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Catarina Rosendo, «Escritos de Artista em Portugal — Histórias de um esquecimento»

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ESCRITOS DE ARTISTA EM PORTUGAL histรณria de um esquecimento


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Catarina Rosendo

ESCRITOS DE ARTISTA EM PORT U GA L histรณria de um esquecimento

D O C U M E N TA


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© SISTEMA SOLAR, CRL (DOCUMENTA) RUA PASSOS MANUEL, 67 B, 1150-258 LISBOA © CATARINA ROSENDO, 2016 fotografias © AUTORES obra reproduzida na capa © ALBERTO CARNEIRO, CANAVIAL

REVISÃO: HELENA ROLDÃO 1.ª EDIÇÃO, DEZEMBRO DE 2016 ISBN 978-989-8834-41-6


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ÍNDICE

Nota Prévia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Introdução. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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capítulo i: Os Escritos de Artista na Historiografia Portuguesa do Século XX Os escritos de artista enquanto fonte documental . . . . . . . . . . . . . . . . O significado da arte e o lugar dos escritos de artista. . . . . . . . . . . . . . A «história da vida artística» de José-Augusto França. . . . . . . . . . . . . .

33 35 41 54

capítulo ii: José-Augusto França e os Escritos dos Artistas Modernistas . Enunciados históricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Crítica de arte. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Teoria estética, 1.ª parte . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Almada Negreiros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Teoria estética, 2.ª parte . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

63 63 71 79 90 108

capítulo iii: Os Escritos de Júlio Pomar do Período Neo-realista . . . . . . Júlio Pomar: depois do neo-realismo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Júlio Pomar e o neo-realismo: estado da arte . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A crítica ao modernismo português . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Contra o literário, por uma plástica das imagens. . . . . . . . . . . . . . . . . A criação de mitos ou o modernismo em estado de menoridade . . . . .

127 127 134 145 162 181

Notas Finais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Índice Onomástico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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índice

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À memória de Rogério Ribeiro (1930-2008)


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NOTA PRÉVIA

Este livro segue, no essencial, a tese de doutoramento que realizei no Instituto de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A tese foi orientada pela Professora Doutora Margarida Acciaiuoli e co-orientada pelo Professor Doutor Bernardo Pinto de Almeida, apresentada em Dezembro de 2013 e defendida a 13 de Fevereiro de 2015, perante um júri constituído por Bernardo Pinto de Almeida, Delfim Sardo, Dinis Cayolla, Alberto Ruiz de Samaniego, Ana Gabriela Macedo, Suzanne Cotter e Margarida Brito Alves. As alterações introduzidas no texto que agora se publica são de pouca monta e dizem respeito, sobretudo, à supressão de redundâncias, à simplificação de alguns enunciados e à actualização da bibliografia com alguns títulos, quase todos relativos a escritos de artistas, que entretanto foram publicados e facilitam o acesso a fontes por mim usadas. Não ter efectuado alterações substanciais não equivale a considerar que, por ora, não há mais nada a dizer sobre o assunto, ou que alguns dos aspectos abordados não beneficiariam com uma análise mais detalhada. Significa, tão-somente, a convicção de que o aprofundamento da investigação e a continuidade da escrita traria novos dados e perspectivas que, no fim, produziriam um outro livro, ainda que afim deste que agora se apresenta. Este trabalho foi possível graças a uma Bolsa de Doutoramento concedida pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia através do III Quadro Comunitário de Apoio do Fundo Social Europeu. Agradeço à minha orientadora, Professora Margarida Acciaiuoli, e ao meu co-orientador, Professor Bernardo Pinto de Almeida, o acompanhamento atento e estimulante que generosamente deram. Deixo também o meu reconhecimento ao Alberto e aos meus pais pela paciência e compreensão com que aceitaram as minhas ausências. Faço ainda um agradecimento especial a Manuel Rosa e à infatigável equipa da Sistema Solar/Documenta, cuja acção editorial tem contribuído, ao longo dos anos, para que trabalhos de âmbito académico ampliem as suas possibilidades de comunicação. nota prévia

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INTRODUÇÃO

Quando iniciei o estudo dos escritos de alguns artistas portugueses do século XX estava longe de pensar que tal implicava encetar uma tarefa que incluía a revisão de alguns princípios nucleares que assistiram à própria escrita da história da arte portuguesa. O objectivo inicial consistia em determinar até que ponto e sob que modalidades era possível encarar os textos teóricos escritos por artistas como contributos para um pensamento sobre as artes visuais, gerado e apresentado no espaço de debate público de ideias que é uma das dimensões do campo artístico, e desdobrados nas várias perspectivas estéticas, plásticas, críticas, contextuais e históricas em que é possível desenvolverem-se. Um dos pressupostos desde logo estabelecidos foi que uma análise à historiografia era imprescindível para compreender o manto de silêncio que, ainda hoje, recai sobre este tipo de textos. O que não imaginava era que esse mesmo pressuposto viria a determinar toda a estruturação analítica do meu estudo, implicando reorientações quer no âmbito cronológico quer nos autores e artistas que foram trabalhados com maior detalhe ao longo deste estudo. A questão que presidiu ao meu interesse por este tema era, na realidade, de uma simplicidade quase desconcertante: «porque é que os escritos dos artistas portugueses do século XX nunca foram estudados?» A questão continha, logo de início, três hipóteses de trabalho que a pesquisa subsequente permitiu corroborar: em primeiro lugar, que a expressão «escritos de artista» delimita, dentro do aparato conceptual ao dispor dos artistas, uma área específica de actuação; em segundo lugar, que os artistas portugueses novecentistas escreveram ou, dito de outro modo, a presença da escrita num conjunto muito apreciável de artistas de referência do século XX verifica-se em quantidade e teor suficientes para enformar um tema de estudo; em terceiro lugar, que esses mesmos escritos nunca foram encarados como um assunto de investigação possível na historiografia portuguesa, ao ponto de nem sequer se ter ponderado, até hoje, a pertinência em efectuar-se a recolha e a sistematização do que de facto existe. introdução

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Foi assim que a segunda pergunta essencial para o desenvolvimento desta investigação surgiu de imediato: «quais as condições de elaboração do discurso historiográfico português do século XX que impediram a cabal assunção da existência dos escritos de artista?» Esta questão introduziu, por sua vez, três grandes eixos analíticos que vieram a revelar-se de extrema utilidade face à enorme quantidade de escritos de artistas portugueses que o decurso da pesquisa ia revelando: desde logo, o enfoque exclusivo em textos de artista publicados na altura em que foram escritos, forma de garantir que puderam ser lidos no momento em que surgiram no espaço público e no interior de uma comunidade artística bem informada e mesmo que relativamente pequena como a portuguesa; depois, o estabelecimento de um contracampo dialogal para os escritos de artista, o qual, face à inexistência destes enquanto assunto de investigação, me conduziu à produção discursiva da história da arte, muito mais do que à crítica de arte coetânea a esses mesmos escritos; finalmente, a delimitação do âmbito cronológico para o estudo, bem como os artistas escolhidos para representar a convicção, que existia deste o início desta investigação, acerca da relevância da produção escrita por parte de artistas para a compreensão e problematização dos debates estéticos e plásticos em curso em momentos particulares dos contextos artísticos. Elencados os princípios gerais que presidiram à investigação, cabe agora detalhá-los melhor nas suas determinantes conceptuais e metodológicas. Desde logo, o significado atribuído à expressão «escritos de artista». Juntamente com «textos de artista» ou «produção escrita dos artistas» (termos a que recorro para evitar repetições e que no essencial significam o mesmo), considero «escritos de artista» os textos com uma vertente teorizadora que são elaborados por artistas, que visam a exploração de conceitos estéticos, que se debruçam com uma intenção crítica sobre temas caros à comunidade artística ou que se detêm sobre as particularidades plásticas de uma determinada proposta estética que, não obstante ser invariavelmente a sua, é-o também de um dado conjunto de artistas, críticos e teóricos de variadas filiações disciplinares. Estes textos podem ser de diversos géneros, como artigos de crítica, ensaios, declarações, entrevistas, conferências, palestras ou prefácios de catálogos; e apoiam-se em vários suportes de divulgação, como a imprensa, separatas de revistas, catálogos de exposição, livros e folhas volantes. Estes géneros e suportes partilham duas características essenciais: a primeira consiste em serem – exclusivamente – textos que foram publicados na altura em 14

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que foram escritos e que surgiram no espaço público no momento em que os seus autores consideraram pertinente o seu contributo para a criação de opiniões informadas acerca de desenvolvimentos decorridos ou a decorrer nas artes visuais. Não se tratou, à partida, de implicar com esta escolha a inferioridade ou o desinteresse de escritos póstumos ou inéditos, mas sim de explorar duas questões associadas ao texto impresso: por um lado, e seguindo as ideias de Edward Said, a noção de que os textos são, em boa medida, «acontecimentos [que fazem parte] dos momentos históricos em que se localizam e são interpretados»1, o que pressupõe a existência de um outro que «transforma a interpretação numa actividade social [que envolve] consequências, audiências e representatividades várias»2; por outro lado, a implicação que daqui resulta de que é necessário, como afirma Pierre Bourdieu, «reconstituir o espaço das tomadas de posição»3 a partir do qual os textos se constroem, circulam e se tornam públicos. A impressão e circulação dos escritos de artista são aspectos que se verificaram, de facto, fundamentais no momento de começar a entender a invisibilidade crítica e institucional destes textos entre os outros profissionais da escrita que formam o campo da arte. A segunda característica essencial que partilham os géneros e suportes enunciados é a seguinte: nos escritos seleccionados para esta investigação, em caso algum a componente plástica é relevante para os conteúdos que os artistas pretendem exprimir e está mesmo, muitas vezes, dependente de factores exógenos como as orientações gráficas que presidem às publicações onde surgem (caso da imprensa) ou as normas vigentes nas casas editoriais sob cuja chancela são dados ao prelo. Mesmo em casos em que os escritos dos artistas são publicados pelos próprios em edições de autor, a neutralidade estilística é um factor quase sempre assinalável, meio de reforçar a importância conferida às ideias, isto é, às palavras e aos argumentos que elas podem gerar. Quer isto dizer que o que interessou na noção de «escrito de artista» foi a sua capacidade para despoletar um tipo de pensamento conceptual, centrado nas ideias, capaz de inscrever uma intenção clara de actuação sem recorrer ao domínio plástico habitualmente considerado exclusivo na intervenção dos artistas. Melhor dizendo, esse domínio plástico apenas interessa a estes textos na medida em que funciona como referente, como assunto sobre o qual se pretende falar a partir da estética, da teoria e de uma problematização geral das imagens, e não como pesquisa plástico-formal desenvolvida na página ou no suporte livro. Ou seja, contra a ideia generalizada de que os pensamentos escritos dos artistas são introdução

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sempre de carácter poético e intuitivo (numa extrapolação de semelhantes caracteres encontráveis nas obras plásticas, os quais funcionam como guardiões da índole imperscrutável e da resistência à análise que as imagens sempre detêm), interessou-me pesquisar o seu reduto reflexivo, sem o qual não me parece possível que o entendimento do mundo e a actividade plástica do artista se possam estruturar de forma coerente e consequente – aspectos essenciais (mas não únicos, é claro) pelos quais a sua obra tem a capacidade de alcançar uma ressonância pública duradoura. No decurso da pesquisa, foram localizados incontáveis exemplos de uma escrita realizada por artistas que cumpriam estes critérios. Sem ambicionar ser exaustiva mas querendo demonstrar como este tipo de escritos percorre todo o século XX português, posso enunciar os seguintes casos: os inúmeros ensaios, bem como palestras e conferências, estas quase todas publicadas na imprensa em altura muito próxima da sua prelecção original, de Almada Negreiros4; a crítica de arte, a escrita de memórias artísticas, o ensaio e a história da arte praticadas em defesa do modernismo ao longo de décadas por Diogo de Macedo5; as conferências sobre arte e questões sociopolíticas e os ensaios de história da arte, por parte de António Pedro6; a esclarecida crítica de arte desenvolvida durante décadas por António Dacosta7; a intensa produção crítica e ensaística realizada por Júlio Pomar durante todo o seu percurso mas, muito especialmente, entre 1942-1953, anos durante os quais procurou as razões plásticas e estéticas da noção de «realismo»8; a crítica de exposições de Fernando de Azevedo, a partir da década de 1940, com a sua particular expressão na cobertura (a partir de meados dos anos 1960), para as revistas Colóquio Artes e Letras e Colóquio Artes, das exposições patentes na Fundação Calouste Gulbenkian, actividade à qual se deve juntar a de prefaciador de catálogos das exposições de outros artistas9; os inúmeros textos de Mário Cesariny, entre críticas de exposição e ensaios sobre arte e literatura, antologiados pelo próprio artista10; as conferências publicadas e os ensaios de Nikias Skapinakis em torno da figuração, da actualidade do modernismo e dos problemas do ensino artístico, e também algumas das suas entrevistas, pelo rigor que, em qualquer situação, este artista coloca nas palavras e no enunciar dos seus argumentos, bem como uma colaboração continuada com artigos de opinião em vários periódicos, entre eles a revista Arquitectura, a cujo corpo editorial pertenceu11; as edições de autor de António Areal, cobrindo ensaios inéditos e uma antologia referente a 16

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várias décadas de produção textual, esta iniciada, tanto quanto foi possível averiguar, em 1957 e desde logo com uma ênfase especial no questionamento das modalidades de formação do pensamento crítico sobre as artes visuais12; a constante produção ensaística de Nadir Afonso na exploração de uma estética idealista que encontra na abstracção geométrica o seu correlativo plástico e visual13; as prospecções ontológicas de Alberto Carneiro em torno das motivações do acto artístico enquanto meio de expressão e ligação com o mundo, numa produção escrita desdobrada em aforismos, pequenas notas, auto-entrevistas, entrevistas, ensaios, declarações e manifestos14; o inquérito radical ao estatuto das imagens conduzido por Luís Noronha da Costa, a partir do seu significado no interior da cultura ocidental e através de referentes cinematográficos15; a crítica de arte culta e contundente realizada por Eduardo Batarda no pós-25 de Abril de 1974, em artigos semanais elaborados para o Sempre Fixe, e a substituição irónica do crítico de arte na elaboração de diversas autocríticas à sua obra e à sua persona artística, publicadas em diversos catálogos das suas exposições individuais16; o caso raro do interesse de Joaquim Rodrigo por uma teoria da pintura de formulação científica17; a produção crítica desenvolvida por António Cerveira Pinto na imprensa, aberta a uma nova conjuntura de globalização das práticas artísticas, a que se juntam ensaios que procuram um pensamento de convergência entre a arte, a filosofia e a ciência18; e, para terminar uma lista que já vai longa, as investigações de Ruth Rosengarten, implicadas numa discursividade teórica de tipo académico à época rara entre artistas, e através das quais foi inaugurada uma relevante releitura da obra de Paula Rego, desvinculando-a do surrealismo a que sempre tinha estado referenciada pela crítica portuguesa e abordando-a a partir das narrativas da alteridade e dos estudos de género 19. Os exemplos enunciados (entre muitos outros)20 pretendem evidenciar, como já referi, uma produção escrita onde é patente a clara intenção de pesquisas teóricas que, não obstante partirem sempre da experiência própria, se constroem como contributos para o modo como a comunidade artística, em cada momento, reflecte sobre os seus próprios meios de fazer e de tornar visível a arte. Quer isto dizer que nesta investigação foi seleccionado um conjunto de escritos enquadrável num critério de fonte primária (propiciadora de significados) e não de obra (no seu potencial significante). Para esclarecer melhor as escolhas que presidiram às investigações, não foram tomadas em linha de conta introdução

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diversas manifestações que apenas se podem enquadrar no conceito «escrito de artista» conquanto se confundam estes com objectos artísticos. Refiro-me, em concreto, a situações como os «livros de artista» (ou «publicações de artista»)21, de que são excelentes exemplos, em Portugal, o livro 15 poèmes au hasard (1935), de António Pedro22, a revista KWY, publicada em Paris pelo grupo homónimo entre 1958-196423, o álbum de Alberto Carneiro O caderno preto (1968-1971)24, o livro de Costa Pinheiro Imaginação & Ironia (1970)25, ou o livro de António Areal Confissão tenebrosa: primeira parte da autobiografia agora em edição ilustrada pelo autor (1971)26. Todos estes casos são caracterizáveis pela presença de factores plásticos e criativos (em suma: artísticos) que estão ausentes das intenções estéticas e teóricas dos escritos de artista, que recorrem à reprodutibilidade para favorecer uma maior disseminação de obras de arte (caso das serigrafias manuais presentes em vários números da KWY), que exploram ludicamente os protocolos inerentes ao suporte livro (caso de O caderno preto e de Confissão tenebrosa) e que, de um modo geral, se configuram como objectos artísticos. É importante realçar que toda a pesquisa preliminar veio confirmar que esta abordagem conjunta dos textos e das obras é a grande linha preferencial dos investigadores que se dedicam ao trabalho dos artistas com produção escrita, o que introduziu dificuldades na convicção inicial de que as palavras dos artistas não servem só para reiterar, confrontar ou contradizer pressupostos plásticos contidos nas suas próprias obras de arte. Nas investigações em que os limites entre o texto e a obra são difusos, há uma quantidade apreciável de trabalho feito, desde logo o conduzido pelo Centre Chastel da Université Paris IV, sob coordenação de Françoise Levaillant, que se insere num domínio de acção da historiografia francesa que, desde finais dos anos 1980, tem vindo a trabalhar espólios documentais de artistas franceses, com vista à sua organização, estudo e divulgação, e sob orientação programática e metodológica dos Arquivos Franceses. Daqui já resultaram diversas investigações individuais, bem como um colóquio internacional subordinado ao tema dos «escritos de artista»27. Richard Hobbs (ligado ao Centre for the Study of Visual and Literary Cultures in France, da University of Bristol) é, por sua vez, responsável por algumas investigações que exploram as ligações entre as obras e os livros de alguns artistas, destacando-se a sua análise de Noa Noa, de Paul Gauguin28. No seu conjunto, e apesar de as suas investigações não apontarem para a relevância de se encarar o potencial actuante dos escritos de artista para lá da própria obra, estes são auto18

