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Revista E - Outubro 2026

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Revista E | outubro de 2026 nº 4 | ano 33 Alimentação

Literatura

Artes cênicas

Música

O impacto da produção da agricultura familiar

Pedro Bandeira em entrevista e texto inédito

Ator e cantor Silvero Pereira rememora sua trajetória

Vida e carreira da cantora Nana Caymmi


15 a 24 de outubro 2026


Debates, oficinas, feiras e vivências com a presença de

Bela Gil Dani Lisboa Eudes Assis Guilerme Ranieri Irina Cordeiro Janaína Torres Jera Guarani José Carlos (Nutrifavelado) Neide Rigo Otis Selimane Thaís de Sant´Anna Machado Tia Nice Viviane Soares Aguiar e outros especialistas dedicados a promover reflexões sobre alimentação, saúde, cultura, meio ambiente e autonomia para escolhas alimentares mais conscientes.

Participe de atividades gratuitas nas unidades do Sesc da capital, sescsp.org.br Grande São Paulo, interior e litoral. /experimenta

sescsp.org.br/ experimenta


CAPA: Variedades de milho crioulo cultivadas de maneira agroecológica, em território integrado à Mata Atlântica, na terra indígena Tenondé Porã, em Parelheiros, extremo Sul da cidade de São Paulo. O milho passa por rituais de consagração antes de ser plantado ou consumido, por ser parte de uma prática de agricultura tradicional e sagrada do povo Guarani Mbya. A atividade enquadra-se também na lógica de agricultura familiar indígena, focada na subsistência coletiva e na preservação cultural. Imagem: Nilton Fukuda

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Legendas de acessibilidade abafadores acessível* audiodescrição braille cão-guia*

Presença que transforma O mês de outubro traz uma data particularmente importante para o nosso setor: no dia 30 comemoramos o Dia do Comerciário, uma oportunidade para reconhecer milhões de trabalhadores que, junto com os empresários, atuam no comércio de bens, serviços e turismo exercendo papel essencial na dinâmica das cidades e da economia. Ao celebrar 80 anos de trabalho, o Sesc (Serviço Social do Comércio) atesta a relevância do segmento que lhe deu origem e renova o compromisso em promover o bem-estar desses trabalhadores, de suas famílias e da sociedade. Desde suas primeiras ações, em 1946, por iniciativa do empresariado, o Sesc contribui de forma significativa para a qualidade de vida dessas pessoas, com uma vasta oferta de atividades nos campos do lazer, cultura, esportes, turismo, saúde e alimentação. Presente em todo o estado de São Paulo, proporciona a convivência e a troca de conhecimento por meio de uma permanente ação educativa.

dublagem formato alternativo legenda closed caption legenda open caption legendas Libras recursos táteis *Em estabelecimentos de uso coletivo, é assegurado o acompanhamento de cão-guia. As unidades do Sesc estão preparadas para receber todos os públicos

Por meio da iniciativa empresarial, sustentamos uma rede de serviços e experiências a quem constrói um país melhor todos os dias. Celebrar o Dia do Comerciário é, portanto, reconhecer esses trabalhadores e reafirmar uma convicção que nos guia: desenvolvimento econômico e compromisso social devem caminhar juntos. Ivo Dall’Acqua Presidente do Conselho Regional do Sesc no Estado de São Paulo


SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC Administração Regional no Estado de São Paulo Av. Álvaro Ramos, 991 – Belenzinho CONSELHO REGIONAL DO SESC EM SÃO PAULO Presidente: Ivo Dall’Acqua Diretor do Departamento Regional: Luiz Deoclecio Massaro Galina Efetivos: Aldo Nuñez Macri, Boris Ber, Dan Guinsburg, Ivo Pinfildi Junior, Jair Francisco Mafra, José de Sousa Lima, José Roberto Pena, Manuel Henrique Farias Ramos, Marcus Alves de Mello, Michelle Reis Moreira, Milton Zamora, Paulo Cesar Garcia Lopes, Paulo João de Oliveira Alonso, Paulo Roberto Gullo, Rafik Hussein Saab, Reinaldo Pedro Correa, Rosana Aparecida da Silva, Valterli Martinez. Suplentes: Aguinaldo Rodrigues da Silva, Antonio Cozzi Junior, Antonio Di Girolamo, Antônio Fojo da Costa, Antonio Geraldo Giannini, Carlos Alberto de Melo, Célio Simões Cerri, Cláudio Barnabé Cajado, Edison Severo Maltoni, Martim Clementino de Medeiros, Natália Ferreira Weber, Omar Abdul Assaf, Sérgio Esper, Sérgio Vanderlei da Silva, Telmo Côrtes de Carvalho e Silva, Vitor Fernandes, William Pedro Luz. REPRESENTANTES JUNTO AO CONSELHO NACIONAL Efetivos: Álvaro Luiz Bruzadin Furtado, Ivo Dall’Acqua, Rubens Torres Medrano. Suplentes: Luiz Roberto Rando, Marcelo Braga, Virgilio Cansino Gil

O alimento que cultivamos No ato cotidiano e essencial de nos alimentar, nem sempre refletimos sobre o que levamos à mesa e o quanto essas escolhas carregam consigo marcas de territórios, estações, culturas e modos de fazer. Antes de chegar ao prato, cada alimento percorreu uma história que passa pelo conhecimento acumulado ao longo do tempo e por uma relação delicada com a terra, seus ciclos e seus frutos. Olhar para o alimento é, portanto, também uma maneira de reconhecer os vínculos que nos conectam ao mundo. Comida é cultura. Assim, produzir esses alimentos é lidar com os ritmos da natureza, com as características de cada região e com a sazonalidade das colheitas. Nesse contexto, a produção gerada pela agricultura familiar aproxima campo e cidade, cultivo e consumo, mantendo vivos saberes ancestrais, respeitando os ciclos da terra e contribuindo para a diversidade que caracteriza a alimentação no nosso país. Reportagem desta edição da Revista E busca responder à pergunta: de onde vem a comida que chega ao prato dos brasileiros? E apresenta o papel da agricultura familiar no cultivo da variedade de itens que compõem o que chamamos de “comida de verdade”, com valor histórico, afetivo, sustentável e gerador de saúde. Boa leitura! Luiz Deoclecio Massaro Galina Diretor Regional do Sesc São Paulo

CONSELHO EDITORIAL | Revista E Aila Renata Okada Goulart, Aline Estela da Costa, Aline Ribenboim, Ana Paula Neves Cabral de Vasconcellos, Ana Paula Verissimo Souza, Andrea de Oliveira Rodrigues, Andressa Santiago Romao, Anna Raissa Costa Silva, Betina de Tella, Bianca Pereira Santos Damaceno, Bruna Gavioli Ramos, Camila Oliveira Silva, Cinthya de Rezende Martins, Davi dos Santos Ferreira, Debora Santos Franca, Diego Polezel Zebele, Edmar Rodrigues De Fátima Júnior, Elmo Sellitti Rangel, Fabiana Della Coletta Monteiro, Fabricio Floro, Flavio Aquistapace Martins, Francisca Meyre Martins Vitorino, Gabriela Camargo das Gracas, Gabriella Pereira Rocha, Geraldo Soares Ramos Junior, Giulia Maria de Campos Manocchi, Giuliano Jorge Magalhaes da Silva, Glauber Mishima Tanaka, Glauco Gotardi, Ivo Reseck, Jose Mauricio Rodrigues Lima, Julia Campos Josino, Juliane Barbosa Braga, Julio Cesar Ibelli Mello, Karen Leal da Silva, Laise Ferreira Guedes, Ligia Fernandes Araujo, Luana Brito Lima, Maira Yassumi Nakazone de Mello, Marcelo Baradel, Marcos Afonso Schiavon Falsier, Marcos Villas Boas, Maria Eduarda Camargo Pedro, Marina Borges Barroso, Milena Karina de Oliveira, Priscila dos Santos Dias, Rachel Amoroso Gonsalves, Rafael Lima Peixoto, Renata Barros da Silva, Rodrigo Eloi da Silva, Romeu Marinho C. Ubeda, Sandra Ribeiro Alves, Sara Maria da Silva, Silvia Cristina Garcia, Talita Ferreira dos Santos, Tamisa Betina da Silva, Tayna Guimaraes Vieira de Oliveira, Thais Ferreira Rodrigues, Tommy Ferrari Della Pietra, Vanessa Ferreira da Silva, Vinicius Pereira de Oliveira e Wagner Linares da Silva Junior. Coordenação-Geral: Ricardo Gentil Coordenação-Executiva: Ligia Moreli e Silvio Basilio Editora-Executiva: Adriana Reis Paulics • Edição de Arte e Diagramação: Lucas Blat • Edição de Textos: Adriana Reis Paulics, Diego Olivares, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Revisão de Textos: Pedro P. Silva • Edição de Fotografia: Nilton Fukuda • Repórteres: Adriana Terra, Diego Olivares, Elmo Sellitti Rangel, Lígia Scalise, Luciana Oncken, Marcel Verrumo, Marina Pereira, Rachel Sciré, Vanessa D'Amaro • Coordenação Editorial Revista E: Adriana Reis Paulics, Marina Pereira, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Propaganda: Edmar Júnior, Jefferson Santanielo, Julia Parpulov e Vitor Penteado • Apoio Administrativo: Juliana Neves dos Santos e Talita Ferreira dos Santos • Arte de Anúncios: Alexandre Calderero, Geysa Bernardes, Isabella Chiam Perrote, Julia Pinheiro, Leandro Vicente, Michel Jesus Pinheiro, Ricardo Kawazu e Wendell de Lima Vieira • Supervisão Gráfica: Rogerio Ianelli • Criação Digital Revista E: Cleber Paes e Rodrigo Losano • Circulação e Distribuição: Vanessa Zago Jornalista responsável: Adriana Reis Paulics (MTB 37.488). A Revista E é uma publicação do Sesc São Paulo, sob coordenação da Superintendência de Comunicação Social Distribuição gratuita. Nenhuma pessoa está autorizada a vender anúncios. Esta publicação está disponível para retirada gratuita nas unidades do Sesc São Paulo e também em versão digital, em sescsp.org.br/revistae e no aplicativo Sesc SP para tablets e celulares (Android e IOS). Fale conosco: revistae@sescsp.org.br


SUMÁRIO

dossiê

entrevista

alimentação

bio

gráfica

literatura

Seminário Territórios do Envelhecer debate a longevidade sob diversos aspectos e perspectivas

Imagens históricas do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), marco das artes cênicas, em novo livro das Edições Sesc

p.11

p.16

p.24

p.34

p.40

p.54

A trajetória e a personalidade de Nana Caymmi, uma das grandes vozes da MPB

Nilton Fukuda (Entrevista); Jeff Dias (Bio); Acervo Alvaro Machado (Gráfica)

Autor de livros que atravessam gerações, Pedro Bandeira fala sobre seu processo criativo

Um panorama do design de livros, que ajuda a contar histórias para além das palavras

A importância da agricultura familiar e os caminhos que levam comida saudável aos pratos das famílias


Wandi Doratiotto relembra infância, carreira do Premê e apresentação do Bem Brasil Acervos e bibliotecas para descobrir a cultura da moda

Pedro Bandeira (texto) e Nelson Cruz (ilustração)

encontros

inéditos

depoimento

almanaque

P.S.

Karen Daniele Aparecida Amorim Porcelli

em pauta

Igor de Melo (Encontros); Nilton Fukuda (Depoimento e Almanaque)

Artigos de Andrea Rabinovici e Cláudia Fernanda Balthazar dos Santos abordam relação entre turismo e territórios

Ator e cantor Silvero Pereira compartilha compromisso com seu ofício nos palcos e nas telas

p.60

p.66

p.70

p.74

p.78

p.82


Rubens Tamashiro

em cena

A abertura do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, no Sesc Santos, foi marcada pela encenação de ME·DE·AS, espetáculo do coletivo equatoriano Mitómana, escrito e dirigido por Gabriela Ponce. A montagem parte da figura clássica de Medeia, originária da mitologia grega, para propor uma releitura que questiona os papéis da maternidade. O festival, em sua 8ª edição, ocorreu entre 3 e 13/9 na Baixada Santista.

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OITO DÉCADAS DE HISTÓRIA

Com estudos e imagens raras, esta coletânea revisita a trajetória da companhia que ajudou a modernizar o teatro brasileiro e marcou para sempre a história da cultura no país.

saiba mais


DOSSIÊ Mayana Zatz. As experiências de envelhecimento em países como México, África do Sul e Brasil são tema da mesa “Promoção da saúde e envelhecimento no Sul Global”, que vai discutir estratégias que considerem aspectos como ambientes de cuidado, relações sociais, políticas públicas, territórios e acesso às práticas de lazer. A mesa de encerramento, “Passado, presente e futuro: os desafios do envelhecimento”, com o médico oncologista Drauzio Varella e a historiadora Mary Del Priore, busca um diálogo entre a história da velhice no Brasil e a medicina, para pensar sobre as diferentes formas de compreender e vivenciar o envelhecimento. Programação no dia 8/10 convida público a refletir sobre o processo do envelhecimento sob diferentes perspectivas.

Longevidade em pauta Seminário Territórios do Envelhecer discute promoção da saúde, finitude e o papel da ciência no envelhecimento, com participações dos médicos Drauzio Varella e Ana Claudia Quintana Arantes

Matheus José Maria

T

erritórios, diversidade, genética, solidão, finitude, entre outros temas da contemporaneidade, são questões que influenciam diretamente a forma como as pessoas vão experienciar a longevidade. Para apresentar um panorama do envelhecimento e apontar direções para velhices possíveis, o Sesc São Paulo realiza o seminário Territórios do Envelhecer, em 8/10, partir das 10h, no Sesc 14 Bis. A mesa de abertura "Uma vida que vale a pena ser vivida", com a médica geriatra Ana Claudia Quintana Arantes, reconhecida

pela abordagem humanizada do envelhecimento, da morte e do luto, analisa como essas dimensões atravessam a vida das pessoas idosas e daqueles que delas cuidam. A mesa "Genética e Longevidade: qual o papel da ciência no envelhecimento" reflete, a partir das perspectivas da genética, sobre os limites e as possibilidades da ciência diante das questões que envolvem o envelhecimento humano, com foco nas atuais pesquisas sobre os centenários brasileiros. Com a bióloga molecular e geneticista brasileira

O evento é uma das ações do programa Trabalho Social com Pessoas Idosas do Sesc São Paulo. Criado em 1963, possui três eixos principais: arte e expressão, corpo e movimento, e sociedade e cidadania. “O programa reafirma o compromisso do Sesc com a valorização dos direitos das pessoas idosas, a participação social, a convivência e o exercício da cidadania”, afirma Flávia Carvalho, gerente da Gerência de Estudos e Programas Sociais do Sesc São Paulo. Confira a programação completa do seminário em sescsp.org.br/14bis

O programa reafirma o compromisso do Sesc com a valorização dos direitos das pessoas idosas Flávia Carvalho, gerente da Gerência de Estudos e Programas Sociais do Sesc São Paulo 11 | e


DOSSIÊ

Edição 2026 do Omodé traz para o Sesc Bom Retiro atividades que apresentam a cultura negra por meio da arte e ações educativas.

ESPECIAL CRIANÇAS

Utopias do descanso Outro destaque é o lançamento de Oi oi oi, novo álbum da cantora Fortuna, pelo Selo Sesc. Concebido a partir da ideia de encontros, o projeto reúne canções inspiradas no cotidiano e no imaginário infantis. Os shows de lançamento serão entre os dias 10 e 12/10, no Sesc 14 Bis. Veja outras programações em: sescsp.org.br/semanadacrianca

LITERATURA DE HORROR O público é convidado a explorar os territórios da literatura de horror na 3ª edição do projeto Tétrica, que será realizado de 22/10 a 13/11, no Sesc Vila Mariana, e neste ano traz o subtítulo “Nas fissuras do real”. A programação tem bate-papos, palestras, curso, oficinas, show e sessões de cinema, com atividades gratuitas – algumas mediante a retirada de ingressos ou de inscrição prévia. A abertura, em 22/10, terá o bate-papo “Bestiários: a arte de

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catalogar criaturas imaginárias”, com o historiador, escritor e compositor Luiz Antonio Simas e a historiadora Vanessa Beatriz Bortulucce, com mediação da artista e programadora cultural do Sesc Vila Mariana Airá Fuentes. Entre outras atividades, a escritora Micheliny Verunschk realiza a oficina “Escrever o belo, nomear o terrível”, no auditório da unidade, em 24/10, às 11h. Acesse a programação e mais informações em sescsp.org.br/tetrica

O Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB) lança o podcast Utopías del descanso, dedicado a investigar experiências de turismo social na Espanha e na América Latina, em uma série de quatro episódios. O segundo deles, intitulado El resort de los trabajadores (O resort dos trabalhadores), abordará o Sesc Bertioga como caso de referência, com entrevistas de Marcos Roberto Laurenti (gerente da unidade), Denise Baena (gerente da Gerência de Educação para Sustentabilidade e Cidadania do Sesc) e Audenice Gonçalves (hotelaria da unidade). O podcast será disponibilizado em catalão e espanhol, a partir de 8/10. Ouça em: cccb.org

Ricardo Ferreira

Neste mês, as unidades do Sesc São Paulo preparam atividades especiais voltadas para as crianças. Entre os destaques, a 2ª edição da mostra artística e educativa Omodé: Festival Sesc de arte e cultura negra para a molecada, no Sesc Bom Retiro, realizada até 6/12. A ação oferece diversas atividades focadas na cultura afro-brasileira.


DOSSIÊ ATRIZES EM FOCO As trajetórias de duas atrizes icônicas inspiram espetáculos que estreiam neste mês. A peça Sarah Bernhardt em São Paulo chega ao Sesc Santana no dia 16, relembrando a primeira vinda da atriz francesa ao Brasil,

em 1886, momento em que se viu em meio ao movimento abolicionista. O texto é de Samir Yazbek, com direção de Ulysses Cruz, e conta com Arietha Corrêa no papel principal. Já o Sesc Santo Amaro recebe

Fôlego, texto inédito de Andréa Bassitt, com direção de Ricardo Grasson. A montagem, que estreia dia 23, se inspira nos 90 anos de carreira de Nathalia Timberg, que também encabeça o elenco. Saiba mais em: sescsp.org.br

Arietha Corrêa vive Sarah Bernhardt (1844-1923) em espetáculo que reimagina visita da atriz francesa à capital paulista, durante o século 19.

