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ELES PASSARAM ALÉM DO TEJO
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Carta militar das principais estradas de Portugal (pormenor), JoĂŁo B. Castro, 1808.
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Estalagem portuguesa. Desenho de William Morgan Kinsey.
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em cima: Estalagem de Busseiras em baixo: Estalagem do Patalim Aguarelas de Pier Maria Baldi
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em cima: Estalagem de PilhassĂŁ em baixo: Estalagem de Landeira Aguarelas de Pier Maria Baldi
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ELES PASSARAM ALÉM DO TEJO As terras e gentes de entre o Tejo e Guadiana vistas por viajantes estrangeiros desde a Idade Média a finais do século XIX
tradução, introdução e notas
Joaquim M. Palma
DOCUMENTA
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Esta obra foi apoiada pela Direcção Regional de Cultura do Alentejo e pela Câmara Municipal de Évora
© SISTEMA SOLAR, CRL (DOCUMENTA), 2019 RUA PASSOS MANUEL, 67 B 1150-258 LISBOA tradução © JOAQUIM M. PALMA 1.ª EDIÇÃO, ABRIL DE 2019 ISBN 978-989-8902-53-5 NA CAPA: FOTOGRAFIA DE PEDRO CHORÃO REVISÃO: LUÍS GUERRA
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ÍNDICE
I ntrodução , Joaquim M. Palma . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Um Geógrafo do Al-Andaluz Ahmad ibn Muhammad al-Razi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Viagens Medievais e Renascentistas Roger Machado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Giovanni Battista da Fabriano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
37 47
Viajantes Incógnitos ou com Nome Falso Monsieur M. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . John Latouche (pseudónimo) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
59 65
Deambulações Passadas a Papel de Carta Giuseppe Baretti . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Robert Southey. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . William M. Kinsey . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
87 93 103
Franciscano Trazido pelo Vento Suão Anasthasio Franco y Bebrinsaez . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
113
Militares pelos Caminhos William Dalrymple . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Lovell Badock . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Um Excêntrico na Charneca William Beckford . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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O Olhar e o Traço de Um Artista James Murphy . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
155
Chegou de Longe para Ver as Estevas Heinrich Friedrich Link . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
173
O Espião Que Veio de Espanha José Cornide y Saavedra. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
207
L adIes I n t he P LaIns Elizabeth Vassal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Bertha Grey . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Maria Rattazzi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
217 227 257
Um Aristrocrata Atravessa o Rio Duque de Carnarvon [Henry J.G. Herbert] . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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O Vendedor de Bíblias George Borrow . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
279
Um Nórdico Encontra-se com o Sul Hans Christian Andersen . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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No Comboio Descendente Henry Shore . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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Uma das leituras mais curiosas que pode haver é a das viagens feitas por estrangeiros de diversas nações na nossa terra. […] tenho-me divertido extraordinariamente com as vivas e pitorescas impressões colhidas em flagrante, pela maior parte desses viajantes, nos nossos costumes, na nossa vida exterior. Maria Amália Vaz de Carvalho (1899)
As viagens, os viajantes — tantas espécies deles! Álvaro de Campos (1915)
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INTRODUÇÃO
O olhar que vem de fora Aviso prévio à navegação: este não é um trabalho debruçado sobre a especificidade deste ou daquele tema, não é um documento que tivesse tido a premissa de obedecer a um tratamento sistemático de natureza erudito-académica. É, antes, uma simples e despretensiosa manta de retalhos reflectindo perspectivas paralelas, convergentes, opostas, cruzadas, sobrepostas, divergentes de natureza histórico-literária; o seu tecelão aparelhou-a com o cuidado e o respeito que são exigidos pelas coisas insólitas, inesperadas e, às vezes, fascinantes que se vão desprendendo do acto de viver, individual ou colectivo, ao longo dos dias e noites, meses e anos, décadas e séculos. Neste caso, o que foi caindo dos dedos do passado foi um punhado de registos de viagens feitas em terras lusas por gente que veio de longe, gente que, salvo raras excepções, era do tipo saudavelmente curioso de andar-a-ver. E foi desde sempre intenção inflexível iniciar este livro com as palavras, em epígrafe, de uma mulher do século XIX português, Maria Amália Vaz de Carvalho, que não deixam de ser surpreendentes. Surpreendentes e irónicas: lançam a perplexidade porque pela primeira vez alguém, embora tardiamente, teve a coragem de tratar ensaisticamente o tema das viagens dos estrangeiros em Portugal1; a ironia emerge do facto de ter sido precisamente uma mulher a fazê-lo, isto num século em que a presença masculina nas letras era escandalosamente predominante e o elemento feminino, exceptuando aquele 1
Maria Amália Vaz de Carvalho, Em Portugal e no Estrangeiro – Ensaios Críticos (1899).Vinte anos antes, Manuel Bernardes Branco tinha lançado a obra Portugal e os Estrangeiros, que não passa de uma lista alfabética de viajantes.
