Skip to main content

Georges Bernanos, «Diálogos das Carmelitas»

Page 1

P_Bernanos_Diรกlogo das Carmelitas.indd 2

04/10/19 09:34


tÍtUlo Do oriGiNal: DIALOGUES DES CARMéLITES

© sistema solar, Crl (2019) rUa Passos maNUel, 67B, 1150-258 lisBoa tradução © aNÍBal FerNaNDes 1.ª eDiÇÃo, oUtUBro 2019 isBN 978-989-8833-42-6 Na CaPa: imaGem Do Filme De BrUCkBerGer e aGostiNi reVisÃo: DioGo Ferreira DePÓsito leGal 461990/19 este liVro Foi imPresso Na UlZama, esPaNHa

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 4

04/10/19 09:34


Georges Bernanos DiáloGos Das Carmelitas Extraído de uma novela de Gertrud von Le Fort e de um argumento do R.P. Bruckberger e de Philippe Agostini.

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 5

04/10/19 09:34


P_Bernanos_Diรกlogo das Carmelitas.indd 6

04/10/19 09:34


Houve no romance francês do século XX dois católicos violentamente perturbados por desafios aos alicerces da sua fé. Um deles François Mauriac, um romancista do pecado que imaginava as suas personagens com memória forte das vozes omnipresentes das tragédias clássicas; que assumia o ponto de vista de um Deus e dizia ao leitor o que devia pensar dos homens e das mulheres que ele criava, tirando-lhe a este respeito toda a liberdade. O outro, Georges Bernanos, um romancista que este mesmo Mauriac via como «um ser irritado e por vezes desesperado», com um catolicismo a excluir-se de todas as normas, que se obcecava por conflitos entre a graça divina e sedução satânica, que se mostrava católico com direito a uma visão catastrófica do mundo e à violência tomada como essencial à salvação dos homens não perdidos ainda para a sua liberdade. A estranha força destes dois obcecados, a sua inegável qualidade formal, a sua poderosa onda criativa, deram-lhes leitores num espectro largo que excedeu o da clientela católica. Marcel Arland compreendeu-o muito bem quando se referiu a Bernanos: «Não se encontram nele esses encantos de sacristia ou de confessionário que são alimento de tantas obras delicadamente torturadas. Não se encontram esse ar bravio, esses voluptuosos lamentos e, ao cabo e ao resto, essa conivência que inspira excelentes romancistas a pintar o pecado e sobretudo os pecadores. Podemos mesmo desconfiar de que ele não tem uma opinião do pecado muito ortodoxa. Há nele, no

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 7

04/10/19 09:34


8

A p r e s e n ta ç ã o

entanto, o sentido da vida e da morte. O sentido do tormento até à obsessão. Nele não se trata do pecado, mas da autenticidade dos seres.» Acrescentem-se a estas evidências duas frases do seu romance monsieur ouine: Fala-se muito do fogo do inferno, mas nunca ninguém o viu. […] o inferno é o frio. Georges Bernanos foi um parisiense de infância protegida pelas larguezas de uma bem instalada família burguesa; e muito cedo dominado por uma profunda angústia. Ele próprio escreveu: Desde há muito — por causa da minha mocidade cheia de doenças e precauções que eu era obrigado a ter — sinto medo da morte; e por desgraça (o meu anjo da guarda talvez dissesse «por sorte») continuo a temê-la. a mais pequena indisposição parece-me o prelúdio da derradeira doença que tanto medo me causa. são melancolias sem fim, para as quais só tive durante muito tempo um remédio: atordoar-me. Bernanos, duplamente licenciado em letras e direito, teve uma vida estudantil pouco brilhante nos êxitos e com percalços disciplinares; mais significativo o que lhe valeu em 1909 uns dias de prisão por ter desestabilizado uma aula da Sorbonne vociferando contra o professor que branqueava a Igreja, distorcendo o que tinha sido o seu nefasto papel durante o processo de Joana d’Arc. (Note-se que a sua admiração por esta guerreira com sopros divinos e odores campestres fez-lhe escrever mais tarde «Jeanne relapse et sainte» e talvez não tenha estado ausente na escolha da mulher com quem se casou em 1917, uma Jeanne Talbert d’Arc, garantida descendente desta visionária belicista.) Com uma invencível indiferença pelas facilidades materiais que podiam chegar-lhe da formação académica, resolveu reduzir-se a modesto angariador de seguros para a companhia La Nationale. Talvez pudesse dedicar-se assim, com o tempo livre que esta