Ronaldo Gutierrez

50 vezes cinema A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo chega à 50ª edição, com uma seleção de filmes que traçam um panorama das mais diversas cinematografias do mundo e destacam tendências, temáticas, narrativas e estéticas, além de promover estreias em salas brasileiras. O evento ocorre de 15 a 29/10 e o Sesc São Paulo mais uma

vez é parceiro institucional, com exibições no CineSesc. Também está prevista a disponibilização de dez filmes na Plataforma Sesc Digital durante o período do evento e uma itinerância posterior por unidades do interior, com a exibição de seis filmes selecionados. Para consultar a programação, acesse: sescsp.org.br/mostrasp

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Ricardo Ferreira

FAÇA SUA CREDENCIAL PLENA

A Credencial Plena do Sesc é um benefício gratuito para pessoas com registro em carteira, que são estagiárias, temporárias, se aposentaram ou estão desempregadas há até dois anos em empresas do comércio de bens, serviços e turismo e seus dependentes familiares. Com a Credencial Plena você tem acesso prioritário e descontos na programação e serviços pagos do Sesc. Qual é a validade da Credencial Plena?

Como fazer a Credencial Plena?

Relacionamento com Empresas

A Credencial Plena tem validade de até 2 anos - para desempregados, a validade é de 24 meses contados a partir da data de rescisão do contrato de trabalho.

On-line pelo aplicativo Credencial Sesc SP ou pelo site centralrelacionamento.sescsp.org.br. Se preferir, nesses mesmos canais, é possível agendar horários para realização desses serviços presencialmente, nas Centrais de Atendimento das unidades.

É o programa que facilita o acesso ao credenciamento dos funcionários das empresas parceiras dos ramos do comércio de bens, serviços e turismo. Nessa parceria, além do credenciamento, os aproximamos de nossa vasta programação e serviços. Saiba mais em sescsp.org.br/empresas

Quem pode ser dependente na Credencial Plena? • • • •

Cônjuge ou companheiro de união estável de qualquer gênero Filho, enteado, irmão, neto, tutelado e pessoa sob guarda com até 24 anos Pai, mãe, padrasto e madrasta Avôs e avós

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Acesse o portal para saber sobre a Credencial Plena do Sesc


FORTUNA

LANÇAMENTO SELO SESC

Direção artística de Gustavo Kurlat, Hélio Ziskind e Fortuna

o álbum oi oi oi da fortuna está disponível em

Visite a loja virtual e conheça o catálogo completo sescsp.org.br/loja /selosesc


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entrevista

Formador de leitores Com mais de 100 livros publicados, Pedro Bandeira escreveu obras que atravessaram a infância e a adolescência de diferentes gerações e, agora, são adaptadas para o audiovisual POR VANESSA D’AMARO FOTOS NILTON FUKUDA

A

legre e extrovertido, Pedro Bandeira se sente confortável sob os holofotes. “Sempre quis trabalhar com teatro”, conta. Seu primeiro contato com a arte aconteceu justamente nos palcos, como ator — mas foi na literatura infantil que fez história. Ele é um dos autores mais lidos e prolíficos do Brasil: são mais de 100 livros infantojuvenis e cerca de 30 milhões de exemplares vendidos desde 1983, segundo a editora Moderna. “Saber que meus livros continuam sendo lidos é o que mais me deixa feliz”, afirma. Natural de Santos (SP), desde pequeno preferia a leitura à praia. Aplacava a solidão da infância — era a única criança da casa — com a literatura. Seus companheiros estavam nas páginas: Narizinho, Tarzan, Tio Patinhas, Jim Hawkins… Na adolescência, buscou os palcos para contar histórias e atuou ao lado de conterrâneos como o dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999). Mudou-se para São Paulo em

1961 para estudar Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP) e tentar a vida como ator profissional. A instabilidade do teatro, no entanto, acabou levando-o a buscar um salário fixo: virou repórter de jornal. Depois migrou para as revistas, nas quais passou a escrever histórias infantis publicadas em fascículos. Após ouvir conselhos da amiga, crítica e professora de literatura Marisa Lajolo, decidiu escrever seu primeiro livro infantil, O Dinossauro que fazia au-au (1983). “Comecei tentando imitar Monteiro Lobato (1882-1948). Depois, fui me especializar em psicologia do desenvolvimento para entender o ser humano desde que nasce até se tornar adulto”, conta. Seu livro de maior sucesso, A droga da obediência (1984), inaugurou a série dos Karas, grupo de adolescentes que acabam se envolvendo em investigações. A trama — sobre jovens que enfrentam um plano para colocá-los em estado

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entrevista

de submissão por meio de uma substância química — nasceu durante a ditadura militar. “Precisava de uma metáfora forte, de um símbolo. E isso veio da minha própria experiência. Sofri com a ditadura. Quando ela começou, eu era um jovem redator; quando terminou, já tinha 40 anos. Toda a minha juventude foi passada em silêncio”, lembra. Atualmente, a primeira adaptação do livro está em produção com a Globo Filmes e a produtora Conspiração. Bandeira dedicou mais seis títulos à saga dos Karas, entre eles Pântano de sangue (1987), Anjo da morte (1988), A droga do amor (1994), Droga de americana! (1999) e A droga da amizade (2014). Ao longo da série, refletiu sobre temas atuais, como catástrofes ambientais, epidemias e conflitos geopolíticos — o que levou muitos dos títulos a serem adotados por escolas. “A cada ano, uma nova geração de crianças de 10 anos chega e lê. E assim eles continuam vivos”, diz. Aos 84 anos, Pedro não cogita se aposentar. “Continuo trabalhando que nem um doido porque é uma delícia escrever para crianças e adolescentes”. Nesta Entrevista, o autor discute o seu processo criativo, o hábito de leitura, seus clássicos da literatura e a relação próxima que mantém com seus leitores.

Você contou em algumas entrevistas que lia muito na infância e que Monteiro Lobato foi uma inspiração importante. Quais livros, revistas e quadrinhos te marcaram na época? Nasci em Santos e era uma criança muito solitária. Não havia outras da minha idade por perto, então eu era companheiro de mim mesmo — brincava muito sozinho.

Aos 7 anos, fui bem alfabetizado na escola e comecei a ler gibi, que era uma febre naquele tempo. Histórias de mistério, de faroeste, de romance, de tudo... lembro que as primeiras histórias em quadrinhos que li eram do Tio Patinhas e do Pato Donald. Gostava muito também do Tarzan, desenhado por Burne Hogarth (1911--1996). Aí alguém me disse: “você gosta de Tarzan? Tem um livro”. Sem perceber, você ia para o livro. Adorava Robert Louis Stevenson (1850-1894), que escreveu A ilha do tesouro. Para mim, esse é o melhor livro infantil da história. Li também O médico e o monstro, do mesmo autor, além de Os três mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, os dois de Alexandre Dumas (1802-1870).

Você teve uma trajetória profissional bastante múltipla: estudou teatro, trabalhou como jornalista, redator publicitário, deu aulas de literatura… Virou escritor aos 40 anos. Você chegou a imaginar se tornar escritor quando era mais novo? Eu não imaginava ser escritor, jamais pensei. Queria trabalhar no teatro. Quando tinha 18 anos, vim para São Paulo para fazer faculdade e trabalhar com teatro profissional. Eu me dava muito bem como ator em Santos. O Plínio Marcos (1935-1999), meu companheiro de teatro lá, veio para São Paulo nessa época também. Fizemos bastante coisa, só que o teatro é uma profissão muito difícil. Quando a peça sai de cartaz, você está desempregado. Eu estava sozinho, não tinha quem me sustentasse. Precisava pagar a pensão onde morava. Aí fui fazer um teste no jornal. Não sabia o que era jornalismo, mas escrevia bem e fui aceito. Para o chefe de reportagem, é mais difícil ensinar alguém a escrever do que ensinar

Como é que se conquista uma boa leitura? Treinando leitura. De tanto ler, a criança vai aumentando o seu estoque vocabular, o que vai permitir que ela entenda melhor as coisas do mundo.

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jornalismo. Então ele pegava quem já sabia escrever. E eu passei a viver disso, com um salário no fim do mês. Mas ainda fazia muita coisa para ganhar um dinheirinho: mágica em festa de aniversário, teatro de fantoches, até show de hipnose. Aí veio a ditadura. Tanto o teatro quanto o jornal passaram a ter problemas sérios com a censura — que foi brutal. Proibia peças, proibia notícias.

Nessa época, você também escrevia histórias infantis em fascículos de banca. Como foi o caminho até o primeiro livro? Os fascículos eram muito importantes: as pessoas compravam toda semana um capítulo de um livro, ou de um livro de cozinha, e depois encadernavam. Começaram então a pintar oportunidades de escrever pequenas histórias para essas revistas de banca. Eu era muito disciplinado, obedecia aos prazos — e prazo, no jornalismo, é mais importante do que qualidade. Se o jornal fecha e você não entregou o texto, dançou. Uma querida amiga minha, a Marisa Lajolo [crítica e professora de literatura], disse: “Pedro, você já escreveu tantas historinhas, por que não escreve um livro?”. Fiz meu primeiro livro

tentando imitar Monteiro Lobato. Eu não sabia nada de pedagogia ou psicologia — tinha estudado ciências sociais na USP. Então, fui me especializar em psicologia do desenvolvimento, para entender o ser humano desde que nasce até se tornar adulto. Você precisa conhecer essas fases quando vai escrever para crianças e adolescentes.

Você então começa um livro definindo a faixa etária do seu público? Eu considero as fases de desenvolvimento: o que interessa uma criança aos 4, aos 7, aos 12 anos… A gente adequa o conteúdo e a linguagem de acordo com o leitor, para conseguir se comunicar com ele. Se quero falar com uma criança de 5 anos, preciso ter uma economia de vocabulário. A Ruth Rocha ensina uma coisa muito boa: você pode diminuir os adjetivos e usar substantivos adjetivados. Se você fala “bruxa”, não precisa dizer “bruxa malvada” — a função da bruxa é ser malvada. Se fala “delegado”, não precisa dizer “delegado sério” — a função dele já é essa. Se escrevo para um adulto, posso chutar o balde, porque vai me ler quem quiser. Se tiver palavra complicada, o problema é do leitor.

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Como surgem as ideias para o enredo dos livros? A ideia vem muito do interlocutor. Dei aula de literatura brasileira e portuguesa e lembro de um bom exemplo: um menino que ficava no meio da classe, quieto, só observando. A própria figura da timidez. Mas ele já estava chegando na adolescência, e a realidade ia cair como um tapa na cara. O que acontecerá com ele? A partir disso, invento uma história sobre um menino que precisa agir diante de algum acontecimento da vida. O que me inspira muito é a baixa autoestima do adolescente. Para se tornar um adulto forte, a gente precisa se aceitar. Eu marco a minha existência com a minha identidade. O livro começa quando surge o personagem. O enredo não é a primeira coisa. Gosto de comparar a literatura a uma via férrea: para existir, é preciso haver trilhos. O trilho é o enredo, o caminho — ele pode ser sinuoso. Ele serve para conduzir a locomotiva e os vagões – ou seja, a forma. Mas o que importa, na literatura, é o que os vagões transportam: as pessoas. Como agem, como pensam, como se relacionam ao longo do percurso. A história é sempre sobre o ser humano. Esse é o foco da literatura.

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A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, do Instituto Pró-Livro, mostra que mais de 80% das crianças entre 5 e 10 anos dizem gostar de ler, mas esse interesse diminui com a idade. Muitos dos seus livros se tornaram leitura obrigatória em escolas. Como você vê o papel da escola no incentivo à leitura? Como eu escrevo como auxílio às professoras, o meu livro precisa ser agradável, interessante — algo que faça o aluno querer ler. A leitura é fundamental porque amplia o vocabulário, ajuda a organizar o pensamento e a fixar mais coisas na memória. Talvez você não conheça a história da Romênia. Mas sabe ler. Se eu te dou um livro, você aprende. Se você lê mal, você não vai ficar sabendo nada. Como é que se conquista uma boa leitura? Treinando leitura. De tanto ler, a criança vai aumentando o seu estoque vocabular, o que vai permitir que ela entenda melhor as coisas do mundo. Por isso, eu acho que a disciplina mais importante na escola é a língua portuguesa. Porque tudo é escrito, até o problema de matemática. O enunciado é sempre um enigma de português. Você precisa destrinchar para entender que


entrevista

conta fazer. Se entende mal a pergunta, vai dar a resposta errada. Por isso, quando a criança diz “não gosto de ler”, “não tenho tempo” ou “canso quando leio”, em geral há uma dificuldade de letramento. Se a criança ainda não é capaz, vamos fazê-la capaz. Por isso que eu advogo que toda escola, como um hospital, devia ter um centro de terapia intensiva para esses alunos que precisam de mais apoio.

Algumas obras suas dialogam com clássicos da literatura. Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand (1868-1918), inspirou A marca de uma Lágrima (1985), e Hamlet, de William Shakespeare (1564-1616), inspirou Agora estou sozinha (1987). Quais clássicos formaram o escritor Pedro Bandeira? Eu fui feito de livros. Mas ninguém na minha família lia e nem ia ao cinema. Era um ambiente muito conservador. Eu acabei me fazendo sozinho. Meu pai morreu seis meses antes de eu nascer. Minha mãe era uma pessoa amorosa, mas nunca a vi lendo um livro. Já falei de A ilha do tesouro, que eu amava — e acho que toda criança devia ler. Mas também amei, e amo até hoje, os livros de Monteiro Lobato. William Shakespeare foi meu grande ídolo, principalmente por causa do teatro. O que acho extraordinário em Shakespeare é que, há mais de 400 anos, ele não escreveu sobre reis — escreveu sobre sentimentos humanos. Sobre o amor impossível, em Romeu e Julieta; sobre o ciúme, em Otelo; sobre ambição, velhice, relações de poder... Ele já questionava comportamentos. Era muito à frente do seu tempo. Se você quer entender o presente, leia Shakespeare. Eu mesmo já trabalhei com Shakespeare e com Machado de Assis (1839-1908), que é minha paixão absoluta. Machado, aliás, escreveu Dom Casmurro inspirado por Otelo. E eu fiz um livro recente que faz referência aos dois: Ciúme – a hora da verdade (2025). Para mim, Machado foi o maior romancista do século 19. Maior até do que [Fiódor] Dostoiévski (1821-1881) e [Liev] Tolstói (1828-1910). Não que eles não sejam bons. Mas quem mergulhou na alma humana e nas suas contradições foi Machado. Há livros realmente que continuam crescendo com a gente. Um exemplo é Vidas secas, de Graciliano Ramos (1892-1953). Um dos maiores gênios da nossa literatura. Reli recentemente, numa edição nova, e achei ainda melhor do que lembrava. Há algo que me interessa muito ali: a falta de palavras. Os personagens não conseguem se expressar. Não é falta de inteligência, é falta de linguagem.

Quando publicou A droga da obediência (1984), você disse que a história funcionava como uma metáfora sobre a repressão durante a ditadura militar. Escrever foi uma forma de lidar com as memórias e as vivências daquele período? Ainda era ditadura quando escrevi, em 1982. Era o momento da anistia — inclusive para quem cometeu atrocidades. Então criei a turma dos protagonistas, porque nessa idade ninguém é solitário: sempre há um grupo de amigos. Eles gostavam de mistério, liam coisas da Agatha Christie (1890-1976), brincavam de investigação. Mas precisava acontecer algo que os colocasse em ação. Eu não queria um crime comum, de polícia. Precisava de uma metáfora forte, de um símbolo. E isso veio da minha própria experiência. Sofri com a ditadura. Quando ela começou, eu era um jovem redator; quando terminou, já tinha 40 anos. Toda a minha juventude foi passada em silêncio — “isso você não pode dizer, isso você não pode fazer”. Foi muito duro. Então inventei essa metáfora: a ditadura como uma droga que, na verdade, serve para obrigar todo mundo a obedecer. Um sujeito que quer impor obediência absoluta. Isso é antidemocracia. No livro, os meninos lutam contra isso. Talvez por isso ele ainda funciona hoje, mais de 40 anos depois. Quando chega à adolescência, todo mundo quer ser ouvido. O que o jovem diz não é besteira. Ele quer ter o direito de opinar. Não é mais criança — e, muitas vezes, continua sendo tratado como se fosse. O adolescente quer respeito, quer ser tratado como alguém que tem direito à palavra, ao conhecimento. Acho que é por isso que esse livro continua sendo um sucesso.

Esse olhar para o contexto político aparece também em outros livros da série Os Karas. Em Anjo da morte (1988), eles lidam com um levante neonazista. Já em Droga de americana! (1999), publicado em um contexto bem diferente, a discussão política permanece presente, ainda que em outro registro. Como os livros podem ajudar na formação política dos jovens hoje? Essa era uma preocupação quando você começou a escrever a série? Jean Piaget (1896-1980) diz que o jovem começa a olhar para além de si mesmo a partir dos 12 anos. É aí que a leitura pode ajudar muito. A minha série dos Karas é sobre cinco adolescentes que estão despertando para a idade adulta. Em cada livro, eu quis tratar de um tema importante: a destruição da natureza, em Pântano de

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entrevista

Quando a história se apoia em elementos muito datados, ela envelhece. Mas, quando fala de sentimentos humanos, continua atual.

sangue; as consequências de uma ditadura brutal para o mundo em Anjo da morte; e até uma pandemia, em A droga do amor — que, na época, imaginei de outro jeito, mas acabou dialogando com o que vimos depois na época da covid-19. Eu nunca precisei nomear exatamente os acontecimentos. O leitor entende. Ele se coloca ali dentro. É isso que me interessa: que o leitor viva aquela experiência. Que entenda como é ruim mandarem você calar a boca, como é ruim destruir a natureza, como é viver sob uma ditadura, como é ruim uma pandemia explorada comercialmente. Tudo isso ajuda o jovem a crescer com mais consciência e com mais capacidade de se defender.

A droga da obediência vai ganhar uma adaptação para o cinema. O livro se tornou um marco da literatura juvenil brasileira, com cenas e diálogos que já sugerem um ritmo cinematográfico. Por que essa adaptação demorou tanto a acontecer? Quando o livro saiu, fez muito sucesso e logo surgiram tentativas de adaptação. Na época, porém, a única possibilidade era a televisão — e isso significava uma novela juvenil. O problema é que seria uma produção cara para a faixa da tarde, que não tem anunciantes suficientes para sustentar esse tipo de projeto. E, no horário nobre, não fazia sentido. Houve outras tentativas ao longo dos anos, inclusive para cinema, mas nenhuma foi adiante. Agora, com o streaming, isso mudou: o projeto se tornou mais viável. Vai ser uma superprodução. Escrever é barato; filmar, não.