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que se situava na escala social superior, não poder, ou não lhe ser permitido, ter acesso ao prazer de viajar dentro ou fora do seu país. Ninguém questionará decerto a afirmação de que é a todos os níveis proveitoso tomarmos contacto com a perspectiva formada sobre nós por quem não nasceu nem cresceu no seio do nosso universo social e histórico. Embora não esteja igualmente isenta de erros ou imprecisões, será, em princípio, uma visão que não enferma dos vícios e condicionamentos próprios de uma observação que seja feita pelos nossos conterrâneos. Essas realidades descobertas por estrangeiros nem sequer se podem apresentar a um exame de confrontação comparativa com outras que eventualmente nós, aqui nativos, tivéssemos registado sobre a mesma temática porque, e isto é uma verdade histórica facilmente verificável, se constata que os portugueses sempre escreveram pouco sobre as suas digressões pelos caminhos do seu próprio país. As crónicas viageiras de autores portugueses, até finais do século XIX, só foram abundantes fora das fronteiras nacionais: durante as Descobertas quinhentistas e, três séculos mais tarde, com as expedições no interior africano. E os relatos de deslocações no território de origem que era este pequeno rectângulo no extremo ocidental europeu, inexplicavelmente foram sendo dados à luz de uma forma pontual e espaçada; o pouco que foi produzido nem de longe conseguia esconder uma persistente pobreza de narrativas que falassem de um deambular curioso pelas diversas regiões que compõem o todo nacional. Os itinerários régios que iam saindo até ao Renascimento não passavam de documentos muito centrados nas figuras dos soberanos e nos assuntos práticos da corte ambulante e pouco na vivência emocional das paisagens e gentes. Contabilizando o espólio deixado pelos portugueses até ao século XX no campo do relato de viagens impresso, chegamos a uma soma incompreensivelmente ridícula, onde apenas sobressai a obra Viagens na Minha Terra, de Garrett, que, ao conter alguma ficção, não se enquadra propriamente na categoria específica de literatura de viagens, e alguns textos breves de Eça, Camilo, Ramalho Ortigão e, por fim, com alguma substância, as páginas de geografia na História de Portugal, de Oliveira Martins. 16
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Esse hiato documental vai, felizmente, ser anulado por uma produção literária considerável realizada por dezenas e dezenas de viajantes estrangeiros que por aqui vaguearam e que, depois de regressarem aos seus países de origem, decidiram deixar aos vindouros, em formato impresso, o registo pessoal dessas viagens. Se quisermos, hoje, conhecer com alguma margem de credibilidade o que era o Portugal dos séculos XVII, XVIII e XIX, teremos obrigatoriamente de consultar os relatos desses viajantes que um dia, movidos pelas mais diversas razões, nos visitaram, analisaram e caracterizaram como povo e país. O corpus documental originado pelas diversas viagens assume, por conseguinte, o estatuto de um bem de inestimável valor porque, sem ele, teríamos um acesso muito deficiente a certas realidades do nosso passado que, ao longo dos séculos, nos foram construindo como comunidade organizada dentro de quatro fronteiras. É óbvio que muitos desses viajantes transferiram para os registos os seus defeitos de carácter, idiossincrasias e o filtro das suas culturas de origem. Nas suas palavras há de tudo: arrogância, ignorância, maledicência, juízos morais precipitados, preconceitos e outras atitudes igualmente pouco edificantes. A imagem de Portugal no estrangeiro era difundida, até ao século XIX, envolta nas mais negras cores. Mas, ao mesmo tempo, também deparamos com páginas repletas de sentimentos completamente opostos aos atrás expostos, onde alguns estrangeiros, numa tentativa de aproximação e vivência autêntica do desconhecido, se despojaram dos seus condicionamentos de origem e se esforçaram por fazer leituras mais baseadas na compreensão e aceitação das diferenças aqui encontradas. É o caso, entre outros, de Southey, Beckford e Link; este último tentou até denunciar a corrente negativista posta a correr sobre Portugal, que achava injusta, chegando a escrever no prefácio de um dos seus livros (Travels in Portugal, 1801) que um dos objectivos da edição dessa obra era o de tentar repor a verdade dos factos sobre um país que o encantava. Porém, se se fizer uma leitura inclusiva e isenta de julgamentos apressados, mesmo naqueles relatos menos tolerantes se podem vislumbrar aqui e ali subtis verdades que, apesar de tudo, resistiram ao ferrete da opinião distorcida. 17
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Olhando com atenção para tudo o que os viajantes estrangeiros escreveram sobre Portugal e os portugueses, qualquer bom artista plástico poderia compor um gigantesco fresco onde não faltariam zonas de conteúdo obscurecido, algumas outras indefinidas na sua significação e, por fim, outras de grande beleza e luminosidade.
A razão das vindas É hoje possível fazer-se uma lista das diferentes motivações que ao longo dos últimos séculos estiveram por detrás do impulso que atirou muitos viajantes para fora dos seus países e irem de abalada para territórios desconhecidos, entre eles Portugal. As razões que se considera serem as principais no que diz respeito à Península Ibérica, até ao final do século XIX, podem sintetizar-se da seguinte forma: – Ocupações romana e árabe: registo dos aspectos meramente geográficos (recursos naturais, localização de povoações, orografia); – Idade Média: peregrinações religiosas, missões oficiais, guerras. (Os relatos de viagens estão, neste período, repletos de fantasias, lendas e mitos); – Renascimento: interesse pelas ciências biológicas; vivência directa de experiências novas; conhecer novos mundos. (Montaigne é a grande referência para os viajantes da época); – Século XVIII (Iluminismo): recolha, medição, comparação e categorização de dados históricos, geográficos e científicos; elaboração de enciclopédias do conhecimento; interesse pelo terramoto de Lisboa (1755); – Século XIX: a viagem vista como um acto literário, intimista, artístico e de puro prazer; impressão tipográfica generalizada de livros sobre viagens; contacto com culturas exóticas (a que a Península Ibérica não escapava). 18
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Num trabalho desta natureza, não se pode esquecer o movimento que ficou conhecido por Grand Tour. Teve início no fim do Renascimento entre a alta sociedade inglesa e estendeu-se pelos dois séculos seguintes. Consistia no envio dos jovens, no fim dos seus estudos superiores, para as capitais continentais mais cultas (Paris e Roma), para, desse modo, completarem a sua formação através do contacto directo com outras culturas1. Esta viagem em direcção às principais cidades europeias teve tal projecção na sociedade britânica que não tardou muito a ser também empreendida por gente mais madura. Estranhamente, alguns personagens desse Grand Tour desviaram-se da sua rota habitual e chegaram à Península Ibérica, mais precisamente a Espanha, e um pequeno número deles decidiu-se mesmo por Portugal. Além Pirenéus, Portugal e Espanha eram vistos como territórios longínquos, desconhecidos, atrasados e inseguros, o que não demoveu alguns viajantes de para lá dirigirem os seus passos. A selecção dos viajantes para integrarem este trabalho recaiu sobre vinte e dois estrangeiros que nos pareceu terem contribuído para formar, no fim, um quadro verdadeiramente diversificado de perspectivas sobre um país chamado Portugal e, ao mesmo tempo, constituir-se como um mosaico misterioso preparado para mentes curiosas do século XXI. Os signatários dos relatos são provenientes das mais diferentes origens: Inglaterra (a maioria), Alemanha, Irlanda, Itália, França, Espanha e Dinamarca. E entre eles há geógrafos, emissários oficiais, anónimos, religiosos católicos e protestantes, militares, excêntricos ingleses, artistas, botânicos, espiões, aristocratas, diplomatas e contadores de histórias.
