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Jerzy Andrzejewski
As PortAs do PArAíso
tradução e apresentação
Diogo Ferreira
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TÍTULO DO ORIGINAL: Bramy raju
© SISTEMA SOLAR, CRL (2019) RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA tradução © DIOGO FERREIRA NA CAPA: WITOLD WOjTkIEWICz, Krucjata DzieciĘca (PORMENOR) REVISÃO: jERÓNIMO CABRITA 1.ª EDIÇÃO, MAIO 2019 ISBN 978-989-8833-40-2
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os livros devem ter fogo e sombra. Jean Cocteau
O ano de 1212, e que distante ele está, foi palco de ocorrências um tanto peculiares. Londres, por exemplo, ardeu com intensa fúria, as chamas provocaram algo como cerca de três mil mortos. Longe dali, a mongólia estava sob a inclemente e aguda tirania de Genghis Khan, que muitos mais cadáveres arrastou consigo, tentando abrir também caminho até à terra Santa, que por aquela altura disputava-se feroz e impiedosamente. O mundo palpitava, a população começava a aumentar, vivia-se e morria-se com grande velocidade, mas o tempo movia-se de forma diferente, fazia-se lento, não lhe era dada importância em extremo. Os analistas que registavam a História nos seus anais faziam-no por vezes com unilateralidade, e tinham também tendência para se equivocarem em datas. era um tempo de exaltados e sangrentos fervores religiosos: travou-se a batalha de Navas de tolosa, que o Papa inocêncio iii acabou por reconhecer como cruzada após rogos vários de afonso de castela. Os homens faziam-se velhos em tenra idade, tinham cada vez mais dificuldade em ganhar o seu pão porque o mundo mudava económica e socialmente. estava-se entre a quarta e a quinta cruzada que se fizeram até jerusalém, que o cristianismo cobiçava para um reino de mil anos…
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umas com maior sucesso do que outras, as cruzadas sucediam-se, mas em 1212 aconteceu o que ficaria gravado na História como a cruzada das crianças, acontecimento particular que o tempo tornou cada vez mais enigmático. Sobre ele escasseiam as informações ricas em precisões, muito não se sabe. Os analistas que acerca disto escreveram chamavam-lhe na altura peregrinacio ou expeditio, visto que o latim não conhecia a palavra cruzada. Sabe-se que partiu de dois locais: primeiro seria de colónia, naquilo que com o tempo viria a ser a alemanha, pensa-se que entre 25 de março e 13 de maio; mais tarde, em julho, parte de França, da zona de cloyes. ambas podem ou não estar ligadas, o que não é de grande evidência. em colónia diz-se que a cruzada teve como líder um tal Nikolas, que acredita-se ter estado na origem deste movimento. Nikolas, segundo o que se sabe, teve uma visão na qual fora por um anjo visitado, e este dissera-lhe que, juntamente com os seus seguidores, devia levar a salvação ao Santo Sepulcro, que os sarracenos dominavam naquela altura. Nikolas afirmava então que, para tal, teria o apoio de Deus, e, tal como este fez com os israelitas, dividiria o mar em dois para que ele e os que o seguiam chegassem à terra Santa sem molharem os pés. Diz-se ainda que este Nikolas usava uma insígnia que parecia ser uma cruz, tinha o formato de um tau — ao que parece não era fácil dizer de que metal era forjada —, e era considerada um sinal da sua santidade e também do seu poder milagroso. consta que milhares daquilo que se designava como pueri, que pode ter um sentido de classe social para além do de crianças, foram em direcção a jerusalém. abandonaram rebanhos, abandonaram os trabalhos de que se ocupavam para sobreviver, deixa-
