Transformação Caminhos abertos por Patricia Hill Collins
CAPA: Obra Muari Ngana (2025), de Denis Moreira. Na série Prelúdio, pretérito, preto rito, o artista utiliza elementos do cotidiano como gravatas, plástico, bexiga palito, peças de crochê, compondo figuras que se colocam entre o rito e a invenção, o revelar e esconder, o corpo que dança, que ritualiza e que encena. A obra integra o projeto Frestas – Trienal de Artes 2026, realizado até 16/8 no Sesc Sorocaba, com curadoria das arte-educadoras Luciara Ribeiro, Naine Terena e Khadyg Fares. Mais informações em sescsp.org.br/frestas
Crédito: Denis Moreira
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Em estabelecimentos de uso coletivo é assegurado o acompanhamento de cão-guia. As unidades do Sesc estão preparadas para receber todos os públicos.
Presentes em todo estado, os centros culturais e esportivos do Sesc – Serviço Social do Comércio constituem espaços de convivência, aprendizagem e desenvolvimento, concebidos a partir de princípios de sustentabilidade em sua infraestrutura e em seus modelos de gestão, além de seguirem diretrizes de acessibilidade universal. Garantem, dessa forma, o acolhimento de públicos diversos, promovendo o encontro, a troca de saberes e o crescimento individual e coletivo.
Trata-se de uma presença que renova cotidianamente o compromisso firmado pelo empresariado do setor desde sua criação, em 1946, de promover o bem-estar dos trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo, e de seus familiares. Sua atuação educativa e transformadora ultrapassa esse público prioritário, alcançando a comunidade de maneira ampla e plural.
A entidade oferece uma programação diversificada nas áreas de lazer, cultura, esportes, turismo, saúde e alimentação, a exemplo de apresentações musicais, de teatro, dança e circo, além de cursos, oficinas, vivências esportivas e ações voltadas à educação ambiental e à valorização da pluralidade de saberes e vozes, ampliando repertórios e fortalecendo vínculos com a sociedade. Em 2026, ao celebrar 80 anos de sua criação, a instituição reafirma a relevância de um projeto comprometido com a qualidade de vida e com o fortalecimento da cidadania.
Abram Szajman Presidente do Conselho Regional do Sesc no Estado de São Paulo
Para ver longe
O surgimento de uma nova tecnologia costuma, historicamente, suscitar o debate sobre a maneira e o grau do impacto a ser provocado diante do que é vigente e conhecido. Não raras vezes, a novidade é vista como uma possível ameaça, a exemplo do que ocorreu com a invenção da televisão – que supostamente extinguiria o rádio. A passagem do tempo mostrou, no entanto, que um novo formato de mídia não representa necessariamente o declínio e abandono de outro.
A última década trouxe uma significativa transformação no mercado audiovisual, com a consolidação das plataformas de streaming. Se, por um lado, essa ferramenta aproximou o espectador de uma diversidade de produções de filmes e séries, por outro, levantou o questionamento sobre o quanto poderia interferir no cinema tradicional. Seria o fim da experiência coletiva, na sala escura, na apreciação da sétima arte?
Embora a mudança seja recente, o que se pode apontar é que se trata de experiências distintas, que não necessariamente concorrem, mas que se somam para um contato cada vez mais plural e diversificado com a produção audiovisual, já que algumas dessas plataformas são gratuitas, a exemplo do Sesc Digital. Reportagem desta edição da Revista E discute o contexto do audiovisual hoje e reflete sobre como o streaming pode ampliar o acesso e aproximar o público de propostas e obras de diferentes países. Boa leitura!
Luiz Deoclecio Massaro Galina Diretor Regional do Sesc São
Paulo
SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC
Administração Regional no Estado de São Paulo Av. Álvaro Ramos, 991 – Belenzinho
CONSELHO REGIONAL DO SESC EM SÃO PAULO
Presidente: Abram Abe Szajman
Diretor do Departamento Regional: Luiz Deoclecio Massaro Galina
Efetivos: Arnaldo Odlevati Junior, Benedito Toso de Arruda, Dan Guinsburg, Jair Francisco Mafra, José de Sousa Lima, José Maria de Faria, José Roberto Pena, Manuel Henrique Farias Ramos, Marcus Alves de Mello, Milton Zamora, Paulo Cesar Garcia Lopes, Paulo João de Oliveira Alonso, Paulo Roberto Gullo, Rafik Hussein Saab, Reinaldo Pedro Correa, Rosana Aparecida da Silva, Valterli Martinez, Vanderlei Barbosa dos Santos.
Suplentes: Aguinaldo Rodrigues da Silva, Antonio Cozzi Junior, Antonio Di Girolamo, Antônio Fojo Costa, Antonio Geraldo Giannini, Célio Simões Cerri, Cláudio Barnabé Cajado, Costabile Matarazzo Junior, Edison Severo Maltoni, Omar Abdul Assaf, Sérgio Vanderlei da Silva, Vilter Croqui Marcondes, Vitor Fernandes, William Pedro Luz.
Alex Lopes Granja, Alexandre Sousa Leopoldino, Aline Estela da Costa, Amanda Cristina de Souza, Amanda Martins Jacob, Amanda Soares Santos, Ana Carolina Massagardi, Andrea Carla Namura Rennar Salmazzi, Andrea Toledo Nascimento, Anita de Souza Cleto Damasco, Anna Raissa Costa Silva, Antonio Carlos F Barbosa, Bruna Piccirillo Damasceno, Bruna Zarnoviec Daniel, Camila Oliveira Silva, Carlos Daniel Dereste, Carolina Seixas da Silva Nicolau, Carolina Vidal Ferreira, Caroline Figueira Zeferino, Christi Lafalce, Cinthya de Rezende Martins, Clovis Ribeiro de Carvalho, Cristina Berti Ribeiro, Dalmir Ribeiro Lima, Daniel Figueira Veullieme, Daniela Cristina Ramos Del Nero, Davi Alexander Fernandes Costa, Deborah Dias Matos, Diego Polezel Zebele, Diego Vinicius Teixeira Ferreira, Edmar Rodrigues de Fátima Júnior, Eduardo Blaz Cicoti, Eduardo Garcia de Almeida, Elmo Sellitti Rangel, Eloá de Paula Cipriano, Fabio Henrique Miranda dos Anjos, Fernanda Maria Barbosa, Fernanda Porta Nova Ferreira da Silva, Flavia Teixeira S Coelho, Francisca Meyre Martins Vitorino, Gabriela Borges Sebastiao, Gabriela Camargo Das Graças, Gabriela Grande Amorim, Gabriella Pereira Rocha, Giuliano Jorge Magalhães da Silva, Gloria Rodrigues Ramos, Guilherme Dias Avila, Ivy Granata Delalibera, Janete Bergonci, Jean Karam Saikali, Joao Paulo Gabriel de Sena, Joao Ricardo Cotrim Dias, Johnny Walter Queiroz Abila, Jose Gonçalves da Silva Junior, Juliana Neves dos Santos, Juliane Barbosa Braga, Katia Araujo Patusso, Kimberlly Caroline Brito da Silva, Luciana Aparecida Miranda, Luiz Eduardo Rodrigues Coelho, Marcelo Baradel, Maria Rizoneide Pereira dos Santos, Mariana Martelli da Costa, Mariana Prado Luis Nunes, Marina Borges Barroso, Marina Reis, Mario Augusto Silveira, Mauro Marçal do Carmo, Michel Enrique dos Santos, Milena Ostan da Luz, Monique Mendonça dos Santos, Natalia Bonicontro Fonsati, Neide Alessandra Perigo Nascimento, Paula Caroline de Oliveira Souza, Paulo Henrique Vilela Arid, Rafael Lima Peixoto, Regiane Gomes da Conceição, Reinaldo Simon Costa, Renan Cantuario Pereira, Ricardo Tacioli Serafini, Sandra Carla Sarde Mirabelli, Sandra Ribeiro Alves, Sara Maria Da Silva, Talita Ferreira dos Santos, Thamires Magalhaes Motta, Thiago da Silva Costa, Viviane Machado Lemos.
Coordenação-Geral: Ricardo Gentil
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Editora-Executiva: Adriana Reis Paulics • Edição de Arte e Diagramação: Lucas Blat • Edição de Textos: Adriana Reis Paulics, Diego Olivares, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Revisão de Textos: Pedro P. Silva • Edição de Fotografia: Nilton Fukuda • Repórteres: Agnes Sofia Guimarães, Diego Olivares, João Cotrim, Julio Maria, Luna D'Alama, Marcel Verrumo, Marina Pereira e Rachel Sciré • Coordenação Editorial Revista E: Adriana Reis Paulics, Marina Pereira, Marcel Verrumo e Rachel Sciré • Propaganda: Edmar Júnior, Jefferson Santanielo, Julia Parpulov e Vitor Penteado • Apoio Administrativo: Juliana Neves dos Santos e Talita Ferreira dos Santos • Arte de Anúncios: Alexandre Amaral, Gabriela Batista Borsoi, Geysa Bernardes, Ian Herman, Leandro Vicente, Luiz Felipe Santiago, Wendell de Lima Vieira • Supervisão Gráfica: Rogerio Ianelli • Criação Digital Revista E: Cleber Paes e Rodrigo Losano • Circulação e Distribuição: Vanessa Zago
Jornalista responsável: Adriana Reis Paulics (MTB 37.488).
A Revista E é uma publicação do Sesc São Paulo, sob coordenação da Superintendência de Comunicação Social
Distribuição gratuita. Nenhuma pessoa está autorizada a vender anúncios. Esta publicação está disponível para retirada gratuita nas unidades do Sesc São Paulo e também em versão digital, em sescsp.org.br/revistae e no aplicativo Sesc SP para tablets e celulares (Android e IOS). Fale conosco: revistae@sescsp.org.br
O Circuito Sesc de Artes é um dos destaques deste mês de março, com atrações em diversas cidades
Cientista ambiental Carlos Nobre alerta sobre o estágio da emergência climática
Como o crescimento do streaming tem impactado a forma como se produz e assiste a cinema no Brasil
Os desafios das atletas que conciliam a vida de mãe com o esporte de alto rendimento
Apelidado de "bruxo", o multi-instrumentista Hermeto Pascoal experimentou novas sonoridades, sem se curvar ao convencional
Em cartaz no Sesc Sorocaba, Frestas –Trienal de Artes reconhece coautoria do território nas obras
dossiê entrevista cinema bio gráfica esporte
Artigos de Marcel Vieira Barreto e Barbara Demerov refletem sobre a cena da crítica cinematográfica
Caio Bonfim, medalhista olímpico na marcha atlética, conversa sobre suas origens, a rotina de treino e planos
A pensadora estadunidense
Patricia Hill Collins defende o poder da música e das perguntas certas
Conheça os diferentes tipos de orquestras, suas histórias, formações e instrumentos
Leonardo Piana (conto) e Marcela Novaes (ilustração)
em pauta encontros
André Queiroz
TESOUROS
Um dos episódios mais notáveis de nossa história está contido nesta caixa com o registro de shows apresentados no Rio de Janeiro em 1975, quando músicos, compositores, intérpretes e produtores da MPB se reuniram para defender a reforma do sistema de arrecadação e distribuição dos direitos autorais, em favor dos compositores.
produção artística GUARABYRA
DISCO 1
SÉRGIO RICARDO
JACKSON DO PANDEIRO
DISCO 2
MAURÍCIO TAPAJÓS
LUCINHA LINS
FAFÁ DE BELÉM
SIDNEY MILLER
DISCO 3
IVAN LINS
CÉSAR COSTA FILHO
DISCO 4
SÉRGIO SAMPAIO
WALTER QUEIROZ
SÁ & GUARABYRA
4 CDs + livreto com 116 páginas
Visite a loja virtual e conheça o catálogo completo sescsp.org.br/loja
/selosesc
A tragédia Medea, de Sêneca, transcende os limites das ilhas gregas e dos séculos e chega ao Sesc Consolação, onde fica em cartaz até 15 de março. O espetáculo apresenta a jornada de Medeia após Jasão, com quem vive, anunciar seu desejo de se casar com uma mulher mais jovem, a filha de Creonte, rei de Corinto. No palco, a história de vingança ganha ares épicos com a direção e os figurinos de Gabriel Villela, e a cenografia de J. C. Serroni.
Matheus
AÇÕES FORMATIVAS VOLTADAS AO FORTALECIMENTO DO FAZER CULTURAL NAS REGIÕES DE RIO PRETO, CATANDUVA, PRESIDENTE PRUDENTE, BIRIGUI E REGISTRO
A iniciativa busca promover o encontro entre gestores públicos e privados, produtores e demais profissionais da cultura com pesquisadores e estudiosos da área, estimulando o diálogo e a atuação conjunta. A proposta é ampliar a participação em políticas públicas, qualificar o uso dos instrumentos de fomento e contribuir para o aprimoramento das práticas e reflexões sobre a gestão cultural nos diferentes territórios.
Saiba mais em sescsp.org.br/sesc-em-percurso
DOSSIÊ
Atividades para todos os públicos
Em sua 18ª edição, Circuito Sesc de Artes amplia a programação cultural com mais de 90 atrações de música, literatura, teatro e turismo em 133 municípios do estado de São Paulo
Com foco na diversidade de públicos e uma pluralidade de mais de 90 atividades, o Circuito Sesc de Artes chega neste mês à sua 18ª edição. De 21/3 a 26/4, aos sábados e domingos, praças e espaços públicos de 133 municípios da Grande São Paulo, do interior e do litoral recebem sessões gratuitas de teatro, música, dança, circo, cinema, literatura, artes visuais e tecnologias para pessoas de todas as idades. O projeto contempla produções contemporâneas e que resgatam fazeres e culturas tradicionais.
Realizado em cidades onde não há uma unidade do Sesc, o Circuito propõe o encontro da população
do evento, com duração aproximada de duas horas e acompanhamento de guias credenciados pelo Ministério do Turismo.
Outra novidade desta edição é a presença da Loja Sesc, com a venda de produtos da marca Sesc, como livros, CDs, bolsas, mochilas, sacolas, itens de papelaria e vestimentas que valorizam a produção cultural brasileira e ampliam a experiência do público com a instituição.
Para Luiz Deoclecio Massaro Galina, Diretor Regional do Sesc São Paulo, “na ocupação de praças, parques e ruas, os lugares que servem de trajeto e repouso passam a abrigar novos encontros e vivências comunitárias. Sem perder o seu ritmo habitual, a cidade se impregna de uma atmosfera lúdica e contemplativa”.
O Circuito Sesc de Artes é uma realização do Sesc São Paulo em parceria com prefeituras municipais e sindicatos do comércio de bens, serviços e turismo. Mais informações em: sescsp.org.br/circuito com diferentes expressões artísticas, por meio de apresentações e de oficinas de artes e manualidades. Há também mediação de leitura, proporcionando o contato com diferentes obras literárias, para crianças, jovens e adultos. A animação conta ainda com um DJ responsável pela trilha sonora do dia.
As novidades deste ano incluem a ampliação das atividades com acessibilidade em Libras e da Mostra de Saberes, uma feira de artesãos locais. O turismo social, presente desde a edição de 2025, também foi estendido, contando com maior número de roteiros. São passeios a pé, gratuitos, nas proximidades do local de realização
Lugares que servem de trajeto e repouso passam a abrigar novos encontros e vivências comunitárias. Sem perder o seu ritmo habitual, a cidade se impregna de uma atmosfera lúdica e contemplativa
Luiz Deoclecio Massaro Galina, Diretor Regional do Sesc São Paulo
Matheus
José Maria
Durante o Circuito Sesc de Artes, praças e espaços públicos recebem atividades gratuitas para pessoas de todas as idades, de 21/3 a 26/4, aos sábados e domingos.
DOSSIÊ
ESCULPIR HISTÓRIAS
No ano em que Jorge dos Anjos completa sete décadas, o Sesc Pompeia abre a primeira mostra individual em homenagem ao artista mineiro em São Paulo, uma retrospectiva de sua carreira: Jorge dos Anjos - Riscadura de Fogo. Com curadoria de Lucas Menezes e pesquisa de Lorraine Mendes, a mostra reunirá esculturas de grandes dimensões, desenvolvidas em materiais como ferro e pedra sabão. A mostra
foi pensada em diálogo com a Área de Convivência da unidade e o projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi (1914-1992). As esculturas instauram narrativas não verbais feitas de dobras, cortes, volumes e tensões, nas quais a ancestralidade e a religiosidade africana e afro-brasileira atuam como fundamento. Em cartaz entre 17/3 e 2/8. Mais informações em: sescsp.org.br/jorgedosanjos
Sesc Pompeia realiza primeira mostra individual em homenagem ao artista mineiro Jorge dos Anjos em São Paulo.
DESCARTE CORRETO
O Sesc São Paulo passa a integrar, a partir deste mês, a campanha Remédio: não usou, descartou!, parceria com o Grupo Mulheres do Brasil liderado pela empresária Luiza Helena Trajano e seu Projeto Ciência na Saúde. A iniciativa pretende sensibilizar e orientar sobre o
descarte correto de medicamentos usados e vencidos, que podem impactar a saúde da população pela contaminação da água e do solo. A adesão do Sesc à campanha visa fortalecer as ações educativas sobre o tema. Para marcar o início da campanha, no dia 19/3, às 19h, será
Direitos e o território
De 4 a 15/3, o projeto Direitos Humanos para Todas as Pessoas é realizado em 33 unidades do Sesc na capital, Grande São Paulo, interior e litoral do estado. A iniciativa aborda diversas dimensões dos diretos humanos e o tema “Territorialidades” orienta as atividades deste ano, fortalecendo as redes locais e promovendo reflexões sobre o espaço como elemento central na construção desses direitos. Serão realizados debates, oficinas, intervenções, cursos e circulação de ações artísticas. Destaque para os Laboratório de Direitos Humanos – LAB DH realizado em 18 unidades, com formação e ações de trocas de experiências e fortalecimento de redes locais entre coletivos, organizações, instituições e lideranças comunitárias. Também será promovido o Circuito Sesc de Direitos Humanos, com a circulação e ativação de parcerias, incluindo atividades em municípios como Diadema, Araras, Jacareí, Descalvado e Patrocínio Paulista. Leia mais em: sescsp.org.br/ projetos/direitos-humanos.
realizada a roda de conversa "Saúde e sustentabilidade: a importância do descarte correto de medicamentos", no Sesc Vila Mariana, com a presença dos professores Paulo Eduardo Artaxo Netto e Soraya Soubhi Smaili, e da psicóloga Késia Rodrigues, dentre outros nomes.