Os caminhos a sul A passagem de estrangeiros por Portugal seguiu, durante séculos, um padrão muito bem definido, reforçado especialmente no período do Romantismo: 1
Em 1625, Francis Bacon (1561-1626) escrevia nos seus Essays, Civil and Moral: «Para o jovem, viajar deve fazer parte da sua educação…».
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chegava-se a Lisboa e depois ia-se conhecer Sintra. Uma variante desse comportamento dizia respeito a visitantes que chegavam por via marítima à cidade do Porto (motivados pelo negócio do vinho do Porto com Inglaterra), e faziam breves incursões pelo Minho. Outros grupos deslocavam-se a Coimbra (na esteira dos amores de Pedro e Inês) ou à serra da Arrábida (pelas belezas paisagísticas). Estes périplos não apresentavam surpresas desagradáveis, em termos de segurança física, para os intervenientes. Já o resto do país era visto como território perigoso, pejado de ladrões, com caminhos intransitáveis, estalagens horríveis, população atrasada. Porém, em contracorrente com os itinerários à volta da capital, houve sempre um número muito restrito de viajantes com coragem para se aventurar por esses cenários desconhecidos e tão mal-afamados do interior do país. E vamos encontrar nos tórridos caminhos alentejanos, como caída de outro planeta, gente chegada de países tão remotos como a Alemanha, Dinamarca ou Inglaterra; nem todos usufruíam do conforto de uma carruagem, com alguns deles a pé, montados em animais ou encavalitados no alto de carroças de mercadorias. E quando chegassem às estalagens, não era certo que nelas haveria comida ou cama disponível, o que os obrigava a transportarem consigo os seus mantimentos diários; um dandy inglês (William Beckford) e um literato italiano (Giuseppe Baretti) chegaram a viajar pelo Alentejo transportando nas bagagens as suas próprias camas. A maioria atravessava o Tejo e começava a sua viagem alentejana em Aldeia Galega (hoje Montijo); outros, vindos de terras espanholas, entravam pela fronteira de Elvas. Percorriam a chamada «estrada real», o caminho mais directo entre Portugal e Espanha, que cruzava transversalmente a província do Alentejo; essa via seguia o trajecto Vendas Novas, Montemor-o-Novo, Arraiolos, Estremoz, Elvas, semelhante ao da actual EN 4, e por ela transitava, como num carreiro de formigas, a quase totalidade de pessoas e bens que por via terrestre iam de um país para o outro. Apesar do estatuto que lhe outorgava a designação de «real», os viajantes que a ela recorriam não se cansaram de se queixar sobre o mau estado do pavimento, das estalagens sem o mínimo de condições e de ser frequentada por gente de má índole. 20
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Da estrada real partiam ramificações, para norte e para sul, que conduziam às cidades de Évora, Beja e Portalegre. Destas povoações, estendiam-se depois outras estradas (mais propriamente, caminhos) para as vilas e aldeias mais distantes; caminhos esses que, apesar de não estarem muitos deles cartografados, alguns aventureiros tiveram a ousadia de percorrer. Um ou outro viajante, fez também a subida do rio Sado até Alcácer do Sal, seguindo depois por terra para o interior da província. O país estava tão mal servido de estradas e os mapas eram tão imprecisos e até omissos que não poucas vezes os viandantes se perdiam ou iam parar a sítios que não estavam nos seus planos (o primeiro itinerário terrestre de Portugal, da autoria de João Baptista de Castro, só saiu impresso em 1748). As hospedarias onde pernoitavam eram amiúde palco de cenas quixotescas, que tanto podiam desembocar no mais puro absurdo ou em graves sarilhos para os intervenientes. Tendo este trabalho como barreira cronológica os finais do século XIX, não poderiam ficar de fora as viagens de comboio, que só foram incluídas por se considerar que essas deslocações, nas primeiras décadas dos caminhos-de-ferro, ainda conservavam muito da aventura e mistério que caracterizaram as viagens das eras anteriores. Na presente lista de visitantes, o dinamarquês Hans Christian Andersen, em 1866, terá sido dos primeiros viajantes-escritores a entrar no país usando o comboio. E é com a travessia ferroviária dos campos alentejanos vivida por um gentleman inglês, à beirinha do século XX, que se encerra a presente antologia viageira.
A escolha da região O âmbito geográfico deste trabalho corresponde ao território geralmente designado por Alentejo. A escolha desta região obedece a vários imperativos, entre eles, o facto de o autor nela ter nascido, crescido e vivido a maior parte da sua existência terrena (que, por vontade do destino, ainda não aca21
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bou). Se isto não fosse razão suficiente, teria de se acrescentar a intenção de tal pessoa desejar contribuir de alguma forma para o aumento do conhecimento social, histórico e cultural de uma região que os seus pés pisam regularmente há mais de seis décadas. Naturalmente que os actuais limites administrativos da província não são do agrado de quem se lançou nesta aventura de dar voz a estrangeiros que por aqui passaram; esses limites, na sua opinião, teriam de ser restaurados para uma lógica mais consentânea com a ideia de região natural. Assim, todo o actual processo de divisão foi posto em causa, e recuou-se até ao tempo em que o Alentejo era o espaço além do Tejo; isto é, todo o território da margem esquerda do rio Tejo até às serranias algarvias. Com esta alteração, a cunha sul da Estremadura, que invade a península de Setúbal, desaparece de vez, dando lugar aos velhos limites naturais, que, por via desta circunstância, em tempos fundacionais deram nascimento à denominação Alentejo1. Em suma, todas as viagens que começavam ou terminavam em Aldeia Galega, na margem oposta a Lisboa, principal porta de entrada ou saída nas viagens além do Tejo, foram tidas em consideração aquando do processo de selecção.