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 8

04/10/19 09:34


A p r e s e n ta ç ã o

9

ocupação lhe dava, à intervenção política que a sua filiação nas fileiras monárquicas dos Camelots du roi o incitava a apoiar, e talvez pudesse mostrar-se à França e ao mundo — sua ambição máxima — como escritor. Tudo isto ele cumpriu, mas sob o peso que a educação e o sustento de seis filhos — frutos da irreprimível fertilidade daquela esposa descendente de Joana d’Arc — faziam cair sobre o seu orçamento familiar. Em 1926, com vinte e oito anos de idade, mostrou-se ao público como autor de sous le soleil de satan saudado como acontecimento literário, assinalável êxito num público que lia com espanto a tenebrosa história da mística Mouchette conquistada pelo vício, e de um padre-carrasco ascético e furioso lutador contra o Mal; um público que atravessava aquela trama de invulgar violência sem se deixar abater pela construção literária deliberadamente caótica que melhor servia o seu propósito, admitamos, mas toda ao contrário dos hábitos do leitor comum. No ano seguinte, l’imposture e la Joie não obtiveram a mesma aceitação. O grande escritor não voltava a seduzir o grande público; as suas histórias pareciam desnecessariamente soterradas por uma complexidade literária pouco comum e até se dava o caso de la Joie, com o evidente propósito de construir uma intriga de livro policial, se desnaturar com um estilo hostil aos amantes do género. Em 1934 Bernanos trocou as dificuldades materiais que os preços altos de Paris lhe impunham pela vida barata de Palma de Maiorca, onde conseguiria viver com menos sobressaltos pecuniários e onde poderia comprar um peixe quase dado, di-lo assim numa carta. E foi a respirar este benfazejo clima espanhol que imaginou o Journal d’un curé de campagne, o seu segundo êxito de vendas. Porém, quando o publicou já a doce Espanha se

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 9

04/10/19 09:34


10

A p r e s e n ta ç ã o

conturbava; já vivia a agitação política da Guerra Civil que começou por desviá-lo para o lado de Franco (o seu filho Yves combateu pela Falange), embora esse mesmo Franco não tardasse a mostrar-lhe o que ele só podia julgar como intoleráveis atrocidades, as que surgiram literariamente na tremenda e feroz denúncia de les Grands cimetières sous la lune (com uma primeira edição esgotada em quinze dias), texto lido com agrado por todas as esquerdas mas com desagrado pelas direitas. Albert Camus registou no alger républicain esta radical separação de águas: «Bernanos é um escritor duas vezes traído. Se os homens de direita o repudiam por ter escrito que os assassinos a mando de Franco lhe causam nojo, os partidos de esquerda aclamam-no apesar de ele não querer pôr-se do seu lado. é no entanto preciso respeitar o homem na sua totalidade, sem tentar anexá-lo.» Pouco depois do seu regresso a França, fugido de uma Falange que o ameaçava e já lhe tinha posto a cabeça a prémio, um acidente de motocicleta deixou-o fisicamente afectado; mas pôde ainda assim escrever uma Nouvelle Histoire de mouchette, onde a personagem de sous le soleil de satan volta a lembrar-se da Guerra Civil espanhola e dos seus mortos, da amena complacência da igreja católica perante os fascistas de Franco. Chegaram depois os anos conturbados da Segunda Guerra Mundial; «os anos de Hitler», que ele suportou até 1943 numa França ocupada onde não resistiu a escrever textos pouco amáveis para com o governo-fantoche de Vichy; um pedido a seu favor, feito pelos benquistos do nazismo Sacha Guitry e Arletty, livraram-no da prisão; mas fê-lo sentir que só longe daquela Europa incendiada passaria a estar seguro. Já a salvo, já no ar calmo do outro lado do Atlântico, começou por ter uma hesitação: o Paraguai ou o Brasil? Decidiu-se,

