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CPT_Policarpo_Quaresma_Programa_Marco_2010.pdf

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Transposto à linguagem dramática pelo Centro de Pesquisa Teatral do SESC, coordenado pelo diretor Antunes Filho, Policarpo Quaresma integra a trilogia carioca que teve início com A Falecida Vapt-Vupt e Lamartine Babo.

MAJOR QUARESMA

Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a moléstia passam também a sua rasoura pelas distinções que inventamos. Lima Barreto

Em meio às vogas européias, o imagmano romântico do século XIXexortava os homens a recriarem o mundo a seu redor, no anseio por uma sociedade nova e idílica, que anunciava a desenfreada transformação de ordem científica e humana. Contudo no Brasil a face desta modernidade revelava as tensões e ambiguidades existentes ao sublinhar as desigualdades nacionais.

o País, assolado

pela pobreza e pelas doenças, não se reconhece nos sonhos e utopias dos tempos modernos. Neste contexto da Primeira República, o desencantamento dos intelectuais frente à ordem republicana que se instaurava de modo arbitrário, traduzia a inquietante ausência de perspectivas do ideário nacionalista, que Lima Barreto, em Triste Fim de Policarpo Quaresma reitera na angústia e lucidez deste personagem. Por meio da arte, em sua potencialidade crítica, Lima Barreto finca no Major Quaresma as ranhuras presentes no cotidiano das ruas do Rio de Janeiro de então, em seu percurso de indignação crescente em razão da insensibilidade do homem que detém o poder político e econômico.

Para o SESC São Paulo realizar Policarpo Quaresma em sua urdidura de contrastes, constitui o estímulo à reflexão atemporal e a disseminação de um teatro vivo e audaz, por meio de um conjunto de ações socioculturais no qual se insere a história do Centro de Pesquisa Teatral do SESC. Inquirindo e reinventando as tendências, o teatro trata do que é incompleto no homem e se apresenta no diálogo escrito por Lima Barreto entre Olga, afilhada de Quaresma, e seu marido: - Estás no teatro? Ela lhe respondeu logo: - Se é só no teatro que há grandes coisas, estou. Assim, oferecendo a oportunidade de nos vermos por inteiro, a poética cênica em situações-limite e de instabilidades sublima os sentidos.

Danilo Santos de Miranda Diretor Regional do SESCSão Paulo


Lima, uma breve biografia A biografia de Lima Barreto é uma constante luta de seu talento literário contra seu insuficiente reconhecimento em vida como grande escritor. A sua ambição literária confrontou a obtusidade intelectual de seu tempo. E ele próprio se debateu entre suas múltiplas consciências de crítico social, reformador e progressista contra seu conservadorismo suburbano. Essa luta reflete bem a difícil experiência histórica de amadurecimento da intelectualidade brasileira não abastada até os dias de hoje. "Nasci pobre, mulato e livre", filho de um tipógrafo da Imprensa Nacional e uma professora primária. De infância pobre, perdeu a mãe aos 7 anos, fonte de ternura que fez falta mais tarde, no mesmo ano assistiu a Abolição da Escravatura. Mais tarde a proclamação da República transformou sua família e debilitou a saúde de seu pai. Nessas Lima foi ainda apadrinhado pelo Visconde para continuar seus estudos, chega à Escola Politécnica de Engenharia, mas por pressões internas e externas não consegue concluir o curso. Uma das razões é por seu pai ter enlouquecido e ver-se obrigado aos encargos de sustentar a família. Tornou-se funcionário público da Secretaria da Guerra e contribuía como jornalista ao que exercitava o talento que começou na escola, escrevendo sátiras. Sua trajetória de romancista, contista, cronista e jornalista acontece de forma simultânea, uma necessidade violenta de grafar suas impressões e provocar polêmica. Seu convívio com a loucura faz seu percurso se tornar ainda mais tortuoso. Em casa, a presença do pai desvairado não poderia ser lugar de paz e acolhimento, sentia-se melhor nos cafés da Rua do Ouvidor, o burburinho da alta sociedade carioca - que para chegar até ali era preciso um longo trajeto pelo trem da central. E por vezes lá pelas ruas da cidade caía de bebedeira. Seus acessos com a bebida custaram internações por dois momentos de sua vida e o que lá viveu e

sentiu marcou sua experiência e amargor especialmente nas suas memórias de interno O Cemitério dos Vivos. Sem julgamento moral seus grandes vícios que o levaram à morte foram a literatura e a bebida. A famosa máxima de Pirandello: "a vida ou se vive ou se escreve" para Lima Barreto ela talvez se modificaria: na vida se bebe e se escreve. Mas suas contradições ideológicas, desgostos e amarguras com sua ambição, preconceitos sofridos e praticados, a sua literatura de ficção, jornalista e memorial são o que melhor podem mostrar o Homem por trás das obras, melhor do que qualquer biografismo. Lima está esparramado por toda sua obra, seus cacos revelam um misterioso encaixe. A criação diz melhor sobre seu criador. Rogério Guarapiran Integrante do Círculo de Dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral


Qual é o Realismo e a Realidade de Policarpo? É tempo de grandes transformações SOCIaIS,projetos de aceleração ao crescimento, revitalizações urbanas, disputas eleitorais, inovações técnicas de comunicação. A modernidade e o progresso assumem paradoxalmente discursos cada vez mais democráticos e imperceptivelmente autoritários. A percepção da realidade muda de sensibilidade e velocidade com as mudanças impostas. Quando vem a público o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, o Rio de Janeiro era o "palco principal de todo esse processo radical de mudança" (Sevcenko). A República que entrava em cena foi um golpe na velha aristocracia oligárquica para redistribuição do poder às novas oligarquias militares, mas mexeu lentamente com as camadas solapadas da sociedade, ex-escravos marginalizados, servidores médios e profissionais liberais se agitaram. Nessa improvisada cena farsesca do poder em relação ao povo entra em ação a nobre figura do sátiro, do caricaturista, do cronista irônico e sarcástico observador que se instala nos jornais e cafés da Rua do Ouvidor.

