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Aphra Behn, «Orunoko ou O Escravo Real — Uma história verídica»

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Aphra Behn

O R U N O KO o u o e s c r a vo re a l uma história verídica

tradução e apresentação

Aníbal Fernandes


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TÍTULO DO ORIGINAL: OROONOKO OR THE ROYAL SLAVE — A TRUE HISTORY

© SISTEMA SOLAR, CRL RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © ANÍBAL FERNANDES, 2019 NA CAPA: GUILHERME GERALDES, DESENHO-COLAGEM (2019) REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE 1.ª EDIÇÃO, MARÇO DE 2019 ISBN 978-989-8833-37-2


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Ali, no centro de Londres e a dois passos do Tamisa, a minster faz uma exaustiva celebração da morte; mas pode acontecer que uma nobreza e uma alta-roda acompanhadas por centenas de túmulos assistam às mais festivas cerimónias da vida. Westminster é hoje um espaço bipolar onde a permanente severidade dos despojos fúnebres cede à festividade das coroações e dos casamentos reais; tudo muito distante da intimidade de monges de abadia que há séculos, dentro desses muros de pedra, se resolvia com penitências e coros a cappella. O que sobra ou foi acrescentado ao velho cenário dos beneditinos abre-se agora a um tumulto de turistas que procuram interessar-se por aquelas complicações nem sempre felizes do gótico inglês. Entre celebridades de alto som jazem na abadia discretos fulgores, como o de Aphra Behn que ficou deitada no Claustro Oriental sob uma lápide escura e com um epitáfio escrito por John Hoyle (seu amante e autor de um reputado dicionário que reunia com aplicação o vocabulário musical da sua época): «Aqui jaz uma prova de que o espírito nunca é suficiente defesa contra a nossa condição de mortais.» Na época de Aphra Behn (referimo-nos à segunda metade do século XVII) raras mulheres escreviam livros; e as altivas excepções a esta regra eram caucionadas pelo direito à excentricidade de grandes folganças materiais ou por nascimentos nobres, como se


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percebia nos casos da francesa Madeleine de Scudéry ou da inglesa Margaret Cavendish, duquesa de Newcastle. Pertence no entanto a Aphra Behn a primeira ousadia feminina, que as memórias registam, a violar o reduto de escritora protegida por uma alta posição social; a fazer da sua escrita modo de vida e fonte exclusiva do seu sustento. Virginia Woolf, na obra a que chamou A Room of One’s Own, onde reflecte largamente sobre o que foi e deverá ser conquistado pela emancipação feminina, não se esquece do seu grande exemplo: «Com Mrs Behn dobramos no nosso caminho uma das mais importantes esquinas. Deixamos para trás, fechadas nos seus parques, no meio dos seus in-folios, essas grandes e solitárias senhoras que escreviam sem público e sem crítica, apenas para o seu isolado prazer. Chegamos à cidade e roçamo-nos pela gente vulgar que anda nas ruas. Mrs Behn era uma mulher da classe média com todas as virtudes plebeias do humor, da vitalidade e da coragem; uma mulher que a morte do seu marido e umas quantas e infelizes aventuras pessoais forçaram a ganhar a vida com as qualidades do espírito. Teve de trabalhar em condições idênticas às dos homens. Teve de fazer um trabalho muito duro e em quantidade que bastasse para viver dele. A importância deste facto tem mais peso do que tudo o que ela realmente escreveu, até mesmo o esplêndido Fiz um Milhar de Mártires ou O Amor como um Fantástico Triunfo Sentado, por ser aqui que a liberdade do espírito começa, ou antes, a probabilidade que o espírito tem, com a ajuda do tempo, de ser suficientemente livre para escrever o que tem vontade de escrever. Porque agora, depois de Mrs Behn fazer isto, as raparigas podem procurar os seus pais e dizer: “Não precisam de dar-me uma pensão; posso ganhar dinheiro com a minha pena.” “Sim, se


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viveres uma vida idêntica à da Aphra Behn! Antes a morte!”, e a porta bate com mais força do que nunca. […] «Aphra Behn provou que pode ganhar-se dinheiro a escrever, talvez com o sacrifício de umas quantas agradáveis qualidades; e foi assim que a escrita começou a pouco e pouco a ser, não apenas um sintoma de loucura e distúrbio mental, mas uma importante ocupação. […] «Com um gesto comum, todas as mulheres deviam deixar cair flores sobre o túmulo de Aphra Behn que está, o que é escandaloso mas justo, na abadia de Westminster; porque ela ganhou por todas o direito de exprimir as suas ideias. E é ela — de suspeita honestidade e dada, como era, aos amores — quem me não faz esta noite ser tomada por delirante quando vos digo: “Ganhem com o vosso talento quinhentas libras por ano.”» A vida de Aphra Behn não oferece grandes certezas (e algumas mentiras garante) aos severos leitores de biografias. Nasceu em 1640 na Cantuária, ou em Sturry, ou em Wye, mas em 16 de Abril de 1689, aos quarenta e nove anos de idade, com toda a evidência morreu em Londres. O seu pai teria sido um tal Mr Cooper; mas também — numa grande desorientação de biógrafos — um barbeiro chamado John Amis, ou Bartholomew Johnson, ou Effrey Johnson. Terá em 1663 viajado até ao Suriname e lá vivido durante seis meses, se acreditarmos no «relato verídico» de Orunoko. O Suriname é hoje uma independência pequena e quase ignorada, que fala oficialmente holandês e se encaixa entre países maiores, as Guianas e o Brasil, na ponta nordeste da América do Sul. Começou por ser, até 1651, uma livre terra de índios tomada por acesso àquele Eldorado que Sir Walter Raleigh e Laurent Keymis