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 10

04/10/19 09:34


A p r e s e n ta ç ã o

11

avaliados os prós e os contras da sua permanência em terras que iriam ser sempre estranhas à sua cultura e aos seus hábitos, pelo Rio de Janeiro. Escreveu lá artigos que animavam de longe os que faziam de perto a Resistência Francesa; e também escreveu monsieur ouine, romance com audácias numa estrutura irritantemente lacunar, que o destinaram a um dos maiores fracassos comerciais do ano editorial francês de 1946. A paz europeia, numa França agora dirigida pelo general De Gaulle e com uma lufada de meias liberdades, entusiasmou-o por pouco tempo e deu-lhe as surpresas de um convite para ocupar um posto ministerial, e também outro que lhe oferecia um lugar no topo de uma embaixada, qualquer deles respondido com uma agradecida recusa. Decidiu em 1947 que devia voltar a desaparecer da França. Já tinha na sua vida um primeiro afastamento em Palma de Maiorca, inspirado por dificuldades materiais, um segundo que o tinha posto nas distâncias do Brasil e possivelmente a salvo dos campos de concentração nazis; dispunha-se agora, entediado e desiludido com o seu país, a um terceiro numa África árabe, próxima e francesa, uma África ali à mão, a da Tunísia. Desde o grande fracasso comercial de monsieur ouine, a sua actividade literária tinha-se ficado pela publicação de escritos de combate (muitos, no seu conjunto, hoje distribuídos por vários títulos temáticos — Français, si vous saviez…; les enfants humiliés; la liberté, pour quoi faire?; le Crépuscule des vieux; le lendemain c’est vous); mas fez-lhe nos últimos tempos de vida uma única e inesperada excepção, acrescentando à sua veia central de romancista o desvio de um brilhante argumento cinematográfico a que deu o título Diálogos das Carmelitas.

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 11

04/10/19 09:34


12

A p r e s e n ta ç ã o

* o povo das revoluções exalta-se contra aqueles que o oprimiram ou viveram alheios aos valores da sua luta. Incitado por esta irrecusável força, o da Revolução Francesa guilhotinou um rei e uma rainha; guilhotinou nobres e abastados que surgiam ao contrário dos ideais da nova ordem política e social; e também se revoltou, como seria de prever, contra o forte e conivente poder da religião católica. A chamada descristianização revolucionária suprimiu o cristianismo, deportou e assassinou padres, obrigou os que sobravam a renegar os seus votos, destruiu cruzes e imagens, proibiu festas religiosas. E em 17 de Julho de 1794, na praça De la Nation (hoje praça Du Trône Renversé) guilhotinou dezasseis carmelitas transportadas desde o convento de Compiègne, uma localidade a oitenta quilómetros de Paris, oferecendo ao povo como exemplo a sua morte pública. Houve porém desta vez um desvio ao que já era a monótona encenação de um repetido espectáculo. (é mesmo provável que as tricotadoras da imaginação histórica de Charles Dickens tenham interrompido o trabalho das suas agulhas.) O público foi impressionado por aquele grupo de freiras com trajo civil que avançou em direcção ao cadafalso renovando em voz alta os seus votos e a cantar o Veni Creator num coro que foi diminuindo o número das suas vozes até ao solo da última, terminado por um silêncio que a assistência sentiu uma demorada relutância em quebrar. Corpos e cabeças foram depois sepultados numa vala-comum do cemitério de Picpus; e em 1906, cento e doze anos mais tarde, o papa Pio X reconheceu a estas freiras um heroísmo e um martírio que as tornava dignas de acrescentar com os seus nomes a lista dos beatificados.