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res que colocam problemas pertinentes relacionados com a necessidade de se questionar as pragmáticas funcionais dos escritos de artista (origens, tipos, suportes), bem como os seus fundamentos conceptuais (o que dizem e porque o dizem), os deslocamentos das suas condições originais (correspondência privada, conferências ou inéditos que são mais tarde publicados, por exemplo) e o próprio estatuto autoral dos artistas. Compreender melhor de que forma os escritos dos artistas se encontram cativos das respectivas expressões plásticas (sem possibilidade de problematização fora delas)29 implicou uma atenção redobrada às passagens em que Richard Hobbs se detém na dissociação entre a palavra e a imagem operada por Lessing (no seu Laocoon: an essay on the limits of painting and poetry, de 1766), um dos momentos fundadores da compreensão moderna da especificidade dos meios, que abriria caminho à teoria oitocentista da arte pela arte e mesmo ao reconhecimento semiótico (por parte de Saussure e de Peirce) de que diferentes sistemas de signos (neste caso, a palavra e a imagem) operam no interior de diferentes convenções culturais e denotativas30. Mesmo as teorias pós-estruturalistas, ao efectuarem uma deslocação da «obra» para o «texto» (na qual tudo pode ser enunciado e interpretado a partir das regras da textualidade, desde os objectos às mais diversas práticas sociais e culturais)31, renovaram a compreensão tardo-novecentista acerca da interpenetrabilidade sígnica e significante que atravessa tanto as palavras como as imagens (e que o pós-formalismo greenberguiano de Rosalind Krauss, por exemplo, tão bem explorou). Tal deixou, no entanto, intocado o entendimento acerca do lugar devido aos escritos de artista de vocação teórica, sempre aprisionados à comparação com as obras de arte propriamente ditas e a processos reiterativos que os subordinam a elas e não interessam para além do que delas possam dizer. Finalmente, já a perspectiva analítica sobre a produção textual dos artistas estava estabilizada e a pesquisa de fontes em curso, a publicação de uma monografia sobre este tipo de escritos, por Anna Guilló (artista e professora na Université Paris I)32, permitiu reforçar a noção em uso no presente estudo, através da sua própria tomada de posição em relação ao tema, que é muito clara e em vários aspectos coincidentes com a minha própria. Assim, a autora não entende os escritos de artista como «comparáveis a géneros literários», e faz questão de distinguir entre «artistas que escrevem [e] artistas-escritores» (ou entre «textos de autores» e «textos de escritores»); do mesmo modo, Guilló «[deixa] de lado introdução

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toda uma série de textos escritos por artistas em que a sua ambição se manifesta como sendo a de fazer obra, seja ela literária (romances, poemas) ou plástica (livros de artista, ilustrações)», tendo consciência de que tal implica prescindir, por exemplo, dos álbuns de Francis Picabia, ou da riqueza presente em determinados textos simultaneamente teóricos e poéticos; por fim, a sua perspectiva é a de que «o escrito de artista [é] o lugar de um pensamento distinto da obra» mesmo que a ela possa estar ligado33. Outras perspectivas que definissem melhor a integração dos textos dos artistas nos contextos onde emergem e aos quais pertencem chegaram por via de Kristine Stiles, co-editora e autora do texto introdutório da conhecida antologia Theories and documents of contemporary art, dedicada em exclusivo aos escritos de artista. Os critérios de selecção usados neste livro são mais amplos do que aqueles em uso na presente investigação (nomeadamente na inclusão de tipos de escritos como correspondência e textos híbridos «que ocupam um espaço entre os géneros literário e artístico»34), mas partem de um pressuposto assente na «interacção das forças sociais [e do seu] contributo para a relatividade de sentido»35 que as ideias e as coisas podem ter. Para Stiles, as «estratégias teóricas dos artistas [são] tão instrumentais como as suas obras no desencadear de debates»36 sobre alterações nos paradigmas artísticos, o estatuto do artista na sociedade em que se insere, o questionar do que é a arte e como se desenvolvem as suas práticas, os seus meios e os seus enquadramentos históricos, estéticos e institucionais. A autora salienta o aumento exponencial da produção escrita por parte dos artistas norte-americanos a partir da década de 1960 e verifica de que modo a situação é concomitante com o início da problematização dos modelos interpretativos modernistas, ainda demasiado arreigados a conceitos-chave da história da arte como a centralidade da autoria, o privilegiar da originalidade (e do objecto único) e a superioridade hierárquica da pintura e da escultura no seio das produções culturais37. Mais relevante ainda, é sua opinião que mesmo a proliferação de escritos de artista no decurso das décadas de 1970-1980 não impediu que estes continuassem a «[ser] inquestionavelmente negligenciados, apesar do facto de reforçarem o reexame extensivo das práticas teóricas e metodológicas que a história da arte encetou a partir dos anos 1970»38. Estes argumentos já vinham sendo explorados há alguns anos, por exemplo por Brian Wallis, que também questionou a invisibilidade dos escritos de artista através do evidenciar de uma supressão da narrativa operada pela arte moderna 20

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norte-americana e, sobretudo, pela crítica formalista que sobre ela incidiu39. É nesta linha que Jeffrey Weiss elabora um dos raros artigos que efectua uma leitura dos textos de artista em que a sua relação com as obras de arte surge articulada com o contexto no e para o qual são escritos. Aí, o autor nota como a produção textual dos artistas norte-americanos surgidos a partir da década de 1960 (tais como Carl Andre, Donald Judd, Mel Bochner, Robert Morris, Lawrence Weiner, Sol LeWitt, Robert Smithson e Dan Graham) reflecte uma posição histórica, conflituosa, face ao modernismo, cujas ambições formais são sujeitas, através dos seus textos (e das suas obras), a uma profunda crítica interna e autoconsciente40. Por sua vez, numa colectânea de escritos de artista dos anos 1960-1970, que tem a vantagem de integrar artistas sul-americanos no contexto artístico ocidental (entre eles Lygia Clark, Hélio Oiticica, Cildo Meireles e Julio Plaza, bem como o luso-brasileiro Artur Barrio), Glória Ferreira sublinha a «importância da reflexão dos artistas no campo de debates da história e da crítica de arte contemporâneas [através de] textos que não só se integram à poética de cada obra, mas ingressam no domínio de discurso da crítica e da história da arte»41. Todos estes contributos, mais ou menos recentes, reiteram e reforçam argumentos desenvolvidos por Lawrence Alloway em 1974, naquele que surge como o mais antigo (tanto quanto foi possível averiguar) artigo sobre aspectos teóricos e críticos inerentes aos escritos de artista. Num texto em duas partes publicado na Artforum (e também dedicado aos artistas surgidos no pós-expressionismo abstracto norte-americano), Alloway observa como, desde os finais do século XIX, a literatura sobre arte foi «dominada por artistas, apesar de tal não ter sido suficientemente reconhecido»42. Adianta ainda que o recurso às declarações dos artistas é algo a que a «crítica de arte formalista resiste […] porque as intenções e opiniões individuais contam pouco comparadas com o movimento inexorável da arte “modernista” na sua linha evolutiva»43. Todas estas ideias, relativas quer à necessária delimitação da noção de escrito de artista, quer ao seu entendimento por parte da comunidade de críticos, historiadores e demais teóricos, forneceram a base para partir em direcção à análise das investigações portuguesas sobre o assunto. O panorama não poderia ser mais desolador. Para além de alguns catálogos de exposições individuais em que uma selecção dos escritos do artista é republicada e, em ocasiões muito raras, merece algum tipo de abordagem (que, no entanto, nunca se extrapola da relação texto-obra)44, e para além das diligências que editoras como a Assírio & Alvim introdução

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e a Sistema Solar/Documenta têm vindo a fazer no sentido de publicar antologias e inéditos de vários artistas modernos e contemporâneos, pouco mais existe. Entre o trabalho produzido no âmbito universitário, uma única investigação foi localizada, respeitante a uma tese de mestrado que mal ultrapassa a condição de (um muito incompleto) inventário de textos de alguns artistas e cuja perspectiva teórica é indiscernível45. Finalmente, e sobretudo, as histórias gerais de arte produzidas nos últimos anos46 não dedicam qualquer tipo de atenção aos escritos de artista, tirando referências muito esporádicas à existência de produção textual dentro do corpo de trabalho de alguns artistas, as quais mal chegam a deixar no leitor a sugestão da necessidade do seu estudo. Esta última situação configurou, desde cedo e como já foi mencionado, um problema que merecia uma atenção especial, no sentido em que tal acarretou a percepção de que fazer entrar os escritos de artista na escrita da história implicava entender melhor os motivos pelos quais eles pareciam ficar, sistematicamente, esquecidos ou, na melhor das hipóteses, relegados para um quadro de dependência de subjectividades autorais demasiado específicas para poderem integrar assuntos de investigação mais amplos. Partindo das ideias já apontadas (e que são desenvolvidas contextualmente nos capítulos que se seguem) acerca de modelos interpretativos arreigados a uma crítica formalista que entendeu, durante décadas, a arte moderna como fenómeno eminentemente visual e antinarrativo, e que sobretudo radicou o pensamento artístico a uma expressão confinada aos limites estritos dos meios plásticos, procurou-se então deslocá-las para a conjuntura artística portuguesa e verificar aí a sua pertinência, bem como as suas especificidades. O facto de José-Augusto França ser o historiador da arte mais influente do século XX em Portugal e o autor que imprimiu à disciplina os contornos teóricos e metodológicos que, ainda hoje, se mantêm largamente inquestionados, transformou-o numa das figuras centrais deste estudo e foi a análise crítica ao seu pensamento que, em parte, orientou as perspectivas abordadas nos três capítulos que se seguem e também os limites temporais sobre os quais incide esta investigação. O primeiro capítulo dedica-se, então, ao levantamento da presença dos escritos de artista nas obras dos historiadores portugueses anteriores a José-Augusto França como Aarão de Lacerda, Reynaldo dos Santos, Adriano de Gusmão e João Barreira, como forma de entender melhor a prática da história em curso na primeira metade do século. Entre estes autores, determina-se um recurso a 22

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esses textos enquanto fonte documental de informações factuais. Esta situação é consentânea com várias das orientações historiográficas destes autores, nomeadamente o espírito inventariador que assiste a boa parte das investigações e que as refere sempre ao passado distante, o apego a modelos descritivos tendentes a fazer realçar os «melhores» exemplares artísticos de cada época e a própria inexistência da noção de escrito de artista enquanto campo de problematização teórica e estética – situação em que as opiniões incidentes sobre os textos do artista Francisco de Holanda ilustram a convicção generalizada acerca da inclinação do povo português para o lado prático da vida e para uma correlativa falta de vocação para o mundo das «ideias». O caso de Diogo de Macedo, artista convidado à elaboração da secção modernista de uma das obras de história da arte em apreço, surge como exemplar da tendência dos escritos de artista para a variedade de géneros (memórias, crítica de arte, história, ensaio, entre outras), do interesse declarado em observar as realidades artísticas a partir de uma ancoragem profunda ao presente e de uma ligação informada a debates estruturantes do modernismo, como a arte africana. José-Augusto França é introduzido no final do capítulo a partir dos seus estudos sobre o século XIX, nos quais se detecta uma inflexão no emprego dos escritos de artista com vista à compreensão de uma «história da vida artística» em que aqueles, ainda usados como fonte documental, fornecem contributos para o mapeamento das condições genéricas de funcionamento do campo artístico, desdobrado nas suas múltiplas vertentes ligadas à produção artística, ao ensino, às possibilidades expositivas, à criação de massa crítica e mesmo à formação de áreas de investigação ligadas à história. O segundo capítulo ocupa-se das investigações realizadas pelo mesmo historiador em torno da arte moderna portuguesa presente na sua A arte em Portugal no século XX (1974). A partir da revisão de algumas fontes usadas por José-Augusto França, compreende-se de que modo a construção, por parte de artistas, das primeiras histórias sobre o modernismo português não é explicitada pelo historiador. Tal conduz a um inquérito ao processo de invisibilidade a que os escritos de artista são sujeitos, o qual tem como resultado o reforço autoral das próprias perspectivas do historiador. Este inquérito prolonga-se na análise de textos de crítica de arte elaborados também por artistas. Aqui avalia-se, em particular, o trabalho de décadas de António Dacosta numa cobertura expositiva (sobretudo lisboeta e parisiense) antiacadémica e convocadora de questões estéticas e plásticas essenciais ao entendimento das condições mointrodução

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dernas de produção artística. A estratégia de invisibilidade operada sobre os escritos de artista por França funciona também como propulsora de uma investigação aos conteúdos estéticos que fundamentam as suas opções historiográficas, verificáveis nas escolhas de autores e obras considerados nucleares e, em particular, na função axial atribuída ao surrealismo português na modernização das práticas artísticas e na eleição da figura de Almada Negreiros como referência absoluta para a arte portuguesa novecentista47. Finalmente, a análise comparada dos fundamentos estéticos das abordagens historiográficas de José-Augusto França com alguns ensaios e teorizações conduzidos por Almada Negreiros (sobretudo) no decurso da década de 1930 permite detectar uma compreensão comum da arte moderna a partir dos seus sintomas de «crise» e da ausência de um programa comum (de carácter ético e regenerador) a todas as suas manifestações. O terceiro capítulo concentra-se nos textos publicados pelo artista Júlio Pomar durante o período neo-realista e permite localizar a formação de um pensamento alternativo, comum a vários protagonistas da época, à história narrada por José-Augusto França. Numa primeira parte analisa-se de que modo a produção (escrita e plástica) de Júlio Pomar, desafectando-se do neo-realismo a partir de meados da década de 1950, prossegue ainda assim uma busca textual e visual pelo potencial enunciativo das palavras e das imagens, caracterizando-se o interesse deste artista pelo dizer da pintura como uma condição genérica da sua obra e não como uma reversão dos princípios neo-realistas para o seu trabalho. A identificação de uma primeira história do neo-realismo por si elaborada, bem como os comentários que, nos seus escritos, Pomar realiza à problemática forma/conteúdo em curso na arte neo-realista, são o pretexto para a identificação de um excesso de ideologia política nas abordagens teóricas que, desde sempre, têm incidido sobre este movimento artístico, e de uma correlativa ausência de problematização dos seus pressupostos estéticos e funcionais (mais do que plásticos). Enceta-se, deste modo, a análise à intensa intervenção pública e escrita (sobretudo na imprensa) de Pomar pelo detectar de três grandes problemáticas que as visões historiográficas até aqui falharam em observar. A primeira diz respeito ao esforço conduzido na construção de uma crítica aprofundada ao modernismo português, que integra considerações acerca do estatuto dos artistas na sociedade portuguesa e que se desdobra tanto na avaliação do academismo deixado de herança pelos artistas que integraram as primeiras manifestações mo24

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dernas como na análise ao fundamento ilustrativo que o Estado Novo atribui às práticas artísticas. A segunda relaciona-se com a criação de uma alternativa plástica e, sobretudo, estética, a ambas as situações identificadas. Deste modo, percorrem-se os textos de Júlio Pomar (e pontualmente de alguns seus contemporâneos, como Mário Cesariny e Victor Palla) detectando-se aí todo um labor tendente a construir uma compreensão das artes visuais liberta das suas condicionantes académicas e literárias e potenciadora das qualidades plásticas das imagens. O interesse pelo desenho enquanto campo exploratório das condições plásticas e funcionais da arte, a diluição de fronteiras entre artes maiores e artes menores, as referências teóricas oriundas do modernismo extrapictórico centro- e norte-europeus do entre-guerras e a problematização de uma «integração das artes» muito em discussão na época são aspectos que concorrem para uma reavaliação das práticas artísticas a partir da sua articulação com os contextos socioculturais de que fazem parte, ao mesmo tempo que propõem uma reorientação conceptual e plástica do decorativo artístico que visa a sua emancipação do enquadramento ideológico em que o regime o encerrou. A terceira problemática, finalmente, procura demonstrar que o repúdio das propostas neo-realistas e figurativas pela tendência abstracta da arte moderna não assenta na recusa de experimentação formalista mas sim na estética «metafísica» que lhe preside. Tal implica confrontar o «circunstancial» e o tempo presente, que Pomar considera nucleares nos fundamentos perceptivos que presidem à intervenção artística, com o enquadramento mítico e futuro com que França defende a necessidade da abstracção. Contribui, também, para compreender o neo-realismo, e as várias propostas não directamente realistas a ele associado, como uma espécie de caminho do meio que, entendendo a estética ideal e normativa quer da abstracção quer do regime (cada um nas suas variações sensíveis) como uma perda de referente com a realidade, está fortemente ancorado numa percepção aguda das necessidades da sua própria época e convicto das transformações que há que realizar de modo a que a cultura material (e, dentro dela, as práticas artísticas) possa efectuar uma convergência com as novas subjectividades em formação a partir do pós-guerra. Era impossível terminar este estudo sem uma atenção ao artista responsável por algumas das ideias mais esclarecidas sobre o modernismo: Nikias Skapinakis. O seu texto fundamental, Inactualidade da arte moderna, fornece a ocasião para finalizar os argumentos sobre a relevância dos escritos de artista no tecer da história da arte, visto que tem a rara capacidade de, ao mesmo tempo que é introdução

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um resultado directo do contexto em que surge, dele se destacar numa perspectiva ampla das grandes questões que estão em causa (não apenas na arte portuguesa, mas) na arte ocidental de meados do século. Ao chamar a atenção para uma crítica académica que tenta impor um modelo normativo aos seus objectos de estudo, este texto aborda a necessidade de renovação das ideias em concomitância com as próprias práticas artísticas, implicando com isto a indissociabilidade das teorias e das práticas artísticas no seio do modernismo e, sobretudo, o modo como as interpretações estéticas não devem ditar mas procurar as motivações que assistem às práticas artísticas que emergem nas sociedades de que fazem parte – naquilo que é mais um contraponto aos ideais programáticos defendidos por José-Augusto França. As questões metodológicas que enformaram esta investigação resultam sobretudo da intenção de colocar em diálogo dois tipos de enunciados escritos, com estilos, tempos e propósitos de elaboração distintos – os textos produzidos pelos artistas e a história da arte – mas que procuram ambos uma compreensão dos fenómenos artísticos. É a partir deste confronto que se localiza uma problemática, a da invisibilidade dos primeiros na escrita da segunda, cujas razões se procuram inquirir através de uma prospecção às bases estéticas que necessariamente norteiam a historiografia. No entanto, a simples exposição dessa invisibilidade não serviria, por si só, para justificar o argumento da necessidade de integração crítica dos escritos dos artistas nos pensamentos sobre as artes. Era necessário encontrar um ponto em que ambas as situações convergissem para que, do mesmo modo que o encetar de uma revisão historiográfica surgisse como inevitável, os escritos dos artistas se configurassem como fontes contributivas para o efectivar dessa mesma revisão. Os anos que se estendem do imediato pós-guerra até finais da década de 1950 possibilitam esta convergência, pois é aí que se verifica o processo de consolidação teórica daquele que virá a ser o historiador por excelência do século XX artístico – José-Augusto França – ao mesmo tempo que se assiste a um reforço teórico – através de uma intensiva produção escrita – das opções plásticas contrárias por parte do artista que é considerado como o seu mais qualificado representante, Júlio Pomar, e também de Nikias Skapinakis. De um ponto de vista historiográfico, as teorizações em curso nesses anos em Portugal funcionam no interior de uma espécie de remoinho temporal cujas forças simultaneamente centrífugas e centrípetas parecem atrair e projectar um 26