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ram talvez pais e mães, fatigados de uma pobreza esmagadora. Largaram tudo para reconquistar o Santo Sepulcro, dado que reis e príncipes tentaram e não conseguiram fazê-lo até à data. Por onde passavam, estes cruzados eram encorajados e celebrados pelo povo. Davam-lhes do que comer e beber para lhes facilitar o caminho, acreditavam na sua empresa, acreditavam ser divina, invocada por Deus. todavia, e porque tudo tem as suas duas caras, várias pessoas com desígnios mais vis misturaram-se na cruzada para roubar o que os cruzados recebiam pelo caminho; sabe-se que um herético que o fez foi até enforcado em colónia. chegar a jerusalém implicava complicações várias, adversidades que toldavam esse objectivo. O Verão de 1212 foi, tanto quanto se sabe, particularmente quente, o que em nada facilitou. muitos destes cruzados morreram de insolações, fome e sede ainda antes de conseguirem atravessar os alpes. alguns deles voltaram para casa, é certo, mas outros nem por isso, e os que lograram passar os alpes foram em direcção a itália, e ao entrarem lá asseveraram que «com um só coração e uma só voz iriam atravessar mares por terras secas e recuperar a terra Santa e jerusalém». estranho e inquietante sonho. a 25 de agosto chegaram a Genoa, e crê-se que se podiam contar mais de sete mil: homens, mulheres, rapazes e raparigas. alguns preferiram ficar por Genoa; outros decidiram encaminhar-se para marselha; outros ainda para Vieneiam, onde embarcariam em navios piratas e seriam vendidos aos sarracenos. acontecia uma fragmentação da cruzada. Disseminava-se. confundia-se. muitos destes cruzados ficavam-se pelo caminho morrendo uma má morte, sofrendo também pilhagens da parte dos Lombardos, sendo que muitos deles foram vendidos como
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escravos. Outros, contudo, foram para roma, onde foram libertos do voto que fizeram ao empreender esta cruzada, mas a outros não lhes calhou essa sorte e o seu voto seria adiado para mais tarde. Os que voltaram para casa fizeram-no rodeados pelo opróbrio, na vergonha do falhanço da sua empresa, carregados com a humilhação dos próprios corpos violentados e desflorados. Quanto a Nikolas, para este conhece-se mais do que um possível destino: diz-se que pode ter morrido em Brinosi e, como consequência, o seu pai suicidou-se; no entanto, outra fonte indica que lutou mais tarde na quinta cruzada, em Damieta, e que regressou sem armas. a segunda cruzada, que partiu de França, sobre a qual as informações ainda escasseiam mais, é a que As Portas do Paraíso tomará como tema. tanto quanto se sabe, surgiu em cloyes um pastor chamado jacques que alegava que um pobre peregrino lhe pedira pão e lhe entregara uma carta que devia ser entregue ao rei de França. Nisto há uma semelhança com Pedro o eremita, impulsionador da primeira cruzada, do qual se diz ter recebido também uma carta que lhe foi entregue pelo próprio cristo enquanto rezava no Santo Sepulcro, em jerusalém. a cruzada iniciou-se e seguiu o seu rumo até Saint-Denis, onde, diz-se, várias testemunhas presenciaram jacques a operar vários milagres com o poder de Deus. Houve, dessa maneira, muita gente que seguiu jacques e tomou-o como seu mestre. Passaram por muitos sítios, faziam-se acompanhar de cruzes, bandeiras e velas, e enquanto iam caminhando cantavam e exultavam; fazia-se ouvir, entre tantos outros cânticos, domine deus, exalta Christianitatem et redde nobis veram crucem. e, se calhava alguém perguntar-lhes para onde iam, era emitida uma resposta quase em uníssono: «Para Deus!»
