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SESCSP.ORG.BR leituras – por que e como lemos hoje?

BIBLIOTECAS

VIVAS

As mediações literárias que rompem barreiras

PERFIL

Imortal da ABL, Ailton Krenak reconstrói histórias de resistência

OS CAMINHOS QUE FORMAM UM LEITOR

Entre novos formatos e desafios, a literatura persiste e se expande para além do que se lê

INTERVENÇÃO

Amara Moira experimenta o criptoleto bajubá

POESIA

Temperança e afeto nos versos de Maria Vilani

CONVERSA COM MARÍA TERESA ANDRUETTO “Ler não é apenas compreender. É se deixar afetar”

PERSPECTIVA

“Leio para não desaparecer”, por Kiusam Oliveira

Um caminhão-biblioteca que promove o acesso gratuito ao livro e, por meio de suas equipes, educadoras e educadores, artistas e coletivos, incentiva a formação de leitores e leitoras em diferentes territórios do país. Com um acervo diversificado para todas as idades, o BiblioSesc amplia as possibilidades de acesso à leitura e transforma cada parada em um espaço de descoberta, encontro e convivência.

Presente em 25 estados e no Distrito Federal, conta com 51 unidades móveis e um acervo de aproximadamente 178.500 livros, além da previsão de incorporação de mais 40 novas unidades.

No Sesc São Paulo, seis caminhões das unidades Campo Limpo, Interlagos, Itaquera, Osasco, Santana e São Caetano circulam por bairros e cidades da capital e da região metropolitana, aproximando os livros e a leitura do cotidiano das pessoas.

Saiba mais

LEITURA COMO PRÁTICA DE LAZER E EXERCÍCIO DE SENSIBILIDADE

O ato de ler mobiliza dimensões centrais da experiência humana, estando presente na comunicação cotidiana, nos processos educativos e na invenção imaginativa possibilitada pela literatura. Sua singularidade reside no fato de que, durante essa ação, as imagens não se realizam sozinhas, seja diante de um folheto informativo, seja de uma obra literária. O texto convoca a pessoa leitora a uma participação ativa, que exige concentração e permanência, estimulando a interpretação de mundo a partir da linguagem e de cada bagagem pessoal.

A leitura configura-se, dessa forma, como um direito fundamental, parte estruturante do processo de construção da cidadania. Ao mesmo tempo, o contexto das transformações nos modelos tecnológicos das últimas décadas — marcado por novas formas de produção e circulação da informação, pela fragmentação dos conteúdos nas redes sociais e pela presença crescente das inteligências artificiais — convida à reflexão sobre as condições de realização dessa prática nos dias que correm.

Ler permanece como experiência de fruição, lazer e entretenimento para uma parcela restrita da população, ainda que ocorra hoje de maneira distinta daquela observada antes da consolidação da internet e das plataformas digitais. A edição mais recente da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024) indica que, entre as principais motivações associadas a essa atividade, está o gosto pela leitura e a busca por uma suspensão da rotina, o que desconstrói padrões que a associam apenas aos ambientes laborais e educacionais.

A mesma pesquisa, no entanto, apontou que, pela primeira vez em sua série histórica, o número de não leitores superou o de leitores. Os entrevistados que indicaram não ler sinalizam a falta de tempo como principal fator impeditivo. Isso evidencia como o acúmulo de obrigações, as rotinas de trabalho e as dinâmicas da vida repercutem no exercício da leitura, e registra a importância de entender o desenvolvimento de hábitos para além de uma questão de escolhas individuais, mas a partir das condições situadas e concretas de existência.

Nesse sentido, ler contribui também para a formação de sujeitos críticos, capazes de se reconhecer e de elaborar um mundo permeado por contradições, no qual as desigualdades em diferentes instâncias sociais e econômicas ainda estão longe de ser superadas. Sob essa perspectiva, o Sesc trabalha pelo alargamento do contato entre as pessoas e o cenário do livro, leitura, literatura e bibliotecas, usando estratégias de democratização do acesso para promover e garantir esse direito.

Por meio de uma rede abrangente de bibliotecas fixas e volantes, como o projeto BiblioSesc, abertas às comunidades e distribuídas pelo estado, e da oferta de ações formativas, o Sesc promove clubes de leitura, projetos de mediação literária, leituras compartilhadas e iniciativas dedicadas à oralidade e à poesia falada, como os slams. Além disso, por meio de sua editora, as Edições Sesc, a instituição contribui para a difusão do pensamento crítico contemporâneo, publicando obras de diferentes áreas do conhecimento e ampliando a circulação de autores, ideias e debates relevantes para a sociedade.

São iniciativas que reforçam a compreensão da leitura como prática cultural, educativa e cidadã, presente em diferentes contextos e territórios e construída na relação entre sujeitos, repertórios e experiências compartilhadas. Buscase assim fortalecer uma comunidade leitora que ultrapasse o utilitarismo da leitura e reconheça sua amplitude por meio do encantamento.

Sensibilizar para essa experiência é algo potente. Envolve afetos, memória, pensamento crítico, identificação e pertencimento. Quando esses universos são articulados, tornam-se maiores as possibilidades de construção de vínculos duradouros com a leitura, ao longo da vida, justamente porque eles se estabelecem por meio da produção de sentido. Esta edição dos Cadernos Sesc de Cidadania, dedicada ao tema Leituras – Por que e como lemos hoje?, pretende contribuir para tal reflexão, apresentando perspectivas sobre como diferentes agentes e iniciativas desenvolvem ações voltadas à formação de pessoas leitoras, multiplicando espaços de partilha e produzindo efeitos no presente.

p. 8

ESPECIAL

Sob diferentes formatos, a experiência literária aprofunda nossa relação com o mundo

p. 36

BIBLIOTECAS

Das estantes para as ruas: histórias de quem faz a ponte entre o livro e o leitor

p. 18

PERFIL

Ailton Krenak e o poder da palavra

p. 24

GRÁFICA

Um ensaio sobre como o design editorial brasileiro escreve a história da literatura

p. 44

ENTREVISTA

Para María Teresa Andruetto, a leitura deve ser uma prática social

p. 50

POESIA Os afetos e a temperança de Maria Vilani

p. 52

RECONHECIMENTO “Leio para não desaparecer”, por Kiusam Oliveira

SESC SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO

Administração Regional

no Estado de São Paulo

PRESIDENTE DO CONSELHO REGIONAL

Ivo Dall’Acqua

DIRETOR DO DEPARTAMENTO REGIONAL

Luiz Deoclecio Massaro Galina

SUPERINTENDÊNCIAS

COMUNICAÇÃO SOCIAL

Ricardo Gentil

TÉCNICO-SOCIAL

Rosana Paulo da Cunha

ADMINISTRAÇÃO

Jackson Andrade de Matos

ASSESSORIA TÉCNICA E DE PLANEJAMENTO

Marta Raquel Colabone

ASSESSORIA JURÍDICA

Carla Bertucci Barbieri

GERÊNCIAS

ARTES GRÁFICAS

Rogerio Ianelli

AÇÃO CULTURAL

Erika Mourão Trindade Dutra

ESTUDOS E DESENVOLVIMENTO

João Paulo Guadanucci

EDIÇÕES SESC

Iã Paulo Ribeiro

SESC DIGITAL

Fernando Tuacek

CADERNOS SESC DE CIDADANIA: LEITURAS: POR QUE E COMO LEMOS HOJE?

EQUIPE

André Coelho, Bruna Zarnoviec, Carla Teixeira, Clívia Ramiro, Erica Dias, Erika Hashizume Takahashi, Fábio Vasconcelos, Fabrício Floro, Francis Manzoni, Flávio Costa Freitas, Jefferson dos Santos, Karina Camargo Leal, Leandro Nunes Coelho, Ricardo Tacioli, Roberta Marcondes, Silvia Eri Hirao, Tiago Marchesano, Thais Heinisch, Vanessa Fidalgo, Vanessa Mendes Rosado

EDITORA-EXECUTIVA

Fabíola Larissa Tavares Milan

COORDENAÇÃO EDITORIAL E EDIÇÃO

Gabriel Vituri

PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO

Luiz Felipe Santiago

REPORTAGEM Camilo Gomide, Juliana Faddul, Sheyla Miranda, Tereza Bettinardi

REVISÃO Mariana Delfini

ANÚNCIOS Bruno Agostinho, Geysa Bernardes, Leandro Vicente, Luiz Felipe Santiago

CAPA Ana Matsusaki

TRATAMENTO DE IMAGENS Felipe Caetano

PRODUÇÃO GRÁFICA Marina Ambrasas

A revista Cadernos Sesc de Cidadania é uma publicação do Sesc São Paulo

Distribuição gratuita

Impresso em julho 2026

Tiragem: 10.000 cópias

p. 54

INTERVENÇÃO

Amara Moira apresenta o bajubá

Acesse a versão on-line e baixe o arquivo em PDF da revista

Aponte a câmera para o código acima e consulte a versão acessível

Sesc São Paulo Av. Álvaro Ramos, 991 03331-000 São Paulo - SP

Tel.: (11) 2607-8255 sescsp.org.br

PLANTAR PARA LER

TEXTO CLÍVIA RAMIRO, FABÍOLA TAVARES MILAN, JEFFERSON DE SOUZA, THAIS HEINISCH E TIAGO MARCHESANO

ILUSTRAÇÃO ANA MATSUSAKI

A biodiversidade fundamenta um ecossistema funcional e sustentável. No entanto, é quando essa diversidade encontra sua máxima potência que um bioma se apresenta verdadeiramente exuberante. Se deslocarmos essa abordagem para um ecossistema sociocultural, como o do livro, a máxima se mantém. Portanto, é na confluência de uma miríade de autorias, agentes culturais, educacionais e territoriais, e, sobretudo, de pessoas leitoras, que esse contexto encontra seu ápice, fazendo circular saberes e expressões de forma democrática e crítica, no qual o acesso está na ordem do dia.

Ainda assim, é notório: mesmo que um bioma literário, como o brasileiro, abrigue uma vasta diversidade de origens, sotaques, narrativas ou modos de fazer, é preciso enfrentar barreiras e impasses sobre distribuição, acesso e hábitos relativos ao livro e à leitura. Observamos dificuldades políticas, sociais e tecnológicas que impedem o desenvolvimento de um ecossistema cultural pleno, composto por leitores conscientes e engajados com seus direitos.

A presente edição dos Cadernos Sesc de Cidadania: Leituras – Por que e como lemos hoje? busca apresentar e dialogar com assuntos e inciativas que permeiam esse cenário. Longe de querer fechar a discussão, nossa proposta é abri-la em chave ampla para que pessoas educadoras, agentes literários e interessados em geral possam não somente ampliar, mas manter a pauta em constante articulação e aperfeiçoamento.

Com o propósito de estimular o pensamento crítico e a construção de uma autonomia leitora, trazemos aqui figuras

de diferentes áreas e atuações, corpos e vozes. São nomes do universo do livro, da literatura e das bibliotecas, que oferecem ao público diversas produções e perspectivas. Ao longo destes Cadernos, buscamos construir uma teia heterogênea de saberes literários e afetivos: da formação leitora de Jeferson Tenório às origens da poeta Luiza Romão no slam; de experimentações que a língua permite, como no criptoleto bajubá, da escritora Amara Moira, até as novas formas de leitura que surgem na história da editora Maria Carvalhosa; em outros modos de ler o mundo, como nos ensinamentos de Ailton Krenak, e na importância de uma trajetória leitora que seja integral, desde a formação, conforme explica em entrevista a escritora e professora argentina María Teresa Andruetto; nas experiências comunitárias em mediação de leitura a partir da trajetória de Bel Santos Mayer; e na produção poética e política de autoras como Maria Vilani e Kiusam Oliveira, dentre outras abordagens, oferecemos um diálogo que não se esgota nas páginas a seguir, mas que lança bases para que a discussão ganhe ainda mais relevo.

Ao apresentar estes Cadernos de Cidadania, esperamos contribuir para que as políticas culturais e educacionais sigam, de forma permanente, promovendo e ampliando a exuberância do ecossistema brasileiro do livro. Afinal, é a partir deste compartilhamento de saberes que as identidades transbordam as páginas para dar vida a um panorama diverso, habitado por uma comunidade leitora que seja curiosa, inquieta, crítica e participativa.

hoje?

SONHAR ACORDADO

Numa das passagens mais comoventes do romance De onde eles vêm (Companhia das Letras, 2024), de Jeferson Tenório, o protagonista, Joaquim, tenta ler Marcel Proust enquanto faz companhia para a avó, que se recupera de uma isquemia num quarto compartilhado de um hospital público em Porto Alegre (RS). Entre roncos, gemidos de dor e a visão de pessoas desassistidas e doentes, ele passeia pelas páginas de Em busca do tempo perdido, considerada uma obra-prima universal da literatura. Como é comum acontecer quando a leitura nos toca, em dado momento Joaquim fecha o livro e olha ao seu redor. O contraste entre a beleza do texto e a realidade dura de sua vida o deixa à beira das lágrimas. “Me comovi porque toda aquela delicadeza de Proust, toda aquela forma de perceber a beleza, nada podia contra a brutalidade que se apresentava para mim”, reflete o narrador-personagem.

De onde eles vêm é até o momento o romance mais pessoal escrito por Jeferson Tenório, “inegavelmente o livro em que eu mais trago elementos autobiográficos”, ele reconhece. Nascido no Rio de Janeiro, mas criado em Porto Alegre dos treze anos de idade em diante, Tenório compartilha com Joaquim a experiência de ser um homem negro que encontra nos livros uma forma diferente de se relacionar com o mundo e consigo mesmo. “Todos os meus livros trazem personagens jovens que têm alguma relação com o livro, com a literatura”, reflete. Para o autor, seus protagonistas são como variações de si próprios que, a despeito de suas características específicas, estão conectados na busca pelo conhecimento a partir da leitura. “Conforme fui ficando mais seguro sobre a minha escrita, fui aproximando [os personagens] da minha vida pessoal”, afirma, em entrevista ao Sesc.