Matheus José Maria
LITERATURA EM FESTA
Nos dias 13, 14 e 15/3 será realizada a 2ª edição da FLOZ – Festa Literária de Osasco, no Centro de Eventos Pedro Bortolosso, no município de Osasco. O evento literário gratuito, realizado pelo Sesc, homenageará a escritora Carolina Maria de Jesus e contará com exposição de editoras independentes,
debates, oficinas, intervenções e apresentações artísticas. O evento contará também com atividades em comemoração aos 20 anos do BiblioSesc, projeto nacional da instituição que utiliza caminhões adaptados com bibliotecas itinerantes para promover o acesso aos livros e incentivar o hábito da leitura. A programação terá
a presença de autores e autoras como Kiusam de Oliveira, Barbara Carine, Itamar Vieira Júnior, Marcelino Freire, Roberta Martinelli e André Vianco, entre outros, além de apresentações musicais ao final de cada dia, para propiciar o diálogo entre a literatura e outras linguagens artísticas. Saiba mais: sescsp.org.br/osasco
O escritor Itamar Vieira Júnior é um dos autores convidados da 2ª edição da FLOZ – Festa Literária de Osasco.
Formação em Acessibilidade Cultural
O Sesc Itaquera realiza, a partir deste mês, o curso online "Como tornar o meu projeto acessível?" iniciativa voltada para o letramento anticapacitista de gestores, produtores, articuladores culturais e artistas. O objetivo é apresentar caminhos e práticas que ampliam a acessibilidade em projetos
culturais, garantindo inclusão plena e participação de pessoas com deficiência. A programação começa com o módulo dedicado à música, composto por oficinas online ministradas pela cantora, compositora e pesquisadora em acessibilidade estética Amanda Mitz, além de mediação conduzida por Manoela Back, especialista
em cultura, literatura e direitos humanos. A atividade ocorre de 24 a 27/3, das 20h às 22h, com 50 vagas disponíveis. Como parte complementar do curso, haverá o show Quixote na Surdina, do artista de sons Quixote, que se apresenta na unidade em 28/3, às 15h. Mais informações e inscrição em: sescsp.org.br/itaquera
FAÇA SUA CREDENCIAL PLENA
A Credencial Plena do Sesc é um benefício gratuito para pessoas com registro em carteira, que são estagiárias, temporárias, se aposentaram ou estão desempregadas há até dois anos em empresas do comércio de bens, serviços e turismo e seus dependentes familiares. Com a Credencial Plena você tem acesso prioritário e descontos na programação e serviços pagos do Sesc.
Qual é a validade da Credencial Plena?
A Credencial Plena tem validade de até 2 anos - para desempregados, a validade é de 24 meses contados a partir da data de rescisão do contrato de trabalho.
Como fazer a Credencial Plena?
On-line pelo aplicativo
Credencial Sesc SP ou pelo site centralrelacionamento.sescsp.org.br
Se preferir, nesses mesmos canais, é possível agendar horários para realização desses serviços presencialmente, nas Centrais de Atendimento das unidades.
Quem pode ser dependente na Credencial Plena?
• Cônjuge ou companheiro de união estável de qualquer gênero
• Filho, enteado, irmão, neto, tutelado e pessoa sob guarda com até 24 anos
• Pai, mãe, padrasto e madrasta
• Avôs e avós
Relacionamento com Empresas
É o programa que facilita o acesso ao credenciamento dos funcionários das empresas parceiras dos ramos do comércio de bens, serviços e turismo. Nessa parceria, além do credenciamento, os aproximamos de nossa vasta programação e serviços. Saiba mais em sescsp.org.br/empresas
Acesse o portal para saber sobre a Credencial Plena do Sesc
Ricardo Ferreira
Ações socioeducativas e artísticas refletem sobre as relações com o território como elemento central na construção dos direitos humanos.
EM 33 UNIDADES DO SESC SÃO PAULO
Abertura com
MACAÉ EVARISTO (MINISTRA DOS DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA), BEL SANTOS MAYER, CRIOLO, DANI NEGA E THIAGO AMPARO
Sesc Pompeia • 4/3 • 19h
sescsp.org.br/direitoshumanos
Enquanto há tempo
Cientista ambiental Carlos Nobre analisa os limites da diplomacia climática e defende a urgência de agir antes do ponto de não retorno
POR JOÃO COTRIM
Existem cientistas dedicados exclusivamente a números, modelos e projeções. Outros aprendem a escutar o tempo — não apenas o tempo meteorológico, mas também o histórico, o social, o humano. Carlos Afonso Nobre pertence a essa segunda linhagem.
Climatologista, pesquisador e gestor de políticas públicas, ele construiu ao longo de mais de quatro décadas uma trajetória que se confunde com a consolidação da ciência do clima no Brasil. Nos anos 1970, ainda engenheiro eletrônico recém-formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), mudou-se para Manaus (AM) para trabalhar no então Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). O encontro com a floresta tornou-se decisivo: primeiro para sua formação intelectual, depois para a maneira como o país passou a compreender o papel da Amazônia no equilíbrio climático global.
Foi ali que Nobre encontrou o eixo ético e científico de sua vida. Inicialmente como técnico de engenharia, dando suporte a experimentos de campo, aproximou-se do cotidiano da pesquisa e do pensamento científico. Instigado pelo geneticista, engenheiro agrônomo e professor Warwick Kerr (1922-2018), diretor do INPA à época, decidiu se tornar cientista. O doutorado em Meteorologia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, lhe ofereceu as ferramentas
matemáticas e conceituais para compreender o clima como um sistema complexo, regido por interações delicadas entre atmosfera, oceanos, florestas e sociedades humanas.
O retorno ao Brasil, em janeiro de 1983, marcou o início de uma dedicação contínua à Amazônia. Vieram as medições de campo, o desenvolvimento de modelos climáticos pioneiros e a coordenação do Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia [conhecido também pela sigla LBA (The Large Scale BiosphereAtmosphere Experiment in the Amazon)], um dos maiores esforços científicos já realizados para compreender a relação entre floresta e clima. Paralelamente, Nobre teve papel essencial na construção de instituições estratégicas para o país, como o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) e o Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CSST), ambos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN).
Essa atuação o levou também ao cenário internacional. Integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), colaborou na elaboração dos relatórios que consolidaram o consenso científico sobre o aquecimento global. Em 2007, o trabalho coletivo do IPCC foi reconhecido com o Prêmio Nobel da Paz — um marco simbólico que projetou, para além da comunidade científica, a centralidade do clima na agenda mundial.
A transição energética não é apenas necessária, ela é economicamente vantajosa
Da experiência amazônica inicial aos debates mais recentes da Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, a COP30, realizada em novembro de 2025 na cidade de Belém (PA), sua trajetória é acompanhada por uma questão persistente, formulada ao longo do tempo com gravidade crescente: o que acontece quando a floresta deixa de respirar em sintonia com o planeta?
Nos últimos anos, sua agenda mudou. Sem abandonar os alertas sobre os chamados pontos de não retorno — o limiar a partir do qual sistemas naturais ultrapassam limites críticos e se transformam de modo irreversível —, Nobre passou a concentrar energia na busca de alternativas concretas. Ganharam centralidade a sociobioeconomia da floresta em pé, o reconhecimento dos saberes tradicionais, a formação de novas gerações de cientistas e a construção de modelos de desenvolvimento compatíveis com a complexidade amazônica.
Nesse contexto, a COP30, realizada pela primeira vez no interior de uma floresta tropical, assumiu para ele um sentido ambivalente. Reuniu avanços simbólicos e científicos relevantes, mas, em sua visão, permaneceu aquém da urgência imposta por uma crise climática que deixou de ser projeção e passou a se manifestar no presente.
Nesta entrevista, Carlos Nobre revisita sua trajetória pessoal e intelectual, faz um balanço crítico da COP30 e reflete sobre o futuro a partir da responsabilidade coletiva.
Quais caminhos o levaram a se dedicar à temática ambiental e como essa motivação evoluiu diante dos desafios climáticos atuais? Eu me tornei um cientista ambiental quase por acaso, mas um acaso muito bem orientado. Sou engenheiro eletrônico de formação e, logo depois de me formar no ITA, em 1974, fui trabalhar no Instituto Nacional de Pesquisas
da Amazônia, em Manaus, dando suporte técnico a experimentos científicos. Ali, convivendo diariamente com pesquisadores e com a própria floresta, fui sendo atravessado por uma inquietação profunda.
A Amazônia não era apenas um objeto de estudo; ela se impunha como uma questão civilizatória. Um personagem fundamental nesse processo foi o professor Warwick Kerr, então diretor do instituto. Ele me perguntou: “Carlos, por que você não se torna cientista?”. Aquilo abriu uma porta. Fui fazer doutorado em Meteorologia no MIT e, quando voltei ao Brasil, em janeiro de 1983, comecei imediatamente a me dedicar à Amazônia. Desde então, são mais de quarenta anos estudando a interação entre floresta e atmosfera. Nos últimos anos, porém, minha motivação mudou. Passei décadas alertando para os riscos e, a partir de 2018, percebi que precisava gastar o final da minha carreira tentando construir soluções. Foi assim que nasceu o projeto Amazônia 4.0, a ideia de um Instituto de Tecnologia da Amazônia e um engajamento ainda maior com políticas públicas e formação de jovens.
No que consiste o projeto Amazônia 4.0 e como ele traduz, na prática, a ideia de bioeconomia da floresta em pé?
O Amazônia 4.0 parte de uma ideia simples: a floresta vale muito mais em pé do que derrubada. A sociobioeconomia da floresta em pé propõe gerar valor econômico a partir da biodiversidade, sem desmatar. Para isso, é fundamental integrar ciência, tecnologia e conhecimento tradicional. Criamos o conceito de laboratórios criativos — biofábricas portáteis — a serem instalados na própria Amazônia para capacitação de comunidades produtoras, onde produtos da floresta (como cacau, açaí, castanha, óleos e outros ativos da biodiversidade) podem ser transformados localmente, com alto valor agregado. Outro eixo central é a formação
de pessoas. Precisamos capacitar jovens da região em ciência, tecnologia e empreendedorismo. A rastreabilidade também é essencial para garantir que os produtos sejam sustentáveis e que os benefícios cheguem a quem realmente preserva a floresta. O Amazônia 4.0 é uma visão de futuro que aponta a Amazônia não como um problema, mas como uma das grandes soluções para a crise climática.
Diante do cenário climático atual, o que representou para o Brasil sediar a COP30 em Belém (PA)? Em que medida isso reposiciona o país no debate internacional?
A COP30 foi histórica por várias razões. Foi a primeira conferência do clima realizada em uma floresta tropical e a primeira a integrar de maneira tão explícita clima e biodiversidade. Também foi a COP com maior participação indígena da história, tanto dentro da zona de negociações quanto nas ruas de Belém, com manifestações muito
conscientes e legítimas. Do ponto de vista simbólico, isso reposiciona o Brasil como um ator central no debate climático global, especialmente depois de anos de isolamento internacional. O país voltou a liderar, a propor caminhos.
A ideia de zerar o desmatamento até 2030 e de acelerar a transição energética foi colocada com força pela presidência da COP30 e enfatizada pelo presidente Lula. Por outro lado, a COP funciona por consenso. E, infelizmente, muitos países produtores de combustíveis fósseis bloquearam decisões mais ambiciosas. Então, o reposicionamento existe, mas ele ainda esbarra em limites geopolíticos muito claros.
O senhor participou da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a ECO-92. Que memórias guarda daquele momento e que paralelos traça com a COP30?
A Rio-92 foi um divisor de águas. Foi ali que o mundo, pela primeira vez, reconheceu coletivamente o risco ambiental global. Ali, nasceram as convenções do
clima, da biodiversidade e da desertificação. Havia um ambiente de esperança muito forte, uma sensação de que estávamos inaugurando uma nova era. Trinta e três anos depois, o contraste é duro. Sabemos muito mais, temos dados, modelos, evidências irrefutáveis.
Mas avançamos menos do que deveríamos. A COP30 mostrou avanços importantes — sobretudo na centralidade da ciência e na participação social —, mas também deixou claro que continuamos patinando quando o assunto é reduzir rapidamente as emissões.
Ao olhar em perspectiva, de lá para cá, é possível considerar que avançamos na proteção do planeta? Onde houve progresso e onde seguimos estagnados? Avançamos no diagnóstico, sem dúvida. A ciência hoje é muito clara sobre o que precisa ser feito. Também houve um avanço na redução da taxa de crescimento das emissões. Se continuássemos no ritmo dos anos 1990, estaríamos caminhando para um aquecimento de mais de 4 °C até o fim do século. Mas estamos estagnados na ação. As metas colocadas pelos países ainda nos levam a ultrapassar 2 °C, talvez 2,5 °C. Isso significa ultrapassar pontos de não retorno na Amazônia, nos recifes de corais, nas grandes camadas de gelo, no permafrost [camada abaixo da superfície que permanece congelada] e muitos outros. O progresso existe, mas é perigosamente insuficiente.
Na COP30, ampliou-se o reconhecimento de outras fontes de conhecimento científico além do IPCC. Como o senhor avalia essa mudança? Eu participei de vários relatórios do IPCC e tenho enorme respeito por ele. Mas o IPCC trabalha em ciclos longos. O próximo grande relatório só sai em 2029. A emergência climática não pode esperar. O Pavilhão de Ciência Planetária, que criamos na COP30, levou para o centro das negociações a ciência mais recente, conectando clima, biodiversidade, saúde e justiça social. Isso não enfraquece o IPCC; complementa. A ciência precisa estar viva, atualizada e presente no processo político.
O senhor defendeu a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). Como ele funcionaria e que garantias seriam essenciais para seu bom funcionamento? Hoje, do ponto de vista técnico, nós já sabemos fazer isso muito bem. Os sistemas de monitoramento por satélite permitem acompanhar, com altíssima precisão, o que
acontece em cada hectare de floresta tropical. Isso não é mais o problema. O grande desafio é a governança. O TFFF [Tropical Forests Forever Facility, em inglês] foi pensado para ser diferente de muitos mecanismos anteriores. A ideia é criar um fundo permanente, capaz de mobilizar algo em torno de 125 bilhões de dólares, usando os rendimentos desse capital para remunerar, de forma contínua, os países que comprovadamente mantêm suas florestas em pé e com muito baixas taxas de desmatamento. Para funcionar, esse fundo precisa ter regras muito claras. Transparência total, critérios objetivos baseados em desempenho e mecanismos que garantam que o dinheiro chegue a quem realmente protege a floresta. Isso inclui povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos produtores, que precisam ser reconhecidos como protagonistas desse processo, não como beneficiários secundários. Não sou economista, mas acredito que esse fundo pode mudar radicalmente a lógica da preservação se for bem implementado. Em vez de depender de projetos pontuais ou de recursos incertos, a floresta passa a gerar um fluxo permanente de valor. É uma mudança estrutural: preservar deixa de ser apenas um custo e passa a ser parte de uma estratégia econômica de longo prazo.
A COP30 instituiu um mecanismo internacional de transição energética justa, mas transformá-lo em prática concreta ainda é um desafio. Que caminhos econômicos e sociais podem dar materialidade a esse princípio, especialmente para trabalhadores, comunidades tradicionais e populações da Amazônia?
A transição energética não é apenas necessária, ela é economicamente vantajosa. Energia solar e eólica já são mais baratas que as fontes fósseis em muitos contextos. Na Amazônia, comunidades isoladas ainda dependem de geradores a diesel caríssimos e poluentes. Substituir isso por energias renováveis melhora a qualidade de vida, reduz custos e emissões. Uma transição justa passa por investir nessas soluções, capacitar comunidades e criar alternativas econômicas locais.
Zerar as emissões globais até 2040, segundo o senhor, é condição decisiva para evitar pontos de não retorno. Como avançar nessa direção diante de países e economias ainda profundamente dependentes de combustíveis fósseis?
Esse é o maior desafio político e cultural do nosso tempo. A ciência precisa ocupar cada vez mais espaço
A ciência já cumpriu seu papel ao mostrar os riscos. Agora, o desafio é agir com rapidez e responsabilidade. Se conseguirmos avançar nessa direção, ainda há um futuro possível.
Zerar as emissões até 2040 depende menos de tecnologia — que já existe — e mais de decisões políticas e de uma
mudança cultural profunda
nas COPs e no debate público. Já não falamos mais em “mudanças climáticas”, mas em emergência climática. Ainda assim, existe hoje um risco democrático muito claro. Se perguntarmos qual é o país que mais formou cientistas do clima, que mais investiu em ciência climática e que mais contribuiu para o IPCC, a resposta é Estados Unidos. E, mesmo assim, foi um dos países que mais avançaram na ciência do clima que elegeu um presidente negacionista. Isso mostra que o problema não é falta de conhecimento, é político e cultural. Esse fenômeno não ocorre apenas nos Estados Unidos. Está acontecendo no mundo inteiro. Democracias vêm elegendo, cada vez mais, líderes populistas e negacionistas. No Brasil, por exemplo, vimos a eleição de muitos parlamentares e gestores que apoiaram o chamado “PL da devastação”, inclusive em grande parte dos municípios amazônicos. Aqui o tema aparece muito ligado ao uso da terra, mas é um movimento global. Se as sociedades continuarem elegendo quem nega a realidade científica, teremos enorme dificuldade de agir à altura da crise. Zerar as emissões até 2040 depende menos de tecnologia — que já existe — e mais de decisões políticas e de uma mudança cultural profunda.
Que papel as novas gerações podem assumir diante de uma emergência climática que já se manifesta no presente?