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 12

04/10/19 09:34


A p r e s e n ta ç ã o

13

Em 1931, a escritora alemã Gertrude von le Fort fez destas carmelitas e deste dramático final matéria para o seu romance Die letzte am schafott (a Última ao Cadafalso) acrescentando às dezasseis carmelitas «históricas» uma décima sétima a que chamou Blanche de la Force (nome nitidamente inspirado no seu Le Fort). «Ela recebeu o sopro de um espírito», escreveu quando lhe falaram desta semelhança fonética; «e não é possível libertá-la dessa origem que é a sua. Nascida no profundo horror de um tempo assombrado pelos sinais do destino, a personagem surgiu-me como emblema de uma época na sua agonia e a trabalhar para a sua própria ruína.» Vivia Bernanos na Tunísia quando recebeu do padre dominicano Bruckberger o texto de um argumento cinematográfico baseado no romance de Le Fort e escrito por si, a meias com Philippe Agostini, o conhecido director de fotografia, argumentista e até realizador do cinema francês. Pedia-lhe que o rescrevesse; estava em crer que o tema subiria na sua qualidade alguns degraus se fosse tocado por um sopro «à Bernanos». E houve esse sopro solto por um Bernanos já doente com iniludíveis sinais de um cancro no fígado. Em dias de grande desgaste físico escreveu um novo argumento fílmico («o seu» argumento fílmico — muito literário, aliás) esquecido na Tunísia quando regressou apressadamente à França depois do seu ano de sol e tâmaras, para não ser salvo pela medicina de Paris; foi recuperado em 1949, no monte de papéis abandonados no seu quarto de hotel, e nesse mesmo ano publicado como obra póstuma. O filme a que ele se destinava só teve realização em 1960, dirigido por Bruckberger e Agostini a partir do texto de Bernanos expurgado dos seus excessos literários, com freiras em ecrã largo e vistas por uma fotografia a preto e branco, tendo no seu elenco Jeanne Moreau e Alida Valli. (Baseado nele já tinha havido anos antes uma ópera com libreto e

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 13

04/10/19 09:34


14

A p r e s e n ta ç ã o

música de Francis Poulenc, estreada com grande êxito de crítica e de público no Scala de Milão em Janeiro de 1957.) é provável que Bruckberger esperasse de Bernanos uma versão subtilmente incomodada no que mais imediato nos ressalta do tema histórico das carmelitas guilhotinadas pelos cidadãos da Revolução Francesa. E não ficou por certo desiludido com o texto póstumo (e não revisto pelo autor) abandonado entre outros papéis no quarto de hotel da sua época tunisina. * Os conventos das carmelitas — de uma ordem contemplativa inventada pela Teresa de Ávila «que morria porque não morria», como se lê num dos seus poemas — foram em séculos passados lugares de eleição onde se internavam compulsivamente jovens com paixões mal vistas pelos seus pais ou com direitos de herança que não convinham às estratégias da sua família. A época romântica deu-nos romances, alguns deles com uma qualidade literária que o tempo não desgasta, onde são explorados os vários matizes destas reclusões trágicas. No texto de Bernanos a mesma situação foge à regra da violência imposta, mas sem ser menos dramática. Blanche de la Force escolhe em liberdade um convento do Carmelo; não por vocação religiosa — os antecedentes deste acto incitam-nos a interpretar assim a sua escolha — mas por uma razão mundana e mais impura, a de sentir na reclusão desse espaço uma defesa contra o trauma psicológico que a atormenta desde a infância. Blanche mostra um invencível medo perante as agressivas energias da sociedade e do mundo; o seu irmão chama-lhe lebre porque prefere a

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 14

04/10/19 09:34


A p r e s e n ta ç ã o

15

toca e enfrenta o espaço exterior com a mesma temerosa cautela das lebres em relação aos perigos da floresta. Admitida entre as freiras carmelitas de um convento de Compiègne, sentimos dentro dele várias forças fugidias à disciplina central da contemplação. O diálogo em períodos de recreio não escapa aos ecos do mundo. As religiosas não conseguem desfazer-se do seu passado mundano, ao ponto de ouvirmos a superiora dizer: Vamos, vamos lá ver, minhas filhas! Deixámos há dez minutos que a rédea vos caísse no pescoço e já estais, Deus me perdoe, a dar uma sessão como os senhores do Parlamento! Na aparência, Blanche adapta-se aos poucos à regra do isolamento que tem para ela a vantagem de mantê-la afastada de tudo o que patologicamente sente como agressão do mundo. Mas não ilude Marie de l’Incarnation, uma das freiras com mais poder no convento, que lhe nota qualquer coisa a que chama «falta de carácter» e considera capaz, perante as provações que a política do momento irá fazê-las sofrer, de constituir «um perigo para a comunidade». Por outro lado a superiora, a quem se devem no texto os momentos de mais «ortodoxa» expressão se levarmos em conta o que está no centro das regras da Ordem, tem apesar disto uma noção de martírio que desilude a fervorosa impetuosidade de algumas das suas freiras. Passamos em diversas ocasiões pelas suas didácticas advertências: somos pobres mulheres reunidas para orar a Deus. Desconfiemos de tudo o que pode desviar-nos da prece, desconfiemos até do martírio. a prece é um dever, o martírio é uma recompensa. Ou: Por que havemos de falar em martírio? Connosco não está em causa o martírio; não quero que as nossas cabeças se esquentem com isso. Ou: Uma carmelita que deseja o martírio é tão má carmelita como o mau