"O desenvolvimento do 'novo jornalismo' representa, contudo, o fenômeno mais marcante na área da cultura, com profundas repercussões sobre o comportamento do grupo intelectual.(..) O jornalismo, com sua curiosidade pelo lado vulgar dos homens, acabou com os heróis" (Nicolau Sevcenko. Literatura

como Missão)

Um "novo jornalismo" contém uma nova ética e Lima Barreto absorve essa experiência pela linguagem que vai se fundir com sua percepção de um homem arrebatado pelas injustiças e o compromisso de solidariedade. Policarpo é um dos grandes personagens da Literatura Brasileira, porque entre suas dimensões retratadas de caricato patriota, patético folclorista, e ingênuo ufanista, ele se revela uma criação diretamente imbricada com fatos históricos e uma nova sensibilidade para expressar o descontentamento de sua época. A imaginação de Policarpo sobre a insigne trÍplice do lúcido-lunático-visionário só tem paralelos na literatura com um Dom Quixote. Outro fenômeno que desponta nesse livro é a visão dinâmica sobre as transformações sociais, a sensibilidade em destacar o descaso da classe política e fazer aparecer os contrastes da realidade de duas cidades em uma só: o centro urbano da elite que empurrava o suburbano para os morros. Essa postura se contrapõe às características de sua época marcada por uma prosa de naturalismo científico-positivista que descreve a realidade como algo eterno e imutável. Literatura de resistência e subversão ao predomínio fatalista do ambiente e do determinismo biológico sobre as potencialidades infinitas do ser humano. Como conjugar um projeto estético com o compromisso de desbaratar o poder político com seu discurso oficial demagogo e empertigado de retórica nociva, antírrealídade, véu de fantasia sobre o vespeiro sacudido? Vociferar de forma altamente artística contra os desenganos da República tirânica que não pressupunha democracia e compromisso com a cultura de seu povo é uma das muitas questões levantadas no Romance. Rogério Guarapiran Integrante do Círculo de Dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral


Lima Barreto e Machado de Assis o que está sendo colocado neste artigo foi basicamente extraído e adaptado segundo o interesse de caracterizar o melhor possível o homem e escritor Lima Barreto, tendo como grandeza-padrão

Machado de Assis. Todos os entrechos e citações foram retirados do admirável estudo "Lima Barreto - Imagem e Linguagem" de Zélia Nolasco - Freire (Annablume Editora e Comunicação). A estreia de Lima Barreto nas letras, em 1909, coincide com a morte do fundador da Academia Brasileira de Letras. Os dois escritores tiveram trajetórias, de vida literária, bem diversas. Algumas características os aproximam: a descendência de raça e a atividade profissional no funcionalismo público. A diferença primordial se dá na forma como desenvolvem o exercício literário. Percebe-se que enquanto Machado de Assis se caracteriza por um "realismo psicológico", Lima Barreto se destaca pelo enfoque mais social, ou melhor, por um "realismo social". Lima Barreto reconhece os méritos de escritor em Machado, porém não lhe aprova a atitude empreendida em frente à miséria humana. E acrescenta: "Machado é um falso em tudo. Não tem naturalidade. Inventa tipos sem nenhuma vida'", A postura de Machado de Assis é assim vista, não somente por Lima Barreto, como por outros intelectuais. Escreve de modo retícencíoso, preferindo os desvãos e as entrelinhas. Não batendo de frente com a elite, recorre a muitos subterfúgios. Este procedimento percebe-se também na maneira como Machado de Assis encara a condição de raça. Se Lima assume abertamente, lutando, sofrendo e reivindicando maior espaço para si e para os semelhantes - Machado recorre à disposição oposta. Diante da concepção de literatura militante, constata-se que, para o escritor, Machado de Assis teria sido útil à sociedade se tivesse posto todo o potencial a serviço do povo, de forma que fosse inteligível e atingisse os que realmente necessitavam de

orientação. Isto é, a população que se encontrava totalmente desamparada e relegada por parte do poder público. E, buscando distanciar-se ainda mais de Machado ou na tentativa de justificar a atitude do escritor, Lima Barreto assim o vê: Machado era um homem desata, amoroso das coisas delicadas, sem uma grande, larga e ativa visão da Humanidade e da Arte. Ele gostava das coisas decentes e bem postas, da conversa da menina prendada, da garridice das moças.

Austregésilo de Ataíde, em carta a Lima Barrete, elogiandolhe o romance Histórias e sonhos (1920), protesta contra a aproximação que alguns críticos começam a fazer entre Lima e Machado. Pois os têm como escritores que apresentam estilos, tendências e temperamentos totalmente diversos. No entanto, deixa transparente certa preferência e admiração por Lima Barreto: Machado de Assis é o pessimista desapiedado, cuja maldade, maravilhosamente esculpida, desce ao cúmulo de expressar-se, em todos os seus tipos, sob a forma sedutora de uma candidez, que raia pela ingenuidade, mas que, realmente, se embebe no puro fel das suas revoltas íntimas, estuantes nas suas veias, onde o sangue mulato animava o gênio dum heleno sem parelha.

