer motivo secreto. Ela não se enganou e foi com desagrado que se apercebeu de que os seus desejos não se realizariam enquanto o seu pai fosse vivo. Desde a doença que forçara o Sr. Soller a renunciar ao comércio que este adquirira, para sua infelicidade, a mania de acreditar em espíritos. Chegou mesmo a edificar um sistema para o mundo espiritual. Entre outras opiniões, defendia que as pessoas que ao longo da vida delas aparecessem a alguém durante o sono tinham forçosamente um carácter muito suspeito. Julie temia que o espírito do seu amante tivesse aparecido ao seu pai e não descansou enquanto não teve, à força de estratagemas, a certeza de que a sua conjectura era bem fundada. Precisamente na noite que se seguiu ao dia em que a carta do doutor foi interceptada, Gustav, vestido como costumava, passou diante da cama do Sr. Soller. Julie só conseguiu pensar num meio eficaz para combater a fantasmagoria do seu pai. A sua modéstia impedia-a de o fazer, mas o seu amor não a deixou descansar enquanto não o pôs em prática. Confessou ao pai algo que era contrário à verdade: disse-lhe que, desesperada com a ira que, então, havia rebentado e desorientada pelo seu amor, havia aberto a porta naquela noite ao doutor e que, portanto, fora mesmo Gustav e não a sua sombra aquilo que ele vira.
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Contou, com tão ínfimo detalhe e tanta verosimilhança a maneira como se tinha apoderado da chave da casa e do vestíbulo, que o seu pai não ficou com a mínima dúvida relativamente à verdade daquilo que ela contava. Aquilo que se seguiu revelou que Julie tinha, de facto, recorrido a um eficaz expediente. É verdade que lhe mereceu duras reprimendas, mas a aversão do seu pai para com o doutor acabara por diminuir claramente. Julie encontrou uma maneira de informar o seu amante. Este veio reiterar o seu pedido. Achando o Sr. Soller que seria arriscado manter uma filha que, num caso de necessidade, abria, durante a noite, o seu quarto a um amante, acabou por escutar auspiciosamente o doutor. Infelizmente, oito dias antes da data que havia sido fixada para o casamento, o fantasma de Gustav apareceu de novo ao Sr. Soller. Desta vez, ele havia tomado todas as precauções possíveis relativamente às portas, de modo que Julie não poderia recorrer mais uma vez ao seu antigo subterfúgio. O seu pai declarou, então, que o casamento tinha de ser cancelado. Vaticinou ainda à sua filha, de uma maneira tão precisa, os infortúnios que acompanhariam essa união que conseguiu provocar nela uma forte impressão; mas Gustav depressa soube fazer desaparecer essas ideias funestas. O noivado decorreu com todas as formalidades que se impunham. Os dois amantes intimaram o pai a manter a palavra que lhes havia dado e este, temendo que, se a causa da ruptura do casamento fosse conhecida, o vissem como um homem de fantasias, e não encontrando, para além disso, uma outra causa mais plausível, deu o seu consentimento, mas recusou-se obstinadamente a assistir à cerimónia. Quando ambos os noivos se viram finalmente unidos pelo matrimónio, mostrou-se, apesar de tudo, disposto a recuperar as relações que devem naturalmente existir entre um pai e os seus filhos. Devolvia-lhes as visitas que eles lhe faziam, manifestava-lhes bastante afecto e acabou mesmo por confessar um dia à sua filha que os receios que o seu marido lhe inspirara no passado não eram afinal bem fundados. O doutor Hess renunciou à prática da medicina e limitava-se a prover, por simples benevolência, os seus serviços a alguns amigos que visitava. Os jovens esposos ficaram então com muito mais tempo de lazer, podendo assim entregar-se a todas as fantasias inspiradas pela sua idade e pelo seu amor. Eles agarravam-se avidamente a todos os devaneios que prolongassem a expecta-