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tão inutilmente procuraram, mas depois colónia inglesa até 1667, quando uma Inglaterra farta de rebeliões de índios e escravos a trocou com a Holanda, recebendo dela a Nova Iorque que guarda Harlém como memória viva dos seus velhos nomes flamengos. Miss Aphra (que ainda não era Behn) conviveu nos seus dias do Suriname com uma colonização de cerca de mil e quinhentos brancos rodeados pelo dobro de escravos africanos e um número incontável de índios. Dezasseis anos de severa disciplina de trabalho tinham enchido o território de plantações que eram, sabe-se pelos historiadores do país, de cana-de-açúcar e tabaco. O seu relato é de obsessivo centro, sem grandes desvios de informação ao que melhor serve a tragédia do formoso príncipe-escravo (Aphra confessou a lorde Richard Maitland, seu dedicatário numa primeira edição, que demorou a escrevê-lo não mais do que algumas horas… sem levantar uma única vez a pena) e começa por fazer-nos imaginar que ouvimos a voz de uma narradora solitária, sem nenhuma companhia familiar. Só adiantadamente nos chega a notícia de que tem ao pé de si um irmão com quem faz duetos de flauta, e uma criada de quarto que a acompanha desde a Inglaterra; na página final acrescentam-se a estes próximos a sua mãe e uma irmã. O pai, esse, teria morrido durante a longa viagem que os fez atravessar o Atlântico com mar bravo e velas rasgadas, para os desembarcar, enlutados, no Suriname. E ficamos, com este pai, rodeados por novas perplexidades. Porque as páginas de Aphra Behn nos dizem que ele vinha tomar posse do importante cargo de lugar-tenente de trinta e seis ilhas, às quais se acrescentava o território continental do Suriname, especificação geográfica e administrativa tão confusa como a palavra lugar-tenente que a informa. De qualquer modo, e tenha ela o sentido


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que tiver, surpreende quando as mais aturadas investigações biográficas atribuem ao seu pai a profissão de barbeiro. Mas é verdade que a recepção de Aphra no território denuncia uma deferência pessoal, porque fica instalada na plantação do lorde-governador. Como autoridade máxima, a colónia tinha desde a sua fundação o lorde-governador Willoughby (nunca citado pelo nome no texto), e abaixo dele governadores locais, como esse Byam que viria a influenciar cruelmente o destino de Orunoko. Mas Willoughby secundava a glória da sua posição governativa com interesses pessoais de grande proprietário. Era dele a plantação conhecida por Parham-House, que abrigou a família de Aphra durante os seis meses da sua permanência no Suriname, e onde também estavam instalados Byam, o governador local, e Mr Trefry, o gerente dos interesses particulares de Willoughby. Orunoko, escravo comprado por Mr Trefry, vivia numa casa do bairro dos negros. Pouco antes da passagem do Suriname para o domínio holandês, Aphra regressou à Inglaterra. Tinha vinte e quatro anos e uma orfandade indefesa mas afoita, ansiosa pelo casamento. O esposo que rapidamente arranjou era alemão ou de origem alemã; e chamava-se Behn. Tudo se imagina para a rápida duração deste casamento. Mr Johann Behn terá morrido, dizem os mais bondosos; Mr Johann Behn teve logo a má surpresa de uma esposa volátil, dizem os mais avisados. Certo é que Aphra Behn, solta de Mr Behn, chegou com apoio de um bom braço à corte de Carlos II. No meio do nobre enfado que rodeava aqueles cortesãos, a jovem Mrs Behn tinha graça, uma irreverência bem medida, uma cativante desenvoltura cultural, tudo quanto incitava o rei às alternativas que o desaborreciam da sua rabugenta esposa portuguesa. Tão grandes