* Apud Francisco de Assis Barbosa (A vida de Lima Barreto).


E referente a Lima Barreto: É no que você, meu prezado mestre, difere, com superioridade do Machado grandioso. As suas criações trazem todas as lacunas da sua vida, refletem a sua personalidade. Os seus tipos são variáveis, incertos, humanos, ilógicos, e traduzem, com perfeição, o caleidoscópio da existência, rebelde a leis, insubmissa a traçados, indo e vindo à mercê dos fatos, como estes galos de torre de igreja, móveis com o sopro dos ventos de todas as direções. Conforme Francisco de Assis Barbosa, outro escritor a fazer aproximações de Lima "aos romancistas ingleses e ao nosso Machado de Assis" foi Vitor Viana, no Jornal do Comércio, em 09-05-1916. Acrescenta a avaliação de Jackson de Figueiredo, que acredita que Lima Barreto "Supera ao criador de Dom

Casmurro, por ser mais humano e mais verdadeiro': Não foi somente Austregésilo de Ataíde a não aprovar a aproximação feita entre Lima e Machado. Anos depois, assim também se deu com o escritor H. Pereira da Silva, um estudioso de Machado de Assis e autor de Lima Barreto: Escritor Maldito: No que nos concerne essas aproximações são forçadas, falsas, com muito brilho e pouco valor. A personalidade de Lima Barreto, sua visão, seu espírito menos requintado e, o que não é de se desprezar, sua angústia existencial não comportam semelhantes paralelos. Já chega a ser mania dos estudiosos, críticos e biógrafos, essa leviana acuidade, essa pretensa erudição machadiana!


Elogio da Subversão o romance que Lima Barreto publica após o Isaias Caminha é, sem mais nem menos, sua obra definitiva e uma das obras-prima da literatura brasileira. Trata-se de Triste Fim de Policarpo Quaresma, dado a público em 1911, sob a forma de folhetim, e que depois apareceu em livro, (1916), custeado pelo próprio autor, que, é óbvio, atolou-se em dívidas. Por ocasião do folhetim, o romance não teve repercussão quase nenhuma. No entanto, em 1916 na forma de livro, o Policarpo Quaresma valeria ao escritor a consagração, pelo menos ante os olhos da crítica mais consciente. No mesmo ano da publicação, Oliveira Lima e Afonso Celso escrevem ótimos artigos sobre o romance, e o major Policarpo Quaresma é comparado ao Dom Quixote. Vítor Viana garante que Lima Barreto em nada perde para Machado de Assis e para os ingleses, em sua mistura sábia de tragédia e humor. E Jackson de Figueiredo explode: Lima é muito melhor que Machado. Até Osório Duque Estrada, um catado r de pulgas gramaticais, celebrou o talento do escritor e caricaturista que agora se afirmava de forma definitiva. O Major Quaresma é a caricatura de um patriota ingênuo. Através dele, o romancista põe ante nós o lado cândido e sincero que o patriotismo pode ter, bem como o seu lado meio maluco. Grande número de figuras caricatas contracena com o Quaresma, com a diferença que esse último é, de todas, a única figura que atinge a grandeza pelo ridículo, que se faz heroína pelos avessos do anti-heroísmo. O Major Quaresma é uma caricatura tão genial que, como Dom Quíxote, se resgata inteiramente do naufrágio do ridículo. De certa forma o romancista está dizendo, novamente com um riso de canto de boca, que para ser muito bom e muito puro é preciso ser muito maluco, numa sociedade de corruptos de um país sem projeto. No Policarpo Quaresma seu autor põe em confronto duas noções que o desagradavam: a de Pátria (patriotismo) e a de Ditadura. Neste livro, um pobre

visionário é fuzilado por não conseguir enxergar as pessoas e as instituições como são, vendo-as sempre como gostaria que elas fossem. Como diz Oliveira Lima, o Policarpo Quaresma é um livro repassado de compaixão e "misteriosa piedade", ambas brilhando no fundo das agitadas águas do humor. Lima Barreto só não reserva qualquer piedade para o traçado do perfil do ditador Floriano Peixoto. Quer desmascarar a história oficial que já ia fazendo daquele homem um enigmático e sábio estadista, e escreve: "Quaresma pôde então ver melhor a fisionomia do homem que ia enfeixar em suas mãos, durante quase um ano, tão fortes poderes, poderes de Imperador Romano, pairando sobre tudo, limitando tudo, sem encontrar obstáculo algum aos seus caprichos, às suas fraquezas e vontades, nem nas leis, nem nos costumes, nem na piedade universal humana. Era vulgar e desoladora. O bigode caído; o lábio inferior pendente e mole a que se agarrava uma grande "mosca" ; os traços fIácidos e grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse próprio, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço, redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe era individual, mas nativa, de raça; e todo ele era gelatinoso - parecia não ter nervos". É terrível o quadro que Lima Barreto pinta dos rigores da ditadura que se arremetia contra um rebanho indefeso de "paus mandados". Se o retrato do fuzilador é assim impiedoso, o retrato dos fuzilados é banhado em piedade, uma piedade seca e sem comentários. O romancista registra: "Brancos, pretos, mulatos, caboclos, gente de todas as cores e de todos os sentimentos, gente que se tinha metido em tal aventura pelo hábito de obedecer, gente inteiramente estranha à questão em debate, gente arrancada à força aos lares ou à calçaria das ruas, pequeninos, tenros, ou que se haviam alistado por miséria, gente ignara, simples, às vezes cruel e perversa como crianças inconscientes, às vezes boa e dócil como um cordeiro, mas enfim gente sem responsabilidade, sem anseio político, sem vontade própria, simples autômatos nas mãos dos chefes e superiores


