Skip to main content

Luís Pinheiro de Almeida, «Com os Beatles, Caro Jó»

Page 1

P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 2


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 3

Luís Pinheiro de Almeida

com os

Beatles

caro Jó

D O C U M E N TA


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 4

AGRADECIMENTOS Obrigado ao Jó, sem o qual… este livro é dele! Revisão editorial de João Pinheiro de Almeida e Teresa Lage Adriano Mussolin Albino Reis (Bino) Alexandre Pomar António Luís Carlos Alberto Gomes (Nito) Carlos Freire Carlos Machado Vaz Duarte Vilardebó Loureiro Fernando Dias (Nando) Graça Manta Guilherme Carvalho Helena Roldão Hemeroteca Municipal de Lisboa João Pedro Jorge Schnitzer Júlio Heitor Luís Nabais Marcelo Rebelo de Sousa Mário Pinheiro de Almeida Paulo Marques Pedro Castelo Pedro de Freitas Branco Rui Mesquita Rui Pato Vitor Soares Por tudo e mais alguma coisa à minha família, sobretudo aos meus Pais, que tudo me deram e nada me proibiram (nem os cabelos compridos). E, claro, Bairro Marechal Carmona (Coimbra), o meu berço dos Beatles.

P.S. Espero que os meus netos só leiam este livro em idade adulta ou próximo dela.


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 5

Índice

Um símbolo do nosso tempo Marcelo Rebelo de Sousa

7

Caro Jó Luís Pinheiro de Almeida

33

Coimbra, o Bairro, o Gim, o Vitor e os Beatles Vitor Soares

37

As cartas não mentem Pedro de Freitas Branco

43

Biografia

47

Caro Jó (fragmentos)

49

O Gim, o Fidalgo, o Bino… e os Beatles Albino Reis

101

5


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 6

The Beatles I, II, III Júlio Pomar, 1965


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 7

Um símbolo do nosso tempo Marcelo Rebelo de Sousa

Luís Pinheiro de Almeida foi um dos mais destacados colegas da minha turma de 1966, na Faculdade de Direito de Lisboa. Dirigente associativo com vocação liderante, juntava ao seu militantismo político um conjunto de qualidades humanas que o convertiam num bom amigo, num magnífico companheiro de caminhada, num alegre, imaginativo e mesmo endiabrado dinamizador da minha geração. Tinhamos posições muito diversas, então, sobre milhentas matérias, mas unia-nos essa sua personalidade envolvente, sempre disponível para se dar aos outros e buscar a felicidade nas mais pequenas coisas da vida. Uma delas — e que, para ele, era tudo menos pequena — foram os Beatles. A sua vida decorria e decorre ao som dos Beatles. Sabia de cor vidas, obras, viagens, sucessos, dramas, encontros e desencontros, ligações diretas ou indiretas a Portugal. Com o correr dos anos, afastámo-nos nos nossos percursos. Sobretudo até que a Internet, pelo começo do século, o converteu num dos meus mais assíduos interlocutores semanais, quase diários. Acompanhando tudo e tudo comentando com argúcia e sugerindo com ironia. Pude, assim, acompanhar a sofisticação da sua Beatlomania. Que havia passado da paixão ingénua do adolescente a chegar à idade adulta para um misto de teórico e compilador sobre a temática, perseguindo dados, descobrindo pistas, alimentando obras sobre o que já não era um passatempo, nem uma nostalgia de outras eras, antes se convertera num dos centros da sua vida. Pediu-me, agora, que escrevesse duas palavras para introduzir mais um exemplo dessa sua peregrinação musical e mesmo existencial. A mim, pobre mortal, que conheci os Beatles no programa do Jorge Gil e nos discos que o Carlos Alves trazia de Inglaterra para ouvirmos e dançarmos naqueles anos 64 e 65 e 66, se a memória me não falha. E que só em 1989, estive num concerto a solo do Paul McCartney com o meu filho Nuno, em Madrid. Ou seja, eu, ignorante, a introduzir o especialista na matéria… Ainda assim, aqui vão as duas palavras. Uma, para dizer o óbvio. Não poderia nunca recusar o pedido formulado por quem foi responsável por muitos dos melhores momentos dos meus 20 anos. 7


