Análise Fílmica
INDÍGENAS DIGITAIS Karine Moura
1. 2.
Título do filme: Indígenas Digitais Ficha técnica: Direção e Câmera: Sebastián Gerlic Montagem e Finalização: Matteo Bologna Desenho de Som e Mixagem: Glauco Neves Produção Executiva: Marcia Cardim Assistente de Produção: Tiago Tao Produção nas Terras Indígenas: Jaborandy Tupinambá, Fábio Baenã Hãhãhãe Apoio de Produção: Alessandra Mendes, Constance Launay, Elder Santos Almeida, Sara Spinola Assessoria Técnica: Nicolas Hallet Apoio Administrativo: Carina Carvalho Assessoria de Imprensa: Alexandra Pinheiro Logomarca do Projeto: Leo Hipólito Cruz Traduções: Inglês – Gabriela Saraiva de Melo Francês – Constance Launay Espanhol – Claudina Ramirez | Adeline Rezeau
3. Informações gerais sobre o filme Autor: Sebastián Gerlic
É argentino, radicado há 15 anos na Bahia. É presidente da ONG Thydêwá. Sua formação é em licenciatura em História das Artes Integradas, pela Universidade de Buenos Aires; em Realização audiovisual, no Centro Investigación y Estudios de Cinema y Vídeo; Direção de Cine, Escuela Rodolfo Hermida; Oficina de Jornalismo, na Escuela Los Dos Congresos. Sebastiám Gerlic pesquisa, registra e documento, desde 1998, as culturas indígenas do nordeste brasileiro, especialmente na Bahia, Alagoas e Pernambuco.
Filme: Indígenas Digitais Trata da apropriação das tecnologias digitais por parte de indígenas de várias aldeias do país, sobretudo da região nordeste. Além de desmistificação da cultura indígena, buscando uma outra forma de representação, a discussão se volta para como o ciberativismo é e pode ser uma ferramenta de luta a partir da utilização do celular, do computador, da internet etc.
Apoio: Espaço Unibanco de Cinema – Glauber Rocha IRDEB – Instituto de Reabilitação Educativa da Bahia dimas Fundação Cultural – Estado da Bahia Índios Online Oi, Futuro GESAC – Serviços de Atendimento ao Cidadão
Ministério das Comunicações ATTACK – Produções Sonoras Cultura Viva – Cultura, Educação e Cidadania
Ministério da Cultura Brasil um país de todos – Governo Federal
Patrocínio: Oi Fomento à Cultura – Faz Cultura
Bahia – Terra de todos nós Secretaria da Fazenda Secretaria de Cultura
Realização: Thydêwá Cardim – Soluções Integradas
Análises já realizadas sobre o filme e reportagens: Exibição Indígenas Digitais em Kariri-Xoco http://www.indiosonline.net/exibicao-indigenas-digitais-em-kariri-xoco/
Lançamento do Filme Indígenas Digitais na Aldeia Itapuã http://www.indiosonline.net/lancamento-do-filme-indigenas-digitais-na-aldeia-itapua/ Indígenas Digitais http://www.indiosonline.net/indigenas-digitais-2/ Divulgação do filme indígenas digitais no povo Pankararu http://www.indiosonline.net/divulgacao-do-filme-indigenas-digitais-no-povo-pankararu/ Indígenas digitais na cidade Jatobá – PE
http://www.indiosonline.net/indigenas-digittais-na-cidade-jatoba-pe/ Pataxó Hãhãhãe Divulgam Vídeo Indígenas Digital em sua Aldeia http://www.indiosonline.net/pataxo-hahahae-divulgam-video-indigenas-digital-em-sua-aldeia/
Filme mostra relação de comunidades indígenas com a tecnologia
https://www.terra.com.br/noticias/tecnologia/internet/filme-mostra-relacao-de-comunidadesindigenas-com-a-tecnologia,7878eeb4bddea310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html 8 documentários sobre as culturas indígenas https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/8-documentarios-sobre-as-culturas-indigenas/ Documentário: “Indígenas Digitais” mostra a relação das comunidades indígenas com a tecnologia http://malinche2.blogspot.com/2010/04/documentario-indigenas-digitais-mostra.html
Nota: Em uma pesquisa rápida na internet sobre o filme é possível observas que o maior número de informações sobre o filme Indígenas Digitais foi produzido pelos próprios indígenas e está institucionalizado por um projeto onde eles são os protagonistas, atores ativos e diretos do processo.