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tendo alcançado Paris, eram cerca de trinta mil cruzados, e dirigiram-se para marselha com o fim de conseguir transpor o mar. Dois mercadores, Hugo Ferreus e Guillaume Porcus, ofereceram-se para os ajudar a vencer o mar sem qualquer custo, acomodando-os assim em sete navios. todavia, e porque tudo contínua a ter as suas duas caras, a muitos destes cruzados custou-lhes a vida pois, enfim, dois destes navios naufragaram. e no que toca aos outros barcos, uns tomaram a direcção de Burgia e outros a de alexandria, sendo que os cruzados foram vendidos aos sarracenos a quem tanto queriam reconquistar a terra Santa. uma fonte refere que o califa comprou quatro mil, todos eles clérigos, e pensa-se que cerca de oitenta eram padres. cerca de dezoito foram torturados até à morte por não renunciarem ao cristianismo. um destes clérigos conseguiu evadir-se, e é ele a fonte destes factos, embora tida em pouca credibilidade, visto que existem várias incongruências, como a de dezoito crianças serem padres. e quanto dos tais Hugo Ferreus e Guillaume Porcus, foram apanhados enquanto conspiravam com mirabellus, o príncipe sarraceno de Sicília, contra Frederico ii, e o destino de ambos foi o enforcamento. contudo é provável que exista um pequeno equívoco e se tenha confundido Guillaume Porcus, almirante de Frederico ii, com Guillaume de Posquières, que se sabia ser um cidadão de marselha que tinha estado envolvido com Hugo Ferreus. em bastantes ocasiões a História é brumosa, indiferente a muitos factos, e se a luz que lança sobre conhecidos acontecimentos consegue ser por vezes difusa, então ainda mais o será sobre a cruzada das crianças. Determinar o que aconteceu ao certo em 1212 envolve-se em dificuldades e resistências que adornam este acontecimento de um mistério e uma beleza que aumentam
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quando se considera o seu valor trágico. algo que por certo seduziria imenso as artes, que através da ficção lhe confeririam a dimensão de uma verdade sempre mais apetecível porque composta de uma elegante precisão que suplantaria a dúbia confusão dos factos históricos. com o passar do tempo houve várias manifestações artísticas da cruzada das crianças, umas mais conhecidas do que outras. talvez uma das primeiras tenha sido na idade média, com uns versos em latim: «Anno millesimo ducenteno duodeno / Ad mare stullorum tendebat iter Puerorum.» Existiram, porém, outras mais, em 1896 marcel Schwob publicaria um breve e fragmentado livro com o título La Croisade des Enfants. tenha-se também como exemplo yukio mishima, que no seu livro de contos Acts of Worship, insere uma narrativa que tem como título «sea and sunset», onde um participante da cruzada, já envelhecido, fala sobre esta. a Kurt Vonnegut apeteceu-lhe dar ao seu conhecido romance slaughterhouse-Five o subtítulo the Children’s Crusade. Outras manifestações surgiram que se estenderam a diferentes planos, sendo alguns deles a música, o cinema, o teatro ou a pintura. Houve no entanto um momento em que jerzy andrzejewski escolheu este tema para compor aquilo a que chamaria As Portas do Paraíso (a que roberto Bolaño daria uma piscadela de olho com o seu livro Nocturno de Chile, seguindo-lhe a estrutura de apenas dois parágrafos — mas que na edição portuguesa editada pela Quetzal, e vá-se lá saber porquê, contém um parágrafo suplementar…). andrzejewski, este escritor polaco, «jovem grande e magro que usava óculos de armação de massa», acompanhou as constantes mudanças políticas e a instabilidade da Polónia. chamavam-lhe moralista. Gombrowicz, por exemplo, chegou a chamar-lhe «padre»