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dons de espírito, tão grande generosidade nos relacionamentos, calhavam bem à eficácia de uma espionagem. Mrs Behn foi espia de Carlos II em Antuérpia. Pode imaginar-se que este ano flamengo tenha segredado ao rei inglês informações de alto preço. Mas… uma espia precisa de grandes meios. Espiar na alta roda exige uma desenvoltura material compatível com a grandeza dos espiados. Mrs Behn tinha deste pormenor uma visão larga, larga de mais, que a fez contrair avultadas dívidas em nome do reino britânico. O regresso a Londres dá-lhe a prisão. E Carlos II passa muito bem na sua corte sem Aphra Behn. Sem marido e sem espionagem, começa com esta desprotecção a escritora de audácia bastante para intrometer as suas saias num mundo ciosamente guardado por homens. (Não nos esqueçamos de que as irmãs Brontë ainda foram, dois séculos mais tarde, Currer, Ellis e Acton Bell, antes de se atreverem a surgir como mulheres-escritoras, e na mesma época Mary Ann Evans se masculinizava com o pseudónimo George Eliot.) Com a pena na mão, Aphra Behn sente-se poeta de versos e vocacionada para fazer rir uma plateia com as suas comédias. Dá-se a conhecer como Astrea, trabalha para a King’s Company e a Duke’s Company, e a primeira comédia que escreve — The Fore’d Marriage or the Jealous Bridegroom — é um dos confortáveis êxitos teatrais de 1670. Dois anos mais tarde o seu livro de versos perturba com os sentimentos equívocos que ousa tão livremente exprimir. O poeta Thomas Creech chega a dedicar-lhe todo um poema onde se lê: «A vossa pena desconcerta-nos / Rendemo-nos à bela inimiga.» Behn chega, nos seus dezanove anos de escritora, a catorze comédias teatrais e a uma tragédia, e só abrandará o ritmo da cria-


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ção dramática em 1682, quando o forte domínio dos Puritanos fecha muitos teatros londrinos e começa a dar-se mal com a graça irreverente daquelas tiradas, ainda por cima surgidas da pena de uma mulher. A escritora Aphra Behn vê-se forçada a ser tradutora e também ficcionista de romances olhados nesse tempo como género menor. Podia orgulhar-se de si um poeta de versos, um imaginador de cenas teatrais, mas nunca um romancista; Daniel Defoe ainda estava a vários anos de entusiasmar o público com Robinson Crusoe, e os ingleses com sobrancelha alta de o aceitar na sua condescendência contrariada. Aphra Behn intercalou, no que já era a sua mais lenta produção teatral, dezoito ficções em prosa (cinco de publicação póstuma). Teve com elas um êxito de vendas aceitável porque sabia excitar os secretamente molestados pelo puritanismo inglês com histórias de uma saudável provocação. E até chegou, entre 1684 e 1687, a um romance epistolar com cerca de mil páginas (Love Letters beetween a Nobleaman and his Sister) onde o adultério e o incesto dão apaixonadas mãos e é por muitos considerado precursor de Les Liaisons Dangereuses, que Choderlos de Laclos publicaria cerca de dez anos mais tarde. Orunoko é a sua obra mais perdurável, embora por razões distantes das surpresas que fez ao leitor de 1689. Na altura da sua publicação violava sem pejo as regras centrais do romance barroco, cantor do herói audaz e imaculado que se apaixona pela heroína pura; Mrs Behn manchava-a (a favor da verdade «biográfica») com a sua sujeição às práticas sexuais, secundárias mas degradantes, de um senil erotismo de serralho; misturava a este transtorno o exotismo de um livro de viagens a terras desconhecidas; temperava-o por vezes com uma subtil vontade de conferir-lhe o mesmo


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registo pícaro que era sua marca nas produções teatrais; e, com frieza de biógrafa, na página final não recuava perante crueldades caucionadas no seu incómodo pela inocência de quem não pode fugir à verdade histórica, mas que subsistem entre as mais violentas de toda a literatura. O leitor actual, mais informado sobre a história do mundo, não deixará também de suspeitar que a África de Aphra Behn escorrega directamente do que lhe ficou de um encanto de contos orientais. Porque o avô de Orunoko, rei de Cormentine (território hoje integrado no Gana), vive rodeado por um luxo e uma volúpia literariamente difundidas pelas histórias de sultões asiáticos, pouco ajustáveis ao que sabemos da África tribal do século XVII. Deparamos ainda nesta história com uma curiosa atitude sobre a escravatura, inaceitável à luz dos conceitos que actualmente tutelam os direitos humanos. Orunoko, ferido profundamente por chegar à situação de escravo a partir de um acto traidor, considera a escravatura legítima se incidir sobre prisioneiros de guerra. Ele próprio tinha vendido a negreiros brancos homens da sua cor, vencidos em batalhas de onde saíra como herói vitorioso. No entanto, transformado depois por causa própria num Spartacus africano, incitaria à revolta escravizados que ele próprio tinha anteriormente vendido como legítima punição da sua derrota na guerra. Sobre todos estes «incómodos», previsíveis num leitor actual, continua no entanto a pairar o que sempre foram as mais reconhecidas seduções de Aphra Behn, a amante de tudo o que dita o coração, mesmo que pouco encarecido pelas regras da moral; a apaixonada pelas belezas do corpo, e do que é ousado e extravagante; a inventora ou transformadora de histórias que se excluem das matrizes firmadas pelas convenções da sua época.