Ao longo da carreira, foram mais de 30 milhões de exemplares vendidos, segundo a editora Moderna. Como você manteve o sucesso ao longo dos anos? Existe o best-seller, que é o livro que você lança e vende muito. E existe o long-seller. No meu caso, é isso que acontece: a cada ano, uma nova geração de crianças de 10 anos chega para começar a ler. Se a professora adota o livro e ele funciona bem em sala, ela adota de novo. E assim ele continua vivo e sempre vendendo. Muitos dos meus livros foram escritos em outra época, quando o

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telefone ainda tinha disco. Hoje todo mundo tem celular. Em algumas edições, fiz pequenos ajustes, incluí um computador, por exemplo. Mas, como o livro não é sobre tecnologia, isso não é o essencial. Quando a história se apoia em elementos muito datados, ela envelhece. Mas, quando fala de sentimentos humanos, continua atual. Esse é o ponto. Pode mudar o cenário — antes era cavalo, hoje é carro — mas as pessoas são as mesmas. É isso que eu tento levar em conta: escrever sobre o que não muda. O pior que pode acontecer é escrever um livro que morre, que deixa de interessar. Se não interessa hoje, é porque talvez nunca tenha interessado de verdade. E saber que meus livros continuam sendo lidos é o que mais me deixa feliz.

Suas obras ajudaram a formar gerações de leitores no Brasil. Quando você pensa nesse percurso, o que mais te emociona? O que mais me emociona são os leitores. No começo, eu recebia muitas cartas — sacos de cartas. A maioria hoje está na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que fez um trabalho de pesquisa com esse material. Eu guardei algumas, mas perdi outras que eram lindas. Eu gostava das cartas. Gostava mesmo — do papel, do selo, do envelope. Hoje ninguém mais escreve carta. A primeira que me marcou foi de um leitor que escreveu: “Pedro, eu não gostava de ler. Depois do seu livro, passei a gostar”. Isto é o maior orgulho que eu posso ter: conquistar alguém que não gostava de ler. Com o tempo, você cria um vínculo com os leitores. Eu tenho carinho por essas pessoas que me leem. Encontro leitores hoje que já são netos dos meus primeiros leitores. A avó leu, o filho leu, e agora a neta está lendo. Isso quer dizer que a história continua viva.

Assista a trechos da Entrevista com o escritor Pedro Bandeira, realizada no Sesc Avenida Paulista, em março de 2026.


Grégory Chatonsky La Quatrième Mémoire 2025

Até 29/11/2026 Sesc 24 de Maio Sob a curadoria de Antonio Somaini, a exposição apresenta obras de artistas nacionais e internacionais que investigam as interações entre a inteligência artificial e a criação artística contemporânea. saiba mais em sescsp.org.br/24demaio

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À SÃO PAULO

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mãos que

ALIMENTAM Movida por pequenos produtores, a agricultura familiar contribui para uma alimentação saudável e a preservação ambiental POR LUCIANA ONCKEN

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Elias Rodrigues

O cultivo de hortaliças e frutas pela agricultura familiar garante alimentos frescos para a população.

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ntes de chegar à mesa, boa parte do que comemos passou pela mão de uma família. Presentes em todo o território brasileiro, no entorno das grandes cidades ou no interior do país, propriedades familiares cultivam hortaliças e frutas usando a enxada, o rastelo e a semente escolhida uma a uma, em um trabalho manual, quase artesanal. É esse feito em pequena escala que sustenta boa parte das feiras livres da cidade e garante alimento fresco no nosso cotidiano, constituindo uma prática com forte presença na economia brasileira, nomeada de agricultura familiar. Uma dessas famílias é a de Lia Góes de Moura, agricultora orgânica na Fazendinha Pedaço do Céu e uma das lideranças da Cooperativa Agroecológica dos Produtores Rurais e de Água Limpa da Região Sul de São Paulo (Cooperapas), no distrito rural de Parelheiros. “Comer é apenas ingerir qualquer coisa; alimentar-se é quando o alimento traz saúde para dentro de você e leva saúde para o planeta, para quem produz e para quem transporta”, defende. A comida carrega história, relação e memória. É o que Lia traduz em linguagem própria como “agricultura afetiva”, que acontece, por exemplo, quando ela resgata e volta a cultivar a mandioca-cacau amarela movida pelo pedido de uma frequentadora da feira orgânica que busca reencontrar o sabor de sua infância. É exatamente a mesma ideia que o professor e economista

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Renato Maluf, ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), resume ao afirmar que a agricultura familiar é a provedora “daquilo que a gente chama de comida de verdade”. A estatística amplamente repetida de que a agricultura familiar coloca 70% dos alimentos na nossa mesa é, na verdade, um dado defasado da década de 1990. Para Maluf, no entanto, o número exato pouco importa. O fundamental, segundo o pesquisador, é que a agricultura de base familiar é a mais propensa a fornecer uma alimentação saudável e a respeitar a diversidade cultural e socioambiental. O Brasil, inclusive, é um dos poucos países a reconhecer duas agriculturas institucionalmente em lei, separando a familiar do agronegócio de larga escala.

ALIMENTO COMO AFETO Para a agricultora de Parelheiros, a fronteira entre o agronegócio corporativo e a agricultura familiar não se mede pela metragem da propriedade ou pelo volume do maquinário empregado: mede-se pelo afeto. “Quando colocamos o produto no chão, a gente tá pensando não só na alimentação saudável, mas em uma atividade de carinho pela natureza e por quem vai consumir”, relata Lia. Nessa lógica transformadora, o cliente urbano deixa de ser um comprador numérico para virar “coprodutor” que, ao adquirir uma hortaliça da produção familiar, financia a permanência da família no campo e a proteção das bacias das represas Billings e Guarapiranga, vitais para milhões de paulistanos.


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Esse elo afetivo transparece também no cultivo de variedades pouco comuns. “Às vezes eu planto um canteiro de uma hortaliça diferente, ou então do manjericão roxo. Eu quero surpreender os meus coprodutores, os meus clientes, com algo diferente que eu gosto”, conta Lia. A feira de troca de sementes da Cooperapas amplia esse resgate coletivamente, trazendo de volta variedades como a taioba e outras Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) que o mercado comum deixou de lado. A escolha de arriscar esse tipo de cultivo não é casual: a produtora a atribui à sensibilidade feminina que molda o trabalho local. Na cooperativa paulistana, hoje a diretoria é composta só por mulheres. Não é um caso isolado no país. Maluf observa que houve um aumento recente no número de mulheres responsáveis por estabelecimentos rurais no Brasil. Ainda assim, o acesso ao crédito continua sendo mais difícil para elas.

Nilton Fukuda

Lia Góes de Moura, uma das lideranças da Cooperapas: relação afetiva com o cultivo e a colheita que se traduz no prato.

CONEXÃO AMBIENTAL Em 2019, um relatório da revista científica The Lancet cunhou um termo para descrever algo que pesquisadores já observavam: obesidade, desnutrição e mudanças climáticas não são três crises separadas, mas sintomas de um único sistema alimentar em colapso. O nome dado a esse entrelaçamento foi sindemia global – a sinergia entre pandemias que coexistem e se retroalimentam. 27 | e


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QUANDO COLOCAMOS O PRODUTO NO CHÃO, A GENTE TÁ PENSANDO NÃO SÓ NA ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL, MAS EM UMA ATIVIDADE DE CARINHO PELA NATUREZA E POR QUEM VAI CONSUMIR Lia Góes de Moura, agricultora orgânica

“Essas relações estão interconectadas”, resume a pesquisadora Jaqueline Lopes Pereira, do núcleo Sustentarea, vinculado à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). A prevalência de obesidade é crescente, mas a desnutrição persiste em regiões de vulnerabilidade. Em paralelo, as mudanças climáticas são favorecidas por práticas do próprio sistema alimentar.

de arroz do país sai de um único estado (Rio Grande do Sul), enquanto a soja avança incessantemente sobre áreas historicamente dedicadas ao cultivo de feijão. É uma concentração produtiva que empobrece tanto o nosso prato quanto o solo do país.

Dentro dessa engrenagem, surge o debate sobre a “justiça climática”. Jaqueline aponta um paradoxo cruel: as populações com o menor impacto ambiental – como os pequenos produtores – são justamente as primeiras e mais duramente afetadas por enchentes e secas extremas. Maluf reforça o alerta, destacando que a agricultura familiar atua como parte da solução por adotar modelos de cultivo menos emissores, mas acaba sendo a principal vítima das perdas impostas pelo desequilíbrio do clima.

Essa dificuldade em enxergar a complexidade do campo se estende também aos consumidores nos grandes centros urbanos. A distância física e cultural entre a metrópole e a roça cria uma desconexão sobre a verdadeira origem da comida. Como observa a pesquisadora Jaqueline, as novas gerações perdem a noção do ciclo alimentar: “você pergunta para uma criança pequena de onde vem o suco? Ah, vem da caixinha. De onde vem a salada? Do mercado”. É esse fosso que a própria Lia tenta fechar na prática, recebendo turistas na cooperativa de Parelheiros para um “dia de campo”, em que acompanham o plantio, a colheita e a higienização, um processo que a maioria das pessoas desconhece.

Outro sintoma visível dessa crise é a monotonia agrícola: Maluf alerta que cerca de 70% da produção

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LETRAMENTO


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Segundo a nutricionista Gabriela Rigote, também integrante do Sustentarea, o acesso à alimentação agroecológica é um problema real em áreas urbanas, onde nem toda região tem feira de produtores por perto. “Temos sempre que tomar cuidado para não culpabilizar o consumidor”, ressalta, lembrando que as escolhas esbarram nos limites do orçamento e na disponibilidade geográfica. Mas dentro do que está ao alcance, há escolhas concretas que passam pela sazonalidade e pela cultura. O pesquisador Gustavo Porpino, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), resume as ações imediatas do cidadão. “Sempre que possível, comprar localmente, valorizar alimentos da estação, planejar compra e refeições e ser criativo no reaproveitamento das sobras”.

A chave é a sazonalidade: alimentos da época “vão precisar de menos insumos para ser produzidos e têm uma qualidade, um aspecto sensorial melhor”, ensina Porpino. Quando a compra prioriza a sociodiversidade e os produtores estão “alinhados à cultura do consumo local”, o alimento cumpre seu papel. Porpino cita o caso de um supermercado em Natal (RN) que reservou um espaço fixo – o “cantinho da gente” – só para produtos de cooperativas locais, provando que essa valorização pode ocorrer também nas gôndolas do varejo tradicional. Nenhuma dessas escolhas, porém, resolve sozinha o problema de acesso. O caminho estrutural passa pelo letramento alimentar: dar às pessoas ferramentas para reconhecer a diferença entre conceitos frequentemente confundidos. A agricultura familiar diz respeito a quem produz (a gestão da terra é feita

Elias Rodrigues

Ficar atento aos alimentos da estação é uma maneira de garantir frutas, verduras e legumes sempre mais frescos em casa.


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Compreender esses rótulos, no entanto, esbarra no gargalo da logística. Para que esse alimento chegue à mesa sem preços proibitivos, é preciso desmontar a complexa teia de distribuição atual e aproximar, fisicamente, quem planta de quem consome.

É preciso dar às pessoas ferramentas para reconhecer a procedência dos alimentos que chegam à mesa.

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DO CAMPO PARA A CIDADE Circuito curto é o nome técnico para essa ideia simples: quanto menos atravessadores, menos intermediários e menos etapas de transporte entre a roça e o prato, mais rápido, barato e rastreável fica o alimento. É a lógica que já está em ação na cooperativa de Parelheiros e a mesma estratégia que a Embrapa defende em escala de política pública. Em São Paulo, dois exemplos mostram esse escoamento em ação. O primeiro é o Instituto Chão, que conecta pequenos produtores diretamente a

Dani Sandrini

pela família), mas não impede o uso de agrotóxicos. O orgânico garante como se produz (sem veneno ou adubos sintéticos), mas pode vir de grandes monoculturas industriais. Já o agroecológico amarra todo o sistema: é o alimento cultivado em harmonia com a biodiversidade, com foco na recuperação do solo e na garantia de relações justas de trabalho e comércio.


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VOCÊ PERGUNTA PARA UMA CRIANÇA PEQUENA DE ONDE VEM O SUCO? AH, VEM DA CAIXINHA. DE ONDE VEM A SALADA? DO MERCADO. Jaqueline Lopes Pereira, pesquisadora do núcleo Sustentarea

consumidores e restaurantes. Pesquisas acadêmicas, como as conduzidas por estudiosos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), apontam que essa parceria comercial funciona como um forte indutor de mudança no campo. Com a garantia de escoamento e a valorização da sociobiodiversidade, os agricultores deixam a monocultura para trás e diversificam o que plantam. Tubérculos, como a batata, e raízes versáteis, como o açafrão-da-terra, ganharam espaço nas lavouras em sistemas de rotação que controlam pragas naturalmente e recuperam os nutrientes da terra. A ponte direta não apenas distribui o alimento de forma justa, ela altera a própria paisagem agrícola na direção da agrobiodiversidade. O segundo é o Sampa+Rural, programa municipal desenvolvido em São Paulo e reconhecido internacionalmente, que fornece um “Capital Semente” para ajudar na instalação de irrigação ou compra de maquinário agrícola. A iniciativa mantém um mapa atualizado conectando o campo aos coprodutores urbanos. É a mesma lógica dos circuitos curtos, estruturada como política de Estado.

Para incentivar o escoamento, Porpino, da Embrapa, defende que feiras e pontos de venda direta sejam localizados exatamente onde o acesso ao alimento saudável é mais difícil – inclusive no entorno de escolas, que até pouco tempo funcionavam como desertos alimentares repletos de produtos ultraprocessados. Um exemplo prático citado por ele é o programa Sacolão da Família, em Curitiba (PR), que funciona como um varejo social e vende frutas e hortaliças a um preço cerca de 30% inferior ao do mercado tradicional, neutralizando essas zonas de escassez.

MERENDA ESCOLAR A escola é o espaço com a política de escoamento mais robusta da agricultura familiar. O impacto nutricional dessa aproximação é direto: na alimentação escolar, os itens mais comprados do pequeno produtor são justamente frutas, legumes e verduras, categoria que a ciência reconhece como protetora da saúde. 31 | e


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A evolução é expressiva: a participação do setor nas compras do PNAE era de apenas 5% em 2010, atingindo um pico histórico de 37,3% em 2019, antes de sofrer impactos na pandemia. Para

facilitar esse acesso contínuo, os produtores já conseguem fornecer para o programa utilizando apenas o CPF, o que reduz substancialmente a burocracia das licitações tradicionais. O retorno de políticas como essa também é financeiro. Um estudo citado pela pesquisadora da USP revela que cada R$ 1 investido em agricultura familiar traz um retorno econômico de R$ 1,52, valor que ajuda a movimentar e fixar renda nos municípios. “Quando a gente pensa em colocar metas para as compras públicas, parece muitas vezes que é um gasto a mais”, observa Jaqueline, “mas, na verdade, não é um gasto, é um investimento”.

Milho crioulo, cultivado pelo povo Guarani Mbya, na terra indígena Tenondé Porã, localizado na zona Sul da cidade de São Paulo e municípios vizinhos.

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Nilton Fukuda

Para fortalecer esse elo e contornar os desafios logísticos da distribuição em massa, a legislação do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) ampliou a obrigatoriedade de compra do setor, que até então tinha o piso de 30%. A partir de 2026, a meta salta para 45% dos recursos federais destinados à merenda, priorizando comunidades tradicionais e grupos liderados por mulheres, conforme destaca Jaqueline.


para ver no sesc / alimentação

POMPEIA

Abertura: Cozinhar como prática de cuidado, autonomia e transformação Com Bela Gil e Tia Nice (do projeto Organicamente Rango), e mediação de Camila Spolon. Dia 15/10, às 19h. PINHEIROS

Biodiversidade, cultura alimentar e pães com ingredientes brasileiros

Programação é inspirada no Guia Alimentar para a População Brasileira, e ocorre em 43 unidades do Sesc no estado.

Laura Aidar

CELEBRAR A COMIDA

A pesquisadora Neide Rigo apresenta a riqueza dos ingredientes amazônicos e da biodiversidade brasileira numa conversa sobre cultura alimentar, seguida pela degustação de pães preparados com frutas e insumos típicos da Amazônia. Dia 17/10, às 15h. BELENZINHO

Sabores da Ancestralidade

Projeto Experimenta! convida o público a refletir sobre os múltiplos caminhos que conectam alimentação, saúde, cultura e meio ambiente

Oficina com o chef Eudes Assis, utilizando ingredientes nativos da Mata Atlântica e do litoral paulista: cambuci, uvaia, taioba, pinhão e peixes da costa. Dia 21/10, às 18h.

De 15 a 24/10, o Sesc São Paulo realiza a 10ª edição do Experimenta! Comida, Saúde e Cultura, iniciativa que convida o público a refletir sobre a alimentação para além do prato, reconhecendo suas múltiplas relações com a saúde, a cultura, os territórios, os modos de vida, o meio ambiente e os sistemas alimentares. Com ações em todas as unidades da capital, Grande São Paulo, interior e litoral, a programação reúne mais de 100 atividades gratuitas, entre oficinas, palestras, vivências, intervenções artísticas e feiras agroecológicas.

FRANCA

Inspiradas nos princípios do Guia Alimentar para a População Brasileira, as atividades promovem o acesso a informações qualificadas e experiências práticas que fortalecem

a autonomia para escolhas alimentares mais conscientes, saudáveis e sustentáveis, contribuindo para a promoção da saúde das pessoas e do planeta. A programação se organiza em sete eixos temáticos: Comer é Cultura; A Saúde Está na Mesa; Diversidade no Prato – Sabores da Natureza; Aqui se Planta, Aqui se Come; Se Está na Época, Tem na Feira; Cozinhar é Preciso e Conexão Comida. Juntos, eles expressam os princípios que orientam o projeto ao valorizar saberes e práticas relacionadas à alimentação saudável e culturalmente referenciada, fortalecer as conexões entre produção, territórios e modos de vida e promover o direito humano à alimentação adequada.

Agricultura familiar, mulheres e direito ao alimento Roda de conversa com as agricultoras Angélica Facirolli, Almerinda Maria dos Reis, Flavia Manoel da Silva e Laura Rosella, seguida de degustação de preparações com ingredientes da agricultura familiar. Dia 21/10, às 19h. RIBEIRÃO PRETO

Sistemas alimentares e alimentação sustentável: do conceito à ação Com a nutricionista Jennifer Tanaka, pesquisadora da Università di Catania. Dia 23/10, às 19h. Programação completa e inscrições em sescsp.org.br/experimenta 33 | e


bio

inteira

ATÉ O FIM

Nana Caymmi entregou-se à música com profundidade e sem fazer concessões POR LÍGIA SCALISE

N

o fim de uma noite em que sua voz atravessou o teatro como um vendaval — grave, densa, sem esperar permissão —, Nana Caymmi (1941-2025) saiu do palco e anunciou que não receberia no camarim. “Disseram que era gentileza abrir a porta, cumprimentar os amigos, os jornalistas, os fãs”, lembra Danilo Caymmi, irmão e parceiro musical de uma vida inteira. “Ela respondeu: ‘Não. Hoje eu não recebo ninguém.’”

com Dorival, valia o mesmo princípio: ali ele era apenas pai e marido. O peso do sobrenome viria depois. Crescer ali significava ouvir jazz, ópera, bolero e samba-canção, além de absorver rigor e sensibilidade, como quem aprende uma segunda língua. Significava também aprender a existir à própria maneira. Os três filhos — Nana, Dori e Danilo — herdaram a música, mas construíram trajetórias próprias. Desde cedo, Nana entendeu que, para existir como queria, teria de contrariar expectativas.