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 8

Mesmo quando estávamos nos antípodas sobre política, estudos, sociedade e vida. A gratidão por esses anos nunca prescreverá. Outra, para confirmar como os Beatles foram um símbolo inesquecível de um tempo essencial para a nossa geração. Cada disco, cada álbum, cada música, cada letra, cada longo debate sobre significados reais ou fictícios, por entre nuvens de fumo — para os fumadores, que eram a maioria, e nos quais me não integrava — e whiskies intermináveis — e, aí, eu alinhava —, cada noitada sem limite de horas a discretear acerca dos costumes, da sua mudança, dos sonhos que vinham a caminho nos anos 70 e 80 — cada instante desses parecia valer por uma eternidade. Não valia. Sabiamo-lo nós, sobretudo os mais crentes nas verdadeiras eternidades. Mas, enquanto durava, unia-nos a todos, mais ainda do que os Stones, os Bee Gees, o Otis Reding, a Melanie, a Baez, e, depois, os Pink Floyd, só para citar alguns. Os Beatles faziam a ponte entre ideários, estratos, origens e destinos. Talvez mais depressa classe média — média e média alta — do que outros, admito hoje. Mas era por aí que andava uma parte apreciável dos universitários dessa Universidade classista de 60 e começo de 70… Aqui vai, Luís, o meu texto. Prometido há séculos. Para te agradecer a recordação de há mais de cinquenta anos. E para te dizer como admiro essa tua maneira de não envelheceres. Encontrando nos Beatles uma forma de continuar a sonhar como sonhavas há meio século…

8


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 9


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 10

Primeira carta (p. 51); Marcello Caetano (pp. 88 e 95); cabeçalhos.


P_LuĂ­s Pinheiro de Almeida_As Cartas do JĂł.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 11

Provavelmente o melhor LP dos Beatles.


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 12

Grande peta (p. 52).


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 13

Boatos, boatos, boatos (pp. 72-73 e 83).


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 14

PSP à caça de guedelhudos (p. 68).


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 2


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 2


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:32 Page 31

Shea Stadium em fita (p. 96).


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:32 Page 32

O autor e Jó. (Imagem de Teresa Lage, 2016).


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:32 Page 33

Caro Jó Luís Pinheiro de Almeida

Os Beatles são a banda sonora da minha vida pessoal e, parcialmente, da minha vida profissional como jornalista. Lembro-me muito bem quando comecei a ouvir Beatles e como comecei a gostar deles. Corria o ano de 1963, o ano do assassínio de Kennedy. Nasci e passei os primeiros 17 anos da minha vida em Coimbra, uma cidade universitária por excelência, sim, mas uma cidade provinciana, bem longe da capital que só o célebre Foguete (o TGV da altura) tornava mais próxima. Filho do meio, fui crescendo a ouvir música. O meu Pai tocava qualquer instrumento: guitarra, piano, violino, e tinha uma razoável colecção de discos, sobretudo de música clássica e também de fados de Coimbra, da qual sobressaía José Afonso. A minha Mãe, mais romântica, preferia os 78 rotações de Francisco José, Tristão da Silva, Tony de Matos e até Amália Rodrigues. O meu irmão mais velho, Mário, estava tocado pelo rock: Elvis Presley, Ricky Nelson, Bill Haley. O caçula, João, ainda não alinhava nestes campeonatos. Anos mais tarde, seria obrigado a comprar os conjuntos ié-ié portugueses, e em boa hora o fez. Até Novembro de 1963, os meus ouvidos estavam na música clássica e em José Afonso, até porque o viola que o acompanhava, Rui Pato, era meu vizinho no Bairro Marechal Carmona e amigo de infância. E quando o Mário colocava no gira-discos os seus rocks, eu aproveitava para «passeios higiénicos» fora de casa. Até que apareceram os Beatles. Eu tinha 16 anos e estava no último ano do liceu. Mas não foi amor à primeira vista. O 1.º EP (Extended Play, disco de vinil com quatro canções) incluía «Do you want to know a secret», «I’ll get you», «She loves you» e «Twist and shout». Ainda era muito barulho para a minha cabeça amestrada na chamada música erudita. Vitor Soares, companheiro de infância e afilhado de abastado padrinho, tinha os recursos que a malta não tinha e juntávamo-nos à sombra de um sobreiro nas traseiras do Bairro, actual Norton de Matos, de volta de um gira-discos portátil, «leitor de vinis» como alguns dizem agora, e com uma mão cheia de discos, Beatles, Rolling Stones, Dave Clark Five, Searchers. Só a exaustão das pilhas nos afastava. 33