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 15

04/10/19 09:34


16

A p r e s e n ta ç ã o

soldado que procura a morte antes de executar as ordens do seu chefe. Por isso, quando as freiras de Compiègne resolvem adoptar o martírio, sem cumprir as ordens da Revolução que as deixariam livres se aceitassem renegar os seus votos e a sua fé, a superiora mostra um desacordo. Ela preferiria uma anuência falsa, que mantivesse secretamente condições para o renascimento da Ordem quando surgissem na situação política condições que o permitissem. Mas é tarde de mais para fazê-las voltar atrás. Há neste ponto do drama que falar de um texto do filósofo Charles Péguy que tinha causado uma profunda impressão em Bernanos e dado molde à sua concepção pessoal de martírios: «Há uma certa e profunda concorrência entre a religião da honra e a religião de Deus», diz Péguy. «Nesta religião da honra, o que lá encontramos de honra humana e, poder-se-ia dizer, de estoicismo, é aquilo que na cavalaria nem sempre esteve de acordo com uma religião que põe o Orgulho à cabeça dos Capitais e talvez tenha feito da humildade mais do que uma virtude, transformando-a no que ficou a ser a sua própria forma e seu ritmo.» Vinte anos antes Bernanos tinha publicado «Jeanne relapse et sainte», onde falava de Joana d’Arc sem se esquecer desta mesma forma péguyana de martírio, que na mártir nada teve de estoicismo nem de orgulho: ela amou o que os soldados amam, à maneira dos soldados que a nada se apegam, preparados dia a dia para abandonar tudo. Sente-se no Bernanos de Diálogos das Carmelitas a consciência desta mesma oposição, mas agora com a vitória do Orgulho. As freiras guilhotinadas caminham para o cadafalso com muito mais orgulho do que fé; vão de cabeça levantada por um orgulho soprado pela Verdade que defendem, sem importar aqui se davam um exemplo de «más carmelitas», como lhes era sugerido

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 16

04/10/19 09:34


A p r e s e n ta ç ã o

17

pelo bom senso da sua superiora. Mas Blanche? Quem nos garante que Blanche de la Force, novamente fustigada pelo mundo que não suporta, aterrorizada a todo o momento pelos homens que agora a maltratam e violentam, não o faz por um patológico desespero de mundo onde nada existe da orgulhosa força que suporta uma superior Verdade? Blanche de la Force avança para o cadafalso com um rosto despojado de todo o temor; mas Bernanos também não se esquece de escrever qualquer coisa que parece logo a seguir desajustada a esta aparência de invencível decisão; porque é, no final do seu caminho em direcção ao sacrifício, empurrada para a guilhotina por um grupo de mulheres. Qual é a função dramática deste empurrão, numa personagem que parece tão decidida a enfrentar a guilhotina? Teremos até ao fim consciência das indecisões que oscilaram entre a duvidosa Blanche da Força, que o seu involuntário nome de baptismo lhe impôs, e a Blanche da Fraqueza, que o seu comportamento quis mostrar; e do texto sairemos — muito ao gosto das contradições caras a Bernanos — sem uma definitiva resposta para dar. * A morte de Bernanos, a 5 de Julho de 1948, espalhou na imprensa um assinalável número de artigos, memórias e estudos críticos que o tiverem como tema. Era um grande escritor francês dessa primeira metade do século XX; deixava na literatura a sua marca ligada a um invulgar êxito formal e a uma atitude de católico pouco adaptada às correntes centrais da sua religião. Também era um homem que seduzia, também era um homem que parecia não encontrar um lugar cómodo para viver a sua época. Registemos aqui, destes dois lados, significativos testemunhos:

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 17

04/10/19 09:34


18

A p r e s e n ta ç ã o

Philippe Soupault quando o incluiu nos seus Profils Perdus: «O que desde logo me fascinou quando encontrei pela primeira vez Georges Bernanos, foram os seus olhos de um azul que eu nunca tinha visto e não voltei a ver; foi o seu olhar. Olhar directo, sincero, perscrutador, luminoso, um olhar impossível de esquecer. Depois escutei-o, já fascinado. Uma voz de trovão mas quente, amiga, uma voz que despertava ecos. E o seu riso. Um riso de gigante. Um riso irresistível e contagioso. […] Ele era, e eu sabia-o, um católico militante, provocador, da Action Française. Eu estava pronto a detestá-lo. E reciprocamente. Eu era ateu e de extrema esquerda. Um caso desesperante. No entanto simpatizámos imediatamente. E sei porquê. Acima de tudo nós éramos inconformistas.» Gaëtan Picon em l’impatiente joie: «Cristão num mundo sem Cristo e sem Deus; monárquico numa época que só hesita entre a democracia e o totalitarismo; aristocrata no reino das massas e do Partido; individualista na apoteose do colectivo; cavalheiresco no tempo dos desenrascados de meia tigela e do egoísmo; tradicionalista num mundo que se afasta cada vez mais do passado; velho europeu no declínio da Europa; soldado entre oficiais militares; homem entre robôs.» Georges Bernanos: o homem que escreveu e viveu com uma incómoda incandescência interior. A.F.

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 18

04/10/19 09:34


Como bem vedes, num certo sentido o medo é bem o filho de Deus resgatado na noite da sexta-Feira santa. Não é belo de se ver — não! — ora troçado, ora amaldiçoado, por todos renegado… Não vos enganeis, porém: está à cabeceira de todas as agonias, intercede pelo homem. La Joie.

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 19

04/10/19 09:34


P_Bernanos_Diรกlogo das Carmelitas.indd 20

04/10/19 09:34


PrÓloGo

ce n a i Em 1774. Na praça Luís XV, em Paris, na noite das festas organizadas para o casamento do Delfim, futuro Luís XVI, com a arquiduquesa Maria Antonieta. As carruagens dos aristocratas passam no meio da alegre multidão contida pelo serviço da ordem. Vemos numa das carruagens um casal jovem, o marquês De la Force e a sua mulher, que está grávida. O marquês desce do carro e afasta-se em direcção às tribunas. O fogo de artifício começa, mas de repente caixas de foguetes incendeiam-se e as explosões sucedem-se. Apesar de não haver ali nenhum perigo grave, a multidão é invadida pelo pânico. Atropelos, gritos de medo, gente cai no chão e é espezinhada. Com o susto, a marquesa fecha o ferrolho da porta. O cocheiro fustiga os cavalos, que desatam a galopar numa corrida louca. Uma repentina cólera da multidão pára os cavalos e um vidro voa em estilhaços. Uma voz de homem grita: «Não tarda que tudo seja diferente; sereis vós os massacrados, e andaremos nós nas vossas carruagens!» Os soldados chegam a tempo de tirar dali a marquesa, prestes a ser vítima de maltratos.

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 21

04/10/19 09:34


22

Georges Bernanos

ce n a i i Algumas horas mais tarde. Um médico sai do quarto da marquesa no palácio De la Force. Anuncia ao marquês que acaba de nascer-lhe uma filha, mas que a jovem mãe morreu.

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 22

04/10/19 09:34


Primeiro QUaDro

ce n a i Palácio De la Force. Abril de 1789. O marquês e o cavaleiro visivelmente surpreendido com a presença do seu pai, mas incapaz de não fazer a pergunta que lhe queima os lábios: O Cavaleiro: onde está a Blanche? O Marquês: Palavra minha que não sei; por que diabo não o perguntais às suas mulheres, em vez de entrardes nos meus aposentos como um turco, sem dizer água-vai? O Cavaleiro: Peço-vos mil desculpas. O Marquês: Na vossa idade não há grande mal em sermos um pouco impulsivos, como é na minha natural mantermo-nos fiéis aos nossos hábitos. a visita do senhor vosso tio impediu-me de dormir a sesta; e para dizer toda a verdade acabo de passar um pouco pelas brasas… mas o que quereis à Blanche? O Cavaleiro: o roger de Damas, que acaba de sair daqui, teve por duas vezes de arrepiar caminho para não ser apanhado numa grande massa de povo. Corre o boato de que vão queimar em efígie o réveillon na praça de Grève1. 1 Jean-Baptiste réveillon, proprietário da manufactura real de papéis, símbolo do homem rico que pagava mal aos seus empregados, foi queimado em efígie a 27 de abril de 1789. (N. do T.)