A cena poderia soar áspera. Mas era simplesmente Nana. “Ela sempre foi uma mulher dona das próprias rédeas”, diz Denise, filha e produtora por mais de 30 anos. “Ela fazia o que queria, como queria, quando queria. Se você cutucasse, o cavalo empinava.”

Ainda adolescente, foi levada pelo pai à televisão para substituir a mãe na gravação de “Acalanto”, composta quando Nana ainda era bebê e que incorpora no refrão a cantiga de ninar da tradição popular “Boi da cara preta”. Anos depois, no documentário Rio sonata (2010), Nana diria com franqueza: “Nunca me imaginei famosa, porque tinha preguiça”.

DONA DE SEUS QUERERES Primeira filha de Dorival Caymmi (1914-2008) e da cantora Stella Maris (1922-2008), Nana nasceu em 29 de abril de 1941, no Rio de Janeiro. Cresceu em uma casa onde a música era idioma, mas nunca concessão. “Lá fora, você é Nana. Aqui você é Dinahir”, dizia a mãe, referindo-se ao nome de batismo da filha e marcando a fronteira entre palco e intimidade. Dentro de casa,

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E sem pedir licença, foi viver a vida como quis. Aos 16 anos, casou-se com o médico venezuelano Gilberto José Aponte Paoli e viveu fora do Brasil entre 1961 e 1965. Teve duas filhas, Stella Teresa e Denise Maria, e voltou grávida do caçula, João Gilberto, em 1966, decidida a recomeçar. Mulher separada, naquele momento, era quase uma afronta. Não pediu autorização nem ao pai, nem à sociedade. Vieram sete anos de silêncio e tensão


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Isabel Delia


bio

familiar. “Era outra época com portas muito mais fechadas”, lembra a sobrinha Alice Caymmi. “Minha tia foi muito forte. Hoje eu sei disso. E com ela aprendi que coragem nunca faltou; prudência, talvez, mas coragem, nunca.” Com filhos pequenos, ainda amamentando nos bastidores, Nana venceu o I Festival Internacional da Canção, em 1966, defendendo “Saveiros”, de Dori Caymmi e Nelson Motta. Ali, não foi apenas sua consagração artística, mas também a decisão de que viveria do próprio talento. “Me conscientizei de que a música ia me dar dinheiro para criar meus três filhos e que, em casa, homem não tinha vez”, disse.

SEM MODISMOS Se Nana enfrentou desafios ao se posicionar na vida pessoal, no mercado fonográfico resistiu da mesma maneira. Não aceitava repertório imposto, não moldava o canto para caber à moda, não se deixava enquadrar. “Ela nunca quis ser cantora de bossa nova ou de tropicália.

Acervo Família Caymmi

Depois, viveu outras relações marcantes. Casou-se com João Donato (1934-2023) e com Cláudio Nucci

e teve, com Gilberto Gil, uma união que ela sempre considerou um casamento — com ou sem papel passado. Amou, separou-se, recomeçou, mas nunca permitiu que a opinião alheia definisse seus afetos. “Ela nunca foi o que esperavam de uma mulher da geração dela”, avalia o jornalista e crítico Rodrigo Faour.

Nana divide o estúdio com o pai, Dorival Caymmi, que se orgulhava de ver os filhos seguindo carreira na música.

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Cantava o que sentia que precisava cantar”, resume Dori. “Nana não tinha preocupação com sucesso; tinha preocupação com a verdade dela”, afirma o irmão. Em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, em 1993, falou das pressões das gravadoras com ironia: “Se todo produtor que entrasse no estúdio eu fosse fazer o que ele queria, eu não teria a crítica especializada me enaltecendo tanto. Entrar no modismo? Não. Estou fora! Eu sou quem eu sou.” Ao longo de mais de seis décadas e de cerca de 25 álbuns, construiu uma obra coerente e inegociável. Nana Caymmi (1975), Renascer (1976), Voz e suor (1983), Bolero (1993), Resposta ao tempo (1998) — vencedor do Prêmio Sharp — consolidaram sua posição como uma das maiores intérpretes do país. Gravou Tom Jobim (1927-1994), Vinicius de Moraes (1913-1980), Milton Nascimento, Chico Buarque, Aldir Blanc (1946-2020), Cristóvão Bastos, além de inúmeras composições de Dori e Danilo Caymmi. Havia generosidade nesse gesto. “Ela sempre fez questão de lançar compositores desconhecidos e gravar as nossas composições”, dizem os irmãos. “E, quando a gravadora dizia ’isso não vende’, respondia: ’Então não vende. Mas é isso que eu vou gravar’”, conta Denise. Danilo afirma que Nana escolhia a música pela densidade da letra e da melodia. E, ao gravar, deixava uma marca irreversível. “Ela tinha uma força que vinha de dentro, uma tomada de ar única que mudava o sentido da música inteira. Nunca foi formação técnica; era puro talento e intuição. Ela sentia, cantava e transformava. E nunca imitou ninguém.”

FENÔMENO POPULAR Nos anos 1980 e 1990, a voz sofisticada ultrapassou o circuito dos teatros e entrou de vez nos lares brasileiros. Em 1982, “Se queres saber” tornou-se tema da minissérie de televisão Quem ama não mata. Em 1998, “Resposta ao tempo” embalou Hilda Furacão e lhe rendeu seu primeiro e único disco de ouro. No ano seguinte, “Suave veneno” marcou a telenovela das nove de mesmo nome. Em 2000, Sangre de mi alma levou boleros às trilhas de Laços de família. Nos anos 2000, revisitou a obra do pai em álbuns como O mar e o tempo (2002), Para Caymmi — 90 anos — De Nana, Dori e Danilo (2004), Quem inventou o amor (2007) e Caymmi (2013). Dori recorda a emoção de ver o pai feliz ao perceber que os três filhos haviam seguido na música. “Para ele, foi uma terapia; para nós, uma emoção.” Seus últimos álbuns foram Nana Caymmi canta Tito Madi (2019) e Nana, Tom, Vinicius (2020). “A qualidade de voz permaneceu intensa até o fim”, diz Mauro Ferreira, colunista e crítico musical do G1. “Era como se os sentimentos escorressem pela voz. Essa sempre foi sua marca.”

O PREÇO DE SER NANA “Vocês vieram aqui para me ouvir cantar ou para eu ser simpática?”, respondeu certa vez a um jornalista que a acusava de pouca gentileza com o público. O olhar direto, a voz firme e uma certa soberania silenciosa causavam desconforto. Produtores a consideravam difícil. Jornalistas a classificavam como temperamental. Quem convivia sabia:

Toda vez que eu existo como cantora, é uma homenagem à existência dela. Alice Caymmi, sobrinha de Nana Caymmi

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bio

Entrar no modismo? Não. Estou fora! Eu sou quem eu sou. Nana Caymmi

se gostasse, defendia; se não gostasse, dizia. E dizia alto. Mas se podia ser dura, era também leal e protetora com os seus. Dori recorda a infância no Jardim Botânico, quando a irmã saiu correndo com uma vassoura atrás de um garoto que o ameaçara. “Ela sempre defendeu a gente.” Danilo confirma: “Era irmãzona.” Denise diz que o afeto nem sempre vinha em abraços, mas sim na presença. “Lembro-me de uma fase difícil, em que eu estava sem dinheiro, com uma filha de dois meses nos braços, e minha mãe aparecia em casa para passar a fralda de pano. A nossa relação sempre foi assim: brigamos muito e nos amamos muito. Não foi fácil ser filha de Nana, mas sei que ela foi a melhor mãe, avó e bisavó que podia ser.”

LEGADO Nos anos finais, declarações polêmicas acabaram por eclipsar parte da obra da artista nas manchetes. Dori lamenta que, por vezes, a irmã tenha sido reduzida a ruídos e mal interpretada por causa de frases atravessadas. Danilo e Alice concordam: Nana era muito maior do que a imagem construída a partir de sua língua sem freio. Quem a conhecia de perto sabe disso. Sua última apresentação foi em 2015, em um show em São Paulo. A saúde, já fragilizada, a afastou dos palcos. “Com 50 anos de carreira, posso dizer que fiz um trabalho tão bom que já posso parar”, declarou em Rio sonata. Falava do desejo de recolhimento: “Quero ficar no meu sítio vendo o abacate abacatar, sabe? Eu não vivo sem música, mas, em algum momento, quero que o silêncio faça música.”

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Apesar desse desejo de silêncio, na última entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, quando completou 80 anos, manifestou vontade de continuar gravando. Queria registrar as parcerias do irmão Dori com Nelson Motta. Também desejava cantar Milton Nascimento, um de seus grandes amigos, e Beto Guedes. “Se eu não gravei, são inéditas para mim”, disse — frase que revelava uma inquietação permanente. Nos últimos anos, queixava-se da escassez de novos compositores que lhe oferecessem repertório à altura do que buscava. Vieram as internações e os problemas cardíacos. “Foi tudo muito doloroso, nove meses de hospital”, diz Dori. Aos 84 anos, Nana Caymmi morreu no Rio de Janeiro, em 1º de maio de 2025. Para além de qualquer ruído, permanece a obra. Ao ouvir Nana Caymmi, nota-se a respiração longa, o domínio do tempo, o fraseado que estica a emoção até quase romper. Há cantoras técnicas. Há cantoras carismáticas. E há Nana Caymmi, uma das grandes intérpretes do país, que cantou o que quis, gravou o que acreditava e desagradou quando foi preciso. Para Rodrigo Faour, o legado é claro: “subversão, resistência e coerência artística”. Mauro Ferreira o define como “imenso, com uma discografia impecável até o último álbum”. Para Denise, a mãe provou que “personalidade não se negocia”. Dori resume a vida da irmã em três palavras: “música, música e música”. Alice vê na própria trajetória uma continuidade: “Toda vez que eu existo como cantora, é uma homenagem à existência dela”. E, para Danilo, ficam a saudade e a convicção de que “o Brasil ainda vai compreender o que Nana Caymmi fez pela música”.


para ver no sesc / bio

PARCERIA MARCANTE Álbum do Selo Sesc reúne talentos de Nana Caymmi, Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Sesc Memórias

Lançado pelo Selo Sesc em 2020, o álbum Nana Tom Vinicius apresenta Nana Caymmi cantando Tom Jobim (1927-1994) e Vinicius de Moraes (1913-1980), e celebra uma das parcerias mais marcantes da música popular brasileira. Com

direção artística, violão e arranjos de Dori Caymmi, o trabalho apresenta releituras de clássicos como “Eu sei que vou te amar” e “Canção do amor demais”, além de “Valsa de Eurídice”, de Vinicius, e “As praias desertas”, de Tom. Indicado ao 22º Grammy Latino na categoria Álbum do Ano, o trabalho marcou o retorno de Nana aos estúdios para projetos solo após uma década. O encontro entre a interpretação singular da cantora e os arranjos de Dori valoriza a delicadeza, a sofisticação e a permanência de um repertório fundamental da música brasileira. Para ampliar a dimensão do projeto, as cordas foram gravadas

pela Orquestra de Saint-Petersburg, na Rússia. A edição em vinil, com capa gatefold (que remete ao formato de um livro), reproduz o repertório do álbum digital e do CD e inclui encarte com as letras das canções e textos do Diretor Regional do Sesc São Paulo, Luiz Deoclecio Massaro Galina, além do músico Dori Caymmi e do compositor Hermínio Bello de Carvalho.

SELO SESC

Álbum Nana Tom Vinicius (2020) Nana Caymmi canta Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Disponível nas plataformas de áudio.

Clássicos da MPB, como "Eu sei que vou te amar", ganharam versão na voz de Nana Caymmi e arranjo de seu irmão, Dori.

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gráfica

BERÇO DE Celeiro de grandes atores e atrizes do país desde a década de 1940, Teatro Brasileiro de Comédia ajudou a profissionalizar as artes cênicas em São Paulo POR VANESSA D’AMARO

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GIGANTES Acervo Klaus Werner

Fachada do TBC, que viveu seu auge na metade do século passado: em sua programação passaram montagens de clássicos internacionais e grandes autores brasileiros.

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Célia Biar e Cacilda Becker, em cena de Inimigos íntimos (1952).

A estreia contou com um espetáculo em francês: um monólogo de Jean Cocteau (1889-1963), dirigido e interpretado pela atriz francesa Henriette Morineau (1908-1990). Na sequência, a peça A mulher do próximo, de Abílio Pereira de Almeida (1906-1977), trazia o Grupo de Teatro Experimental com a atriz Cacilda Becker (1921-1969).

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A criação desse espaço nasceu de uma paixão do italiano Franco Zampari (1898-1966). Ele havia chegado ao país em 1922, a convite do amigo Francisco “Ciccillo” Matarazzo (1898-1977), para trabalhar na Metalúrgica Matarazzo. Notou logo que, embora houvesse espaços em São Paulo, a maioria dos teatros estava convertida em cinema. Os endereços para espetáculos se resumiam a três: Teatro Boa Vista, Teatro Santana e Theatro Municipal. “Existiam grupos profissionais de teatro importantes, como Os Comediantes, por exemplo, que encenaram Vestido de noiva (1943), de Nelson Rodrigues (1912-1980), no Rio de Janeiro. Em São Paulo, não havia nada disso. Tínhamos poucos grupos profissionais e amadores”, explica Alvaro Machado, crítico, pesquisador de teatro e organizador do livro lançado neste mês pelas Edições Sesc São Paulo (leia mais em História documentada).

Fredi Kleemann

N

a rua Major Diogo, no Bixiga, um antigo casarão de arquitetura eclética do início do século 20 guarda um dos grandes capítulos das artes cênicas brasileiras. Na noite de 11 de outubro de 1948 era inaugurado o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), com “grã-finos de paletó e madames de salto alto, exalando perfume francês”, como descreve Alessandra Vannucci no livro Teatro Brasileiro de Comédia: oito décadas de história (Edições Sesc, 2026). A partir dessa data, o local se tornaria a sede de uma das mais importantes companhias do Brasil.


gráfica

Foi nesse cenário que Zampari passou a defender que a cidade precisava de um espaço moderno, com peças profissionais aos moldes europeus, para impulsionar as artes. A ideia ressoou entre seus amigos, e ele conseguiu reunir alguns deles, como o empresário Paulo Assumpção, na criação da Sociedade Brasileira de Comédia. Por indicação de Hélio Pereira de Queiroz, membro do Grupo de Teatro Experimental, foi conhecer o casarão no Bixiga – uma área de trabalhadores, imigrantes e ex-escravizados próxima ao centro – e decidiu instalar ali seu teatro. Engenheiro de formação, Zampari assumiu a obra e teve a colaboração do cenógrafo italiano Aldo Calvo (1906-1991), que havia trabalhado no Teatro alla Scala, de Milão (Itália), e orientou tecnicamente os trabalhos para garantir visibilidade e acústica. Assim, o casarão ganhou um teatro de 365 lugares, área técnica, espaços administrativos e salas de ensaio. Essa modernização, no entanto, não se restringiria ao espaço físico. Uma das principais ideias de Zampari foi eleger um diretor artístico que coordenasse a programação. O escolhido, o diretor Adolfo Celi (1922-1986), aportou em São Paulo em 1949 e, posteriormente, trouxe outros colegas europeus. “Adolfo Celi talvez tenha sido o mais completo artista de palco. Ele tinha um pensamento mais amplo na direção de seus espetáculos. Franco Zampari percebeu isso e deu a ele o cargo de diretor artístico”, conta Machado. Sob seu comando, o repertório do TBC combinou autores nacionais e estrangeiros – com muitos clássicos internacionais de Jean-Paul Sartre (19051980), Tennessee Williams (1911-1983), Luigi Pirandello (1867-1936) e William Shakespeare (1564-1616). “Há um estigma de que o TBC privilegiava autores estrangeiros, assuntos e temas burgueses. Não é verdade. Quando catalogamos, vemos que há muitas peças nacionais como a própria peça de estreia, de Abílio Pereira de Almeida. O TBC trazia essa multiplicidade de vozes”, afirma Machado. Foi na montagem de estreia que Cacilda Becker começou sua trajetória no TBC. Ela foi a primeira

atriz profissional contratada pela companhia e protagonizou inúmeras montagens, incluindo Antígone, de Sófocles e também a versão de Jean Anouilh (1910-1987), e A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas (1802-1870). Saiu apenas em 1955, quando fundou sua própria companhia. A trajetória de Cacilda fazia parte de uma transformação maior no modo de produzir teatro. O TBC consolidou o conceito de teatro de equipe e, conforme avançava nas produções, mais atores profissionais se uniam à companhia, que contou com nomes célebres como Paulo Autran (1922-2007), Sérgio Cardoso (1925-1972), Cleyde Yáconis (1923-2013), Tônia Carrero (1922-2018), Fernando Torres (1927-2008), Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Esse movimento de conjugar profissionais de alto nível em produções complexas contribuiu para a profissionalização de toda a categoria. Nessa lógica, além da alta qualidade dos espetáculos, atores e técnicos, por exemplo, recebiam salário fixo, algo até então inédito na carreira. O modelo também se refletia no ritmo de produção: havia peças praticamente todos os dias. Tudo, porém, dependia do mecenato de Zampari. No começo da década de 1950, o dinheiro começou a faltar. O empresário também havia criado a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, que acabou deficitária e contribuiu para a crise financeira do TBC e seu afastamento da administração da casa, em 1954. A saída de Zampari marcou uma fase difícil, com o espaço sendo alugado a variadas companhias. Tombado pelo Condephaat em 1982, o imóvel foi adquirido em 2008 pela Funarte, que iniciou os estudos de restauro em 2011, sob a gestão de Sergio Mamberti (1939-2021). Diante do debate sobre seu destino, a mobilização popular evitou a privatização. “Lutou-se para que o TBC continuasse como equipamento público”, lembra Machado. Atendido o apelo, o prédio foi incorporado ao Sesc, que deve abrir uma nova unidade no local até 2030. 43 | e


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Fredi Kleemann


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Acima: Cartaz de montagem idealizada pelo Teatro Oficina, do diretor José Celso Martinez Corrêa (1937-2023), apresentada no TBC em 1966. À esquerda: Nydia Licia e Cacilda Becker na peça Entre quatro paredes (1950).