A COP30 teve dois aspectos muito marcantes. Foi a conferência com a maior participação indígena da história e também aquela que mais atraiu jovens. Muitos circularam pelos espaços da COP, acompanharam debates, buscaram diálogo. Eu conversei com vários deles ao longo dos dias, e isso revela um nível de envolvimento
muito forte. A minha geração foi a que produziu o diagnóstico. A ciência mostrou os riscos há décadas, mas as emissões continuaram crescendo. Agora, precisamos capacitar os jovens para assumir uma liderança efetiva. Quando eles passarem a votar, a ocupar cargos públicos, a atuar no setor privado ou na agricultura, vão perceber que não há mais como sustentar o modelo antigo.
Qual legado da COP30 o senhor considera fundamental, pensando nos efeitos que essa conferência pode deixar para as próximas décadas?
Que ela seja lembrada como o momento em que o mundo tentou, de forma clara, traçar mapas do caminho para sair da crise — ainda que não tenha conseguido implementá-los de imediato. Se, nas próximas COPs, esses caminhos forem retomados e aprofundados, a COP30 terá cumprido um papel histórico.
Diante de tantos alertas, ainda é possível esperançar?
Nós não temos o direito de desistir. A emergência climática já está acontecendo. As temperaturas continuam subindo, os eventos extremos se intensificam. Ondas de calor já causam mais de 500 mil mortes por ano no mundo e, no Brasil, estudos recentes apontam cerca de 14 mil mortes anuais. Isso nos coloca diante de uma escolha muito clara. A ciência já cumpriu seu papel ao mostrar os riscos.
Agora, o desafio é agir com rapidez e responsabilidade. Se conseguirmos avançar nessa direção, ainda há um futuro possível. Se não, estaremos assumindo conscientemente um caminho de colapso. E isso, para mim, é inaceitável.
Fundada em 2020, a orquestra apresenta obras que expressam parte da cultura de Hong Kong, combinando instrumentos tradicionais chineses e ocidentais. O premiado programa A Thousand Colours reúne artistas da música clássica, do jazz e da música popular em composições que celebram o caráter único e o contexto local da cidade.
THE HONG KONG LEGENDS ENSEMBLE A Thousand Colours
DIREÇÃO DE DR CHI-CHEUNG LEUNG
apoio
realização
Entre o sofá
E A SALA ESCURA
O impacto do streaming nas formas de produzir, exibir e assistir a produções audiovisuais no Brasil, um mercado cada vez mais disputado
POR DIEGO OLIVARES
Em teoria, parece o sonho de qualquer amante de cinema: ter milhares de filmes disponíveis a um toque no controle remoto ou no celular. A popularização do streaming criou a sensação de um cardápio infinito, sempre aberto, no qual títulos de diferentes épocas, países e gêneros convivem lado a lado, prontos para serem assistidos a qualquer hora. Em poucos anos, as plataformas ocuparam o espaço deixado pelo fim das locadoras, passaram a fazer parte da rotina doméstica e levaram o audiovisual a regiões que nunca tiveram uma sala de cinema por perto. Hoje, assistir a um filme deixou de ser um programa eventual para se tornar um hábito cotidiano.
À medida que os streamings se consolidaram no Brasil e passaram a disputar de forma intensa a atenção dos espectadores, a abundância também redesenhou as regras do jogo. O impacto não se restringe ao sofá de casa. Ele alcança a forma como os filmes são produzidos, as escolhas criativas feitas por realizadores, as estratégias de exibição das salas de cinema e a própria circulação das obras, muitas vezes diluídas em catálogos extensos, guiados por algoritmos. Em um dos maiores mercados de vídeo sob demanda da América Latina, entender o que mudou na relação entre plataformas, cinemas e público ajuda a compreender os rumos do audiovisual brasileiro no cenário atual.
De acordo com uma pesquisa do Instituto Nexus, divulgada em agosto de 2025, 72% dos brasileiros das classes A, B e C consomem algum streaming de vídeo. Netflix, Prime Video, Globoplay, HBO Max e
Disney+ são os cinco serviços mais contratados. O levantamento também apontou que, na hora de decidir qual tipo de conteúdo assistir, os filmes são a principal opção, aparecendo em 81% das respostas.
Além das plataformas por assinatura mais conhecidas e suas milhares de opções de gêneros, há ainda aquelas que atuam em nichos específicos, como o cinema de autor (Mubi, Filmicca), terror (Darkflix), produções apenas do século 20 (Oldflix), além das alternativas gratuitas Spcine Play, Itaú Cultural Play e Sesc Digital [leia mais em Cinema que ilumina], entre outras.
Para aumentar a fartura cinéfila, o Ministério da Cultura (Minc) promete ainda para este semestre o lançamento do Tela Brasil, que conta com investimento de 4,4 milhões de reais. O portal de streaming deve disponibilizar mais de 500 obras nacionais e tem como compromisso destacar títulos com relevância educacional, formativos e de impacto social, dando espaço para a pluralidade das identidades de gênero, cultural e étnico-racial. O catálogo é resultado de um trabalho conjunto entre o Minc e a Cinemateca Brasileira, a Fundação Cultural Palmares, a Fundação Nacional de Artes (Funarte) e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), instituição pública vinculada à Secretaria do Audiovisual.
ERA UMA VEZ NO CINEMA
O crescimento do interesse do público por ver filmes sem sair de casa traz consequências inevitáveis para as salas de cinema. “A gente nunca teve medo de o streaming roubar o espaço do cinema, porque
Juliana Brito, CEO do Grupo Belas Artes, que investe nas duas frentes: além do tradicional espaço na Rua da Consolação, em São Paulo, o cinema também tem sua própria plataforma digital.
A GENTE NUNCA TEVE MEDO DE O STREAMING ROUBAR O ESPAÇO DO CINEMA, PORQUE
CINEMA PARA A GENTE É UMA EXPERIÊNCIA,
NÃO É SÓ VER O FILME
Juliana Brito, CEO do Grupo Belas Artes
Selton Mello e Matheus Nachtergaele levaram mais de 4 milhões de pessoas aos cinemas em 2025 para assistir a O Auto da Compadecida 2, que depois foi para o streaming.
cinema para a gente é uma experiência, não é só ver o filme”, defende Juliana Brito, CEO do Grupo Belas Artes, responsável pelo tradicional cinema de rua localizado na Rua da Consolação, em São Paulo (SP). “Mas percebemos uma mudança na forma como as pessoas consomem cinema, principalmente depois da pandemia”, completa. “De repente, o que os cinemas ofertavam não era exatamente o que as pessoas queriam assistir. E o streaming, por outro lado, te dá uma possibilidade de escolher o que você quer entre muitas e muitas opções”.
Curiosamente, pouco antes do isolamento social forçado pela covid-19, o Belas Artes também havia lançado sua própria plataforma de streaming, o À La Carte, que começou a operar no final de agosto de 2019. “A faísca inicial veio de um desejo próprio, porque com as opções de streaming que existiam na época, a gente não conseguia encontrar os filmes que gostava de assistir”, relembra Juliana. Hoje, por meio do acervo do serviço, é possível assistir a produções de quase 60 países, do Camboja à Estônia, passando por Butão, Bolívia, Islândia, Mongólia e outros territórios raramente vistos nas
Laura Campanella
telas brasileiras, além de longas argentinos, franceses, italianos e espanhóis. Há ainda grandes clássicos de Hollywood, com coletâneas de diretores famosos como Billy Wilder (1906-2002) e Alfred Hitchcock (1899-1980).
Mas o carro-chefe do grupo continua sendo o tradicional complexo de seis salas, inaugurado em 1967. Como estratégia para atrair e fidelizar o público, desde o final da pandemia o espaço tem reforçado a aposta numa programação de eventos diversos, que vai além da exibição dos filmes, contemplando debates, apresentações especiais e até projeções acompanhadas de música ao vivo. “Temos o desejo de ser um ponto de encontro, e um centro cultural, mais do que um cinema”.
Para Adhemar Oliveira, gestor do Espaço Petrobras de Cinema, localizado na Rua Augusta, e um dos sócios da Cinesala, em Pinheiros, ambos na capital paulista, é justamente a experiência coletiva o grande diferencial das salas em relação às plataformas online. “O homem é um ser gregário e continuará sendo. A invenção da sala de cinema respondeu a esta constatação”, afirma, lembrando ainda que foi justamente o caráter comunitário dessa expressão artística que permitiu sua popularização. “As salas de cinema de rua, além do encontro que proporcionam, possuem uma arquitetura que privilegia a continuidade desse encontro, com livraria, café e outras acomodações extrassala”, reforça.
O setor ainda se recupera do baque da pandemia. Em 2019, último ano antes do período em que as salas ficaram fechadas, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) registrou 172,2 milhões de ingressos vendidos nas bilheterias de todo o país. O número caiu drasticamente para 39 milhões em 2020 e vinha se recuperando desde então, chegando ao patamar de 126 milhões em 2024. Porém, o ano passado registrou nova queda de público: 109,6 milhões. Em contrapartida, o número de salas operando em solo nacional aumentou para 3.554, recorde histórico desde a criação da agência, em 2001.
“O streaming substituiu digitalmente todos os formatos de apresentação do conteúdo cinematográfico e alterou sua forma de consumo”,
reconhece Oliveira. “É fato que a revolução digital não se restringiu ao entretenimento, mas alterou todas as relações de consumo da humanidade.”
TEMPOS MODERNOS
Se o crescimento do streaming mexeu com as definições do que pode ser considerado cinema, ao levantar a dúvida se a consagrada alcunha de “sétima arte” pode ser igualmente aplicada ao conteúdo visto no sofá de casa, também tem alterado o panorama por trás das câmeras, à medida que as grandes plataformas internacionais realizam suas produções originais com profissionais e temáticas brasileiras.
A cineasta Vera Egito vive essa realidade de perto. Na última década, ela alternou seus trabalhos como diretora entre a assinatura autoral dos longas-metragens Amores urbanos (2016) e A batalha da Rua Maria Antônia (2023) com produções realizadas sob encomenda para as plataformas online, como a recente série Tremembé (2025), da plataforma Prime Video.
“Quando te chamam para desenvolver um projeto no streaming, como foi Tremembé, é algo que acontece dentro de várias expectativas. O dinheiro investido ali tem que retornar, é um produto comercial. Está sendo feito a partir de pesquisas de mercado e métricas”, conta. “Quando eu faço um filme autoral, os compromissos são outros. É outro mundo. Para fazer A batalha da Rua Maria Antônia, eu passei dez anos pesquisando o caso real, a ditadura militar, fazendo conexões da política atual brasileira com esse tema, como ficcionalizar isso. Parte de um interesse pessoal”.
A série sobre o presídio que abriga criminosos famosos se tornou um grande sucesso nas semanas após sua estreia, gerando curiosidade e uma imensidão de comentários na internet. A repercussão também foi grande no mundo real: “O negócio se expandiu, virou um fato popular, gerou debates sobre sociologia, psicologia, sistema prisional”, diz Vera. O relato prova que, em alguns casos, o streaming é capaz de gerar uma experiência coletiva, embora de outra natureza.
Nessa lógica de linha de montagem, com produções feitas em sequência e sob medida para gerar engajamento, mesmo que efêmero, contar com mão de obra qualificada é algo essencial. “Tremembé empregou 1.700 pessoas”, afirma a diretora. “A principal mudança no mercado é esta: ter mais uma janela em que a gente possa trabalhar, além da TV e do cinema. Mas é claro que ainda existem milhares de coisas a serem discutidas, justamente por serem empresas estrangeiras atuando aqui no mercado nacional”, acrescenta.
NA FORMA DA LEI
As discussões sobre o impacto do streaming no audiovisual brasileiro se intensificaram em 2025, quando a regulamentação das plataformas entrou em pauta na Câmara dos Deputados, em Brasília.
Marina Rodrigues, consultora de políticas públicas para a área, é taxativa sobre o estado atual da indústria: “Existe uma subserviência muito grande, e isso é prejudicial para o mercado nacional”.
De acordo com ela, as grandes empresas de streaming aproveitaram o vácuo causado pela paralisação dos editais lançados pela Ancine, entre 2019 e 2022, para solidificar sua presença. “Quem supriu essa demanda de trabalho foram as plataformas, que começaram a fazer os seus originais brasileiros com muito mais força do que anteriormente”, explica.
Vieram novos modelos de contrato, aos quais os profissionais do setor tiveram que se adaptar. “Até 2016, 2017, havia um ambiente no setor audiovisual em que você conseguia ter um emprego dentro de uma produtora. Hoje em dia, as produtoras não conseguem mais fazer isso porque não tem mais o
A cineasta Vera Egito no set de Tremembé, produção nacional que fez sucesso no Prime Video.
A PRINCIPAL MUDANÇA NO MERCADO
É ESTA: TER MAIS UMA JANELA EM
QUE A GENTE POSSA TRABALHAR,
ALÉM DA TV E DO CINEMA. MAS É CLARO QUE AINDA EXISTEM MILHARES DE COISAS A SEREM DISCUTIDAS.
Vera Egito, cineasta
mesmo fluxo de edital público que tinha antigamente”, compara Marina. “Elas trocaram os editais públicos pelo streaming, que opera nessa condição de demanda, e vai contratar a sua empresa quando precisar fazer um original para a plataforma”.
Neste contexto, sem uma política pública de fomento solidificada no país e a dependência crescente da demanda dos streamings, corre-se o risco de o volume de trabalho ficar sujeito às determinações das plataformas. Em 2024, por exemplo, surgiram relatos de que a Prime Video diminuiu seu volume de investimento em produções brasileiras em relação aos anos anteriores, gerando a demissão de funcionários. Já a Netflix começou 2026 com a inauguração de um novo escritório em São Paulo, empreitada em que injetou 141 milhões de reais na economia da cidade.
O cineasta Gustavo Amora, conselheiro do centro-oeste da Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro (API) analisa esse cenário com um grau de ceticismo. “Existem essas promessas de investimento milionário, mas normalmente são meia dúzia de empresas de São Paulo que são chamadas
para produzir conteúdo. Bem diferente da política de editais, em que há uma descentralização”, declara.
A API é uma das entidades mais envolvidas na questão da regulamentação, e tem buscado conscientizar a opinião pública sobre o assunto. O projeto de lei 2.331/2022, que estabelece regras para assegurar a sustentabilidade do mercado audiovisual frente ao avanço do streaming, está em tramitação no Senado Federal. Entre os principais objetivos está a inclusão das plataformas nos parâmetros da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), tributo que incide sobre distribuição, exibição, licenciamento e remessas de filmes e séries ao exterior, e cuja verba vai para o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para fomentar a produção nacional de títulos que não necessariamente estarão em seus acervos. Além disso, a proposta também fixa uma participação mínima de 10% de filmes nacionais no catálogo das plataformas, e estabelece uma janela mínima de 9 semanas entre a estreia dos filmes nos cinemas e sua disponibilidade no streaming, entre outros pontos.
Atualmente, empresas como a Netflix, Amazon, Disney e HBO Max não contribuem com o FSA e dedicam em média apenas 2,7% de seu acervo às produções feitas no Brasil, de acordo com o Panorama do Mercado de Vídeo por Demanda no Brasil 2025, divulgado pela Ancine no último mês de dezembro.
Para Amora, o sucesso de O agente secreto (2025), indicado ao Oscar, atesta a relevância de criar políticas públicas eficientes de incentivo ao audiovisual. “O Brasil está colhendo hoje os resultados de uma política que deu certo. Se você olhar a trajetória do Kleber [Mendonça Filho, diretor do filme], ela está diretamente atrelada ao fundo setorial e à
possibilidade de experimentação que só um cinema independente de interferências de empresas estrangeiras pode proporcionar”, argumenta.
No meio desse embate entre abundância e escassez, liberdade de escolha e padronização algorítmica, o audiovisual brasileiro se vê diante de um paradoxo. Nunca se produziu tanto conteúdo, nunca houve tantas telas disponíveis e, ainda assim, permanece a sensação de que algo corre o risco de se perder pelo caminho. Se todo bom roteiro se sustenta em um conflito forte, o avanço do streaming oferece ao cinema nacional um drama dos bons: com múltiplos protagonistas, interesses cruzados e final ainda em aberto.
Coproduzido pelo Globoplay, Ainda estou aqui fez sucesso nas bilheterias e no Oscar, antes de ser exibido no streaming.
para ver no sesc / cinema
As virgens suicidas (1999), longa-metragem de estreia da cineasta Sofia Coppola, será exibido no Cinesesc durante a Mostra Farol.
CINEMA QUE ILUMINA
Festival no Cinesesc joga luz sobre filmes ainda inéditos elogiados internacionalmente, e obras de cineastas consagrados para buscar conexões
O cinema está presente em todas as unidades do Sesc São Paulo, com exibição de filmes, festivais e apresentações especiais que mobilizam o público cinéfilo durante todo o ano, além do Cinesesc, tradicional espaço da capital dedicado à sétima arte.
Neste mês, o Cinesesc estreia a Mostra Farol. Em sua primeira edição, o festival tem como objetivo apresentar filmes inéditos de novos cineastas e títulos antigos de diretores consagrados que dialogam com a proposta da curadoria, pensada para apresentar caminhos diversos que conectam passado e futuro do cinema.
Entre os onze longas recentes, a programação traz Palestina 36 (2025), de Annemarie Jacir, e O dia de Peter Hujar (2025), de Ira Sachs. Já a seleção de autores conhecidos tem nomes como Sofia Coppola, Paul Verhoeven, Beto Brant, Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), Richard Linklater e Yorgos Lanthimos, entre outros.
A animação Papaya (2025), da cineasta paulista Priscilla Kellen, é o destaque do Cineclubinho, em exibição que integra a Mostra. A trama traz como protagonista uma pequena semente de mamão apaixonada pela ideia de voar que precisa continuar se movendo para evitar enraizar-se.
Está previsto também o curso
A primeira cineasta da história, sobre a pioneira francesa Alice Guy Blachè (1873-1968), ministrado pela produtora, preservadora e pesquisadora audiovisual Vivian Malusá.