que a tinham abandonado à mercê do vencedor". E, no seu libelo contra a ditadura medíocre, Lima Barreto arremata: u E era assim que se fazia a vida, a história e o heroísmo: com violência sobre os outros, com opressões e sofrimentos". Triste Fim de Policarpo Quaresma é o principal texto da literatura nacional sobre o ridículo do poder usurpado e absoluto, o que o faz extremamente atual para nós que cavalgamos um dia a crista da onda do AI-S. Com a troça misturada à compaixão, o romancista carioca prossegue seu santo caminho de subversão. Fonte: "Lima Barreto" de Regis Morais - Coleção Encanto Radical - Brasiliense


Um Escritor na Contramão ':.. a arte literária se apresenta com um verdadeiro poder de contágio que a faz facilmente passar de simples capricho individual, para traço de união, em força de ligação entre os homens (...) a Literatura reforça o nosso natural sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes ...':

Nada mais apropriado, especialmente num país em que os humilhados e ofendidos não tinham voz para clamar por justiça. Essa voz encontra-se na literatura de Lima Barreto, que, com sua certeira palavra-espada, sempre cutucava a ferida da injustiça e do preconceito. Escrever, para Lima Barreto, era uma forma de denúncia. Por isso, sua linguagem tinha que se construir com a clareza da simplicidade, avessa aos adornos de escrita que eram a moda da época. Dessa opção resultaram as pesadas críticas que recebeu de escritores e críticos de seu tempo, que se chocavam com o emprego da linguagem coloquial e do linguajar carioca que Lima incorporou à Literatura. Acusou-se o escritor de desleixo, de não saber gramática ... Via-se descuido e erro onde existia, quase sempre, o desprezo intencional pela maneira ornamentada de escrever, onde havia o esforço de se fazer entender pelo leitor comum. Mas dos golpes da sua espada-palavra ressoam, nas entrelinhas, a vibração da solidariedade com seus personagens suburbanos: aquela marginália composta de homens e mulheres pobres que vivem subindo e descendo ladeiras, embarcando e desembarcando de trens lotados, entupindo botequins, feiras livres e mafuás, tentando sobreviver de bagatelas.

Trafegando pela contramão da literatura-passatempo, que fazia a glória da maioria de seus contemporâneos, Lima Barreto registrou e comentou o clima geral e os grandes acontecimentos da primeira fase republicana: a rebelião contra Floriano Peixoto, a campanha pela erradicação da febre amarela, as primeiras manifestações feministas, o fanatismo pelo futebol, a derrocada econômica verificada no governo de Venceslau Brás, a primeira Grande Guerra ... Mas a importância do caráter documental e artístico dessa obra só seria devidamente avaliada muito depois que ele se desequilibrou e despencou para a morte. Fonte: "Clara dos Anjos" de Lima Barreto - Posfácio de Carlos Faraco - Série Bom Livro - Ed. Ática.


Os Alvores da República Em "Triste Fim de Policarpo Quaresma" de 1911, Lima Barrete contextualiza a história em meados de 1890, momento histórico conturbado, transição do estado de Monarquia para a República, são acontecimentos que servem de pano de fundo para a história contada do herói. Deste período de transição, e do conjunto de acontecimentos que contribuíram para a decadência do Império e a instauração do novo regime, três razões podem se destacar dentre os principais conflitos entre setores da sociedade que romperam a hegemonia do reinado de D.Pedro 11. A primeira destas razões foi o desgaste criado com a Igreja através da punição dada aos Bispos em detrimento da briga com a Maçonaria e seus representantes no governo - entre eles o próprio Rei. Uma segunda razão foi a ascendente força do Movimento Abolicionista e o fim da escravidão, a chegada da imigração como mão-de-obra assalariada e a transferência do pólo econômico para São Paulo com o predomínio na produção do café. Já a terceira, talvez aquela que seria o golpe final na Monarquia, foi o conflito com o Exército a partir da briga na imprensa pública, o que prejudicou as relações entre a instituição militar e o Imperador que já vinham abaladas desde a campanha na Guerra do Paraguai (1864-1870) em que os militares tiveram seus poderes aumentados. A partir da década de 1870, o Movimento Republicano, o Militarismo, o Positivísmo apareceram pela influência européia e começaram a se divulgar por todo o Brasil. Todos esses motivos foram tão simultâneos e concomitantes que já em meados de 1889, a cúpula do Exército soube agregar todas as forças que estavam contra o Império e aproveitam para insurgir e proclamar a República (1889). Instaurou-se o novo regime num golpe sem que necessariamente esta atitude tivesse sido endossada por uma consciência coletiva da população de seus

direitos civis. O que mais atesta esta "falta de consciência civil" foi o fato de não se ter alterado nada a forma de governar e as condições da maioria da população continuaram as mesmas; os negros libertos não tiveram nenhuma perspectiva. Lima Barreto mostrou-se presente e pensante sobre o momento histórico de seu país. Ao retratar o episódio da Revolta da Armada (1893) no romance, ele opera o passo mais trágico da personagem-herói do livro. Policarpo apóia Marechal Floriano nessa dificuldade de manutenção do novo poder sem saber o que realmente representava o uso da força em nome de uma ideologia (Positivismo) e sem saber quem realmente lucraria com toda a barbárie praticada. O Marechal assume todo despotismo ao abafar a revolta, assim a prática da repressão violenta e a ditadura colam-se definitivamente na nossa história republicana. Erick Gallani Ator do grupo Macunaima