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 23

04/10/19 09:34


24

Georges Bernanos

O Marquês: Pois bem, que a queimem! Com o vinho a dois soldos, bem pode esperar-se que a Primavera esquente um pouco as cabeças. tudo isso passará. O Cavaleiro: se eu me permitisse dizer na vossa presença uma graça de mau gosto, responderia que arriscais a não ser bom profeta quanto à carruagem da minha irmã. o Damas viu-a parada pela multidão no cruzamento de Bucy. O marquês De la Force, que mantinha a tabaqueira aberta, fecha-a sem nada tirar de lá; e como o cavaleiro se aproxima dele, afasta-o suavemente com a mão esquerda. O Marquês: a carruagem… a multidão… perdoai-me, mas são imagens que muitas vezes me assombraram as noites… Hoje é vulgar falar-se de motim ou mesmo de revolução, mas quem não viu a multidão em pânico, não viu nada… Com mil raios! todos aqueles rostos de boca torcida, aqueles milhares e milhares de olhos… misericórdia! a praça começou de repente a ferver de uma ponta à outra, viam-se a incrível altura voar as bengalas e os chapéus como se fossem atirados ao ar pela explosão de um grito imenso. Depois, algumas testemunhas juraram-me que não tinham visto esses chapéus e essas bengalas mas eu… com mil diabos… vi-os! O Cavaleiro: Perdoai-me, senhor, eu talvez tenha compreendido mal… Voltei mais uma vez a falar como um estouvado. O marquês volta a agarrar na tabaqueira. Bate com a ponta dos dedos na tampa, com um ar de quem medita.

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 24

04/10/19 09:34


P_Bernanos_Diรกlogo das Carmelitas.indd 6

04/10/19 09:34


P_Bernanos_Diรกlogo das Carmelitas.indd 6

04/10/19 09:34


D i á l o g o s d a s C a r m e l i ta s

155

Madre Marie: Não posso deixá-las morrer sem mim! O Padre: Nesse caso, o que importa a vossa vontade? Deus escolhe ou reserva como lhe apraz. Madre Marie: Fiz o voto do martírio… O Padre: Fizestes-lo a Deus; devereis responder-lhe, e não às vossas companheiras. se aprouver a Deus dispensar-vos dele, é porque deseja ficar apenas com o que lhe cabe. Madre Marie: estou desonrada! O Padre: eu esperava essa palavra! oh! Não a condeno! em vós é evidente o grito da natureza na agonia. temos à vista o sangue, sim, temos à vista o sangue que Deus vos pede e tereis de derramar! e embora deis com alegria aquele que vos corre nas veias, embora o derrameis como se fosse água, cada gota sua tirará de vós mais do que a vida! A madre Marie de l’Incarnation mantém-se de pé, com a atitude de alguém que reúne forças para resistir a uma tortura quase intolerável. Madre Marie: o último olhar de todas elas vai inutilmente procurar-me. O Padre: Pensai apenas noutro olhar, e nesse devereis fixar o vosso.

ce n a xvii Praça da Revolução. As carmelitas descem da carroça, perto do cadafalso. Na primeira fila da multidão compacta reconhecemos o