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tiva de um futuro sem limites e a felicidade que gozavam. Como as visões do Sr. Soller voltaram a surgir, nessa altura, como assunto de conversa, os jovens esposos expressaram mutuamente o desejo de um dia poderem também aparecer um ao outro depois da morte. Não estavam, de facto, muito longe de acreditar na realidade daqueles espíritos que visitavam, ocasionalmente, o Sr. Soller, mesmo que rejeitassem as conclusões que ele retirava dessas visitas. Gustav sabia de uma história entre dois amantes que haviam prometido um ao outro permanecerem fiéis para lá da morte. Aquele que primeiro falecesse, fiel à sua palavra, regressaria para visitar o outro. Gustav contava esses factos com os mais ínfimos pormenores que pudessem dar-lhes verosimilhança. O desejo de poder gozar dessa vantagem foi expresso por Julie e repetido, com entusiasmo, por Gustav. Coleccionaram e leram as obras mais extraordinárias que tratavam dos temas do mundo espiritual; alguns manuscritos desse género acabariam depois por completar o efeito das primeiras leituras. Gustav e Julie tinham começado por supor a possibilidade das aparições, mas acabaram por acreditar nelas com certeza e, com a ajuda de diversas hipóteses, chegaram, tal como o Sr. Soller, a elaborar uma teoria particular. No seu sistema, duas pessoas que se amassem sinceramente nunca seriam separadas pela morte; pelo contrário, a que morresse primeiro, teria, até ao seu reencontro final, a prerrogativa de pairar à volta da que ficasse viva, como que para lhe servir de génio tutelar. O tempo e as distracções fizeram aos poucos desaparecer estas ideias extravagantes. As fraquezas inerentes à natureza humana, que cada um dos esposos começou a descobrir no outro, destruíram de tal modo a ideia de perfeição que haviam outrora inspirado um ao outro que, depois do primeiro bebé de Julie, o projecto de regressar do reino das sombras para se voltarem a reunir ficara totalmente votado ao esquecimento. Esse amor, cuja constância deveria ultrapassar todas as provações, diminuía a cada mês que passava e, embora a criança, para quem Julie parecia unicamente existir, tivesse crescido rapidamente, isso não fez, no entanto, com que Gustav parecesse querer aproximar-se da mãe. Essas duas metades, unidas para formar um todo feliz, começaram a querer, cada uma, gozar a sua independência. Nenhuma delas podia formalmente acusar a outra de infidelidade, mas suspeitava muito das suas intenções.
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O medo de dar razão às previsões do Sr. Soller e o receio de dar motivos de troça aos amigos que haviam sido testemunhas, aquando do casamento, do seu amor extremo, impedia-os de deixar transparecer a terceiros o descontentamento que rebentava com relativa frequência na sua vida privada. No entanto, ainda não tinham passado três anos e os mais observadores percebiam sem dificuldade uma mudança marcada nos comportamentos recíprocos de cada um dos esposos. O doutor Hess que, tal como o dissemos já, por gosto a uma vida tranquila, não voltara a exercer medicina, tinha, nos dois primeiros anos do casamento, passado com Julie o Verão numas termas muito conhecidas. Planeara lá ir também uma terceira vez, mas Julie recusou acompanhá-lo, alegando uma indisposição que lhe tinha ficado na sequência de um aborto espontâneo. O seu sorriso revelava que lhe era indiferente se o marido achasse frívola tal desculpa. Pouco depois de este a ter deixado, lembrou-se que Gustav se queixava desde há alguns meses de uma dor incómoda que ela havia encarado como um mero pretexto para esconder o seu mau humor. «E se, contudo, o seu mal for real?», pensava ela para consigo mesma, «E se ele ficar doente no meio de estranhos?». Pouco faltou para que mandasse chamar cavalos de posta. As distracções do quotidiano não tardaram a afastar essas nuvens da sua jovem cabeça. «Sou bem doida», dizia, «por ter sentido tanta preocupação por causa de um homem que se preocupou, certamente, em esconder, no meio daqueles prazeres, o