o Marechal de Ferro

Era só o começo

No meio em que surgiu, o Mal. Floriano Peixoto sobressaía pelo contraste. Era um impassível, um desconfiado e um cético, entre entusiastas ardentes e efêrneros, no inconsistente de uma época volvida a todos ideais, e na credulidade quase infantil com que consideramos os homens e as coisas. Este antagonismo deu-lhe o destaque de uma glória excepcionalíssima. Mais tarde o historiador não poderá explicá-Ia. O herói, que foi um enigma para seus contemporâneos pela circunstância claríssima de um ser excêntrico entre eles, será para a posteridade um problema insolúvel pela inópia completa de atos que justifiquem tão elevado renome. É um dos raros casos de grande homem que não subiu, pelo condensar no âmbito estreito da vida pessoal as energias dispersas de um povo. Na nossa translação acelerada para o novo regime ele não foi uma resultante de forças, foi uma componente nova e inesperada que torceu por algum tempo os nossos destinos. Assim considerado, é expressivo. Traduz de modo admirável, ao invés da sua robustez, a nossa fraqueza. O seu valor absoluto e individual reflete na História a anomalia algébrica das quantidades negativas: cresceu, prodigiosamente, à medida que prodigiosamente diminuiu a energia nacional. Subiu, sem se elevar - por que se lhe operara em torno de uma depressão profunda. Destacou-se à frente de um País, sem avançar - por que era o Brasil quem recuava, abandonando o traçado superior de suas tradições;

1891 NOVEMBRO

Fonte: "Euclides da Cunha - Contrastes e Confrontos'; Livraria: Leio e Irmão, Porto, citado por Helio Silva, "1889: A república não esperou amanhecer';

dia 22 - O Mal. Deodoro da Fonseca renuncia à Presidência

da

República, sendo substituído pelo Mal. Floriano Peixoto.

1892 JANEIRO dia 19 - O Governo domina um motim de presos na Fortaleza

de Santa Cruz. dia 22 - O Congresso, por 83 de seus 118 membros,

aprova mensagem do Governo propondo o encerramento dos trabalhos legislativos e a concessão de plenos poderes ao Executivo para o combate à subversão. A subversão dos presos da Fortaleza de Santa Cruz, depois de libertados por um sargento revolucionário, em 19 de janeiro, iria servir de motivo para o primeiro choque entre Floriano e o Congresso. O motim foi prontamente dominado ao segundo tiro de artilharia. Mas, em 22, era o Congresso surpreendido com uma proposta para o encerramento de seus trabalhos, a fim de que o governo tivesse as mãos inteiramente livres para dominar a revolta e salvar a República. Foi o próprio Campos Sales, com a grande autoridade moral de seu passado republicano, que justificou o ponto de vista do Governo, obtendo a medida pleiteada e a aprovação de uma moção que dava ao Presidente em exercício plenos poderes, concitando-o usar das medidas mais enérgicas que julgasse necessárias à defesa da legalidade. A sessão do Senado que aceitou seufechamento não tem, todavia, a grandiosidade que se poderia esperar. Trinta e um senadores deram o que lhes foi pedido e apenas dois: Pinheiro Guedes e Catunda votaram


contra. Talvez tivesse sido, então, que Saldanha Marinho proferiu a frase famosa: - "Não era essa a República dos meus sonhos" Rangel Pestana, ao final da sessão, renunciou o seu mandato de Senador por São Paulo com melancólicas palavras: "Estou realmente contristado ...sinto a necessidade de abandonar essa cadeira, a que não me prende mais nenhuma missão, nenhum interesse, sinto a necessidade de sair daqui.." Na Câmara dos deputados a proposta de encerramento foi aprovada por 83 em 118 congressistas. Comenta um autor: "O inesperado encerramento das sessões parlamentares combinava-se perfeitamente com as primeiras deposições e aquelas últimas violências no arranjo inicial de uma longa e indefinida instalação. O Mal. Floriano estava decidido a manter-se no ltamarati, por lógica e inevitável extensão daquela sua própria atitude assinalada pelo Senador Campos Sales que no fundo, outra coisa não era nem significava, além do absoluto sucesso do seu feliz pronunciamento militar. Era o simples direito da força incontrastável. Ninguém podia, naquele momento, apresentar melhores títulos ao cobiçado lugar de depositário único de toda autoridade, ninguém o tiraria dali..:~

1892 ABRIL

dia 10 - Círculos oposicionistas prestam homenagem a Deodoro, recolhido ao leito gravemente enfermo. Em represália, o Governo procede à prisão de diversos manifestantes, um deles detido pelo próprio Floriano. dia 18 - Rui Barbosa impetra habeas - corpus em favor de 46 pessoas, presas por participarem de manifestação em homenagem ao Mal. Deodoro. Entre os presos estão marechais, generais, senadores, almirantes, deputados, homens de negócios e jornalistas. dia 27 - O Supremo tribunal Federal nega o habeas - corpus impetrado por Rui Barbosa em favor dos parlamentares, militares e jornalistas presos por ordem de Floriano.

1892 AGOSTO

dia 22 - Morte de Deodoro.