Em março, outros filmes da Mostra Farol entram no Sesc Digital, plataforma gratuita de streaming do Sesc São Paulo. Os títulos serão disponibilizados a partir do dia 19/3 e incluem os longas de estreia dos diretores Kleber Mendonça Filho, Crítico (2007); Anna Muylaert, Durval discos (2002); e Pedro Almodóvar, Pepi, Luci e Bom (1982). Baixe o aplicativo e acesse a plataforma gratuita com filmes, séries e outros conteúdos em: app.sesc.digital
CINESESC
Mostra Farol
A partir de 18/3. Saiba mais em: sescsp.org.br/cinesesc
Ricardo Ferreira
O enigma HERMETO PASCOAL
Quanto mais tempo passa da despedida do único homem chamado de “bruxo dos sons” na música brasileira, mais perguntas surgem
POR JULIO MARIA
Osaxofonista francês Samy Thiébault parecia ter o poder da levitação em meio a todos os anjos, santos e diante do próprio Jesus Cristo crucificado. Um pouco à frente do baterista Arnaud Dolmen e ao lado da cantora Cynthia Abraham, seus solos prendiam a atenção das cerca de 500 pessoas, sentadas nos bancos de madeira, entregues como se acompanhassem um sermão dominical. Era noite de sábado, 13 de setembro de 2025, quando, em meio a um dos instantes mágicos do show de Samy, um “bruxo” sobrevoou a Igreja da Sé pela última vez.
Hermeto Pascoal morreu longe dali, na cidade do Rio de Janeiro, entre o terceiro e o quarto tema de Samy. Assim que a notícia chegou discretamente, pelos celulares, a presença do “bruxo” tornou-se palpável no som do saxofonista, visivelmente influenciado pelo pensamento de Hermeto. A morte do alagoano pairou no concerto do músico francês até o final, quando a produtora Lu Araújo, diretora do festival sacro planetário Mimo, disse, com
uma alegria resignada nos olhos, que não parecia velar alguém: “Estamos aqui graças a ele. Obrigada, Hermeto.”
O multi-instrumentista e compositor alagoano já vinha dando sinais da partida. Aos 89 anos, estava internado no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro (RJ), ouvindo os últimos sons de sua vida (e ninguém pode afirmar categoricamente que, enquanto morria aos poucos, não criava com eles suas últimas músicas): apitos agudos em mi bemol de monitores cardíacos e, um pouco mais grave, a bomba de infusão; abre e fecha de porta e vozes de enfermeiras. A causa da morte não foi revelada e ninguém se preocupou muito com ela. Quem conheceu Hermeto diz que ele morreu de tanto viver. E acabou vivendo e morrendo em vários lugares ao mesmo tempo.
Um comunicado escrito pela família na noite da despedida sugere que Hermeto apareceu em outro canto: “Com serenidade e amor, comunicamos que Hermeto Pascoal fez sua passagem para o plano espiritual, cercado
pela família e por companheiros de música. No exato momento da passagem, seu grupo estava no palco, como ele gostaria: fazendo som e música. Como ele sempre nos ensinou, não deixemos a tristeza tomar conta: escutemos o vento, o canto dos pássaros, o copo d’água, a cachoeira, a música universal segue viva...”
A musicista Aline Morena, que foi casada com Hermeto por doze anos, conta que viu o alagoano minutos depois de saber de sua morte, quando estava assistindo à TV em casa, em Curitiba (PR). Para Morena, a alma de Hermeto foi se despedir: “Ele surgiu sorridente, leve. Estava feliz e me deu um aceno, como se dissesse até logo”.
MÚSICA PELOS POROS
A onipresença física de Hermeto Pascoal é a menor delas. Seu pensamento sobre o que é música considerava qualquer som, organizado ou não. E é ele que fica. Do ronco dos porcos à locução de um jogo de futebol feita por Osmar Santos. Dos apitos da chaleira de uma fazenda às batidas nas construções urbanas de São Paulo. Tudo poderia ser usado como um fragmento melódico, uma porção rítmica ou até um tema inteiro. Em entrevista realizada em 2019, em sua casa, no bairro de Bangu, zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, Hermeto se permitiu silenciar quando o fotógrafo começou a tirar as fotos. Seguiu apenas ouvindo o ritmo dos disparos da máquina, tentando capturar um sentido neles. “Que som bonito, vou fazer uma música com isso”, disse. Ao final da entrevista, presenteou o fotógrafo com uma partitura de um tema que fez ali, na hora, usando os sons da máquina fotográfica como inspiração.
O bruxo libertou a música brasileira criativa dos conceitos de improvisação desenhados pelos jazzistas. Se não fosse sua passagem pelo Quarteto Novo ou a gravação de discos solo como o primeiro, Hermeto, de 1970, e A Música Livre de Hermeto Pascoal, de 1973, muitos brasileiros estariam, ainda, tentando ser John Coltrane (1926-1967), Miles Davis (1926-1991) e Jaco Pastorius (1951-1987). A partir de Hermeto, maracatus, frevos, baiões e choros se tornaram matéria-prima até para compositores que nunca pisaram no Nordeste. Mais do que falar de seu país, Hermeto criou a ideia musical de um Brasil.
Entendê-lo não é simples, mas algumas perguntas podem ser feitas. Quem foi o homem que Miles Davis chamou de crazy albino (albino maluco)? Que diabos era, de fato, a música agênero que Hermeto batizou de “universal”? Crítico do
ensino formal, ou da forma de se ensinar o ensino formal, o que o músico propunha quando dizia para prestarmos atenção em todos os sons? Belo e feio, estranho e dócil, tormenta e acalanto. Se a música era feita pela vida, tudo isso deveria soar, muitas vezes, em uma mesma criação.
Hermeto dizia que “músicos que precisam ensaiar não são músicos”. Uma frase perigosa, que abre a janela para a ideia de que ele não gostava de ensaios e de que tudo o que fazia surgia como mágica. “Temos de entender esses mistérios”, disse o bandolinista Hamilton de Holanda. “Ele queria chamar atenção para o fato de que os ensaios não deviam prender os músicos em ideias determinadas”, completa. Também se sabia que “Hermeto ensaiava tanto que a música saía pelos poros”, recorda o baixista Arismar do Espírito Santo.
Arismar, um dos músicos mais influenciados por Hermeto, atingiu tamanho ponto de criação ao lado do alagoano que os improvisos que os dois faziam em um show se sobrepunham ao próprio repertório. “Toquei com ele em 1993. Ele, eu e (o baterista) Nenê. Fizemos 24 shows pela Europa. Éramos três loucos”, lembra. Os músicos ensaiaram até o ponto de jogarem todos os ensaios fora. O repertório tinha 28 músicas que nunca chegavam ao final. “Eu não vou tocar nenhuma”, dizia Hermeto, segundo o baixista.
Vitor Nuzzi, biógrafo e autor do livro Quebra tudo! A arte livre de Hermeto Pascoal (Kuarup, 2024), conta que o músico ensaiou muito para conceber o “som universal” que propôs no início dos anos 1970. O aparente desprezo por ensaios exaustivos, para Nuzzi, “se referia a quem se prende a ensaios” para chegar ao palco protegido por aquilo que é decorado, e não sentido. “Hermeto dizia que as pessoas ensaiam para ensaiar, não para tocar.”
Outra dura fala de Hermeto dizia respeito ao ensino musical. Mesmo sendo homenageado por instituições como a Julliard School de Nova York [a mesma que negou à Nina Simone (1933-2003) o curso de piano clássico no início dos anos 1950, e que teve jovens como Miles Davis, Henry Mancini (1924-1994), Phillip Glass e Chick Corea (1941-2021) como alunos], Hermeto dizia que estava tudo errado. Aos 87 anos, em 2023, ele foi nomeado doutor honorário da Julliard durante uma cerimônia no Alice Tully Hall, do prestigiado Lincoln Center, também na cidade estadunidense de Nova York.
Hermeto queria dizer que os jovens não deveriam estudar? Não. Então, que os professores poderiam castrar suas
A partir da improvisação e de sons presentes em seu cotidiano, Hermeto Pascoal criou a ideia musical de um Brasil.
criatividades? Talvez, se eles fossem maus professores. Itiberê Zwarg, baixista que ficou ao lado de Hermeto por 48 anos, lembra: “Ele estudou muito, a vida inteira. Deixava os instrumentos sobre a cama, olhava para eles e escolhia um para estudar naquele dia. E eram instrumentos que não tinham nada a ver, tecnicamente, um com o outro, quase antagônicos, como flauta, trompete e cavaquinho. Ele, que nunca teve professor, era contra o estudo convencional. Dizia que era preciso aprender a aprender”.
O bruxo não tinha paciência com instituições que submetiam alunos a provas sobre escalas, modos gregos, campo harmônico, modulações, digitação e regras de composição. “A arrogância era a coisa que o tirava do sério”, diz Aline Morena. Preferia ver as crianças brincando com as teclas de um piano, jovens arriscando-se no desconhecido e professores revelando o grande segredo a seus alunos: “Não existe nota errada”.
O resultado de um ensino padronizado, para ele, era a origem de uma geração de músicos padronizados. E, por sua vez, de ouvintes padronizados. Em uma de suas últimas entrevistas, publicada no jornal Valor Econômico, no dia 11 de abril de 2025, Hermeto cravou: “O jazz errou. Ficou tudo igual”, opinião que deu título ao texto publicado. Na ocasião, também disse: “Quando os amigos me chamavam para ouvir discos de jazz nos anos 1960, era uma tortura. Chegava uma hora em que eu queria ir embora. Aquilo era tudo igual, não me dizia nada”.
Sua indignação, mais uma vez, não era com o jazz ou com os jazzistas. Mas com a veneração cultural a um gênero que, apoiado pelo surgimento espontâneo de tantos gênios, passou a vender um sonho aos jovens aspirantes a músicos de todo o mundo: pague caro, decore algumas regras e torne-se o novo Duke Ellington (1899-1974). “Tudo o que é decorado não é criação”, dizia Hermeto. “O que ele queria era que você mergulhasse no escuro e encontrasse sua própria voz”, acredita Hamilton de Holanda.
CONSTRUIR E DESCONSTRUIR
E no palco? Quem era Hermeto Pascoal? Estar ao seu lado era estar exposto aos riscos trazidos por arroubos que poderiam fazer uma música ser transformada sem aviso, diante de uma plateia? Elis Regina (1945-1982), para muitos, foi prejudicada por Hermeto em uma histórica apresentação improvisada durante o Festival de Montreux de 1979.
Sem ensaiar, eles mostraram, de improviso, três músicas, “Corcovado”, “Garota de Ipanema” e “Asa Branca”. Ao desconstruir a harmonia original e propor outros caminhos, Hermeto, segundo os críticos, teria tentado “derrubar” Elis ao vivo. “Eu duvido que ele tenha feito isso para derrubá-la”, conta Ney Matogrosso. “Se tentou, caiu do cavalo”, acrescenta. O próprio Hermeto comentou sobre esse fato, em
2015, desconstruindo o argumento de que teria sido uma atitude para prejudicar a intérprete: “Eu senti que poderia fazer as músicas daquele jeito porque era com a Elis. Só ela poderia cantar comigo assim”.
Estar ao lado de Hermeto Pascoal em um palco deu ao bandolinista Hamilton de Holanda outra percepção de vida. “Nunca vi alguém com a mesma capacidade de mudar de humor em uma mesma frase musical com tanta rapidez”, recorda. O show que fizeram juntos aconteceu em Brasília, com o violonista Marco Pereira. O bruxo havia acabado de perder Ilza, o amor de sua vida, a companheira que esteve a seu lado por quase cinquenta anos.
“Eu sinto arrepio de lembrar. Ele chegou triste, puxou a música 'Menina Ilza' e, em um determinado momento, seu humor mudou completamente e a música ficou alegre. As pessoas cantavam juntas a letra que havia sido distribuída pela produção”, conta Hamilton. Generosidade é a palavra que vem a Arismar quando lembra do multi-instrumentista. “Ele era capaz de deixar de fazer um solo em uma música para ceder seu espaço para outro músico, como fez comigo na gravação do tema “Quiabo” [do álbum Hermeto Pascoal e Grupo, de 1982]. Mandou tirar o improviso dele para colocar o meu. Nunca vi ninguém fazer isso.”
A imagem de Hermeto, a do homem insondável, também não nasceu do nada. Ela foi construída por anos, com tempo e estratégia. Nos primeiros discos nos quais ele aparece como músico, não há nada fora do lugar, nenhuma pista das transgressões que tão logo ele cometeria. Com Clóvis Pereira gravou, apesar do nome, o comportado álbum Ritmos alucinantes em 1956. Dois anos depois, juntou-se a um grupo grande como sanfoneiro para gravar o LP Batucando no morro, de Pernambuco do Pandeiro (1924-2011), um veterano que já havia tocado com César Faria (1919-2007), pai de Paulinho da Viola, Pixinguinha (1897-1973) e Benedito Lacerda (1903-1958).
Os sons começaram a sair do conservadorismo que guardam todas a tradições quando Hermeto atingiu o que se tornaria, até ali, o auge de seu sertanismo criativo. Como parte do Quarteto Novo, ao lado de Heraldo do Monte na guitarra, Airto Moreira na percussão e Theo de Barros na viola e no violão, o alagoano compôs uma das formações mais estonteantes dos registros da música brasileira. “A música instrumental brasileira existe antes e depois do Quarteto Novo”, analisa o autor da biografia de Hermeto Pascoal, Vitor Nuzzi. Hermeto havia tocado
antes em grupos como o Som 4 (com Azeitona no baixo, Papudinho no trompete e Edison na bateria) e com o Sambrasa (com Humberto Clayber e Airto Moreira).
A grande virada no som veio a partir de 1970, com o jazz como uma influência que Hermeto não reconhecia em suas entrevistas. Enquanto grupos como Mahavishnu Orchestra e Weather Report, além de autoridades como o guitarrista John Scofield e o trompetista Miles Davis (que enlouqueceu com o crazy albino a ponto de chamá-lo, em vão, para tocar a seu lado) investiam no fusion – a versão mais roqueira do jazz –, Hermeto lançava seu primeiro álbum solo por um selo de Nova York, o Buddha Records.
Toy Lima, produtor de festivais de jazz, se lembra de estar em um camarim no Jazz à Vienne, na França, ao lado do baixista Dave Holland, do pianista Herbie Hancock, do guitarrista Bill Frisell e do baterista Billy Hart quando surgiu uma conversa com o nome de Hermeto Pascoal. “Todos se curvaram. É um daqueles momentos que dá um orgulho danado de dizer que somos do Brasil.”
O jazz estava na gênese de Hermeto por sua natureza. E, ao descobrir que havia um lugar de excelência para as ideias musicais supostamente sem fronteiras nos Estados Unidos, Hermeto, alagoano de Lagoa da Canoa, município de Arapiraca, encorajou-se a fazer o mesmo pela música que havia dentro de si. Mesmo que, às vezes, essa música nem música fosse. “Quando pequeno, ele ouvia as pessoas falando e achava que elas estivessem cantando. A fala humana era música para ele”, lembra Toy na biografia escrita por Nuzzi.
E como viam Hermeto fora do universo do jazz? “Nunca cantei com ele, mas sei que era um gênio”, conta Ney Matogrosso. Alceu Valença, um pernambucano com o mesmo discurso disruptivo em outras sertanices, compartilha: “Ele era um artista genial, pena que tivemos pouca convivência. Ah, lembrei: um dia perguntei a ele o que ele gostava de ouvir, e ele respondeu algo que eu respondo até hoje: ‘nada, para não me influenciar’”.
Se não existe música sem conclusão, com Hermeto, e talvez só com ele, isso tenha sido diferente. O destino poderia até ser proposto, mas o caminho era o melhor, o mais divertido. Ele começava um tema muitas vezes lendo uma partitura até que tropeçava em um brinquedo e ficava ali, como uma criança sentada no quintal, rodeada de outros brinquedos, sem dar a mínima para os chamados da mãe.
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PRODUÇÕES SONORAS E VISUAIS
Parceria de Hermeto Pascoal com o Sesc
São Paulo consolidou-se para além dos palcos
Chapéu exposto em Ars Sonora – Hermeto Pascoal, no Sesc Bom Retiro.
Com um álbum lançado pelo Selo Sesc, uma exposição em homenagem à sua produção visual e uma coleção de outros momentos no Sesc São Paulo, Hermeto Pascoal esteve em muitas programações das unidades nas últimas décadas.
Em 2017, aos 81 anos, lançou o álbum duplo No mundo dos sons (Selo Sesc) após quinze anos sem gravar com o seu grupo. Na ocasião, selecionou 18 composições próprias e inéditas, com arranjos que também levam sua assinatura e foram elaborados especialmente para o disco. Nelas, o alagoano homenageia os amigos Carlos Malta, Edu Lobo, Tom Jobim (1927-1994), Astor Piazzolla (19211992) e Thad Jones (1923-1986), entre outros.
Em 2024, a exposição Ars Sonora – Hermeto Pascoal, no Sesc Bom Retiro, reuniu desenhos, objetos e instalações, que apresentaram um panorama da produção visual do artista, celebrando sua trajetória e legado.
A relação com a música e a arte o levou a ser um dos consultores no momento da criação do Parque Orquestra Mágica, uma área de 1.000 m² com escorregadores, trepa-trepas e labirintos em forma de instrumentos musicais, localizado no Sesc Itaquera, na capital paulista.
Ouça o álbum No mundo dos sons, e confira conteúdos em vídeo sobre a participação de Hermeto nas programações do Sesc em: sesc.digital
AUTORIA DO TERRITÓRIO AUTORIA
Artistas e arte-educadoras reconhecem o espaço como sujeito autoral e propõem ampliar entendimento do fazer artístico
POR MARCEL VERRUMO
O limite do meu talento (2012), por Sidney Amaral.
Com o território, seus povos e histórias, curadores de arte têm revelado narrativas. No processo de concepção da 4ª edição do projeto Frestas – Trienal de Artes, em exibição no Sesc Sorocaba [leia mais em Escutar a terra], a equipe curatorial transformou os caminhos da cidade, localizada a 105 km da capital paulista, em fontes de inspiração. “Fizemos duas imersões em 2024, nas quais andamos pelas ruas de Sorocaba. Nesse processo, tentamos entender a cidade e construir um diálogo com seus movimentos, tecendo relações entre arte, educação e comunidade”, conta a arte-educadora Luciara Ribeiro, da equipe curatorial.