Apresentação cronológica dos registos Existem neste livro relatos escritos que retrocedem ao século X e outros que avançam até finais do século XIX. Quanto a este limite temporalmente mais perto de nós, há que dizer que sempre foi um dado inalterável. Por outro lado, tentou-se ir o mais atrás possível no curso do tempo histórico; e demos com registos do tempo da ocupação romana da autoria de Plínio e Estrabão, mas não passavam de testemunhos de conteúdo escasso e não 1
É D. Dinis que estabelece a região de «entre o Tejo e Odiana»; no século XIV os seus limites são a norte o rio Tejo e a sul a cordilheira algarvia. No mapa mais antigo de Portugal (1561), de Fernão Álvares Seco, é ainda bem visível a inscrição desta divisão do território a sul do Tejo.
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muito preciso, dizendo respeito a zonas muito vastas da Ibéria, e foram postos de lado. Isso deu, como resultado, a intenção de se iniciar o caminho desta antologia com um texto árabe do al-Andaluz, onde a toponímia já é perfeitamente identificadora de lugares que todos hoje conhecemos e localizamos no espaço entre o Tejo e o Guadiana. Tendo havido a opção de se aglomerar tematicamente as narrativas de diferentes datas, é inevitável que, de vez em quando, se quebre a normal sequência cronológica. Mas este procedimento organizativo, com desvios aleatórios, não deixa de estar também em linha com a ideia original que despoletou a execução desta antologia: apresentar simplesmente as diversas narrativas a nu, em toda a sua individualidade e sem pretensões de as comparar entre si. A meta do princípio do século XX, a balizar temporalmente este livro, foi traçada tendo como pressuposto a ideia de que, com a melhoria dos transportes ferroviário e marítimo e o surgimento do automóvel, a viagem passou a ter outras qualidades já muito distantes das que caracterizaram a prática da errância vivida nos séculos precedentes.
Da natureza e tratamento dos conteúdos É óbvio que, numa qualquer antologia contendo escritos de diferentes autores, cada um desses relatos se revestirá de uma individualidade impossível de se confundir com qualquer uma das outras. E este facto fica mais evidente e objectivo quando se mostram, lado a lado, documentos criados com séculos de permeio entre si, tendo como objecto de observação a mesma realidade. Assim, ao longo destas páginas, os leitores vão deparar-se com uma diversidade de estilos literários quase estonteante, que esperamos sejam portadores de perplexidade, encanto e prazer. Desde a mais ligeira à mais elaborada narrativa, passando por formas profundas ou simplesmente informativas, o resultado final é uma paisagem caleidoscópica para o olhar, por certo à espera de uma leitura curiosa e desprovida de ideias e imagens preconcebidas. 23
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Para não se quebrar a fluidez da leitura, o tradutor recorreu o menos possível a notas de rodapé; porém, em certas situações, teve imperativamente de as inserir, sob pena de o leitor entrar por becos sem saída; também assim se procedeu quando se pressentia que a informação a fornecer pela nota iria complementar significativamente a ideia do autor. As Notas de Autor, em número muito reduzido, encontram-se devidamente assinaladas. Durante a leitura das obras originais impressas, constatou-se que alguns organizadores, tradutores ou editores tinham introduzido notas e observações pessoais nos textos editados, por vezes sem autorização dos respectivos autores; notas essas na maioria perfeitamente dispensáveis. Nenhuma delas foi transposta para esta antologia, por respeito para com o original do autor. Até ao século XX, era hábito entre os escritores inscreverem, logo após a indicação do número de capítulo, uma espécie de sumário do que a seguir no texto propriamente dito iria ser desenvolvido. Dada a natureza redundante desses tópicos e também porque eles poderiam retirar o interesse pelo desenrolar da narração, optou-se por não os incluir na tradução portuguesa. É verdadeiramente caótico o registo toponímico feito pelos viajantes. O que não se compreende muito bem, pois muitos deles, talvez a maioria, viajavam com mapas. Nestes, por aquilo que se pode observar naquele que é o mais antigo mapa de Portugal (1561), os nomes das povoações, rios e serras estão já muito próximos das designações gráficas actuais. É realmente inacreditável verificar até que ponto chegou a displicência, o desleixo e a falta de cuidado. Repare-se: Setonnel [Setúbal], Arraxolos [Arraiolos], Vientasnuevas [Vendas Novas], serra dorso [serra d’Ossa]; não se pode deixar aqui de referir a atracção dos ingleses pela grafia St. Ubes quando se referiam a Setúbal. Assim, e para não se estar constantemente a assinalar esse facto com nota de rodapé, optou-se por inscrevê-la correctamente no texto português logo que a situação ocorria. O mesmo quadro de imprecisão ortográfica se verifica ao nível da antroponímia. Também neste caso se procedeu à correcção imediata dos nomes; quando isso se tornava impossível, a hipótese mais aproximada foi inscrita entre parênteses rectos. Resta acrescentar que perto de cinquenta por cento do material desta antologia se encontra, até à data, inédito em Portugal e que os textos especi24
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ficamente sobre o Alentejo que foram rejeitados (perto de dez por cento do total recolhido), ou eram repetitivos em relação aos que já tinham sido escolhidos, ou não apresentavam qualidade suficiente para serem aceites.