4. Trabalho de anรกlise
4.1. Descrição
CRONOMETRIA
IDENTIFICAÇÃO DA CENA
OBSERVAÇÕES
0’23’’
Dança Toré
Observativo
0’36
Entrevista
Participativo – fala para a câmera respondendo à pergunta feita previamente.
01’04’’
Chocalho, canto
Poético – ênfase na música: percussão e canto, imagem voltada para a natureza e o chocalho em um ângulo mais fechado.
01’08’’
Toré
Performático – indumentária
01’31’’
Entrevista
Participativo – o encontro é um marcador que se revela na interação do participante com a câmera, quando ele responde a pergunta previamente realizada, caracterizando um momento de entrevista.
01’47’’
Entrevista
Participativo – mulher responde à pergunta feita previamente enquanto cozinha.
foco
nos
pés,
na
CRONOMETRIA
IDENTIFICAÇÃO DA CENA
OBSERVAÇÕES
01’58’’
Entrevista
Participativo – Entrevista: enquanto trabalha, o indígena fala sobre sua relação com o computador
02’19’’
Entrevista
Participativo-colaborativo – imagens da câmera do indígena.
02’36’’
Entrevista
Participativo – Entrevista, fala sobre a importância de ter a posse da terra.
03’14’’
Imagem do site
Expositivo – publiciza o site e dá ênfase à matéria Tupinambá precisa da demarcação do território.
03’17’’
Entrevista
Participativo – o participante interage com a câmera a partir da entrevista.
05’10’’
Entrevista
Participativo – nesse trecho há presença de imagens de outras câmeras, que não a do cineasta, remete ao aspecto colaborativo.
utiliza
CRONOMETRIA
IDENTIFICAÇÃO DA CENA
OBSERVAÇÕES
05’43’’
Entrevista
Participativo – Entrevista, interação com a câmera.
06’33’’
Imagem do amanhecer, mulher realizando atividades de casa
Observativo – tomada um pocuo mais longa, mulher não interage nem com o cineasta, nem com a câmera (de forma direta). Apenas trabalha.
06’48’’
Entrevista
Participativo – Entrevista, interação com a câmera.
07’10’’
Imagem: mapa, site
Expositivo
07’18’’
Entrevista
Participativo – interação com a câmera.
08’02’’
Imagem: mapa, logo do site indiosonline.net
Expositivo
08’06’’
Entrevista
Participativo-colaborativo – imagens de outras câmeras
uso
de
CRONOMETRIA
IDENTIFICAÇÃO DA CENA
OBSERVAÇÕES
08’36’’
Roda de conversa
Observativo – mostra uma conversa entre indígenas sendo filmada por eles próprios, as pessoas agem como se o cineasta não estivesse ali, esse trecho retrata um pouco do cineasta como a “mosca na parede” (NICHOLS, 2010, p. 153)
09’37’’
Polícia chegando e conversando com indígenas
Observativo – a situação aconteceria independente da presença do cineasta; não há interação dos participantes com a câmera.
10’08’’
Indígena fala enquanto dirige
Participativo – interação com a gravação.
10’30’’
Entrada na Povo Pataxó
Expositivo – informação legenda – texto sobre a luta dos Pataxó Hãhãhãe desde 1983 pelo território, recuperado em 2010, ano do lançamento do documentário
CRONOMETRIA
IDENTIFICAÇÃO DA CENA
OBSERVAÇÕES
11’00’’
Entrevista
Participativo – Entrevista, interação com a câmera, resposta a episódio traumático
11’08’’
Fala sobre episódio traumático
Performático – Além da expressividade do indígena nessa cena, a ênfase na expressão corporal e as técnicas expressivas evocam aspectos subjetivos e a sensibilidade de quem assiste ao documentário: câmera lenta, ênfase nas mãos através de um ângulo mais fechado e recursos de sonoplastia que são utilizados pelo cineasta. A forma de recontar o episódio traumático vivido pelo indígena convoca nossa imaginação para remontar a cena.
11’19’’
Outras câmeras
Participativo – nessa cena a colaboração é um marcados do encontro
11’29’’
Entrevista
Participativo
CRONOMETRIA
IDENTIFICAÇÃO DA CENA
OBSERVAÇÕES
11’35’’
Entrevista
Participativo - colaborativo
11’52’’
Conversa entre dois indígenas sobre a aposentadoria
Observativo – observa o diálogo entre indígenas
12’23
Entrevista
Participativo – interação com a câmera.