Moradores, prédios, rios e outros sujeitos locais foram observados e ouvidos durante as caminhadas pelo município. “Tivemos a oportunidade de reconhecer múltiplas atuações e, a partir delas, expandir o processo curatorial. Acredito realmente nas possibilidades de interlocução e como elas se desenvolvem no contexto das artes contemporâneas”, complementa a também curadora Naine Terena, arte-educadora.
Convidado a criar para a Trienal, o artista visual Douglas Emilio buscou os sentidos emanados por sua cidade-natal. Rumou ao rio Sorocaba à procura de cores, formas e movimentos que inspirassem sua criação. O resultado é a instalação Dança um Rio onde eu nasci (2026), na qual ressoam singularidades do lugar. Ao considerar a participação ativa do espaço na criação da obra, a equipe curatorial e Emílio reconheceram o próprio rio Sorocaba como um coautor do trabalho, juntamente com o artista.
Segundo Khadyg Fares, arte-educadora e curadora do Frestas, o território pode ser ouvido não apenas como um elemento passivo, mas também como um contador de histórias. Ou, em outras palavras, parte de uma ideia segundo a qual não são apenas os seres humanos que produzem arte. “Estamos
tentando desviar de tradições hegemônicas que suprimiram e silenciaram algumas narrativas, que foram quase solapadas, e pensar maneiras mais horizontais de contar histórias. Queremos tensionar esses lugares tradicionais”, defende Khadyg.
A escuta do território no fazer artístico contemporâneo também pode ocorrer pela consideração dos sentidos artísticos produzidos por ruas, casas e outras construções arquitetônicas, documentos que compõem a sua história. Na Trienal, a Capela João de Camargo também assina a autoria da instalação Sete cantos para Pai João de Camargo (2026), com o artista Moisés Patrício. “A gente tem que pensar a capela como um elemento dentro da cidade, um lugar de confluência, de sacralização e de ritualização de vida. Nós a convidamos para estar com a gente como uma autora, mas ela já tem uma autoria dentro da cidade”, sintetiza Khadyg.
Lovis Marie (2019), por Denilson Baniwa.
O trabalho curatorial da exposição foi influenciado por autores como o professor e artista indígena Tadeu Kaingang, a socióloga boliviana Silvia Rivera Cusicanqui e o pensador quilombola Nêgo Bispo [Antônio Bispo dos Santos (1959-2023)]. Em comum, todos eles apresentam uma forma de olhar para o mundo afastada de uma visão que separa os seres humanos dos demais seres. “Entendemos que não é possível pensar a história de modo centralizado no ser humano. Precisamos contemplar outros sujeitos que construíram caminhos e sentidos. A gente quer olhar para um rio, por exemplo, não apenas considerando-o como natureza ou objeto, mas como um ente com história, força e conhecimentos. Precisamos valorizar o que está nesses autores”, finaliza Luciara.
Fragmento (2016), por Bruno Vital - Plataforma Demonstra.
À esquerda: Árvore (2012), por Paula Sampaio.
por Ahmad Jarrah.
Acima: Retratos Migratórios: A Lente Nômade - Líbano (2016),
Manjua (2025), por Denis Moreira.
Acima: Códice Boturini, Tira de la Peregrinación (primeira metade do século 16), com autoria não identificada.
À direita: Travessia da calunga (2011), por Sidney Amaral.
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ESCUTAR A TERRA
Frestas – Trienal de Artes 2026 propõe diálogo com saberes de quem forjou o território de Sorocaba e região
Mais de 80 artistas, coletivos e iniciativas comunitárias do Brasil e do exterior apresentam suas criações na 4ª edição do Frestas – Trienal de Artes, realizada até 16/8 no Sesc Sorocaba, no interior paulista. Com curadoria das arte-educadoras Luciara Ribeiro, Naine Terena e Khadyg Fares, a exposição reúne dezenas de nomes que compõem a cena cultural e a história de Sorocaba e região, criando um espaço de encontro entre sujeitos, linguagens e conhecimentos.
Neste ano, a mostra é intitulada do caminho um rezo, destacando o caminhar como uma ação com dimensão espiritual, política e produtora de conhecimentos; um
gesto que não se faz sozinho, mas em diálogo com a comunidade, por meio de um entrelaçamento entre o corpo, o espaço e a memória. A concepção reverbera o pensamento do professor e artista indígena Tadeu Kaingang, bem como as reflexões da socióloga boliviana Silvia Rivera Cusicanqui e do pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo.
A potência do caminho e do território também se manifesta nas ações educativas da exposição, as quais têm como proposta conectar o público a saberes historicamente produzidos em aldeias, quilombos, comunidades e entornos. O programa educativo, aliás, é nomeado de Sendarias, referência
a sendas, caminhos e atalhos. Além de Silvia e Kaingang, integra as ações a quilombola e educadora Joana Maria, filha de Nêgo Bispo.
Em sua quarta edição, o Frestas foi realizado pela primeira vez em 2014, inspirado no projeto Terra Rasgada, desenvolvido pelo Sesc Sorocaba nos anos 1990 em diálogo com artistas do território. O nome faz uma referência à palavra “sorocaba”, que em tupi-guarani significa “lugar da rasgadura”. Em suas três edições anteriores, o projeto se consolidou como uma plataforma de projeção e valorização de artistas da cidade e região.
Naine Terena, Khadyg Fares e Luciara Ribeiro, curadoras da 4ª edição do Frestas – Trienal de Artes. SOROCABA
Frestas – Trienal de Artes 2026
Até 16/8 de 2026. Terça a sexta, das 9h às 21h30. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h30. GRÁTIS. Saiba mais em sescsp.org.br/frestas
A h i stória do n osso tem po
Neste livro, o historiador Diego Olstein reconstrói os últimos 170 anos para mostrar como tecnologia, globalização, hegemonias políticas e regimes de poder se entrelaçaram na formação do mundo contemporâneo. Escrita em um estilo estimulante, a obra oferece uma leitura clara e abrangente das forças que moldaram — e continuam moldando — o nosso tempo.
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MÃES no pódio
Esportistas de diferentes modalidades compartilham alegrias e desafios de quem concilia a maternidade com treinos e competições de alto nível – ou decide esperar a aposentadoria
POR LUNA D’ALAMA
Bicampeã olímpica no vôlei feminino, com medalhas de ouro em Pequim 2008 e Londres 2012, Jaqueline Carvalho continua jogando em alto nível aos 42 anos. No fim de 2025, foi contratada pelo Esporte Clube Pinheiros (ECP), de São Paulo, para disputar a Superliga B, agora não mais em sua tradicional posição de ponteira-passadora, mas como líbero. “Fiquei quatro anos fora das quadras, e um dos meus grandes incentivadores para voltar ao esporte de alto rendimento foi meu filho, Arthur, de 12 anos”, conta.
Natural de Recife (PE) e casada com o ex-jogador de vôlei da seleção brasileira Murilo Endres desde 2009, Jaque tinha o desejo de ser mãe. Em 2011, quando representava o
Osasco e o país, passou por uma dolorosa perda gestacional. Então vieram as Olimpíadas de Londres, ela engravidou novamente e, no fim de 2013, nasceu Arthur. “Em quatro meses, já estava jogando de novo, viajando para a Suíça. A volta foi dureza, mas tive uma boa rede de apoio e estrutura familiar. Meu filho cresceu com essa rotina dos pais muitas vezes ausentes, mas ele entende que a nossa profissão é assim. Isso me conforta muito”, pondera.
Atualmente, a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) já possui regras que permitem que atletas grávidas mantenham suas pontuações no ranking por até dezoito meses, uma forma de dar segurança às profissionais para que
possam planejar a maternidade sem prejudicar a carreira durante o afastamento. Mas, quando Jaque se tornou mãe, isso ainda não existia. “Na época, sofri muito, fiquei um período desempregada, até ser contratada pelo Minas Tênis Clube. Também fui convocada para a seleção feminina novamente em 2014. Fui recebida por pessoas que me estenderam as mãos, que entenderam que é possível competir tendo filho. E foi um dos meus melhores anos jogando”, conta a atleta, que coleciona medalhas: além das olímpicas, tem cinco ouros em Grand Prix, um ouro nos Jogos Pan-Americanos de 2011 e duas pratas em mundiais.
Segundo Jaque, a medicina evoluiu muito nos últimos anos – assim
Henrique Tarricone
Medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos do Chile em 2023 e prata nas Olimpíadas de Paris 2024, a surfista Tatiana Weston-Webb é mãe de Bia Rose, nascida em janeiro.
como a mentalidade de técnicos e confederações de outros esportes para acolher atletas-mães. “As mulheres sofrem pressão social e do relógio biológico, mas é preciso compreender o momento certo de cada uma, ter uma base na qual se apoiar. Não dá para julgar quem decide ter filho, e quando, nem quem opta por não ter”, opina. “No meu caso, a maternidade me fez crescer como pessoa e profissional, trouxe um senso de responsabilidade muito grande, veio somar de forma muito positiva”, destaca a líbero, que treina cinco horas por dia, de domingo a domingo, e não planeja se aposentar tão cedo.
AVANÇOS NA MEDICINA
Ginecologista e obstetra, integrante do Time Brasil, Tathiana Parmigiano explica que a ginecologia do esporte atende mulheres que praticam exercícios no dia a dia, de forma amadora ou profissional. “Fazemos exames de rotina, vemos a regularidade do ciclo menstrual, abordamos questões urinárias, relacionadas a cólicas, às mamas, ao peso e ao doping. Além disso, conversamos sempre com outros profissionais envolvidos, o que chamamos de equipe multidisciplinar, como nutricionistas, psicólogos e treinadores, por exemplo", destaca Tathiana, que já foi nadadora e é mãe de Gabriela, de 7 anos, e Pedro, de 11.
Assim como a medicina, o ambiente esportivo está avançando, na avaliação da ginecologista e obstetra. Em Paris, ela cita que a Vila Olímpica contou com berçário, espaço para amamentação e troca de fraldas, e brinquedoteca, mas sem monitores: cada atleta deveria providenciar uma pessoa cuidadora
por conta própria. “Esses esforços demonstram uma crescente vontade coletiva para que as mulheres retornem ao esporte de alto rendimento após a maternidade. Mas ainda há muito a ser feito, e muitas vezes o auge da carreira coincide com uma faixa etária em que se toma – ou se começa a cogitar – essa decisão. Porém, as possibilidades e alternativas têm aumentado, e o ideal é que a atleta não precise escolher entre um de seus sonhos: a carreira ou a maternidade”, aponta Tathiana.
A médica ressalta que o esporte feminino está crescendo em número de participantes, conquistas, medalhas, e também em saúde, direitos e equidade. Em novembro de 2025, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) aprovou um pacote de medidas que autoriza jogadoras que amamentam a viajar com seus filhos para competições, com as despesas pagas. Desde 2021, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) também garante licença-maternidade por pelo menos catorze semanas e, desde 2023, o Bolsa Atleta mantém o benefício no período da licença.
Sobre os cuidados com o corpo e a saúde mental de uma atleta na gestação, Tathiana diz que esse preparo deve vir de uma vida inteira de alimentação equilibrada, exercícios regulares e sono reparador. “São bons hábitos que precisam ser levados para todas as fases hormonais, inclusive a gravidez, a pré e a pós-menopausa”, alerta.
E o retorno das atletas-mães ao esporte de alto rendimento, sejam modalidades individuais ou coletivas, também depende de ambientes acolhedores que não
pensem, imediatamente, apenas na performance. “É importante respeitar o puerpério [fase posterior ao parto, em que o corpo feminino passa por intensas mudanças físicas, emocionais e hormonais]. Esse é um momento em que o sono está superprejudicado, pois é interrompido a todo instante pelo recém-nascido. Começam os questionamentos internos e externos sobre quando a atleta voltará às atividades, mas talvez sua prioridade inicial seja cuidar do filho, amamentar e entender sua nova identidade. Acho que não tem que haver pressa nem cobranças, mas, por outro lado, não existe um tempo de afastamento ideal”, pondera.
PAUSA PARA GESTAR
Prestes a completar 30 anos em 2026, a surfista Tatiana Weston-Webb, radicada no Havaí, nos Estados Unidos, e uma das principais atletas da elite da Liga Mundial de Surfe (WSL, na sigla em inglês), resolveu dar uma pausa na carreira no ano passado para cuidar da saúde mental. Foi nesse intervalo que Tatiana descobriu que estava grávida de Bia Rose – nascida no fim de janeiro, no litoral catarinense, fruto da união com o também surfista brasileiro Jessé Mendes. “Esse não era o objetivo inicial de eu parar, mas achamos que seria um bom momento, começamos as tentativas e logo engravidei. Está sendo uma fase muito especial e uma das mais bonitas e marcantes da minha vida”, vibra a gaúcha, medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos do Chile em 2023 e prata nas Olimpíadas de Paris 2024.
Primeira surfista, entre homens e mulheres, a se classificar para os Jogos de Tóquio em 2021, quando a modalidade estreou como esporte olímpico, Tatiana revela que sempre quis ser mãe, mas o convívio com a
A ex-maratonista aquática Poliana Okimoto optou pela maternidade após a aposentadoria.
sobrinha Hana, de 2 anos, aflorou ainda mais seu lado materno. “Além disso, minha maior inspiração é a minha mãe [a ex-bodyboarder Tanira Guimarães], uma mulher forte, presente e amorosa, que desde cedo me ensinou sobre equilíbrio, sensibilidade e coragem. Também me espelho em outras atletas que tiveram filhos e voltaram ainda mais conectadas com seus propósitos. A maternidade pode trazer um olhar diferente para a vida, uma força interior, e sinto que essa experiência vai me deixar mais consciente, presente e motivada para dar o meu melhor dentro e fora do mar”, avalia.
A atleta surfou até quase oito meses de gestação, ouvindo o próprio corpo e respeitando seus limites. “Essa conexão com o mar, enquanto sentia minha bebê dentro de mim, era uma sensação maravilhosa. Minha meta é viver este ano com calma, priorizar minha filha, e voltar às competições em 2027, com mais
maturidade, estrutura e força total para disputar uma vaga olímpica em Los Angeles 2028”, planeja.
A esportista se sente grata e privilegiada pelo apoio que tem recebido de patrocinadores, parceiros, familiares e amigos. “O cenário esportivo está evoluindo, com contratos mais humanos e um olhar mais amplo para as mulheres por trás das atletas. Ainda há muito a avançar, estamos no começo dessa caminhada, principalmente em categorias e países onde o esporte feminino luta por igualdade de estrutura e suporte. Mas tenho visto mais diálogos, políticas e exemplos positivos, e isso nos traz esperança.”
APÓS A APOSENTADORIA
Por conta dos desafios e dificuldades, muitas atletas esperam a aposentadoria no esporte de alto rendimento para se tornar mães. É o caso das
gêmeas do nado sincronizado Bia e Branca Feres, que deixaram as piscinas em 2017, engravidaram três vezes cada e documentaram a última experiência no reality show Maternidade sincronizada (2025), disponível no streaming Globoplay.
A maternidade pós-aposentadoria também foi a decisão da ex-nadadora e maratonista aquática Poliana Okimoto, campeã mundial em 2009, medalhista olímpica nos Jogos do Rio 2016 e eleita duas vezes a melhor atleta do mundo pela Federação Internacional de Natação (World Aquatics). Hoje à frente de uma assessoria esportiva de natação, corrida e triatlo, a mãe de Lucca, de 4 anos, diz que competir num esporte individual em alto nível a fez adiar essa decisão, pois sua performance e marcas no ranking dependiam 100% de seu corpo e condição física. “Eu tinha o desejo de ser mãe, mas quis priorizar a carreira e realizar esse outro sonho em seguida, aos 38 anos”, conta.
Poliana não se arrepende de ter esperado, pelo contrário. “Meu conselho é não romantizar a maternidade, porque essa é uma experiência gostosa, mas também muito difícil. Uma rede de apoio é fundamental, ainda mais para uma atleta”, compartilha a ex-atleta da maratona aquática (percurso de 10 quilômetros em águas abertas, como mares, rios e lagos), casada com seu ex-treinador Ricardo Cintra.
De acordo com Poliana, as nadadoras-mães precisam de um tempo de preparação para voltar à forma física, e os índices dos rankings valem só por um ano. “Aí você retoma tudo do zero, precisando de suporte emocional e financeiro. É um processo difícil,
Felipe Luque
esporte
que mistura puerpério, baby blues [melancolia temporária pós-parto] e falta de rede de apoio. Eu tive um blues muito forte; se precisasse voltar, com cobranças, teria sido péssimo”, reconhece.
Hoje palestrante e organizadora de provas e travessias em águas abertas, Poliana começou a nadar em piscinas aos 7 anos, quando ainda tinha medo do mar. Além de jogar futebol e andar de bicicleta, o filho já segue seus passos, nada de frente e de costas, fez uma pequena travessia em águas abertas no fim de 2025 – e adorou. “O que muda com a maternidade, principalmente, são as prioridades: hoje minha prioridade é meu filho. Também mudaram meus valores, minha cabeça e meus
objetivos a longo prazo, o que quero para a minha vida. Eu dava muita importância para coisas que hoje acho pequenas”, compara.
VOLTA DA LICENÇA
Ex-judoca olímpica, Suelen Altheman é uma das treinadoras do judô no Esporte Clube Pinheiros (ECP). Sua trajetória no esporte começou em um projeto social em Amparo (SP), onde nasceu. Tornou-se um dos maiores nomes do peso pesado (+78 quilos) feminino do país, com participações nos Jogos de Londres 2012, Rio 2016 e Tóquio 2021, além de medalhas de prata e bronze em campeonatos mundiais e Pan-Americanos. Aos 37 anos, no segundo semestre de 2025, a
Ex-judoca olímpica, Suelen Altheman teve que levar o filho Pedro para os treinos após a licença-maternidade, até consolidar a introdução alimentar e encontrar uma creche.
ex-atleta formada em educação física virou também a mãe de Pedro, fruto de seu casamento com o judoca Giovani Ferreira. “Em modalidades de combate, como o judô, há muito contato, quedas e pancadas, você não pode treinar grávida. E a volta também não é fácil, você fica um ano fora, precisa se readaptar e tem muitas viagens, por isso planejei me aposentar primeiro para me dedicar à vida de mãe. Não parei de trabalhar, agora sou técnica –inclusive, acabei de voltar da minha licença-maternidade”, relata.
