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intervenção

LEIO PARA NÃO DESAPARECER TEXTO KIUSAM OLIVEIRA ILUSTRAÇÃO ANA MATSUSAKI FOTO ACERVO PESSOAL

KIUSAM É ESCRITORA, EDUCADORA E REFERÊNCIA NA VALORIZAÇÃO DAS CULTURAS AFRO-BRASILEIRAS

Aprendi a ler com o corpo inteiro antes de aprender somente com os olhos. Antes do alfabeto, houve as vozes das minhas tias mais velhas que contavam, no terreiro e na cozinha à beira de um poço, histórias que não estavam em nenhum livro — porque os livros, durante muito tempo, não nos couberam. No Brasil, é preciso lembrar, que ensinar uma pessoa escravizada a ler foi crime previsto em lei. A leitura, para um corpo negro, nunca foi um gesto neutro. Foi, e segue sendo, uma transgressão. É por isso que não consigo responder “por que lemos hoje?” sem trazer a seguinte perspectiva: “para quem a leitura foi negada?”. Leio porque alguém, muito antes de mim, foi proibida de ler e lutou contra esse sistema opressor. Leio sobre os lastros dessa proibição e dessa luta. Cada página que viro é retomada: a devolução de um direito que nos foi sequestrado e que eu me recuso a entregar de volta. Mas há uma camada mais íntima. Fui uma menina negra que procurou, durante anos, o próprio rosto nas histórias e encontrou ausências e caricaturas. A leitura me feriu antes de me salvar. Passei 38 anos como professora em sala de aula e vi essa ferida repetir-se em cada geração de crianças negras que abria um livro e não se encontrava lá. Sempre soube que ler não é decodificar palavras, é ser convocada a existir e soube disso mediante a ausência dessa convocação, pela falta. Quando uma criança negra abre um livro e se reconhece protagonista, inteira e encantada, algo se assenta nela. Será sua própria coroa? Chamo isso de encantamento, e organizei em torno dele um campo a que dei o nome de Literatura Negro-Brasileira do Encantamento Infantil e Juvenil e que na minha Editora Osìbatá tenho a autonomia para trabalhar focada nisso, sem que seja entendida como figura de linguagem: mas é a fórmula que encontrei para através da literatura, devolver às infâncias negras o direito de sonhar — e, com ele, o

direito ao futuro que sempre começa e se atualiza no hoje. Respondo, então: lemos hoje pela mesma razão de sempre — para não desaparecer. A leitura é afetiva porque mexe com a Ori, com aquela parte do corpo que em nós sabe quem somos antes que o mundo tente nos dizer o contrário. A leitura é algo social porque ninguém lê sozinho de verdade: lemos com outras lentes, lemos com os mortos que nos antecederam vivos e com os vivos a quem devolvemos a história. E é algo do campo político porque escolher o que se lê, garante a quem tem acesso ao livro de decidir quais histórias farão parte de sua vida. Foi por reconhecer tal importância política que ajudei a implementar, por mais de uma década, uma lei que obriga o Brasil a ensinar a história e a literatura negra para suas crianças, a Lei 10.639/03. Toda biblioteca narra uma disputa sobre o que merece ser lembrado. Quanto ao como: leio com o corpo inteiro, em voz alta sempre que posso, do jeito que minhas mais velhas me ensinaram. Leio contra a distração que hoje nos vendem como liberdade e que funciona como cerca. Sustentar uma página inteira, num tempo que lucra com a nossa dispersão, virou ato de soberania. Exige teimosia. Exige, eu diria, um certo luxo: o luxo intelectual de conseguir, mediante tantas distrações, o ato de contemplar palavra por palavra e assim, sentir… profundamente. Não leio para fugir do mundo. Leio para conseguir encará-lo e, depois, transformá-lo. A leitura é a trincheira onde a corrente ancestral também me mantém conectada — o lugar onde a palavra de quem veio antes encontra a boca de quem virá depois. Por isso, quando me perguntam por que ainda leio, respondo com o que recebi das minhas mais velhas do candomblé: leio porque como Osìbatá, essa planta resistente e que se recusa a se submeter à ignorância. Ler, para mim, diz respeito a resgatar a minha soberania. Leio, portanto, para não desaparecer.

leituras – por que e como lemos hoje?

FOI SÓ QUANDO ME TORNEI ESCRITORA QUE ENTENDI POR INTEIRO: LER NÃO É DECODIFICAR PALAVRAS, É SER CONVOCADA A EXISTIR

cadernos sesc de cidadania


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