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Mas terá Aphra Behn conhecido através de uma vivência directa o Suriname? Terá conhecido Orunoko? Orunoko terá realmente existido? Estas dúvidas não podem deixar de levantar-se aos que olhem mais de perto para algumas referências, inesperadas em alguém que tivesse lá vivido. O clima tropical-húmido do Suriname é uma «Primavera eterna», a de um verdadeiro Abril-Maio-Junho inglês; e dois episódios — o do tigre com sete balas no coração, o da enguia paralisante — fogem muito ao que atribuiríamos a um directo conhecimento, e em bom lugar se acomodariam entre os mais desvairados momentos de Emilio Salgari. O êxito de Orunoko valeu-lhe no século XVIII cinco diferentes adaptações teatrais com alguns actores pintados de negro, o que não espantava num país habituado a Otelos enfarruscados com fuligem. E também costuma ser assinalado o rasto que deixou na literatura francesa, depois da sua tradução de 1745. Quer-se crer que Voltaire nunca chegaria ao seu Le Orphelin de la Chine, peça teatral de 1775, nem faria Candide encontrar-se com um negro do Suriname, se não tivesse lido este livro de Aphra Behn; que o Padre Prévost não teria imaginado Des Grieux deitado ao lado de Manon morta, se não tivesse passado pela morte de Imoinda ao lado de Orunoko; e que a Victor Hugo nunca teriam ocorrido os exotismos do seu Bug-Jargal. Esta primeira mulher a saber ganhar o seu sustento com dotes do espírito, detestada mas nunca ignorada, indiferente à reputação que uma vasta colecção de amantes lhe colava, teve altas dívidas para pagar e duros dias em que só estava em causa a sua sobrevivência física. Tinha gasto e doente aquele corpo católico, acérrimo defensor dos Stuarts contra a mais vasta opinião do país, aquele corpo de amores levianos que aos quarenta e nove anos de idade


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foi parar — por assinalável largueza de espírito de quem podia decidir — ao campo de honra anglicano de Westminster. Lê-se, desta Aphra Behn em desespero de últimos dias, quatro terríveis versos de um poema final: Está deitada e deixa-lhe, a ciática, todo um lado inerte; Tem os membros deformados, os nervos contraídos pela dor; Não vou portanto dar-me aqui às amenas reflexões: Pobreza, poesia, sífilis — pragas que chegam para uma pessoa só.

A.F.


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Não pretendo, ao contar-vos a história deste escravo real, entreter o meu leitor com aventuras de um herói fictício, com vida e destinos que a imaginação do poeta manipula a seu bel-prazer, nem relatar a verdade enfeitada por quaisquer peripécias, mas apenas o que poderá com seriedade dizer-se que lhe aconteceu; e isto, que muito simplesmente chegará ao mundo por méritos próprios e naturais intrigas, contém da realidade quanto basta para lhe ser dado apoio e fazê-lo empolgante sem os acréscimos da invenção. Eu própria fui testemunha ocular de uma grande parte do que encontramos aqui relatado; e aquilo que não pude testemunhar foi-me transmitido pela boca da principal personagem desta história, o seu herói, que nos põe totalmente a par da sua juventude. O desejo de ser breve far-me-á no entanto omitir mil pequenos acidentes da sua vida, que embora sejam do nosso agrado situam-se em pontos de pouca história e muito raras aventuras, podendo por isso enfastiar e amolecer o meu leitor num mundo onde ele encontra a todo o momento novas e requintadas emoções. Totalmente seduzidos pelo carácter deste grande homem, aspiramos a reunir aqui os mais significativos pormenores da sua vida. O cenário da última parte das suas aventuras tem lugar numa cólonia da América das Índias Ocidentais, chamada Suriname.


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Mas antes de contar a história deste corajoso escravo, convém falar-vos da forma como eles são transportados para estas novas colónias; porque não é costume recorrer-se aos indígenas daqueles lugares; com estes há perfeitas relações de amizade e não nos atrevemos a dar-lhes ordens; pelo contrário, acariciamo-los com todo o amigável e fraternal afecto deste mundo; temos com eles comércio de peixe, carne de caça, peles de búfalo e de pequenas raridades como os saguins, uma espécie de macacos com a maior dimensão igual à de um rato ou de uma doninha, mas forma tão maravilhosa como delicada, com mãos e rosto iguais aos do ser humano; e como os cucharia1, pequeno animal com forma e pelagem de leão mas tão pequenos como um gatinho, embora tenham em todas as partes aspecto idêntico ao daquele nobre animal, chegando a parecer uma sua miniatura. Acrescentam-se a isto pequenos periquitos, grandes papagaios, araras e milhares de outros pássaros e animais com maravilhosas e surpreendentes formas, feitios e cores. No que respeita a peles de prodigiosas serpentes, algumas têm cerca de oitenta pés de comprimento, como a que pode ser vista nos Antiquários de Sua Majestade, onde também há borboletas raras com espantosas formas e cores, que eu pessoalmente ofereci, umas tão grandes como a minha mão, outras mais pequenas mas todas com excelências várias que a arte não saberia imitar. Além disto comerciamos penas a que eles dão toda a espécie de formas e inconcebíveis tonalidades, e que usam para confeccionar curtas peças do vestuário e gloriosas grinaldas para as cabeças, os pescoços, os braços e as pernas. 1 Macacos parecidos com leões, também referidos por George Warren em An Impartial Description of Suriname de 1667. (N. do T.)