Em seu retorno, Suelen teve de levar o filho junto até consolidar a introdução alimentar e encontrar uma creche. “Fico toda hora olhando para o carrinho ou colchonete. Meu marido troca ele lá, dá banho. A gente montou quase um acampamento, mas será temporário. Também há uma brinquedoteca, aonde vamos nos intervalos, e o clube é bem arborizado, bom para criança ter contato com a natureza e tomar sol. Está sendo uma experiência desafiadora, mas incrível”, detalha Suelen, cuja família vive no interior do estado.
A treinadora lembra que, durante o puerpério, não se reconhecia mais, com um bebê dependente dela 24 horas por dia. “Com as oscilações hormonais do pós-parto, a gente chora, ri, fica com olheiras, tem que tomar banho rápido. Mesmo com pessoas em volta, nos sentimos sozinhas, é um mix de emoções – nunca senti isso nem quando era atleta. Tenho medalhas e vitórias, mas o Pedro, para mim, é minha maior conquista. É uma superação diária, com muitos fatores imprevisíveis, assim como a vida de atleta”, finaliza.
para ver no sesc / esporte
INCLUSÃO, ACESSO E CIDADANIA
Programação físico-esportiva do Sesc São Paulo incentiva a autonomia, a experimentação e a criação de vínculos
A programação físico-esportiva está presente de forma contínua nas unidades do Sesc São Paulo, com atividades que valorizam o movimento como linguagem, promovendo experiências que articulam prazer, aprendizado e participação, em diálogo com os princípios de inclusão e acesso democrático.
Com uma oferta diversificada de modalidades, a programação contempla diferentes faixas etárias, interesses, habilidades, corpos e condições físicas, abrangendo cursos, vivências, apresentações, ações de engajamento, campanhas
e projetos especiais. As atividades são orientadas por propostas que incentivam a autonomia, a experimentação, o respeito às diferenças e a construção de vínculos, fortalecendo a relação das pessoas com a prática esportiva ao longo da vida.
Além disso, a programação do Sesc contribui para a ocupação qualificada dos espaços, para o fortalecimento do convívio e para a consolidação da instituição como referência em ações que integram bem-estar, cultura e cidadania.
Confira alguns destaques de março:
VILA MARIANA
Festival de Futsal Feminino
Com a participação da ex-jogadora de futebol e comentarista
Milene Domingues. Dia 7/3, sábado, às 10h. GRÁTIS.
ARARAQUARA
Travessia Aquática
Com a nadadora e campeã olímpica Ana Marcela Cunha. Dia 8/3, domingo, às 10h. GRÁTIS.
SANTOS
Copa Elas no Lance
Abertura com as ex-jogadoras de futebol Juliana Cabral e Milene Domingues. Criado para valorizar o protagonismo das mulheres no esporte, esse torneio aberto de futsal feminino, no formato de liga, promove integração, fair play e visibilidade da modalidade. Dia 8/3, domingo, das 14h às 18h30. GRÁTIS.
RIO PRETO Vôlei
Com a jogadora Tiffany Abreu, primeira atleta transexual a disputar uma partida oficial da Superliga Feminina. Dia 14/3, sábado, às 15h. GRÁTIS.
Programação físico-esportiva do Sesc São Paulo, como o Festival de Futsal Feminino, no VIla Mariana, promove saúde e bem-estar durante todo o ano.
A CRÍTICA DE CINEMA HOJE
Qual é o lugar do pensamento crítico sobre cinema num mundo em que informações e opiniões correm por telas em ritmo acelerado? A questão está posta não apenas para o público, mas, principalmente, entre os profissionais que se dedicam a refletir e propor interpretações a respeito das dezenas de filmes que chegam semanalmente às salas de exibição e aos catálogos de streaming. “A crítica não deve ser mera mediação ou publicidade programada, veículo da divulgação dos filmes à época do lançamento, mas um contraponto que resgata a temporalidade própria do cinema, convidando o espectador a um outro tipo de fruição, diferente do binge-watching [hábito de maratonar conteúdos audiovisuais] compulsivo e da necessidade de vinculação às trends do momento”, defende o escritor, pesquisador e roteirista Marcel Vieira, professor do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Num momento em que o cinema nacional surfa a boa onda do reconhecimento nas premiações internacionais, com direito a múltiplas nomeações ao Oscar, incluindo duas indicações consecutivas na categoria principal de melhor filme, ganha impor-
tância a discussão sobre a qualidade do debate que começa assim que as luzes se acendem na sala escura. Enquanto isso, as redes sociais misturam e colocam num suposto pé de igualdade reações vindas de espectadores que partem de diferentes relações com o cinema, desde o consumidor ocasional até aqueles que fazem da análise embasada seu ofício, cultivado por anos de estudo e preparação. As fronteiras que separam espectador, produtor de conteúdo e crítico profissional nunca estiveram tão embaralhadas.
Como lembra a jornalista, crítica de cinema e apresentadora Barbara Demerov, “é preciso diferenciar análise de indicação. Uma crítica em vídeo de cinco minutos não se equivale a um story no Instagram comentando a estreia mais aguardada da semana. Sem entrar no mérito da relevância de cada formato, é nesse ponto que as figuras do crítico e do criador de conteúdo podem parecer semelhantes… Mas não são.” No mês em que o Brasil pode conquistar mais uma estatueta dourada em Hollywood, Marcel Vieira e Barbara Demerov analisam, neste Em Pauta, os desafios atuais da crítica de cinema diante do ritmo imposto pela internet, e reforçam a importância do tempo para a reflexão aprofundada sobre a produção audiovisual.
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Tempo e território da crítica de cinema
POR MARCEL VIEIRA
Em agosto de 2025, Aurora Bernardini, tradutora e professora de literatura da Universidade de São Paulo (USP), deu uma entrevista à Folha de S.Paulo que, mal sabia ela, se tornaria uma das mais debatidas no ano. Conhecida e respeitada nos círculos acadêmicos por seu trabalho com tradução de literatura russa e italiana, a autora fez na entrevista uma retrospectiva da sua trajetória intelectual, falou sobre o seu processo de tradução e, inadvertidamente, deu início à maior polêmica da crítica em 2025: segundo ela, autores e autoras que privilegiam o conteúdo, em detrimento da forma, podem até ser interessantes, mas não são literatura. Para exemplificar, citou autores consagrados e amados por seus públicos, como Annie Ernaux, Elena Ferrante e Itamar Vieira Júnior.
Nas semanas seguintes, foi enorme a quantidade de debates críticos que se armaram em jornais, revistas, sites e perfis de redes sociais. Nesses debates, duas principais perspectivas dominaram. Para uns, era necessário desancar a visão potencialmente elitista da autora, reafirmando a urgência da arte contemporânea em se abrir para o relato das múltiplas experiências subjetivas, sobretudo dos grupos subalternizados. Para outros, era importante apontar a fragilidade da crítica cultural hoje em produzir análises sobre a matéria estética capazes de ir além do interesse nas condições, circunstâncias e vivências pessoais que atravessam os processos de criação e suas obras.
Esse episódio serviu para apontar um dado relevante: a crítica, como fenômeno da cultura, não está morta. Ela está viva, sim, ainda que em transição nas suas formas de produção, circulação e consumo, às vezes dispersa em sua materialidade, porém capaz de iluminar contradições e mistérios
por trás das obras de arte e trazer o debate estético, com suas complexidades e limitações, para o dia a dia das pessoas. No caso da crítica cinematográfica, percebemos semelhante processo, adensado ainda pelas transformações estruturais nas dinâmicas contemporâneas de produção, nos modos de fomento e distribuição dos filmes e, claro, nas formas de consumo trazidas pelas plataformas de streaming e pelas redes sociais.
Falar da crítica de cinema hoje, portanto, significa partir de um duplo pressuposto. De um lado, devemos insistir em sua importância como força que movimenta o circuito cultural mais amplo, articulando produtores, obras e espectadores em uma cadeia de compartilhamento de experiências e visões de mundo. De outro, precisamos reconhecer que as condições sociotécnicas para a produção, a circulação e o consumo da crítica se transformaram radicalmente nos últimos anos. Sem negar as novas formas discursivas em jogo, temos que reafirmar a importância do exercício crítico para a formação do olhar, da sensibilidade, da historicidade e da própria linguagem do cinema.
Um primeiro desafio que se impõe é o do tempo. A crítica, enquanto gênero discursivo, tem raízes na imprensa escrita, especialmente no jornal diário e nas revistas especializadas. Aqui, a rotina das publicações já delimita um tempo para a visualização do filme, a reflexão analítica, a escrita e a edição do texto, até que ele chegue impresso nas mãos dos leitores. Portanto, assim como o jornalismo, a crítica de cinema precisa hoje lidar com a urgência hiperacelerada da informação digital, em sua lógica de coleta e tratamento de dados de alcance e interação na internet.
Pois a crítica não deve ser mera mediação ou publicidade programada, veículo da divulgação dos filmes à época do lançamento, mas um contraponto que resgata a temporalidade própria do cinema, convidando o espectador a um outro tipo de fruição, diferente do binge-watching compulsivo e da necessidade de vinculação às trends do momento. Nesse sentido, a crítica deve equilibrar o olhar para o presente e a avaliação histórica, conectando um à outra para
A crítica de cinema precisa hoje lidar com a urgência hiperacelerada da informação digital, em sua lógica de coleta e tratamento de dados de alcance e interação na internet
lançar luz sobre os movimentos que produzem e reproduzem certas práticas, linguagens e narrativas.
Isso ganha contornos ainda mais agudos com a multiplicidade de vozes que emergem das redes sociais, onde a crítica disputa espaço em um ambiente saturado de opiniões efêmeras e amadorismos passionais. As demandas de visibilidade e recomendação, regidas por algoritmos que privilegiam o engajamento imediato, impõem aos críticos uma performance constante, com a construção de personas, o timing das postagens e a adaptação retórica para formatos fragmentados, sob pena de invisibilidade em meio ao fluxo incessante de conteúdos. No entanto, essa pressão performativa é também uma potencialidade, ao abrir caminho para o uso transmidiático da reflexão crítica, atingindo públicos heterogêneos pela articulação de textos analíticos com ensaios em vídeo, podcasts e newsletters.
Outra dificuldade é escapar da lógica da polêmica constante que estrutura grande parte do debate nas redes, onde tudo precisa ser tomado como manifesto inflamado ou opinião inquestionável. Nessa arena, a crítica corre o risco de se reduzir, de um lado, à expressão individualizada do gosto (um “eu gostei / eu odiei” performático, calibrado para gerar engajamento rápido) e, de outro, a um retorno nostálgico à figura da voz autoritária e especializada, blindada contra qualquer interlocução. Sair dessa dicotomia exige assumir a crítica como espaço argumentativo aberto, explicitar critérios e métodos, incorporar a escuta e o dissenso como parte da escrita e explorar formatos que convidem à interação, em que a crítica não abre mão do rigor, mas se coloca como mediadora entre diferentes sensibilidades.
Por fim, pensar a crítica de cinema hoje é reconhecê-la como parte orgânica da cultura, peça indispensável na engrenagem que movimenta, fricciona e torna visíveis as disputas em torno das imagens em movimento. Longe de fornecer uma resposta definitiva à velha pergunta “o que é o cinema?” (para lembrar o título do livro seminal de André Bazin (1918-1958)), a crítica opera no terreno das incertezas, abrindo caminho para que “os cinemas” – em suas múltiplas formas, geografias, escalas e materialidades – se percebam como produtores e espectadores mais conscientes das condições materiais e simbólicas que sustentam sua existência. Nessa chave, a crítica de cinema funciona como uma lente, capaz de evidenciar detalhes e perspectivas que escapam ao olhar distraído, e como um espelho, no qual a cultura audiovisual se vê, se estranha, se contradiz e, quem sabe, encontra brechas para imaginar futuros mais diversos, complexos e originais.
Marcel Vieira é escritor, pesquisador e roteirista. Professor do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre e Doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisa processos criativos no cinema e no audiovisual brasileiro, com foco no roteiro e na dramaturgia. Autor do romance Camaradas (Editora Patuá, 2018) e do livro de poemas um abismo quase (Editora Reformatório, 2021), vencedor do Prêmio Maraã de Poesia em 2020. Sutura (Mondru), seu novo romance, será lançado em 2026.
A crítica resiste
POR BARBARA DEMEROV
“Um bom crítico tem que ter a sorte de estar vivo e escrevendo no momento de um grande cinema.”
A frase, dita pelo documentarista e produtor João Moreira Salles no início do documentário Crítico (2007), de Kleber Mendonça Filho, elucida o tempo no qual vivemos hoje: uma época tão áurea quanto a da Retomada do cinema brasileiro, fase emblemática dos anos 1990 em que nossos filmes voltaram a circular e a atravessar as fronteiras de diversos países após a ditadura militar e a crise da Embrafilme. Um marco daquele período foi o clássico Central do Brasil (1999), drama dirigido por outro membro da família de João — seu irmão, Walter Salles —, que venceu o Urso de Ouro na Berlinale e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, além de ter sido indicado ao Oscar na mesma categoria.
Atualmente, temos dois grandes exemplos que acompanham o mesmo nível de prestígio: Ainda estou aqui (2024), também assinado por Walter Salles, e O agente secreto (2025), de Mendonça Filho. Ambos passaram por festivais internacionais e deixaram suas marcas (em Cannes, O agente secreto levou dois prêmios na competição principal: melhor diretor e melhor ator para Wagner Moura). Em território estadunidense, também fizeram bonito: Ainda estou aqui presenteou o Brasil com seu primeiro Oscar na categoria de melhor filme internacional e Moura recebeu um Globo de Ouro por sua atuação dramática (proeza que Fernanda Torres também conquistou em 2025, na mesma premiação). No momento em que escrevo este texto, ainda não se sabe se O agente secreto repetirá o feito do ano passado.
Com dois Oscar ou não, o cinema brasileiro nunca esteve tão em evidência nas mídias digitais. E é importante notar que, desde o Cinema da Retomada, a crítica também nunca esteve tão on-line em diferentes redes sociais — vídeos no YouTube, artigos em
veículos tradicionais ou em newsletters pessoais e textos adaptados em carrosséis no Instagram ilustram bem esse cenário diversificado. Afinal, a visibilidade que estamos recebendo lá fora dá um belo gás para a produção de conteúdo. É bonito acompanhar o interesse crescente de quem repercute e de quem consome essa pauta, e chego até a ficar emocionada com as inúmeras reportagens (algumas de capa) que estampam jornais e revistas atualmente.
No entanto, a presença ampliada da crítica digital, embora tenha democratizado o debate e multiplicado a possibilidade de reflexão sobre produções audiovisuais a partir de diferentes vozes e pontos de vista, também trouxe consigo um efeito colateral de gosto amargo. Se a modernidade nos possibilita o acesso a informações rápidas, ela, de forma indireta, também faz com que o pensamento crítico seja transformado em produto instantâneo. Mas o tempo de cada uma dessas frentes é diferente. Sempre foi. Afinal, o tempo da análise e de sua elaboração não é o mesmo da postagem e do engajamento via likes e comentários. Porém, no imediatismo do dia a dia, esses tempos se fundem — e é justamente nesse descompasso que a crítica corre o risco de se esvaziar.
Quando comecei minha carreira como crítica de cinema, em 2015, o Instagram era uma rede social totalmente focada em fotos. Os reels não existiam e o TikTok ainda nem era uma realidade próxima. Olhando para trás, percebo que não só eu, mas o mercado como um todo, operava num ritmo diferente. Hoje, vejo que a pressa tomou o lugar da paciência e há uma fronteira muito nebulosa relacionada ao que é ser jornalista, criador de conteúdo ou influenciador, o que só confunde mercado e profissionais.
Nesse cenário, a crítica de cinema, tradicionalmente ligada ao campo da reflexão, também começou a disputar espaço com conteúdos cada vez mais rápidos, como dicas, listas e recomendações instantâneas. A partir da pandemia, esse movimento se intensificou: a busca por entretenimento cresceu, assim como a demanda por respostas imediatas sobre o que assistir. O pensamento elaborado foi sendo empurrado para a margem, enquanto a urgência se tornou regra. Para se manter em evidência, ganha (em likes
A crítica segue existindo porque ainda há quem queira ir além da escolha do que assistir. O pensar cinema é um belo exercício que transcende a arte.
e reconhecimento) quem produz primeiro — no cinema, a corrida do conteúdo começa ainda entre os créditos do filme e a saída da sala de exibição.
A partir dessa lógica e da ressignificação do consumo de conteúdo crítico, um movimento curiosíssimo começou a acontecer. Nos últimos anos, veículos tradicionais acabaram dedicando menos espaço à cobertura crítica dos diversos festivais de cinema que ocorrem em todo o país, enquanto veículos independentes se empenham cada vez mais na produção de vídeos e textos nesse tipo de evento tão importante para a análise fílmica. Isso, infelizmente, é reflexo da precarização do jornalismo e do crescimento do trabalho freelancer, enquanto a quantidade de repórteres nas redações diminui. Torna-se cada vez mais raro enviar um profissional para um festival, que dura em média uma semana, para que produza críticas diárias. Do ponto de vista operacional, o mesmo profissional pode produzir o dobro de conteúdo nesse meio tempo se estiver na redação. É por isso que os jornalistas independentes (que, em sua maior parte, bancam do próprio bolso todos os gastos desse tipo de cobertura) estão fazendo a palavra da crítica circular na internet e mantendo-a em evidência com respeito e talento.
Mais do que nunca, é preciso diferenciar análise de indicação. Uma crítica em vídeo de cinco minutos não se equivale a um story no Instagram comentando a estreia mais aguardada da semana. Sem entrar no mérito da relevância de cada formato, é nesse ponto que as figuras do crítico e do criador de conteúdo podem parecer semelhantes… Mas não são. É óbvio que críticos também produzem conteúdo
para redes sociais e criadores de conteúdo exercem a crítica. Ainda assim, há uma distinção bem clara: a crítica propõe opinião e interpretação, enquanto a indicação se concentra na recomendação imediata do que assistir.