No romance lançado em 2024, acompanhamos a saga de Joaquim, um jovem negro que entra em uma universidade pública gaúcha pelo sistema de cotas e que luta cotidianamente contra o racismo e a precariedade social e emocional que atravessa a sua história. Travando uma luta contra o

“A literatura chegou na minha vida antes dos livros”, afirma Jeferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti em 2021

A TRANSFORMAÇÃO DE UM LEITOR COMEÇA MUITO ANTES DO CONTATO COM O PAPEL, NASCENDO NA

CAPACIDADE DE DESNATURALIZAR A VIDA COTIDIANA E INTERPRETAR O MUNDO COM CURIOSIDADE E CRITICIDADE

sono e o desconforto da poltrona em que está sentado ao lado da avó, ele cogita ler Proust em voz alta para tentar “salvá-la por alguns minutos da tragédia que fora sua vida”, mas logo se dá conta de que a ideia é “ridícula”. A avó, em sua fragilidade, era “a vida sendo a vida com toda a sua força e violência”, não literatura. Apesar de por um momento julgar as palavras inúteis, ler, para Joaquim, despertava sentimentos tão ambíguos quanto ternura e encantamento, culpa e tristeza, mas oferecia a ele sobretudo uma janela para a fabulação.

PARA ALÉM DO QUE SE LÊ

No clássico ensaio O direito à literatura, de 1988, Antonio Candido defende que a fruição da arte e da literatura, em todas as suas modalidades possíveis, é um direito inalienável. Chamando de “literatura” quaisquer criações de “toque poético, ficcional ou dramático”, o sociólogo e crítico literário defende que a fabulação, assim como o sonho, é uma função natural e essencial da mente humana.

“Eu percebi que a literatura chegou na minha vida antes dos livros”, elabora Jeferson Tenório, cuja formação remonta ao tempo em que frequentava terreiros de umbanda e de candomblé na infância. “Ali já tinha também literatura, no sentido de não haver uma divisão entre o fantástico e o real”, explica. Ecoando o pressuposto de Antonio Candido, ele reconhece a multiplicidade implicada no cruzamento da sua experiência entre os livros e a vivência nos terreiros: “Quando você conversa com as entidades, parece que não tem mais essa fronteira. Existe ali um espaço da imaginação, de questionamentos filosóficos”.

Em sua memória, para além de uma prática religiosa, estar nesses ambientes significava também entrar em contato com uma formação cultural de resistência. “O terreiro serviu como base, de valorização, de autoestima, onde eu pude ver pessoas negras num lugar de acolhimento. Tudo isso me leva a crer que foi o primeiro espaço em que comecei a me tornar leitor”, afirma Tenório, cuja obra espelha o racismo que ele próprio vê

se manifestar sob múltiplas formas em sua própria vida.

Até poder assimilar que sua formação leitora foi sendo construída gradativamente, no entanto, o escritor creditava esse autorreconhecimento a um marco específico. “Por muito tempo eu acreditei que me tornei leitor a partir do momento em que li um livro inteiro, aos 24 anos”, diz. Embora a coletânea de contos de Rubem Fonseca, sua primeira leitura de cabo a rabo, represente um momento-chave, ele hoje percebe que a conquista foi apenas a “formalização” desse processo, que foi apoiado e incrementado por várias outras passagens de sua história. “Alguns eventos na minha vida também fizeram com que eu me aproximasse dos livros”, ele exemplifica. “Quase morri afogado na praia, em Copacabana, eu tinha treze anos de idade e foi a primeira vez que passei a olhar para o mar de outro jeito. Isso significava que eu estava desnaturalizando a vida como ela era, fui ganhando requisitos para conseguir me tornar um leitor, como alguém que tem curiosidade, que olha para uma pedra e não vê só a pedra”, reflete, evocando um dos poemas mais notórios de Carlos Drummond de Andrade.

“Eu já fazia uma leitura do mundo, como dizia Paulo Freire, mas demorei 24 anos para achar que aquele objeto [o livro] era interessante”, sintetiza Jeferson Tenório.

TORNAR-SE LEITOR

Espalhados por ruas Brasil afora, dispostos sobre mesas e bancadas, organizados em estantes mais ou menos estruturadas, os livros hoje são protagonistas em uma cena literária que se materializa em feiras, festas e eventos com propostas, públicos e orçamentos diversos. Para tentar compreender melhor o setor, ainda carente de dados e recursos sistematizados, o Ministério da Cultura (MinC) lançou em abril deste ano o Mapa dos Eventos Literários do Brasil. Em poucos meses de uso, a plataforma já contava com mais de quatrocentas inciativas registradas.

Da esquerda à direita:

Aldísio Filgueiras, Bel Santos

Mayer e Flávio de Araújo em bate-papo do projeto

Arte da Palavra, realizado no Sesc Campo Limpo

LEITURA, CRIAÇÃO E ORALIDADE

Lançado oficialmente em 2021, o Arte da Palavra é um projeto de circulação nacional realizado pelo Sesc com o objetivo de promover a literatura e democratizar o acesso à leitura no país. Um de seus propósitos centrais é fortalecer a cadeia produtiva do livro e incentivar a formação de leitores e leitoras, atuando por meio de ações que aproximam o público de escritores e escritoras, além de pessoas mediadoras de leitura, em diferentes regiões do país, valorizando a diversidade cultural e literária brasileira.

O Arte da Palavra é estruturado a partir de três eixos principais: Circuito de Autores e Autoras, Circuito de Oralidades e Circuito de Criação Literária.

No primeiro, pessoas escritoras de diferentes gêneros e estilos participam de encontros, bate-papos e mesas redondas, compartilhando suas obras e outras experiências com o público. Já o segundo destaca a tradição oral, reunindo contadoras e contadores de histórias, cordelistas, slammers e outras performances que trabalham a palavra falada como forma de expressão cultural. O último, por sua vez, tem como foco a formação, oferecendo oficinas e atividades voltadas tanto para iniciantes quanto para pessoas que buscam aprimorar sua escrita.

As programações são realizadas em unidades do Sesc, escolas, bibliotecas e espaços comunitários, promovendo a difusão da literatura brasileira e o intercâmbio cultural entre diferentes regiões do país, além de contribuir com a formação crítica e o estímulo à imaginação e à criatividade.

Nessa toada, também compõem o cenário pequenas livrarias de rua independentes que contrariam a lógica de um mercado que tenta concentrar as vendas de livros a partir de grandes redes do varejo. Mesmo que operando frequentemente no limite, sem grandes aportes financeiros e buscando fomentar o comércio a partir de iniciativas locais, elas tentam desafiar o formato predatório que corporações transnacionais impõem sobre essa fatia do mercado, como é o caso da Amazon, para citar o exemplo mais emblemático nessa disputa.

Pesquisas recentes sobre o mercado editorial têm colocado os livros e a leitura no centro do debate no Brasil. Os dados mostram um cenário complexo, que mistura avanços e sinais de alerta. A edição de 2024 da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou, pela primeira vez, que o número de não leitores superou o de leitores no país. Já o estudo Panorama do Consumo de Livros no Brasil, todavia, apontou um crescimento de 3 milhões de compradores de livros em 2025 e destacou o protagonismo de mulheres pretas e pardas, que representam 30% desse público.

Mais do que medir quantos livros os brasileiros leem, as pesquisas ajudam a entender como a relação com a leitura é construída e por que ela pode acabar se perdendo ao longo da vida. Segundo os resultados obtidos em Retratos da Leitura, o interesse pelos livros é maior na infância e diminui com o passar dos anos. Outro dado chama atenção: 71% dos entrevistados disseram não ter tido influência de alguém para desenvolver o hábito da leitura. Entre aqueles que tiveram esse apoio, mães, cuidadoras e professoras aparecem como os principais responsáveis por essa ponte.

“O ambiente familiar e o incentivo ao contato com livros desde a infância estão entre os fatores que mais impactam a formação de leitores ao longo da vida, reforçando que acesso e mediação são determinantes”, afirma Sevani Matos, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL). Esses dados também apontam para outra característica essencial da leitura: suas dimensões afetiva, existencial e lúdica. Todo leitor certamente se lembra do encantamento proporcionado pelas primeiras experiências de leitura, seja ela através de livros ou de outros modos de ler. Saberes literários têm potencial para comover, transformar e desestabilizar.

Para Andrea Saad Hossne, professora titular em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), a chave para entrar em contato com

o poder da literatura está de fato na forma como os livros são apresentados a leitores iniciantes. Hossne menciona o estudo Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva (Editora 34, 2009), da antropóloga Michèle Petit, que acompanhou os hábitos de leitura de crianças e adolescentes franceses. Ao longo da pesquisa, ela percebeu que o entusiasmo demonstrado na infância com os livros desaparece por volta dos quinze anos, ao ponto de se tornar repulsa. Essa virada coincide com a transformação da mediação da leitura promovida nas escolas, que deixa de ser lúdica e passa a ser, essencialmente, instrumentalizadora. “Aqui no Brasil isso coincide com a chegada ao Ensino Médio, com os três anos preparatórios para os concursos e para o mercado de trabalho.

SEU ASPECTO

É importante aprender os gêneros do discurso, saber diferenciar um conto de uma notícia e estar preparado para o Enem, mas perde-se o lúdico, a brincadeira e a criatividade”, pondera a professora da USP.

Ao reduzir a leitura a seu aspecto utilitário perdemos a dimensão mais profunda da experiência oferecida pelos livros, argumenta Hossne. Para ela, a leitura é uma criação que expande o potencial da língua, e não uma mera repetição automática do que está escrito. “Frases comuns e banalizadas, de repente, ficam repletas de significado e de verdade”, explica.

FORMAS DE LER, MODOS DE SER

A potência transformadora da leitura aparece em experiências que vão muito além do que se escreve na página: contação de histórias, saraus, audiolivros e slams constituem experiências literárias na medida em que mobilizam escuta, emoção e repertório cultural. Embora nem sempre passem pela leitura convencional do texto, essas práticas ampliam o próprio conceito de leitura e dialogam com a ideia de Paulo Freire. Antes das palavras, interpretamos vivências, símbolos e relações que nos cercam.

MOVIMENTOS ARTÍSTICOS COMO O SLAM

PROVAM QUE A LEITURA TRANSCENDE A LETRA ESCRITA, MOBILIZANDO O CORPO,

A PERFORMANCE E O CONTEXTO SOCIAL COMO FORMAS LEGÍTIMAS DE EXPRESSÃO

Em outras palavras, um leitor lê o mundo como quem lê um livro, e lê um livro como quem lê o mundo. É o que fica claro quando conhecemos trabalhos como o da poeta, atriz e pesquisadora Luiza Romão. Filha de professores, ela cresceu cercada por livros, mas, antes de se consagrar como poeta de obras escritas, tornou-se autora por outras vias.

artista, um formato que surgiu em meados dos anos 1980, nas ruas de Chicago, nos Estados Unidos. De origem popular, é uma prática fortemente marcada pela sua identidade política, uma forma de expressão que subverte os espaços mais tradicionais e elitizados para dar voz a movimentos de resistência cultural e periférica.

Inspirada pelas oralituras e pelo slam, Luiza Romão constrói sua obra combinando a palavra escrita com outras experiências artísticas

Formada em artes cênicas pela USP, a criação literária em sua vida nasceu no encontro do texto com a voz e a performance. Mais de uma década atrás, quando conheceu o Slam da Guilhermina, movimento criado na zona leste de São Paulo em 2012, Romão se apaixonou pela cena. Em linhas gerais, os slams são batalhas de poesia nas quais os participantes apresentam textos autorais de até três minutos, que são avaliados por jurados da plateia. É, em sua essência, uma maneira de aproximar o público do

A partir do envolvimento com o slam, Luiza Romão, que venceu o prêmio Jabuti 2022 nas categorias Livro do Ano e Poesia com o livro Também guardamos pedras aqui, desenvolveu em sua dissertação de mestrado uma análise do fenômeno não apenas pelo viés sociológico, mas por seus aspectos literários. “Quando a gente pensa na poesia oral, não estamos falando só do texto, mas da voz enquanto excedente, corpo, disposição”, explica. “A pessoa que assiste ao slam lê todos esses elementos, o contexto, o dia, a voz, o timbre, tudo isso são formas de inscrição que não estão só restritas ao campo da escrita, da letra no papel”, desenvolve a escritora. Na construção de sua trajetória literária, Romão se inspirou nas oralituras, conceito desenvolvido pela pesquisadora, dramaturga e também poeta Leda Maria Martins, que nos permite ler, como literatura, os mais variados acontecimentos da vida.

Conceber um texto que transcende a palavra escrita, em suas oralituras, cria novas possibilidades estéticas que podem promover experiências mais inclusivas de leitura. É o que demonstra a experiência de Maria Stockler Carvalhosa, uma das criadoras da Supersônica, editora especializada em audiolivros fundada em 2023. Aos treze anos, em decorrência de um erro médico durante uma cirurgia, Carvalhosa perdeu a visão. “Foi um processo que desestruturou muito a forma como eu interagia com o mundo e me deixou sem chão em relação a uma prática que era tão importante para mim: a leitura”, ela conta. Redescobrir esse universo não foi uma jornada fácil. A primeira dificuldade foi para descobrir como encontrar livros digitalizados e de que forma utilizar as ferramentas disponíveis para a leitura.

O segundo empecilho era de ordem estética. A voz robótica dos sintetizadores

FILIPE REDONDO

Maria Carvalhosa:

“Como editora, mas também como pessoa cega, eu peço que a acessibilidade seja pensada como algo estético”

dos leitores de tela e a performance apática do narrador de um audiolivro matavam a fruição da experiência. “Os audiolivros que escutei no começo não eram pensados como objetos de arte, como um meio que tem potencialidades próprias a serem exploradas”, lembra a editora.