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numa das páginas do seu diário. Outros tantos acabaram por chamar-lhe «uma puta respeitável». Filho de pai merceeiro e de mãe filha de um médico de província, nasceu em 1909. interessou-lhe estudar na universidade de Varsóvia literaturas polacas, mas saiu de lá sem grandes preocupações em trazer consigo um diploma. conhecendo desde cedo as suas orientações sexuais, sabe-se homossexual sem querer admitir essa homossexualidade. a vontade de uma vida normal faz com que se case por duas vezes. a primeira seria com Nona Siekierzyska, mas sobre este curto casamento corria o rumor de não ter sido consumado, pois andrzejewski desapareceu com uma das suas testemunhas, um músico chamado eugeniusz Biernacki. O segundo casamento seria com maria abgarowicz, que duraria mais e dar-lhe-ia dois filhos; esta sabia da homossexualidade do marido e, ao que parece, até concordava com ela. Os seus primeiros trabalhos literários aparecem; com vinte e sete anos de idade publica Caminhos Inevitáveis, e dois anos mais tarde aparece A Harmonia do Coração, livros de contos que já tinham surgido na revista de direita Prosto z Mostu. era um jovem fascinado por escritores como Georges Bernanos, joseph conrad e François mauriac. Ficaria com a fama de «mauriac polaco.» adolf rudnicki, que sobre ele fala num dos seus livros, diz-nos que este andrzejewski, que colaborava com revistas de direita, «logo após a guerra declarou-se do lado do poder popular. (…) É um andrzejewski patético, crente.» informa-nos ainda que «do catolicismo passara ao comunismo». três anos depois do final da Segunda Guerra, andrzejewski publicaria Cinzas e diamantes, do qual, diga-se, cem mil exemplares se venderam rapidamente e que se tornaria no seu mais conhecido romance, retrato de uma
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Polónia devastada pela guerra, que tentava erguer-se dos escombros em que fora deixada. É hoje mais conhecido o filme homónimo de andrzej Wajda, que resistiu à passagem do tempo melhor do que o romance. este mesmo realizador faria, em 1968, uma adaptação d’As Portas do Paraíso, mas tentando transpor aquilo que era o valor e a beleza literária do texto, como afirmaria mais tarde numa entrevista, o filme não alcançaria um grande êxito. andrzejewski continua a sua actividade literária com um número considerável de romances que se iam sucedendo. Para lembrar um caso mais memorável, em 1957 publica As trevas Cobrem a terra, livro um tanto curioso que não só oferece um retrato de tomás de torquemada, mas o da ubíqua inquisição espanhola e faz lembrar, com a sua estrutura, uma peça de teatro. No entanto, andrzejewski estaria ainda para lançar o livro que dizia preferir aos seus outros. As Portas do Paraíso foi impresso em 1960; este livro de uma fulgurante beleza trágica, percorrido por um estilo que emprega uma linguagem hipnótica que muito deve às tendências católicas e moralistas do autor é, como o próprio chegou a dizer, «tecido por alguns factos mais pálidos do que sombras.» É também uma delicada rede de monólogos que sustêm factos volúveis e pouco claros, e que procura capturar uma verdade que vai sempre escapando. Fazendo uso de uma perversão composta por diversas camadas, existe nele uma sexualidade desenfreada para a qual um corpo não passa de um corpo onde, digamos, a homossexualidade presente não se rege por si mesma. É tudo de um carácter puramente natural; algo que procura, através de uma sexualidade pungente atingir vários fins. O valor que As Portas do Paraíso tem é um tanto caleidoscópico; existe nele uma diversidade de intenções, sentimentos
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mais ou menos intencionais, que fazem lembrar um esquema cromático. além disto, a forma como a narrativa se move parece ter o mesmo sentido e ritmo da vida humana que, não sabendo amiúde para onde se dirige, continua. Na sua génese, o livro seguiu o seu caminho. andrzejewski, na revista Nova Cultura, escreveu isto: «eu tinha imaginado, durante muito tempo, que poderia abraçar neste livro a história inteira da cruzada das crianças. a presente edição d’As Portas do Paraíso devia apenas constituir o primeiro capítulo do romance, capítulo intitulado “a confissão”. Só quando redigi o terceiro capítulo é que, por sugestão de dois amigos particularmente favoráveis a esse livro, me dei conta que esse primeiro capítulo representava em todos os aspectos um todo acabado, completo.» e catorze anos mais tarde, no dia 1 de abril, registou assim no seu diário: «(…) penei três anos para escrever este livro, é verdade, arranjando de diferentes formas os fios temáticos enredados. três semanas bastaram-me para o preparar, assim que tive o todo sob os olhos. escrito não somente numa só frase mas, por assim dizer, de um só fôlego.» tendo em conta estes pequenos vislumbres da génese d’As Portas do Paraíso (que começou por se chamar Nuvem do Paraíso), e também o carácter e a figura de andrzejewski, cria-se alguma ligação, ainda que subtil, com as palavras que sobre ele escreveu czesław miłosz no seu livro o Pensamento Cativo, onde o retratou no capítulo que tem como nome «A., ou o moralista»: «a atitude de a. era metafísica e trágica; o problema da pureza atormentava-o — da pureza moral e da pureza do tom no que ele escrevia; destilava as suas frases; queria que cada uma delas fosse não só descritiva mas como que um elemento de uma composição musical, insubstituível, eficaz através do próprio som. esta necessidade de pureza, de uma