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Foi-me oferecido um trajo que cedi à King’s Company e serviu para o costume da Indian Queen1, infinitamente admirado por pessoas de qualidade que não conseguiriam fazer outro igual. Ainda negociamos mil pequenas coisas habilidosamente confeccionadas e raras, como cestos, armas, aventais, etc. Negociamos com eles, dando-lhes em troca miçangas de todas as cores, facas, machados, alfinetes e agulhas que só usam como instrumentos para fazer buracos nas orelhas, no nariz, nos lábios, onde penduram muitas coisas como, por exemplo, grandes miçangas, pedaços de lata, bronze ou prata com aguçadas formas e ainda qualquer espécie de bugigangas brilhantes. Com as miçangas fazem um quadrilátero que serve de avental, com cerca de uma vara de comprimento e largura idêntica, e constroem nele um desenho de muito bonitas flores feitas de contas de várias cores, aventais que são postos na parte dianteira do corpo como Adão e Eva punham folhas de figueira. Os homens usam uma grande faixa de pano que costuma ser-nos comprada para esse efeito. Também enfiam estas miçangas em compridos fios de algodão, fazendo com eles cintos para os aventais, enrolados vinte ou mais vezes à volta da cintura, e cruzando-os também como talabartes à volta do pescoço, dos braços e das pernas. Associado aos longos cabelos pretos e ao rosto pintado num ponto e noutro com pequenas manchas ou flores, este adorno confere-lhes um maravilhoso aspecto. De facto, algumas das suas belezas são lindamente modeladas, acontecendo que existem em quase todos belas feições, encantadoras e fora do vulgar por possuírem tudo o que cha1 Uma tragédia de Robert Howard e John Dryden, representada pela primeira vez em 1664. (N. do T.)


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mamos beleza se exceptuarmos a cor, que é de um amarelo avermelhado ou então, depois de voltarem uma vez mais a ser oleados, o que eles fazem com frequência, da cor de um tijolo novo mas macio, suave e lustroso. São de uma extrema modéstia e envergonhados, muito tímidos, e é agradável tocar-lhes. Apesar de estarem completamente nus, mesmo que vivamos todo o tempo entre eles nunca chegaremos a vê-los praticar um acto ou ter um olhar indecente; e por estarem habituados a ver-se uns aos outros tão despojados, tão parecidos com os nossos pais antes da Queda, dir-se-á que não sentem sensuais desejos. Neles nada existe que nos desperte a curiosidade, já que todos podemos em qualquer momento ver, ver tudo o que há para ver; e onde não houver novidade também não haverá curiosidade. Não é que eu já não tenha visto um índio jovem e belo morrer de amores por uma muito bonita rapariga índia; mas toda a sua corte se limitava a cruzar os braços, a persegui-la com o olhar e a reduzir-se na linguagem a suspiros. Quanto à rapariga, era como se não estivesse presente nenhum apaixonado, ou como se isto não a interessasse, e muito preocupada se mostrava em desviar dele o olhar. Nunca se aproximava e mantinha o olhar posto no chão, ruborizada e com toda essa modéstia que só vi nos mais modestos e prudentes deste mundo. Este povo é para mim o mais genuíno exemplo do primeiro estado de inocência, antes de o homem saber como se faz o pecado; e torna o mais evidente possível, e garantido, que a verdadeira Natureza também é a mais inocente, virtuosa e inofensiva das amantes. Sozinha, e desde que isso lhe seja consentido, mais instrução dá ao mundo do que as invenções do


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homem. A religião, essa, destrói a tranquilidade que eles por ignorância possuem; e as leis só lhes dão a conhecer ofensas de que nenhum conhecimento tinham. Houve uma ocasião em que jejuaram e puseram luto pela morte do governador inglês que lhes tinha prometido para esse dia uma visita e não comparecera, não tendo também enviado nenhuma mensagem. Por acreditarem que só a morte poderia não fazer cumprir uma palavra dada, quando viram que ele não tinha morrido perguntaram-lhe que nome se daria ao homem que promete e não cumpre o prometido. O governador respondeu-lhes que era um mentiroso, e a palavra fazia de um cavalheiro um infame. Disseram-lhe então: «Governador, és um mentiroso e culpado desta infâmia.» Há neles um natural sentido de justiça, incapaz de aceitar que a mistifiquemos. Não sabiam o que era vício nem malícia até os brancos lhos terem ensinado. Têm uma pluralidade de mulheres que ao ficarem velhas servem as mais novas, suas sucessoras, embora se trate de uma leve e respeitada servidão. E a menos que a guerra lhes forneça escravos, outros criados não têm. Os naturais do continente onde estive não tinham rei, embora obedecessem com grande docilidade ao mais velho capitão de guerra. Um capitão de guerra é um homem que os conduz com firmeza e êxito à batalha; e mais à frente, quando vier a propósito, dos seus modos e costumes terei ocasião de falar. Vivíamos em perfeita tranquilidade e bom entendimento com estes nativos, e tal como eu já disse era nosso dever fazê-lo. Conheciam todos os lugares do país onde podíamos encontrar os melhores alimentos e as formas de os obter; a troco de muito pequenas e insignificantes bagatelas abasteciam-nos com