Em 2021, Maria Carvalhosa escreveu um artigo sobre essa lacuna que ela encontrara nesse mercado. O texto chegou até a cineasta Daniela Thomas, que propôs a ela a fundação da Supersônica. A ideia era investir na produção de audiolivros que contemplassem a dimensão sonora, performática e

PNLL: UMA POLÍTICA PÚBLICA PARA FORMAR UM PAÍS LEITOR

O Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) é a principal política pública brasileira voltada à promoção do livro, da leitura, da literatura, da escrita e das bibliotecas. Desenvolvido pelos Ministérios da Educação e da Cultura, o plano estabelece diretrizes, metas e ações para fortalecer uma cultura leitora em todo o país. Sua elaboração é participativa, com representantes do poder público, da sociedade civil e do setor do livro.

“Paulo Freire nos dizia que aprendemos a ler para contar a nossa própria

teatral que o formato demanda, não apenas para atender as necessidades das pessoas cegas, mas para atrair também as videntes. “Como editora, mas também como pessoa cega, eu peço que a acessibilidade seja pensada como algo estético, e essa não é uma demanda só minha, mas de muitas pessoas com deficiência”, defende Maria Carvalhosa. “Não basta só adaptar. O maravilhoso da Supersônica é tomar o desafio de transformar um livro em um objeto artístico que seja uma experiência de leitura radical e maravilhosa para qualquer pessoa”, diz.

LEITURA TECH

Se as experiências são diversas e cada vez mais dinâmicas, é inevitável que a cada transformação tecnológica venha à tona a pergunta: as novas ferramentas disponíveis afastam ou aproximam novos potenciais leitores da literatura?

No século XXI, essa questão ganhou novos contornos com a expansão da inteligência artificial, especialmente das ferramentas de IA generativa, capazes de produzir textos, imagens e outros conteúdos. De forma quase repentina, recursos que resumem textos, traduzem conteúdos, recomendam livros, convertem documentos em áudio e auxiliam pesquisas passaram a fazer parte do

história. Por isso que a leitura é uma prática de liberdade”, defende Fabiano dos Santos Piúba, Secretário de Formação Artística e Cultural, Livro e Leitura do Ministério da Cultura (SEFLI/MinC). O PNLL está organizado em quatro eixos: democratização do acesso ao livro e às bibliotecas; fomento à leitura e formação de mediadores; valorização institucional da leitura e de seu valor simbólico; e fortalecimento da cadeia criativa e produtiva do livro. Esses eixos reconhecem a leitura como um direito cultural, educativo e cidadão.

Desde a criação da Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE), instituída pela Lei nº 13.696, de 2018, o PNLL pas-

sou a ser elaborado para ciclos de dez anos, consolidando uma estratégia de longo prazo para ampliar o acesso ao conhecimento, reduzir desigualdades e fortalecer a democracia por meio da leitura. O atual PNLL tem vigência de 2026 a 2036, orientando as ações nacionais para o setor ao longo da próxima década.

“Existe uma dívida histórica e social com a leitura no Brasil. O PNLL é uma ferramenta política e institucional que cria um mapa de navegação, compreendendo os desafios do acesso aos livros, mas sem perder sua centralidade na política de formação”, resume Fabiano Piúba.

JORGE BISPO

cotidiano de milhões de pessoas. Em muitos casos, podem ampliar o acesso à informação e ajudar a superar barreiras de tempo, idioma e acessibilidade, mas há um risco de que elas se tornem atalhos nem sempre desejáveis na experiência da leitura.

Nesse cenário, talvez o principal desafio não seja competir com a inteligência artificial, mas formar leitores capazes de dialogar criticamente com ela. Se os algoritmos se tornam cada vez mais eficientes para localizar, organizar e sintetizar informações, continua cabendo às pessoas interpretar, confrontar diferentes fontes, reconhecer

SEJA NAS PERFORMANCES POÉTICAS,

NO APURO ESTÉTICO DE UM AUDIOLIVRO

OU NOS FORMATOS MAIS TRADICIONAIS E SECULARES DA LITERATURA, A RADICALIDADE DA EXPERIÊNCIA

LITERÁRIA NOS PERMITE TORNAR

MAIS COMPLEXAS NOSSAS RELAÇÕES

COM O OUTRO E COM O MUNDO

contextos, identificar intenções e atribuir significado ao que leem. É justamente essa capacidade crítica que organismos internacionais, como a UNESCO, apontam como uma competência indispensável para a educação e para a cidadania em uma sociedade cada vez mais atravessada pelas tecnologias digitais e pela inteligência artificial.

A história da leitura mostra que as transformações tecnológicas nunca significaram o desaparecimento da leitura, e sim a mudança de seus suportes e de suas práticas.

Como observa o historiador Roger Chartier, a passagem do manuscrito ao livro impresso e, mais recentemente, aos ambientes digitais, modificou as formas de produzir, circular e acessar os textos, sem eliminar a necessidade da leitura como prática de interpretação e construção de sentido.

Livros impressos convivem hoje com audiolivros, plataformas digitais, vídeos e novos recursos mediados por inteligência artificial. Cada um desses formatos amplia possibilidades de acesso e de circulação do conhecimento, mas nenhum substitui aquilo que acontece quando um leitor estabelece um diálogo próprio com um texto. Trata-se, no fim das contas, da beleza de descobrir o novo.

EXPERIÊNCIA COMPARTILHADA

“Eu penso que a literatura é esse grande encontro entre estranhos, e em vários níveis”, reflete Jeferson Tenório. “Primeiro, com uma história que você não sabe qual é, que você vai descobrir. Depois há o encontro com o autor, que é também uma pessoa diferente, e isso só é possível por causa da literatura, que faz com que essas diferenças nos toquem em pontos em comum, mas também em pontos que nos incomodam”, elabora o escritor.

Seja nas performances poéticas, no apuro estético de um audiolivro ou nos formatos mais tradicionais e seculares da literatura, a radicalidade da experiência literária nos permite tornar mais complexas nossas relações com o outro e com o mundo. “A literatura é muito poderosa, tanto que ela é perseguida”, pontua Tenório, cujo livro vencedor do Prêmio Jabuti em 2021, O avesso da pele, foi censurado e recolhido provisoriamente em escolas do Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul.

A literatura, argumenta o autor, tem sua potência, mas não pode ser vista como uma tábua de salvação por si só: “Não adianta apenas ler. Você precisa partilhar sua leitura, porque a gente não lê sozinho, a gente lê com o outro. Eu até acho que é um dever cívico você dividir aquilo que leu, emprestar o seu livro, contar aquela história, entusiasmar as pessoas. Aí a coisa começa a fazer sentido”.

AUTORAS E AUTORES CONTEMPORÂNEOS

PERCORREM UNIDADES DO SESC

SÃO PAULO, COMPARTILHANDO OBRAS E PROCESSOS

CRIATIVOS

EM CLUBES DE LEITURA E BATE-PAPOS

Uma ação que aproxima públicos da produção literária brasileira e transforma a leitura em experiência compartilhada

SAIBA MAIS SOBRE O PROJETO EM SESCSP.ORG.BR/LEITURASCIRCULANTES

ALINE BEI
“Eu me esforço para ler o mundo de humanos e não humanos”, diz Ailton Krenak
ALEXANDRE DE MORAES

AILTON KRENAK A MÁQUINA DO MUNDO

TRAJETÓRIA DO LÍDER INDÍGENA, IMORTAL DA ABL

DESDE 2023, AJUDA A RECONSTRUIR HISTÓRIAS DE RESISTÊNCIA E PROTEÇÃO AOS POVOS ORIGINÁRIOS NO PAÍS

TEXTO JULIANA FADDUL

Existe certo consenso entre as cosmovisões indígenas de que nossa realidade não é apenas formada pelo que estamos vendo, ouvindo, cheirando e sentindo no instante do agora. Tampouco é o que sabemos de outros cantos deste planeta. Para esses povos, o real é a junção dos múltiplos mundos a que temos acesso: os sonhos, o agora, as memórias, o passado, o futuro, a crença. Nessas múltiplas realidades, são esses fragmentos em sintonia que conjugam o que eles entendem como viver. “Mais importante do que conhecer as letras é desenvolver a capacidade de ler o mundo”, diz Ailton Krenak, líder indígena, escritor, jornalista, acadêmico, ambientalista, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) e, para além de tantos títulos, um leitor ávido.

“Eu me esforço para ler o mundo de humanos e não humanos. Ver se eu consigo me comunicar com outros seres, outros

organismos. Os meus interlocutores mais constantes são os humanos, mas eu não me dirijo só a eles”, afirma. Para o escritor, é preciso ampliar a realidade para conseguir se movimentar.

O insistente hábito da leitura foi imposto por seu último sobrenome, Ailton Alves Lacerda Krenak. O povo Krenak, assim como tantas outras etnias, leva em sua história cicatrizes de confrontos e deslocamentos. “Nascer [indígena] na década de 1950 foi praticamente nascer no exílio. Qualquer criança que cresceu tendo como experiência de infância ver os pais fugirem do lugar de origem desperta com um senso de urgência. Esse despertar foi quase que junto com aprender a correr e andar”, relembra. Ele tinha onze anos quando mudou de casa pela primeira vez, acompanhado de seus pais, de seus seis irmãos e dos quase cinquenta primos, um clã inteiro.

POLÍTICA

Ailton Krenak discursa em defesa dos direitos indígenas, em 1987; no rosto, a tinta preta liberada pelo jenipapo remete ao ritual Rin’tá, que significa “armado de luto e de guerra”

RESISTÊNCIA LETRADA

A fala de Ailton rememora as diversas resistências que os Krenak enfrentaram mesmo séculos após a truculenta chegada dos portugueses ao Brasil. Nas décadas de 1950, 1960 e 1970, os Krenak, originários da região do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, tiveram que resistir contra várias ameaças: a instalação da mineradora Vale, a pressão vinda de fazendeiros, de empresas privadas e principalmente dos militares, que construíram na virada para a década de 1970 o que ficou conhecido como “Reformatório”. O local, idealizado pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e pela Polícia Militar de Minas Gerais, era um centro de detenção onde indígenas que resistiam às tentativas de dominação, ou que eram considerados

transgressores, eram levados para serem torturados e encarcerados. Os Krenak e os Pataxós foram as etnias mais afetadas pelas violências que ocorriam no espaço, que ficou oficialmente em operação até 1972. Foi então que, aos dezessete anos, Ailton Krenak decidiu aprender a ler não só as palavras, mas sobretudo a cultura dos que tentaram — e ainda tentam — colonizá-lo. “Eu fico pensando no desentendimento que uma afirmação dessa [que foi alfabetizado aos dezessete anos] pode promover. Você pode ler tudo, citar gregos, franceses, todos os clássicos e mesmo assim continuar sendo um burro. Você só será um burro ilustrado”, diz. Por isso entende a importância de fazer um paralelo com os tempos atuais: “Os humanos estão indo à guerra, no sentido literal da

palavra, e a democracia acabou se tornando uma expressão envergonhada num mundo de tiranos. Parece que estamos chegando perto de um abismo cognitivo, onde a linguagem não é mais suficiente para dar conta das nossas angústias. Nós estamos num mundo governado por maníacos”.

Além das loucuras federais e internacionais que acometem o Brasil, os Krenak ainda são vítimas de constantes tentativas de massacres. À violência se soma também o descaso. O exemplo mais hiperbólico é o rompimento da barragem de Fundão da Samarco em Mariana (MG), em 2015, que despejou mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração na região, impactando gravemente a bacia do rio Doce, local onde pescavam, caçavam e viviam. Este ainda é considerado o maior desastre ambiental do Brasil. Como disse a escritora e acadêmica Heloísa Teixeira durante o discurso de posse de Ailton na ABL, a história desse povo é “a mesma dor que modelou o sonho e o grito do poeta Ailton Krenak e o transformou nesse líder político cuja importância é reconhecida no mundo inteiro”.

CONSTITUINTE

Antes de ganhar o mundo, Ailton Krenak escreveu seu nome pela primeira vez para todo o país com o fruto do jenipapeiro, durante uma fala na Assembleia Nacional Constituinte, em 1987. “Hoje nós somos alvo de uma agressão que pretende atingir na essência a nossa fé, a nossa confiança de que ainda existe dignidade, de que ainda é possível construir uma sociedade que sabe respeitar os mais fracos, que sabe respeitar aqueles que não têm dinheiro para fazer uma campanha incessante de difamação, que sabe respeitar um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas”, declarou. Como que descrevendo um universo o qual a alta política nunca quisera acessar, descreveu em minúcias realidades até então ocultas a esses representantes: “Um povo que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no chão, não deve ser identificado de jeito nenhum como um povo que é inimigo do Brasil, inimigo dos interesses da nação”, disse.

INTERVENÇÃO

O mural Sol do Meio Dia, de Daiara Tukano, inaugurado em abril de 2026 no Vale do Anhangabaú (São Paulo), homenageia o escritor e celebra sua força como uma das principais vozes indígenas do Brasil

O EXERCÍCIO DA LINGUAGEM EXIGE DA GENTE UM CÓDIGO, UMA CONTENÇÃO, UMA NORMA. ESSA NORMA É PARA

A GENTE SE FAZER OUVIR, PARA A GENTE SER ESCUTADO

Vestido com um terno branco, camisa e calça da mesma cor, defendeu de forma elegante e coerente os direitos dos povos indígenas. Mas não só: como em uma performance, fez com que aqueles grupos colonizadores fossem obrigados a lerem outros mundos, pintando o rosto, ao mesmo tempo que discursava, com a tinta preta que é liberada pelo jenipapo, num ritual Rin´tá, que significa “armado de luto e de guerra”. Em uma conquista até então inédita, conseguiu que fosse incluído um capítulo sobre a proteção dos direitos dos povos indígenas na Carta Magna que rege o país até os dias de hoje.