Fontes consultadas Exceptuando os escritos da autoria de José Cornide, Giovanni Fabriano, Roger Machado e as Crónicas do Mouro Razi, todos os textos contidos nesta antologia foram extraídos de fontes impressas ainda em vida dos respectivos autores ou pouco tempo depois. Esclarece-se ainda que apenas duas das traduções aqui apresentadas não são da autoria do organizador deste trabalho. São elas: a crónica de Giovanni Fabriano (executada por Alexandre Herculano) e a de Maria Rattazzi (autorizada pela autora e realizada por tradutor não identificado). Os textos de Link, Baretti e Hans C. Andersen (respectivamente, em alemão, italiano e dinamarquês) foram traduzidos para português a partir de edições em língua inglesa, todas anteriores ao século XX. As fontes consultadas estão disponíveis digitalmente, na íntegra, em diversos sítios da internet pertencentes a instituições oficiais e privadas de credibilidade reconhecida, a saber: Biblioteca Nacional de Portugal, Biblioteca Nacional de Espanha, Biblioteca Britânica, archive.org, Projecto Gutenberg, Biblioteca Digital da B. N. de França, Europeana-Biblioteca Virtual da EU.
Reflexão final Este é um facto incontestável e simultaneamente injusto, e assim permanecerá para sempre – os viajantes, nos tempos que antecederam o século XX, eram gente de posses. Os pobres (e eram tantos!), esses nasciam, trabalhavam, procriavam e morriam sem se deslocarem, em viagem de prazer, muito para além dos horizontes geográficos alcançados pelo seu raio de visão; eles 25
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somente foram actores circunstanciais ao cruzarem o caminho desses enigmáticos seres surgidos como que do nada, falando outra linguagem e metendo o nariz em coisas que os locais geralmente achavam insignificantes. Mas que motivação era essa que levava a que tais privilegiados da sociedade deixassem para trás o conforto dos seus palácios e mansões e partissem de livre vontade para paragens distantes, em tempos de extrema insegurança? Sabendo eles que nos caminhos de um país europeu periférico, como era Portugal, o encontro com o perigo mais imprevisível era algo perfeitamente plausível, que poderiam não regressar a casa de boa saúde ou até mesmo vivos, – que impulso era esse que os catapultava para o desconhecido? Para além das viagens impostas por compromissos diplomáticos, de trabalho ou de difusão religiosa, transitaram por este interior a sul do Tejo, por puro prazer de viajar, individualidades de várias sensibilidades (artísticas, científicas, hedonistas, poéticas). Uma virtude, porém, os caracterizava a todos: a curiosidade. E o resultado desse movimento trouxe benefícios para todos: para os que vieram, porque passaram por vivências únicas e alimentaram decerto as suas almas sedentas do novo e da surpresa; para os que cá estavam, porque o legado escrito desses visitantes veio fazer mais luz sobre o que temos sido ao longo dos tempos, como povo, como espaço biofísico, como realidade cultural específica. Com uma boa dose de espanto, descobrimos algumas mulheres viajantes que não resistiram a escrever sobre as suas experiências em terras de entre-Tejo-e-Guadiana. Três delas, deixaram textos com alguma substância, e neste trabalho lhes damos voz. Uma outra, Laure Junot, atravessou toda a região e apenas conseguiu descrevê-la em três palavras: un bruyère desert1. No entanto, e com uma boa dose de paradoxo, quando chegamos ao fim da leitura dos relatos aqui alinhados, redigidos por indivíduos estranhos ao nosso viver, não é difícil chegarmos muito perto da conclusão de que o retrato saído dessas viagens, onde se revela todo o género de paisagens naturais e humanas, parece não dizer respeito só ao povo e à região de entre o 1
Laura Junot, Souvenirs d’une ambassade et d’un séjour en Espagne et en Portugal (1838).
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Tejo, o Guadiana, a serra de Monchique e o Oceano Atlântico; ele, com muita segurança e numa perspectiva mais profunda, poderá ser facilmente extrapolado, com as naturais diferenças de pormenor, para todo o país luso. É o fragmento a encostar-se ao todo caleidoscópico de que sempre fez parte. As diferenças, as luzes e as sombras, essas foram (e são) privilégio que caiu (e cai) sobre aqueles que por aí andaram (e andam) em modo de descoberta. Para que se chame para o presente o presente que há no passado e nele se medite, aqui se entrega, (in)concluída, uma obra que ninguém encomendou. Quanto a terminá-la, isso é extremamente difícil, talvez até impossível (o passado é perito em ocultar, às vezes ad aeternum). Assim, a única sugestão que é aceitável fazer-se é a de que cada um usufrua a seu bel-prazer daquilo que se conseguiu desenterrar e aqui vir mostrar.
Guia de leitura Na lista de viajantes, a cada nova entrada corresponde a seguinte organização da sua mancha gráfica: Data da viagem | Autor da obra | Título original (ou obra de onde se extraiu o texto) | Casa editora, lugar e ano de edição. Nos casos em que a consulta directa do documento impresso na língua original não foi tecnicamente possível (por estar ainda em manuscrito ou num idioma não dominado pelo tradutor português), é indicada a tradução (em inglês, francês ou espanhol) a que se recorreu, bem como o seu executor. A esses dados sucintos, segue-se uma breve nota sobre o viajante-autor, numa tentativa de se proporcionar aos leitores uma contextualização o mais abrangente possível quanto aos aspectos biográficos, históricos, linguísticos, temporais e outros. Por fim, apresenta-se a tradução portuguesa do texto escolhido, com a indicação, no final, do intervalo de páginas que, no original, correspondem ao texto extraído. 27
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UM GEóGRAFO DO AL-ANDALUz
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Ahmad ibn Muhammad al-Razi Século X Al-Razi, Ahmad ibn Muhammad (888-955) «Crónica del Moro Rasis», in Memoria sobre la Autenticidad de la Crónica Denominada del Moro Rasis, de Pascual Gayangos [Real Academia de la Historia], Madrid, 1850
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A Crónica do Mouro Rasis, nome por que era conhecida, na Idade Média, consistia num manuscrito contendo textos histórico-geográficos relativos ao al-Andaluz, da autoria de Ahmad al-Razi. Foi traduzido do árabe para o português por ordem do rei D. Dinis, no século XIV, tendo depois sido transcrito para o idioma castelhano. O tradutor português foi Gil Peres, auxiliado pelo mouro Maese Mahomad. Continua por identificar o tradutor castelhano. A tradução portuguesa perdeu-se e da espanhola existem vários exemplares com mais ou menos diferenças de conteúdo entre eles. Conseguiu-se, porém, recuperar uma parte da versão lusa já que ela tinha sido integrada na Crónica Geral de Espanha de 1344, mandada organizar por Pedro Afonso, filho de D. Dinis. No texto castelhano que consultámos, verifica-se que a grafia dos topónimos foi toda ela actualizada, gerando-se, com isso, alguma confusão quando, por exemplo, se diz que Beja (já então às portas da Baixa Idade Média) fazia parte do reino de Espanha. No sentido de se pôr um pouco de ordem nesses anacronismos do copista medieval, é indicada em nota de rodapé a toponímia árabe vulgarmente aceite como sendo aquela que estava em vigor na altura em que o geógrafo mouro al-Razi escreveu as suas crónicas (século X) e que o tradutor de D. Dinis deve ter observado quando pela primeira vez olhou o original árabe. No século X, a Península Ibérica estava praticamente toda ocupada pelos muçulmanos, excepto a parte noroeste, onde o reino de Leão se tentava organizar para dar início à Reconquista. O condado portucalense já existia desde os meados do século anterior.