José Maria dos Santos ';<! Política geral do Brasil" - Ed J. Magalhães':

Fonte: Notas, datas e textos extraídos do livro "1889: A República não esperou o amanhecer';

1892 MARÇO

dia 21 - Treze generais escreveram a Floriano exigindo que mande proceder, sem mais delongas, à eleição presidencial, como estipula a Constituição. Os signatários são, pouco depois, reformados.

de Hélio Silva - Civilização Brasileira.


A Revolta da Armada 1 - Portão de entrada da Fortaleza de São [osé, ilha das Cobras, 1894. A construção apresenta danos provenientes do bombardeio, durante a Revolta da Armada. A ilha das Cobras fica situada diante do Arsenal da Marinha do Rio de janeiro, desde o período colonial a principal instalação naval do país. 2 - Fortaleza de São [osé, ilha das Cobras, 1894. Ao fundo, vê-se a ilha Fiscal, na Baía da Guanabara. 3 - Canhão Armstrong em posição na Fortaleza de São joão, 1894. Trata-se da peça de 11 polegadas conhecida como "Vovô': Ao fundo, a Fortaleza de Santa Cruz. 4 - Fortaleza de Villegaignon, 1894. Em primeiro plano um canhão Armstrong de 10 polegadas. No fundo, canhões obsoletos e alguns soldados e oficiais do Batalhão de Engenharia do Exército.

5 - Encouraçado Aquidaban

no dique seco do Arsenal de Marinha, 1894. Uma das principais unidades da esquadra brasileira, tornou-se, durante a Revolta da Armadacapitania dos revoltosos. Em dezembro de 1893, junto com outras unidades sediciosas, rompeu a barra do Rio de janeiro e dirigiu-se para o sul do País. Na noite de 10 de junho de 1894, estava fundeado junto à ilha de Araçatuba (SC), quando recebeu um impacto de torpedo pela proa, que o fez afundar. Posto a flutuar novamente.foi trazido de volta ao Rio de janeiro, e é visto, nesta fotografia, em fase de reparos. 6 - Canhão La Hitte de montanha calibre 4 e soldado da Guarda Nacional, 1894. Estes canhões foram fundidos no Arsenal de Guerra do Rio de janeiro, a partir de 1870. Um deles ainda pode ser visto no Museu Histórico Nacional. 7 - Retrato de soldados em frente a prédio em ruínas, 1894. Note-se o equipamento de fotografia; é possível que um dos civis retratados seja o fotógrafo juan Gutierrez. 8 - Acampamento de campanha, 1894. Provavelmente no morro do Castelo; veem-se soldados do 1 Batalhão de Engenharia do Exército.

º

Fonte: www.museuhistoriconacional.com.br Fotos de juan Gutierrez.


Fito-me frente a frente E conheço quem sou. Estou louco, é evidente, Mas que louco é que estou? É por ser mais poeta que gente que sou louco? Ou é por ter completa A noção de ser pouco? Não sei, mas sinto morto O ser vivo que tenho. Nasci como um aborto, Salvo a hora e o tamanho Fernando Pessoa (Poesias Inéditas)

Noite Infinita Arrancaram a sua roupa e o deixaram nu. As portas abertas fizeram com que sentisse imenso pudor, e a ducha sobre os internos o fez lembrar do banho de vapor da Casa dos Mortos, de Dostoievski, quando chorou lembrou do Cervantes. A comparação com seus ilustres companheiros da escrita "que pior deviam ter sofrido em Argel e na Sibéria" foi para tentar dignar-se o seu grande sofrimento perante a humilhação. Depois lhe deram uma outra roupa, só capaz de cobrir sua nudez, e nem chinelo ou tamanco lhe deram. Uma caneca de mate e, logo em seguida, ainda dia claro, o atiraram sobre um colchão de capim com uma manta pobre, muito conhecida de sua pobreza e miséria. "Que causa, meu Deus! Estava ali no pátio, que nem um peru, como um indigente, no meio de muitos outros, grande parte condenada a um mutismo eterno, outra que delira ao redor de mim e, se deixo de chorar, é para não me julgarem totalmente louco. A imagem era a do que a Desgraça pode sobre a vida dos homens.

É uma triste contingência, esta, de estar um homem obrigado a conviver com semelhante gente. Eu não posso deixar de censurar a simplicidade dos meus parentes, que me atiraram aqui, e a ilegalidade da polícia que os ajudou': Encerrado entre os muros de uma das piores instituições de sua época, o Hospício, Lima Barreto procedeu combate aos estigmas que o aprisionaram por duas internações a que foi submetido no Hospital Nacional dos Alienados, entre 1914 e 1920, carregado pelas mãos trêmulas do álcool. Viu repetir em sua curta vida a sina que sempre o atormentou e acabou desenhando seu triste destino: o naufrágio dos sonhos e o consequente enlouquecimento de seu pai - figura com manias de grandeza e ambições semelhantes às suas transformando-se em fardo e sombra. A não-realização de seus grandes ideais foi devida, grande parte, ao papel de mantenedor da pobre família que teve que assumir na "ausência" paterna. '11 minha casa me aborrecia, tão triste era ela! Adivinhava a morte de meu pai, que delirava, e eu sem dinheiro para enterrá-Ia; previa moléstias com tratamento caro e eu sem recursos; amedrontavame com uma demissão -e eu sem fortes conhecimentos que me arranjassem colocação condigna com a minha instrução; e eu me aborrecia e procurava distrair-me, ficar na cidade a beber, avançando pela noite adentro neste imundo vício': Vício a que se juntaram outros clichês, como os de paria social: negro (numa época de ideias eugenistas importadas da Europa que contaminavam especialistas brasileiros) e pobre - na lista de chavões que a psiquiatria da época forjava para justificar o isolamento, sem que necessariamente fossem portadores de alguma deficiência mental, dos elementos que a sociedade considerava seu refugo. "Procuram os antecedentes do indivíduo, mas nós temos milhões deles e, se fosse possível conhecê-Ias todos, ter memória dos seus vícios e seus hábitos, é bem certo que, nessa população que cada um de nós resume, havia de haver loucos, viciosos, degenerados de toda sorte", desabafou. Nem sua conhecida condição de escritor o libertou de seu estigma, mas era a Literatura a única arma que possuía para continuar na luta contra o sistema que