A década de 1980 foi um grande marco da projeção indígena. Na mesma época, com apenas dezenove anos, a guerreira Tuíre Kayapó colocou um facão no rosto de um engenheiro da Eletronorte, em uma audiência realizada em Altamira, no sul do Pará, para discutir a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. “O exercício da linguagem exige da gente um código, uma contenção, uma norma. Essa norma é para a gente se fazer ouvir, para a gente ser escutado”, diz Krenak. A linguagem exposta pelas lideranças indígenas no período da redemocratização reverbera até hoje entre as gerações mais novas.

“A Valdelice [Veron, liderança Guarani-Kaiowá] estava acompanhando uma reunião na 6ª Câmara em Brasília [de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal], e escutou de uma autoridade que a gente tinha que se ater ao que está escrito na Constituição. Ela se levantou num salto só e disse: ‘Então por que vocês não fazem o papel falar?’. E ela berrava, ‘faz o papel falar, faz o

IMORTAL

Primeiro indígena a ser eleito para a Academia Brasileira de Letras, Krenak ocupa hoje a cadeira número cinco da instituição

como lemos hoje?

papel falar’”, relembra. “Ela é alguém diante dessa muralha que se entrepõe entre o texto escrito, a língua, a gramática e a perversão da vida das pessoas. As pessoas estão morrendo. Não têm tempo pra esse papo furado da escrita”, provoca Krenak. Se antes seus antepassados tiveram de se deslocar para sobreviver, essa ação foi oportuna para que Ailton se deslocasse entre as brechas da escrita. Na mesma época em que aprendeu a ler e a escrever como os brancos, trabalhou como produtor gráfico e jornalista no Paraná, onde foi morar após mais uma das incontáveis mudanças que seus pais foram obrigados a fazer. Pouco tempo depois, em 1982, foi um dos fundadores da União das Nações Indígenas (UNI), organização representativa dos interesses indígenas, em que ficou responsável pela coordenação de comunicação e publicações.

Desde que suas falas se converteram em palavras, seus livros viraram best-sellers: ele é autor de Ideias para adiar o fim do mundo, Futuro ancestral e A vida não é útil, entre outros. A devoção das palavras escritas pelas falas de Krenak é tamanha que ele chegou a uma das posições mais disputadas e almejadas no mundo letrado e ilustrado: tornou-se um imortal da Academia Brasileira de Letras. Eleito em 2023, tomou posse no ano seguinte e passou a ocupar a cadeira de número cinco, móvel mais vanguardista da casa. Afinal, além de Ailton, foi também ocupado pela escritora Rachel de Queiroz, a primeira mulher a integrar a Academia. Afeito mais a levantar perguntas do que a vociferar certezas, Ailton Krenak está sempre em movimento: “Não procure um lugar sem sombra de dúvida, procure um lugar com alguma dúvida”.

BEST-SELLER

Krenak autografa um de seus livros, A vida não é útil, em bate-papo no Sesc Vila Mariana

UMA COREOGRAFIA DE PÁGINAS E TINTAS

ENTRE REFERÊNCIAS, SOLUÇÕES TIPOGRÁFICAS E PROJETOS GRÁFICOS, UM ENSAIO SOBRE COMO O DESIGN

EDITORIAL BRASILEIRO TAMBÉM ESCREVE — E ASSINA

— A HISTÓRIA

DA

LITERATURA

Oásis de Dakhla, Egito, 1988. Um grupo de arqueólogos encontra um livro praticamente intacto, datado do século IV d.C. Registro de quatro anos de transações financeiras do administrador de uma propriedade local, é considerado um dos exemplares mais antigos já encontrados de um códice — o ancestral do livro moderno. Feita de madeira, cada folha tem 32 centímetros de altura por 10 centímetros de largura e uma espessura de um pouco mais de um milímetro; o objeto apresenta quatro furos do lado esquerdo para amarrá-lo em conjuntos de oito folhas. Portátil, fácil de manusear e resistente ao tempo, essa descoberta arqueológica mostra que, apesar dos inúmeros avanços tecnológicos para impressão de livros, os requisitos dos leitores de hoje não são muito diferentes dos leitores de dezessete séculos atrás.

“Um livro é uma sequência de espaços”, escreveu o artista mexicano Ulises Carrión em seu manifesto A nova arte de fazer livros Publicada em 1975, essa coletânea reúne escritos sobre modos de entender, fazer e ler o livro como um objeto inteiro, capaz de suscitar leituras cada vez mais particulares. Para Carrión, um livro não é um recipiente neutro de palavras, nem uma embalagem discreta para um texto que existiria independentemente dele. Embora não fosse bailarino, o artista pensava o livro a partir de uma lógica de sequência e movimento: ao se debruçar

sobre pequenas ações, como o virar de uma página, ele nos alerta sobre o manusear de um livro como uma espécie de coreografia.

A maioria dos livros atuais, em sua forma tipográfica e visual, pouco avançou em relação às produções de Gutenberg, mesmo diante das profundas transformações ocorridas em seus modos de fabricação.

De fato, como defende o designer britânico Richard Hollis, a forma do livro se alterou muito pouco ao longo dos séculos. Folhas de papel, impressas em ambos os lados, dobradas e presas por uma das bordas, envoltas por uma capa. Seria então a padronização das formas de transmitir uma narrativa um obstáculo para a invenção?

As fórmulas consagradas podem até ter dado pouca margem para (re)invenção nesses últimos séculos, mas é cada vez mais frequente que editores e designers se juntem para adicionar novas camadas de sentido ao texto através do projeto gráfico. Antes um ofício artesanal, a feitura de livros tornou-se um processo industrial. Dos manuscritos e iluminuras pintadas com ouro aos tipos móveis e até a impressão digital, muitas inovações gráficas estiveram ligadas também ao desejo de baratear e ampliar a produção editorial. O lembrete é importante, sobretudo porque é fácil esquecer que esse ofício, ainda que possa trazer traços artesanais, participa de uma lógica industrial.

TEXTO TEREZA BETTINARDI FOTOS NINO ANDRÉS

CAPAS ICÔNICAS

Na abertura do ensaio (p. 25): publicados pela editora Elefante desde 2019, os livros de bell hooks se destacam graficamente pela variação de cores entre os títulos

PAPEL E SUOR

Há uma fantasia persistente quando falamos de design de livros. Uma delas é a de que a criatividade seria uma espécie de força autônoma (e quase moralmente superior), capaz de pairar acima das condições concretas de produção. Como se o designer, ao organizar páginas, escolher tipografias, propor formatos ou testar os limites das convenções gráficas, estivesse operando fora do mundo da mais-valia, dos prazos, dos custos, da circulação, da distinção social e das hierarquias que estruturam a produção cultural. Fantasias assim são convenientes: preservam a imagem do designer (e também se aplicam a editoras e todas as pessoas envolvidas na cozinha editorial) como um sujeito inventivo, como uma espécie de médium que opera entre o caos e o bom gosto. No Brasil, a experiência da Cosac Naify (na sua primeira encarnação) entre 1997 até o seu fechamento, em 2015, talvez seja exemplar nesse sentido. Por um lado, a editora ampliou a percepção do livro como objeto, mostrando que forma, materialidade e leitura não são instâncias separadas; por outro, também ajudou a consolidar, no imaginário do design editorial brasileiro, uma ideia de livro excepcional, justificando também alguns caprichos gráficos e marcadores de distinção cultural. Escrevo de uma posição implicada: entre 2012 e 2014, trabalhei na editora e pude desenvolver ali uma série de livros. Foi uma experiência decisiva na minha formação, mas que também me colocou muitas interrogações, as quais sigo respondendo a partir da minha prática como designer e mais recentemente como editora que publica livros de design. O problema não está no desejo de produzir livros belos e surpreendentes. Está na abstração dessa beleza de suas condições concretas de produção. Uma pincelada feita de forma individual numa capa não é só

Na página ao lado (p. 26), capas, tipografias, formatos e papéis compõem uma história visual da literatura. Cada projeto editorial apresenta de forma distinta o texto ao leitor

um gesto poético; é tempo de trabalho de alguém. Uma tiragem pequena não é só curadoria editorial; ela também mostra os limites da circulação, seja na chave da exclusividade, seja porque isso diz muito sobre o tamanho do nosso mercado consumidor. Quando o discurso sobre design e livros esquece essa cadeia material, falar sobre criatividade é só um verniz que encobre relações de trabalho, custos, exclusões e hierarquias sob a aparência de uma invenção formal autônoma.

Nenhuma escolha gráfica existe fora de suas condições materiais. Um livro não é uma confraria de boas ideias: depende de dinheiro, circulação e acesso. É sempre bom lembrar isso, sobretudo porque designers por vezes esquecem (ou ignoram de propósito, em nome de liberar suas pulsões criativas) que esse ofício participa de uma lógica industrial e comercial. Em prêmios, anuários, exposições e redes sociais, é comum que o trabalho dos designers seja

No rodapé: em 10 poemas, texto, espaço em branco e composição gráfica atuam conjuntamente, demonstrando que o projeto editorial é parte integrante da obra

analisado apenas pela excepcionalidade do objeto projetado. Mas livros circulam. Livros existem porque há quem os leia, os manuseie, os compre, os empreste, os guarde ou os abandone. Critérios de avaliação que não levam em conta a variedade e a diversidade de leitores continuarão falando apenas de si. A pergunta, portanto, não é apenas quão original, belo ou experimental pode ser um livro, mas que tipo de mundo produtivo ele revela ou desafia.

PROJETO GRÁFICO COMO TRADUÇÃO

Um dos aspectos mais angustiantes para quem desenha livros é obter respostas sobre o destino — material e emocional — do que se projeta. Em exemplos concretos, o quanto uma sobrecapa que vira cartaz não diz mais sobre quem a projetou do que sobre o projeto em si? Será que aquela brochura com laminação soft touch resistiu ao tempo? E aquele livro com a capa em papel não revestido que hoje está imundo na livraria,

encalhado na estante? Questões assim podem mostrar como mundo real pode ser cruel com os designers. Dá para pensar o projeto gráfico de um livro como uma tradução. Designers, neste caso, interpretam visualmente histórias. Como toda tradução, isso também carrega escolhas e posições de quem traduz. Aquilo que em determinado meio pode ser lido como sofisticado ou provocador, em outro contexto pode aparecer como um objeto inacessível. Há livros, por exemplo, cuja história parece condensar, em escala reduzida, uma discussão inteira sobre tradução, forma e trabalho editorial. É o caso da primeira edição brasileira de 10 poemas de e.e. cummings, publicada em 1960. Preparado na monotipia da Imprensa Nacional, no Rio de Janeiro, o volume reuniu poemas traduzidos por Augusto de Campos e ganharia, nos bastidores de sua produção, o apelido de “o pesadelo dos tipógrafos”. O episódio interessa justamente porque torna

visível aquilo que costuma permanecer escondido na feitura de um livro: a negociação lenta entre texto, forma, técnica e trabalho. Foram três anos de composição, uma viagem de Augusto de Campos ao Rio de Janeiro para colaborar pessoalmente com os tipógrafos da Imprensa Nacional, oito provas de revisão e uma correspondência intensa com o próprio cummings até que os mil exemplares finalmente viessem a público. A capa, desenhada por Alexandre Wollner em parceria com Geraldo de Barros, traz a ampliação de um dos poemas. Os livros de poesia oferecem alguns exemplos especialmente felizes dessa capacidade de uma capa se fixar na memória. É o caso da Antologia poética de Carlos Drummond de Andrade, publicada pela Record nos anos 1980. Um exemplo de capa branca (logo ela, tão odiada pelos editores) cujo espaço em branco é tão marcante quanto a própria presença tipográfica. Já outro exemplo mais recente, a capa de Toda poesia,

LIVROS EM SÉRIE

Ao lado, a série O que é…, da Brasiliense, funcionou como porta de entrada para obras de não ficção. Na página a seguir: lançada em 1968 pela Perspectiva, a coleção Debates tem projeto gráfico que se destaca pela permanência; em destaque, projeto gráfico de Oga Mendonça para a Coleção Antonio Candido, da editora Todavia de Paulo Leminski, publicado pela Companhia das Letras em 2013 com projeto gráfico de Elisa von Randow, funciona como um ícone. Com uma cor vibrante e uma pincelada que sintetiza o bigode do poeta, o livro se tornou rapidamente reconhecível, circulando também como imagem nas redes sociais, naquela época ainda menos movimentada do que hoje. Lembro de muitos leitores que passaram a fotografar a capa diante do rosto, como se tivessem o bigode de Leminski. Algo semelhante acontece na capa de O homem nu, de Fernando Sabino, desenhada por Bea Feitler em 1960. Nela, a designer usa as próprias letras do título para compor a imagem de uma figura masculina imediatamente reconhecível. Para os livros de não ficção, há o exemplo emblemático da Coleção Debates. Lançada em 1968 pela editora Perspectiva, é um desses casos em que o projeto gráfico se destaca pela permanência. Com formato estreito, capas essencialmente tipográficas e uma estrutura visual de grande economia, o desenho concebido por Moysés Baumstein sobrevive por mais de cinco décadas praticamente inalterado. Ao sustentar um sistema reconhecível e replicável, as capas brancas com laminação brilho construíram uma presença própria nas livrarias e na memória dos leitores. Com mais de mil títulos publicados, a coleção da editora Perspectiva mostra que não precisa reinventar a roda a cada livro para se converter em valor cultural. Não por acaso, é possível aproximar a inteligência visual de Moysés Baumstein, de 1968, do desenho feito por Oga Mendonça para a Coleção Antonio Candido para a Todavia, em 2023. Ali também foi estabelecido um sistema: uma mesma estrutura gráfica, uma única tipografia e variações cromáticas.