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Beja1 é uma das mais antigas cidades que há em Espanya2 porque foi construída no tempo de Hércules, o Corajoso3, chegando depois Júlio César, que foi o primeiro a medir e a repartir as terras. Os solos em Beja são muito bons para as sementeiras e para criar gado; abundam as colmeias porque há muitas e excelentes flores para as abelhas. As suas águas são óptimas para curtir os couros de todos os animais que há no mundo. Em volta de Beja há castelos que lhe obedecem, um dos quais é Mértola4. Esta povoação está situada na margem do rio Guadiana5, tem um castelo muito velho e há nela vestígios muito antigos. […] e há um outro castelo que chamam Tocania6. […] No seu território existe uma cidade a que os antigos chamavam Ebris e a que agora chamam Évora7. Os limites do território de Beja vão até ao mar e correm por cima de todo o Algarve8. Em Tocania [Ourique?] existe um veio de prata muito boa e muito clara, e os locais ocultaram-no. De Beja p. 54 a Córdova9 são duzentas milhas10. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Bája, em árabe. Embora a designação «Espanya», vinda dos tempos romanos, se referisse, ainda na Idade Média, a toda a Península Ibérica, neste caso aplicar-se-ia melhor a denominação «al-Andaluz». Em uma outra versão castelhana da Crónica, existente na biblioteca do mosteiro de El Escorial, diz-se que Beja «fué fecha en tiempo de Júlio César». Martulá, em árabe. Wadi Ana, em árabe. No exemplar da Biblioteca de El Escorial, em vez de «Tocania», aparece grafado o nome de «Orique», que se aceita como o topónimo actual de Ourique (Orik, em árabe). Yabura, em árabe. Gharb Al-Andalus, em árabe. Qurtuba, em árabe. A milha utilizada era a romana, que corresponde a 1.480 metros.
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VIAGENS MEDIEVAIS E RENASCENTISTAS
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Roger Machado 1489 Machado, Roger (?-1510) «Embassy to Spain and Portugal», in Historia Regis Henrici Septimi, (ed. de James Gairdner) Longman, Brown, Green, Londres, 1858
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Roger Machado foi um dinâmico diplomata ao serviço da monarquia inglesa em finais do século XV e princípios do século XVI, tendo integrado várias embaixadas inglesas a países europeus. Foi numa dessas missões a Portugal e Espanha que escreveu um dos seus admiráveis diários de viagem, que mais adiante se transcreve parcialmente para a língua portuguesa. Muito pouco se sabe sobre a origem de Roger Machado; o apelido Machado aponta para qualquer um dos dois países da Península Ibérica. Estudos recentes adiantam com bastantes certezas que ele pertencia a uma família portuguesa com raízes nos Países Baixos e que se deslocou posteriormente para terras inglesas. Por serviços prestados ao rei, é promovido a altos postos da hierarquia governativa (Norroy King of Arms e Clarenceux King of Arms) Perante a ameaça francesa, Henrique VII sentia necessidade de fazer alianças com os monarcas da Península Ibérica. Para tal, envia, em 1489, uma embaixada incumbida de acordar, em Espanha, o casamento do seu filho, Artur, com Catarina de Aragão, e entregar ao rei português a Ordem da Jarreteira. A comitiva entra em Portugal por Elvas, a 6 de Abril de 1489. Passa por Vila Viçosa, Redondo, Portel, Vidigueira e chega a Beja, onde se encontra D. João II; parte, em finais de Maio, para Lisboa, por Torrão e Alcácer do Sal. A narrativa, como é próprio deste tipo de missões, desenvolve-se muito à volta das individualidades da comitiva e quase nada sobre a paisagem e gentes locais. O manuscrito original, escrito em francês, faz parte da colecção Arundel, à guarda do College of Arms. O tradutor para inglês da edição de 1858 não está identificado.
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E, de Albuquerque1, Richmond2 dirigiu-se a Elvas, distante seis léguas3, para pernoitar. Elvas já faz parte do reino de Portugal, sendo uma bela e bem defendida cidade. Ele chegou a esta cidade a 8 de Abril [de 1489], indo logo falar com as autoridades locais no sentido de serem informadas da chegada dos embaixadores4 e providenciarem o seu alojamento. Tudo ficou pronto para o dia seguinte. Logo de seguida, Richmond enviou um mensageiro com uma carta endereçada ao rei de Portugal5 informando-o de que os embaixadores tinham entrado no seu reino. Isto deu-se a 8 de Abril. No dia 9 de Abril, os embaixadores chegaram à cidade Elvas por volta do meio-dia. Ficaram nesta cidade até chegarem notícias do rei dizendo do seu agrado em recebê-los. Logo que os embaixadores chegaram a Elvas, receberam uma oferta que consistia num carregamento de vinho, cevada para os cavalos, um grande prato de carnes doces e um outro de peixe frito à maneira local; tudo isto acompanhado de um pedido de desculpas por não terem sido recebidos no caminho, pois era hábito que quando morre a esposa ou outro familiar a um cavalheiro, este e os seus parentes mais próximos não saem de casa durante vários dias – e era isto o que tinha acontecido ao dono do presente. 1 2 3
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Cidade da Extremadura espanhola que dista cerca de trinta quilómetros da fronteira portuguesa. Isto é, Roger Machado, o próprio cronista. A légua portuguesa difere de província para província [entre 5500 e 6100 m] mas é sempre superior à légua espanhola, que mede três mil varas (1 vara=1,8m), ou seja, 5.400 m. (Nota do Autor). Em 1855, decretou-se que a légua portuguesa passasse a ser de 5000 m. Embaixadores: Thomas Savage (doutor em leis), Richard Nanfan (nobre) e Roger Machado (diplomata). D. João II (1455-1495).