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:32 Page 34

O sobreiro ainda existe e, segundo Rui Pato, trata-se da mais velha árvore do Bairro, hoje vive atrofiada entre prédios… tem mais de 80 anos,… sobreviveu a tudo… tudo em seu redor aconteceu… mas continua a guardar silêncio e a dizer: «estejam descansados… eu nunca vi nada». Os Beatles também existem, o gira-discos é que não sei. Mas nem tudo me agradava e mesmo dos Beatles só «Do you want to know a secret» me cativava a atenção. Música simples, linear, que, ainda por cima, servia perfeitamente e se ajustava aos amores juvenis. Foi aí que tudo começou! «Do you want to know a secret» era a declaração de amor perfeita para cochichar: Listen do you want to know a secret / Do you promise not to tell, closer / Let me whisper in your ear / Say the words you long to hear / I’m in love with you. Os Beatles, também eles uns miúdos, tinham essa virtude e talento: cantavam coisas simples para os da sua idade, cativando-os. E assim, desta maneira singela, mas apaixonada, comecei a gostar de Beatles, mesmo das canções «mais barulhentas», interessando-me pelas suas vidas e carreiras. Menos de um ano mais tarde, a minha Mãe, quando estava fora, escrevia-me postais ilustrados dos Beatles, sempre com os mesmos recados: não atormentes os vizinhos com os teus Beatles. Apesar de já não os poder ouvir, já sinto saudades desse barulho. Ou: não toques os teus discos dos Beatles muito alto para não incomodar. Mas nos recados havia sempre uma ternura de Mãe: a Mãe achou que gostarias de ter este postal para a tua já enorme colecção de fotos dos Beatles. Ainda guardo estes «documentos», bem como milhares de outros que fui juntando ao longo de mais de cinco décadas, papéis da infância, da juventude e da idade adulta, abrangendo todo um ciclo de vida. Não mais os Beatles me abandonaram, nem eu a eles. Aos 17 anos, em 1965, vim viver para Lisboa e foi todo um mundo novo que se me abriu. O choque cultural foi imenso e intenso. Sozinho, isolado na capital, com todos os meus amigos em Coimbra, senti-me «exilado» (ainda hoje me sinto). É verdade que a transferência para a capital também me abriu novas perspectivas e novos e mais fáceis acessos à cultura de que beneficiei e que me enriqueceram. Esses anos de «exílio» estão documentados em centenas de cartas que quase diariamente escrevia aos meus amigos de Coimbra, com o registo do que acontecia em Lisboa: discos, rádio, cinema, bailes, jornais, concertos, vivências, tudo! 34


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:32 Page 35

Este acervo, que retrata na primeira pessoa toda uma época, a dos anos 60, foi guardado pelo Jó, futuro músico dos Protões e meu amigo de infância, e só a minha preguiça impediu até agora de ver a luz do dia. Falecido em 2017, este livro é dedicado ao Jó. Sem a sua apaixonante iniciativa de tudo guardar, estas memórias não teriam sido possíveis. Obrigado, Jó. Lisboa

P.S.: Pouco antes de falecer, Jó definiu a nossa relação como «epistolar» (como se prova com este livro). «Éramos amigos de infância, tempos memoráveis, depois foste para Lisboa e a nossa relação passou a ser por escrito, como se estivéssemos a falar um com o outro.» «Em Coimbra não existia informação, Coimbra estava muito longe e tu ajudaste a encurtar a distância.» Outro cúmplice, Rui Mesquita, que com 18 anos, a nossa idade, era o «rapaz da gravata encarnada» do conjunto ié-ié G-Men, com António Pinho (Filarmónica Fraude /Banda do Casaco), lembra agora: «Quando o Jó recebia as tuas cartas convocava-nos para a sua leitura no quarto dele e eram devoradas linha a linha.» 35


P_LuĂ­s Pinheiro de Almeida_com os Beatles.qxp:17x24 29/05/19 16:07 Page 36

O autor e Vitor Soares no sobreiro, o nosso berço dos Beatles. (Imagem de Teresa Lage, 2016)


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 2


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 2


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:32 Page 49

Caro Jó (fragmentos)


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:32 Page 50

em cima: o autor. no meio: Jorge Carvalho (Jó); Rui Pato e Albino Reis (Bino). em baixo: Gina e Titá (as namoradas). (Imagens da época)


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:32 Page 51

Lisboa, 15 de Julho de 1964 Caro Jó Sabes que o 3.º disco de 33 rotações dos Beatles é estereofónico? Deve dar um gozo do «caneco». O meu Pai fez agora aqui em casa a instalação estereofónica. Ficou bestial. Está melhor do que a do Nando, porque a sala dele é muito pequena e não dá o devido efeito. Agora está a cantar outra vez o Cliff Richard. Claro que estou a gravar. É uma nova canção («On the beach») do novo filme que será brevemente estreado em Portugal com o nome de Dançando ao Sol. Em francês o filme chama-se La vie est merveilleuse. A canção é bestial e fala do rock and roll, bossa nova e twist and shout. É bestialmente mexida. O filme dos Beatles em inglês é A Hard Day’s Night, Les quatre garçons dans le vent e em português Os Quatro Cabeleiras do Após-calypso. Estás a ver que fazem umas traduções do caneco. Então a Académica já foi para casa do caralho. Do amigo Gim