POESIA GRÁFICA

Abaixo, a Coleção Poesia

Brasileira Contemporânea, da Companhia das Letras, projetada por Kiko Farkas. Ao lado, o projeto gráfico do Círculo de Poemas, do estúdio Alles Blau, com seu marcante corte vazado na capa; recurso também é usado na obra O coração da pedra e em Os Sentidos da Paixão

Outro exemplo dessa sistematização aparece na série Cadernos do Povo Brasileiro, com capas de Eugênio Hirsch. Lançados a partir de 1962 pela Civilização Brasileira, os livros trazem a ideia de publicação como instrumento de formação política. Eram folhetos populares, voltados a discutir os grandes problemas do país em linguagem acessível. O nome da série, escrito à mão, carrega a marca de Hirsch, cuja produção combinou desenho, colagem, fotografia, lettering e soluções tipográficas de grande impacto.

Já a coleção Primeiros Passos, da editora Brasiliense, é um dos exemplos mais emotivos de como um projeto gráfico pode formar também uma memória de leitura. Fundada em 1943, a Brasiliense encontrou nos anos 1980 uma nova forma de falar com leitores jovens, sobretudo universitários, em pleno contexto de reabertura política. Com seus livros de bolso organizados em torno da pergunta “O que é…”, a série funcionou como porta de entrada para temas, autores e debates da não ficção. Visualmente, sua força estava na repetição de uma estrutura

simples: a moldura branca, o espaço definido para a ilustração e um sistema capaz de acolher diferentes estilos sem perder unidade. Entre 1980 e 1989, foram mais de duzentos títulos e milhões de exemplares vendidos — números que ajudam a explicar por que essa coleção permanece tão associada aos primeiros ciclos de formação intelectual, do Ensino Médio ao início da universidade.

Na série projetada por Moema Cavalcanti para a Companhia das Letras, cujo exemplo vemos na capa de Os sentidos da paixão, publicado em 1987, a fenda na capa revela o interior colorido do verso. Décadas depois, a solução reaparece desenhada pelo estúdio Alles Blau para o selo do Círculo de Poemas, lançado pelas editoras Fósforo e Luna Parque em 2022. Em outro exemplo recente, O coração da pedra, publicado pela editora Litoral Press, de Fortaleza, em 2023 com projeto de Emi Teixeira, faz uso da impressão risográfica — muito utilizada em pequenas tiragens artísticas — para criar uma espécie de clareira rosa no interior do livro.

Há também casos em que uma série de livros parte do repertório visual já acumulado pelo designer. É o que acontece na Coleção Poesia Brasileira Contemporânea, criada em 2015 pela Companhia das Letras, com projeto gráfico de Kiko Farkas. Entre 2003 e 2007, a Máquina Estúdio dirigida por Farkas foi responsável pela comunicação da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), período em que criou uma série de mais de trezentos cartazes. Neles, cada concerto parecia abrir a possibilidade de uma nova organização visual para a música. Na coleção de poesia, Kiko leva adiante uma lógica semelhante: a criação de um sistema simples, mas suficientemente flexível para produzir variações. As capas partem de uma fórmula, um fundo colorido, grafismos pretos e elementos brancos que têm a função de destacar o título e o nome do autor. De forma análoga, isso também aparece na coleção de livros Uma Breve Imersão, publicada pelas

Edições Sesc com projeto gráfico do Estúdio Daó. Os designers Giovani Castelucci e Guilherme Vieira trazem para a série um vocabulário gráfico que não se limita à capa. Os grafismos são o ponto de partida de um sistema: estão na capa, mas se infiltram para as páginas internas, em sumários, aberturas e elementos de apoio à leitura. A solução, em si, não é necessariamente original. O que interessa compreender, a partir desse exemplo, é que capa e miolo não são instâncias separadas do projeto gráfico. São partes de um mesmo raciocínio visual. O projeto estabelece assim uma relação de continuidade entre o lado de fora e o lado de dentro. Já no universo próprio das capas totalmente tipográficas, há outros exemplos em que a repetição também funciona como princípio de projeto. Na Coleção Teatro Contemporâneo, da Editora Javali, criada pelos designers Vitor Carvalho e Amanda Goveia, a tipografia assume papel central. Às vezes a partir de uma mesma família tipográfica, os livros exploram arranjos distintos, variações de escala, ritmo e composição. A limitação gráfica joga a favor da coleção, criando consistência e reconhecimento. Algo semelhante aparece na série do dramaturgo Sérgio Carvalho publicada pela editora Temporal, com projeto do estúdio Bloco Gráfico, em que a relação entre nome do autor, título da obra e grafismos de destaque cria uma espécie de estrutura recorrente. Para encerrar essa sequência de exemplos tipográficos, vale destacar a série de livros de Oswald de Andrade publicada pela Companhia das Letras, com projeto gráfico de Elisa von Randow. A própria designer descreve como ponto de partida do projeto uma imagem quase cinematográfica: a lenda de que, em 1916, o jovem Oswald circulava por São Paulo em um automóvel conversível ao lado da bailarina Isadora Duncan, enquanto a antiga vila começava a se transformar na metrópole moderna do século XX. Ao olhar para os edifícios históricos do centro de

O VALOR DO DESIGN

A pluralidade do design editorial brasileiro transforma livros em objetos únicos. A série do dramaturgo

Sérgio Carvalho pela editora

Temporal, projetada pelo

estúdio Bloco Gráfico, usa uma estrutura recorrente que conecta o nome do autor, o título e grafismos de destaque; já nos títulos de Oswald de Andrade,

São Paulo, Elisa aproxima camadas de tempo — da cidade dos passeios modernistas até as empenas cobertas pelo pixo.

É dessa convivência entre tempos distintos que nasce a ideia central do projeto gráfico. Elisa aproxima o espírito demolidor de Oswald da linguagem sintética, vertical e anônima do pixo. Para isso, desenha um alfabeto próprio, um cruzamento entre a linguagem do pixo misturada às vanguardas artísticas do começo do século XX. As capas atualizam visualmente o espírito iconoclasta de Oswald, como se sua escrita pudesse reaparecer hoje nas alturas dos prédios do centro de São Paulo. No miolo, a escolha da Silva Text, desenhada pelo designer de tipos brasileiro Daniel Sabino, cria o contraponto de leitura com uma estrutura editorial mais silenciosa.

Às vezes, o trabalho de uma editora também acaba honrando a tradição gráfica de editoras passadas. É o que acontece, a meu ver, no trabalho que Luísa Zardo vem desenvolvendo para a Dublinense. Difícil não associar com o trabalho da Editora do Globo, de Porto Alegre, em que artistas como Edgar Koetz ajudaram a formar uma identidade gráfica marcante para a casa, reconhecida tanto pela qualidade editorial quanto pelo cuidado visual de suas publicações. Em O diabo, de Gonçalo M. Tavares, a capa faz da ilustração uma solução gráfica precisa e, vista em relação ao conjunto do catálogo da Dublinense, ajuda a demarcar uma linguagem própria para a editora. A série de livros de Agatha Christie, criada por Túlio Cerquize em 2020 para a HarperCollins, é um outro exemplo de uma estratégia de unidade pela variação. Em coleções muito extensas, dedicadas a um único autor, o projeto gráfico precisa resolver um problema duplo: fazer com que todos os livros sejam reconhecidos como

da Companhia das Letras, o projeto gráfico de Elisa von Randow cruza as vanguardas modernas com a linguagem urbana do pixo

parte de um mesmo conjunto e, ao mesmo tempo, evitar que as capas pareçam repetitivas. Nesse caso, em vez de adotar uma tipografia fixa para todos os volumes, o designer trabalhou com letterings feitos à mão, explorando uma caligrafia diferente para cada título. Cada capa ganha uma voz própria, mas todas pertencem ao mesmo sistema. Em direção semelhante, a Coleção bell hooks, com projeto de Letícia Quintilhano e direção de arte de Bianca Oliveira, para a Editora Elefante, aposta na permanência de um elemento fixo. Publicadas a partir de 2019, as capas repetem o lettering do nome da autora como uma assinatura visual, enquanto as cores variam de livro para livro. A unidade da série nasce dessa presença constante, da diferenciação pela mudança cromática. Assim, o nome de bell hooks se torna o eixo gráfico da coleção, sempre reconhecível, mas sem prender os livros a uma fórmula rígida. Ao lado da coleção de Agatha Christie, esse exemplo mostra que uma série pode se organizar tanto pela variação controlada quanto pela repetição estratégica de um elemento central.

AUTORIA

Muito já se escreveu sobre a atitude do designer como autor. O debate, formulado pelo designer Michael Rock nos anos 1990, retirou o designer da posição de mero executor técnico ou prestador de serviço, reconhecendo sua participação ativa na produção de sentido. Isso não é bem novidade. Mas vale também perguntar: quais são as imagens e estratégias visuais que sustentam tal postura? Não por acaso, são referências que também distinguem o olhar, citações, livros, exposições, viagens, filiações estéticas e modos de nomear o próprio trabalho — tudo operando normalmente dentro da lógica de construção de um capital cultural.

UNIDADE PELA

VARIAÇÃO

À direita: série de livros de Agatha Christie, criada por Túlio Cerquize em 2020 para a HarperCollins, é uma estratégia que mantém unidade pela variação

Em ambos os casos, a solução visual do livro não nasce de uma ideia isolada de estilo, mas de uma investigação anterior, de um repertório construído no contato com imagens, arquivos, obras e procedimentos gráficos. Um primeiro exemplo é a série de livros da cientista política e ativista feminista decolonial francesa Françoise Vergès, publicada pela Ubu, com projeto gráfico de Elaine Ramos. As capas parecem retomar um repertório visual com que Elaine já havia entrado em contato em Todo Poder ao Povo!, uma exposição sobre o designer Emory Douglas realizada no Sesc Pinheiros, em 2017. Algo semelhante acontece na produção recente de Gustavo Piqueira vinculada à Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. A partir de uma residência artística no acervo da biblioteca, Piqueira constrói livros em que a pesquisa documental aparece apenas como conteúdo e como matéria-prima de exercício formal. O acervo é ampliado, recortado e transformado em estrutura narrativa. Em Cromografias, por exemplo, a investigação sobre os modos de reprodução de imagens coloridas em O Tico-Tico se desdobra em um livro que também pensa a impressão, a cor e a materialidade gráfica como linguagem.

Nos dois exemplos, a pesquisa visual é matéria da forma. Ao mesmo tempo, é impossível não lembrar de Doorway to Brasília, projeto de Aloísio Magalhães e Eugene Feldman, cujo foco da pesquisa era justamente compreender a natureza dos sistemas de impressão offset e usá-lo como fonte de expressão. A referência nesse caso é importante porque insere esses projetos numa tradição histórica do design brasileiro.

HÁ ESTES E TODOS OS OUTROS

Toda seleção é um lembrete também dos que não estão lá. Esta curadoria não deve ser lida como endosso ou um ranking do design de livros no Brasil. Nenhuma seleção dá conta de um campo tão amplo, ainda mais em poucas páginas. Ela parte dos livros que encontrei pelo caminho e das perguntas que hoje orientam meu olhar e a minha prática. As ausências também refletem a própria concentração material do mercado editorial brasileiro. Segundo dados de 2025 publicados no Guia de Editoras – Mapa do Setor Editorial Brasileiro, lançado pelo SNEL em parceria com a Nielsen BookData, 77% das editoras brasileiras estão no Sudeste, região que

concentra 97% do faturamento total das editoras no país.

Assumir esse limite me parece mais honesto do que tentar compensá-lo artificialmente. Não cabe a uma curadoria remediar problemas estruturantes do mercado editorial brasileiro; incluir um exemplo aqui ou outro ali não vai redistribuir orçamento, gráfica, livraria, crítica, imprensa, universidade, circulação ou tempo de leitura. Talvez essa seja também uma atitude que designers deveriam cultivar com mais frequência: falar mais abertamente sobre os limites que tornam sua prática possível.

Já para quem lê, compra ou manuseia livros, fica também o convite para olhar mais uma vez. Uma capa não nasce do nada. Suas soluções carregam decisões, referências, limites técnicos, disputas de gosto, condições de produção e modos de circulação. Já que este texto não tem a pretensão de oferecer uma resposta definitiva sobre o design de livros, que possa ao menos avançar um pouco na pergunta. Na próxima vez que você julgar um livro pela capa, lembre-se de que há sempre muito mais coisas estampadas ali.

UMA REVOLUÇÃO COLETIVA

SEJA NAS BIBLIOTECAS OU EM OUTROS ESPAÇOS DE MEDIAÇÃO, O ENCONTRO ENTRE O LIVRO E O LEITOR

NASCE DA ESCUTA, DA TROCA E DO PERTENCIMENTO

TEXTO GABRIEL VITURI

Sentado na cabine entre o motorista e o auxiliar de biblioteca, André Carlos da Silva invariavelmente se transporta para um passado distante, embora profundamente familiar. Décadas antes, na boleia do caminhão de feira da família, ainda criança, ele se acomodava entre o pai e o tio para percorrer várias áreas de São Paulo e arredores, fazendo dessa itinerância urbana o trabalho que sustentou a sua família de origem por mais de uma geração. Décadas depois, nos oito anos que atuou a bordo do BiblioSesc levando atendimento e literatura a regiões da cidade onde frequentemente faltam equipamentos culturais, o bibliotecário hoje reconhece que sua história é marcada por voltas tão metafóricas quanto literais.

Atualmente trabalhando na biblioteca do Sesc 24 de Maio, no centro da capital paulista, André tem uma trajetória que sempre convergiu para dois elementos fundamentais: o livro e a mediação com o público. Criado no Tucuruvi, bairro da zona norte onde nasceu e cresceu, sua formação literária se deu ainda na adolescência, contrariando

as estatísticas de uma casa onde o hábito da leitura não era dominante. Ele recorda que nessa época, como recompensa pela ajuda dada aos feirantes da família, recebia um trocado que logo se transformava em um universo de gibis e quadrinhos comprados na banca de jornal mais próxima.