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Depois de este cavalheiro (que se chamava Rui Dabreu [de Abreu], governador do castelo daquela cidade) ter enviado a oferta, um outro cavalheiro, sobrinho do governador, chamado Leones Pesteuna [Leão Pestana?] (capitão da guarda) enviou também um presente aos embaixadores: vinho e frutos, carnes doces e outros bons produtos. Depois, em nome da própria cidade foram entregues os seguintes artigos: um cesto cheio de peixe, fresco e salgado, vinho, pão, frutos e várias outras coisas em grande quantidade. Os embaixadores permaneceram na cidade durante quatro dias, entre os quais o Domingo de Páscoa; depois da missa, os sarracenos e as suas mulheres dançaram para eles e alguns actores mostraram as suas habilidades. A 13 de Abril, os embaixadores partiram em companhia do oficial da casa real que tinha sido enviado para os levar até ao rei. Eles saíram da cidade conduzidos pelas autoridades de Elvas da maneira mais honrosa possível. Ainda no mesmo dia, eles pernoitaram em Vila Viçosa, que dista quatro léguas de Elvas, no caminho para Beja, cidade onde o rei residia. A essa vila chegou um cavaleiro, enviado pelo rei, que entregou aos embaixadores saudações reais e informando que, como era Semana Santa, e era costume, o soberano se tinha retirado para uma igreja na Quinta-feira, desde a hora do mandatum1, e não sairia antes da noite do dia de Páscoa e só depois da grande missa. Por essa razão, ele achava que seria melhor, para eles, permanecerem em Vila Viçosa do que prosseguirem viagem, pois aquela vila era a mais conveniente no percurso até Beja; no entanto, a decisão ficava inteiramente ao critério deles. Os embaixadores mandaram resposta dizendo que achavam ser melhor partir pois estavam apenas a um dia de jornada do ponto onde o rei se encontrava. O cavaleiro, ouviu o que eles decidiram, e disse que tudo seria feito para seu contentamento. E, assim, todos partiram imediatamente, esperando dormir a três léguas de Vila Viçosa, numa vila chamada Redondo. Os embaixadores foram acompanhados até fora da vila por três fidalgos, filhos de um nobre cavaleiro chamado Aires de Miranda2, escoltados por 1 2
Cerimónia de lava-pés, logo após a Missa da Última Ceia, na Quinta-feira Santa. Alcaide-mor de Vila Viçosa (1430-?).
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Henry Shore 1889-1899 Shore, Henry (1847-1926) Three Pleasant Springs in Portugal Sampson Low, Marston & Co., Londres, 1899
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Henry Shore, barão de Teignmouth, foi oficial da marinha inglesa, pintor aguarelista e viajante muito amigo de Portugal. Na realidade, no último parágrafo do seu livro sobre o nosso país escreve «Portugal foi o primeiro país estrangeiro sobre o qual, quando ainda menino, os meus olhos se abriram». O título do livro fala de «Três Agradáveis Primaveras» mas não se encontra em nenhum lugar dos seus conteúdos a indicação dos anos em que foram realizadas as viagens. É possível situar a viagem ferroviária do autor pelo Alentejo no intervalo de dez anos entre a inauguração da linha para o Algarve (1889) e a saída do livro (1899). A primeira viagem diz respeito a Lisboa e a deslocações pela Estremadura, com uma escapadela a Setúbal. Na segunda, tomando o barco, Shore visita o norte (Porto e Minho), descendo de comboio para Lisboa. A terceira viagem corresponde à sua ida para o Algarve, atravessando, de comboio, a região alentejana. A edição original está enriquecida com postais ilustrados e ainda com desenhos do autor, reproduzindo vistas, objectos de artesanato e até um mapa de Portugal específico para turistas de língua inglesa. Apesar de todos os avanços no plano das infra-estruturas públicas ocorridos durante o século XIX, nos anos finais acentuou-se a luta por ideais republicanos e socialistas, fruto da realidade socialmente desigual entre quem dirigia e quem trabalhava provocada pela Revolução Industrial e pela continuada exploração dos trabalhadores agrícolas.
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[…] o rio e as suas margens são muito iguais ao que eram há cem anos – a mesma imponente cidade «coroada de conventos, torres e palácios» e sobre uma colina «o corpo volumoso do convento de S. Vicente era escuro e solene»; e, ao longe, na direcção de Setúbal, «o pôr-do-sol tingia os distantes montes de Palmela», tal como fora descrito por um viajante de antigamente1. Um breve trajecto levou-nos até à junção para Setúbal2, onde a existência de um buffet atraiu grande parte dos passageiros, com o propósito de tomarem uma das refeições diárias. Ao reiniciarmos a viagem, ficámos aliviados por verificarmos que os ocupantes da nossa carruagem eram apenas três pessoas, para além de nós próprios. A jornada até Faro, embora abrangesse duzentas e dez milhas, iria demorar doze horas, à velocidade de dezoito milhas por hora; mas a excelente carruagem de primeira classe estava fornecida com tudo o que era preciso para a viagem; exceptuando o tédio, o conforto não faltava. Como os passageiros de primeira classe neste percurso eram raros como as andorinhas em Março, os cinco compartimentos que formavam a carruagem proporcionariam amplo espaço para nos estendermos à noite. Os nossos companheiros de viagem eram pessoas ligadas ao ramo do comércio, que, ao saberem das nossas razões e destino, nos olharam com divertida curiosidade, pois, como um deles afirmou, «não há nada para ver até Faro!» A ideia de irmos tão longe para observar «objectos de interesse» ou a paisagem mexeu com aqueles amáveis senhores, cuja necessidade de agra1 2
As citações inseridas neste período são retiradas do livro Italy; With Sketches of Spain and Portugal, de William Beckford, autor incluído neste trabalho. Estação de Pinhal Novo.