E

Lisboa, 24 de Julho de 1964 […] O meu divertimento é ouvir as interpretações francesas das músicas dos Beatles. Já ouvi «She loves you» pelos Gatos Selvagens, «From me to you» pelo Claude François, «Twist and shout» pela Sylvie Vartan. «I saw her standing there» e «I want to hold your hand» também pelo Claude François. Já comprei três discos. Um dos Beatles («From me to you», «Thank you girl», «Love me do», «Please please me»), outro dos Titãs (o «Timpanas», «Menino d’oiro», «Virgem da Nazaré» e «Canção da Beira Baixa») e outro do Georges Jouvin («N’oublie jamais, donne tes 16 ans», «Hully-gully» e «Madison n.º 1»), são porreiros. Também comprei uma revista que traz uma porrada de fotografias. A dos Rolling Stones (a cores), John Rostill (preto), Beatles (preto), Searchers (cores), Four Pennies (preto), Swinging Blue Jeans (preto), Peter and Gordon (preto), Gerry and the Pacemakers (preto), Merseybeats (cores), Applejacks (cores), Mojos (preto) e Dave Clark Five (preto). São todas do comprimento da página […]. A revista é do 51


P_Luís Pinheiro de Almeida_com os Beatles.qxp:17x24 29/05/19 16:32 Page 52

género daquela que tenho e que trazia só as 4 fotografias dos Beatles. Lembras-te dela? Tenho a impressão de que aqui ainda há uma. Se quiseres posso-te comprar. Isto é uma merda. Não tenho puto que fazer. Cheguei no sábado à noite. No domingo fui ao cinema ver o Rio Bravo, na segunda fui ver Leito de Espinhos, na terça Beijo Fatal, na quarta Valentão É Apelido, na quinta Norman Marujo. Olha, tenho os autógrafos dos Beatles. Não leste no jornal? Os gajos passaram aqui por Lisboa. Ficaram dois dias e foram fazer um espectáculo ao Monumental. Eu fui ver. Os caralhos dos bilhetes custaram 35$00 cada um. Mas valeu a pena. No fim deram autógrafos. Tenho os discos todos autografados e no meu livro de autógrafos tenho dedicatórias deles. Foi um show do caralho. Não me digas que não leste no jornal. E quando os gajos tocaram o «Twist and shout»?!! E com caralho!!! Aquilo foi um delírio. À minha frente desmaiou uma gaja. E era boa!! Foi logo para o hospital e não acabou de ver o espectáculo. Gajas e gajos que subiram ao palco começaram aos beijos aos gajos e a puxarem o cabelo. Os cabrões só se riam. O Ringo Starr é um matulão do caralho. Tem um físico e uma altura. É muito mais alto do que o Nando. E afinal os gajos não têm o cabelo tão comprido como dizem. O final das canções é bestial. O George é um putozito de merda. Bestialmente envergonhado. É o gajo que bate as palmas. O Paul é que é porreiro. O gajo dobra-se todo, faz mil e uma coisas. O John antes de começar a cantar disse que não podia fazer muitas cabriolas porque a mulher não gosta e ela estava a assistir. Umas gajas e uns gajos descobriram-na e foram-lhe pedir e ela disse que sim, que o John podia fazer o que queria. E com caralho, aquilo foi de um gajo tarar. Tocaram uma porrada de músicas novas. No fim os gajos disseram que gostaram imenso de Portugal e disseram que já tinham contratos para actuar no mês de Setembro em Lisboa e no Porto e que possivelmente irão a Coimbra e a Faro. Era bestial1. […] E

Lisboa, 25 de Julho de 1964 […] Então não acreditas que os Beatles estiveram cá? É verdade!!! A revista custa 100$00 (menos 1 zero). Se quiseres eu compro-te. Mas tens que me dizer depressa. […] __________ 1 Este último parágrafo era obviamente uma peta. (Nota do autor em 2019)

52


P_Luís Pinheiro de Almeida_As Cartas do Jó.qxp:17x24 27/05/19 09:31 Page 2


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Luís Pinheiro de Almeida, «Com os Beatles, Caro Jó» by Sistema Solar - Documenta - Issuu