Reconhecer essa diferença é cada vez mais essencial para valorizar o papel da crítica, que envolve expandir nossas perspectivas, propor novas camadas de interpretação e treinar nosso olhar para além do óbvio. Felizmente, a crítica segue existindo porque ainda há quem queira ir além da escolha do que assistir. O pensar cinema é um belo exercício que transcende a arte. Afinal, filmes são perfeitamente capazes de conversar com quem somos, com quem fomos e até com quem queremos ser, como fizeram Ainda estou aqui, O agente secreto, e tantas outras produções nacionais recentes. Em uma sociedade moderna marcada pela velocidade, é bom desacelerar de vez em quando. E tenho certeza de que a crítica de cinema continuará cumprindo seu papel para quem considera a reflexão como algo fundamental.
Barbara Demerov é jornalista, crítica de cinema e apresentadora. Em 2015, criou o Cinematecando Foi repórter e crítica do AdoroCinema entre 2018 e 2021, no qual cobriu lançamentos e festivais, como Berlinale, Olhar de Cinema e Mostra SP. De 2021 a 2024, assinou a coluna Filmes e Séries na revista VEJA São Paulo. Integra a ABRACCINE e é votante do Globo de Ouro. Apresenta o podcast 1 Livro, 1 Disco, 1 Filme ao lado de Diego Olivares. Foi apresentadora da transmissão do Oscar 2025 no Terra Brasil. Escreve para veículos como Folha de S.Paulo, Revista Velvet, Forbes Life e BRAVO!.
Vocação para o MOVIMENTO
Medalha de prata nas Olimpíadas de Paris 2024, Caio
Bonfim reconhece o crescimento da popularidade da marcha atlética e o legado para as próximas gerações
POR MARINA PEREIRA
Caio Bonfim, medalhista olímpico da marcha atlética, não vê problema em comparar a modalidade esportiva com uma caminhada rápida para ir ao banheiro. Ele reconhece, com bom humor, os desafios de ser um marchador. No início da carreira, enfrentou o preconceito de quem ainda não entendia muito bem a modalidade, que é um meio-termo entre caminhada e corrida.
O brasiliense de Sobradinho (DF) cresceu em uma família que vive e trabalha pelo esporte. Filho de duas referências do atletismo brasileiro, é treinado pelo pai, João Sena, corredor e treinador de atletismo; e por sua mãe, Gianette Sena Bonfim, uma marchadora aposentada, oito vezes campeã mundial.
Bonfim estreou na carreira olímpica em Londres 2012 e também participou das três Olimpíadas seguintes, ganhando a medalha de prata na última, em Paris 2024. O
pódio mais recente foi do Mundial de Tóquio 2025, em setembro do ano passado, em que conquistou o segundo lugar na prova de 35 km. Tem planos de disputar as próximas Olimpíadas, em Los Angeles 2028.
Neste Encontros, ele reflete sobre a sua trajetória profissional ao lado da família, sobre a popularidade dessa modalidade esportiva, principalmente após a conquista da medalha olímpica, além do seu processo de trabalho, que envolve treinos diários. Casado e com três filhas, ainda relata o desafio de conciliar a rotina de atleta com a família, mas garante que a sua melhor versão é estar em movimento.
PRIMEIROS PASSOS
Sempre fui aquela criança inquieta. Dei trabalho na escola, tinha muita energia. Sou fruto de dois atletas. Foi nesse contexto do
esporte que cresci. Cheguei a fazer karatê, natação e futebol, esporte pelo qual me apaixonei, e joguei dos 5 aos 16 anos. A minha formação esportiva, inclusive, veio do futebol, da formação de time, do coletivo. Joguei nas categorias de base do Brasiliense e do Gama, times profissionais do Distrito Federal. E usava o atletismo para melhorar meu condicionamento físico no futebol. Quando estava com 15 anos, fiz um teste de cooper [preparo físico que mede a resistência cardiovascular de um indivíduo a partir da distância máxima percorrida em doze minutos]. Fiz 3.800 metros em doze minutos de prova, um ótimo resultado. Queria chamar a atenção do meu pai, que me incentivou a fazer um teste na marcha atlética. Nessa brincadeira, comecei a me destacar. Tudo foi sempre muito orgânico na minha trajetória atlética. Desde o dia em que eu entrei numa quadra e me movimentei, eu falei: "Eu quero isso para minha vida".
EM FAMÍLIA
Meus pais influenciaram totalmente minha vida profissional. Meu pai, João Sena, foi corredor. Se formou em Educação Física e se profissionalizou como treinador de atletismo, quando conheceu minha mãe, também atleta [Gianetti Sena Bonfim, oito vezes campeã brasileira da marcha atlética]. Eles fundaram um clube de atletismo em 1990, o Centro de Atletismo de Sobradinho - DF (CASO) [projeto social que trabalha com crianças e jovens em esportes de alto rendimento, e já formou atletas olímpicos como Gabriela Muniz, Max Batista e Elianay Barbosa], cidade onde moramos. Meu pai sempre treinou grandes atletas, eu sou o sexto atleta olímpico treinado por ele. Já treinou medalhista em Pan-americano, a primeira campeã brasileira da São Silvestre. Para mim,
é um privilégio estar trabalhando com ele e eu, desde cedo, fui fazendo bons resultados. O meu pai é o cara da planilha, da organização, do treino. A minha mãe é a parte técnica, ou seja, orienta como vou fazer o movimento. Então, ela filma e me mostra para corrigir o que precisa. Ela vai para as competições, fica no posto de abastecimento, faz camping comigo. Na adolescência, essa relação foi difícil, porque sentia que precisava sempre provar que eu estava fazendo o que eu queria. E eles achavam que, se não estivessem ali, eu não faria direito. Acho que ali foi o momento mais desafiador.
A MODALIDADE
A marcha atlética é a transição de uma caminhada para corrida. Se tornou muito popular na Europa,
porque começou com grandes caminhadas de uma cidade para outra. Por isso que é uma marcha: uma caminhada de forma atlética. Basicamente, é caminhar rápido. Para isso acontecer, existem algumas regras. Não pode tirar os dois pés do chão ao mesmo tempo e, no primeiro contato com o solo, a perna tem que estar esticada. Os treinos são muito parecidos com os de quem faz 10 km, meia maratona e maratona. Para praticar essa modalidade, temos que nos aproximar do atletismo. Em qualquer lugar que tenha atletismo, é possível praticar um treino, pelo menos inicial, de marcha atlética. E ela tem esse poder de queimar mais caloria, tem menos impacto e não causa problema no quadril, ao contrário do que muitos pensam. Nos Estados Unidos, ela é popularmente conhecida não como esporte, mas como uma atividade física que queima caloria, chamada de pole walker, na Ásia é chamada de caminhada japonesa e na Europa, caminhada nórdica. É um esporte recomendado para cuidar da saúde.
POPULARIDADE
A marcha atlética nunca foi tão popular, mas acho que hoje as redes sociais têm ampliado essa abertura para o esporte. As mídias tradicionais antes escolhiam quais modalidades davam audiência. Agora, pelas redes sociais, o público está tendo acesso a todos os atletas que fazem provas, por exemplo. Durante as Olimpíadas de Paris 2024, a marcha atlética teve um espaço de destaque que me deixou muito feliz. Quando acabou a minha prova, minha
Gustavo Alves/CBAt
esposa ia atualizando o meu feed do Instagram e o número de seguidores do meu perfil só ia aumentando. Eu pensei: “Caramba, tanta gente estava assistindo à marcha atlética mesmo!”. Então, acho que esses grandes resultados da época coincidiram com a popularidade do esporte. Claro que, quando algo assim viraliza, a gente ainda vê muita piada nas redes com a modalidade. Mas, os que gostam têm reconhecido esse resultado. Eu fico muito feliz de ter feito parte e ter contribuído para isso.
PROCESSO DE TRABALHO
Eu sempre falo que a paz é o princípio de um bom treino. É com esse pensamento que eu começo o dia. Em período competitivo, por exemplo, antes de Olimpíada ou Mundial, eu treino de domingo a domingo. Faço uma média de 22 a 25 km por dia. Segunda, quarta e sábado são os dias de longas distâncias, que chamamos de volume. Terça e quinta, fazemos um revezamento de treino. Tem trabalho de força, musculação, fisioterapia respiratória, fisioterapia condicional e osteopatia. Ter essa rede de apoio de profissionais me ajuda a dividir essa carga para que eu possa chegar lá pleno. O treinamento é pesado e é importante dividir com toda a equipe para que cada um, com a sua expertise, possa colaborar para bons resultados. Então, é uma vida pautada para isso. Eu estou com 34 anos, não sou mais o Caio de 20 anos, mas ainda tenho muita coisa para aprender. Eu tento sempre me permitir aprender e evoluir. Por isso que digo que meu forte é a segunda-feira, dia de recomeçar.
ALTO RENDIMENTO
Quando você começa a carreira, quer experimentar de tudo, se superar cada vez mais. Mas descobre que esse extraordinário não é sustentado todo dia. Quem pratica o esporte de alto rendimento vive desses desafios, de conflitos, de vitórias e de entender até onde é possível ir. Eu gosto sempre de dar um exemplo sobre a experiência na minha primeira Olimpíada (Londres, 2012). Eu comi uma maçã antes da prova e não falei com ninguém sobre isso, nem com o nutricionista, nem com o treinador. Comi a maçã por conta própria. E passei os últimos 10 km, dos 20 km de prova, vomitando essa maçã. Até brinco que só eu, a Branca de Neve e Adão e Eva que caímos no conto da maçã. Esse foi mais um processo de aprendizado, de entender o quão importante é seguir com o planejamento. Eu gosto de dar esse conselho. Foco é fazer o que está planejado. Fora disso, é neura.
JORNADA OLÍMPICA
Quando voltei da Olimpíada do Rio (2016) para Brasília, em quarto lugar, as pessoas começaram a me reconhecer. Ficavam buzinando e pedindo para tirar foto. Eu, podendo marchar sem me preocupar em ser xingado na rua, tive a sensação de que ganhei uma medalha que não estava na prateleira. Foi um reconhecimento para as próximas gerações, principalmente. Em Tóquio (2021), talvez tenha sido o momento mais desafiador da minha carreira. Eu estava muito bem treinado, era o 13º do mundo, mas perdi para muitos atletas de quem eu estava ganhando até então. Eu
já tinha muito orgulho da minha trajetória, mas me perguntava se eu podia mais. E essa jornada cansa. Eu fui então procurar mais profissionais, dormir melhor, me alimentar melhor, obedecer melhor os profissionais que já trabalhavam comigo. E 2022 e 2023, foram anos incríveis. E, em Paris 2024, quando eu passei a linha de chegada, a sensação foi tão forte que demorou alguns dias para eu entender que era medalhista olímpico.
ESPORTE NA ESCOLA
Infelizmente, a educação física na minha época era bola de futebol para os meninos e bola de queimada para as meninas. E hoje nem isso tem mais. Então, se tem um grande marchador, um grande jogador de vôlei ou basquete naquele espaço, talvez ele nunca descubra esse talento. Eu acho que projeto bom é o que dá oportunidade. E que o esporte tinha que estar mais presente nas escolas, públicas ou privadas, obrigatoriamente, para que as pessoas tenham oportunidades de se descobrir no esporte, assim como acontece com outras disciplinas. Em movimento, você consegue ter uma leitura do aluno diferente do que outros professores podem ter.
O atleta Caio Bonfim esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 29 de janeiro. A mediação do bate-papo foi de Mario Augusto Silveira, técnico da Gerência de Desenvolvimento Físico-Esportivo do Sesc São Paulo.
inéditos
CORAÇÃO DE GALINHA
POR LEONARDO PIANA ILUSTRAÇÕES MARCELA NOVAES
Começou feito um relógio dentro do meu peito. E foi crescendo.
Criado a cinta de couro, poeira de terra vermelha e osso roído. O pai serviu um bife grande demais no meu prato, pedaço generoso, que pro pai homem que é homem gosta de comer carne, de beber sangue de bife grosso, cru, quase, escorrendo na borda da louça. E naquela roça onde morávamos, o pai, a mãe e eu, ainda havia vacas e galinhas pra serem comidas, porcos pra serem abatidos, com seus, mais que grunhidos, gritos. De dor e de morte. Pra mim, pareciam até gritos de gente. Uma vez cheguei perto pra escutar os porcos urrando, assistir à morte dos bichos, era sujo o modo como morriam. O sacrifício. Mas isso foi outro dia.
Não gosto mais de carne, eu disse.
É uma questão de tempo, o pai sorriu, cínico.
O relógio dentro do meu peito corria anunciando a morte que se aproxima de todas as coisas vivas, me fiz de bobo, ingênuo respondi que não queria comer mais nada morrendo daquele jeito triste de morrer, que nunca mais comeria, jurei pra sempre e por Deus, Nunca, Senhor Jesus, eu juro, pra todo sempre, amém.
O pai se abaixou diante de mim com a roupa manchada de sangue, o cheiro quente dele, e tomou minha mão de filho num gesto que parecia carinho, mas não era, não. Ele não era dessas coisas.
Vai aprender a gostar, ele disse, ajoelhado no chão.
A essa altura eu já estremecia lá dentro de medo do pai, vara verde que eu era, mal tinha brotado e já me botavam pra vergar à sombra do mundo, eu sabia do que ele era capaz. A essa altura eu já imaginava castigos e dores no corpo todo de, ai, tanto apanhar, cinta estalando na bunda, carne crua, e me vinham mortes e gritos de porcos como se fossem meus gritos de –
Homem, o pai disse, você vai aprender a ser homem. Eu quis chorar, com medo de ser como ele, o pai, jeca e xucro demais, e sobretudo com medo do que iria me ensinar. Mas engoli o choro, amava aquele homem, o único que poderia – estava fadado a isso, não estava? – amar.
inéditos
Era noite, os vaga-lumes piscavam sobre o brejo, a mãe guardava as galinhas. Fui atrás da Espora, sempre depois das outras, galinha boboca, e a encontrei perambulando perto do açude, Querendo fugir, é? Coloquei a Espora pra dormir no galinheiro e dei boa-noite pra ela. Em casa, fiz os deveres de matemática, ainda que os moleques falassem que só fazia todas as lições quem era trouxa, que a professora nem olhava mesmo. Outro dia levei a Espora pra escola e eles fizeram piada, disseram que aquele era um nome idiota pra uma galinha. Os moleques falavam demais, não tinha problema.
No dia seguinte, antes de ir pra aula, o pai me chamou no terreiro, sacou o facão fino mas muito pesado, que só usava pra partir ao meio as jacas do pomar, e amolou na chaira tão rápido que dava espanto nos meus olhos de menino, o pai meio disfarçando, meio exibindo a rapidez dele, a prática de homem com faca. Me pediu pra segurar com cuidado. Passei o dedo pela lâmina pra sentir o corte, observei delicado a arma, palmas abertas, imensa pra mãos assim pequenas como eram as minhas, diferentes das mãos do pai, severas e enormes – mãos de homem.
É a sua vez de matar, o pai disse. Eu devia ter imaginado.
Prefiro morrer, respondi de pronto, sem pensar.
Não vi, eu juro, mas sei que o que se transformou no pai não foi só uma expressão dura, carranca esculpida de uma hora pra outra, de raiva pelo meu atrevimento. Sei disso, de uma angústia, cruel e desesperadora, que ele sabia disfarçar – como tantas outras coisas. O que doeu nele foi a pena brutal pelo que faria – tinha que fazer – em seguida.
Milho sacolejando no interior do bornal, o pai encheu a mão e fez o som – Pi-pi-pi-pí – de convocação às galinhas, ali, em volta dele, bem no meio do terreiro. E eu quase previa o que viria depois, podia prever tudo, menos aquilo, o detalhe minúsculo que me faria gelar de repente o estômago: o pai agarrou a Espora, a minha galinha, a mais besta de todas, e de joelhos esticou a Espora contra o chão, o pescoço comprido da Espora se estendendo cada vez mais, a Espora se contorcendo, e os miolos, os olhos da Espora entre os dedos daquela mão primitiva e violenta dele, a outra prendendo ao chão com firmeza o corpo todo de galinha piando, tremendo, pedindo – Solta, solta – era a minha voz ou a voz da Espora, nem sabia mais.
Corta, foi a ordem firme do pai, direta como se fosse nada. Do meu rosto de menino não escorria – como escorre agora, tantos anos depois, ao contar esta história – nem baba nem ranho nem lágrima. Eu estava muito contido,
tinha aprendido a conter tudo. Nem preciso dizer que o sol, no terreiro de secar café, mas que não secava nada fazia tempo, era um inferno queimando os pés das galinhas atrás do milho, a cabeça do pai debaixo do chapéu de palha, meus olhos e o coraçãozinho de galinha – quantos já tínhamos comido, àquela altura? – da Espora.
É isso que a gente faz pra matar a fome, o pai falou. E por a gente eu soube bem o que ele queria dizer: homens.
Não quero ser homem, eu disse, mas não devia ter dito, o arrependimento veio em seguida: num impulso o pai me tomou a faca das mãos, num impulso o pai cortou o ar em direção ao pescoço da Espora estendida contra a terra, debaixo do sol, e a Espora num impulso sem cabeça, morta e muito abatida entre tantas galinhas vivas.
Não era tanto, notei, o sangue que escorria do que tinha sobrado da Espora, o corpo gordo diante da pequenina bola que virou a cabeça dela. Era mais sangue o que escorria da minha própria mão, percebi depois de muitos verões – ou talvez tenha sido um segundo apenas, porque o tempo e o calor distorciam tudo. Olhei pra palma vermelha da minha mão, aberta pelo impulso do pai, e nunca mais esqueci. Uma lâmina sacada rápido, cabo de osso, o ar rasgado, sangue pingando no chão e depois escorrendo, eu vi tudo: o pai pesado, maciço, fatídico, no meio do terreiro, sendo muito, muito homem. E vi por último, antes de a vista turvar, o sangue na terra de repente ficando frio, o pai ficando mudo, o sol ficando escuro. Me lembrei dos meninos na escola me provocando, pra dizer o quanto eu era frouxo, os cotovelos deles dobrados balançando ao lado do corpo, asas fingidas – Po-po-pó – enquanto crescia, dentro do peito, o meu coração de galinha.