13’21’’
Dois indígenas acessando o site do INSS
É um momento construído para ser observativo
14’35’’
Colheita da mandioca
Performático – foca na expressividade das mãos colhendo a mandioca utilizando como técnica um ângulo mais fechado, filtro na imagem que deixa menos em evidência as cores, como recurso sonoro utiliza o som da faca cortando a raíz.
14’45’’
Entrevista
Participativo – resposta à entrevista
CRONOMETRIA
IDENTIFICAÇÃO DA CENA
OBSERVAÇÕES
15’07’’
Imagem do site – expõe duas matérias
Expositivo – matérias “A natureza pede socorro”, “Tupinambá escreve sua história”.
16’00’’
Entrevista
Participativo – resposta à entrevista
16’02’’
Entrevista – pessoas cortando macaxeira
Participativo – resposta Performático – além da resposta da indígena, é enfatizado o trabalho de descascar e cortar a macaxeira.
17’08’’
Entrevista
Participativo – resposta à entrevista
17’20’’
Entrevista
Participativo – analogia entre o arco e o computador
18’32’’
Entrevista – no posto de saúde
Participativo – resposta à entrevista, interação com a câmera.
CRONOMETRIA
IDENTIFICAÇÃO DA CENA
OBSERVAÇÕES
18’38’’
Entrevista
Participativo-colaborativo – fala sobre problemas do posto.
19’41’’
Entrevista
Participativo – resposta à entrevista
19’47’’
Entrevista
Participativo – resposta
20’26’’
Imagem do mapa
Expositiva – mostra indígenas no mapa
20’30’’
Roda de conversa
Aqui existe uma proposta para a cena ser observativo – explicação sobre a terra e a natureza
21’50’’
Roda de conversa
Observativo – observa uma fala sobre o ciberativismo
comunidades
CRONOMETRIA
IDENTIFICAÇÃO DA CENA
OBSERVAÇÕES
18’38’’
Entrevista
Participativo-colaborativo – fala sobre problemas do posto.
19’41’’
Entrevista
Participativo – resposta à entrevista
19’47’’
Entrevista
Participativo – resposta
20’26’’
Imagem do mapa
Expositiva – mostra indígenas no mapa
20’30’’
Roda de conversa
Aqui existe uma proposta para a cena ser observativo – explicação sobre a terra e a natureza
21’50’’
Roda de conversa
Pretende-se uma cena observativa – observa uma fala sobre o ciberativismo, nesses casos as tomadas são mais longas, nessa cena quer dar a entender isso, embora obviamente não se trate de um filme observativo em sua totalidade.
comunidades
CRONOMETRIA
IDENTIFICAÇÃO DA CENA
OBSERVAÇÕES
22’24’’
Entrevista – o que é ser índio
Participativo – resposta sobre o que é ser índio, fala para a câmera. Poético – recorte fotográfico da janela, mulher sendo observada pela janela cozinhando enquanto fala, a indígena fala sobre a natureza e o cineasta dar ênfase a isso, trazendo imagens da paisagem, sensibilizando através de imagens do nascer do sol e do som dos pássaros.
23’00’’
Imagens da natureza, do chocalho e voz de narrativa do indígena
Poético – som do toré, imagens da natureza e do chocalho sobrepostas, imagens da dança no toré, imagem do sol, a narrativa é sobre o que é ser índio e a história. Imagens do sol.
23’32’’
Pedido de socorro
Poético – Fundo todo preto, só a voz.
23’35
Som de toré
Poético – encerramento
CRONOMETRIA
IDENTIFICAÇÃO DA CENA
OBSERVAÇÕES
24’22
Entrevista
Participativo – interação com a câmera; o fala sobre que é ciberativista, etnojornalista.
25’09’’
Imagem, texto/legenda, divulga o projeto Expositivo – imagem e legenda divulgam o projeto sobre a rede índios online.
De acordo com as classificações elaboradas por Nichols (2010) é possível fazer as seguintes considerações acerca do filme Indígenas Digitais: a) Em determinados momentos é possível ser perceber o modo poético. Isso pode ser justificado através da evidencia de uso de técnicas cinematográficas para sensibilizar quem assiste. Alguns momentos podem ser destacados para ilustrar essa sensação: 22’24’’ – é realizado um recorte para filmar a senhora cozinhando. A imagem é registrada através da janela. Nesse momento enquanto ela fala sobre “o que é ser indígena”, são colocadas imagens que destacam o amanhecer, a partir dos recursos de sonoplastia e mixagem é possível ouvir o som dos pássaros e do toré. Sobrepõem-se imagens de indígenas dançando e em seguida fecha a imagem num fundo preto, enquanto um garoto indígena pede socorro ao final do filme, a ênfase é dada a sua voz em 23’32’’.