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Acima: Trupe do Grupo Universitário de Teatro (GUT), que também se apresentava no TBC. À direita: Cacilda Becker e Maurício Barroso em O anjo de pedra (1950).

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Acervo Daniel Marano

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Fredi Kleemann

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Acervo Alvaro Machado

Acima: Alunos da Universidade Antropófaga (Teatro Oficina) na frente do TBC, em homenagem à atriz Cacilda Becker. À direita: Ruth de Souza em Vereda da salvação (1964).


Klaus Werner

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Acima: Vista do Vale do Saracura no início do século 20: a região entre o Bixiga e a Bela Vista, no centro de São Paulo, onde está até hoje o prédio do TBC. Ao lado: ilustração da fachada do TBC.

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Vincenzo Pastore - IMS

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para ver no sesc / gráfica

HISTÓRIA DOCUMENTADA Livro das Edições Sesc resgata trajetória e importância do TBC Publicado pelas Edições Sesc São Paulo, o livro Teatro Brasileiro de Comédia: oito décadas de história reúne pesquisadores, professores de artes cênicas, dramaturgos, artistas e arquitetos para resgatar a trajetória do espaço que abrigou, no bairro paulistano do Bixiga, uma das companhias mais inovadoras da história cultural brasileira.

Elizabeth Azevedo resgata a história do teatro e o “desejo do moderno, do novo” nas elites paulistanas do pós-Segunda Guerra. Vannucci aborda a presença dos artistas estrangeiros, principalmente italianos, e recupera a trajetória do fotógrafo Fredi Kleemann (1927-1974), cuja obra ilustra toda a publicação. Lígia Cortez, filha de Raul Cortez (1932-2006) e de Célia Helena (1936-1997), que integraram o TBC, discute a contribuição das técnicas e práticas interpretativas desenvolvidas pelo elenco para o trabalho de palco

Machado, por sua vez, traça um panorama de todos os espetáculos de teatro, dança e performance que ocorreram no edifício após o fim definitivo do TBC, cobrindo um período que vai de 1965 até os dias atuais, quando o edifício foi cedido ao Sesc São Paulo para reforma e futura criação de uma nova unidade. O evento de lançamento do livro será em 28/10, quarta-feira, às 19h, no Sesc 14 Bis.

EDIÇÕES SESC SÃO PAULO

Teatro Brasileiro de Comédia: oito décadas de história Organização de Alvaro Machado. 2026, 344 páginas.

Acervo Célia Gouvêa e Maurice Vaneau

Organizada por Alvaro Machado, doutor em Teatro pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), a publicação reúne ensaios de Nadia Somekh e José Geraldo Simões Júnior, Elizabeth Azevedo, Alessandra Vannucci, Lígia Cortez, Ricardo Cardoso, Johana

Albuquerque e Nabil Bonduki e José Cetra Filho. Cada autor aborda o TBC sob uma perspectiva diferente.

contemporâneo. O livro também retrata a importância do TBC para a história do Bixiga nos textos de Nadia Somekh, José Geraldo Simões Júnior e Nabil Bonduki.

Mauro Stávale e Mazé Crescenti no balé Limites (1979), criado por Célia Gouvêa.

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14 a 18 de outubro de 2026 Um convite para ouvir, aprender, sentir e fazer música de forma descomplicada e divertida com toda a família. Shows, oficinas, vivências, instalações e bate-papos para quem deseja ter contato com a música em suas diversas formas. Nas unidades do Sesc Consolação Guarulhos Jundiaí Santos Vila Mariana

sescsp.org.br/vem


desenhar

LIVROS

Editores, designers, produtores gráficos e ilustradores discutem o panorama do design editorial brasileiro e sua importância na experiência de leitura de um livro POR VANESSA D’AMARO

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conteúdo define a forma ou é a forma que define o conteúdo? A pergunta que guiou o artista gráfico, autor e pesquisador Gustavo Piqueira na criação de Bibi (Lote 42, 2019) provoca uma reflexão sobre as possibilidades da narrativa impressa e a maneira como os livros são concebidos no mercado editorial. Inspirado pela leitura do clássico de Italo Calvino (1923-1985), Se um viajante numa noite de inverno – que explora os limites do romance –, Piqueira resolveu brincar com as regras de cada formato, mudando radicalmente o projeto gráfico a cada caderno de impressão de 16 páginas.

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A história do protagonista Fabiano, o Bibi, transita por diferentes gêneros e variados tipos de papel. Começa como livro infantil, passa por um livro ilustrado para adultos, assume a forma de um texto tradicional, vira fotonovela, “livro de artista” e termina com o que Piqueira chamou de “uma tipografia expressiva”. Ao fazer isso, o autor questiona as convenções dos formatos, que deixam de ser apenas classificações editoriais e passam a participar da própria narrativa. “Eu queria tratar das categorias que a indústria criou para os livros. Então, tudo vai mudando: projeto gráfico, gênero,

papel, cores. O resultado é que o leitor é convidado a se relacionar com Bibi de maneiras diferentes ao longo das páginas”, afirma. Esse tipo de projeto pode parecer impraticável em editoras grandes – já que envolve, além do custo financeiro, estudos de viabilidade de impressão. Em um país em que o mercado editorial enfrenta dificuldades de escala – a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, por exemplo, revelou que 53% da população não leu nenhum livro nos três meses anteriores ao estudo –, iniciativas desse tipo costumam


No metalinguístico O livro de fazer livros (Lote 42, 2024), a autora Cecilia Arbolave explora o mundo da produção gráfica nas publicações editoriais.

encontrar espaço principalmente em editoras pequenas ou independentes, que trabalham com tiragens menores e, portanto, conseguem experimentar mais. Esse movimento, no entanto, é relativamente recente na tradição editorial brasileira. A palavra escrita costuma ocupar o centro da narrativa, enquanto o projeto gráfico muitas vezes aparece como elemento complementar – uma relação que vem sendo ampliada por designers, ilustradores e autores ao explorar outras formas de criar a experiência de leitura.

Cecilia Arbolave

“No Brasil, o livro sempre foi – e, em grande medida, continua sendo – o território do verbo. É difícil pensar em livros em que o design fale com essa mesma força. Posso me lembrar de grandes capistas que marcaram época, como Eugênio Hirsch (1923-2001), mas o miolo do livro raramente teve esse protagonismo visual”, afirma o designer e pesquisador Chico Homem de Melo. Para ele, a produção gráfica mais arrojada concentrou-se nas revistas impressas. Dos periódicos de sátira política do fim do século 19 aos títulos modernistas como a

Klaxon, passando por revistas de variedades das décadas de 1940 a 1960, como O Cruzeiro, Senhor e Realidade, essas publicações abriram espaço para chargistas, cartunistas, ilustradores e, mais tarde, fotojornalistas. Embora movimentos estéticos e artísticos tenham inspirado o design gráfico brasileiro, nunca houve a consolidação de uma linguagem predominante ou de uma escola estética expressiva aos moldes, por exemplo, do construtivismo russo do século 20. Por aqui, a influência de produções estrangeiras se uniu ao trabalho de artistas e ilustradores que desenvolveram propostas autorais. Já a experimentação gráfica, mais comum em produtos efêmeros e de ampla circulação, demorou a chegar aos livros – com exceção dos títulos infantis, que tradicionalmente integram design, ilustração e texto. Chico Homem de Melo cita alguns marcos dessa trajetória voltada às crianças: Histórias de bonecos (década de 1920), de Benjamin Costallat (1897-1961), com ilustrações de Jefferson; O circo (1939), de Tomás Santa Rosa (1909-1956); e Flicts (1969), de Ziraldo (1932-2024).

GRANDES EDITORAS A partir da década de 1980, o design editorial brasileiro ganhou novos horizontes com avanços tecnológicos que facilitaram os processos de trabalho. “O primeiro grande impacto e mudança editorial no Brasil, a meu ver, ocorreu com a Companhia das Letras nos anos 1980 e 1990, transformando a concepção visual dos livros, a começar pelas capas”, comenta Chico Homem de Melo. Ao fundar a editora, Luiz Schwarcz e sua equipe de arte estabeleceram um novo padrão com projetos que exploravam a tipografia e construíam uma identidade visual capaz de dialogar com o conteúdo das obras. Segundo Alceu Nunes, diretor de arte da Companhia das Letras, a criação de capas sempre foi tratada como o início da experiência de leitura. “Reunimos um catálogo amplo, organizado em diversos selos. Cada selo possui uma personalidade própria, construída de forma consistente ao longo do tempo. Cada capa é desenvolvida para dialogar com essa identidade e com a singularidade de cada obra. Há um esforço permanente para 55 | e


literatura

revelar designers, ilustradores e artistas, ao mesmo tempo em que valorizamos nomes já consagrados do design brasileiro”, comenta. Outro momento decisivo veio em 1996, com a fundação da Cosac Naify, por Charles Cosac e Michael Naify. Colecionador e estudioso de arte, Charles deixou a Inglaterra, onde cursava doutorado, para voltar ao Brasil e editar o primeiro livro da casa, Barroco de Lírios (1997), sobre o artista plástico Tunga (1952-2016). Considerada até hoje um marco do design editorial brasileiro, a obra reunia a produção contemporânea do artista e trazia, no miolo do livro, papéis, recortes e soluções inéditas para a época. Planejada com cuidado e impressa em gráficas italianas, provocou um furor no mercado que, na avaliação de Chico Homem de Melo, “ainda está para ser igualado”. “O Tunga me deu aquilo de presente. Até hoje é o livro

mais lindo – ele é insuperável, anacrônico, impressiona e não ficou datado. Na época, minha irmã [Simone Cosac Naify] cursava mestrado em Belas Artes e fazia o acompanhamento nas gráficas. O livro tinha todos os efeitos possíveis, todas as cores possíveis, tinha encarte... Mudava o papel! Era muito complicado, sobretudo para marinheiros de primeira viagem”, relembra Charles. Depois da estreia, a Cosac publicou outros três títulos igualmente desafiadores: O silêncio (1997), de Miguel Rio Branco; A antropologia da face gloriosa (1998), de Arthur Omar; e, em 2003, a reedição de um livro sobre a obra do escultor Amilcar de Castro (1920-2002), organizada pelo crítico Alberto Tassinari. Apesar da sofisticação visual dessas publicações, Charles diz que só compreendeu plenamente o design editorial quando começou

a trabalhar com diretores de arte como Raul Loureiro, que hoje integra a sua nova editora, a Cosac – inaugurada em 2024 justamente com um novo livro dedicado à trajetória de Tunga. “Eu já colecionava e comprava livros de arte e monografias, observava que havia livros mais atraentes e menos atraentes, mas não era tão ligado ao design de livro. Via os primeiros projetos como pontos independentes que não se comunicavam. Quando o Raul trouxe o primeiro catálogo e vi a beleza do que ele fez, foi ali que o design nasceu para mim”, recorda. No início dos anos 2000, a Cosac Naify ampliou a sua atuação. Dos livros de arte, passou a editar literatura, ciências humanas e infantojuvenis sob a direção editorial de Augusto Massi. Para Raul Loureiro, a liberdade para pensar e experimentar, sempre de forma coletiva, diferenciava o processo de criação e acabou inspirando toda uma geração de novos autores e designers. “Algo muito importante que a gente fez na Cosac foi a questão da tipografia e do desenho da mancha gráfica no livro: pensar em como dar a melhor leitura possível. Isso era algo que não existia muito no Brasil até então. A partir daquele momento, criou-se essa cultura de olhar não só para a capa como elemento de inovação, mas para o livro como um todo”, reflete Loureiro.

Detalhe de Era preciso estar em sintonia com seu tempo (Lote 42, 2024), publicado pelo autor e designer Gustavo Piqueira.

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Essa mudança de olhar foi aos poucos abrindo caminho para projetos autorais em outras editoras que integram texto e projeto gráfico desde a concepção do livro. O autor e ilustrador Daniel Kondo conhece

Casa Rex

ILUSTRANDO A NARRATIVA


literatura

Entre os projetos do escritor e ilustrador Daniel Kondo estão publicações em coautoria com Djavan, Gilberto Gil e Lulu Santos.

Nelson Kon

bem esse processo. Vencedor do Prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil em 2022 por Sonhozzz e selecionado para o BRAW Amazing Bookshelf, que destaca as melhores obras da Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália), ele se define como um designer do “livro-objeto”. Em obras voltadas ao público adulto, Kondo constrói narrativas sensíveis e cheias de poética visual. Nos últimos anos, publicou livros em coautoria com nomes da música brasileira, como Gilberto Gil (Andar com fé e Nós, a gente, ambos lançados em 2023 pela WMF Martins Fontes;

Refazenda e Refloresta, de 2025, pela Elo), Djavan (Açaí + Seca, de 2024, pela WMF Martins Fontes) e Lulu Santos (Traço e verso, de 2020, pela Pancho Sonido). “Tento extrair da canção um elemento narrativo e estabelecer outra camada de leitura. Não é uma mera ‘ilustração’ da música. Digo que é uma tradução intersemiótica paralela do texto para a imagem. É uma gramática visual que cria enigmas completamente decifráveis para quem quiser navegar pela obra”, explica. Em 2025, lançou também o livro infantil autoral Lobo Mau com

dor de dente, pela Carambaia. Brincando com os desenhos e o formato da publicação, o autor propõe que o leitor adentre a história a cada virada de página. “O próprio códice [formato físico da obra] é um elemento narrativo: o livro morde o leitor”, explica.

CAMINHO DA EXPERIMENTAÇÃO Antes de começar uma edição, Cecilia Arbolave faz uma extensa pesquisa sobre processos gráficos. Editora e produtora gráfica da Lote 42, ao lado de João Varella, ela 57 | e


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Cecilia é uma das fundadoras da Feira Miolo(s), que reúne artistas e editoras independentes todos os anos na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Para ela, a evolução do parque gráfico brasileiro nos últimos anos ampliou as possibilidades de editoras pequenas e independentes. “Existe uma exploração do formato porque não temos um compromisso engessado com o padrão tradicional. Acho muito legal essa provocação, porque tira a pessoa da zona de conforto. O leitor descobre que existe um valor na escolha da técnica de

impressão, dos materiais e dos formatos. É uma troca rica”, diz. Na avaliação de Chico Homem de Melo, é justamente na cena independente que hoje surgem algumas das propostas mais originais do design editorial brasileiro. “O que há de mais alentador e oxigenado na cena editorial contemporânea do Brasil está justamente nessas editoras alternativas, presentes em feiras como a Miolo(s). Essa produção marginal está com um vigor e uma potência extraordinários”, afirma. A parceria entre Cecilia, João Varella e Gustavo Piqueira deu origem a alguns dos projetos gráficos mais experimentais da Lote 42. Entre eles estão Era preciso estar em sintonia com o seu tempo (2025), publicado em uma caixa que brinca com a ideia de “livro de decoração”; Bibi (do início desta reportagem); Valfrido? (2016), relato metalinguístico

construído a partir de malas diretas; e Seu Azul (2013), cuja capa recebe aplicação artesanal de areia. A produção, inclusive, anda intensa: só neste ano, já lançaram Warja Lavater: desenho como escrita como desenho e Infantojuvenil. E ainda há mais por vir. Em abril, Gustavo e Cecilia viajaram a Bogotá (Colômbia) para conhecer a região de Ricaurte, considerada o polo das artes gráficas na cidade. O contato com técnicas locais de impressão artesanal e com a cena editorial independente da América Latina – relação que ela, argentina, mantém com muito talento e orgulho – deu origem a Duty Free, previsto para o segundo semestre de 2026 no Brasil. Segundo Gustavo, trata-se do que ele mesmo apelidou de um “livro-invenção”, em que todas as etapas compreendem o processo de “escrita”. Afinal, para ele, nunca é apenas o texto que conta uma história. “Tudo isso também é escrever um livro”.

Com um novo livro reunindo mais de 400 ilustrações de Tunga, Charles Cosac lançou sua nova editora, em 2024, mantendo o apreço pelo impacto visual das obras.

Cosac

é autora de O livro de fazer livros (2024), que percorre as etapas da impressão – da concepção à pós-impressão –, passando pela anatomia de uma publicação, a escolha do papel e os segredos das gráficas. O projeto gráfico do título, assinado por Gustavo Piqueira, também conduz o leitor por esse percurso.


para ver no sesc / literatura

O PAPEL DO DESIGN Publicações das Edições Sesc São Paulo buscam traduzir de forma visual o universo escrito em suas páginas

sem interferir em uma imagem tão significativa? A solução da designer Cristina Gu foi criar uma sobrecapa que funciona como envelope, produzida em papel pergaminato semitransparente. A fotografia permanece visível sob a camada translúcida, enquanto tipografia e logotipo aparecem nesta sobrecapa. Já em O devorador: Zé Celso, vida e arte (2025), organizado pelo jornalista Claudio Leal, o projeto gráfico de Mateus Valadares busca traduzir o universo dramático do artista. O livro reúne ensaios e depoimentos de pesquisadores e artistas convidados, fotografias e textos do dramaturgo José Celso Martinez Corrêa (1937-2023). Com formato ampliado, a publicação trabalha com lombada aparente e duas cores principais, escolha que cria uma linguagem visual própria.

Livros sobre o diretor teatral José Celso Martinez Corrêa e a obra do fotógrafo Eustáquio Neves são exemplos de apuro estético desde a capa ao projeto gráfico.