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conjunto de ideias formuladas noutros tempos e com uma elasticidade surpreendente: em concreto, as ideias desenvolvidas por Almada Negreiros cerca de um quarto de século antes (durante os anos 1920-1930) destilam-se, com ingredientes teóricos de outras origens, na defesa estética do surrealismo e da abstracção que França enceta a partir de finais da década de 1940 e durante boa parte dos anos 1950; por sua vez, esta formulação teórica é central na visão histórica que, também cerca de um quarto de século depois (em 1974), o autor propõe para a arte portuguesa novecentista, através de um nexo causal que, na sua eficácia argumentativa, absorve o futurismo de Almada como se da pedra de fecho de um arco romano se tratasse. É, portanto, uma temporalidade difusa a que este estudo aborda e que se estende por um período muito considerável do século XX, o que serve também para evidenciar o estimulante entrechoque de ideias que, a cada momento histórico, ocorre e contribui para o definir. Por sua vez, a análise aos escritos de artista não teria o mesmo alcance se não se integrassem aí, sempre que necessário, vozes de outras origens disciplinares, nomeadamente da literatura e da arquitectura, como acontece com os contributos de Carlos Queiroz e de Victor Palla, chamados pontualmente à discussão. O objectivo desta convocação prende-se com o facto de estes contributos demonstrarem uma comunidade de pensamento que atravessa diversas sensibilidades autorais e não se confina apenas a pontos de vista subjectivos, ao mesmo tempo que faz extravasar para diferentes âmbitos teóricos (das artes visuais, da literatura, da arquitectura, entre outros) uma mesma intenção transdisciplinar de pensar os nexos estéticos inerentes a uma prática artística entendida em contexto. É assim que, na bibliografia final, se optou por integrar os textos destes autores (e de outros referenciados ao longo dos capítulos) na secção de escritos de artista que sustenta este estudo, do mesmo modo que os livros de artista referenciados se incluem na bibliografia geral por terem servido, antes de mais, para afinar a definição de «escritos de artista» da qual não fazem parte. Finalmente, cabe reiterar que os escritos de artista tal como são entendidos neste estudo não se esgotam aqui. Os eixos analíticos que sobre eles incidiram obrigaram a prescindir, no decurso da redacção, da maior parte das fontes levantadas, sob pena de este estudo ficar reduzido a pouco mais do que um arrolamento descritivo do que existe. Portanto, se é importante referir que abordo apenas alguns dos artistas com produção textual e alguns dos aspectos de todos os que podem ser suscitados pela inclusão dos escritos de artista na historiograintrodução

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fia, tal implica também afirmar que muito fica por fazer. Desde logo um levantamento detalhado do que existe respeitante à arte novecentista portuguesa e, sobretudo, a sua selecção e organização numa edição crítica; depois, a realização de investigações que tragam novos enfoques à história da arte portuguesa a partir dos escritos de artista, bastando para isso enunciar apenas quatro de entre os eixos de investigação possíveis: a função dos textos de Mário Cesariny no alargamento das práticas surrealistas portuguesas dos anos 1940-1950 tal como a historiografia as fixou; a relação dos escritos de António Areal com o processo de implantação e consolidação da crítica de arte nos anos 196048; a produção teórica de E.M. de Melo e Castro na prospecção das condições de «vanguarda» para a arte dos anos 1960 e 1970 (trazendo para a história e teoria artísticas um campo de estudo, a poesia experimental, que tem estado radicado a perspectivas oriundas da literatura); ou os escritos de artista nas décadas de 1980-1990, como os de António Cerveira Pinto, Ruth Rosengarten e Carlos Vidal, num contexto em que o privilegiar dos suportes mais tradicionais, como a pintura e a escultura, e dos caracteres mais expressivos (e menos conceptualizantes) que assistem à produção artística fazem recuar a premência teorizadora da escrita por parte dos artistas. Fica, por isso, aberto o campo à prossecução desta área de estudo.

————————— 1 Edward E. Said, «Introduction: secular criticism», The world, the text, and the critic, Cambridge, Massachusetts, Havard University Press, 1983, p. 4. 2 Edward E. Said, «Opponents, audiences, constituencies, and community», Critical Inquiry, vol. IX, no. 1: «The politics of interpretation», Chicago, Sep. 1982, pp. 1-3. 3 Pierre Bourdieu, As regras da arte: génese e estrutura do campo literário, tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa, Editorial Presença, 1996, pp. 1-3. 4 Ver Capítulo II e Bibliografia. 5 Ver Capítulo I, Capítulo II e Bibliografia. 6 António Pedro, Esboço para uma revisão de valores: conferência, Lisboa, Oficinas Gráficas UP, [1932]; António Pedro, Introdução a uma história da arte, Lisboa, Edição Horizonte – Jornal de Arte, [1947]; António Pedro, Grandeza e virtudes da arte moderna: resposta à agressão do Sr. Ressano Garcia, Lisboa, Sociedade Industrial de Tipografia, 1939. 7 Ver Capítulo II e Bibliografia. 8 Ver Capítulo III e Bibliografia. 9 Nos anos 1940 Azevedo escreve, por exemplo, para Horizonte – Jornal de Arte; mais tarde, a partir de finais da década de 1980, e em simultâneo com a sua colaboração na Colóquio, enceta também a elaboração de artigos de crítica de arte para o JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias. A sua intensa actividade de prefaciador de catálogos de exposição está patente em Fernando Azevedo: um texto – uma obra, coordenação geral de Emília Nadal, Lisboa, Sociedade Nacional de Belas-Artes, Athena, 2012. Sobre o papel desempenhado na

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Colóquio por este artista, ver ainda Margarida Brito Alves, A revista Colóquio / Artes, Lisboa, Edições Colibri, Instituto de História da Arte, FCSH-UNL, 2007, p. 51. Mário Cesariny, A intervenção surrealista [1966], Lisboa, Assírio & Alvim, 1997; Mário Cesariny, As mãos na água, a cabeça no mar [1972], Lisboa, Assírio & Alvim, 2015. Refira-se ainda o conjunto de artigos escritos para o suplemento «Arte» do jornal portuense A Tarde, em 1945 e correspondente ao período em que Cesariny ainda se encontrava ligado ao grupo dos artistas neo-realistas; bem como a série de crónicas que, entre 1975-1978 apresentou regularmente no Jornal Novo. O texto incontornável de Nikias Skapinakis é Inactualidade da arte moderna, Lisboa, Seara Nova [1958], analisado nas Notas Finais deste estudo. As questões aí desenvolvidas são prolongadas em Modernos figurativos portugueses e «L’art abstrait est-il condamné?», separata de Arquitectura, Lisboa, 1959. Em 2010, o artista cruza a evocação memorialista do seu próprio percurso de pintor com o questionar da pertinência do ofício da pintura, em Pintura: inactualidade ou perenidade. Episódios do trabalho de um pintor, Lisboa, Artistas Unidos, Instituto de História da Arte, FCSH-UNL, 2010. Na área das entrevistas, há duas que se destacam: Nikias Skapinakis, «Falando de pintura abstracta. Entrevista com Nikias Skapinakis», Encontro. Órgão da Juventude Universitária Católica, n.º 5, Lisboa, Nov. 1956, pp. 3 e 11; Nikias Skapinakis, Fernando Azevedo, Margarida Acciaiuoli, Kukas, Fernando Pernes, Algumas perguntas a Nikias Skapinakis, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987. Refira-se ainda a sua frequente presença na imprensa, de que se pode destacar a sua colaboração com a revista Arquitectura, que é particularmente activa durante os anos 1957-1963, com participações pontuais a partir da década de 1980. O texto mais antigo de Areal é também um dos mais significativos, apesar de não constar na antologia organizada pelo próprio artista. Trata-se de «Nota sobre processos absoluto e de relação em crítica», Arquitectura, n.º 57-58, Lisboa, Jan. 1957, pp. 26-28. Registe-se ainda o ensaio Estrutura do sentido antecedida por Análise e definição da poesia, Lisboa, Edição do Autor, 1958; bem como a antologia Textos de crítica e de combate na vanguarda das artes visuais, Lisboa, Edição do Autor, 1970. De entre os vários ensaios estético-filosóficos que Nadir Afonso publicou ao longo dos anos, destacam-se La sensibilité plastique, Paris, Presses du Temps, 1958; Les mécanismes de la création artistique, Neuchâtel, Éditions du Griffon, 1970; Le sens de l’art, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983; Universo e pensamento, Lisboa, Livros Horizonte, 2000. Uma selecção abrangente dos seus textos, até então espalhada por catálogos de exposição, imprensa e folhetos, e que inclui alguns inéditos, encontra-se em Alberto Carneiro, Das notas para um diário e outros textos, antologia, recolha, organização e bibliografia de Catarina Rosendo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007. Com os seus textos publicados sobretudo na imprensa (revista Arquitectura, entre outras), nos seus próprios catálogos de exposição e em diversos catálogos referentes aos ciclos temáticos de realizadores apresentados na Cinemateca Portuguesa, alguns dos seus textos estão compilados em Noronha da Costa revisitado, edição de Miguel Wandschneider e Nuno Faria, Lisboa, Centro Cultural de Belém, Edições Asa, 2003. Eu própria já reflecti sobre a sua produção escrita: «Noronha da Costa ou a impossibilidade da imagem», Margarida Acciaiuoli, Maria Augusta Babo (coord.), Arte & Melancolia, Lisboa, Instituto de História da Arte/Estudos de Arte Contemporânea, Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens, FCSH-UNL, 2011, disponível em https://www.academia.edu/652710. Os seus artigos de crítica de arte apareceram no Sempre Fixe (entre 9 de Novembro de 1974 e 23 de Agosto de 1975) e foram republicados no catálogo da sua exposição antológica Eduardo Batarda, pinturas 1965-1998, Lisboa, Centro de Arte Moderna – Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, com a excepção de Eduardo Batarda, «Presença da URSS nas Belas-Artes», Sempre Fixe, Lisboa, 16 Nov. 1974. Estes artigos foram objecto do ensaio de Mariana Pinto dos Santos, «It’s pretty, but is it art?», Intervalo, n.º 1, Lisboa, 1.º Semestre 2005. Sobre a crítica à própria obra, ver, entre outros, a introdução do catálogo que reúne as suas exposições no Centro de Arte Manuel de Brito (Algés, 2009) e na Galeria 111 (Lisboa, 2010): [Sem título], Eduardo Batarda, Lisboa, Galeria 111, 2010. Joaquim Rodrigo, O complementarismo em pintura: contribuições para a ciência da arte, Lisboa, Livros Horizonte, 1982. Ver também Joaquim Rodrigo, José-Augusto França, Pintar certo, Lisboa, Edições Salamandra, 1995. notas

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António Cerveira Pinto colaborou pontualmente no Expresso, na década de 1980, antes de se tornar no mais relevante crítico de arte do jornal O Independente, para onde escreveu, a partir de 1989, durante mais de uma década. Os seus ensaios, por sua vez, encontram-se em, entre outros, António Cerveira Pinto, O lugar da arte, Lisboa, Quetzal Editores, 1989; António Cerveira Pinto, Menos arte, Viana do Castelo, Centro Cultural do Alto Minho, 1993. Ruth Rosengarten, «O pós-modernismo e as artes visuais», Risco, n.º 6, Lisboa, Verão 1987; Ruth Rosengarten, «Pontos de vista: fotografia e feminismo no contexto do pós-modernismo», Revista de Comunicação e Linguagens, n.º 6-7, Lisboa, Mar. 1988; Ruth Rosengarten, «An impossible love: subjection and embodiment in Paula Rego’s Possession», Art History, vol. XXX, no. 1, Oxford UK, Boston USA, Blackwell Publishers, Feb. 2007. Ruth Rosengarten, além de colaborações com revistas de teoria e académicas, fez crítica de arte durante vários anos para o jornal O Independente (desde 1988 e até meados da década de 1990), para a revista Visão (a partir dos anos 1990) e para a revista de artes plásticas Arte Ibérica (em 1988 e em 1999). Ainda sem esgotar a lista: Pedro Oom, Mário Dionísio, Lima de Freitas, Ana Hatherly, E.M. de Melo e Castro, Salette Tavares, António Costa Pinheiro, Álvaro Lapa, Rocha de Sousa, Francisco Bronze, Manoel Barbosa, Leonel Moura, Carlos Vidal, Pedro Cabrita Reis e Rui Chafes; cada um deles com intenções e níveis de problematização diversos subjacentes a uma escrita sobre a arte às quais correspondem, também, modelos de expressão e impactos sobre a comunidade artística variados. Uma outra confusão, ainda mais deslocada, tende a associar a ideia de «escritos de artista» a uma prática artística assente na exploração da escrita, dos signos, de caligrafias e de alfabetos, bem representada na arte portuguesa nos exemplos de António Sena, João Vieira, Ana Hatherly, Salette Tavares e E.M. de Melo e Castro, entre outros. Um dos autores que se deteve sobre questões deste tipo foi Michel Butor, Les mots dans la peinture, Genève, Éditions d’Art Albert Skira, 1969. António Pedro, 15 poèmes au hasard, Paris, Éditions UP, 1935. Livro publicado em Paris que reflecte as teorias dimensionistas (que o autor nesse ano subscreveu em manifesto de autoria colectiva) das possibilidades espaciais e caligramáticas da palavra e da emancipação plástica do texto para fora das linhas da página. O grupo KWY foi constituído por Lourdes Castro, René Bertholo, João Vieira, José Escada, António Costa Pinheiro, Gonçalo Duarte, Christo e Jan Voss. Sobre o grupo e sobre a revista, ver KWY, Paris, 1958-1968, coordenação científica de Margarida Acciaiuoli, Lisboa, Centro Cultural de Belém, Assírio & Alvim, 2001; Ana Filipa Candeias, Revista KWY. Da abstracção lírica à nova figuração (1958-1964), dissertação de mestrado em História da Arte Contemporânea apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2001; Ana Filipa Candeias, «El teatro de KWY, revista experimental portuguesa», Arte Y Parte, n.º 109, Santander, Fev.-Mar. 2014; Catarina Rosendo, Um realismo cosmopolita: o grupo KWY na colecção de Serralves / A cosmopolitan realism: the KWY group in the Serralves collection, Porto, Fundação de Serralves, 2015. Alberto Carneiro, O caderno preto (1968-1971), Porto, Edição do Autor, 1971. Trata-se de uma edição, preparada para também ser exposta na parede, que reúne vários textos e desenhos-projectos para esculturas e instalações realizados durante a pós-graduação em Escultura que o artista frequentou em Londres, organizados numa estrutura livre que joga com as qualidades formais do suporte álbum. Tive ocasião de estudar em detalhe O caderno preto em Alberto Carneiro: os primeiros anos (1963-1975), Lisboa, Edições Colibri, Instituto de História da Arte, FCSH-UNL, 2007. António Costa Pinheiro, Imaginação & Ironia, Lisboa, São Roque, Documenta, 2015. Esta edição vem finalmente suprir o virtual desconhecimento em que até hoje se manteve este livro, cuja única edição era alemã (Imagination & Ironie, Höhr-Grenzhausen, Starczewski Verlag, 1970) havendo uma tradução portuguesa do livro da responsabilidade da Galeria 111 que, pela simplicidade de meios e pela supressão das inúmeras imagens que ilustram a versão alemã, terá sido elaborada como separata do original para o público de língua portuguesa. Imaginação & Ironia é um livro que, entre textos, fotografias e desenhos, integra, de forma lúdica, uma autobiografia que narra a aquisição da capacidade imaginante do seu autor, comentários à mitologia (no sentido barthesiano) da época (objectos, figuras icónicas e intelectuais), diálogos entre universonautas e computadores e uma descrição física e conceptual do projecto Citymobil (1969). António Areal, Confissão tenebrosa: primeira parte da autobiografia agora em edição ilustrada pelo autor, Óbidos, Galeria Ogiva, 1971. Este livro apresenta, em todas as páginas, pequenos excertos narrativos, sem notas