tédio que a companhia da sua mulher lhe causava.» As suas preocupações actuais não deixavam de ter os seus encantos. Ela podia agora descurar um conjunto de cuidados que era obrigada a preservar diante do seu marido. Estava unicamente obrigada às leis do decoro e não era sem alguma mágoa que tinha a consciência de que, em breve, essa sua situação iria mudar, sobretudo quando Gustav, numa carta, a informou de que o seu regresso tinha de ser adiado por três semanas. Embora essa notícia estivesse longe de a aborrecer, sentiu-se, no entanto, incomodada pelo facto de Gustav não ter sequer tido o cuidado de alegar o motivo que o levava a prolongar a sua ausência. Oito dias depois recebeu uma carta do irmão do seu marido. Dizia-lhe aí que, tendo vindo do longínquo país onde habitava e onde ocupava um lugar importante, para encontrar nas termas o seu único irmão que tanto adorava e
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que não via há tanto tempo, era agora, com alguma mágoa, que, na primeira vez que escrevia à sua cunhada, tinha de a informar de que o seu marido estava gravemente doente. Esta notícia causou uma extrema perturbação a Julie que se preparou para ir ter com Gustav. Uma segunda carta chegou para a informar de que a primeira havia sido escrita apenas com a intenção de a preparar para a perda do seu esposo, resgatado subitamente à vida devido a um ataque de apoplexia. Devido à sua personalidade amável, Gustav fizera muitos amigos entre as pessoas que se encontravam nas termas e, portanto, as suas cerimónias fúnebres foram bastante solenes e emotivas. O cunhado de Julie, ao dar-lhe conhecimento destes pormenores, acrescentou que tinha a intenção de ir pessoalmente comunicar-lhas, mas que os deveres que a sua posição acarretava o haviam forçado a partir de repente. Dizia-lhe, ainda, que poucos dias antes do falecimento, o seu irmão lhe havia confiado em conversa que o dote que ela trouxera pelo casamento não chegava a ser, aproximadamente, senão um terço da fortuna que deixara ao falecer e que, por isso, ele tinha feito as diligências necessárias para que esse terço lhe fosse remetido através de documentos devidamente acautelados e pago a pronto. Julie estava tão abalada pela morte do seu marido que não apreciou, neste primeiro momento de dor, essa preocupação legal relativamente aos seus direitos pecuniários. Sentiu mesmo, ainda que involuntariamente, uma marcada aversão pelo autor da carta, por ter mencionado esses aspectos, no momento em que lhe anunciava a fatal notícia. As recriminações que fizera a si mesma, depois da partida do seu marido, apareciam agora com uma nova força. Cada momento daquele tempo feliz dos seus amores vinha-lhe de novo à memória e, em particular, aquela cena solene em que ela, conjuntamente com Gustav, havia feito a promessa segundo a qual, aquele que morresse primeiro apareceria ao outro. Não deixou de sentir um certo calafrio quando, à noite, regressava sozinha de casa do seu pai. Depois de se despir, a sua criada de quarto preparava-se para a deixar; chamou-a e, quase imediatamente a seguir, rejeitou a ideia de manter alguém ao seu lado, voltando, por isso, a mandar a criada embora, e esta ficou sem perceber por que motivo a sua senhora a tinha chamado de volta. Julie não
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algumas notas sobre a tradução destes contos
Nuno Fonseca