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 155

04/10/19 09:34


156

Georges Bernanos

padre com o barrete frígio na cabeça, a fazer um discreto sinal da cruz, a murmurar a absolvição e rapidamente a desaparecer. Pouco depois as irmãs entoam o salve regina, e ainda o Veni Creator. As suas vozes são claras e muito firmes. A multidão cala-se, surpreendida. Vê-se apenas a base do cadafalso para onde as irmãs sobem uma a uma, sempre a cantar; e à medida que desaparecem, o coro vai ficando com menos vozes. Só há duas, e depois uma. Mas nesse instante ergue-se num canto da grande praça uma nova voz, ainda mais firme apesar de haver nela qualquer coisa de infantil. Vemos a jovem Blanche de la Force avançar em direcção ao cadafalso, através da multidão estupefacta que lhe dá passagem. O seu rosto parece despojado de todo o temor. Deo Patri sit gloria et Filio qui a mortuis surrexit ac Paraclito in sæculorum sæcula. Brusco movimento da multidão. Um grupo de mulheres rodeia Blanche, empurra-a em direcção ao cadafalso e perdemo-la de vista. De repente a sua voz cala-se como já tinha acontecido, uma após outra, às vozes das suas irmãs.

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 156

04/10/19 09:34


A papisa Joana — segundo o texto de Alfred Jarry, emmanuel rhoides O raposo, D.H. lawrence Bom Crioulo, adolfo Caminha O meu corpo e eu, rené Crevel Manon Lescaut, Padre Prévost O duelo, Joseph Conrad A felicidade dos tristes, luc Dietrich Inferno, august strindberg Um milhão conta redonda ou Lemuel Pitkin a desmantelar-se, Nathanael West Freya das sete ilhas, Joseph Conrad O nascimento da arte, Georges Bataille Os ombros da marquesa, Émile Zola O livro branco, Jean Cocteau Verdes moradas, W.H. Hudson A guerra do fogo, J.-H. rosny aîné Hamlet-Rei (Luís II da Baviera), Guy de Pourtalès Messalina, alfred Jarry O capitão Veneno, Pedro antonio de alarcón Dona Guidinha do Poço, manoel de oliveira Paiva Visão invisível, Jean Cocteau A liberdade ou o amor, robert Desnos A maçã de Cézanne… e eu, D.H. lawrence O fogo-fátuo, Drieu la rochelle Memórias íntimas e confissões de um pecador justificado, James Hogg Histórias aquáticas — O parceiro secreto, A laguna, Mocidade, Joseph Conrad O homem que falou (Un de Baumugnes), Jean Giono O dicionário do diabo, ambrose Bierce A viúva do enforcado, Camilo Castelo Branco O caso Kurílov, irène Némirowsky A costa de Falesá, robert louis stevenson Nova Safo — tragédia estranha, Visconde de Vila-moura Gaspar da Noite — fantasias à maneira de Rembrandt e Callot, aloysius Bertrand Rimbaud-Verlaine, o estranho casal O rato da América, Jacques lanzmann As amantes de Dom João V, alberto Pimentel

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 158

04/10/19 09:34


Os cavalos de Abdera e mais forças estranhas, leopoldo lugones Preceptores – Gabrielle de Bergerac seguido de O discípulo, Henry James O Cântico dos Cânticos – traduzido do hebreu com um estudo sobre o plano a idade e o carácter do poema, ernest renan Derborence, Charles Ferdinand ramuz O farol de amor, rachilde Diário de um fuzilado, precedido de Palavras de um fumador de ópio, Jules Boissière A minha vida, isadora Duncan Rakhil, isabelle eberhardt Fuga sem fim, Joseph roth O castelo do homem ancorado, Joris-karl Huysmans Tufão, Joseph Conrad Heliogábalo ou o anarquista coroado, antonin artaud Van Gogh o suicidado da sociedade, antonin artaud Eu, Antonin Artaud A morte difícil, rené Crevel A lenda do santo bebedor seguido de O Leviatã, Joseph roth O Chancellor (Diário do passageiro J.R. Kazallon), Jules Verne Orunoko ou o escravo real (uma história verídica), aphra Behn As Portas do Paraíso, Jerzy andrzejewski Tirano Banderas (novela de Terra Quente), ramón del Valle-inclán Caustico Lunar seguido de Ghostkeeper, malcolm lowry Balkis (A Lenda num Café), Gérard de Nerval Diálogos das carmelitas, Georges Bernanos O Estranho Animal do Vaccarès, Joseph d’arbaud

P_Bernanos_Diálogo das Carmelitas.indd 159

04/10/19 09:34


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Georges Bernanos, «Diálogos das Carmelitas» by Sistema Solar - Documenta - Issuu