Edições Sesc São Paulo

Formatos, tipos de papel, texturas, cores e técnicas de impressão. Tudo faz parte da edição de um livro. No catálogo das Edições Sesc São Paulo, composto principalmente por títulos voltados às ciências humanas e às artes, essas escolhas são discutidas desde o início de cada projeto. “Tentamos sempre transmitir a nossa paixão por livros no trabalho de edição: unimos o conteúdo textual e o projeto gráfico para criar a melhor experiência de leitura”, comenta Clivia Ramiro, coordenadora editorial das Edições Sesc São Paulo. Na concepção dos livros, editores, autores, designers, ilustradores, fotógrafos e produtores gráficos costumam trabalhar em conjunto. “O projeto gráfico é sempre pensado de maneira coletiva

e em diálogo com o autor e as necessidades de cada obra. Cada projeto é único”, conta o coordenador de produção gráfica Fabio Pagliuca Pinotti. Na prática, vários títulos se aproximam da categoria de livro-objeto, proporcionando uma experiência de leitura ao mesmo tempo sensorial e material. É o que acontece em Vestígios da floresta: povos indígenas refugiados da Amazônia (2024), de Daniel Cangussu. O desafio não foi apenas transformar uma dissertação de mestrado em uma publicação de não ficção, mas também trabalhar com uma fotografia de Sebastião Salgado (1944-2025) – uma obra de arte por si só – na capa. Como inserir título, nome do autor e identidade visual do selo editorial

Outro exemplo mais recente é Outros Navios: Eustáquio Neves (2026), organizado por Eder Chiodetto. O desafio para o design do livro foi encontrar uma forma de apresentar a produção experimental e autoral de um ícone da fotografia contemporânea. Neves manipula suas imagens com pintura, recorte, colagem, desgaste e processos químicos, criando obras sobrepostas e fragmentadas que abordam memória, identidade, ancestralidade e resistência. O projeto gráfico de Rafael Simões precisava, portanto, valorizar essa iconografia ao organizar séries fotográficas, ensaios, textos, entrevistas e cronologia em diferentes camadas de leitura. Foi nesse encontro entre arte, design e produção gráfica que o livro se tornou um manifesto visual e material da obra do autor. Acesse o catálogo das Edições Sesc São Paulo em sescsp.org.br/edicoes 59 | e


TURISMO E TERRITÓRIOS


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ensar a relação entre turismo e territórios exige superar a visão tradicional que enxerga um destino turístico apenas como um itinerário de atrações ou um produto destinado ao consumo de viajantes. Diante dos desafios socioambientais atuais e da necessidade de redefinir modelos econômicos, é preciso reconhecer que os locais visitados são, essencialmente, espaços constituídos por pessoas, memórias, identidades, modos de vida e saberes próprios. Sob essa perspectiva, o território deixa de ser um cenário de passagem e assume o papel de sujeito, garantindo às comunidades o direito de gerir seu espaço, decidir quais histórias compartilhar e definir seus próprios limites. A viagem, então, pode ganhar um caráter educativo e transformador, pautado pelo aprendizado contínuo, pelo respeito e pela escuta atenta das realidades locais.

Ilustração Rafael Sica

“Quando uma comunidade conta sua própria história, apresenta seus lugares de memória, compartilha seus saberes, sua gastronomia, seus ofícios, suas festas e suas formas de se relacionar com a natureza, ela torna visíveis conhecimentos e pessoas, fortalece vínculos e cria possibilidades para que esses saberes continuem vivos”, analisa a professora Andrea Rabinovici.

“A memória social pode, assim, funcionar como uma tecnologia social, ou seja, como conhecimento e prática construídos coletivamente, capaz de gerar renda, autoestima, desenvolvimento e pertencimento”. É a partir do entendimento da localidade como sujeito ativo que a pesquisadora Cláudia Fernanda Balthazar dos Santos destaca a necessidade de inverter a hierarquia tradicional entre a atividade turística e o modo de vida local. “Há uma diferença substantiva entre desenvolver turismo no território e desenvolvê-lo com o território. Nem todo lugar precisa receber mais visitantes, nem toda manifestação cultural precisa tornar-se atração. O direito de receber inclui o direito de decidir como receber e aquilo que deve permanecer fora do turismo. Não são as comunidades que precisam encontrar seu lugar dentro de um turismo previamente organizado, é o turismo que precisa encontrar seu lugar dentro da vida do território”. Neste Em Pauta, Andrea e Cláudia nos convidam a questionar o verdadeiro significado do que é promover o desenvolvimento por meio do turismo. As autoras discutem como a atividade pode se afastar do modelo puramente mercantilista ao incorporar práticas éticas e inclusivas, como o turismo social e o turismo de base comunitária.

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Desenvolver territórios via turismo: o que isso quer dizer? POR ANDREA RABINOVICI

“O território não é um lugar onde a gente mora, o território é um lugar onde a gente é.” Nêgo Bispo (1959-2023)

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Territórios são lugares onde há pessoas, animais, montanhas, rios, espíritos, memórias, sentimentos e narrativas. Há também concepções de mundo, de desenvolvimento e de bem-viver próprias. É justamente isso que vai atrair turistas a conhecê-los, produzindo efeitos de todos os tipos. O turismo, qualquer que seja a modalidade, é uma atividade com muitas facetas e intenções. Realizado com mais ou menos planejamento e cuidado, contribui para transformar as localidades. Está imbuído da lógica capitalista de consumir lugares e paisagens. Muitos turistas, especialmente aqueles formados por uma cultura urbana fortemente marcada pelo consumo, carregam consigo essa lógica e essa forma de viajar, sem muitas preocupações com os territórios. Desenvolver territórios não é, originalmente, uma finalidade do turismo. Essa ideia ganhou força, entre outras razões, pela capacidade da atividade de gerar renda e movimentar economias locais. Educar pessoas para serem turistas, também não. Mas a atividade foi se complexificando e, com o tempo, assumindo diferentes papéis, contornos e expectativas, especialmente em algumas de suas modalidades. Afinal, é necessário cuidar dos “atrativos” e dos “destinos” para que sigam existindo e movimentando a atividade turística.

Passaram a ser esperados efeitos positivos, especialmente quando se trata de um turismo que se pretende responsável, sustentável e ético, como o turismo de base comunitária, o turismo cultural, pedagógico, de natureza, de experiências e de conteúdo, entre outros, incluindo o turismo social. Podem estar entre esses efeitos a geração de renda e trabalho, a autonomia e o protagonismo das comunidades, a valorização e a preservação dos patrimônios culturais e naturais, a melhoria de infraestruturas, a permanência de jovens nos territórios e a ampliação do sentimento de pertencimento e da autoestima comunitária. Porém, nada disso acontece automaticamente. Desenvolvimento local envolve a capacidade de um território ampliar suas oportunidades sem perder as condições sociais, culturais e ambientais que sustentam sua existência. Antes de perguntar como fazer isso, talvez seja preciso entender como aquela localidade quer caminhar. Que sentidos atribui a conceitos como desenvolvimento, sustentabilidade, qualidade de vida e bem-viver? As respostas a essas perguntas podem ser muito diferentes entre os próprios habitantes e, certamente, entre quem vive ali e quem chega de fora. Por isso, por melhor que seja planejado, o turismo também produz conflitos. Um mesmo impacto pode ser lido como excelente ou terrível. O aumento da renda, por exemplo, pode significar mais oportunidades para alguns, mas também gerar novas desigualdades e violências. A valorização de uma festa, de um saber ou de uma paisagem pode fortalecer a identidade local, mas também transformar aquilo em mercadoria para quem visita. É nesse ponto que a valorização das memórias, dos patrimônios, das paisagens e dos modos de vida locais pode fazer diferença. Quando uma comunidade conta sua própria história, apresenta seus lugares de memória, compartilha seus saberes, sua gastronomia, seus ofícios, suas festas e suas formas de se relacionar com a natureza, ela torna visíveis conhecimentos e pessoas, fortalece vínculos e cria possibilidades para que esses saberes continuem vivos. A memória social pode, assim, funcionar como uma


tecnologia social, ou seja, como conhecimento e prática construídos coletivamente, capaz de gerar renda, autoestima, desenvolvimento e pertencimento.

postura de visitar uma comunidade aprendendo e trazendo ideias, conhecimentos e recursos novos que talvez contribuam com o desenvolvimento local?

Há algo de arrogante na ideia de que o turista chega a um território para “ajudá-lo”. Afinal, quem disse que aquele lugar precisa se desenvolver segundo os mesmos caminhos e sentidos de quem chega? Cada comunidade possui suas próprias histórias, cosmologias, referências e formas de habitar o mundo. Não seria interessante o visitante rever suas próprias certezas?

A graça do turismo está nessas possibilidades de encontros e trocas para todos. Desenvolver precisa envolver pessoas, histórias, saberes e forças diversas na construção de relações que façam sentido para as localidades. Como aprender a escutar, olhar e reconhecer os sinais de um lugar?

Os encontros provocados pelo turismo são interessantes porque envolvem trocas entre pessoas diferentes, de idades, formações, pensamentos, sonhos e expectativas diversas. A escuta e os aprendizados podem ser potencializados nessas ocasiões, abrindo oportunidades reais para imaginar mundos e futuros. São ocasiões para conversar, criar afetos e só isso já é transformador. O turista precisa ser educado para viajar. Não basta não deixar lixo, não depredar, respeitar as pessoas e pagar pelos serviços. Tudo isso é fundamental, mas pode ser pouco diante da complexidade dos territórios visitados. Viajar pode ser uma oportunidade de aprender sobre outras formas de viver, de pensar a natureza, a cultura, a educação e o próprio desenvolvimento. Pode ser uma experiência de reconexão da pessoa consigo, com os outros e com o mundo. É aí que o turismo social pode exercer um papel importante. Ao buscar democratizar o acesso às viagens, ampliar a inclusão e a acessibilidade e colocar as pessoas e as comunidades no centro da experiência, ele pode também contribuir para uma educação do olhar e da escuta. Viagens podem ser espaços de aprendizagem, convivência e valorização dos lugares visitados, aproximando pessoas de suas histórias, patrimônios, paisagens e modos de vida. O desafio é fazer com que essa experiência crie condições para conhecer o território, respeitá-lo e estabelecer com ele uma relação mais responsável. Dificilmente as pessoas viajam pensando na melhoria dos territórios. Como incluir essa questão e a

Um grande desafio é desenvolver questionando o desenvolvimento. É buscar sustentabilidade sem esvaziar a palavra, reconhecendo que o bem-viver pode ter significados diferentes e que os territórios são muito mais do que paisagens. Seria muito bom o turismo contribuir com os locais visitados, valorizando-os. Seria excelente que, ao voltar para casa, o visitante enxergasse também outras possibilidades de estar no mundo e desenvolvesse o seu próprio local. Talvez um turismo melhor seja aquele que, ao valorizar e fortalecer as localidades visitadas, também nos ensine a olhar de outra maneira para “nossos” territórios.

Andrea Rabinovici é Professora Titular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pós-doutora pela Cátedra Olavo Setubal (IEA-USP) e pelo Programa de Pós-Graduação em Memória Social (Unirio). É doutora em Ambiente e Sociedade (Unicamp), mestra em Ciência Ambiental (USP), especialista em Turismo Ambiental (Senac) e bacharela e licenciada em Ciências Sociais, antropologia (Unicamp). É coordenadora da Cátedra Sustentabilidade da Unifesp.

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Território: mais que destino, sujeito POR CLÁUDIA FERNANDA BALTHAZAR DOS SANTOS

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Durante muito tempo, o desenvolvimento turístico esteve associado à capacidade de transformar lugares em destinos, identificar atrativos, ampliar fluxos, estruturar serviços, captar investimentos e aumentar a permanência dos visitantes. Essa perspectiva movimentou economias, mas também ensinou a olhar os territórios pelo que podem oferecer ao turismo. Diante da emergência climática, das desigualdades socioambientais e da Agenda 2030 [plano de ação da Organização das Nações Unidas (ONU) que tem como objetivo orientar o desenvolvimento sustentável até o ano de 2030], inverter essa lógica deixou de ser escolha. É preciso reconhecer os limites ecológicos e a vida de quem os habita. Antes de perguntar como tornar um lugar mais atrativo para quem chega, precisamos perguntar que turismo faz sentido para quem vive nele.

quem? A pergunta é econômica e política: quem decide, quem narra o lugar, quem recebe os benefícios e quem assume os custos? Se as comunidades receptoras permanecem quando termina a temporada, precisam participar da definição dos caminhos que o turismo percorrerá. Essa mudança altera também nossa relação com memória, patrimônio e paisagem. Uma paisagem não é somente aquilo que o visitante vê, guarda também aquilo que uma comunidade lembra. Uma feira, uma receita, uma celebração, um edifício, uma roda de samba, um mercado, um caminho ou uma praça não nasceram como atrativos turísticos. Quando tudo precisa se converter em produto para adquirir valor, corremos o risco de produzir lugares cada vez mais interessantes para visitar e cada vez menos possíveis de viver.

A pergunta sugere outra compreensão de território. Território não é cenário, superfície disponível ou conjunto de recursos à espera de aproveitamento. Milton Santos (1926-2001), em A natureza do espaço (Edusp, 2006), nos ajuda a compreendê-lo pelos usos, relações e práticas que lhe dão existência. É onde trabalho, circulação, memória, conflito, cultura e cotidiano se materializam. Beatriz Nascimento (1942-1995) amplia essa leitura ao aproximar território, memória e continuidade da vida coletiva. Há lugares constituídos por relações, lembranças, afetos e pertencimentos. Antes de ser destino, território é lugar vivido.

Nêgo Bispo (1959-2023), em A terra dá, a terra quer (Ubu, 2023) oferece uma chave provocadora para essa contradição ao confrontar a lógica da exploração com relações orientadas pela partilha e pelo envolvimento. Daí surge uma pergunta incômoda: por que aquilo que tem valor para um território precisa adquirir valor de mercado para ser reconhecido? Nem todo patrimônio precisa ser consumido, nem toda memória, transformada em experiência vendável. Preservar também significa reconhecer o direito de estabelecer limites. A crise climática torna esse debate urgente. Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras, 2019), questiona a ideia de uma humanidade apartada da natureza. Praias, rios, montanhas, florestas e cidades não são cenários infinitamente disponíveis ao deslocamento e ao consumo. São sistemas vivos, atravessados por limites ambientais. Não haverá turismo sustentável se sustentabilidade significar apenas reduzir impactos sem questionar a lógica do crescimento permanente.

Um lugar pode receber mais turistas, movimentar mais recursos e, ainda assim, pressionar ecossistemas, elevar custos, descaracterizar paisagens ou expulsar aqueles que ajudaram a construí-lo. Crescimento da atividade não significa, por si só, desenvolvimento do território. Desenvolvimento para

É nesse ponto que o turismo de base comunitária e o turismo social oferecem um caminho para outra relação entre turismo e desenvolvimento. Além de inserir moradores na cadeia turística, pressupõem reconhecer sua capacidade de decidir o que compartilhar, como receber, quais limites estabelecer


Quando tudo precisa se converter em produto para adquirir valor, corremos o risco de produzir lugares cada vez mais interessantes para visitar e cada vez menos possíveis de viver.

e como os benefícios devem circular. Fortalecer negócios, produtores e redes locais favorece a permanência da riqueza no território. Mas sua contribuição vai além da economia: participação deixa de significar consulta e passa a significar poder de decisão. Há uma diferença substantiva entre desenvolver turismo no território e desenvolvê-lo com o território. Nem todo lugar precisa receber mais visitantes, nem toda manifestação cultural precisa tornar-se atração. O direito de receber inclui o direito de decidir como receber e aquilo que deve permanecer fora do turismo. Não são as comunidades que precisam encontrar seu lugar dentro de um turismo previamente organizado, é o turismo que precisa encontrar seu lugar dentro da vida do território. O turismo social acrescenta outra dimensão. Democratizar o turismo não significa somente permitir que mais pessoas viajem. Significa discutir como viajamos, quais lugares reconhecemos como dignos de conhecer, que histórias encontramos e que relações estabelecemos com quem vive ali. A educação para e pelo turismo amplia o deslocamento físico para uma experiência de formação, convivência e cidadania. Viajar pode produzir encontro e escuta e ensinar que conhecer um lugar implica reconhecer as pessoas e relações que o constituem. O turismo de base comunitária e o turismo social encontram-se justamente aí. Um reposiciona quem recebe, o outro democratiza quem viaja. Juntos,

permitem uma relação menos assimétrica entre visitantes, comunidades e territórios, combinando participação nos benefícios e nas decisões com responsabilidade sobre a maneira como conhecemos os lugares. Perguntar quanto turismo um território suporta, que recursos consome, que empregos gera e quanto da riqueza permanece no lugar é colocar sustentabilidade dentro das decisões sobre desenvolvimento e não depois delas. Talvez o desafio não seja descobrir novos destinos, mas aprender novas maneiras de estar nos lugares. Um turismo comprometido com o desenvolvimento territorial precisa ser equitativo, gerar trabalho e renda sem reduzir desenvolvimento a crescimento econômico, valorizar patrimônios sem esvaziá-los de sentido, ampliar o direito à viagem sem retirar das comunidades o direito à permanência, e reconhecer que sustentabilidade exige limites, escolhas e responsabilidades compartilhadas. Território não é matéria-prima do turismo. O turismo é uma das atividades possíveis do território. Quando essa relação se inverte, muda nossa medida de sucesso. Em vez de perguntar apenas quantas pessoas chegaram, quanto consumiram ou quanto tempo permaneceram, podemos formular uma pergunta mais difícil e necessária: o que a presença do turismo deixa para quem permanece? Antes de ensinar os territórios a receber turistas, precisamos aprender a ensinar o turismo a escutá-los.

Cláudia Fernanda Balthazar dos Santos é doutoranda e mestre em Planejamento e Gestão do Território pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Especialista em Educação Ambiental pelo Senac e bacharel em Turismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Consultora pedagógica e docente no ensino superior, nas áreas de Turismo, Hotelaria, Eventos, Gestão Ambiental, Comunicação e Produção Cultural, além de participação em programa de pós-graduação em Matriz Africana.

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ser tão

Entre o teatro, a televisão, o cinema e a música, Silvero Pereira faz da arte um exercício de liberdade e reafirma o respeito pelo próprio ofício POR MARCEL VERRUMO

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Agatha Gameiro

VISCERAL


encontros

Frente a adversidades, Silvero Pereira espraia seu talento nos palcos e nas telas, firmando-se como um artista versátil.

O

corpo que ocupa o centro dos palcos e é iluminado pelo canhão de luz em shows e espetáculos de teatro é o mesmo que já andou quilômetros em busca de água, enfrentando os raios do sol no sertão nordestino. É o corpo de Silvero Pereira, artista nascido em Mombaça (CE), em 1982, cidade onde confrontou as adversidades ambientais e os preconceitos e imposições que o privavam de ser quem era. O corpo de um homem agarrado às oportunidades, que ganharia o mundo em busca dos sonhos. Ator, diretor e cantor, Silvero é graduado em Artes Cênicas pelo Instituto Federal do Ceará. Destacou-se em trabalhos no teatro, como em BR-TRANS, com o coletivo As Travestidas; no cinema, com Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019); na televisão, com a telenovela Pantanal (TV Globo, 2022). Ganhou prêmios como o Grande Otelo do Cinema Brasileiro, Guarani e Extra de Televisão. Neste Encontros, o artista relembra os desafios do início da carreira e as relações que definiram sua trajetória.

PERMISSÃO PARA EXISTIR Sou uma pessoa que nasceu no interior do Ceará, em uma família paupérrima, filho de uma mãe semianalfabeta e de um pai analfabeto. Estudei em escola pública a vida inteira. Fui uma criança que se identificou como uma figura fora dos padrões, que tinha a sensação de que não se encaixava. Tudo o que diziam para

mim sobre como se comportar, se vestir, se relacionar, não pertencia à minha cabeça. Aos 44 anos, costumo dizer que, nos meus primeiros vinte anos de vida, eu era um morto vivo. Até os meus 13 anos, vivi em Mombaça (CE). Aos 14, fui morar em Fortaleza e tive outra perspectiva do mundo e das pessoas. Aos 17, conheci o teatro e descobri as permissões de quem você pode ser, de como pode se relacionar, do que pode falar, dos lugares onde pode andar, das roupas que pode vestir. Foi o teatro e a arte que me salvaram de todas as adversidades.