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pureza não terrestre, diria eu, era em a. um traço intrínseco de carácter que, nas suas relações com os homens, traduzia-se por uma abordagem altiva e solene. a busca da perfeição no seu trabalho de escritor e a sua soberba a respeito do seu meio social eram coisas estreitamente ligadas. ele sublimava desta forma o seu ser criando um segundo eu no qual projectava todas as suas esperanças. Quanto mais se inquietava com as desordens da sua vida privada, mais preço dava à acção redentora que era, para ele, o acto de escrever, ao qual atribuía a importância de um rito solene. antes de pegar na pena, disse-o alguém, envolvia-se num manto de mágico. a única dignidade capaz de cumular a sua ambição era a de um príncipe da igreja; os movimentos lentos, a púrpura cardinalícia, o anel que se dá para beijar — eis o que melhor conviria ao seu melhor eu.» Sergio Pitol, tradutor d’as Portas do Paraíso para castelhano e que de perto conviveu com o autor, fala dele nestes termos: «quando cheguei à Polónia, o personagem de andrzejewski estava fixado. Para os seus entusiastas representava a moral da nação, uma voz isolada no meio de uma multidão de oportunistas, de frívolos ou de imbecis, e durante os anos que vivi naquele país fui testemunha de infinitas, intermináveis e violentas discussões, sobre a sua personalidade, as suas opiniões, a sua vida. Os cineastas, os jovens escritores, os universitários, veneravam-no. Os dogmáticos, as pessoas de razão, tanto a de esquerda como de direita, abominavam-no. Os primeiros orgulhavam-se da sua lucidez, do seu talento literário, da sua coerência e, sobretudo, da sua valentia, valor supremo na Polónia. Os outros, os representantes da ordem, católicos ou comunistas, detestavam-no. era o pior exemplo que podia dar-se à juventude polaca; a sordidez da sua vida, os sítios e as pessoas que frequentava – diziam eles – tê-lo-iam conduzido há muitos anos, num país que de verdade
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se respeitasse, à prisão. Pensar que aquele pervertido arrogante, amigo de judeus, se atrevesse a falar de moral pública, fazia-os tremer de raiva.» «tínhamos de escrever, era o único meio de nos defendermos contra o desespero.» esta frase, ainda de czesław miłosz, parece oferecer uma ilustração daquilo que era para andrzejewski escrever. No entanto, e porque a vida também corre o seu caminho, na altura em que aparece o seu romance Ninguém, já perto do final da sua vida, conta-nos adolf rudnicki que andrzejewski teve com certeza de ditá-lo porque afectava-o uma falta de visão que fazia dele quase um cego. engordado por excessos de vodka, já pouco saía de casa; e muito tempo não passaria até que, a 19 de abril de 1983, a morte provocada por um ataque cardíaco encontrou-o em Varsóvia, no seu apartamento da rua Nowiniarska com vista para o gueto. Deixaria por terminar um romance sobre o imperador Heliogábalo, figura celerada que devia muito certamente ser do seu interesse. diogo Ferreira
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Pela altura da confissão geral interromperam-se todos os cantos, o terceiro dia da confissão geral estava precisamente a terminar e eles caminhavam ainda pelas profundas florestas da região de Vendômois, sem cantos e sem toques de sinos, numa grande matilha cerrada, mais não se ouvia do que o barulho monótono de alguns milhares de passos, às vezes o rangido das carretas que seguiam o cortejo das crianças transportando as que cambaleavam de esgotamento ou cujos pés estavam demasiado doridos para lhes ser possível andar mais, a estrada que seguia pelos bosques parecia não ter começo nem fim, tinham já