No Sesc, onde está desde 2011, o hoje bibliotecário começou na área de atendimento no Sesc Interlagos. Em janeiro de 2017, realizou o desejo de migrar em definitivo para a profissão que exerce hoje, assumindo o comando do BiblioSesc ligado ao Sesc São Caetano do Sul. O que deveria ser apenas um posto de trabalho tornou-se uma jornada de oito anos consecutivos estabelecendo vínculos em territórios periféricos e isolados. “O principal diferencial do BiblioSesc é que você vai praticamente até a porta da casa da pessoa, em locais onde a biblioteca pública ou não existe ou passa por severas dificuldades estruturais”, explica ele, cuja graduação em Biblioteconomia foi concluída enquanto já trabalhava na instituição. Essa proximidade física, diz, exige uma desconstrução da postura rígida tradicionalmente associada às bibliotecas.

Atualmente, são 28 bibliotecas do Sesc São Paulo distribuídas pelo estado; na foto, público circula pelo espaço no Sesc Bom Retiro

MARIANE LIMA
“LITERATURA

NÃO É LUXO, E SIM UM ALIMENTO

ESSENCIAL PARA A DIGNIDADE HUMANA”,

DEFENDE BEL SANTOS MAYER

A LEITURA COMO PONTE

Antes de transformar as bibliotecas em seu ambiente de trabalho, a juventude de André Carlos foi marcada por diversos momentos de partilha literária. Passado tanto tempo, ele ainda é capaz de descrever suas memórias de leitor iniciante como se fosse hoje. “Meu amigo dizia, ‘repara no que meu pai escreveu aqui que é bem importante’, e aí a gente depois discutia nossa leitura”, ele narra, ao se lembrar dos comentários que eram escritos pelo pai do colega nas bordas amareladas das páginas de uma antiga coleção com histórias de Sherlock Holmes. Para contextualizar e guiar a leitura do filho, e eventualmente dos amigos a quem ele emprestava as obras, o vizinho deixava comentários com suas interpretações e reflexões sobre o conteúdo.

Sem que isso fosse premeditado, os dois garotos da zona norte operavam ali uma espécie de clube informal e espontâneo, fundamentado na troca e na escuta. Aos poucos, o livro foi se incorporando à sua rotina, até o momento em que ele se viu rodeado diariamente por pilhas e mais pilhas deles. Durante três anos, André trabalhou em um sebo no Tucuruvi, que ele define hoje como uma grande escola. Por não ser um espaço de alto giro comercial, o local logo virou um ponto de convivência. “A gerente sempre passava um café fresco e oferecia para as pessoas que entravam. O modo de receber era o mais importante, e o cliente acabava levando o livro por causa da conversa, do acolhimento”, reflete. Para quem fora criado no balanço das feiras livres, tratar bem as pessoas e entender suas demandas era um movimento natural.

O que a experiência do bibliotecário do Sesc ajuda a visualizar é que, antes da leitura e dos potenciais leitores, em primeiro lugar é preciso escutá-los. Para a educadora e ativista Bel Santos Mayer, cofundadora e uma das coordenadoras gerais do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC), entender hoje quem são os nossos leitores não é apenas uma questão de diagnóstico, e sim de uma mudança de perspectiva. Há quase

três décadas à frente de projetos de formação humana, ela recusa o diagnóstico simplista de que o brasileiro não gosta de ler. Para ela, o que falta estruturalmente é o direito de acesso: “O processo de transformação de um considerado ‘não leitor’ em um sujeito leitor não se faz por decreto ou por cobrança escolar, mas pela criação de espaços de acolhimento e pertencimento, onde a palavra escrita faça sentido com a experiência de vida do indivíduo”.

A iniciativa capitaneada pelo IBEAC em Parelheiros, distrito no extremo sul de São Paulo que fica a quarenta quilômetros da área central da cidade, é uma evidência contundente de que barreiras geográficas, sociais e econômicas podem se desfazer diante de um trabalho contínuo de formação. Foi ali que nasceu a Rede de

Bibliotecas Comunitárias de Parelheiros, um projeto coletivo que foca na formação de jovens mediadores de leitura dentro de um território historicamente desassistido pelo poder público.

Bel Mayer recorda que, quase duas décadas atrás, quando começaram a construir as primeiras estruturas de fomento à leitura na região, muitos questionavam se os livros eram mesmo uma prioridade para quem enfrentava severas privações materiais. “Eu sempre recorria a Antonio Candido para apoiar a conversa. Ele defendia a literatura como um direito fundamental, uma necessidade capaz de organizar o nosso caos interior e nos humanizar”, explica. Evocando Cidinha da Silva, a educadora lembra que os livros são “tecnologias ancestrais de produção de infinito”. Nessa perspectiva, argumenta Bel, literatura não é luxo, e sim um alimento essencial para a dignidade humana.

O impacto e a solidez do trabalho comunitário em Parelheiros foram reconhecidos nacionalmente quando o projeto, erguido à base de mutirões e discussões sobre a educomunicação e os direitos humanos, conquistou o Prêmio Jabuti 2024 na categoria Fomento à Leitura. Um feito monumental que Bel faz questão de dividir com dezenas de mãos: “Essa história que estou contando não é minha, ela pode ser narrada por pelo menos mais vinte vozes da comunidade que carregaram as estantes nas costas e viram as bibliotecas nascerem do absoluto nada”.

ANCESTRALIDADE

É também sob o signo da leitura como revolução coletiva que se desenha a história de Ketty Margarete Valencio. Vinda de uma família preta e paulistana, ela traz gravada

1. Bel Santos Mayer, uma das coordenadoras do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC) 2. Para André Carlos, hoje na biblioteca do Sesc 24 de Maio, o modo de receber os leitores é um aspecto fundamental 3. Ketty Valencio, além de bibliotecária do Sesc, também é a criadora da Livraria Africanidades

LEITURAS CIRCULANTES

Projeto que promove o encontro entre leitores e importantes nomes da literatura brasileira contemporânea por meio de uma programação que articula leitura, fruição, reflexão e diálogo. Realizado em diferentes unidades do Sesc São Paulo, o projeto cria oportunidades para que o público conheça de perto escritoras e escritores, suas obras, processos criativos e os temas que atravessam a produção literária atual.

Mais do que uma série de encontros, a iniciativa propõe um percurso de leitura compartilhada. Antes de cada conversa com a autoria convidada, são realizados clubes de leitura dedicados às obras em destaque, incentivando a leitura como prática contínua, coletiva e transformadora. A partir dessas experiências, os bate-papos ampliam o diálogo entre público e autores, fortalecendo a troca de ideias e a construção de repertórios.

Em algumas unidades, a programação é complementada por leituras públicas e apresentações artísticas, ampliando as formas de aproximação com a literatura e enriquecendo a experiência dos públicos. Ao circular por diferentes territórios, o projeto contribui para democratizar o acesso à produção literária brasileira contemporânea, ao mesmo tempo que reafirma a importância da leitura como ferramenta de formação cultural, cidadã e crítica.

Durante os períodos de férias, a programação dedica especial atenção à literatura infantojuvenil, ampliando o acesso de crianças, jovens e famílias a obras, autorias e experiências de leitura voltadas a esse público. A proposta reforça a formação de leitores desde a infância, valorizando a literatura como espaço de imaginação, descoberta, convivência e desenvolvimento cultural.

Itamar Vieira Jr em bate-papo do projeto, realizado no Sesc Guarulhos

na memória de infância a imagem de sua mãe sentada na sala de casa lendo livros sobre os orixás. “Eu me identificava muito, porque eram histórias que falavam sobre coisas plurais, sobre a natureza, sobre um universo riquíssimo, e eram pessoas iguais a mim, pessoas pretas, principalmente mulheres pretas”, conta Ketty, que hoje atua na biblioteca do Sesc Pompeia.

Na juventude, porém, o ingresso no ambiente escolar provocou um distanciamento temporário desse universo letrado. Diante dos livros canônicos da literatura brasileira e das leituras obrigatórias a que os adolescentes são submetidos, a jovem deparou-se com uma linguagem erudita e distante de sua realidade. Sem maturidade para decifrar aquele vocabulário e sentindo-se deslocada das temáticas propostas, ela passou a acreditar que simplesmente não gostava de ler.

“Até que chegou um momento em que eu comecei de novo a ser arrebatada pela literatura, dessa vez pelo hip-hop”, ela relembra, descrevendo a virada que promoveu em sua trajetória enquanto leitora. Ao encontrar nas letras das músicas e nas rimas as questões que vivenciava de perto, Ketty foi convidada novamente a adentrar o mundo da palavra escrita. Para ela, o rap funcionava como uma espécie de bibliografia cantada, com referências a figuras históricas como Angela Davis, Malcolm X, Martin Luther King e outros. “Lembro que o primeiro livro que eu li e me marcou, dialogou comigo, realmente me impactou, foi o Esmeralda –Por que não dancei, porque é uma autobiografia da Esmeralda do Carmo Ortiz e eu me identifiquei muito”, destaca Ketty, que compartilha com a autora bairros onde morou e a sua origem preta. Progressivamente, movida pela curiosidade, a jovem fez incursões por vários movimentos literários de resistência que acabou a levando à formação no curso de Biblioteconomia.

Ketty Valencio começou a atuar como bibliotecária do Sesc no fim de 2016, em um BiblioSesc do Sesc Osasco que percorre outros bairros e distritos da Grande São Paulo. “Lá a proposta é levar a literatura através do acervo, mas também a gente tem a possibilidade de levar algumas outras intervenções artísticas para essas regiões, e isso cria uma comunidade mesmo”, ela descreve.

Anos antes de embarcar na biblioteca itinerante do Sesc, Ketty materializou um de seus grandes projetos de vida, a Livraria Africanidades, fundada por ela

PAULO SUTTI

em 2013. “A Africanidades é a minha menina dos olhos”, conta Ketty, cheia de entusiasmo. “Ela nasceu para celebrar a memória e a potência da existência de pessoas pretas. Minha revolução e minha prática política acontecem ali através da literatura”, resume. Especializada em obras realizadas por autores negros e, majoritariamente, por mulheres negras, a Africanidades já recebeu lançamentos, oficinas, pocket shows, saraus e plantões de acolhimento psicológico comunitário. “A livraria é uma extensão direta da minha própria história, do que eu sou e daquilo em que acredito”, diz a bibliotecária.

UM ESPAÇO PARA RESPIRAR

Atualmente, a presença do Sesc São Paulo consolida-se através de uma rede com 28 bibliotecas distribuídas pelo estado: 22 fixas, em unidades da capital, do interior e do litoral, além de outras seis itinerantes que fazem parte do projeto BiblioSesc. A proposta é descentralizar o acesso de forma democrática e capilarizada, gerando espaços abertos para o convívio.

Nesse contexto, e com o intuito de promover bem-estar e qualidade de vida por

meio de sua vocação educativa, o Sesc São Paulo lançou em 2026 o projeto Circuito Sesc de Leituras, dedicado a oferecer aos públicos acervos literários em municípios onde não há unidades fixas do Sesc. Além da variada gama de atividades artísticas e culturais que o Circuito Sesc de Artes oferece, distribuídas em mais de mil sessões de teatro, música, dança, circo, cinema, literatura, artes visuais e tecnologias, que circularam em municípios da Grande São Paulo, do interior e do litoral paulista, acervos especiais, elaborados e disponibilizados pelo projeto às instituições de cidades atendidas inicialmente pelo projeto.

Ainda como parte desse plano de expansão de atendimentos no âmbito da leitura, será lançado no segundo semestre de 2026 o Mesa Brasil de Leituras. O projeto irá disponibilizar estantes com um acervo de títulos variados para instituições atendidas pelo programa Mesa Brasil, que atua com segurança alimentar e nutricional junto a entidades que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade. Esses acervos serão doados e ativados regularmente com mediações de leitura.

Para promover o acesso à leitura, é preciso gerar espaços abertos para o convívio; em destaque, a biblioteca do Sesc Pompeia

1. Biblioteca do Sesc Avenida Paulista 2. Biblioteca do Sesc Franca 3. Estande das Edições Sesc na Bienal Internacional do Livro de São Paulo 4. Mala de livros do projeto Circuito Sesc de Leituras 5. Ampliador de caracteres no Sesc 24 de Maio 6. Mediação de leitura na biblioteca do Sesc Guarulhos

FOTOS: (1) ALEXANDRE NUNIS, (2–4) MATHEUS JOSÉ MARIA, (5) MARIANE LIMA, (6) BETO ASSEM

PROJETOS COMUNITÁRIOS COMO O BIBLIOSESC

ROMPEM BARREIRAS GEOGRÁFICAS E SOCIAIS AO LEVAR ACERVO, AFETO E INTERVENÇÕES

ARTÍSTICAS ATÉ A PORTA DAS PESSOAS

A diversidade em uma biblioteca não se constrói por acaso. Ela depende de uma decisão consciente de ampliar repertórios e de questionar, continuamente, quais vozes ainda estão ausentes das estantes. A intencionalidade, assim, é o que permite preencher lacunas e romper com a tendência de reproduzir sempre os mesmos autores e perspectivas. Essa lógica vale também para a vida cotidiana. Sem intenção, as pessoas tendem a repetir percursos, manter os mesmos vínculos e consumir os mesmos conteúdos. Em um cenário em que algoritmos, jornais e revistas influenciam constantemente o que se lê e o que ganha visibilidade, a construção de um acervo diverso exige escolhas deliberadas. O livro é mais do que um objeto: é um meio de preservar memórias, compartilhar ideias e conectar pessoas em diferentes tempos e lugares. Por isso, publicar nunca é um gesto neutro. Implica escolher quais vozes e reflexões devem circular no presente.