Segundo Nichols (2010, p. 138), o modo poético: ...sacrifica convenções da montagem em continuidade, e a ideia de localização muito específica no tempo e no espaço derivado dela, para explorar associações e padrões que envolvem ritmos temporais e justaposições espaciais.
Segundo Nichols (2010, p. 138), o modo poético: ...sacrifica convenções da montagem em continuidade, e a ideia de localização muito específica no tempo e no espaço derivado dela, para explorar associações e padrões que envolvem ritmos temporais e justaposições espaciais.
Nota: ocorre a construção de um estado de espírito ao demonstrar o tom e o afeto, quando à ênfase é dada à voz, à imagem da natureza, ao amanhecer e à música.
b) Apresenta-se como expositivo quando mostra imagens do site, mapa, matérias produzidas e veiculadas pelo próprio projeto, com o intuito de publicizar, divulgar, o projeto.
Existe uma perspectiva mais retórica (embora breve) em 25’09’’ – segundo Nichols (2010) são características do modo expositivo: quando a legenda divulga o projeto, a imagem do site; quando uma lógica informativa é transmitida verbalmente (no caso do filme aqui analisado, através da escrita); as imagens aqui têm um papel secundário, para dar continuidade ao argumento, enquanto o comentário exerce um papel superior; quando há uma montagem de evidência.
c) Em alguns momentos a câmera parece ser invisível e não participante. Por isso, pode caracterizar-se como observativo, pois em alguns momentos a câmera está como a mosca pousada na parede (NICHOLS, 2010). A câmera parece estar apenas observando e a cena parece acontecer independente da presença dela ou do cineasta em: 08’36’’ – roda de conversa 09’37’’ – chegada da polícia 13’21’’ – indígenas acessando o site do INSS 11’52’’ – conversa sobre aposentadoria 20’30’’ – conversa sobre a natureza e o ciberativismo
Para caracterizar-se como modo observativo é necessário ter tomadas longas, sem corte, onde a observação pareça ser espontânea. Por isso, o filme no geral não se classifica como observativo, mas embora não cumpra esse requisito certas cenas se aproximam de outros elementos dessa tipologia e em decorrência disso foram classificadas aqui como cenas que remetem a esse modo. Nessas cenas se busca a duração real dos acontecimentos.
d) O modo participativo é o mais característico do filme indígenas digitais. A presença da câmera é um marcador do encontro que promove a interação cineasta e participante (NICHOLS, 2010). É nítido que a construção do filme ocorre entre participantes. A presença da câmera é claramente sentida pelos participantes. As perguntas das entrevistas são feitas previamente e o que aparece são as respostas a perguntas norteadoras e comuns a vários entrevistados – como aquelas sobre a relação dos participantes com as tecnologias que estão entrando em contato e sobre o sentimento a respeito do que é ser indígena. As pessoas se dirigem à câmera para responder, portanto interagem com ela. Ou seja, a mosca desce da parede (NICHOLS, 2010). O aspecto colaborativo também é muito forte e predominante. O filme parece ser completamente feito pelos próprios indígenas!
e) Segundo Nichols (2010), o modo reflexivo é aquele que faz refletir sobre a forma e também traz reflexões políticas. Em Indígenas Digitais, algumas partes fazem refletir tanto sobre a forma, quando se discute a representação do índio nos livros didáticos etc. e portanto propõe uma representação diferente nesse filme, isso fica evidenciado em falas dentro do filme. Além de estar relacionada à forma – os indígenas destacam a importância das produções serem feitas por eles e de forma coletiva, várias câmeras são articuladas para a construção do filme –, a reflexão política pode estar atrelada do engajamento, à necessidade de gerar estranhamento para construir um processo de desmistificação, é dada ênfase na importância da construção de outras representações e o fazer junto, o fazer coletivo, fazer com e não fazer sobre.