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princípio nem fim e sem correlação aparente uns com os outros, acompanhados sempre da mesma imagem: uma moldura sem nada no seu interior. Dario Gamboni, La plume et le pinceau. Odillon Redon et la littérature, Paris, Les Éditions de Minuit, 1989; Nicolas Charlet, «Les quatre livres de Yves Klein. Fondement existentiel d’une écriture silencieuse», Histoire de l’art, n.º 44, Paris, Juin 1999, pp. 109-121; Françoise Levaillant (ed.), Les écrits d’artistes depuis 1940. Actes du colloque international. Parits et Caen, 6-9 Mars 2002, s.l., Institute mémories de l’édition contemporaine, 2004. Não sendo exclusivamente sobre este artista, Gauguin ocupa uma parte muito considerável do artigo de Richard Hobbs, «Reading artists’ words», Paul Smith, Carolyn Wilde (ed.), A companion to art theory, Malden, Massachusetts, Blackwell Publishers, 2002, pp. 173-182. De que é exemplo, ainda, o número da revista Artstudio dedicado à «arte e às palavras», que se detém sobre a obra de artistas como Kurt Schwitters, o colectivo Art & Language, Joseph Kosuth, Marcel Broodthaers, Jenny Holzer, entre outros. Artstudio, n.º 15: «L’art et les mots», Paris, Hiver 1989; ou a conferência de Michel Butor que ensaia uma compreensão da pintura D’où venons-nous, que sommes-nous, où allons-nous? (1898) de Paul Gauguin a partir dos escritos do próprio artista. Michel Butor, Quant au livre. Triptyque en honneur de Gauguin, Paris, Bibliothèque national de France, 2000. Richard Hobbs, «Reading artists’ words», op. cit., p. 177. Roland Barthes, «De l’œuvre au texte» [1971], Roland Barthes, Œuvres complètes. Tome II: 1966-1973, édition établie et presentée par Éric Marty, Paris, Éditions du Seuil, 1994, pp. 1211-1217. Anna Guilló, «Tous les textes écrits par des artistes sont-ils des “écrits d’artistes”?», Écrits d’artistes au XXe siècle, Paris, Klincksieck, 2010. Anna Guilló, idem, pp. 10-11. A tradução desta citação, bem como de todas as outras usadas neste livro, são da minha responsabilidade. Kristine Stiles, «General introduction», Kristine Stiles, Peter Selz (ed.), Theories and documents of contemporary art. A sourcebook of artists’ writings, Berkeley, Los Angeles, London, The University of California Press, 1996, p. 4. «Preface», Kristine Stiles, Peter Selz (ed.), idem, p. xxi. Kristine Stiles, «General introduction», ibidem, p. 3. Estes três pontos, como bem refere Stiles, foram apontados por Svetlana Alpers, em 1977, num artigo intitulado «Is art history?», publicado na revista Daedalus. Kristine Stiles, Peter Selz (ed.), ibidem, p. 4. Kristine Stiles, «General introduction», ibidem, p. 4. É importante notar que tanto as palavras introdutórias de Stiles como a própria temática da antologia (os escritos de artista) são, em 1996, um dos pontos de chegada de um caminho trilhado pela historiografia norte-americana desde meados da década de 1970, ao longo do qual, e como refere a autora, a incapacidade da história da arte em lidar com os modelos críticos propostos pela experimentação artística das «neovanguardas» definiu um campo de «crise disciplinar» que chegou mesmo a enformar um número temático da revista Art Journal, com artigos de, entre outros, Rosalind Krauss e Donald Preziosi. Na nota editorial da revista, pode ler-se: «a arte não é puramente estética mas tem muitas funções e […] essas funções não são simplesmente periféricas ou mesmo prejudiciais, mas sim uma parte essencial da sua natureza e do seu significado.» Henri Zerner, «Editor’s statement: the crisis in the discipline», Art Journal, vol. XLII, no. 4: «The crisis in the discipline», New York, Winter 1982, p. 279. A esta noção de crise procurou-se responder com a construção de uma «teoria crítica» que recorreu a ferramentas conceptuais e metodológicas oriundas de outras áreas do saber, como a linguística, a filosofia marxista, a psicanálise, a antropologia, o pós-estruturalismo, os estudos de género, as teorias multiculturalistas, entre outras, como salienta Kristine Stiles, ibidem, pp. 4-6. Brian Wallis, «Telling stories: a fictional approach to artists’ writings», Brian Wallis (ed.), Blasted allegories: an anthology of writings by contemporary artists, New York, Cambridge, Massachusetts, London England, The New Museum of Contemporary Art, The MIT Press, 1989, p. 11. Jeffrey Weiss, «Language in the vicinity of art. Artists’ writings, 1960-1975», Artforum, New York, Summer 2004, p. 215. Ver também, do mesmo autor, a recensão crítica à antologia dos escritos de Mel Bochner: Jeffrey Weiss, «The painted word», Artforum, New York, Feb. 2009, pp. 49-50. Glória Ferreira, «Apresentação», Glória Ferreira, Cecília Cotrim (org.), Escritos de artistas, anos 60/70, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2006, p. 9. notas

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Lawrence Alloway, «Artists as writers, part one: inside information», Artforum, New York, Mar. 1974, p. 30. Lawrence Alloway, idem, p. 30. Alguns exemplos são os catálogos de Noronha da Costa e Eduardo Batarda já antes mencionados (notas 15 e 16), além de António Areal, primeira retrospectiva, Lisboa, Centro de Arte Moderna – Fundação Calouste Gulbenkian, 1990, e do volume que colige textos de Álvaro Lapa integrado nas edições associadas à exposição do artista aquando da atribuição do Prémio EDP, em 2004, Álvaro Lapa, textos, coordenação de Anabela Sousa, António Martins Soares, João Pinharanda, Lisboa, Fundação EDP, Assírio & Alvim, 2006. Paula Rito, Teoria de arte portuguesa nos escritos de artistas plásticos dos anos 60, dissertação de mestrado em Teorias da Arte apresentada à Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, 2000. Dirigido ao tema das entrevistas concedidas por artistas, existe ainda o trabalho de Francisco Cardoso Lima, O artista pelo artista na voz do próprio, tese de doutoramento apresentada ao Departamento de Comunicação da Universidade de Aveiro, 2013. Refiro-me, em concreto, a Paulo Pereira (dir.), História da arte portuguesa, vol. 3: «Do barroco à contemporaneidade», Lisboa, Círculo de Leitores, 1995; e Dalila Rodrigues (coord.), Arte portuguesa: da pré-história ao século XX, [Vila Nova de Gaia], Fubu Editores, 2009 (vol. XVIII: João Pinharanda, «O modernismo 1: expressão, estilização, disciplina»; vol. XIX: Bernardo Pinto de Almeida, «O modernismo II: o surrealismo e depois»). Na altura em que a redacção do terceiro capítulo ia já avançada, encontrei o estudo de Ana Rita dos Santos Ferreira Salgueiro, A arte em Portugal no século XX (1911-1961). José-Augusto França e a perspectiva sociológica, dissertação de mestrado em História da Arte – Variante Contemporânea apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Outubro 2012. A sua investigação resulta em algumas considerações com as quais as minhas coincidem – sinal da revisão de que carece a historiografia artística portuguesa – nomeadamente a centralidade que França atribui a Almada Negreiros na arte portuguesa novecentista, a existência de uma história da arte moderna já fixada nos seus parâmetros essenciais antes do interesse de França pelo tema e o olhar ideológico que o autor faz incidir sobre o surrealismo e o neo-realismo. Já antes tive ocasião de abordar este assunto: «A crítica de arte debaixo de fogo: “serviço de utilidade” ou “moral de combate”? O I Encontro dos Críticos de Arte (1967) e os escritos de António Areal», Begoña Farré Torras (coord.), Actas do IV Congresso de História da Arte Portuguesa, em homenagem a José-Augusto França. Sessões simultâneas (2.ª edição revista e aumentada), Lisboa, Associação Portuguesa de Historiadores da Arte, 2014, disponível em https://www.academia.edu/2304466.

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capítulo iii OS ESCRITOS DE JÚLIO POMAR DO PERÍODO NEO-REALISTA

«Criar não é deformar ou inventar pessoas e coisas. É estreitar entre pessoas e coisas que existem, e tal como existem, novas relações.» Robert Bresson, Notas sobre o cinematógrafo, 1975.

Júlio Pomar: depois do neo-realismo Júlio Pomar foi um colaborador assíduo da imprensa cultural até finais de 19531, através da publicação de ensaios, depoimentos, entrevistas (que concedeu e que realizou a outros artistas), crítica de exposições, recensões de livros, entre outros. Títulos como Horizonte, Vértice, A Tarde, Mundo Literário, Seara Nova, Arquitectura, Portucale e Comércio do Porto não esgotam a lista de periódicos que, a partir de 1942, inclui textos seus centrados na exploração de assuntos como o estatuto do artista e da obra de arte, o modernismo português e a arte internacional, o desenho, as artes decorativas e as chamadas artes menores, as políticas expositivas, o público e o ensino artístico. Depois deste período, e até aos dias de hoje, a escrita mantém uma presença assinalável no percurso de Pomar, mas com diferenças notórias. Para este estudo interessam, sobretudo, os escritos realizados até meados da década de 1950, mas afigura-se relevante comentar alguns aspectos da produção textual posterior, não só porque tal permite esclarecer melhor o que individualiza cada um dos períodos, mas também porque possibilita entrever algumas afinidades conceptuais existentes entre ambos. A distinção entre duas «fases» de escritos, uma que decorre do início do percurso de Pomar até 1953 e a outra que se enceta daí em diante, tem dois motivos. Uma prende-se com o primeiro período estar marcado por uma série de preocupações associadas ao neo-realismo, as quais se esbatem à medida que os escritos de júlio pomar do período neo-realista

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a própria pintura de Júlio Pomar vai adquirindo identidade própria. A outra tem que ver com o facto de a interrupção da prática regular de artigos para a imprensa, com o que estes implicam na cobertura de interesses da actualidade artística e na abordagem de temas pertinentes à comunidade de leitores, ser o que permite ao artista lançar-se, gradualmente e através da escrita, na investigação de problemas em redor da sua condição de pintor e do universo da criação de imagens – temas estes que, de resto, estão já presentes na primeira fase, não obstante adquirirem um protagonismo quase exclusivo à medida que os seus textos se vão fixando numa variedade mais restrita de suportes, como os catálogos de exposição. A marca de separação mais evidente entre ambos os períodos é o cessar das colaborações regulares com a imprensa, mesmo que tenha de se contar com uma pouco expressiva série de artigos que, no período de 1968 a 1972, escreve sobre Vieira da Silva, Rossini Perez e Giacometti para a revista Colóquio2. No campo das publicações periódicas passam a ser mais significativos os depoimentos e as entrevistas, estas últimas uma constante sobretudo na década de 1980, altura em que a sua obra granjeia um reconhecimento público para lá do âmbito mais estritamente artístico3. Por sua vez, os catálogos de exposição, as monografias sobre a sua obra e os livros de autoria própria passam, a partir de 1973, a ser o lugar privilegiado para a publicação dos escritos de Júlio Pomar. No primeiro caso, e além de alguns prefácios escritos para catálogos de exposições individuais de alguns artistas4, assumem particular relevância os pequenos textos, poemas ou mesmo cartas que insere nos seus próprios catálogos. É o que acontece a propósito da exposição que realiza, em 1973, na Galeria 111 (Lisboa) em cujo catálogo desenvolve um esquema de fragmentos textuais, comentários e poemas articulados com citações de artistas e autores como John Cage, Mallarmé, João Cabral de Mello Neto, Jacques Lacan, Samuel Beckett, Georges Bataille, entre outros5, ou com a carta a Maria Velho da Costa incluída no catálogo de uma exposição de 19796, ou ainda com as variadas notas diarísticas que misturam registos do quotidiano, memórias do passado e reflexões sobre a pintura7. Este último aspecto é central nas monografias e nos livros que, a partir da década de 1980, começam a ser publicados. Podem destacar-se, para o efeito, dois deles: em primeiro lugar, Discours sur la cécité des peintres, de 1985, cuja primeira edição portuguesa (Da cegueira dos pintores) data do ano seguinte. Trata-se de um livro apenas de texto, da autoria do próprio Pomar, sem imagens para 128

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além da pintura reproduzida na capa (o «retrato» de um macaco perdido nos seus pensamentos). Divide-se em vários capítulos, de teor ensaístico e prospectivo, por vezes aforístico, que se dedicam a pensar a pintura (e a sua diferença da «imagem pintada»), a experiência do corpo do artista na sua relação com a corporalidade das tintas e do suporte, os problemas associados à ideia de representação, o acto de ver, entre outros aspectos, percorrendo diversas referências da pintura moderna (como Matisse, Cézanne ou Bacon) e práticas artísticas como o cinema ou a fotografia. Em segundo lugar, o livro publicado em 1991 por Júlio Pomar, Da cegueira dos pintores, Lisboa, ocasião da exposição «Pomar et la littéraImprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986, capa. ture», no Hôtel de Ville de Charleroi (Bélgica), sugestivamente intitulado Les mots de la peinture, o qual, além da reprodução de obras relacionadas com a literatura (retratos de escritores e pinturas que partem de referências literárias como Dom Quixote ou Blimunda), organiza-se em torno de um núcleo textual que inclui uma entrevista ao pintor (por Marcel Paquet), uma antologia dos seus escritos sobre arte e uma escolha de textos críticos sobre a sua obra. Estes livros espelham bem as motivações que presidem à convivência da escrita com a pintura no interior das preocupações conceptuais de Júlio Pomar no período posterior a 1953: trata-se de uma pesquisa em redor das condições de elaboração da pintura e da relação do pintor com a tela pintada. Ao longo dos anos e de uma forma cada vez mais evidente, os seus escritos começam a centrar-se no processo através do qual, entre o artista e a sua pintura, se produz um debate constante entre questões associadas à imagem, à representação, ao inacabado, ao indizível ou à estruturação sígnica do pictórico. Vale a pena realçar o carácter pessoal e íntimo subjacente a estas reflexões, na medida em que elas dependem da coexistência do corpo pensante do artista e do (in)pensado que os escritos de júlio pomar do período neo-realista

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sempre perpassa na imagem pictórica, e é neste trânsito das ideias para as manchas de cor que as condições objectivas e imaginantes do olhar são investigadas:

Júlio Pomar, Les mots de la peinture, Paris, Éditions de la Différence, 1991, capa.

«Quando uma forma nos surpreende como se acabasse de surgir, não é a forma da forma que está na origem desse brilho, é o seu movimento, e este também não saiu, salvo em parte muito pequena, do movimento que é descrito, mas do gesto que acaba de o inscrever.»8

Os escritos de Júlio Pomar deste período, que foram descritos por Eduardo Prado Coelho como uma «deslumbrante fenomenologia do processo pictórico»9, são percorridos por uma característica que gostaria de salientar: as considerações acerca da importância do texto e da palavra, problema que o artista associa a uma pesquisa dialéctica sobre até onde pode a pintura dizer, enunciar, até mesmo descrever, e sobre o que, na vocação descritiva e enunciadora das palavras, é por sua vez da ordem do irredutível e do imagético. Leia-se o seguinte excerto: «Ainda que [na pintura] me esforce por seguir um plano – o que é raro –, fica sempre a porta aberta para o imprevisto, e este pode então, por vezes, produzir uma espécie de diálogo de surdos que os ecos e reverberações afeiçoam à sua moda. Não se trata de um desdobramento, mas, talvez, de um deixar-andar susceptível de apanhar na armadilha a espessura da palavra, mas também de ser apanhado por ela. A palavra: refugo de sinais, mais do que matéria para sinais. Mantenho a palavra palavra, ainda que se trate aqui da pintura e do seu duplo, a imagem pintada, ou da imagem que nasce do pintado, uma vez visto o pintado; porque já não estou a pintar mas a conversar ou a escrever, e a única forma de não perder de vista este acto é pô-lo em palavras.»10 130

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O texto e a imagem parecem desdobrar-se por processos afins, cada um deles procurando romper a inércia medial do outro, compensando as incapacidades específicas do outro como forma de alcançar a essência do diálogo que o artista estabelece com a tela no acto de pintar: «Na geminação de que resultou este livro, o desenhado e o escrito são só variações, entendendo aqui por variação, não um desenvolvimento, mas a abordagem renovada de um tema único.»11 A escrita pode mesmo adquirir uma qualidade plástica: «A utilização das palavras e as suas injustiças: falo das minhas colagens, e a colagem não passa na verdade de uma pequeníssima operação artesanal, a escrava obediente que, no fim do banquete, paga a conta de vários amos. Recorde-se Max Ernst: não é a cola que faz a colagem. Matisse opta pela denominação “guaches recortados” para acentuar bem a operação, para ele maior, do recorte: a arte de talhar a cor com cinzéis.»12 Note-se que esta afinidade processual da criação da imagem e da elaboração do texto na obra de Pomar não impede a autonomia sígnica de cada um dos modos de expressão: a imagem continua sendo realizada com linhas e cores e o texto com o significado das palavras e a organização frásica intactos. Pelo contrário, escrita e pintura, revolvendo-se cada uma no seu assunto comum (o que são e como se dão a ver as imagens), mantêm a sua individualidade expressiva, sem hipótese de confusão entre uma e outra. Eduardo Prado Coelho, no entanto e na recensão crítica à primeira edição portuguesa de A cegueira dos pintores, encontrou na relação entre os escritos e as pinturas do artista motivo para identificar nos primeiros uma qualidade literária (quer dizer, artística), mais do que ensaística: «Qualquer leitor que seja sensível à dicção de um dizer apercebe-se que Pomar escreve muitas vezes como pinta: isto é, deixa que se desregule, sintáctica ou semântica ou fonologicamente, a cena das palavras, e envolve-se num excesso sem nome a que por vezes se dá o nome de pintura e noutras o nome de literatura. Mas, de certo modo, sempre que a cena passa a ceia, podemos dizer que pintura ou literatura são apenas os nomes arbitrários com que procede a uma partilha provisória de lugares e de poderes.»13 os escritos de júlio pomar do período neo-realista

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A perspectiva de Prado Coelho indica uma via de pesquisa em torno dos textos de Pomar que, ao abrir para o fértil campo das relações entre a palavra e a imagem, fecha-os também numa auto-suficiência que os deixa cativos do universo pictórico do artista através de uma partilhada qualidade estética (literária num caso e plástica no outro), sugerindo que a sua possibilidade de crítica reside nesse movimento circular das duas linguagens num constante processo de tradução (da imagem para o texto e vice-versa, e assim sucessivamente)14. O autor prefere que os escritos sejam susceptíveis de induzir prazer estético (a quem for «sensível à dicção de um dizer») do que conceder-lhes uma capacidade problematizante que extrapole o âmbito da pintura de Pomar e os dimensione num mais vasto e heterogéneo universo de problemas conceptuais e pictóricos que afecta uma comunidade determinada de artistas, ensaístas, filósofos, e outros pensadores. O modo como, na leitura de Prado Coelho, os escritos e a pintura de Pomar reenviam um para o outro num reiterado processo de homologia aponta para a grande dificuldade, já analisada por W.J.T. Mitchell, colocada pelo «método comparativo», o qual acciona uma estratégia de comparação/contraste entre duas entidades (neste caso, a pintura e os escritos de Júlio Pomar) que, pela necessidade de detectar o que as unifica e o que as separa, falha em pensar outras formas de relação15 – no caso vertente a relação da escrita de Pomar com uma sensibilidade, partilhada com muitos outros artistas e autores seus contemporâneos, permeável aos problemas levantados pela arte moderna na sua intenção de desvendar as qualidades do mundo visível. Neste sentido, a analogia dos escritos do artista com processos e intuitos literários arrisca-se a reduzir a uma redundância as pesquisas textuais sobre as condições da pintura e sobre o estimular de uma visão activa que animam os raciocínios de Pomar: «O comércio das palavras: recorro a ele aqui para desbravar a selva do ver, para me aproximar do lado perturbador e perturbado da visão; para desempenhar, portanto, a função da bengala do cego: protegendo a marcha do indivíduo, ajuda-o a afastar-se dos obstáculos em que poderia tropeçar.»16 É particularmente interessante a insistência com que Pomar se refere aos seus textos como uma pesquisa do potencial enunciativo das imagens e, também, do modo como a pintura explora o máximo denotativo das ideias. É esta inter-relação que nos permite estabelecer um fio condutor entre os escritos realizados depois 132