passado cinco vezes oito dias desde essa hora vespertina em que Jacques de Cloyes a quem chamavam Jacques o Encontrado e ultimamente também Jacques o Belo deixou a sua solitária cabana de pastor acima das pastagens pertencentes à aldeia de Cloyes e dirigiu-se com estas palavras a catorze pastores e pastoras de Cloyes: o senhor deus todo-poderoso revelou-me que face à cobarde cegueira dos reis, dos príncipes e dos cavaleiros convém que as crianças cristãs façam graça e caridade à cidade de Jerusalém que está nas mãos dos turcos infiéis, porque mais fortes do que todos os poderes na terra e no mar a fé confiante e a inocência das crianças são capazes de realizar as maiores maravilhas, nessa noite de Primavera os catorze partiram enquanto os
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sinos tocavam a rebate e as mães choravam, mas agora, quando entraram nos bosques e há três dias durava a altura da confissão geral que devia lavá-los de todas as suas faltas e de todos os seus pecados, eram bem mais de mil, o sol longínquo resplandecia indolentemente acima de grandes espaços de sombra, humidade e silêncio, mais poderoso do que o seu longínquo brilho era a sombra espessa dos troncos e das raízes, dos ramos e das folhagens, nas alvoradas, quando a luz ainda tímida e friável começava a levantar-se lentamente acima dos espaços de verdura e silêncio os pássaros madrugadores esganiçavam-se no que havia de mais denso nos bosques, esganiçavam-se igualmente ao crepúsculo e pelas noites, durante as quais a cruzada continuava a avançar com o fim de não interromper a altura da confissão, portanto durante as noites, repletas do barulho monótono de alguns milhares de passos, do seio das trevas vinham ao seu encontro as ululantes lamentações dos mochos enquanto as cruzes negras, as bandeiras e os dosséis flutuavam mudos na escuridão, o terceiro dia da confissão geral estava precisamente a terminar e o velho homem que desde há três dias escutava essas crianças em confissão era um grande ancião pesado, vestido com o hábito castanho dos frades menores, durante a altura da confissão geral era ele e não Jacques quem ia à cabeça do cortejo, caminhava lentamente, como um homem cansado enterrando profundamente os pés pesados e inchados na terra húmida, vez a vez as crianças, começando pelas mais jovens, alcançavam-no e caminhando ao seu lado confessavam-lhe os seus pequenos pecados ainda inocentes, e ele pensava: se a infância não conseguir salvar o mundo, já nada
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saberá salvá-lo da perdição, eis que depositei todas as minhas esperanças e todos os meus desejos nestas crianças que caminham pacientemente para um fim que as ultrapassa como me ultrapassa a mim e a todos os homens à face da terra, meu deus velai sobre estas pequenas crianças, eu que conheço todos os pecados do mundo, que conheço até ao último suspiro todos os erros humanos, eu que apesar do meu hábito de burel, da minha pele áspera, dos meus lábios gretados, das minhas velhas pernas inchadas que constituem uma ofensa à alegria e à harmonia, eu que conheço o fundo dos abismos negros tão bem quanto as exaltações dos ardores ilusórios, suplico-vos, meu deus, não permitis nunca que se realize o sonho horrível que tive na noite em que decidi servir estas crianças inocentes, via num sonho um deserto árido e queimado pelo sol, observa — ouvi uma voz indiferente — eis a Jerusalém dos sedentos e dos famintos, é lá que se elevam as suas sagradas muralhas e as suas torres, é lá que estão as portas do paraíso, porque as portas do paraíso só existem verdadeiramente no deserto árido e queimado pelo sol, estás a mentir — respondi eu — o deserto não passa do deserto, é o túmulo dos sedentos e dos famintos — prosseguiu a mesma voz indiferente — é no deserto que se elevam as sagradas muralhas e as torres de Jerusalém, é no deserto que diante dos sedentos e dos famintos se abrem as portas do paraíso, lembro-me, queria eu dizer outra vez: estás a mentir, o deserto não passa do deserto, quando percebi que essa voz indiferente já não estava ao meu lado e avistei dois rapazes que avançavam solitários ao longo do deserto, meu deus — disse para comigo — serão eles os únicos sobreviventes, meu deus, fazei