Além de demonstrar a interação e a apropriação das redes e instrumentos digitais na luta pelas causas indígenas pela própria comunidade, o filme também quer aumentar nossa consciência sobre as questões indígenas e problematizar a construção da representação sobre o outro, refletindo inclusive sobre o que está sendo feito na presente obra. Destaco: este não é o modo que predomina no filme! Mas, um dos objetivos do modo reflexivo é reajustar as suposições e expectativas do público e não só acrescentar conhecimento sobre o que já existe (NICHOLS, 2010), e isso pode ser encontrado em algumas passagens em Indígenas Digitais – consultar o quadro para identificar estes momentos na cronometria.
f) O modo performático pode ser identificado não só pela expressividade perceptível em aspectos da corporalidade do indígena ao rememorar uma cena de violência, o que poderia ser caracterizado como uma performance*. Mas, para se enquadrar nessa tipologia no processo de análise fílmica, o que justifica o enquadramento de determinadas passagens dessa forma, de acordo com o que propõe Nichols (2010), são as técnicas utilizadas pelo cineasta para dar ênfase aos gestos. Recursos como câmera lenta faz com que seja possível ativar o imaginário através da subjetividade e não apenas dos dados que são verbalizados objetivamente. A cena remontada na narrativa pertence a memória do indígena e para acessá-la nessa ocasião a expressividade de seu corpo e das técnicas cinematográficas são os instrumentos disponibilizados. *Consultar quadro para localizar a cena no filme.
f) O modo performático pode ser identificado não só pela expressividade perceptível em aspectos da corporalidade do indígena ao rememorar uma cena de violência, o que poderia ser caracterizado como uma performance*. Mas, para se enquadrar nessa tipologia no processo de análise fílmica, o que justifica o enquadramento de determinadas passagens dessa forma, de acordo com o que propõe Nichols (2010), são as técnicas utilizadas pelo cineasta para dar ênfase aos gestos. Recursos como câmera lenta faz com que seja possível ativar o imaginário através da subjetividade e não apenas dos dados que são verbalizados objetivamente. A cena remontada na narrativa pertence a memória do indígena e para acessá-la nessa ocasião a expressividade de seu corpo e das técnicas cinematográficas são os instrumentos disponibilizados. *Consultar quadro para localizar a cena no filme.
4.2. Reconstrução
a) Além de poder se inserir no campo da antropologia (áudio)visual – subsidiando de forma material discussões e reflexões nesse campo, uma vez que não se trata de trabalho antropológico, onde poderia se pensar o filme não só como objeto de análise mas no campo epistemológico, de construção do conhecimento para além do que é fornecido pela tradição predominantemente escrita do academicismo – o filme Indígenas Digitais fornece dados que podem servir e/ou interessar ao campo da Antropologia Cultural, pois trata de relações interétnicas e proporciona análises no campo da etnologia indígena. A cultura indígena é uma temática clássica e central nos estudos da antropologia, está relacionada a metodologias fundadoras da disciplina, como a observação e a pesquisa de campo, e atravessa formas diversas da construção do conhecimento (a descrição, a interpretação, chegando até às perspectivas decoloniais trabalhadas na contemporaneidade). Continua como uma das temáticas centrais na teoria contemporânea, continuam contribuindo com o processo de estranhamento e desmistificação, em busca da construção de um saber cada vez mais participativo.
b) Depoimentos dos indígenas sobre a folclorização de suas imagens e homogeinização de suas culturas; depoimentos sobre o uso das ferramentas digitais (celulares, câmeras, computadores, internet); depoimentos sobre seus objetivos, sobre ativismo, sobre as relações interétnicas, conquistas territoriais etc. c) De acordo com as definições de Nichols (2010) sobre tipos de documentários, é possível definir o curta-metragem Indígenas Digitais como predominantemente participativo. A presença com a câmera é marcante, as pessoas interagem com ela respondendo aos questionamentos que lhes foram colocados. O encontro é a chave fundamental para o que está sendo filmado, se o encontro não fosse criado não haveria o evento. Há uma relação de poder estabelecida nesse processo entre quem controla a câmera e alguém que não a controla, o cineasta acaba tendo um controle sobre o tema. Existe portanto, uma reunião forças entre quem filma e é filmado e o que pode ser absorvido advém da qualidade do encontro. As pessoas estão falando de suas experiências a partir de um momento que foi criado.
A colaboração é a característica mais marcante do filme, concede um forte protagonismo aos participantes, fazendo com que o ele pareça ter sido construído em sua totalidade apenas por indígenas.