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de 1953 e os anteriores a esta data: a convicção de que as imagens dizem e comunicam sempre qualquer coisa, mesmo que o significado desse dizer tenha sofrido, na obra de Pomar e ao longo dos anos, uma deslocação. Se nos primeiros anos, durante os quais esteve especialmente envolvido com a ideologia e a estética neo-realistas, o artista se preocupou com o que a pintura poderia dizer, a sua desvinculação do movimento é feita na medida em que se intensificou a sua busca do até onde pode a pintura dizer. E, à medida que investigava as condições pelas quais se poderia descortinar a estrutura de sentido da realidade, Pomar entendia que tal não poderia ser feito senão em consequência dialéctica com o próprio acto de pintar. Ao compreender ambos como indissociáveis, a pintura de Pomar conduziu a preocupação inicial pela representação da realidade para uma pesquisa junto dos limites irrepresentáveis do real, do pensamento anterior à sempre insuficiente materialização das suas imagens na pintura ou no texto. É por evolução conceptual e não por ruptura estética que o artista passa das temáticas sociais que tipificam as suas obras até meados da década de 1950 para a própria pintura como o conteúdo da sua pintura, entendida esta como a construção da inteligibilidade que o indivíduo produz do mundo ao situar-se nele, verificando como a figuração dessa inteligibilidade, sendo diversa da representação da realidade proposta pelo neo-realismo, era o que lhe permitia dispensar a auto-referencialidade abstracta própria de investigações afins. O que faz a formulação destas ideias extrapolar do simples domínio de uma auto-reflexão plástica, com as suas causas assentes numa pesquisa de carácter subjectivo (em que o seu corpo é central), é que ela implica um pensamento aberto às circunstâncias em que as dinâmicas da arte (e a criação das imagens) acontecem, não prescindindo para isso de um conhecimento e problematização constantes de um conjunto de factos e conceitos artísticos, estéticos, filosóficos e mesmo literários (para não mencionar uma atenção muito especial ao banal e ao quotidiano17) que o alimentam. Além das inúmeras referências a outros autores e teorias que pontuam os seus textos mais recentes, é nos escritos dos anos 1942-1953 que se encontra esse empenho em construir uma percepção reflectida sobre os fenómenos artísticos ancorada nos seus processos, nos seus modos de visibilidade e nas suas consequências. É com eles, tal como com a prática da pintura, que Pomar vai construindo os sentidos do que entende que é ou pode ser a arte enquanto acontecimento de abertura ao tempo.

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Júlio Pomar e o neo-realismo: estado da arte Nos últimos anos, mercê das sistematizações que a já longa carreira de Pomar começa a solicitar, têm sido publicados alguns artigos em que a vertente plástica do pintor e o seu contexto histórico de emergência surgem acompanhados da leitura dos seus próprios escritos e dos de outros artistas com ideais estéticos e ideológicos afins. A primeira utilização dos seus escritos é feita pelo jornalista e crítico de arte Alexandre Pomar para o primeiro volume do catálogo raisonné do artista, editado em 200418. Alguns anos mais tarde, em 2007, a exposição inaugural do Museu do Neo-Realismo (Vila Franca de Xira) oferece ao seu director e historiador da arte David Santos a ocasião para um novo olhar sobre a produção escrita de Pomar, desta vez articulada com outras fontes escritas do mesmo período19. E, no ano seguinte e no mesmo museu, a exposição «Júlio Pomar e a experiência neo-realista» é o pretexto para um regresso aos escritos do artista, novamente por parte de David Santos20. O mérito de estes materiais aparecerem, por fim, à luz do dia nas análises ao trabalho de Júlio Pomar é evidente. Por um lado, permitem um acesso em primeira mão às ideias e preocupações teóricas que desde sempre acompanham o artista na sua actividade de criação, fornecendo várias pistas para a melhor compreensão desta, e oferecendo também uma via para o entendimento das práticas artísticas e seus níveis de problematização no tempo em que esses escritos foram elaborados. Por outro lado, os levantamentos documentais que têm vindo a ser feitos sugerem que a comunidade artística (sobretudo aquela que se dedica à investigação e à actividade curatorial) tem vindo a sentir a premência de uma releitura das fontes da arte portuguesa de Novecentos, implicando-se aqui uma possibilidade de novos pontos de vista sobre o acontecido, o que nem sempre tem sido alcançado. Textos como os produzidos por estes autores, ainda assim, fornecem as raras leituras sobre os escritos de Júlio Pomar e um útil ponto de partida para o meu próprio trabalho. É com o objectivo de oferecer uma nova luz sobre os textos elaborados por Pomar no período de 1942-1953 que parto, então, para a sua análise. De modo mais concreto, o que me interessa é perceber como o Júlio Pomar dos anos neo-realistas pensou as práticas artísticas do seu tempo para lá da estética e da teoria neo-realistas, procurando verificar a sua capacidade de actuação no interior de uma instituição artística atravessada pelas expectáveis tensões resultantes da 134

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convivência entre registos plásticos ora académicos, ora vinculados à propaganda de Estado, ora ainda apostados na actualização dos seus pressupostos. Apesar disso, e porque esta via de abordagem não deixa de compreender os escritos de Pomar como sendo emitidos a partir de um enquadramento conceptual formulado no âmbito do neo-realismo, tal implica começar por assumir o contributo das suas ideias para a consolidação teórica do movimento, naquilo que é um pretexto para rever as leituras que, nos últimos anos, se têm realizado sobre eles. A pesquisa, suportada em parte nos trabalhos já mencionados, localizou mais de setenta e cinco artigos elaborados por Júlio Pomar no período de 1942-1953, quase todos publicados na imprensa, onde se incluem alguns textos originalmente apresentados pelo artista em conferências e palestras21. O período é balizado pelo artigo «Da necessidade de uma exposição de arte moderna», escrito para o quinzenário cultural Horizonte, em 1942 (quando o artista tem apenas 16 anos e está em processo de transição da Escola de Artes Decorativas António Arroio para a Escola de Belas-Artes de Lisboa), e por «A tendência para um novo realismo entre os novos pintores portugueses», publicado em 1953 em O Comércio do Porto. O primeiro artigo, com a sua proposta de um modelo expositivo emancipado dos salões da SNBA e do SPN22, aponta para a necessidade de uma «Arte Viva» em contraste com a «arte optimista»23, mas vazia, que o artista encontrava nos referidos salões; por sua vez, o segundo artigo dedica-se a uma compreensão global dos acontecimentos artísticos ligados ao neo-realismo que decorreram desde o pós-guerra, identificando os seus principais protagonistas, os seus modos de visibilidade e as suas forças e fraquezas estéticas e pictóricas24. Os dois textos relacionam-se de um modo interessante: onde o artigo de 1942 olha para a frente propondo medidas específicas para dar visibilidade a novas formas de fazer arte, o artigo de 1953 olha para trás fazendo um balanço do que se tinha de facto concretizado. Entre uma inicial prospectiva e uma final retrospectiva joga-se a emergência, consolidação e ocaso do neo-realismo artístico português e, ao mesmo tempo, a emergência e consolidação da obra plástica de Júlio Pomar, bem como o ocaso da sua vinculação pictórica ao neo-realismo. E, a imprimir uma coerência de conjunto aos textos do artista realizados neste período, joga-se também uma leitura completa do seu comprometimento teórico com o movimento. os escritos de júlio pomar do período neo-realista

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Júlio Pomar, «A tendência para um novo realismo entre os novos pintores portugueses», Comércio do Porto, supl. «Cultura e Arte», Porto, 22 de Dezembro de 1953, p. 6.

Ainda no que se refere ao artigo de 1953, importa identificá-lo como a primeira história crítica do neo-realismo25 que, à imagem do que sucede em períodos anteriores, é elaborada por um artista. O seu objectivo é, também aqui, organizar, esclarecer e justificar os seus principais acontecimentos, com uma eficácia tal que, mais tarde, a sua leitura virá a estruturar a história aceite do movimento26: os prolegómenos localizados no caso isolado de Abel Salazar; o desenvolvimento inicial associado à literatura e à crítica literária afectas ao Novo Cancioneiro dos anos 1930; a emergência do «realismo social» nas artes plásticas no imediato pós-guerra a partir da influência da pintura e do muralismo sul-americanos; o trabalho de Manuel Ribeiro de Pavia e a boa recepção crítica27 que a «corrente» adquiriu a partir da II Exposição Geral de Artes Plásticas (SNBA, 1947); alguns aspectos 136

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teóricos e sobretudo estéticos ligados ao neo-realismo; e mesmo os primeiros sinais de deriva plástica do movimento já patentes na referida exposição de 1947. David Santos, no texto de catálogo da exposição Júlio Pomar e a experiência neo-realista, defende o artista como o «grande ideólogo do neo-realismo artístico»28. Para o efeito, Santos percorre alguns dos seus artigos com mais significativa intenção realista, com destaque para os elaborados entre 1945-1947. «Da necessidade de uma exposição de arte moderna», «Caminho da pintura», «Nota sobre a arte útil», «Pintura e realidade», «O pintor e o presente», «A arte e as classes trabalhadoras», «Realismo e acção» e «A tendência para um novo realismo entre os novos pintores portugueses» 29 são alguns dos artigos usados pelo autor que, só pelos seus títulos, sugerem o âmbito temático em que se inscrevem e um percurso teórico de comprometimento político-estético com vista a uma transformação artística articulada com mudanças na esfera social. A leitura de Santos, apoiada em citações do próprio artista, tem como pressuposto que, «[p]olemizando em várias frentes e publicações, do Mundo Literário à Seara Nova, ou de A Tarde ao Comércio do Porto, Júlio Pomar investia tudo, nessa altura, num enlace comprometido e politizado entre a vida e a arte, estabelecendo prioridades entre o “combate” de uma “arte útil”, na “marcha do progresso” e a favor da “cultura vindoura”.»30 O texto oferece uma compreensão da evolução das convicções neo-realistas de Pomar. Seguindo as palavras de Santos, elas partem da «exigência de um compromisso social por parte dos artistas» e do seu necessário «alinhamento com a acção concreta», nomeadamente através de um «combate por uma arte empenhada no devir histórico»31 que terá no suplemento cultural «Arte» do jornal portuense A Tarde, coordenado por Júlio Pomar entre Junho e Outubro de 1945, algumas das suas mais lapidares definições. Santos realça nos artigos de Pomar para o suplemento a construção de um «paradigma estético de um realismo social interventivo»32, que passa pelo «afirmar [de] uma arte social atenta ao lugar e ao tempo presente [em contraciclo com a] “mistificação” e “independência” de toda a arte que buscava uma certa espécie de intemporalidade nos caminhos da abstracção [que se estendia ao] próprio homem»33 e que se inspirava (em parte e com um sucesso em solo português muito relativo34) na «comunicação colectiva que representava todo o muralismo mexicano»35 e no «“humanismo” anunciado pelos ventos do pós-guerra»36. os escritos de júlio pomar do período neo-realista

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O ímpeto ideológico de Pomar não deixa, ainda assim, de identificar vários dos problemas que assistem a uma plena implantação da sensibilidade neo-realista no campo de uma prática artística entendida como cultura de intervenção. Santos percorre, para esse efeito, a convicção do artista acerca das «limitações» impostas pelo «atávico analfabetismo que afastava o povo da produção cultural mais erudita» e que complicavam as ambições neo-realistas de «desmistificação da arte e do seu pretenso elitismo»37. O sentido crítico que sempre assistiu a Pomar condu-lo também a uma «progressiva consciencialização […] sobre os limites do próprio movimento neo-realista», o que o leva, em 1953, no já referido artigo de O Comércio do Porto, a «apontar algumas das [suas] principais fragilidades»38. Estas associam-se a dois factores: por um lado, uma certa tendência lírica e formalista que a partir de finais dos anos 1940 se instalou na pintura neo-realista, e à qual o próprio Pomar afirmou ter em parte sucumbido; por outro lado, o apertar das malhas da repressão política que, a partir de finais da mesma década, fez cair por terra as expectativas de democratização do regime. Vejamos o balanço de Pomar nas suas próprias palavras: «Quais as razões [da] fragmentação [do neo-realismo]? Sem dúvida que ela não foi ocasional. Sem dúvida que a tendência não podia ter uma coesão sólida, dada a pouca idade e as consequentes insuficiências ideológicas e inexperiência prática da maior parte dos seus cultores. Mas sem dúvida, também, que as razões se devem procurar mais longe, na evolução dos acontecimentos da vida portuguesa, no cair das ilusões que uma interpretação apressada das consequências da II Guerra Mundial ajudara a criar. Entre aqueles que se afirmavam dentro dos princípios da corrente, alguns perigosos caminhos começaram a desenhar-se. Um lirismo, complacente, tende a substituir a agressividade dramática das primeiras tentativas. A procura de soluções formais começa a sobrepor-se ao vigor de conteúdo; e isto não reflecte senão um alheamento dos problemas realmente vivos. Boa parte do que pintei nos anos de 49 a 51 oferece tais características […].»39 Estas ideias merecem alguns comentários, mas para isso é preciso ainda juntar à perspectiva que Santos nos apresenta acerca da militância neo-realista de Pomar uma outra que procura evidenciar, no mesmo artista e para o mesmo período, uma identidade autoral construída através de uma relação com o movi138

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mento que dele se torna cada vez mais independente. Essa perspectiva deve-se a Alexandre Pomar que, num dos textos assinados para o primeiro volume do catálogo raisonné do pai, relaciona os dados biográficos necessários à compreensão da formação plástica e ideológica de Pomar com um contexto, balizado nos anos 1945 e 1953, definido pela emergência de um ambiente cultural politizado antagónico ao regime, no imediato pós-guerra, e a consequente repressão governamental exercida, sobretudo a partir de 1947-1948, altura em que «a urgência dos temas de agitação revolucionária vai dar lugar a uma reflexão mais centrada no “ofício”»40. O seu ponto de vista realça, nos primeiros anos de actividade de Júlio Pomar, uma construção ideológica do neo-realismo pictórico mais feita pelo lado da estética do que da política, ou seja, formada contra o «naturalismo provincial» e a «modernização mais ou menos cosmopolita» promovida pelo SPN/SNI41 e numa «procura de modernas linguagens plásticas que não reconheciam antecedentes directos na produção nacional»42. A pintura e os textos de Pomar procuram, deste modo, um caminho por entre a defesa da «responsabilidade social do artista»43 e a «recusa dos esquematismos ideológicos»44, ambos coincidentes com o reconhecimento, à época, do seu trabalho como o mais esteticamente relevante da sua geração (entre outros, por Mário Dionísio e Ernesto de Sousa45) e com um empenhamento político conducente a reveses como a prisão (em 1947, pelo seu envolvimento no MUD Juvenil) ou a destruição dos frescos que realizou para o Cinema Batalha, no Porto, por ordem das instâncias oficiais (em 1948). Neste sentido, e para Alexandre Pomar, a aquisição de uma consciência plástica e pictórica com contributos do pensamento estético realista faz-se, em Júlio Pomar, com uma essencial noção acerca da importância do «trabalho do pintor como uma pesquisa pessoal» que acabará, ao fim e ao cabo, por individualizar a sua produção no interior do conjunto das propostas neo-realistas. Como escreve Alexandre Pomar, «[n]os textos de intervenção estética que Pomar publica desde 1945, […] é atribuída prioridade à defesa da responsabilidade social do artista e à ambição de uma “arte francamente popular, esclarecedora e construtiva”, que faria da arte neo-realista “uma arte do povo, pelo povo e para o povo” […]. No entanto, [a] recusa de autoridade de todos os papas e o entendimento do trabalho do pintor como uma pesquisa pessoal e vivida são constantemente reafirmados em artigos que contrariavam a fixação do novo realismo os escritos de júlio pomar do período neo-realista

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social que então Pomar procura nas regras de um estilo ou na mera prioridade dos conteúdos “humanistas”.»46 As leituras de David Santos e Alexandre Pomar favorecem um entendimento dos anos neo-realistas de Júlio Pomar em que este ora surge como o ideólogo por excelência do movimento, ora como um autor cujo processo de individualização exige um afastamento do dogma neo-realista. No entanto, para melhor apreciar o alcance de alguns aspectos do pensamento do artista, presentes nos textos de 1942-1953, afigura-se necessário não só resgatá-los do grande caldo neo-realista no qual eles foram elaborados, como evitar, no extremo oposto, o enaltecimento do seu estatuto único e da sua originalidade emancipada do movimento. Uma compreensão mais adequada da questão colocará, porventura, o artista no cerne, em primeiro lugar, das suas próprias dúvidas e, em segundo lugar, das grandes questões que as condições socioculturais vigentes no seu próprio tempo levantavam. Recupere-se, para o efeito, a citação de Pomar que atrás ficou sem comentários: «Um lirismo, complacente, tende a substituir a agressividade temática das primeiras tentativas. A procura de soluções formais começa a sobrepor-se ao vigor do conteúdo; e isto não reflecte senão um alheamento dos problemas realmente vivos.» Esta ideia ecoa aquela que é, ainda hoje, a formulação por excelência da estética neo-realista, a de uma adequação plástica entre formas e conteúdos que, em benefício da explicitação destes últimos, manteria os modos de expressão sempre nos limites do legível em prol de um objectivo maior, extrapictórico, condensado na «tendência histórica progressista»47. Trata-se, como é sabido, de uma noção definida em 1939 por Álvaro Cunhal, o jovem desenhador e político na clandestinidade que, a partir de 1961, se torna secretário-geral do (então ilegal) Partido Comunista Português e vem a ser uma das principais figuras da política portuguesa do século XX. O interesse em destacar a ideia formulada por Pomar em 1953 serve para sublinhar a sua adesão diligente à relação antitética entre forma e conteúdo, pelo que esta é uma noção operativa apenas e se enunciada a partir do ponto de vista da ortodoxia neo-realista. No entanto, se deslocarmos o ponto de vista para a estrutura dos pensamentos sobre arte de Pomar, percebemos como era conflituosa a relação do artista com a questão forma/conteúdo e não teremos então dificuldades em encontrar exemplos que questionam, e mesmo contradizem, o comentário anterior. Nesse mesmo ano de 1953, escreve: 140