Foi sensivelmente há 200 anos, durante os dias cinzentos e chuvosos do Verão de 1816, que o destino literário destes contos ficou marcado. E, no entanto, por uma conjugação insólita de factores geológicos, astronómicos e meteorológicos 1, o ano de 1816 ficou, ironicamente, também conhecido como O Ano Sem Verão, cheio de anormalidades climáticas com consequências devastadoras, em particular, no hemisfério norte. Em Maio as plantações haviam sido destruídas e em Junho tempestades de neve deixaram um rasto de morte no leste da América do Norte. No mês de Julho, as temperaturas foram tão baixas que, no Vale de Bagnes, nos Alpes suíços, se formaram barragens de gelo. Além disso, a chuva não parou, durante dias a fio, nas margens do lago Léman, obrigando os personagens ilustres que visitavam, nessas férias pouco estivais, a Villa Diodati 2, a ficar fechados nesta mansão com fama literária, ocupando o tempo em conversas e leituras defumadas pelo láudano. Quis um acaso do destino que lhes fosse parar às mãos esta recolha de histórias de fantasmas, traduzidas do alemão para o francês. Os especialistas da paleoclimatologia apontam a hipótese de um inverno vulcânico causado pela violenta erupção plutónica no Monte Tambora, no sudeste da ilha de Sumbava, Indonésia, em 1815. A acrescer a este fenómeno de intensidade fora do comum e que provocou uma descida generalizada da temperatura no globo terrestre, decorria o chamado mínimo de Dalton, ou seja, um período de fraca actividade dos raios solares (1790-1820). Cf. William K. and Nicholas P. Klingaman, The Year Without Summer: 1816 and the Volcano that Darkened the World and Changed History, New York: St. Martin’s Press, 2013. 2 Tratava-se da Villa Belle Rive, que passou a ser denominada assim por Lord Byron, quando este a arrendou, em Junho de 1816, por pertencer na época aos Diodati. É, ainda hoje, uma mansão situada na pequena vila suíça de Cologny e já antes desse célebre episódio da história do romantismo inglês tinha fama literária, pois tinha albergado noutros tempos o poeta John Milton e gozado da vizinhança de Voltaire, Rousseau e da Madame de Staël. 1
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Esses personagens ilustres eram o poeta inglês Lord Byron, o seu médico, John Polidori, a mal-amada Claire Clairmont, o poeta Percy Shelley e aquela que, em breve, seria sua esposa. Foi, aliás, Mary Shelley quem referiu estas histórias de fantasmas, no prefácio de 1831 ao seu famoso Frankenstein: … revelou-se ser um húmido e desagradável Verão, forçando-nos as chuvas incessantes a ficar, por vários dias, confinados à casa. Alguns volumes de histórias de fantasmas, traduzidas do alemão para o francês, tinham caído nas nossas mãos. Havia a História do Amante Leviano [«A Noiva Morta»] que, quando pensou estar a abraçar a noiva a quem tinha acabado de jurar fidelidade, se viu nos braços do lívido fantasma daquela outra que antes tinha abandonado. Havia também o conto do pecaminoso fundador da sua estirpe [«Os Retratos de Família»], cujo miserável destino era marcar com o beijo da morte os filhos mais novos da sua malograda casa, mal esses atingissem a flor da idade. A sua gigantesca e lúgubre forma, envergando, tal como o fantasma de Hamlet, uma armadura completa, porém com a viseira levantada, era visto à meia-noite, iluminada pelos trémulos raios do luar nocturno, avançando lentamente através da alameda. O espectro perdia-se na sombra das paredes do castelo; mas depressa um portão se fechava, um passo era escutado, a porta do quarto aberta, e ele avançava para o leito daqueles vicejantes jovens, embalados por um sono reparador. Uma tristeza eterna descia sobre o seu rosto quando se inclinava para beijar a fronte dos rapazes, que nesse momento murchavam como as flores arrancadas aos seus caules. Não voltei a ver estas histórias desde então, mas os episódios que narravam estão ainda frescos na minha memória como se os tivesse lido ontem.1 Confessa ainda Mary Shelley que o impacto da leitura desses contos no espírito dos quatro autores foi tal que Lord Byron decidiu lançar, a cada um, o desafio de escrever uma história de fantasmas da sua autoria. Da pena de Byron terá saído o poema «Darkness» e um esboço de conto de vampiros, 1 Cf. Mary Shelley, Frankenstein or The Modern Prometheus, ed. and introd. by M. K. Joseph, Oxford World’s Classics, Oxford: Oxford University Press, 2008, p. 7.
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