DO TURISMO ÀS ARTES Quando cheguei em Fortaleza, entrei em uma escola técnica e fui apresentado a cursos que eram tidos como “para homens”, aqueles de tecnologia, mecânica, estrada. Só havia um curso de humanas, o de Turismo. Se o homem decidisse fazer esse curso, era como se estivesse se declarando não homem. A primeira vez em que tive uma grande coragem de romper com a estrutura machista e patriarcal onde cresci, quando me impus a partir dos meus desejos, foi quando eu disse “vou fazer Turismo”. Nessa escola técnica, a educação artística era uma área obrigatória; escolhi estudar teatro e entendi que era o que eu queria para a minha vida. Nessa época, a escola técnica se transformou em uma faculdade de artes cênicas e tive a oportunidade de migrar do técnico em Turismo para o curso superior em Artes Cênicas dentro dessa própria instituição. 67 | e


encontros

ESTREIA SOLITÁRIA Comecei a ler Caio Fernando Abreu (1948-1996) e descobri o conto “Dama da noite” [publicado originalmente no livro Os dragões não conhecem o paraíso (1988), aborda temas como a solidão, os afetos e as sociabilidades de pessoas marginalizadas]. Conheci a história do [diretor e ator] Gilberto Gawronski, que tinha ficado em cartaz com uma montagem do texto durante 15 anos. Pensei que, se isso já havia virado teatro, eu também poderia adaptar. Quando comecei, o objetivo era fazer com quatro pessoas, mas não consegui reunir um elenco para o projeto, porque a classe artística já estava encaixotando o texto [a peça era, frequentemente, interpretada por drag queens e artistas chamadas, à época, de transformistas]. Comecei a ouvir que eu queria me vestir de mulher e deveria apresentar a obra apenas em boates. Insisti que queria fazer no teatro e decidi montar um solo. Fiz vários convites para diversos diretores da cidade, mas nenhum quis me dirigir. Na adaptação, intitulada Uma flor de dama, tive que assinar a direção, adaptação, figurino, iluminação, sonoplastia, tudo.

ENCONTRAR-SE NO COLETIVO Também tive o desafio de convencer o público a ir ao teatro. Estreei com cinco ou seis pessoas na plateia, que foi a média diária de público da temporada. Até que tracei uma estratégia de fazer o Cabaré da dama, um espetáculo que acontecia depois das dez da noite no porão do Theatro José de Alencar. Com isso, finalmente o público de Fortaleza viu o que

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eu fazia. O espetáculo virou um fenômeno, a gente tinha que fazer duas, três sessões na mesma noite. Foi então que fui me aproximando das meninas, da Verônica, Alicia, Yasmin, Deydianne, da Mulher-Barbada. Fomos formando um grupo e decidi que não queria mais trabalhar sozinho, mas em conjunto. Surgia o coletivo As Travestidas. Depois do Cabaré da dama, montamos o espetáculo Engenharia erótica - Fábrica de travestis; fizemos o musical Yes, nós temos bananas; veio o BR-TRANS. Depois de dez anos, decidi que precisava fazer um estudo sobre o que a gente havia feito coletivamente nesse período. Construí uma metodologia para pensar nosso trabalho, refletir sobre como dirigir, adaptar, escrever, atuar, encenar. O BR foi o primeiro estudo sobre o que As Travestidas fazia.

GUINADA À MÚSICA A minha mãe sempre foi apaixonada pelo rádio e pela televisão. O meu pai, pela música. Foi ele quem me apresentou o Waldick Soriano (1933-2008), o Reginaldo Rossi (1944-2013), o Luiz Gonzaga (1912-1989), o próprio Belchior (1946-2017). No espetáculo BRTRANS, foi a primeira vez em que me coloquei na situação de cantor. Quando fui chamado para fazer televisão [a telenovela A força do querer (Glória Perez, 2017)], alguém achou que eu cantava e resolveu colocar números musicais. Como nordestino, entendo que, se a oportunidade que me dão é essa, vou fazer com o maior prazer e força para provar que eu sou bom nisso. Assim que a novela acabou, fui convidado para fazer o Show dos

famosos, no Domingão do Faustão. Quando me sagrei vice-campeão, pensei que eu tinha potencial e podia dominar mais. Foi então que comecei a estudar música, em 2018.

LUNGA E BACURAU Quando terminei a novela, também veio a oportunidade de fazer um teste para o filme Bacurau e, depois, o convite para interpretar o Lunga, que originalmente era um personagem trans. Já estávamos em 2019 e as discussões de gênero já estavam muito mais afloradas [a telenovela A Força do querer havia gerado debates sobre a escalação de profissionais cis para representar personagens trans]. Eu disse que não poderia aceitar, que eles precisavam contratar uma atriz trans para o papel. Nisso, o Kleber me contou: “fiz alguns testes, mas o seu sempre ficou na minha cabeça e eu não gostaria de abrir mão de você como personagem”. Ele me disse uma frase ótima: “você tem cara de quem mata alguém, por isso eu quero você.” Respondi que ele tinha a opção de contratar uma pessoa trans ou mudar o roteiro e a identidade de gênero do Lunga. E ele mudou o roteiro original para um personagem queer. O Lunga foi uma grande virada na minha história, fez com que eu me tornasse um ator respeitado no cinema nacional. Sem falsa modéstia, o Lunga está entre as grandes figuras do nosso audiovisual, ao lado de personagens de filmes como Minha mãe é uma peça (André Pellenz, 2013), Tropa de elite (José Padilha, 2007), Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002) e Pixote, a lei do mais fraco [Héctor Babenco (1946-2016), 1981].


Em seu trabalho interpretando as músicas de Belchior, Silvero relaciona a sua história com a do cantor cearense.

Agatha Gameiro

CONTAR MÚSICAS Durante a pandemia, recebi um convite do Festival de Cinema de Vitória para fazer um show online do Belchior. Foi o meu primeiro experimento como cantor, batizado como Silvero interpreta Belchior. Quando decido montar o show, crio uma dramaturgia e faço uma composição de músicas sobre a história que quero contar. O show não é só sobre a história do Belchior. A partir do momento em que abro a boca para falar de um rapaz latino-americano vindo do interior sem nenhum dinheiro no bolso e em busca dos seus sonhos, estou falando de mim. No show, faço a analogia com quem eu sou e com quem somos todos nós, que passamos por essa mesma

situação, que abandonamos um lugar para ir em busca dos sonhos. Para mim, a música não é sobre cantar, é sobre contar.

SER REFERÊNCIA Não quero representar ninguém, mas penso ser muito importante ter a consciência da minha referência. Na televisão, sou imagem para uma série de pessoas, principalmente por ter a oportunidade de contar a minha história. Algumas pessoas estão cansadas de me ouvir dizer que eu carreguei água na cabeça, que andei dez quilômetros para buscar água, mas eu tenho que falar sobre isso porque, em algum momento, uma pessoa pode me ouvir e

descobrir que esse não é um mundo perdido, desde que a gente tenha oportunidades. Sou uma figura que teve oportunidades, e aproveitou e aproveita cada uma delas até hoje. Posso até não ser o melhor, mas eu sou uma figura de importância, porque respeito o meu ofício.

O ator e cantor Silvero Pereira esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 28 de agosto. A mediação do bate-papo foi de Rafael Miranda, graduado e mestre em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (USP), e supervisor da programação do Sesc Pompeia. 69 | e


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UMA ALTERNATIVA AO DESESPERO POR PEDRO BANDEIRA ILUSTRAÇÕES NELSON CRUZ


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Menino santista, caçula com irmãos muito mais velhos, não me lembro de sentir-me solitário, pois logo vivi cercado por uma multidão de companheiros: cacei onças com meu amigo Pedrinho, mergulhei nas águas claras dos riachos com minha namorada Narizinho, rolei de rir com as “asneiras” da Emília, voei em cipós com Tarzan e seus macacos, esgrimi contra os aristocratas com Scaramouche e contra os “guardas do cardeal” com D’Artagnan, estive preso na ilha de If com o Conde de Montecristo, fugi de Javert com Jean Valjean, sobrevivi numa ilha deserta com Robinson Crusoe, persegui Moby Dick com um comandante maluco de uma perna só, fui enganado pelo fantástico pirata Long John Silver, ajudei Miles Hendon a proteger o príncipe nas roupas do mendigo, vagabundeei pelo Mississipi com Huck e Tom Sawyer, demoli moinhos de vento com a lança de Don Quixote, espionei Arsène Lupin roubando colares de diamante, ajudei Quasimodo a badalar seus sinos pelo amor da cigana Esmeralda, enregelei-me no Alasca afagando o pêlo espesso de Caninos Brancos e cavalguei destemido pelos pampas gaúchos na companhia de Rodrigo Cambará. Que trabalheira! Quantos amigos! Que gostoso! Começo dos anos 80 do século passado, já havia dez anos escrevendo histórias infantis para revistas de banca, eu recém havia me decidido pela dedicação total àquela atividade: depois de mais de 300 historinhas publicadas nas tais revistinhas, minhas invenções começavam a sair em livros. E, como todos do meu ramo, iniciava-se também a tarefa paralela de quem escreve para crianças e adolescentes: as visitas a escolas, para as chamadas “palestras com os alunos”, tarefa árdua que desempenhávamos com vigor e alegria. Sob o ponto de vista das editoras, o intuito daquela atividade era “promover” a venda dos livros, mas acabávamos comparecendo a escolas estaduais e municipais, cujas professoras jamais poderiam pedir aos alunos que comprassem nossos livros. Dentro de meu peito, porém, pulsava um coração esperançoso à espera do dia em que a injusta exclusão da maioria dos brasileiros diminuísse através da democrática oferta de conhecimento para todos os meus conterrâneos.


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Foi nessa época que visitei uma escola municipal em São Paulo, na carente periferia. Tendo já visto tantas escolas públicas malconservadas, vidraças quebradas, comentei com a diretora a beleza daquela, toda reluzente, branquinha como no dia de sua inauguração. E a diretora explicou-me que, na verdade, a escola estivera tão destruída como tantas que eu conhecia, mas que acabara de ser reformada, pois havia sido totalmente incendiada... pelos próprios alunos. Ainda sob o espanto da informação, fui conversar com uma pequena multidão de jovens daquela escola. Dentre eles, no meio de tantas expressões desconfiadas, algumas até agressivas, destacou-se uma adolescente ansiosa, que não parava de perguntar. Suas nervosas indagações eram sempre sobre livros, sobre enredos variados, numa demonstração rara de afinidade com a Literatura. Findo o encontro, fui tomar o costumeiro cafezinho na sala dos professores e indaguei à diretora sobre a menina, destacando que, apesar da admirável ligação com os livros, ela merecia cuidados especiais, pois sua ansiedade beirava o patológico. E a diretora me reservava mais uma surpresa: a menina morava nas condições mais sub-humanas que se possa imaginar, seu pai era um alcoólatra desempregado que surrava a mulher e os filhos todos os dias e a pobrezinha vivia em puro desespero. Como alternativa à loucura, ela havia descoberto um refúgio: os livros. Frequentava as aulas pela manhã e, apesar de a escola não oferecer ensino em período integral, alerta para as dificuldades da aluna a diretora permitia que ela almoçasse e jantasse na escola junto com os funcionários que com ela dividiam suas marmitas, e permanecesse na biblioteca durante toda a tarde, depois durante todo o período noturno do supletivo. Só quando a escola tinha de ser fechada, a garotinha ia para seu barraco, levando livros da biblioteca. Ela havia ganhado de uma professora uma lanterna a pilha e, refugiada em um canto da crueldade do pai alcoolizado, lia até adormecer.

Ela era o que eu fora! Mesmo sem ter morado em favela, mesmo sem ter tido pai alcoólatra, até porque meu pai falecera deixando-me ainda no útero de minha mãe que, em vez de tapas, só me encheu de carinho, a menina havia encontrado um refúgio para a loucura e para o desespero semelhante ao que eu encontrara para minha solidão infantil: mergulhada nos livros, ela vivia outras vidas, sonhava outros sonhos, consolava-se da vida injusta que lhe coubera e alcançava outras dimensões enquanto esperava passar as dores das pancadas do tresloucado pai. Do ponto de vista de meus professores, talvez eu tenha sido um “mau” aluno, porque, na véspera de alguma prova de Física, eu varava a noite lendo romances ou peças de teatro. Mais do que pela escola, eu fui educado pela Literatura. Graças a essa educação heterodoxa, aprendi um mundão de coisas, estudei e estudo demais tudo aquilo que quero, fiz a faculdade que escolhi e hoje vivo feliz e cuido muito bem de minha família, tendo livros traduzidos até para o grego e o sérvio. Por que então outros meninos pobres como eu fui não poderão construir sua felicidade futura navegando por páginas impressas, sentindo o cheiro da cola nas lombadas e apalpando a maciez do papel enquanto sua mente viaja por mundos fantásticos, raciocina sobre as emoções humanas, aprende a viver? O Brasil é pobre, violento, atrasado, porque os caminhos desastrados de nossa História produziram uma sociedade em que somente uma minoria dos brasileiros entende o que lê. Construímos um País sem livros, sem acesso democrático ao Sonho, ao Conhecimento e à Esperança. A maior parte de nossa população vive excluída, porque jamais lhes foi oferecida a única arma que pode levá-los à vitória na batalha pela vida: o livro. Em pleno século 21, como podemos sonhar com um futuro melhor nessas circunstâncias? Mas hoje vivemos numa democracia e ouvimos já muita gente importante clamando por uma educação universal e de boa qualidade, exigindo o acesso ao livro, a todos os livros. Muitos professores concordam comigo. Mal pagos, pouco apoiados pelos próprios pais de seus alunos, nunca deixaram de ser especializados em amor, oferecendo essa que, para mim, é a única alternativa à loucura e ao desespero: a leitura prazerosa e livre. São civilizadores que espalham livros ao vento como um semeador planta a vida.


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No meu entender, o aprendizado é uma tarefa individual – ninguém aprende com os professores, todos aprendemos sozinhos. O professor não ensina: sua missão é propor, estimular, provocar, seduzir, de modo que os alunos possam, motivados, buscar solitariamente nos livros os caminhos da liberdade e de sua felicidade futura. Graças à sorte que há quase 60 anos me permitiu trilhar esses caminhos, eu pude construir uma vida feliz e realizada. Será que aquela menina da escola municipal conseguiu? Ah, eu espero que sim! Ah, eu sonho que sim! Eu gostaria de saber que as aventuras loucas que escrevi com paixão a tenham marcado mais do que as porradas do seu pai. Querida menina nervosa de quem eu não guardei o nome, queridos meninos e meninas esperançosos que me leem há tantos anos: é para pessoinhas como vocês que eu escrevo. É pela felicidade de vocês que eu vivo.

Pedro Bandeira nasceu em Santos (SP), em 1942, e é escritor. Iniciou sua carreira artística no teatro e, em 1972, passou a publicar histórias infantis. Entre suas obras mais conhecidas estão A droga da obediência (1984), que deu origem à série Os Karas. Com mais de 100 livros publicados e mais de 25 milhões de exemplares vendidos, recebeu prêmios como Jabuti, APCA e o selo Altamente Recomendável da FNLIJ. Desde 2009, é autor da Editora Moderna. Nelson Cruz é belo-horizontino, mora e trabalha em Santa Luzia (MG). Fez sua primeira exposição de pinturas em 1977, na Galeria de Arte Esthergilda Menicucci (MG). Em 1987, passou a se dedicar aos livros ilustrados. Em 37 anos de carreira, recebeu premiações da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, seção brasileira do International Board on Books for Young People (IBBY), Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Biblioteca Nacional (BN), Academia Brasileira de Letras (ABL) e Câmara Brasileira do Livro (CBL). Em 2021, o livro Sagatrissuinorana, em parceria com João Luiz Guimarães, recebeu o prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil e Melhor Livro do Ano. Em 2002, 2012 e 2024 a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, indicou-o ao prêmio Hans Christian Andersen de ilustração, sendo finalista na edição de 2024.

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CAUSOS e CANÇÕES Entre a carreira de músico e trabalhos na televisão, Wandi Doratiotto reflete como o humor e a relação com São Paulo moldaram seu caminho POR MARINA PEREIRA

Nilton Fukuda

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ara Wandi Doratiotto, músico, compositor, apresentador e ator, a veia humorística e, ao mesmo tempo, crítica e sagaz de ser um contador de causos está no DNA da sua família. Nascido no bairro da Lapa, zona Oeste de São Paulo, cresceu sob o olhar atento dos pais, que perceberam logo cedo seu talento para a música. “O meu pai, que era músico, tocava cavaquinho e violão, era muito engraçado, perspicaz, aquariano. Ele saía comigo, observando a rua e as pessoas e contava causos engraçados. O bairro era de muitos operários na época. A maioria dos filhos ia vender limão, trabalhar na fábrica, mas meu pai falou: ‘Não precisa ir, vai estudar’. Imagina o que significa isso para uma pessoa que não tem estudo formal, como meu pai”.

Wandi carregou o talento para as crônicas musicais e, junto aos companheiros Antônio Marcelo Galbetti, Claus Erik Petersen, Igor Lintz Maués e Mário Manga (Mário Augusto Aydar), formou o grupo Premeditando o Breque, que marcou a Vanguarda Paulista nos anos 1970. Em 2026, o Premê completa 50 anos em atividade e, para celebrar a trajetória, lança o álbum Dinheiro não é tudo?, pelo Selo Sesc, que reúne composições da história do grupo. Wandi é figura conhecida das telas, tendo participado de propagandas e de atrações na televisão brasileira, como os programas Castelo Rá-Tim-Bum e Bem Brasil. No caso desse último, foi apresentador por 17 anos, entre 1991 e 2008, e voltou ao comando no último mês de junho, com o retorno do programa

musical do canal, em parceria com o Sesc São Paulo. Neste Depoimento, Wandi conta sobre a sua relação com a cidade de São Paulo, a trajetória do Premê e como o humor e a crítica transformam o cotidiano.

lapa A Lapa do Rio de Janeiro, que todo mundo fala e onde tudo acontece, é linda. Mas a Lapa de São Paulo era uma coisa incrível. Tinha até uma orquestra com naipes de metais regida pelo maestro Seu Chico Pereira Marques. Quando eu tinha 5 anos, ele me levava para concerto, eu tocava um pandeirinho. Para se ter ideia, a família era tão ligada na música que o filho do maestro se casou com a minha irmã. Onde passássemos na Lapa, meu pai, que também era músico, tocava cavaquinho e violão, tinha que parar porque eu ficava fascinado 75 | e


Após 17 anos à frente do programa, Wandi volta a apresentar o Bem Brasil, que retornou em junho deste ano, em uma parceria entre o Sesc São Paulo e a TV Cultura, e exibido diretamente do Sesc Itaquera, aos domingos.

composição Sempre compus. Muita coisa ruim, mas outras tantas que eu considero boas. Fiz a primeira canção com uns 13 anos. Eu imitava aquele jeito cínico de cantar do Juca Chaves (1938-2023) [compositor, músico e humorista], criando umas modinhas, tirando sarro dos absurdos que nos cercam. Ele era fantástico, gravava álbuns LP com gozações, conversas, contava causos, piadas. E eu falei: “Um dia eu vou fazer isso”. À minha maneira, fui fazendo. Desde pequeno, sempre quis compor, sempre quis escrever, achava que podia escrever romances.