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com que não seja assim, e enquanto pensava nisso o mais velho que levava o outro pela mão tropeçou e caiu, vai — disse ele reerguendo a cabeça num supremo esforço — vou descansar um instante, a aurora vai despontar, eu via as palmas das suas mãos profundamente enterradas na areia e via a sua cabeça escura que lutava desesperadamente contra a fadiga mortal, vai — disse ele outra vez — é noite, mas a aurora vai despontar em breve, verás Jerusalém, então o mais novo que era frágil e loiro perguntou: não queres vir comigo? vai — repetiu o outro e eu via a sua cabeça tornar a cair sem força, ele já tocava com os lábios no solo arenoso — vai à frente, em frente, sempre em frente, a aurora já começa a despontar, verás em breve as muralhas e as portas de Jerusalém, vai, vou descansar um instante antes de me juntar a ti, e quando o mais novo começou a avançar sozinho vi nos gestos que ele fazia que era cego, meu deus — dizia para comigo — arrancai-me deste sonho, nem sempre via o rosto do jovem cego, ele caminhava sozinho ao longo do deserto árido e queimado pelo sol, tacteando com as mãos incapazes e como que procurando um apoio no ar circundante enquanto o outro, esmagando já a areia do deserto com os lábios moribundos, ainda conseguia soprar: a aurora desponta, vejo as muralhas imensas e as portas de Jerusalém, cintilantes de uma luz que vem não sei de onde, das torres, das portas e das próprias muralhas ou do grande halo luminoso que acima da cidade abrasa o ar e o céu, meu deus, fazei com que o meu sonho jamais se realize, já estava eu desperto mas ainda mergulhado no meu sonho quando o cego frágil e loiro, caminhando em frente sem parar e apalpando com as duas mãos o ar vazio como se apalpasse
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verdadeiras muralhas virou um instante o rosto para mim e depois, não depois, mas logo após essa noite de pesadelo, quando assolado por todos os pecados e mais do que ninguém desejoso de vê-los perdoados fui ao encontro da cruzada das crianças para lhes dizer: minhas pequenas crianças que amo, vocês que foram escolhidas por deus para renovar a infeliz humanidade e neste momento caminham para um fim que vos ultrapassa, lavem-se pelo menos de todos os vossos pecados inocentes, que se instaure entre vocês no começo desta longa e incerta viagem a altura da confissão geral, vi distintamente o rosto desse jovem cego vagueando solitário no deserto árido e queimado pelo sol e, não o permitis, meu deus que sois todo-poderoso, era o rosto de Jacques de Cloyes, o terceiro dia da confissão geral estava agora a terminar, as crianças de Cloyes confessavam-se por último, as que caminhavam na primeira fila do cortejo, entre elas Jacques, Alexis Melissen, o único a não ser oriundo de Cloyes, e Blanche a filha do carpinteiro e robert o filho do moleiro e Maud a filha do ferrageiro, Jacques pensava: sem perder uma palavra das que me dizia jazendo ao meu lado na sombra vi pela primeira vez as muralhas imensas e as portas de Jerusalém, cintilantes de uma luz que vinha não sei de onde, das torres, das portas e das próprias muralhas ou do grande halo luminoso que acima da cidade abrasava o ar e o céu, Alexis Melissen que caminhava ao seu lado pensava: amo-te, embora ignorando se é só de nós, de ti e de mim, que este amor tira o seu começo ou então se foi outro quem o fez surgir do nada antes de a ele voltar por sua vez, é este amor uma ligação entre nós dois ou somente o reflexo de um
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Jerzy Andrzejewski
outro amor que mal teve tempo de balbuciar as suas primeiras palavras antes de ser engolido pelo frio e pela espuma das águas mortais para nunca mais incarnar num corpo nem num verbo, não sei de onde me veio este amor por ti, mas onde quer que ele tenha procurado a sua fonte, onde quer que ele tenha achado o seu deslumbramento primeiro, jamais deixarei de amar-te, porque se existo é com o fim de afirmar através de todo o meu ser, sem eu próprio ser amado, a minha desvairada necessidade de amor, Blanche pensava: ah, que a noite finalmente venha, ele aproximar-se-á do meu leito e quando toda a gente em redor cair num pesado sono dir-me-á anda com voz rouca, depois levantar-me-ei e segui-lo-ei, atravessaremos em silêncio o acampamento para não acordar