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o que seria impossível nós próprios encontrarmos. Não só nos bosques mas nas savanas desempenhavam o papel de cães de caça explorando com destreza lugares quase indevassáveis; e apenas com a actividade dos pés corriam, fazendo cair os mais ágeis veados e outros animais comestíveis. Em meio aquático convenciam-nos de que eram deuses dos rios ou criaturas que habitavam os abismos, de tal forma se excediam a nadar, a mergulhar e a viver na água, dominando assim os menos ágeis habitantes das correntes. No que respeita à caça, o que não podiam apanhar ou alcançar com as mãos, era obtido com flechas. Tão admirável é a sua capacidade de fazer pontaria, que pouco lhes faltava para fender um cabelo e poderem a qualquer distância acertar com uma flecha no que quisessem. Podem deitar abaixo laranjas e outros frutos fazendo a ponta da seta acertar apenas no pedúnculo, para não atingirem o fruto. São por este motivo muito úteis em todas as ocasiões, o que nos faz ter por absolutamente necessário acarinhá-los como amigos e não os tratar como escravos. De resto, não nos atreveríamos a proceder de outro modo porque o seu número, naquele continente, excede em muito o nosso. Por causa disto usamos negros para trabalhar nas nossas plantações de açúcar; escravos que são negros retintos e desde longe transportados da seguinte forma: Os que precisam de escravos negoceiam com um dono ou capitão de navio e comprometem-se a pagar-lhe um tanto à peça, coisa para chegar a umas vinte libras por cabeça, e que ele aceita liquidar quando lhe forem entregues na plantação. Por isso, quando chega um barco carregado de escravos, os que fizeram este negócio sobem a bordo e recebem por sorteio o seu


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lote, podendo acontecer que num lote, que talvez chegue a dez, haja três ou quatro homens e o resto seja de mulheres e crianças. Tenha o lote mais ou menos de determinado sexo, seremos assim mesmo obrigados a contentar-nos com o que nele constar. Cormantine, terra de negros com este nome, é um dos lugares onde pode arranjar-se mais vantajosamente escravos, e ali negoceia a maior parte dos nossos comerciantes ligados a este tráfico. É uma nação muito corajosa, guerreira, e em permanente campanha com este ou aquele príncipe da vizinhança. Tem sorte, porque faz muitos prisioneiros, e os aprisionados nas batalhas são todos vendidos como escravos, ou são-no pelo menos os mais pobres e incapazes de pagar o seu próprio resgate. Dos escravos assim capturados só os generais tiram proveito; e os donos e os capitães dos nossos navios compram-lhes todos os seus carregamentos. O rei de Cormantine era homem com uma invulgar centena de anos e sem nenhum filho, apesar de ter muitas e bonitas mulheres negras, e ser mais do que certo haver nesta cor belezas susceptíveis de encantar. Nos seus mais jovens anos tinha sido pai de muitos e corajosos filhos homens; treze, mortos num momento do combate em que eram conquistadores. Só lhe fora deixado como sucessor um neto, filho de um destes vitoriosos mortos, que mal teve condições para empunhar um arco e pôr às costas uma aljava foi levado para o campo de batalha, onde recebeu treino de guerra de um dos mais velhos generais. Devido à sua natural vocação para as armas e porque as ocasiões surgiam, foi aos dezasseis anos e sob o comando do velho general um dos mais peritos capitães e um dos mais bravos soldados alguma vez visto num campo de Marte. Adora-


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ram-no, portanto, como a maior maravilha deste mundo, e fez-se o mais querido dos soldados. Era, além disto, venerado por uma beleza nativa que transcendia a de todos os da sua raça, ao ponto de infundir temor e respeito, mesmo aos que ignoravam a sua qualidade; como aconteceu comigo, que o contemplei com encantada surpresa quando surgiu tempos depois no nosso mundo. Mal tinha chegado aos dezassete anos quando o general, combatente ao seu lado, foi morto por uma flecha que lhe acertou num olho, e à qual conseguiu por muito pouco furtar-se o príncipe Orunoko (porque era este o nome do corajoso mouro). E não chegaria tudo a tal fim se o general, apercebendo-se de que a flecha ia ser atirada e atingiria o príncipe, não tivesse baixado a cabeça de forma a interpor-se na sua trajectória, com o propósito de a receber no seu próprio corpo, pondo a salvo o do príncipe. E assim, tão aflito como realmente estava, foi Orunoko nomeado general e substituiu no seu posto aquele velho. E no termo desta mesma guerra prolongada por dois anos, é que o príncipe regressou à corte onde tinha estado um escasso mês, na época que mediou os seus quinze e dezassete anos. Verificou-se com espanto como tinha aprendido tanto sobre os homens ou, para darmos melhor nome às suas prendas, como tinha adquirido aquela inegável grandeza de alma, aquelas requintadas ideias a respeito da honra, a imensa generosidade e a brandura capazes das mais altas paixões no amor e na galantearia, numa altura em que as suas preocupações apenas se ligavam a guerreiros, ou a mutilados de guerra, ou a mortos, e só gemidos e sons bélicos tinha ouvido.