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«Houve um tempo em que desprezei certos assuntos? Erro meu. O assunto não é o conteúdo, é um pretexto, e mais nada. O conteúdo é a síntese dialéctica entre o tema e a experiência pessoal e vivida do artista. Ela manifesta-se na forma, vive nela, é exaltado por ela.»48 Portanto, nem um formalismo cuja carga amaneirada amacie o que a pintura pretende dizer, nem uma coarctação de conteúdos que contrarie a intenção expressiva do artista. Note-se como aquilo que, em anos posteriores, Pomar não terá dificuldade em definir como uma relação dialéctica que depende simultaneamente do pintor, do que está à sua volta e das possibilidades enunciadoras dos meios (corpo do artista incluído), já se encontra nestes textos do período neo-realista. Aqui, nestes anos compreendidos entre 1942 e 1953, o problema forma/conteúdo é menos vezes abordado do que a consonância de Pomar com o ideário neo-realista poderia fazer pensar. E, quando tal acontece, é-o quase sempre de modo elíptico ou através de um intencional desvio da sua formulação canónica. A sua afirmação mais directa e acabada sobre o assunto é a de que «[f ]orma e conteúdo são elementos só artificialmente separáveis»49. Numa única ocasião encontramos o artista a dirigir-se, para o contradizer, ao axioma tal como formulado em 1939: «Numa obra de arte, fundo e forma são inseparáveis; creio que não será arriscar muito dizer que a intenção, o fundo, a história, ou como lhe queiram chamar, é sempre servida pela forma que merece. Não há “altas intenções” metidas em “formas pobres”, nem pelo contrário “formas ricas” vestindo “pobres intenções”.»50 Pomar descarta qualquer ideia preconcebida a propósito da primazia de uma ou de outro no fazer da pintura, e propõe-se mesmo esvaziar a questão, ao criar entre ambos os termos uma mútua dependência em que o conteúdo é a resolução plástica das formas pintadas e a forma é o assunto vivido que se pretende exprimir pela pintura. Talvez o sinal mais evidente desta sua posição seja a ausência de qualquer referência, no artigo para O Comércio do Porto, ao texto que Álvaro Cunhal escreveu em 1939 sobre a dependência das formas aos conteúdos. Ou seja, o que caracterizámos como uma primeira história do movimento neo-realista não os escritos de júlio pomar do período neo-realista

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Júlio Pomar, «Pequena nota sobre o fundo e a forma», Portucale, Revista de Cultura, n.º 23-24, Lisboa, Set.-Dez., 1949, capa, p. 240 e imagem [s.p.]. Na página seguinte: imagem [s.p.] e p. 241.

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menciona aquele que a hermenêutica historiográfica sempre considerou um dos textos fundadores do seu ideário estético e plástico, desde logo através de José-Augusto França51. Ainda em anos recentes, David Santos, apesar de considerar que, ao contrário do que se passava no campo da literatura, a formulação de Cunhal «não colhia […] tantos adeptos entre os artistas plásticos»52, não deixa ainda assim de localizar os modelos teóricos fundadores para as artes visuais em textos do escritor Alves Redol e do já referido Cunhal, nem de analisar as obras neo-realistas a partir da maior ou menor observância daquela noção desde logo estabelecida como uma ortodoxia. A origem literária e teórica do neo-realismo serviu (e continua a servir) para imprimir à sua «versão» artística uma espécie de selo de qualidade e de autenticidade, o que se desdobra em duas ou três razões de fundo: em primeiro lugar, porque esta ideia perpetua o característico «logocentrismo das sociedades ocidentais»53, por entre o qual as artes visuais procuram abrir o seu caminho próprio; em segundo lugar, porque se relaciona com a bem-sucedida implantação da literatura neo-realista em Portugal desde os anos 1930; em terceiro lugar, pelo replicar do modelo de instauração do realismo socialista (no contexto os escritos de júlio pomar do período neo-realista

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do Primeiro Congresso de Escritores Soviéticos, em 193454), ao mesmo tempo que esta última, junto dos seus detractores, serviu (e ainda serve) para salientar a sua identidade mais ideológica e política do que estética e plástica – aspectos interligados que fomentam uma colagem excessiva ao exemplo soviético e secundarizam, ou mesmo tendem a anular, outras influências externas como, em particular, a arte regionalista e realista norte-americana55. Tal tem servido, também, para fomentar uma reiterada ignorância em torno da atenção que vários artistas conotados com o neo-realismo, e desde logo o próprio Júlio Pomar, fizeram incidir sobre alguns problemas artísticos do contexto português, nomeadamente a compreensão e a prática do modernismo em Portugal desde a sua emergência até à sua absorção pelas políticas oficiais. Em sentido inverso (e circular), a ênfase na origem literária e teórica do neo-realismo reforça, na intenção de sobrepor os conteúdos às formas, uma lógica em que à pintura cabe a ilustração de ideias previamente definidas. Tal fortalece ainda mais o carácter ideológico do movimento e talvez seja por isso que ainda hoje são correntes ideias como a de que a «intensa politização da prática artística foi a consequência mais relevante da actividade dos neo-realistas»56. Daqui resulta também que a compreensão do movimento continue permeada mais de intenções morais – expressas em termos como «humanismo renovado»57, «denúncia social»58, «desejo de luta»59, «arte mais generosa»60, «“arte útil” acessível às massas»61 – do que verificada nos seus resultados plásticos e funcionais. É esta a lógica que faz, nos textos de Pomar deste período, destacar os termos e as noções que se adequam a uma sensibilidade neo-realista, deixando outros, que apontam para os problemas presentes na instituição artística portuguesa como um todo, na sombra. Isolei dois desses problemas, cujas vias de resolução procurarei compreender com o auxílio dos escritos de Júlio Pomar. O primeiro perspectiva uma reformulação dos sentidos da arte a partir da constatação da deriva académica e do comprometimento dos artistas com a arte oficial (e oficiosa) das décadas de 1920-1940. O segundo pugna pela promoção de uma abordagem antiliterária aos fenómenos artísticos que passa pelo evidenciar da essência plástica das imagens e pela defesa de uma constante pesquisa dos meios. Inerentes a ambos os problemas, são também desenvolvidas questões como o papel da crítica de arte, a reformulação do estatuto do artista e a importância da transversalidade disciplinar das abordagens artísticas às necessidades contemporâneas. 144

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Sendo a análise à produção escrita de Pomar norteada por estes enunciados, o recurso aos seus textos não será exaustivo nem cronológico, como já aconteceu no capítulo anterior com os escritos de Almada Negreiros. Cabe também observar que destacar as ideias de Pomar do fundo neo-realista em que elas têm sido averiguadas não implica deixar de as entender como interventivas nem, muito menos, carregadas da ideologia que o artista, intencionalmente, lhes imprimiu. Mas, em vários aspectos, as opiniões e os conceitos desenvolvidos pelo artista nos seus escritos do período de 1942-1953 ultrapassam em larga medida aquilo que a teoria e a historiografia fixaram como pertencente ao universo da ideologia neo-realista; outra hipótese, talvez mais acertada mas que fica apenas sugerida, dado que ultrapassa o âmbito deste estudo, é o próprio neo-realismo precisar de ser revisto nos seus princípios estéticos fundamentais e, sobretudo, nos argumentos interpretativos que sobre ele têm recaído.

A crítica ao modernismo português A crítica de exposições ocupou uma boa parte dos artigos de imprensa que Júlio Pomar escreveu na altura. Neste domínio, a variedade de assuntos vem corroborar que a construção de uma sensibilidade neo-realista não se fazia num regime de isolamento em relação ao contexto de que fazia parte. Pelo contrário, há uma realidade detectável nos textos do artista que é a do meio artístico onde o seu próprio trabalho plástico procura desenvolver-se, atento à arte que se produz, à sua recepção crítica e aos consumos que dela se fazem. Além dos artigos de crítica que elabora sobre as Exposições Gerais de Artes Plásticas (sempre numa perspectiva de aferição dos resultados alcançados)62 e artistas ligados ao neo-realismo ou a ele interessando (Abel Salazar, João Hogan, Lima de Freitas, Jorge Vieira, Júlio Resende, Augusto Gomes, José Júlio)63, é importante realçar a atenção dedicada às grandes exposições de artistas modernistas de gerações anteriores (como Dordio Gomes, António Soares e Tom)64, ao naturalismo académico (o de Henrique Medina, por exemplo)65, às iniciativas artísticas do SNI (em particular as consagradas à cerâmica)66, às recentes propostas modernistas que saíam fora do âmbito estético neo-realista (como as apresentadas nas portuenses Exposições Independentes)67 e à arte europeia que era possível ver-se os escritos de júlio pomar do período neo-realista

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Júlio Pomar, «A propósito da exposição independente em Lisboa», A Tarde, supl. «Arte», n.º 1, Porto, 9 de Junho de 1945, pp. 3-4.

em Portugal (entre outras, pintura francesa do século XIX até à actualidade e pintura britânica do século XIX)68. Uma questão que ocupa parte destes artigos é o modo como Pomar entende a actividade crítica que se desenvolve na época e qual o papel que os artistas da nova geração aí podem desempenhar. O artista detecta a existência de um círculo vicioso que encerra o naturalismo académico, o público e os comentários artísticos numa profunda ignorância quanto aos modos de ver: «[…] o que merece nota especial, quase sempre passa despercebido. Porque o visitante se habituou a ver o mau e, sem orientação capaz, o tomou por bom […]. Sem orientação capaz: a “crítica” limita-se ou ao elogio do pintor ou à descrição temática, passando pela “firmeza do desenho” e o “colorido alacre”.»69 146

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Um caso exemplar é o artigo sobre as críticas à exposição do pintor naturalista (e sobretudo retratista) Henrique Medina, em 194670, que Pomar publica no Mundo Literário. O artista insurge-se contra o comentário, surgido na imprensa, no qual Medina é comparado a Velázquez como «um dos mais extraordinários episódios [artísticos] peninsulares»71, após o que convida os leitores a estabelecer as diferenças (se as houver) entre os retratos expostos e as estampas das caixas de bolachas à venda na mercearia mais próxima. O tom é caricato mas não esconde a gravidade da situação: Pomar constata que as parcas ferramentas de apreciação artística ao disJúlio Pomar, «Viagem à roda de uma caixa de bolapor do público devem-se em grande parte chas», Mundo Literário, n.º 17, Lisboa, 31 de Agosto a uma crítica incapaz, funcionando num de 1947, p. 11. regime de compreensão da actividade artística desajustado e com um desconhecimento básico dos problemas estéticos que as propostas modernas se propõem suscitar72. Por isso, o artista escreve, noutra ocasião, sobre uma «necessária educação dos sentidos»73, convicto de que «[a] faculdade de crítica só ganha raízes verdadeiras após o convívio longo com o objecto»74 e quando se concebe a si mesma a partir de uma constante tomada de posição perante as obras: «Não conheço actividades desinteressadas, nem como desinteressada me parece que se pode classificar a actividade do crítico. Emitir um juízo crítico pressupõe sempre um determinado ponto de vista, um determinado critério de valores. Uma crítica que para melhor se integrar nas obras estudadas adopte sucessivamente os pontos de vista que elas lhe propõem, sem ousar, na aparência, tomar partido, forçosamente se há-de revelar como invertebrada, desorientada ou desorientadora. E revelando-se como tal, afirma a sua incapacidade de desempenhar o papel que lhe compete, em face dos homens e da história.»75 os escritos de júlio pomar do período neo-realista

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Júlio Pomar, «Ver, sentir, etc.», Vértice, n.º 95, Coimbra, Julho de 1951, capa e pp. 360-362.

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NOTAS FINAIS

Em 1958, o artista Nikias Skapinakis termina uma conferência sobre a «inactualidade da arte moderna» com as seguintes palavras: «[…] tenho a plena consciência de que o que interessa num pintor é o que ele pinta; mas não me atirem pedras. A arte moderna está cheia de pintores teóricos.»1 Nikias é, desde o início do seu trabalho, um pintor figurativo e as suas palavras, nesse mesmo ano publicadas pela editora da revista Seara Nova, são proferidas num ciclo de conferências2 organizado pela SNBA no âmbito do 1.º Salão de Arte Moderna, exposição que assinala a segunda acção, ao nível institucional (antes disso tinha havido o Primeiro Salão dos Artistas de Hoje, realizado no mesmo local em 1956), para dar visibilidade a propostas plásticas emancipadas tanto do naturalismo académico que até aí enchera os seus Salões de Inverno e da Primavera como da arte moderna promovida pelo Estado Novo e que, habitualmente, se concentrava nos Salões do SNI. O Salão de Arte Moderna, pela escolha dos artistas representados, parece evitar uma tomada de posição sobre as tendências plásticas aí presentes 3. O saldo mais positivo da exposição parece ser aquele que José-Augusto França, entre outros críticos e artistas, esclarece em depoimento na imprensa como a «definitiva separação entre “modernos” e “não-modernos”»4. Para Júlio Pomar, no entanto, esta era apenas mais uma ocasião para se verificar o «domínio da expressão não figurativ[a]» em torno dos artistas mais jovens e mais permeáveis, por isso, à «aceitação de posições oficializadas», ou seja, da abstracção5. Em 1958, portanto, parecia aos artistas de tendência realista que a arte abstracta ganhara uma presença hegemónica nas artes visuais, não obstante o facto de o final da década verificar já, na arte portuguesa, o encetar de diversos passos tendentes à saída da pintura para fora da tela e da escultura para fora do plinto, além dos processos de transnotas finais

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formação pictórica que viriam a ganhar o nome, em Portugal, de «nova figuração»6. As palavras de Nikias, ele próprio um pintor figurativo, parecem conter, assim, duas provocações ao referirem-se à «inactualidade da arte moderna» num contexto que a celebra e ao salientarem a desnecessária teorização por parte de alguém a quem só é exigido que pinte. Sobre a «inactualidade da arte moderna» detectada pelo artista, note-se que, no enunciar das suas ideias, é a arte moderna em geral que lhe interessa, não especificamente o caso português – forma de identificar uma problemática que percorre de igual modo (mesmo sopesando as suas variantes) todos os lugares em que ela vive em permanente contraponto Nikias Skapinakis, Inactualidade da arte mocom a «força do academismo nos Estados derna, Lisboa, Seara Nova [1958]. Unidos, na França, de Paris, na URSS ou entre nós»7. Nikias é claro: a «inactualidade» advém da verificação de que as expressões modernas do início do século continuam a servir de referente para as novas propostas plásticas em desenvolvimento desde o pós-guerra. O artista explica porque é que aquilo que era moderno há meio século já não o é à beira da década de 1960: as propostas modernas de Novecentos funcionaram como reacção ao «realismo degradado»8 de finais de Oitocentos num processo que, iniciado pelos impressionistas (com a sua «exaltação da luz»9), conduziu, já no século XX, a uma «apetência de descobertas formais […] feita de cansaço de observação do natural»10, e ao trilhar de um «aliciante caminho inventivo, susceptível de afugentar o espectro da herança realista oitocentista»11. Duas características essenciais resultaram daqui: por um lado, «a possibilidade do assunto deixar de oferecer ao pintor o interesse de um suporte natural do entendimento do quadro»12, o que fez que o «significado» da pintura passasse a ser o «universo individual do pintor»13, situação conflituosa com «uma arte propensa a uma participação colectiva»14 que acabou por alimentar a sobrevivência do academismo (ou das formas visuais onde o público se podia continuar a reconhecer); por outro lado, o facto 202

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de esta situação ter introduzido uma mudança estrutural na «própria natureza da pintura[: a] eliminação de características eminentemente visuais e descritivas que, através do tempo, fizeram da pintura a mais acessível das artes»15. Para Nikias, a arte moderna introduziu factores de invenção que substituíram o anterior poder descritivo da pintura, associando mesmo os seus factores de «acessibilidade e comunicabilidade»16 a um défice de problematização plástica e estética. Ou seja, a arte moderna inverteu a ordem das coisas: colocou a invenção à frente da descrição convicta de que esta não era mais do que uma simples reprodução ordenada da realidade; para o artista, no entanto, o carácter descritivo é essencial na arte no sentido em que a pintura inventa-se descrevendo. A pergunta determinante na sua conferência é, então, esta: «Como se impõe o gosto moderno à cultura do nosso tempo? Se a pintura não é, pelo menos adequadamente, uma arte de invenção, mas de descrição, se pintando se inventa descrevendo, de onde deriva, no domínio estético, a validade da arte moderna, enquanto ela contrariou a tradição figurativa?»17 É neste ponto que o texto de Nikias enceta uma revisão das interpretações da arte moderna tendente a verificar o modo como as práticas artísticas são indissociáveis dos modelos teóricos que, a montante ou a jusante, contribuem para formar um todo coeso destinado a conferir uma legibilidade supra-individual e colectiva ao conjunto aparentemente díspar formado pelas várias tendências modernistas. O ponto nodal dos seus argumentos, e porque é a partir da sua condição de pintor que o artista profere as suas palavras, é um inquérito à intencionalidade plástica da obra de Cézanne: «A arte moderna projectou a sua própria problemática abstractizante na obra de Cézanne e percebeu esta quase sempre como um esforço pela abstracção. Nisso podemos reconhecer não o sentido verdadeiro do esforço de Cézanne mas a força de acontecimentos económicos, políticos, sociais, que preparavam a possibilidade [do] livre e desinteressado campo da criação artística […].»18 Os acontecimentos em causa são definidos, por Nikias, «no plano cultural, como uma crise do racionalismo; no plano humano, como uma crise de confiança notas finais