Leonardo Piana é escritor, poeta e servidor público. Formado em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo (USP). É autor dos romances Sismógrafo (Edições Macondo, 2022) — que venceu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, foi finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura e teve os direitos vendidos para o cinema — e Tarde no planeta (Autêntica Contemporânea, 2025), que também ganhou, em 2025, o Prêmio Cidade de Belo Horizonte. Seu primeiro livro de poemas, Escalar cansa (Senac, 2025), recebeu o Prêmio Sesc de Literatura.
Marcela Novaes é artista visual e arte-educadora. É graduada em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Londrina, e especialista e mestranda em Arte-Educação (Faculdade Rudolf Steiner e Unesp). Suas obras compõem coleções particulares e ilustram capas de livros, álbuns musicais e revistas. Também participa de exposições nacionais e internacionais.
QUESTIONAR PARA MUDAR
Socióloga estadunidense Patricia Hill Collins reflete sobre negritude, memória, hip-hop e os caminhos para uma transformação coletiva
POR AGNES SOFIA GUIMARÃES
Para a socióloga estadunidense
Patricia Hill Collins, a música, a memória, os afetos e os modos de narrar o mundo são ferramentas para interrogar estruturas sociais. Além de permitir reconhecer desigualdades, tais reflexões também permitem imaginar futuros menos estreitos, especialmente para as comunidades negras e não brancas em todo o mundo.
Ao longo de mais de três décadas, a professora emérita do departamento de sociologia da Universidade de Maryland (Estados Unidos) construiu uma obra que se tornou referência para a compreensão dos enredamentos entre raça, gênero, poder e imaginação política. Primeira mulher negra a presidir a Associação Americana de Sociologia,
Patricia tem sua trajetória marcada pela conjunção entre o rigor acadêmico e a imaginação política do feminismo negro.
Desde a obra Pensamento negro feminista (1990), marco no qual sistematiza um campo teórico que nasce das experiências e epistemologias das mulheres negras, até Política sexual negra (2004) e Do Black Power ao hip-hop (2006), Collins tem insistido que as margens podem ser lugares de opressão, mas também espaços de onde afloram territórios de invenção crítica. Seus livros articulam análises sociológicas rigorosas com uma sensibilidade ética que convida à desobediência intelectual.
Em novembro de 2025, Patricia esteve no Sesc 24 de Maio para
apresentar a palestra "Mantendo a batida: paisagens sonoras do ativismo negro", realizada em parceria com o centro internacional de estudos avançados em ciências humanas e sociais Maria Sibylla Merian Centre ConvivialityInequality in Latin America (Mecila) e o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Durante a explanação, ela explicou o conceito de “paisagens sonoras”, que ajuda a analisar as apropriações políticas da música, sobretudo aquelas criadas pelo movimento negro nos Estados Unidos e no Brasil.
Neste Depoimento, a socióloga apresenta a música como um campo de reafirmação de identidades negras e de defesa dos direitos fundamentais. Também exalta a ousadia
Mayara Donaria
depoimento
política das boas perguntas, que guiaram experiências diaspóricas e transgressoras na pesquisa, e que podem contribuir para o fortalecimento de uma sociedade mais questionadora e capaz de enfrentar as opressões estruturais que atravessam raça, gênero, classe e territórios marginalizados.
música
Quando pensamos em ativismo, esquecemos que as ideias viajam de maneira que os corpos, às vezes, não podem viajar. É o caso do hip-hop, que alcança subúrbios americanos, brasileiros e outras regiões do mundo, contribuindo para um celeiro de formas de construir movimentos negros e para moldar o orgulho de identidades marginalizadas. Sons atravessam fronteiras com muito mais liberdade: ritmos, vozes, silêncios, performances. A música não precisa de tradução para revelar o que está acontecendo entre pessoas negras em diferentes partes do mundo. Por isso, defendo o poder das paisagens sonoras, porque é uma ideia que mostra uma conexão entre experiências marcadas por colonialismo, escravidão, diásporas, migrações e reinvenções identitárias. A música é linguagem, corpo, território e memória, que une o que muitas vezes encontramos em polos opostos da geopolítica.
libertação
No hip-hop, vejo tanto violência simbólica quanto libertação. As mulheres negras, especialmente as jovens, têm reivindicado esse espaço com uma força impressionante. Elas transformam o corpo em território de autonomia, recusam narrativas moralizantes e afirmam que liberdade é decidir o que fazer da própria vida. A arte que produzem é conhecimento: poesia, ritmo,
Patricia Hill Collins construiu uma obra de referência para a compreensão dos enredamentos entre raça, gênero, poder e imaginação política.
Mayara Donaria
crítica social, imaginação política. Há dor, mas há também alegria e uma ética de sobrevivência que se expressa no gesto de reclamar um lugar dentro de um universo que nem sempre as reconhece. Isso, para mim, é uma das grandes promessas da cultura negra contemporânea.
negritude
O que mais me anima no hip-hop hoje é a afirmação de uma negritude que não pede desculpas. É uma forma de posicionar identidades que não solicitam permissão para existir, criar ou sonhar. Uma negritude que entende que a justiça não é apenas uma pauta institucional e séria, e que reivindica um estilo de vida, um modo de estar no mundo que exige coragem, lucidez e alegria. Sim, alegria. Porque, há beleza em descobrir novos caminhos, novas imagens, novas danças, novas perguntas até mesmo nos momentos mais estarrecedores da sociedade. A partir desse processo de encontrar essas frestas de alegria em meio à luta, também reafirmo um exercício que persigo até hoje: criar perguntas capazes de revelar pessoas e comunidades que movem novos futuros.
perguntas
Antes de qualquer bom exercício acadêmico e político, precisamos admitir que muito do nosso trabalho vem da sofisticação das boas perguntas. Muitas vezes, você pode ter uma pergunta ruim e um jeito eloquente de responder a uma pergunta ruim. Mas o que dá trabalho mesmo é saber encontrar a pergunta certa. E ter noção disso foi meu ponto de virada intelectual. Foi o que abriu as portas para que eu percebesse que eu era uma pessoa em um processo muito maior de ideias e ações, que eu tinha
que fazer minhas contribuições, mas não podia pensar que eu tinha todas as perguntas certas nem todas as respostas certas.
trajetória
Minha vida intelectual se organiza em pontos de parada, momentos em que sou obrigada a respirar, olhar para trás e perguntar: “onde estou agora?”. A cada livro, aula ou palestra, percebo que escolhas não são eternas. Há quem saiba, desde os 4 anos, que será médico; não foi meu caso. Eu estava sempre escolhendo de novo. E, olhando hoje para minha trajetória, percebo que sou responsável por minhas ideias, tal como outros são responsáveis pelas deles. É um lugar difícil: você passa a entender que sua obra importa não só para você, mas para as pessoas que a encontram no mundo.
impermanência
Reconhecer-se no próprio trabalho não é uma responsabilidade que extrapola qualquer movimento narcisista. Toda vez que alguém acredita ter encontrado “a verdade”, está cometendo um erro. O máximo que alcançamos são verdades parciais, moldadas pelo que podemos ver, pelo que sabemos naquele momento da vida, pelo que nos é possível alcançar. Aos 17 anos, eu via só um pedaço do mundo; aos 27, outro; aos 57, outro. É um movimento de mão dupla o que sustenta o trabalho intelectual e o liga ao ativismo. Além disso, evita que nossa prática vire apenas um ritual vazio.
repertórios
Aprendi, ao longo de muitos encontros e pesquisas, que nossa formação intelectual começa muito antes de chegarmos à
academia. Muitas das pessoas que admiram meu trabalho me contam histórias de infância, episódios que moldaram seus sentidos de justiça. Eu também tenho as minhas. E, com o tempo, comecei a escolher ambientes, comunidades e projetos que ressoam com quem somos. É uma forma de sustentar a coerência do trabalho quando o mundo insiste em nos empurrar para caminhos que não são nossos. porvir
Hoje estou dedicada a projetos que olham para o futuro. Um deles, Still in the struggle: critical education and black activism [Ainda na luta: educação crítica e ativismo negro, em tradução livre], examina como educação, ativismo e produção de conhecimento se entrelaçam para transformar o mundo. Quero entender como ideias viajam, como se enraízam em movimentos, como se tornam práticas. E quero que meu trabalho continue convidando as pessoas a fazer o que eu sempre fiz: perguntar.
Assista a trechos desse Depoimento com a socióloga Patricia Hill Collins realizado em novembro no Sesc 24 de Maio, em São Paulo.
ALMANAQUE
Orquestrar diferenças
Descubra as características e singularidades de orquestras que se apresentam em concertos de música erudita
POR RACHEL SCIRÉ
Concerto da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp).
No universo da música erudita, existem diferentes tipos de orquestras, como sinfônica, barroca e de câmara. Em geral, essa variedade está associada ao formato das composições que serão tocadas, dos instrumentos utilizados e da quantidade de músicos presentes. “Há repertórios que preveem um número menor ou maior de instrumentos, de acordo com a época histórica da composição”, exemplifica Emmanuele Baldini, spalla (primeiro violino) da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e regente da Orquestra Sinfônica do Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, de Tatuí (SP).
Para Baldini, apesar das particularidades de cada formato, a essência é a mesma: tocar em conjunto. “O trabalho de ensaio de um quarteto de cordas é exatamente o mesmo de uma orquestra, envolve estabelecer prioridades e criar diálogos”, diz. Mais do que conseguir tocar, os músicos precisam saber escutar, ou seja, “tocar a sua parte, saber que outro instrumento pode falar uma coisa bem diferente, inclusive contrastante daquela que você está tocando, e no final tudo convive. É quase uma aula de tolerância e convivência civil”, complementa. Neste Almanaque, conheça as características de cinco tipos de orquestras.
Pedro Castro
ORQUESTRA DE MÚSICA DE CÂMARA
O nome faz referência aos aposentos ou compartimentos de residências da aristocracia, onde o repertório era tocado na época do Classicismo, entre a segunda metade dos anos 1700 e a primeira metade dos 1800. No período, as orquestras eram menores porque não utilizavam certos instrumentos. “A primeira vez em que um trombone entrou em uma sinfonia foi com Beethoven (1770-1827). Não se encontra trombone em nenhuma das 41 sinfonias de Mozart (1756-1791). Hoje, toda orquestra sinfônica tem trombone, tuba, mas Mozart nunca escreveu nada para tuba”, explica Baldini. Assim, as orquestras tinham até 50 músicos. De acordo com o maestro, a música de câmara
vai desde o duo, com dois violinos ou um violino e piano, passando pelo quarteto de cordas, sexteto, orquestra de cordas, até chegar a um número maior de instrumentistas que formam a orquestra de câmara. A Orpheus Chamber Orchestra, dos Estados Unidos, por exemplo, tem um corpo artístico de cerca de 40 músicos. Apesar de haver muita música de câmara produzida durante o Classicismo, ela não é exclusiva do período. Desde o século 19, como uma reação ao Romantismo, quando se escrevia para orquestras cada vez maiores — como é o caso das grandes sinfonias de Mahler (1860-1911) —, os compositores voltaram a criar para orquestras reduzidas.
Quarteto Carlos Gomes, no Festival Sesc de Música de Câmara, no Sesc Sorocaba.
ALMANAQUE
ORQUESTRA SINFÔNICA
O nome deriva de sinfonia, forma de composição musical erudita que, em geral, possui quatro movimentos distintos e exige um grande número de músicos para ser executada. As orquestras contam com a família das cordas (violinos, violas, violoncelos e contrabaixos), das madeiras (flautas, oboés, clarinetes e fagotes), dos metais (trompas, trombones, trompetes, tuba) e a percussão, que pode incluir o tímpano, a caixa clara, o prato sinfônico, entre outros instrumentos. De acordo com Baldini, dificilmente uma orquestra
sinfônica terá menos do que 80 elementos – a Osesp, hoje em dia, está com 106. Mas os músicos não tocam o tempo todo juntos, há revezamento e a presença de cada um depende da obra que será executada. “Todos os instrumentos de sopro têm a sua parte individual, então se estão presentes dois oboés ou quatro clarinetes é porque o compositor escreveu partes diferentes para cada um desses instrumentos”, explica. Além disso, outros músicos podem ser convidados a integrar a orquestra, conforme a apresentação.
ORQUESTRA FILARMÔNICA
A diferença entre uma orquestra sinfônica e uma filarmônica é fundamentalmente histórica e envolve o tipo de financiamento. No passado, as orquestras não existiam como instituições. Um compositor escrevia uma ópera ou sinfonia, os músicos da cidade eram contratados para aquela produção e depois dispensados. Na segunda metade do século 19, uma estrutura que funcionava com músicos fixos, que recebiam salário, passou a ser criada. As orquestras sinfônicas eram financiadas pelo Estado e as
filarmônicas, por grupos privados, instituições de amantes da música, espécie de mecenas ou filantropos que desejavam destinar parte dos seus recursos para a manutenção de uma orquestra. “As orquestras filarmônicas que nasceram como orquestras privadas, como a Filarmônica de Viena ou Filarmônica de Berlim, mantiveram o nome por tradição”, afirma Baldini. Hoje em dia, há múltiplas formas de financiamento para orquestras, que algumas vezes se combinam, como nas parcerias público-privadas, caso da Osesp.
Orquestras sinfônicas, como a Osesp, contam com a família das cordas, das madeiras, dos metais e a percussão.
Íris Zanetti
ORQUESTRA DE MÚSICA BARROCA OU DE MÚSICA ANTIGA
Existem algumas orquestras que se especializam e limitam seu repertório ao período Barroco, do final dos anos 1600 até a primeira metade dos 1700, dedicando-se a compositores como Vivaldi (1678–1741). Chamadas de orquestra de música barroca ou música antiga, são reduzidas, com um número entre doze a catorze músicos, e utilizam instrumentos característicos que levam, por exemplo, cordas feitas de tripas de animais, ou instrumentos que são réplicas de peças antigas e seguem afinações específicas. “Essas orquestras sempre têm no centro a presença do cravo, instrumento indispensável, responsável por fazer o 'baixo contínuo' [tipo de acompanhamento tradicional da música barroca]”, diz Baldini.
Orquestras barrocas, como o Florilegium, conjunto inglês dedicado à música antiga, se caracterizam pela presença do cravo.
Orquestras como a Brasil Jazz Sinfônica são especializadas em repertório de jazz ou música popular.
ORQUESTRA JAZZ SINFÔNICA
É a orquestra especializada no repertório de jazz ou música popular, embora as orquestras sinfônicas atualmente também executem muito repertório popular, seguindo uma tendência para ampliar o diálogo com a sociedade. “Além do repertório característico, a orquestra jazz sinfônica conta com a seção rítmica que não está presente em uma orquestra sinfônica, como a bateria, e, eventualmente, outros instrumentos ligados à música popular, como o saxofone”, explica Baldini. É importante também não confundir a orquestra jazz sinfônica com a banda jazz sinfônica: a primeira, como uma orquestra, pressupõe a presença de instrumentos de cordas (a não ser que se trate de uma orquestra de sopros). “Bandas não têm cordas porque derivam das antigas bandas populares. Nos vilarejos, era sempre mais fácil e acessível encontrar uma flauta do que um violino, um violoncelo”, diz.
Nadja Kouchi
Evelson de Freitas
Rebobine, por favor
Para uma criança dos anos 1980, a TV era um portal para universos inimagináveis. Uma profusão de histórias e personagens, desenhos animados, filmes e até aqueles noticiários, longuíssimos e sisudos, que enchiam de realidade o fluxo da imaginação infantil. A grade de programação da TV era tão fixa e rígida que era comum combinarmos horários de encontros para depois do Jornal Nacional. Aos domingos, minha mãe me buscava na casa do meu pai sempre depois d’Os Trapalhões. A programação alcançava naquele momento grande parte do país, promovendo uma integração nacional “simbólica”, criando narrativas comuns e construindo um imaginário palpável e, na mesma medida, restrito, dando rosto e voz para os mesmos protagonistas de sempre.
Corta para 2026. Nesse mundo pós-pandêmico, a tecnologia evoluiu tanto e a linguagem audiovisual está tão impregnada no nosso cotidiano que fica difícil imaginar o mundo sem elas em todos os lugares. As histórias agora são chamadas de narrativas, as telas estão por todos os lados.
Desde 2011, uma nova palavra é repetida por nós: estamos na era dos streamings. Assistimos a conteúdo sob demanda, na hora em que quisermos, na tela que tivermos à mão. As restrições de tempo e espaço foram superadas. As fitas VHS e os DVDs passaram a se chamar mídias analógicas e, agora, tudo é conteúdo digital. Todo mundo tem um filme para comentar, uma série para se distrair, mas ninguém pode contar o final das histórias para não “dar spoiler”.
A vida com streamings é boa. Ainda que a gente passe horas tentando descobrir em qual plataforma (como a gente chama os antigos canais) está aquele filme sensacional de que ouviu falar e quer ver. Ainda que passe bastante tempo olhando as
prateleiras dessas “locadoras virtuais” procurando algum título e, às vezes, não assista a nenhum.
E quando alguma notificação no celular nos interrompe e a gente para um filme no meio, ele permanece no ponto certo, como era na fita VHS. Isso sem nem precisar rebobinar para devolver à locadora, como fazíamos nos anos 1980.
As plataformas de streaming, aliás, têm combinado o jogo com o público e lançado o último capítulo da novela ou episódio da série em dia e horário estipulados para todo mundo ver junto, cada um na sua tela. Guardadas as devidas proporções e adaptações tecnológicas, quer gerar “estado de cinema”, em que a audiência mergulha coletivamente naquela realidade e se sente intimamente conectada, criando uma sensação renovada de comunidade. Ao final, estamos nas redes sociais reclamando do final oficial, inventando outros desfechos ou ainda considerando maravilhoso que um país tenha parado para discutir o mesmo assunto.
Cinema, TV e streaming seguem vivos, convivendo, transpondo gerações e equipamentos, criando formas de contar histórias, de difundir informações e conectar pessoas. Hoje em narrativas mais plurais e representativas, mas ainda no início de um caminho longo para que a linguagem audiovisual seja mais equânime e em que todas as pessoas tenham seus imaginários construídos, assistidos, valorizados e acessíveis.
André Queiroz é graduado em Audiovisual pela Universidade de São Paulo e atua como gerente-adjunto da Gerência Sesc Digital.