buscava controlá-lo, insurgindo, através de um diário, contra as mazelas das quais ele e outros desprotegidos de toda sorte foram vítimas - privações, interrogatórios, tratamentos-punições como a ducha, pregações morais, repreensões, disciplina rigorosa, trabalhos obrigatórios, recompensas, relações de vassalagem, de posse, de domesticidade e às vezes de servidão entre doente e médico, os maus tratos dos guardas, a falta de higiene dos ambientes: "Omobiliário, o vestuário das camas, tudo é de uma pobreza sem par': Os relatos indignados fizeram de Lima Barreto um certo precursor de Michel Foucault, estudioso da loucura, na sua projeção histórica e social sobre os sistemas prisionais. Lima denunciava o saber-poder do médico-psiquiatra brasileiro - "é capaz de ler qualquer novidade de cirurgia aplicada à psiquiatria em uma revista norueguesa e aplicar, sem nenhuma reflexão preliminar, num doente qualquer'; acusando-o do pouco interesse na verdade em descobrir, em levantar um pouco o véu do mistério - "e que mistério!" - que havia na especialidade que professavam. Liricamente reclamava uma ciência que crê-se no seu limite, respeitasse o sentido oculto do homem: "Eu sou dado ao maravilhoso, ao fantástico, ao hipersensível; nunca, por mais que quisesse, pude ter uma concepção mecânica, rígida, do Universo e de nós mesmos. No último, no fim do homem e do mundo, há mistérios e eu creio neles. Todas as prosápias sabichonas, todas as sentenças formais dos materialistas, e mesmo dos que não são, sobre as certezas da ciência, me fazem sorrir e creio que este meu sorriso não éfalso, nem precipitado, ele me vem de longas meditações e de alaceantes dúvidas. Cheio de mistério e cercado de mistério, talvez as alucinações que tive as pessoas conspícuas e sem tara possam atribuí-Ias à herança, ao álcool, a outro qualquer fator ao alcance da mão. Prefiro ir mais longe ...': Assim encontrou, no seu Diário Íntimo, que culminou no inacabado romance O Cemitério dos Vivos, a maneira possível de sua abafada voz escapar pelas frestas, já que o alienado é "um homem que a sociedade não quer ouvir e quer impedir de dizer insuportáveis verdades." (Artaud), protestando de maneira inusitada para ser

ouvido e sentido, e, assim, continuar sobrevivendo perante o horror: "Em chegando ao alto do edifício, um homem começou a destelhá-lo e atirar telhas em todas as direções, sobretudo para a rua, nunca para a parte interna do hospício, como pediam alguns loucos - 'Não, entre nós não! Vocês são infelizes como eu!' Num dado momento e de pé na cumeeiro, falando, cabelos revoltos, os braços levantados para o céu fumacento, esse pobre homem surgiu-me como a imagem da revolta ... Contra quem? Contra os homens? Contra Deus? Não; contra todos, ou melhor, contra o Irremediável!" Rodrigo Audi Ator do Grupo Macunaíma e integrante do Centro de Pesquisa Teatral do SESC SP

Fontes: "O Cemitério dos Vivos'; Editora Planeta / "Literatura de Luciana Hidalgo, Editora Annablume.

da Urgência';


Elogio da Morte Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte. É a destruição contínua e perene que faz a vida. A esse respeito, porém, eu quero crer que a Morte mereça maiores encômios. É ela que faz todas as consolações das nossas desgraças; é dela que nós esperamos a nossa redenção; é ela a quem todos os infelizes pedem socorro e esquecimento. Gosto da Morte porque ela é o aniquilamento de todos nós; gosto da Morte porque ela nos sagra. Em vida, todos nós só somos conhecidos pela calúnia e maledicência, mas, depois que Ela nos leva, nós somos conhecidos (a repetição é a melhor figura de retórica), pelas nossas boas qualidades. É inútil estar vivendo, para ser dependente dos outros; é inútil estar vivendo para sofrer os vexames que não merecemos. A vida não pode ser uma dor, uma humilhação de contínuos e burocratas idiotas; a vida deve ser uma vitória. Quando, porém, não se pode conseguir isso, a Morte é que deve vir em nosso socorro. A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos de independência; ela só quer acompanhadores de procissão, que só visam lucros ou salários nos pareceres. Não há, entre nós, campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. Tudo aqui é feito com o dinheiro e os títulos. A agitação de uma idéia não repercute na massa e quando esta sabe que se trata de contrariar uma pessoa poderosa, trata o agitador de louco. Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo. São eles os heróis; são eles os reformadores; são eles os iludidos; são eles que trazem as grandes idéias, para melhoria das condições da existência da nossa triste Humanidade. Nunca foram os homens de bom senso, os honestos burgueses ali da esquina ou das secretárias chies que fizeram as grandes reformas no mundo. Todas elas têm sido feitas por homens, e,