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e de esperança; no plano económico e social, como uma instabilidade conflituosa»19, todos estes compreendidos como factores em curso nas sociedades ocidentais desde finais de Oitocentos (e com os correlativos desenlaces bélicos ao longo da primeira metade do século XX) mas, na sua opinião, já não verificáveis do mesmo modo na actualidade. É assim que um regresso aos fundamentos plásticos e estéticos de Cézanne implica compreender o realçar da sua proposta de abstracção como uma necessidade da própria teoria artística de início do século XX – a partir da qual, por exemplo, as árvores nas suas pinturas foram entendidas como «pretexto para ritmos puros»20. Ora, é o prolongamento deste tipo de leituras para a época em que Nikias tece as suas considerações que parece, ao artista, já apenas «tranquilo dogmatismo [e] academismo crítico»21. Compreender o realismo contido na pintura de Cézanne implica, por isso, verificar a pureza dos seus ritmos pictóricos enquanto «imagens significativas de árvores [que encontram] através de uma análise exaustiva do real a expressão total das árvores»22, ou a sua «realidade sempre nova» tal como surge aos olhos do observador: «[…] o que pode existir na pintura moderna de uma continuidade do esforço realista de Cézanne, a persistência de uma meditação pictórica sobre a realidade, entendida como densidade da presença de real no quadro, não quererá dizer que a possibilidade de um realismo sempre novo se tece numa realidade sempre nova?»23 Para o artista, portanto, foi a negação, necessária e inicial, de realismo por parte da arte moderna que determinou a quase exclusiva abstracção formal sob a qual ela foi sendo compreendida, porque esse mesmo realismo esteve lá desde sempre. E, sempre que se manifestou através de alguns dos seus praticantes maiores (exemplificados por Bonnard, Derain, Morandi, e mesmo Mondrian e Vieira da Silva), era percebido como uma espécie de resto académico, resultado de uma incompreensão de princípio das propostas modernistas e de uma propensão para um fazer oficinal desligado das grandes questões que atravessavam o tempo. Tudo isto, para Nikias e no momento em que fala, é passado. Mais ainda, estas ideias aplicadas às questões que atravessam as práticas artísticas a partir do pós-guerra transformam a problemática abstracta numa «tendência autista»24 – quando não o era de início, como fica bem claro numa entrevista que concede em Fevereiro de 1959, em que declara que 204

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«[…] não se trata […] de atacar a arte abstracta – o que é inútil – mas de a situar, não na primeira mas na segunda metade do século XX. Esta é, de resto, a questão para toda a arte moderna, figurativa ou não. Mas se a arte abstracta vinha pondo à arte ocidental de hoje os mais graves problemas, deixou de os pôr.»25 As ideias formuladas por Nikias na sua conferência de 1958 dirigem-se directamente, a dada altura, às noções desenvolvidas no ano anterior por José-Augusto França (e condensadas, depois, em Situação da pintura ocidental)26, ao considerar que a «perda acentuada de contactos com o mundo exterior» que, para si, representa a abstracção não resulta de uma «crise de mitos», mas de uma «crise de esperança»27. No seu entender, aliás, «[…] essa crise está racionalizada. Ora, a racionalização de uma crise corresponde, psicologicamente, à possibilidade de a ultrapassar. As posições esclarecer-se-ão, pois, creio, se dissermos que uns sentirão desejo de a prolongar, outros de a transcender; uns querem prolongar o presente, onde se sentem confortavelmente angustiados; outros hipotecar-se-ão ao futuro, não por evasão do presente desgostante, mas lutando – ultrapassando a angústia.»28 Apesar de Nikias ainda colocar no futuro as vias de resolução de uma compreensão realista das práticas artísticas e da sua relação com o que estava em seu redor, já tive ocasião de indicar como essa mesma resolução está já em movimento desde a segunda metade da década de 1940, também por via da plástica figurativa que é explorada por este mesmo artista desde as suas primeiras pinturas. Mas não é por isso que as suas palavras resultam de um entendimento menos moderno do que está em questão, para usar o termo a que o próprio França recorre para qualificar as obras deste pintor em exposição no 1.º Salão de Arte Moderna29. O artista compreende, como Júlio Pomar e outros da sua geração, a urgência em pensar, de novo, todas as possibilidades abertas pela arte moderna desde o seu início, com um olhar revestido das necessidades que o tempo coloca e que introduz questões num modelo interpretativo que perde tanto mais pertinência quanto mais se verifica cobrir apenas uma parte da história do modernismo e cristalizar-se numas quantas ideias que, à força da repetição, também elas se academizam. Esse pensar é, antes de mais, concretizado numa pintura finotas finais

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gurativa de intenção realista mas, correlativamente, desenvolve-se através dos vários textos, por entre entrevistas, ensaios e conferências, que, neste caso, Nikias publica ao longo destes anos30. Os seus textos propõem-se criar um enquadramento crítico e conceptual que permita a desocultação da tendência realista que, desde sempre, perpassa pela arte moderna. Mais do que isso, eles abrem campo para a construção de modelos interpretativos em torno da figuração que assentam nas condições intrínsecas de elaboração desta (o interesse pela «realidade», o papel da «descrição inventiva», o recurso descomplexado e sempre que necessário a regras estabelecidas da pintura, etc.) e que, sobretudo, tornam evidente a desadaptação das teorias modernistas, todas elas enunciadoras da necessidade do abstraccionismo, para a sua compreensão. Os escritos de Nikias, como antes tinha acontecido com os de Pomar e de outros artistas, implicam uma intenção clara de se colocarem no mesmo patamar discursivo das teorias (abstractas) que são usadas pela crítica para avaliar a sua obra e é isto que está implícito na sua alusão à quantidade de teoria produzida pelos artistas do modernismo. Tal deixa subentendido que, se as condições estéticas e os processos plásticos não são, por si só, suficientes para esclarecer e nortear os modos de legibilidade da sua prática artística, isso acontece porque os enunciados críticos que sobre esta recaem estão demasiado infiltrados de noções e ideias que não lhes servem – sendo então preciso criar o enquadramento teórico a partir do qual se pode construir uma estrutura de sentido para esses mesmos processos e condições. A inactualidade da arte moderna conta-se entre os textos críticos mais pertinentes elaborados no século XX português (e não apenas por artistas). Tem a capacidade de operar uma reflexão profunda sobre o próprio tempo que advém de uma compreensão nítida não só das necessidades que presidem à actividade artística como da importância dos modelos críticos na construção da sua relevância e pertinência contextuais; ou seja, do laço estreito que une a arte moderna à teorização, seja ela antecipatória de propostas artísticas por vir ou interpretativas de manifestações já em curso. O modo como este texto de Nikias, bem como a sua pintura, atravessa o seu próprio tempo, revelando a pertinência do aparente anacronismo que defende (a figuração), demonstra a plena actualidade do seu pensamento31. A sua conferência contém, no título, a proposta iconoclasta de observar criticamente não a arte moderna em si mesma, mas o seu legado conceptual, algo que António Areal, em 1967, ainda considera apropriado explorar na série pictórica O fantasma de Avignon e na es206

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cultura-objecto Contribuições para a actualização de Picasso, ambas explicitando a arte moderna (aqui personificada no seu artista mais famoso) como uma assombração que prende a contemporaneidade ao passado e a impede de buscar as formas de significação mais adequadas ao seu próprio tempo. A inactualidade que Nikias aborda é, antes de mais, a que diz respeito à vigência de modelos críticos que tardam em acompanhar os efectivos desenvolvimentos das propostas artísticas mais recentes; e, por essa via, é também uma proclamação da actualidade da arte moderna e da sua singular plasticidade em, recuando às suas próprias origens, aí descobrir novas potencialidades criadoras. Trago Nikias Skapinakis a estas notas finais por dois motivos. O primeiro é porque os seus escritos atestam um prolongamento deste tipo de discussões até bem depois dos anos em que as tendências abstractas e neo-realistas procuravam um espaço de afirmação e legitimação no campo das artes visuais. Pouco mais novo do que Júlio Pomar, a intervenção escrita de Nikias desenvolve-se a partir de meados da década de 1950, numa altura em que a colaboração com a imprensa por parte de Júlio Pomar está já no seu ocaso. As suas ideias elaboram-se numa defesa da figuração em processo de emancipação da estética neo-realista em que até aí, e desde os anos da guerra, era enquadrada. Em várias ocasiões, o artista queixar-se-á de que, por via da sua participação nas Exposições Gerais de Artes Plásticas e nos debates estéticos da época, a sua proposta de um «realismo novo» foi quase sempre confundida com o próprio neo-realismo32. A questão é, ainda em finais dos anos 1950, relevante do ponto de vista teórico que circunscreve o movimento a determinantes ideológicas incidentes sobre os modos de fazer e condicionadoras da liberdade expressiva dos artistas. A conferência de Nikias contradiz esta ideia, como o próprio artista realçará anos depois, pois ela nunca pretendeu explicar em que consistia esse «realismo novo», mas sim «exp[or] os dados de um problema crítico cuja solução pertencia aos artistas»33 e à produção plástica de cada um. Isto quer dizer que, por um lado, o artista entendia os limites das suas intervenções orais e escritas como o ponto a partir do qual as vias de resolução dos novos problemas estéticos levantados pertenciam inequivocamente ao domínio da realização plástica (uma convicção que já vimos atravessar também a relação entre os escritos de Pomar e a sua pintura). Por outro lado, a questão demonstra como o sobreinvestimento ideológico do neo-realismo é algo que existe desde o início do movimento e não apenas a partir das perspectivas históricas que sobre ele incidiram e que foram percorridas notas finais

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no Capítulo II, a partir de José-Augusto França, e também no Capítulo III, a partir das interpretações recentes dos escritos de Pomar. O segundo motivo é um prolongamento desta questão. A conferência de 1958 condensa de forma cristalina a tomada de consciência de muitos artistas do período considerado para o facto de «que a dogmática modernista já não podia manter-se sem afectar a validade da criação artística, embora não existisse outro ponto de partida para experiências diferentes e opostas que não residisse nas conquistas modernas»34, como Nikias dirá décadas mais tarde. Este argumento perpassa também pelas análises de Júlio Pomar ao contexto artístico oficial da viragem dos anos 1940 para a década seguinte, como se viu no Capítulo III, e refere-se, especificamente, à desactualização dos modelos interpretativos que foram pertinentes para a arte moderna das primeiras décadas do século XX mas já não para a do pós-guerra. Por isso, as ideias de Nikias têm como alvo mais as teorias produzidas do que as propostas artísticas propriamente ditas e dirigem-se mesmo a uma teoria em particular, como é claro na menção explícita à «crise de mitos» de José-Augusto França (lembre-se que é também contra este historiador que Pomar dirige os seus comentários acerca do carácter «metafísico» da abstracção). Quer isto dizer que França é encarado, por esta geração de artistas, como autor de uma teoria crítica cuja eficácia fica demonstrada não só pela atenção que lhe dedicam os que estão à sua volta (e desde logo os artistas que dela discordam) mas também pela capacidade que ela tem, como se observou no Capítulo II, de se transformar, com a distância temporal necessária, em história do acontecido. Recorde-se que é esta noção de «crise de mitos», que muito deve a um contexto de falência das vanguardas que atravessa todo o período de entre-guerras e, em particular, ao pensamento de Almada Negreiros, que serve a França para sustentar a ênfase que os surrealistas colocam no imaginário como um passo fundamental implicado na busca de um novo «mito» (artístico, cultural e, ao termo, civilizacional) que, ao mesmo tempo que reata com uma estratégia de «vanguarda» das primeiras décadas do século (em particular do futurismo e do grupo do Orpheu), está também na base na abstracção que França vê como uma espécie de antecâmara para um novo sistema de mitos restauradores. A tendência teorizadora deste historiador, mercê das suas investigações histórico-sociológicas e do destaque que aí confere ao apuramento dos «factos artísticos»35, foi ficando, no decurso dos anos, numa sombra relativa (injustamente, dado que a força da sua narrativa histórica reside, precisamente, na estrutura teó208

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rica, invisível, que a sustenta). Mas é importante realçar que o pensamento estético de França se gera mediante processos semelhantes àqueles que assistem à emergência das conceptualizações teóricas por parte dos artistas: uma vivência a fundo do seu próprio tempo. Não é por acaso que França é o autor do Balanço das actividades surrealistas em Portugal, em 1949, uma primeira história do movimento em Portugal que se configura, pelo directo envolvimento do seu autor nos acontecimentos, como participando das mesmas condições que assistiram aos artistas que, em 1930 (os Independentes) e em 1953 (Júlio Pomar), elaboraram as histórias dos acontecimentos artísticos de que fizeram parte. O modo como os escritos de artista desaparecem da história da arte tal como França a viu tem que ver, também e para lá da visualidade formalista que caracterizou boa parte da teoria artística novecentista, com o grau de intervenção que o futuro historiador detém no contexto artístico português do pós-guerra, com o seu marcado apoio ao surrealismo (tendo até sido expositor da única mostra do Grupo Surrealista de Lisboa, em 1949, como referi no Capítulo II) e com uma verve literária (que chegou a dar à estampa romances e peças de teatro36) que acabou por ficar em latência até anos recentes. Neste sentido, não é só o França historiador mas também o França autor que impõe um lastro de invisibilidade aos escritos dos artistas. Esta será mais uma razão para não se descartar este tipo de textos nas investigações sobre o passado, dado que, ao fim e ao cabo, eles partilham um mesmo estatuto autoral que as visões historiográficas sobre os acontecimentos recentes. Isto é válido na medida em que se compreende a elaboração da história como uma estrutura em camadas que se constrói lentamente através da sucessiva decantação dos factores que o tempo vai elegendo como determinantes e através de diversos agentes que, de início, são aqueles directamente implicados nos próprios eventos – e que contribuem para definir, como se viu no Capítulo II, os testemunhos e as representações da memória colectiva. Há por isso bons argumentos para, na abordagem aos escritos de artista, procurar analisá-los em contexto. Tal não implica ignorar que existe uma relação íntima entre a obra plástica de um artista e os textos que escreve. Pelo contrário: a relação entre as obras e os textos esclarece o lugar a partir do qual o artista escreve, como se percebe nos exemplos de Almada Negreiros e Júlio Pomar (e, com menos detalhe, também nos de Diogo de Macedo, António Dacosta e Nikias Skapinakis). Não se trata, no entanto, de um lugar fechado ao mundo nem às circunstâncias, dado que ele é atravessado por todos os problemas e todas as dúvidas que, numa notas finais

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determinada época, apelam e justificam as intervenções públicas que, para lá da prática artística estritamente entendida, motivam os artistas para os enunciados escritos e para a especulação teórica. Finalmente, talvez valha a pena dizer que sonegar a estes escritos o meio artístico que em primeiro lugar os ocasionou equivale, de certo modo, a efectuar uma amputação grave no conjunto de elementos disponíveis para uma compreensão integrada da arte novecentista – no sentido em que toda ela (e não apenas a portuguesa) é percorrida, no próprio acto de criação das obras, por um veio especulativo que, com frequência, embateu nos limites da inteligibilidade das imagens e teve de criar um espaço de enunciação através do recurso às palavras. Mas esta questão, que foi levantada aqui e ali neste estudo, é já uma outra história.

————————— 1 Nikias Skapinakis, Inactualidade da arte moderna, Lisboa, Seara Nova, [1958]. 2 Além de Nikias Skapinakis, os outros dois oradores convidados a expor as suas ideias foram Salette Tavares, com uma conferência intitulada «As características da estética nova», e José-Augusto França, que falou sobre o «Conceito e situação da arte moderna em Portugal», esta última publicada no jornal República, Lisboa, 27 Out. 1958. 3 No prefácio não assinado do catálogo da exposição pode ler-se: «Esta exposição nasceu da necessidade de mostrar a existência simultânea de várias expressões da modernidade», representadas, entre outros, por Alice Jorge, António Areal, Artur Bual, Bartolomeu Cid, Fernando Azevedo, João Abel Manta, João Hogan, Joaquim Rodrigo, José Escada, Júlio Pomar, Nikias Skapinakis e Marcelino Vespeira. 1.º Salão de Arte Moderna, Lisboa, Sociedade Nacional de Belas-Artes, 1958. 4 José-Augusto França, «O 1.º Salão de Arte Moderna. Depoimento», Diário de Lisboa, supl. «Magazine», Lisboa, 22 Nov. 1958, p. iv. 5 Júlio Pomar, «O 1.º Salão de Arte Moderna. Depoimento» [1958], Notas sobre uma arte útil: parte escrita I (1942-1960), Lisboa, Documenta, 2014. [Publicado originalmente em Diário de Lisboa, supl. «Magazine», Lisboa, 22 Nov. 1958.] 6 Fernando Rosa Dias, A nova-figuração nas artes plásticas em Portugal (1958-1975), tese de doutoramento em Ciências e Teorias da Arte apresentada à Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, 2008. Uma das exposições mais relevantes para a visibilidade do renovado interesse pela figura (que passava pela incorporação da exploração significante dos signos e das imagens levada a cabo pela abstracção) aconteceu quase dez anos depois, e foi organizada por Rui Mário Gonçalves: Novas iconologias, Lisboa, Galeria Buchholz, 1967. 7 Nikias Skapinakis, Inactualidade da arte moderna, op. cit., p. 16. 8 Nikias Skapinakis, idem, p. 25. 9 Nikias Skapinakis, ibidem, p. 25. 10 Nikias Skapinakis, ibidem, p. 22. 11 Nikias Skapinakis, ibidem, p. 22. 12 Nikias Skapinakis, ibidem, p. 24. 13 Nikias Skapinakis, ibidem, p. 17. 14 Nikias Skapinakis, ibidem, p. 19.