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Geminiano que sou, acho que posso fazer tudo ao mesmo tempo.

profissão Estudei em vários conservatórios pequenos e, depois, fiz faculdade de música. A minha formação é de Educação Artística Plena em Música, na Faculdade Mozarteum de São Paulo (FAMOSP). Queria ter uma reserva para trabalhar, porque sabia que a música era jogo duro. Tanto que dei aula na rede estadual de ensino por quase quatro anos. No ano de 1976, comecei a frequentar a Universidade de São Paulo (USP) por ser um ambiente muito musical. Na faculdade de Física, tinha um grupo de choro incrível que havia se formado, por exemplo. Comecei a frequentar o departamento de música da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) como aluno ouvinte. Fui até aluno de orquestra, mas não

era registrado na universidade. Foi ótimo, porque eu pegava os conceitos dos grandes mestres que estavam lá. Desse contato, começou uma brincadeira que, na época, não tinha nem nome, mas seria o início de Premeditando o Breque.

premê Eu estava procurando alguém para fazer as minhas músicas solo. E me avisaram que um tal de Mário Augusto, da Orquestra da ECA, meu querido irmão Mário Manga, poderia ser essa pessoa. Nos encontramos e ele me falou: “Nós estamos começando uma brincadeira lá na ECA. Você não quer entrar?” Eles também gostavam de Jorge Veiga (1910-1979), Jards Macalé (1943-2025), esses estilos mais engraçados. Nós nos juntamos e foi um achado, uma confluência de fatores impressionante. Começamos a fazer choro,

Rubens Tamashiro

pela sanfona e orquestra, foi uma riqueza. Sempre fui um garoto que ficava muito na rua. Meus pais eram simples, mas observaram que, quando eu pegava no instrumento, eu tinha algum talento.


depoimento

tocávamos Cachimbinho (Tomás Cavalcante da Silva, 1935-2022), Pixinguinha (1897-1973), a nata dos compositores de samba. À medida que nós vimos que o humor era a intersecção do grupo, entendemos que precisávamos inventar algo diferente, porque éramos novos na praia. Começamos a fazer música com letra, o que chamamos de “Espírito de Gandaia”. Tocávamos em vários departamentos da USP, na hora do almoço, na rua, no ônibus, e íamos buscar o público na frente dos cursinhos. Na saída, fazíamos algumas músicas, e convidávamos todos para o Lira Paulistana, um teatro que foi o principal palco do movimento do qual fizemos parte, a Vanguarda Paulista. Daí em diante, as coisas aconteceram à revelia da nossa vontade. O Premê foi a melhor coisa que fiz na vida.

festivais Em 1979, aconteceu o festival da TV Cultura e o Premê ficou em segundo lugar com a música “Brigando na Lua”. Foi nesse momento que também vimos surgir nomes como Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Itamar Assumpção (1949-2003), entre outros. E o impulso que o festival deu se desdobrou em coisas bem legais. Para nós, foi o máximo, porque deu aquela confiança. Os festivais fizeram surgir tanta gente maravilhosa. Eles tinham esse caráter de que a vedete, uma palavra em desuso, não era o festival, não era o apresentador, não era a TV, era a música. Entre 1982 e 1986, participamos também de três edições do Projeto Pixinguinha que foi a melhor coisa que se inventou no Brasil. Era o encontro de um artista ou grupo consagrado com um principiante. Nós tocamos, por exemplo, com a cantora de choro Ademilde Fonseca (1921-2012) e com o

músico e compositor Sérgio Ricardo (1932-2020). Foi uma maravilha, porque rodávamos por muitos lugares do Brasil. Tocamos no Piauí, algo quase inimaginável para um grupo outsider como o nosso, e fomos muito bem recebidos.

castelo Não me sinto um ator, o meu barato é música. Mas a minha experiência na TV Cultura foi incrível. Era uma emissora que nos deixava totalmente à vontade. O Castelo Rá-Tim-Bum foi um projeto de altíssimo nível, ganhou prêmios internacionais, com uma equipe imensa de modestos profissionais ganhando uma graninha para viver. De repente, virou esse fenômeno. Era um lugar que tinha nomes como Rosi Campos, uma das maiores atrizes do Brasil. E com conteúdos que respeitavam a criança, que a tratavam como um ser humano capaz de abstrair, de perceber tudo aquilo. Deu certo demais. Televisão é uma ilusão, mas é uma maravilha, você tem que saber jogar.

bem brasil O Roberto Muylaert [ jornalista, escritor e ex-presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura] nos convidou para fazer um programa de chorinho aos domingos. O programa tinha estética maravilhosa, só ia gente boa, mas, como é que se faz um programa todos os domingos só com uma tendência? Abrimos a tampa e logo vieram nomes como Lulu Santos e Barão Vermelho. Havia muito mais possibilidade de artistas. Foi lindo poder voltar agora, depois de 17 anos, apresentando. A Beth [Carmona], hoje vice-presidente da Fundação Padre Anchieta, é uma grande amiga e insistiu para que programas como o Bem Brasil

voltassem. Foi um projeto que ficou ligado pelo caminho afetivo, pelo encontro de diferentes gerações da música, e pela possibilidade de o público presenciar esse encontro de forma gratuita. Um exemplo emblemático foi o que rolou no programa que recebeu o Trio Mocotó, em atividade desde 1968, com dois artistas contemporâneos, o Vitão e a Duquesa.

são paulo “São Paulo, São Paulo”, uma das músicas mais conhecidas do Premê, surgiu de uma ideia baseada em “New York, New York” [canção famosa na voz de Frank Sinatra (1915-1998)]. Criamos uma levada no piano, meio blues, meio jazz. Abrimos um mapa da cidade, selecionamos os bairros e cada um entrou com uma ideia, um brainstorm mesmo. E, veja só, devemos ao maestro Nelson Ayres a aceleração da segunda parte, quando fazemos menção a esses bairros. Juntou tudo isso, deu uma música incrível, que ficou marcada. Esse meu álbum mais recente, Um passeio paulista (2026), é uma nova homenagem à cidade. As 15 faixas inéditas do álbum fazem menções a lugares como o Pico do Jaraguá, onde eu ia desde menino, o Theatro Municipal, a Praça Ramos. Então, falei de uma experiência única, da minha relação com a cidade.

Assista a trechos do Depoimento com o músico, compositor, apresentador e ator Wandi Doratiotto, realizado em agosto de 2026. 77 | e


ALMANAQUE Memórias da Moda Conheça locais em São Paulo que preservam e contam histórias do vestir, por meio de exposições, livros e acervos POR ADRIANA TERRA FOTOS NILTON FUKUDA

Se o interesse for por figurinos de espetáculos, um galpão localizado em uma pacata rua do Canindé, na zona Norte, preserva criações datadas desde 1948. Ali também são produzidas roupas que, na atualidade, entram em cena no Theatro Municipal. Também o acervo do Centro de Pesquisa Teatral do Sesc São Paulo (CPT_Sesc), preservado pelo Sesc Memórias, pode ser consultado pela plataforma sesc.digital. Ele inclui figurinos de espetáculos como Xica da Silva (1988) e Trono de sangue (1992). Neste Almanaque, conheça locais que apresentam histórias relacionadas ao vestir.

Figurinos do espetáculo Macunaíma (1984), dirigido por Antunes Filho, que fazem parte do acervo do CPT_Sesc.

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Bob Souza

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eças de roupas contam histórias, guardam afetos, constroem memória. Para além do sentido primordial de nos vestir, mostram traços da nossa identidade e são um sinal da cultura do nosso tempo e território. Depois de cumprir com sua função original, alguns desses itens deixam os guarda-roupas e ganham espaço em galerias e museus. É o caso da icônica camisa amarela da seleção brasileira de futebol, criada após concurso em 1953 e que hoje pode ser apreciada no Museu do Futebol, na capital paulista, um dos locais que mantêm itens relacionados ao vestuário que podem ser visitados em São Paulo.


“AMARELINHA” NO MUSEU DO FUTEBOL Dezoito camisas que a seleção brasileira de futebol usou em campeonatos mundiais, de 1958 a 2022, vestidas por craques como Vini Jr. e Sócrates (1954-2011), compõem essa exposição dedicada à peça que representa identidade, cultura, afeto e memória. Organizada a partir de objetos de colecionadores, a mostra é um passeio pela história que levou o Brasil – que desde 1914 usava branco – a vestir amarelo. “Amarelinha” conta, também por meio de jornais e desenhos, sobre o concurso realizado em 1953 para um novo uniforme, após o fracasso na Copa de 1950. “Falamos muito da camisa amarela como algo que representa a identidade brasileira, e fizemos questão de ter um espaço na mostra justamente sobre ela ter virado um símbolo de moda, para falar da evolução do design, desde a fonte dos números até o material tecnológico”, conta o curador Marcelo Duarte.

Praça Charles Miller, s/n, Pacaembu. Até 1/11. Ter. a dom. das 9h às 18h. R$ 25 (grátis às terças e para crianças de até 7 anos). museudofutebol.org.br/exposicoes/amarelinha

Exposição é oportunidade de ver de perto a evolução das camisas usadas pela seleção brasileira de futebol masculino em diversas Copas do Mundo.

ATELIÊ VIVO Um discreto galpão nos Campos Elíseos abriga um catálogo diferente e único no Brasil: trata-se de um acervo público de modelagem, com matrizes de estilistas brasileiros como Alexandre Herchcovitch, Jum Nakao e Karlla Girotto. Surgido em 2015, o Ateliê Vivo busca promover autonomia e conhecimento a partir de técnicas de moda e têxteis, oferecendo cursos e atividades sazonais e abrigando um laboratório onde a equipe cria trabalhos de arte, figurinos e cenografias. “A gente acredita em uma prática democrática, então a biblioteca e os cursos sempre foram gratuitos”, conta a cofundadora Gabriela Cherubini. Para isso, além de editais, o projeto busca doações, parcerias institucionais e apoios. “A modelagem é um documento histórico, esse é um acervo que trata da memória do design de moda brasileiro”, resume Carolina Cherubini, que também integra o projeto.

O Ateliê Vivo, na Barra Funda, é um dos locais na capital paulista que guardam itens emblemáticos relacionados ao universo da moda.

Alameda Nothmann, 999, Campos Elíseos. Grátis. Aberto de acordo com as atividades divulgadas no site e nas redes sociais do projeto. @atelievivo 79 | e


ALMANAQUE CENTRAL TÉCNICA DO THEATRO MUNICIPAL

Rua Pascoal Ranieri, 75, Canindé. Grátis. theatromunicipal.org.br/central-tecnica Figurino concebido pelo pintor Di Cavalcanti na década de 1950, para o Ballet do IV Centenário.

BIBLIOTECA DO IMS Especializada em fotografia, a biblioteca do Instituto Moreira Salles (IMS) abriga, no edifício na avenida Paulista, em torno de 250 publicações relacionadas ao universo da moda: seja pelo recorte temático, mas também pelo trabalho de artistas que de alguma forma transitaram por esse meio. Nesse acervo, o curador Miguel Del Castillo destaca, por exemplo, livros de nomes como Bob Wolfenson e Bea Feitler (1938-1982), brasileiros com atuação notória em editoriais de moda, mas também cita publicações de Annie Leibovitz e Maureen Bisilliat, mais ligadas ao jornalismo e à fotografia documental, além de um compilado de revistas Marie Claire de 1954 a 1979, e livros de fotógrafos africanos contemporâneos, como Seydou Keïta (1921-2001) e Malick Sidibé (1936-2016), ambos do Mali. O acervo pode ser consultado diretamente nas estantes ou por buscas online, que ajudam a definir quais publicações acessar quando visitar o espaço.

Avenida Paulista, 2424, Bela Vista. Grátis. ims.com.br

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No IMS, entre os milhares de títulos à disposição dos frequentadores, cerca de 250 dialogam com a história da moda.

Acervo Theatro Municipal

Levando o nome do cenógrafo Chico Giacchieri (falecido em 1985), o galpão no bairro do Canindé é dedicado tanto à preservação e ao restauro de cenários e figurinos de espetáculos líricos e de dança do Theatro Municipal de São Paulo quanto à criação de novas peças, com itens de 1948 até os dias atuais. Entre as raridades de moda que podem ser visitadas por ali estão roupas idealizadas por artistas como Di Cavalcanti (1897-1976), Burle Marx (1909-1994), Flávio de Carvalho (1899-1973) e Heitor dos Prazeres (1898-1966) para o Ballet do IV Centenário, de 1954, comemorativo do aniversário da cidade; figurinos de montagens da temporada lírica de 1951; além de trajes usados nos últimos anos em apresentações do Balé da Cidade. A Central Técnica de Produções Chico Giacchieri recebe tanto visitas individuais quanto grupos de 20 a 50 pessoas, entre quartas e sextas-feiras, das 10h às 14h, mediante preenchimento de formulário no site.


Ana Paula Mendonça Alves, coordenadora do curso de Design de Moda: acervo aberto a todos os interessados.

MODATECA DO SENAC Amostras de tecidos, itens de diversas épocas ligados à costura – como dedais e zíperes –, catálogos de marcas, criações de alunos, roupas e modelagens de grandes estilistas compõem o acervo da Modateca do Senac, localizada no campus Santo Amaro desde 2004, quando foi inaugurado, anexa à biblioteca da universidade. “A gente tenta incentivar a história da moda. Temos grande parte do figurino do Ney Matogrosso que o cantor ainda usa e que retorna para a gente fazer a conservação, temos peças da Fernanda Yamamoto, uma peça do Paco Rabanne (1934-

-2023)”, conta Ana Paula Mendonça Alves, coordenadora do curso de Design de Moda do Senac São Paulo. O local não é restrito a estudantes da instituição: quem quiser pode visitá-lo, de forma gratuita, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h, e aos sábados, das 8h às 14h. Pelo site, é possível também agendar passeios guiados.

Avenida Engenheiro Eusébio Stevaux, 823, Santo Amaro. Grátis. sp.senac.br/ blog/artigo/modateca-do-senac


P.S.

Cozinhar é preciso

Cresci em uma família simples, a mais velha de sete filhos. Observadora, guardava os gestos da minha mãe preparando pratos maravilhosos, do meu pai diante do fogão e os dois cozinhando. Antes de seguir uma receita, eu já conhecia os movimentos da cozinha. Quando cozinhamos, nunca começamos do zero. Há saberes que chegam às nossas mãos antes mesmo de receberem esse nome: um jeito de temperar, aproveitar, repartir e servir. Repetimos gestos, transformamos outros e construímos memórias. A cozinha alimenta o corpo, mas também constrói autonomia, preserva cultura e fortalece pertencimentos. Talvez por ter encontrado cedo na cozinha um lugar de autonomia, me preocupa perceber nos dias de hoje o quanto muitas famílias estão distantes da cozinha. Nem sempre por escolha, mas por jornadas extensas, desigualdades e mudanças nos modos de vida que as afastaram do preparo da própria comida, modificando sua relação com a alimentação. As consequências ultrapassam o prato. Quando deixamos de cozinhar, transferimos parte das escolhas para a indústria e nos tornamos mais dependentes de produtos prontos e ultraprocessados. Perdem-se também receitas, saberes ancestrais e momentos de convivência. Foi o amor pela cozinha que me levou à Nutrição. Ao concluir o curso, tornei-me a primeira pessoa da família a se formar na universidade, onde descobri que saúde e alimentação poderiam

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caminhar juntas. O que já significava memória e cuidado se tornou, também, ciência e profissão. Cheguei ao Sesc num processo seletivo e descobri uma instituição que compreende a alimentação de forma abrangente, em sua relação com a saúde e em suas dimensões educativa, cultural e social. Comer não é um ato somente individual, é também social e político e nossas escolhas são atravessadas pelo que está disponível, pelo clima, pelo tempo, pela renda, pela publicidade e pelas formas de produção. Aproximar as pessoas da comida de verdade é ampliar escolhas e promover saúde sem ignorar essas realidades. No Sesc, vejo essa compreensão ganhar forma nas ações programáticas e nas Comedorias, responsáveis por um trabalho que vai muito além da oferta de alimentos. Junto às demais ações de alimentação, elas aproximam as pessoas dos alimentos de verdade, de seus modos de produção e dos produtores locais, despertam o interesse pelo ato de cozinhar e abrem espaço para discussões importantes e informações de qualidade em tempos de tanta desinformação. Há 23 anos fiz da Nutrição minha profissão, mas a alimentação começou a me ensinar muito antes disso. A menina que levou seu primeiro bolo para a escola não imaginava quantas mesas encontraria pelo caminho. Quando vejo o mesmo entusiasmo nas pessoas que frequentam nossas ações no Sesc, me sinto realizada. Hoje, continuo acreditando que cozinhar é preciso, um gesto de autonomia que cuida da saúde, preserva histórias e aproxima pessoas.

Karen Daniele Aparecida Amorim Porcelli é graduada em Nutrição e pós-graduada em Nutrição Clínica, Nutrição Funcional, Gastronomia e Gestão e Fitoterapia e Substâncias Bioativas Aplicadas à Nutrição. Atua como coordenadora de alimentação no Sesc Sorocaba.

Lucas Blat

Aos oito anos, assumi o compromisso de levar um bolo para o aniversário da minha professora do 2º ano. Minha mãe disse que, se quisesse cumprir o combinado, teria de fazer o bolo sozinha. Abri o caderno de receitas e escolhi um bolo de leite com cobertura de chocolate. Durante o preparo, coloquei a farinha com a batedeira ligada, e uma nuvem branca tomou conta da cozinha. Apesar da bagunça, o bolo ficou maravilhoso.


OUTUBRO 2026


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Daniel Ducci (foto); Lucas Blat (colagem)

sescsp.org.br


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