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Uma parte de tudo isto podemos no entanto atribuir aos cuidados de um francês cheio de espírito e saber, que avaliou quanto proveito haveria em ser uma espécie de preceptor real deste homem negro, lhe avaliou a esperteza e a capacidade para uma rápida compreensão. Sentiu grande prazer em ensinar-lhe o que era a moral, línguas e ciências, e foi por causa disto extremamente amado e merecedor de grande estima. Outra explicação estará no gosto que o príncipe tinha em observar, nos seus regressos da guerra, todos os senhores ingleses que faziam negócios naquelas paragens, aprendendo não só a sua língua mas a dos espanhóis com quem tempos depois negociou escravos. Vi este grande homem e frequentes vezes conversei com ele; fui muitas vezes testemunha dos seus grandiosos actos, e poderei assegurar ao leitor que as mais ilustres cortes não deram origem a alguém tão valoroso, quer pela coragem e pelo espírito, quer pelo muito firme julgamento, pela rapidez na compreensão, pela mais amena e divertida das conversas. Tinha um saber quase tão vasto como o de alguém muito lido; ouvira falar dos Romanos e admirava-os; ouvira falar das últimas guerras civis da Inglaterra e da deplorável morte do nosso grande monarca1, e a tal respeito discorria com todo o repúdio e todo o senso que tão inimaginável injustiça lhe merecia. Tinha maneiras extremamente belas, muito graciosas, e toda a civilidade de um grande homem bem formado. Nada de bárbaro havia na sua natureza, e em tudo se comportava como alguém educado numa qualquer corte europeia. 1 Referência a Carlos I, julgado e executado em 1649 por se recusar a aceitar uma monarquia constitucional protestante. (N. do T.)


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A alta qualidade e o perfeito caráter de Orunoko despertaram-me curiosidade e desejo de conhecê-lo, principalmente quando soube que falava francês, inglês, e era possível eu conversar com ele. Mas apesar de ter a seu respeito ouvido muito, senti uma surpresa enorme quando o vi, e era como se nada tivesse ouvido porque o encontrava para lá de todos os relatos. Com a maior graça deste mundo se dirigiu a mim e a mais duas ou três mulheres que estavam na sala. Era muito alto, mas com a mais perfeita constituição que podemos imaginar. O mais famoso escultor não saberia modelar a figura de um homem que era, desde a cabeça até aos pés, tão admiravelmente constituído. O seu rosto não tinha esse negro acastanhado e ferrugento da maior parte dos habitantes da sua nação, mas um ébano perfeito ou um polido azeviche. Tinha os mais terríveis olhos que podemos imaginar; muito penetrantes e com a parte branca, como os dentes, feita de neve. Tinha nariz direito e romano, em vez do achatado africano. A boca era do mais bonito corte que poderia encontrar-se, muito distante desses lábios grossos e salientes, tão vulgares no rosto dos negros. Era de um tão perfeito molde no conjunto das proporções e no aspecto do rosto, que nada havia na natureza mais belo, agradável e bem-parecido, se considerarmos excepção a sua cor. Nenhuma graça das conferidas pela verdadeira beleza lhe faltava. Ajudado pela arte, o cabelo caía-lhe até aos ombros, querendo isto dizer que o alisava com uma pena e tinha-o bem penteado1, dando-lhe o ar de quem prestava a si próprio parti1 Alisava-se o cabelo crespo, oleando-o e fazendo-o depois passar por um corte que fendia o pé de uma grossa pena de ave. (N. do T.)


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culares cuidados. E não ficava, em perfeições do espírito, atrás das que havia na sua pessoa porque era em quase todos os temas de um admirável discurso. Quem o ouvisse falar convencer-se-ia do erro que é imaginar o brilhante espírito todo confinado a homens brancos, em especial aos da cristandade; e teria mesmo de confessar que achava Orunoko capaz de um bom reino e de um sensato governo; que era grande alma com sagazes regras de conduta; que tinha pelo poder grande respeito, como qualquer príncipe civilizado em humanidade e saber pelas mais requintadas escolas ou pelas mais ilustres cortes. Este príncipe de alma e corpo tão admiravelmente ornamentados, e por mim descrito na altura em que ainda se encontrava na corte do seu avô, tinha a capacidade de amor possível de encontrar num bravo e corajoso homem; e dizendo isto designamos o que é de mais elevado grau, porque estas grandes almas são as mais capazes de chegar a uma tal paixão. Como eu já disse, o velho general tinha sido morto ao lado deste príncipe e durante a batalha por um disparo de flecha, e ele fora nomeado general. O velho herói falecido deixava uma rapariga com o seu sangue, filha única e com uma beleza sobre a qual nos bastará dizer, se quisermos descrevê-la, que era da fêmea digna de tão nobre macho; bela Vénus negra para o nosso jovem Marte de tão encantadora figura e virtudes delicadas como as suas. Vi cem homens brancos suspirarem quando olhavam para ela, e depor-lhe aos pés milhares de votos; tudo em vão e sem nenhum êxito. Era, de facto, nobre de mais para alguém, que não fosse príncipe da sua nação, a adorar. Orunoko regressou das guerras (nessa altura terminadas); e depois de prestar homenagem ao seu avô sentiu que era obri-