ninguém até ao momento em que, chegados a um local isolado onde estaremos sozinhos, vamos despir-nos em silêncio pois nem ele nem eu precisamos de palavras, sei no que ele pensa e ele sabe no que penso, penetrar-me-á selvaticamente, brutalmente, em silêncio gozaremos dos nossos dois corpos pensando no momento desse supremo gozo, eu, que não é ele quem mo dá, ele, que não é a mim que mo destina, robert pensava: daqui a umas horas será noite, o tempo arrefecerá e a terra cobrir-se-á de orvalho, se antes de anoitecer não chegarmos a uma aldeia vamos dormir em plena floresta, ao relento, e Maud tremerá de frio, se ela me amasse o calor do meu corpo protegê-la-ia do frio, poderia dormir tranquila nos meus braços, o amor pode fazer esquecer até a fome, Maud pensava: querido senhor Jesus, Jesus para o túmulo do qual caminho lentamente, perdoai-me, querido senhor Jesus se eu vou ao vosso túmulo não para o arrancar
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Os génios, seguido de exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de aspern (versão de 1888), Henry James O romance de tristão e isolda, Joseph Bédier a freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky as lágrimas de eros, Georges Bataille as lojas de canela, Bruno schulz O mentiroso, Henry James as mamas de tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire amor de perdição, Camilo Castelo Branco judeus errantes, Joseph roth a mulher que fugiu a cavalo, d.H. Lawrence Porgy e Bess, duBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-morta — romance, Georges rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna autobiografia, thomas Bernhard Bubu de montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de toledo, Maurice Barrès cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire
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a papisa joana — segundo o texto de alfred jarry, Emmanuel rhoides O raposo, d.H. Lawrence Bom crioulo, Adolfo Caminha O meu corpo e eu, rené Crevel manon Lescaut, Padre Prévost O duelo, Joseph Conrad a felicidade dos tristes, Luc dietrich inferno, August strindberg um milhão conta redonda ou Lemuel Pitkin a desmantelar-se, Nathanael West Freya das sete ilhas, Joseph Conrad O nascimento da arte, Georges Bataille Os ombros da marquesa, Émile zola O livro branco, Jean Cocteau Verdes moradas, W.H. Hudson a guerra do fogo, J.-H. rosny Aîné Hamlet-rei (Luís ii da Baviera), Guy de Pourtalès messalina, Alfred Jarry O capitão Veneno, Pedro Antonio de Alarcón Dona Guidinha do Poço, Manoel de oliveira Paiva Visão invisível, Jean Cocteau a liberdade ou o amor, robert desnos a maçã de cézanne… e eu, d.H. Lawrence O fogo-fátuo, drieu la rochelle memórias íntimas e confissões de um pecador justificado, James Hogg Histórias aquáticas — O parceiro secreto, a laguna, mocidade, Joseph Conrad O homem que falou (un de Baumugnes), Jean Giono O dicionário do diabo, Ambrose Bierce a viúva do enforcado, Camilo Castelo Branco O caso Kurílov, Irène Némirowsky a costa de Falesá, robert Louis stevenson Nova Safo — tragédia estranha, Visconde de Vila-Moura Gaspar da Noite — fantasias à maneira de rembrandt e callot, Aloysius Bertrand rimbaud-Verlaine, o estranho casal O rato da américa, Jacques Lanzmann as amantes de Dom joão V, Alberto Pimentel
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Os cavalos de abdera e mais forças estranhas, Leopoldo Lugones Preceptores – Gabrielle de Bergerac seguido de O discípulo, Henry James O cântico dos cânticos – traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano a idade e o carácter do poema, Ernest renan Derborence, Charles Ferdinand ramuz O farol de amor, rachilde Diário de um fuzilado, precedido de Palavras de um fumador de ópio, Jules Boissière a minha vida, Isadora duncan rakhil, Isabelle Eberhardt Fuga sem fim, Joseph roth O castelo do homem ancorado, Joris-karl Huysmans tufão, Joseph Conrad Heliogábalo ou o anarquista coroado, Antonin Artaud Van Gogh o suicidado da sociedade, Antonin Artaud eu, antonin artaud a morte difícil, rené Crevel a lenda do santo bebedor seguido de O Leviatã, Joseph roth O chancellor (Diário do passageiro j.r. Kazallon), Jules Verne Orunoko ou o escravo real (uma história verídica), Aphra Behn
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