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Nikias Skapinakis, ibidem, p. 16. Nikias Skapinakis, ibidem, p. 17. Nikias Skapinakis, ibidem, p. 22. Nikias Skapinakis, ibidem, p. 23. Nikias Skapinakis, ibidem, p. 23. Nikias Skapinakis, ibidem, p. 29. Nikias Skapinakis, ibidem, p. 29. Nikias Skapinakis, ibidem, p. 29. Nikias Skapinakis, ibidem, p. 28. Nikias Skapinakis, ibidem, p. 35. Nikias Skapinakis, «A existência não pode falsificar-se, a esperança pode reencontrar-se, tomámos consciência da crise – afirma o pintor Nikias Skapinakis» [entrevista], Diário de Lisboa, supl. «Vida Literária», 19 Fev. 1959. Ver Capítulo II, p. 73. Nikias Skapinakis, Inactualidade da arte moderna, op. cit., p. 35. Os itálicos são meus. Nikias Skapinakis, idem, p. 35. As suas palavras são: «O Vespeira [surrealista] é moderno e o Skapinakis não o é (nem quer ser) […]», José-Augusto França, «O 1.º Salão de Arte Moderna. Depoimento», op. cit., p. iv. Ver Introdução, nota 11. Como escreve Giorgio Agamben, «[a]quele que pertence deveras ao seu tempo, que é deveras contemporâneo é alguém que não coincide perfeitamente com ele nem se adapta às suas exigências e é por isso, nesse sentido, inactual; mas, precisamente por isso, precisamente através do seu distanciamento e do seu anacronismo, é capaz de perceber e captar o seu tempo melhor do que outros.» Giorgio Agamben, «O que é o contemporâneo?», Nudez, tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 2009, p. 20. Por exemplo: «A conferência não teve consequências, à parte identificar-me indevidamente com os detractores da pintura abstracta, em geral, e com os pintores neo-realistas em geral. […] E […] jamais falara de neo-realismo, mas de um “realismo novo”», Nikias Skapinakis, «As respostas possíveis», Nikias Skapinakis, Fernando Azevedo, Margarida Acciaiuoli, Kukas, Fernando Pernes, Algumas perguntas a Nikias Skapinakis, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987, p. 57. Nikias Skapinakis, idem, p. 57. Nikias Skapinakis, ibidem, p. 56. Ainda não há muito tempo o historiador definia o «facto artístico», a par do «pensamento visual», como os principais contributos para a elaboração da história da arte. José-Augusto França, «Entrevista com José-Augusto França conduzida por Raquel Henriques da Silva», Revista de História da Arte, Lisboa, n.º 1, 2005, p. 12. Exposição da doação de arquivos e documentos sobre arte contemporânea e obras publicadas em volumes periódicos e catálogos, por José-Augusto França, Lisboa, Centro de Arte Moderna – Fundação Calouste Gulbenkian, Departamento de Documentação e Pesquisa, 1992, p. 20.

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ÍNDICE ONOMÁSTICO

Aalto, Alvar, 164 Acciaiuoli, Margarida, 11, 29, 30, 93, 122-124, 160, 196, 199, 211 Adorno, Theodor W., 124 Affonso, Sara, 67 Afonso, Nadir, 17, 29, 122, 196 Agamben, Giorgio, 211 Alloway, Lawrence, 21, 32, 121 Almeida, Bento de, 180 Almeida, Bernardo Pinto de, 11, 32, 77, 119, 190 Almeida, Victor Manuel Martinho de, 198 Alpers, Svetlana, 31 Alvão, Domingos, 49, 61 Alvarez, Dominguez, 73 Alves, Margarida Brito, 11, 29 Alves, Vera Marques, 123, 160, 196 Amaral, Keil do, 176, 198 Anahory, Eduardo, 161, 178 Andre, Carl, 21 Aragon, Louis, 124-125 Araújo, Roberto, 178 Areal, António, 16, 18, 28-30, 32, 206, 210 Ashcroft, Bill, 59 Ávila, María Jesús, 120 Avillez, Maria João, 119, 190

Basto, Armando de, 47 Bataille, Georges, 128 Batarda, Eduardo, 17, 29, 32 Batchelor, David, 124, 197 Beatriz, Maria, 190 Beckett, Samuel, 128 Bell, Clive, 121 Belting, Hans, 59-60, 121, 124 Benjamin, Walter, 61 Benton, Thomas Hart, 193 Bertholo, René, 30 Bochner, Mel, 21, 31, 194 Bonnard, Pierre, 73, 86, 204 Bosch, Hieronymus, 75 Botelho, Carlos, 73, 197 Bourdieu, Pierre, 15, 28 Braque, Georges, 86, 118 Bresson, Robert, 127 Breton, André, 120, 125 Bronze, Francisco, 30 Broodthaers, Marcel, 31 Bual, Artur, 210 Burckhardt, Jacob, 43, 59 Bürger, Peter, 61 Bury, Stephen, 191 Butor, Michel, 30-31

Babo, Maria Augusta, 29, 124 Bacon, Francis, 129 Barata, André, 58 Barbosa, Manoel, 30 Barradas, Jorge, 173, 176, 194, 196-198 Barreira, Catarina, 58 Barreira, João, 22, 34, 39, 43-47, 58-60 Barrio, Artur, 21 Barthes, Roland, 31

Cage, John, 128 Calvet, Eduardo, 125, 192, 197 Campos, Álvaro de, 66 Candeias, Ana Filipa, 30, 120 Caraça, Bento Jesus, 124 Cardoso, Maria Luísa, 193 Carmona, Óscar, 118 Carneiro, Alberto, 17-18, 29-30 Carrillo, Jesús, 194 índice onomástico

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Carvalheiro, José Ricardo, 58 Castro, Celestino, 198 Castro, E. M. de Melo e, 28, 30 Castro, Lourdes, 30 Castro, Machado de, 33, 37, 56 Cézanne, Paul, 75, 129, 203-204 Chafes, Rui, 30 Chagall, Marc, 73 Charlet, Nicolas, 31 Chicó, Mário, 58 Chicó, Sílvia, 119 Christo, 30 Cid, Bartolomeu, 210 Clark, Lygia, 21 Coelho, Eduardo Prado, 130-132, 190 Colaço, Amélia Rey, 122 Connelly, Frances S., 61 Corbusier, Le, 124, 164, 172 Correia, Virgílio, 37 Costa, Luís Noronha da, 17, 29, 32 Costa, Maria Velho da, 128, 190 Cotrim, Cecília, 31 Couto, José, 37 Crua, Catarina Anselmo, 120 Cruz, Marcos da, 37 Cummings, Paul, 194 Cunha, Teresa Sobral, 118 Cunhal, Álvaro, 140-141, 143, 189, 192 Dacosta, António, 16, 23, 72-79, 116, 118-119, 166, 195, 209 Danto, Arthur C., 45, 60-61, 121 Demaison, André, 50 Derain, André, 204 Deswarte, Sylvie, 59 Dias, Fernando Rosa, 210 Dias, Luís Augusto Costa, 119 Didi-Huberman, Georges, 60 Dionísio, Mário, 30, 120, 139 Drucker, Johanna, 191 Duarte, Gonçalo, 30 Duchamp, Marcel, 87, 120 Eagleton, Terry, 194 Einstein, Carl, 50, 61

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índice onomástico

Eloy, Mário, 67, 73 Éluard, Paul, 124 Escada, José, 30, 210 Esquível, Patrícia, 117-118 Faria, Nuno, 29 Farré Torras, Begoña, 32, 58 Fer, Briony, 124, 197 Fernie, Eric, 59, 61 Ferreira, Glória, 21, 31 Ferreira, Sara Afonso, 110, 122 Ferro, António, 69, 117-118, 158-160, 162, 174, 180, 195-196 Figueiredo, José de, 37-38, 41 Filho, Magalhães, 192 Filipe, Manuel, 163, 191-192 Focillon, Henri, 43, 59 França, José-Augusto, 22-27, 29, 32-35, 53-58, 61-125, 143, 179, 183-184, 186-187, 191-195, 197, 201, 205, 208-211 Francastel, Pierre, 121-124 Freitas, Lima de, 30, 145, 193, 197 Fry, Roger, 121 Galvão, Henrique, 123 Gamboni, Dario, 31, 193 Gaspar, Luis Manuel, 110, 122 Gauguin, Paul, 18, 31, 190-191 George, Frederico, 176, 197-198 Gheerbrant, Alain, 190 Giacometti, Alberto, 128, 190 Giotto, 43 Goldwater, Robert, 121 Gomes, Augusto, 145, 192-193, 196 Gomes, Dordio, 67, 145, 151, 195, 197 Gonçalves, Nuno, 34-35, 38 Gonçalves, Rui Mário, 193, 210 Graham, Dan, 21 Greenberg, Clement, 86-88, 114, 121, 125 Griffiths, Gareth, 59 Guasch, Anna María, 194 Guichard-Meili, Jean, 190 Guillaume, Paul, 50 Guilló, Anna, 19, 31 Guimarães, Fernando, 120 Gusmão, Adriano de, 22, 39-40, 59


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Hartung, Hans, 74 Hatherly, Ana, 30 Hegel, Georg Wilhelm Friedrich, 42 Heidegger, Martin, 124 Hobbs, Richard, 18-19, 31, 190 Hogan, João, 145, 190, 193, 210 Holanda, Francisco de, 23, 33, 38-39, 59, 195 Holzer, Jenny, 31 Jardim, Manuel, 47 Jeanneret, Charles-Édouard, 124 Jorge, Alice, 190, 198, 210 Judd, Donald, 21, 194 Júlio, José, 145, 193 Kant, Immanuel, 42, 85-86, 121 Keil, Maria, 73 Kirsch, Dietrich, 190 Klee, Paul, 73 Kosuth, Joseph, 31 Kradolfer, Fred, 178 Krauss, Rosalind, 19, 31 Kukas, 29, 199, 211 Lacan, Jacques, 128 Lacerda, Aarão de, 22, 34-38, 44, 58-59 Lanhas, Fernando, 192, 197 Lapa, Álvaro, 30, 32 Lapa, Querubim, 175, 192 Lauf, Cornelia, 191 Leal, João, 196, 198 Léger, Fernand, 74 Lemos, Fernando, 184 Lemos, Virgílio de, 190 Leonel, José, 196 Lessing, Gotthold Ephraim, 19 Levaillant, Françoise, 18, 31 Levine, Jack, 193 LeWitt, Sol, 21 Lima, Francisco Cardoso, 32 Lisboa, Maria Helena, 62 Little, Daniel, 59 Lobo, Paula Ribeiro, 124 Lourenço, Eduardo, 92, 112, 122, 124

Macedo, Diogo de, 16, 23, 47-52, 60-61, 63, 66-69, 71-72, 76, 78, 117, 166, 209 Machado, Cyrillo Wolkmar, 33, 35-37, 53, 56 Maderuelo, Javier, 121 Magalhães, Alfredo Ângelo de, 163, 196 Maia, Canto da, 73 Maillol, Aristide, 86 Mallarmé, Stéphane, 128 Manta, João Abel, 210 Marinho, Maria de Fátima, 119-120, 124-125, 196 Markl, Dagoberto, 59 Marques, Bernardo, 178 Martins, Artur Pires, 198 Martins, Fernando Cabral, 110, 122 Martins, Guilherme d’Oliveira, 117 Matisse, Henri, 86, 118, 129, 131 Matos, Sara Antónia, 190 Mattoso, José, 122, 198 Medina, Henrique, 145, 147, 194 Meireles, Cildo, 21 Melo, Daniel, 195-196 Mendonça, Maria de José, 58 Mendonça, Paulo, 118, 195 Menez, 190 Miró, Juan, 73, 86 Mitchell, W.J.T., 132, 191 Modigliani, Amadeo, 48 Mondrian, Piet, 204 Montalvor, Luiz, 49, 61 Monteiro, Nuno Gonçalo, 122 Morandi, Giorgio, 204 Morris, Robert, 21, 194 Motherwell, Robert, 194 Moura, Leonel, 30 Nadal, Emília, 28 Negreiros, José de Almada, 16, 24, 27, 32-33, 63, 67, 69, 90-113, 115, 117, 121-124, 145, 187, 196, 208-209 Neto, João Cabral de Mello, 128 Newman, Barnett, 194 Nogueira, Sá, 175 Novais, Horácio, 161 Novais, Mário, 49, 61, 161 índice onomástico

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O’Brian, John, 121 Oiticica, Hélio, 21 Oliveira, Paulo, 58 Oom, Pedro, 30, 163, 165, 196-197 Ozenfant, Amédée, 124 Pacheko, José, 67, 93 Palla, Victor, 25, 27, 163, 169, 172, 176, 180, 196-198 Pamplona, Fernando de, 58 Paquet, Marcel, 129 Pavia, Manuel Ribeiro de, 136, 192 Pedro, António, 16, 18, 28, 30, 63, 78, 197 Pedrosa, Inês, 190 Peirce, Charles Sanders, 19 Pereira, António Santos, 58 Pereira, Miguel Serras, 28, 211 Pereira, Paulo, 32-34, 58, 61, 193, 195 Peres, Damião, 58 Perez, Rossini, 128, 190 Pernes, Fernando, 29, 60, 195, 198, 211 Pessoa, Fernando, 66, 99-100, 117-118 Phillpot, Clive, 191 Picabia, Francis, 20, 73 Picasso, Pablo, 74, 86, 207 Pillet, Edgard, 183-185, 199 Pimentel, Rui, 163 Pinharanda, João, 32 Pinheiro, Costa, 18, 30 Pinto, António Cerveira, 17, 28, 30 Pinto, Cândido Costa, 197 Pinto, Helena Gonçalves, 198 Pita, António Pedro, 119, 124-125 Piza, Toledo, 118, 195 Plaza, Julio, 21 Pomar, Alexandre, 134, 139-140, 190-193 Pomar, Júlio, 16, 24-26, 73, 116, 127-199, 201, 205-210 Pomar, Rosa, 190 Portinari, Cândido, 80, 119 Possoz, Mily, 196 Preziosi, Donald, 31, 60, 121 Puchner, Martin, 59, 61

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índice onomástico

Queiroz, Carlos, 27, 63, 66-67, 69, 117-118 Ramos, Rui, 122, 196 Rancière, Jacques, 45, 60 Real, Miguel, 120 Rego, Paula, 17, 30 Reinhardt, Ad, 194 Reis, Carlos, 119 Reis, Pedro Cabrita, 30 Resende, Júlio, 145, 190-193, 196 Richards, J.M., 196 Rito, Paula, 32 Rodrigo, Joaquim, 17, 29, 210 Rodrigues, António, 92, 117, 122 Rodrigues, Dalila, 32, 58 Rolland, Romain, 124 Rosas, Fernando, 159, 196, 198 Rosendo, Catarina, 29, 30 Rosengarten, Ruth, 17, 28, 30 Ruivo, Ana, 120 Sá-Carneiro, Mário de, 117 Said, Edward E., 15, 28 Salazar, Abel, 136, 145, 191, 193 Salazar, António de Oliveira, 99, 118, 159-160, 196 Salgueiro, Ana Rita dos Santos Ferreira, 32 San Payo, 49, 61 Santa-Rita, 47, 63, 67, 95, 117 Santos, Armando Vieira, 198 Santos, David, 134, 137-138, 140, 143, 191-193 Santos, José Manuel dos, 124 Santos, Mariana Pinto dos, 29, 58, 110, 122 Santos, Reynaldo dos, 22, 34, 37-39, 41-44, 58-59 Santos, Rui Afonso, 195 Saraiva, António José, 186, 199 Sartre, Jean-Paul, 124 Sauré, Wolfgang, 190 Saussure, Ferdinand de, 19 Scheunemann, Dietrich, 61 Schwitters, Kurt, 31 Selz, Peter, 31 Semke, Hein, 196


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Sena, António, 30 Serrão, Vítor, 59 Shahn, Ben, 193 Silva, A. Sena da, 199 Silva, Celina, 122 Silva, Conceição, 176, 198 Silva, Helena Vaz da, 190 Silva, Maria Helena Vieira da, 128, 190, 204 Silva, Raquel Henriques da, 60, 120, 193, 211 Silveira, André, 123 Silvestre, Osvaldo, 92, 122 Skapinakis, Nikias, 16, 25-26, 29, 180, 198-199, 201-203, 207, 209-211 Smith, Paul, 31, 190 Smithson, Robert, 21, 194 Soares, António, 145, 151, 153-154, 173, 195 Soares, António Martins, 32 Soulet, Jean-François, 117-118 Sousa, Anabela, 32 Sousa, Bernardo Vasconcelos e, 122 Sousa, Ernesto de, 139, 192, 197 Sousa, Rocha de, 30 Spengler, Oswald, 42 Staël, Hansi, 175, 196 Stiles, Kristine, 20, 31 Taborda, José da Cunha, 33, 35-37, 56 Tainha, Manuel, 176, 198 Tamen, Pedro, 129, 190 Tavares, Salette, 30 Tchen, Adelaide Ginga, 119-120 Teixeira, Luiz, 117

Tekiner, Deniz, 121 Tiffin, Helen, 59 Tom, 145, 151, 153-154, 157, 161, 178, 195 Toynbee, Arnold, 42 Treves, Marco, 121 Vasconcelos, João, 123 Vasconcelos, Joaquim de, 34, 41-42 Vasconcelos, Mário Cesariny de, 164, 196-197 Velázquez, Diego, 147 Vespeira, Marcelino, 163, 191-193, 210-211 Viana, Eduardo, 67 Vidal, Carlos, 28, 30 Vieira, João, 30 Vieira, Jorge, 145, 193 Vital, Natália, 190 Viterbo, Sousa, 37, 41 Vlaminck, Maurice de, 118 Voss, Jan, 30 Wallis, Brian, 20, 31 Wandschneider, Miguel, 29 Weiner, Lawrence, 21 Weiss, Jeffrey, 21, 31 Wilde, Carolyn, 31, 190 Williams, Raymond, 196 Wood, Grant, 193 Wood, Paul, 124, 197 Zalta, Edward N., 59 Zerner, Henri, 31

índice onomástico

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COLECÇÃO ARTE & ENSAIO N A D O C U M E N TA

Sistema da Arte Contemporânea, Alexandre Melo

Diários Portugueses (1969-1976), Curt-Meyer Clason Tradução e posfácio de João Barrento

Entre o Céu e a Terra, Rui Chafes Império, Alexandre Melo, André e. Teodósio, Vasco Araújo Império (ed. numerada e assinada), Alexandre Melo, André e. Teodósio, Vasco Araújo A Última Imagem – fotografia de uma ficção, Margarida Medeiros Para Grandes Solidões Magníficos Espelhos, Vasco Araújo, Carmo Sousa Lima, João Sousa Monteiro Para Grandes Solidões Magníficos Espelhos (ed. numerada e assinada), Vasco Araújo, Carmo Sousa Lima, João Sousa Monteiro NÃO – uma biografia do Ar.Co, Maria Antónia Oliveira A Reinvenção do Real – curadoria e arte contemporânea no Museu do Neo-Realismo, David Santos Apresentações de Delfim Sardo e Pedro Pousada

Imaginação & Ironia, texto, imagens e arranjo gráfico de Costa Pinheiro Posfácio de Bernardo Pinto de Almeida

Lagoa Henriques – eu e a minha casa, Maria João Gamito Instalações Provisórias, Sandra Jürgens Arte e Poder, Alexandre Melo Triunfo da Crise Económica, Alexandre Melo Escritos de Artista em Portugal — história de um esquecimento, Catarina Rosendo


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