É com esse entendimento que as Edições Sesc São Paulo constroem um catálogo diverso, atual e aberto ao diálogo, que transita entre as ciências humanas, estudos culturais, educação e artes. Um trabalho em sintonia tanto com o que acontece nas unidades do Sesc quanto com as questões que mobilizam a sociedade no mundo contemporâneo. Cada publicação das Edições Sesc (a maioria disponível também em formato digital) resulta de uma curadoria atenta aos debates do nosso tempo, aliada a um cuidado gráfico que valoriza o livro e fortalece o convite à leitura, à circulação de ideias e ao compartilhamento dessas reflexões.

Em 2025, entre livros inéditos, reedições e reimpressões, foram sessenta publicações, que se somaram a um catálogo que atualmente conta com cerca de quinhentos livros. O livro e a leitura também são protagonistas de importantes eventos realizados em todo o Brasil. Com o objetivo de fortalecer seu diálogo com os leitores e apresentar a diversidade de seu catálogo, as Edições Sesc participam de uma série de feiras literárias nas regiões Sudeste, Sul, Centro-Oeste, Norte e Nordeste,

uma presença que só cresce desde a criação da editora, em 2008. Em alguns desses eventos, como a Flip, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo e outros, o Sesc participa com estande próprio, programação cultural e livraria. Em outros eventos, como a Festa do Livro da USP e a Feira do Livro da Unesp, o foco é a circulação das obras com descontos exclusivos. Essa presença dissemina e reforça os princípios de educação permanente e de acesso à cultura que orientam a atuação do Sesc.

“No IBEAC a gente fala que a literatura existe para o autoconhecimento”, afirma Bel Santos Mayer, uma das coordenadoras do Instituto, onde atua desde o início do trabalho da organização. “Ninguém continua igual depois de uma leitura”, ela defende. O ato de ler, nesse contexto, aparece como um caminho para o autoconhecimento e a transformação. A leitura é apresentada como uma experiência capaz de deslocar certezas, ampliar perspectivas e produzir mudanças em quem lê, reforçando o papel das bibliotecas como espaços de encontro com histórias, vivências e visões de mundo que dificilmente seriam encontradas sem uma busca intencional.

Para Bel Mayer, ressignificar o que deve ser uma biblioteca hoje em dia é uma necessidade urgente, ultrapassando a imagem tradicional de grandes salas silenciosas, vigiadas e pouco convidativas ao público.

“A biblioteca, a gente poderia pensar ela como uma caixa de livros, uma caixa cheia de furinhos, onde a vida possa encontrar espaço, mas com respiros”, reflete Bel.

Sob o princípio fundamental da bibliodiversidade, ela defende de forma contundente uma curadoria aberta e intencional: “O que cabe em uma biblioteca? Eu falo ‘a vida’, e a vida não é única, não é mono, não é monocromática e não é monoafetiva”. Para a educadora, essa ocupação plural das estantes e das salas de leitura é um projeto político incontornável, que exige que se faça, de forma contínua, uma provocação às estruturas instituídas: “A gente deve sempre se perguntar quem não está aqui, e nunca se conformar com respostas rasas”.

MARÍA TERESA ANDRUETTO PALAVRA PRÓPRIA

PARA A ESCRITORA E PROFESSORA ARGENTINA, A LEITURA NÃO É UMA PRÁTICA QUE SE ESGOTA NO INDIVÍDUO, E SIM UMA FERRAMENTA DE INTERVENÇÃO

SOCIAL

Já faz mais de vinte anos que María Teresa Andruetto vive em Cabana, um pequeno povoado a cerca de quarenta quilômetros de Córdoba, na região central da Argentina. Ali ela cria galinhas, cuida de uma horta farta e de suas três cachorras, compartilha o cotidiano com o companheiro, Alberto, e recebe visitas de suas duas filhas. “Aqui é um lugarzinho no meio das montanhas de Sierras Chicas. Toda a natureza em volta é muito exuberante”, diz, em entrevista ao Sesc para esta edição dos Cadernos Sesc de Cidadania.

Se cresceu em uma casa com poucos livros, dada a aridez econômica de sua família de origem, imigrantes do Piemonte, na Itália, o que se vê no pequeno quadrado que margeia a imagem de Andruetto durante uma videochamada é um escritório tomado por estantes repletas de lombadas de diferentes cores e tamanhos. Uma autora rodeada pelo que deu e dá sentido à sua vida: os tantos livros que escreveu, os que leu e os que transmitiu a partir de sua intensa atividade como professora. Nome incontornável da literatura argentina contemporânea, com mais de trinta títulos publicados, escreveu romances, contos, poesia

e diversos livros voltados ao público infantojuvenil, como é o caso de Stefano, A menina, o coração e a casa e O país de João, traduzidos ao português por Marina Colasanti e publicados pela Global Editora.

A construção da identidade, a relação entre os indivíduos e seu entorno e os rastros simbólicos da ditadura militar instaurada por Augusto Pinochet em 1973 são alguns dos temas mais frequentes de sua obra, que em 2012 recebeu o Prêmio Hans Christian Andersen, a mais alta distinção internacional da literatura infantojuvenil, por sua “contribuição duradoura” ao gênero.

Também autora de diversos ensaios sobre as relações entre leitura, literatura e sociedade, entre eles

A leitura, outra revolução (Edições Sesc, trad. Nilton Cunha) e Por uma literatura sem adjetivos (Editora Pulo do Gato, trad. Carmem Cacciacarro), María Teresa Andruetto acredita que a leitura não é uma prática isolada, mas “uma prática social que se produz em relação com o outro”, ampliando nosso entendimento de mundo e nossa capacidade de transformá-lo. Um saber que deve ser cultivado desde a infância e por toda a vida, como ela explica na conversa que você lê a seguir.

TEXTO SHEYLA MIRANDA FOTOS NATALIA ROCA

Como você se tornou leitora?

Minha formação como leitora não foi nada linear, não venho de uma família de leitores, minha casa de infância não tinha muitos livros. O que existia era um cotidiano em que se contavam muitas histórias. Sou filha de imigrantes italianos, de uma realidade de bastante escasez, e minha relação com a palavra começou mais pela escuta do que pelo livro. Havia uma língua que trazia outra experiência de mundo, outra música, outra cadência, e isso teve uma importância muito grande para mim.

Depois, a escola teve um papel fundamental, como é o caso de muitas pessoas, no mundo todo. Ali tive um primeiro contato, mas a relação se transformou mesmo mais adiante, já na juventude, quando entrei na universidade e cursei Letras. Aí a relação com a literatura realmente ficou mais forte, conheci certos autores, certas tradições, tive uma formação mais sistemática, canônica, por assim dizer. Mas isso se interrompeu de maneira bastante violenta com tudo o que aconteceu na Argentina nos anos 1970, principalmente o golpe de Estado. Professores tiveram que ir para o exílio, a situação ficou realmente muito complicada. Então a universidade desapareceu da minha vida, porque eu era militante e precisei me retirar. Fui para o extremo sul do país, em uma espécie de exílio interno, depois passei um período na Patagônia, e só mais tarde voltei a Córdoba. Em todo esse percurso, a leitura seguiu de diferentes maneiras, nem sempre de forma contínua, às vezes interrompida, retomada, transformada. Sempre, porém, como algo que retornou, algo que permaneceu em mim.

Você falava dessa relação com a palavra que começa antes do livro, na escuta. Em que momento essa relação se tornou também a sua escrita?

Escrevo desde sempre, desde menina, mas publicar é outra coisa.

“

DEPOIS DE CERTAS

EXPERIÊNCIAS, JÁ NÃO SE

OLHA, NEM SE ESCUTA, NEM SE HABITA

A LINGUAGEM DA MESMA FORMA

Pode haver um abismo entre essas duas ações. Já na vida adulta, fiquei cerca de dez anos escrevendo sistematicamente antes de conseguir publicar. E isso tem a ver com as políticas do mercado editorial, claro; demorei muitos anos para conseguir acesso a editoras e para receber uma resposta positiva, mas também [tem a ver com] a vida. Eu tinha duas filhas, trabalhava muito, fazia mil coisas ao mesmo tempo. Então a escrita existia, mas não como algo que pudesse ocupar um lugar central. Além disso, esses dez anos foram um período intenso de formação: eu estava experimentando, errando, tentando encontrar uma voz. E há algo que, para mim, é muito importante: não consigo separar a escrita da vida. Quando alguém escreve, há um movimento de se voltar para si, o que a escritora Clarice Lispector chamava de caminho para a própria coisa. E, nesse movimento, também aparecem os ecos do social dentro de nós. A gente escreve a partir do que viveu e, no meu percurso, houve momentos muito complexos: o contexto político de repressão, momentos de fragilidade econômica, tive também uma doença difícil, um câncer severo quando ainda jovem. Não que esses motes tenham entrado tão diretamente na escrita, mas modificaram minha sensibilidade, o modo de olhar, de estar no mundo. A escrita por fim encontrou um lugar de intensidade, de necessidade vital. Depois de certas experiências, já não se olha, nem se escuta, nem se habita a linguagem da mesma forma. E isso está

totalmente conectado à minha percepção sobre a leitura, pois são duas atividades que se retroalimentam.

Nesse sentido, você inclusive já mencionou em diferentes textos que a leitura é uma prática ética e política, não apenas uma atividade educativa.

Isso faz parte de algo mais amplo no meu pensamento: tudo é atravessado por uma dimensão política. Se a formação de leitores se sustenta ao longo do tempo, se há instituições e políticas públicas que a acompanham, é capaz de gerar transformações políticas e sociais mais amplas. A literatura sozinha não faz revolução, mas acredito que ela pode produzir deslocamentos e mexer na forma como as pessoas pensam, como veem a si mesmas e como se relacionam com os outros.

Muitas vezes a leitura é pensada como algo privado, íntimo, quase sem consequências, mas não acredito que seja assim. A leitura toca algo muito profundo na constituição do sujeito. E, se isso acontece em larga escala, deixa de ser apenas uma prática individual para se tornar algo que também afeta a vida comum, a maneira como uma sociedade se representa e se enxerga.

Em certos contextos escolares, a literatura tende a ser trabalhada de forma mais pedagógica. Pode falar sobre a importância de a leitura ser também uma experiência estética?

Acho fundamental existir um espaço para a leitura literária nas escolas que não subordinado a uma função instrumental, ao ensino da língua, por exemplo. A formação de leitores exige outro tempo, outro espaço, outra disposição. Esse tema se tornou caro para mim quando ainda era bem jovem, o que foi determinante para toda a minha trajetória. Logo após a redemocratização na Argentina, em 1984 [o processo de redemocratização argentino teve início no fim de 1983, com a posse do presidente Raúl Alfonsín, ocorrida em dezembro daquele ano] me

juntei a outras mulheres e criamos um grupo de pesquisa e difusão de literatura para crianças e jovens. Nossa principal luta era devolver a literatura à escola, uma literatura que não fosse unidirecional nem moralizante, que não conduzisse a uma interpretação única. Vínhamos de um contexto de repressão em que a pouca literatura que havia nas escolas era usada para ensinar certos comportamentos, para dizer o que era certo ou errado.

Para mim, a leitura se torna interessante quando há prazer, quando há fruição estética, e quando podemos

fazer perguntas a um livro, quando ele também nos provoca a fazer perguntas a outras pessoas. Há livros excelentes que, se não forem bem trabalhados com os jovens, com as crianças, acabam passando despercebidos. É preciso criar o espaço e as formas de diálogo para que o conteúdo de fato ressoe.

E como isso pode se materializar na prática?

Costumo dizer que três elementos são fundamentais em espaços de formação de leitores: bons livros,

tempo e uma pessoa que faça um trabalho de mediação bem-feito. Parece simples, mas cada um desses pontos traz desafios complexos. Na maior parte das vezes, a qualidade dos livros varia em função de compras estatais. Como os livros são escolhidos e distribuídos faz toda a diferença. Em muitos lugares as seleções não são diversas, não representam grupos além dos dominantes, e muitos estudantes podem não se conectar às narrativas, por isso a bibliodiversidade é tão necessária. A figura do mediador é

fundamental, incontornável. mação de leitores depende muito dessa figura. Além de ser uma pessoa apaixonada por literatura, precisa ter uma formação adequada, profunda, sem contar que muitas vezes estamos falando de um profissional precariza do, e o mínimo que se espera é que tenha acesso a livros, que receba um salário digno. É importante ter, nas escolas e em outros espaços de formação de leitores, ao menos uma figura de referência. E a disponibili dade de tempo é um fator decisivo. Sem tempo de reflexão, o potencial da leitura não se efetiva.

Trabalhei mais de trinta anos ministrando oficinas de leitura para crianças, jovens e de formação pa ra professores, às vezes tocava cinco turmas simultâneas, para mim o ritmo era frenético, mas no coletivo vivenciávamos processos mais len tos. E ficou evidente para mim que não se trata de quantidade. Às vezes trabalhávamos um único texto por semanas ou meses, lendo, relendo, parando para observar diferentes aspectos da narrativa: os diálogos, a estrutura, as escolhas estéticas, as referências históricas. Isso é o que possibilita concatenar diversas ca madas de leitura e muda a relação de quem está lendo com o texto. A mediação significativa não é a que explica o livro, mas a que cria condições para que algo aconteça — ou não — entre o livro e o leitor.

Nem sempre um mesmo livro produz o mesmo efeito em todas as pessoas. Um texto que é interessantíssimo para um leitor pode não significar nada para outro, e isso também faz parte da experiência de leitura.

Neste ponto entra também a relação mais emocional e afetiva com os livros, não é?

De que adianta ler uma história se não conseguimos ligá-la a algo da nossa experiência de vida? Para mim, formar leitores tem a ver com a construção de um modo de ler que abrace a complexidade. Um modo

interrogativo, um modo que permita estabelecer relações. Jacques Rancière diz que a única inteligência que importa é aquela que nos permite relacionar uma coisa com outra. Ler não é apenas compreender. É se deixar afetar, permitir que algo nos toque intimamente. Aí entram também a imaginação, a sensibilidade, o campo emocional.