às vezes mesmo mulheres, tidos por doidos. Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas. O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para própria felicidade da espécie humana. Entretanto, no Brasil, não se quer isto. Procura-se abafar as opiniões, para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes. Os órgãos de publicidade por onde se podiam elas revelar, são fechados e não aceitam nada que os possa lesar. Dessa forma, quem, como eu nasceu pobre e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência, só tem que fazer elogios à Morte. Ela é a grande libertadora que não recusa os seus benefícios a quem lhe pede. Ela nos resgata e nos leva à luz de Deus. Sendo assim, eu a sagro, antes que ela me sagre na minha pobreza, na minha infelicidade, na minha desgraça e na minha honestidade. Ao vencedor, as batatas! Fonte: "Lima Barreto" - Marginálía - Editora Mérito


Resumo Biográfico 1881 - Afonso Henriques de Lima Barreto nasce no Rio de janeiro, a 13 de maio Machado de Assis publica Memórias Póstumas de Brás Cubas. 1887 - Em dezembro, morre sua mãe, de tuberculose galopante. 1888 - Abolição da Escravatura. ~ 1889 - Proclamação da República. 1890 - Instalação da Assembléia Nacional Constituinte. 1891 - Deodoro da Fonseca fecha o Congresso Nacional; contragolpe de Floriano Peixoto leva-o ao poder para restaurar a ordem constitucional. 1893 - A Armada revolta-se no Rio; Revolução Federalista no Sul. 1894 - Prudente de Morais assume a presidência da República. 1895 - Morre Floriano Peixoto. Concluída a instrução primária, Lima Barreto entra para o Ginásio Nacional. 1896 - Conclui os primeiros preparatórios no Colégio Paula Freitas. 1897 - Ingressa na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. 1898 - Campos Sales inicia seu governo como presidente da República. 1902 - Rodrigues Alves assume o poder e começa a reconstruir e sanear o Rio de Janeiro. Lima Barreto colabora em jornais acadêmicos, escrevendo para A Lanterna, a convite de Bastos Tigre. 1903 - O pai enlouquece e Lima Barreto é obrigado a deixar a faculdade para sustentar a família. Ingressa como amanuense na Secretaria da Guerra. 1905 - Passa a trabalhar como jornalista profissional, escrevendo uma série de reportagens para o jornal Correio da Manhã. 1907 - Funda no Rio a Revista Floreal. 1909 - Morte de Afonso Pena; Nilo Peçanha o substitui. Aparece em Lisboa o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha, publicado pelo editor M. Teixeira. 1910 - Hermes da Fonseca inicia o governo das "salvações nacionais". 1911- O Jornal do Commercio começa a publicar em folhetins o

romance Triste Fim de Policarpa Quaresma. 1912 - Lima Barreto colabora no jornal A Gazeta da Tarde, onde publica, além de relatos folhetinescos, a sátira Numa e a Ninfa. 1914 - Venceslau Brás chega ao poder em meio a grave crise econômica. Em agosto, Lima Barreto é recolhido pela primeira vez ao hospício. 1916 - Abusando do álcool e levando uma vida desregrada, é internado para tratamento de saúde, interrompendo sua atividade profissional e literária. 1917 - Crises e greves operárias alastram-se pelo país. Lima Barreto atua na imprensa anarquista, apoiando a plataforma libertária dos trabalhadores. 1918 - Por ter sido considerado "inválido para o serviço público", é aposentado de seu cargo na Secretaria da Guerra. 1919 - Epitácio Pessoa assume a presidência da República. Aparece o romance Vida e Morte de M. F. Gonzaga de Sá. Lima Barreto é novamente recolhido ao hospício. 1922 - Semana de Arte Moderna em São Paulo; Lima Barreto morre em sua casa, no Rio de Janeiro, de colapso cardíaco.

Obras Romances: Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909); Triste fim de Policarpo Quaresma (1915); Numa e a ninfa (1915); Vida e morte de M. j. Gonzaga de Sá (1919); Clara dos Anjos (1948). Sátira: Os bruzundangas (1923); Coisas do Reino do jambom (1953). Conto: Histórias e sonhos (1920); Outras histórias e Contos argelinos (1952). Artigos e crônicas: Bagatelas (1923); Feiras e mafuás (1953); Marginália (1953; Vida urbana (1953). Outros: Diário íntimo (memória) (1953); O cemitério dos vivos (memória) (1953); Impressões de leitura (crítica) (1956); Correspondência ativa e passiva (1956).


SERVIÇOSOCIALDO COMÉRCIO Administração Regional no Estado de São Paulo Presidente do Conselho Regional Abram Szajman Diretor do Departamento Regional Danilo Santos de Miranda Superintendentes Técnico-social [oel Naimayer Padula Comunicação Social Ivan Giannini Gerentes Ação Cultural Rosana Paulo da Cunha Adjunto Flávia Carvalho Assistentes Maria Thereza Bosi de Magalhães e Sidnei Carvalho Martins Estudos e Desenvolvimento Marta Colabone Adjunto Andréa de Araújo Nogueira Artes Gráficas Hélcio Magalhães Consolação Felipe Mancebo Adjunto Patrícia Piquem Coordenador do Centro de Pesquisa Teatral Antunes Filho

Foto/capa: Lenise Pinheiro. Originalmente publicada no livro "Prêt-à-porter

1, 2, 3, 4, 5..."

Ricardo Muniz Fernandes (org.) SESCSp,2004


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