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darem emergia daquilo que um velho escritor descrevia como «a total incapacidade de entender os sentimentos que levam um inglês a procurar o conforto na sua terra natal e a empreender, por outro lado, uma longa e cansativa viajem através de um país desinteressante»1. Tendo-nos observado durante algum tempo com um ar de pena, procuraram consolação nos seus sacos de linho cru holandês, comendo sofregamente os alimentos que deles iam retirando, após o qual se retiraram para um outro compartimento para passarem a noite. De facto, havia pouco para contemplar lá fora, pois a paisagem era particularmente desinteressante: uma plana e contínua charneca coberta de arbustos raquíticos e ralos, lutando para emergirem de um chão arenoso, inclinados para todas as direcções, numa paisagem a perder de vista. O Alentejo (literalmente, «para além do Tejo») é a mais pobre e menos populosa província de Portugal; a pouca fertilidade do solo e a falta de água desencorajam todas as tentativas de fazer agricultura, resultando que imensa terra acaba por ser deixada ao abandono, o que, à primeira vista, é um mau procedimento que os homens não têm feito nada para alterar. Vários esquemas têm sido propostos de tempos a tempos para que essa estéril e pobre herança se modifique, deslocando camponeses das zonas mais densas em população, a norte; à falta de outras coisas, pelo menos no Alentejo existe imenso espaço, o que poderia atrair os trabalhadores rurais. Mas até o problema da água estar resolvido, os habitantes do norte fértil não têm aderido entusiasticamente aos programas agrícolas migratórios. E mesmo se o fizessem, restaria ainda o problema do investimento financeiro; é certo que o capital estrangeiro nunca fluirá para Portugal enquanto as finanças da nação forem geridas da forma como estão a ser actualmente. Entretanto, os «ermos campos do Alentejo»2 estão entregues a varas de suínos que mastigam e convertem em toucinho as bolotas das azinheiras e sobreiros; em devido tempo, estes animais são transformados em presunto, que, ao nível do sabor e qualidade, é considerado igual aos melhores do mundo. 1 2
Citação extraída de Portugal and Galicia (p. 269), de Lord Carnarvon, autor incluído neste trabalho. Lord Carnarvon, op. cit.
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Talvez a ideia de esconder a nudez dos campos dos estrangeiros mais curiosos tenha a ver com o facto de a viagem através destas paragens se fazer de noite. Pessoalmente, tenho aversão a deslocar-me de noite por qualquer país, pois por mais desinteressante que seja a paisagem, gosto de recolher algumas impressões do que vou observando; no caso presente, logo que se acaba de atravessar o Alentejo, diz-se que começam a avistar-se maravilhosas paisagens ao longo do percurso, grande parte das quais acontecem à hora em que os braços de Morfeu rodeiam as suas vítimas com mais firmeza. Uma viagem nocturna feita neste clima, porém, tem as suas compensações. O ar, doce e leve, está fortemente carregado de aromas exalados dos inúmeros arbustos aromáticos que abundam nas charnecas silvestres do Alentejo: alfazemas e estevas, que podem muito bem ser chamadas de «as plantas aromáticas portuguesas», para além do alecrim, junípero, murta e de uma longa série de plantas bolbosas que pintalgam a face mágica da natureza. Por sobre a nossa cabeça, os céus começaram a mostrar um esplendor imenso e assombroso, com as estrelas cintilando como diamantes presos a uma tela de veludo. Do mesmo modo, a frescura do ar nocturno era tão agradável, tão tranquilizadora que fomos tentados a deitar a cabeça no vão da janela, durante horas, para ir aspirando todas as fragrâncias refrescantes. As estações ferroviárias eram poucas e muito distantes umas das outras. Fez-se uma paragem interminável nas estações de ligação para Évora e Beja; mas parece que ninguém entrou ou saiu, e havia uma estranha ausência de movimento em todo o lado. A calma que reinava na nossa carruagem só por uma vez foi perturbada durante a noite, e foi assim: em Beja, um velhote lavrador de modos finos – à moda antiga – entrou e sentou-se num canto e adormeceu profundamente até às primeiras horas da madrugada, quando o seu belo sono foi abruptamente interrompido por um intruso de aspecto rústico. Parece que o cavalheiro se esqueceu de dizer ao revisor para o acordar quando chegasse ao seu destino. Por conseguinte, como o comboio já se preparava para sair da pequena estação, às três horas da madrugada, um camponês irrompeu freneticamente em cada compartimento, até que descobriu o homem procurado; agarrou no adormecido, sem uma palavra, e arras363
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tou-o ruidosamente ao longo do corredor; por fim, depositou o corpo na plataforma ainda antes de o velhote se aperceber do que estava a passar. Permanecemos acordados o mais que pudemos, pois seria um insulto à natureza adormecer numa noite tão especial. Mas a natureza não queria que fosse assim, e logo a seguir à meia-noite acomodámo-nos confortavelmente para fechar os olhos. Os homens do comércio ressonavam como se estivessem porcos do Alentejo no compartimento contíguo. Logo que a luz desmaiada do amanhecer começou a encher o céu do lado leste, os nossos ouvidos foram agraciados com sons de coisas vivas; olhando lá para fora, alegrámo-nos por descobrir que as horas de escuridão tinham provocado uma transformação completa no rosto da natureza. pp. 317-321
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