Você já disse que a literatura não existe para oferecer respostas fechadas, mas para abrir perguntas, para “transitar em zonas de incerteza”. Por que isso é tão importante, sobretudo no que se refere a jovens leitores?

A literatura tem uma carga de ambiguidade que favorece a ação de elaborar o mundo à nossa volta de uma forma muito profunda. Ainda mais na era do algoritmo, em que vivemos uma avalanche de informações

leituras – por que e como lemos hoje?

e conteúdos artificiais, que tendem a uniformizar o pensamento. É preciso desviar da lógica de opiniões prontas que é tão dominante nas redes sociais, buscar formar senso crítico.

Não estou pensando só em trajetórias intelectuais, mas também em formas de todas as pessoas se colocarem diante da vida. Hoje, muitas vezes recebemos respostas antes mesmo de conseguir formular perguntas. A literatura propõe justamente o contrário: nos devolve a um espaço de incerteza. E isso, para os jovens, é essencial, porque é uma forma de resistir à simplificação, de não se deixar capturar completamente por discursos já estabelecidos. A incerteza, nesse sentido, não é uma falta, é uma possibilidade, um modo de experimentar o mundo.

Parte significativa da sua obra aborda temas como memória, identidade e histórias que fica-

“

EU REALMENTE ACREDITO

QUE CONSTRUIR UMA

SOCIEDADE LEITORA

DEVERIA SER UMA

POLÍTICA DE ESTADO,

NA BUSCA POR UMA

SOCIEDADE MAIS

CONSCIENTE DE SI, DOS SEUS DIREITOS, DOS SEUS DEVERES E DAS SUAS COMPLEXIDADES

realidade na Argentina, mas imagino que haja muitas semelhanças com o Brasil. As remessas de livros para as escolas sofrem com variações políticas e econômicas, e as áreas mais pobres recebem menos recursos. Quando visito escolas, muitas vezes encontro acervos que não foram renovados. São os mesmos livros de anos e anos atrás, porque não houve reposição. E isso se acentua em contextos mais vulneráveis, onde as famílias não têm condições de comprar livros.

ram à margem de relatos oficiais. E você costuma sublinhar a persistência de uma lógica colonial nos programas escolares e no mercado editorial latino-americano. Como isso afeta o que chega — ou não chega — em quem está na escola?

A literatura de um país é feita de muitas vozes, mas nem todas circulam da mesma maneira. Há experiências que ficam de fora, e isso tem a ver com relações de poder, com a forma como o campo cultural se organiza. Isso impacta diretamente a formação dos leitores, porque não é a mesma coisa ter acesso a um conjunto amplo de referências ou a um repertório limitado. Por isso é tão fundamental pensar em diversidade de temáticas, de autoria, e ampliar o acesso a variações linguísticas. A leitura a partir da diversidade pode nos colocar em contato com outras experiências, com outras

memórias, e isso amplia o repertório simbólico justamente porque não se limita ao que já está legitimado. É preciso lembrar que o mundo simbólico não é neutro.

Não se trata apenas de uma questão de políticas editoriais, é uma questão de que mundo se coloca à disposição de quem lê, e quais mundos ficam de fora. Se chegam sempre as mesmas histórias, as mesmas vozes, os mesmos cenários sociais, também o que se imagina como possível fica limitado. A literatura pode ampliar as maneiras de nomear o mundo e esta é uma ferramenta que todas as pessoas têm direito de acessar.

Há uma dimensão muito concreta, que é a desigualdade de acesso aos livros, seja no contexto escolar ou familiar.

Isso apareceu e ainda aparece o tempo todo na minha prática. Falo da

Na Argentina existe uma rede muito grande de bibliotecas populares, que é bastante antiga, do fim do século XIX. É uma rede importante, viva, que em muitos casos ajuda a suprir essa falta. Mas isso também varia muito: há bibliotecas muito ativas e outras menos, e nem sempre a escola está articulada com elas. Ou seja, não é apenas uma questão de formar leitores no sentido abstrato. Há condições materiais muito concretas que interferem nisso, o acesso ao livro, a circulação desses livros, a presença ou não de políticas públicas que sustentem esse processo. Eu realmente acredito que construir uma sociedade leitora deveria ser uma política de Estado, na busca por uma sociedade mais consciente de si, dos seus direitos, dos seus deveres e das suas complexidades.

Se pensarmos que as sociedades também se constroem a partir dos imaginários que produzem e compartilham, qual é o principal valor da leitura hoje?

A possibilidade de cada pessoa, das mais novas às mais velhas, construir uma palavra própria. A partir da reflexão do que é lido, e não repetindo o que já está dado. E hoje estamos todos cercados por discursos pré-fabricados, por um excesso corrosivo de informação. A leitura não é um gesto isolado, é uma prática social, que pode incidir na maneira como uma sociedade pensa a si mesma e como age na construção de novas formas de vida.

MESTRES, AMIGOS E AMORES

ILUSTRAÇÃO ANA MATSUSAKI

FOTO ROGÉRIO ALVES

Caminhando pelas veredas da vida, Entristecida e sem esperança, Encontrei alento numa placa à vista: Esta placa indicava a temperança.

Uma virtude que eu teria de aprender Para viver em sintonia com a verdade. Mas, eu precisaria de vontade para empreender Os meus hábitos, onde aprimoram-se as habilidades.

Temperança, ateliê dos arquitetos de virtudes, Os Mestres, os Amigos e os Amores. Num passe de mágica, a beatitude, Acessei o ateliê e os seus condutores

Ao transpor o Portal da Literatura

A Arte anunciou-se em seus esplendores, A Educação moldou-se em uma escultura. A Cultura espargiu-se em seus fulgores.

Arte — a mestra, Educação — a amiga, Cultura — o amor, tornaram-se preceptoras Dedicadas à minha formação — a viga, Na igualdade de poder — a sustentadora.

Arte, Educação e Cultura unidas

Me devolveram a alegria e a esperança; Hoje, caminho nas veredas da vida Saltitando feliz, igual a uma criança.

leituras – por que e como lemos hoje?

MARIA É ESCRITORA, FILÓSOFA, PEDAGOGA E ATIVISTA CULTURAL

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LEIO PARA NÃO DESAPARECER

TEXTO KIUSAM OLIVEIRA

ILUSTRAÇÃO

ANA MATSUSAKI

FOTO ACERVO PESSOAL

Aprendi a ler com o corpo inteiro antes de aprender somente com os olhos. Antes do alfabeto, houve as vozes das minhas tias mais velhas que contavam, no terreiro e na cozinha à beira de um poço, histórias que não estavam em nenhum livro — porque os livros, durante muito tempo, não nos couberam. No Brasil, é preciso lembrar, que ensinar uma pessoa escravizada a ler foi crime previsto em lei. A leitura, para um corpo negro, nunca foi um gesto neutro. Foi, e segue sendo, uma transgressão.

É por isso que não consigo responder “por que lemos hoje?” sem trazer a seguinte perspectiva: “para quem a leitura foi negada?”. Leio porque alguém, muito antes de mim, foi proibida de ler e lutou contra esse sistema opressor. Leio sobre os lastros dessa proibição e dessa luta. Cada página que viro é retomada: a devolução de um direito que nos foi sequestrado e que eu me recuso a entregar de volta.

KIUSAM É ESCRITORA, EDUCADORA E REFERÊNCIA NA VALORIZAÇÃO

DAS CULTURAS

AFRO-BRASILEIRAS

Mas há uma camada mais íntima. Fui uma menina negra que procurou, durante anos, o próprio rosto nas histórias e encontrou ausências e caricaturas. A leitura me feriu antes de me salvar. Passei 38 anos como professora em sala de aula e vi essa ferida repetir-se em cada geração de crianças negras que abria um livro e não se encontrava lá. Sempre soube que ler não é decodificar palavras, é ser convocada a existir e soube disso mediante a ausência dessa convocação, pela falta. Quando uma criança negra abre um livro e se reconhece protagonista, inteira e encantada, algo se assenta nela. Será sua própria coroa? Chamo isso de encantamento, e organizei em torno dele um campo a que dei o nome de Literatura Negro-Brasileira do Encantamento Infantil e Juvenil e que na minha Editora Osìbatá tenho a autonomia para trabalhar focada nisso, sem que seja entendida como figura de linguagem: mas é a fórmula que encontrei para através da literatura, devolver às infâncias negras o direito de sonhar — e, com ele, o

direito ao futuro que sempre começa e se atualiza no hoje. Respondo, então: lemos hoje pela mesma razão de sempre — para não desaparecer. A leitura é afetiva porque mexe com a Ori, com aquela parte do corpo que em nós sabe quem somos antes que o mundo tente nos dizer o contrário. A leitura é algo social porque ninguém lê sozinho de verdade: lemos com outras lentes, lemos com os mortos que nos antecederam vivos e com os vivos a quem devolvemos a história. E é algo do campo político porque escolher o que se lê, garante a quem tem acesso ao livro de decidir quais histórias farão parte de sua vida. Foi por reconhecer tal importância política que ajudei a implementar, por mais de uma década, uma lei que obriga o Brasil a ensinar a história e a literatura negra para suas crianças, a Lei 10.639/03. Toda biblioteca narra uma disputa sobre o que merece ser lembrado. Quanto ao como: leio com o corpo inteiro, em voz alta sempre que posso, do jeito que minhas mais velhas me ensinaram. Leio contra a distração que hoje nos vendem como liberdade e que funciona como cerca. Sustentar uma página inteira, num tempo que lucra com a nossa dispersão, virou ato de soberania. Exige teimosia. Exige, eu diria, um certo luxo: o luxo intelectual de conseguir, mediante tantas distrações, o ato de contemplar palavra por palavra e assim, sentir… profundamente. Não leio para fugir do mundo. Leio para conseguir encará-lo e, depois, transformá-lo. A leitura é a trincheira onde a corrente ancestral também me mantém conectada — o lugar onde a palavra de quem veio antes encontra a boca de quem virá depois. Por isso, quando me perguntam por que ainda leio, respondo com o que recebi das minhas mais velhas do candomblé: leio porque como Osìbatá, essa planta resistente e que se recusa a se submeter à ignorância. Ler, para mim, diz respeito a resgatar a minha soberania. Leio, portanto, para não desaparecer.

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FOI SÓ QUANDO ME TORNEI ESCRITORA QUE ENTENDI POR INTEIRO: LER NÃO É DECODIFICAR PALAVRAS, É SER

CONVOCADA A EXISTIR

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BAJUBÁ: DA RESISTÊNCIA À LITERATURA

FOTO FÁBIO AUDI

No comecinho do século, tive os meus primeiros contatos com o bajubá, um criptoleto criado por travestis brasileiras trabalhadoras sexuais e que tem funcionado como uma ferramenta de resistência contra a transfobia. Até então, eu não tinha ideia das dimensões dessa linguagem, pois só dez anos depois, com a minha transição de gênero e, sobretudo, com as minhas vivências na prostituição, pude conhecer de maneira aprofundada a linguagem. De lá para cá, venho me dedicando incansavelmente tanto ao estudo do bajubá quanto à produção de obras literárias que o utilizem.

Os registros mais antigos a seu respeito datam da década de 1930, mas foi só durante a ditadura militar brasileira (19641985) que ele ganhou suas atuais feições. Baseado no português coloquial, mas ressignificando boa parte dos seus vocábulos, o bajubá se notabiliza pela influência profunda do iorubá e banto falados nas religiões afro-brasileiras e pela incorporação de termos do italiano, francês, espanhol e inglês, línguas de países onde há forte presença de travestis brasileiras trabalhadoras sexuais. O resultado é uma linguagem única e assombrosa, capaz de lembrar um Finnegans Wake pelo seu poliglotismo macarrônico, mas que travestis — que muitas vezes sequer completaram o ensino básico no Brasil conseguem compreender tranquilamente. Em 2024 publiquei um primeiro trabalho de fôlego que se valeu dessa linguagem, Neca: romance em bajubá, e a boa acolhida que a obra vem recebendo me faz acreditar que há espaço para experimentações mais ousadas. Digo isso porque o livro saiu por uma das maiores editoras do país, a Companhia

das Letras, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, um dos mais prestigiados da língua, e fragmentos seus já se encontram traduzidos em três diferentes idiomas: o inglês, o espanhol e o alemão. Pelo ineditismo da proposta, ali eu precisei dosar o tanto de bajubá que ia incorporando a cada página. A provocação do meu editor era: “Use o máximo de bajubá que você conseguir, mas garanta que o leitor vai achar que está entendendo”.

Agora, no entanto, a ideia é ir além e radicalizar nessa aproximação entre a literatura e o bajubá. Um primeiro vislumbre do que estou imaginando como continuação desse trabalho é o conto “Não se aprende a beijar nos livros”, que você lê na íntegra acessando o QR code que está nesta página. Ele será o estopim dessa continuação de Neca que estou começando a escrever: quero continuar explorando matizes do monólogo literário, à feição do episódio final do Ulysses de James Joyce e do Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, mas agora, em vez de escrever uma longa fala, vou elaborar fragmentos soltos que funcionarão como contos. Isso me permitirá, daqui a alguns anos, fundi-los com Neca e reescrever a obra inteira, transformando-a no meu Finnegans travesti.

O momento para semelhantes iniciativas é ótimo, pois começa-se a discutir a possibilidade de um reconhecimento do bajubá como patrimônio linguístico nacional, ou seja, orgulho não apenas da comunidade LGBTQIA+, como do próprio Brasil. Minha aposta é que a literatura tem um papel central no reconhecimento da importância histórica e social dessa linguagem.

AMARA É ESCRITORA, DOUTORA EM TEORIA EM CRÍTICA LITERÁRIA
PELA UNICAMP

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