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gação sua visitar Imoinda, filha do seu pai adoptivo, o general defunto, e pedir-lhe desculpa por dever a sua salvação àquela morte. Presenteou-a com troféus das vitórias do general, os escravos feitos nesse último combate. Quando ali chegou escoltado por todos os jovens soldados detentores de qualquer mérito, de imediato se surpreendeu com a beleza daquela radiosa Rainha da Noite, de rosto e figura que ultrapassavam tudo o que tinha alguma vez contemplado. A sua encantadora modéstia ao recebê-lo, a suavidade dos olhos e dos suspiros ligados ao melancólico momento da honra prestada por um homem tão admirável como Orunoko, príncipe de quem tinha ouvido coisas tão admiráveis, a reverência com que o atendeu, a amenidade das palavras e o comportamento que mostrou enquanto ele ali estava, fizeram daquele coração ardente uma perfeita conquista, levando o vencedor a sentir que podia, também ele, ser subjugado. Depois dos primeiros cumprimentos e da oferta de cento e cinquenta escravos acorrentados, ele disse-lhe com os olhos que não era insensível aos seus encantos; e ao mesmo tempo Imoinda, que nos desejos nada tinha mais forte do que uma gloriosa conquista, encantava-se por pensar que compreendia a silenciosa linguagem de um recém-nascido amor; e desde este momento chamou a si tudo o que pudesse acrescentar-lhe beleza. O príncipe regressou à corte com disposição totalmente diferente. E apesar de não ter falado muito sobre a radiosa Imoinda, teve o prazer de ouvir os seus companheiros referirem-lhe as formosuras, chegando ao ponto de as enaltecerem na presença do velho rei, realçando o mais possível as belezas


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A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire A papisa Joana — segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence Bom Crioulo, Adolfo Caminha O meu corpo e eu, René Crevel Manon Lescaut, Padre Prévost O duelo, Joseph Conrad A felicidade dos tristes, Luc Dietrich Inferno, August Strindberg Um milhão conta redonda ou Lemuel Pitkin a desmantelar-se, Nathanael West Freya das sete ilhas, Joseph Conrad O nascimento da arte, Georges Bataille Os ombros da marquesa, Émile Zola O livro branco, Jean Cocteau Verdes moradas, W.H. Hudson A guerra do fogo, J-H. Rosny Aîné Hamlet-Rei (Luís II da Baviera), Guy de Pourtalès Messalina, Alfred Jarry


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O capitão veneno, Pedro Antonio Alarcón Dona Guidinha do Poço, Manoel de Oliveira Paiva Visão invisível, Jean Cocteau A liberdade ou o amor, Robert Desnos A maçã de Cézanne… e eu, D.H. Lawrence O fogo-fátuo, Drieu la Rochelle Memórias íntimas e confissões de um pecador justificado, James Hogg Histórias aquáticas — O parceiro secreto, A laguna, Mocidade, Joseph Conrad O homem que falou (Un de Baumugnes), Jean Giono O dicionário do diabo, Ambrose Bierce A viúva do enforcado, Camilo Castelo Branco O caso Kurílov, Irène Némirowsky A costa de Falesá, Robert Louis Stevenson Nova Safo — tragédia estranha, Visconde de Vila-Moura Gaspar da noite — fantasias à maneira de Rembrandt e Callot, Aloysius Bertrand Rimbaud-Verlaine, o estranho casal O rato da América, Jacques Lanzmann As amantes de Dom João V, Alberto Pimentel Os cavalos de Abdera e mais forças estranhas, Leopoldo Lugones Preceptores – Gabrielle de Bergerac seguido de O discípulo, Henry James O Cântico dos Cânticos – traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano a idade e o carácter do poema, Ernest Renan Derborence, Charles Ferdinand Ramuz O farol de amor, Rachilde Diário de um fuzilado, precedido de Palavras de um fumador de ópio, Jules Boissière A minha vida, Isadora Duncan Rakhil, Isabelle Eberhardt Fuga sem fim, Joseph Roth O castelo do homem ancorado, Joris-Karl Huysmans Tufão, Joseph Conrad Heliogábalo ou o anarquista coroado, Antonin Artaud Van Gogh o suicidado da sociedade, Antonin Artaud Eu, Antonin Artaud A morte difícil, René Crevel A lenda do santo bebedor seguido de O Leviatã, Joseph Roth O Chancellor (Diário do passageiro J.R. Kazallon), Jules Verne


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Aphra Behn, «Orunoko ou O Escravo Real — Uma história verídica» by Sistema Solar - Documenta - Issuu